UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOCIÊNCIAS E BIOTECNOLOGIA APLICADAS À FARMÁCIA ANGÉLICA HOLLUNDER KLIPPEL Determinação estrutural e busca por inibidores da enzima desoxi-hipusina sintase de organismos eucarióticos causadores de doenças negligenciadas Araraquara-SP 2023 ANGÉLICA HOLLUNDER KLIPPEL Determinação estrutural e busca por inibidores da enzima desoxi-hipusina sintase de organismos eucarióticos causadores de doenças negligenciadas Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia do Departamento de Ciências Biológicas da Faculdade de Ciências Farmacêutica da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - UNESP, como requisito parcial para obtenção do título de Doutora em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia. Área de concentração: Biologia Molecular Orientador: Prof. Dr. Cleslei Fernando Zanelli Araraquara-SP 2023 Klippel, Angélica Hollunder. K169d Determinação estrutural e busca por inibidores da enzima desoxi- hipusina sintase de organismos eucarióticos causadores de doenças negligenciadas / Angélica Hollunder Klippel. – Araraquara: [S.n.], 2023. 230 f. : il. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual Paulista. “Júlio de Mesquita Filho”. Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Programa de Pós Graduação em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia. Área de Biologia Molecular. Orientador: Cleslei Fernando Zanelli. 1. eIF5A. 2. Desoxi-hipusina sintase. 3. Doenças tropicais negligenciadas. 4. Leishmaniose. 5. Descoberta de fármacos. I. Zanelli, Cleslei Fernando, orient. II. Título. Diretoria do Serviço Técnico de Biblioteca e Documentação - Faculdade de Ciências Farmacêuticas UNESP - Campus de Araraquara CAPES: 33004030081P7 Esta ficha não pode ser modificada UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA Câmpus de Araraquara Determinação estrutural e busca por inibidores da enzima desoxi-hipusina sintase de organismos eucarióticos causadores de doenças negligenciadas TÍTULO DA TESE: CERTIFICADO DE APROVAÇÃO AUTORA: ANGÉLICA HOLLUNDER KLIPPEL ORIENTADOR: CLESLEI FERNANDO ZANELLI Aprovada como parte das exigências para obtenção do Título de Doutora em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia, área de conhecimento: Biologia Molecular pela Comissão Examinadora: Prof. Dr. CLESLEI FERNANDO ZANELLI (Participaçao Virtual) Departamento de Ciencias Biologicas / Faculdade de Ciencias Farmaceuticas do Campus de Araraquara da UNESP Prof. Dr. RAFAEL VICTORIO CARVALHO GUIDO (Participaçao Virtual) Departamento de Física e Ciência Interdisciplinar / Instituto de Física do Câmpus de São Carlos da Universidade de São Paulo - USP Prof. Associado SANDRO ROBERTO MARANA (Participaçao Virtual) Departamento de Bioquímica / Instituto de Química do Câmpus de São Carlos da Universidade de São Paulo - USP Prof.ª Dr.ª PATRICIA SOARES SANTIAGO (Participaçao Virtual) Departamento de Agronomia e Recursos Naturais / Faculdade de Ciências Agrárias do Vale do Ribeira do Câmpus de Registro da Unesp Araraquara, 27 de fevereiro de 2023 Faculdade de Ciências Farmacêuticas - Câmpus de Araraquara - RODOVIA ARARAQUARA-JAÚ, KM 1 - CP 502, 14800903 http://www2.fcfar.unesp.br/#!/pos-graduacao/biociencias-e-biotecnologias-aplicadas-a-farmacia/CNPJ: 48.031.918/0025-00. AGRADECIMENTOS A Deus, por ter me dado sabedoria para superar as dificuldades. Aos meus pais (Deoclério e Tereza), irmãs (Andréia e Valéria) e cunhados (Charles e Luciano), pelo afeto, apoio, ensinamentos e pela compreensão nos muitos momentos importantes nos quais estava ausente por causa das obrigações acadêmicas. Sem vocês não seria nada!!! Ao Matthew, meu querido companheiro, por todo amor, suporte, atenção e por sempre acreditar em mim, mesmo quando eu duvidei. Ao restante da família e amigos, por estarem presentes nos momentos felizes e principalmente nos não tão felizes. A todos os mestres que, ao longo de toda a minha formação, colaboraram para a construção dos meus conhecimentos. Ao meu orientador de doutorado, o Prof. Dr. Cleslei Fernando Zanelli, pela oportunidade de executar este trabalho, pela confiança depositada em mim, por todo suporte e por proporcionar inúmeros momentos de discussão que foram fundamentais para a elaboração desta tese. À Suélen, pela grande parceria científica durante a execução deste trabalho e também pela amizade que construímos ao longo do processo. Muito obrigada por ter me acolhido em sua casa e me dado todo suporte quando eu mais precisei!!! Aos amigos do Laboratório de Biologia Celular e Molecular de Microrganismos, Ana, Bianca, Fernanda, Keylla, Luis, Marco, Mariana, Maria Olívia, Naira, Natália, Suélen, Tatiana e Weslei, cuja influência não se limitou aos experimentos e reuniões cientificas. Muito obrigada por fazer essa jornada ser mais leve!!! Ao professor Dr. Wesley C. Van Voorhis, pela oportunidade de executar parte deste trabalho em seu laboratório na Universidade de Washington e pela participação nas discussões científicas. Sua criatividade, conhecimento e paixão pela ciência serão sempre uma fonte de inspiração. Aos queridos colaboradores do laboratório do Dr. Van Voorhis, Justin, Kayode, Logan, Lynn, Matt, Roger e Ryan, pela ótima receptividade em Seattle, pelo ambiente de trabalho proporcionado e por contribuírem com discussões produtivas. Aos pesquisadores principais do Centro de Química Medicinal da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Dra. Katlin Brauer Massirer, Dr. Mário Henrique Bengtson e Dr. Rafael Lemos Miguez Couñago, pela colaboração imprescindível durante o meu doutorado. Aos pesquisadores e funcionários do Centro de Química Medicinal da UNICAMP, André, Angela, Bruno, Caio, Carla, Carolina, Claudia, Erika, Fulvia, Gabriel, Gabriela, Gabriele, Gustavo, Heloisa, Israel, Ítalo, Jessica, Jon, Lucas, Luiz, Marcella, Micael, Nathalia, Paula, Paulo, Priscila, Rebeka, Renan, Ricardo, Sophia, Stanley, Taniris e Vitor, por todo suporte científico e pelos momentos de descontração com boas risadas. Aos professores Dr. Fernando Rogério Pavan, Dr. Norival Alves Santos Filho e Dr. Rafael Victório Carvalho Guido, pela participação e contribuição durante o exame geral de qualificação deste trabalho. Aos professores membros da banca examinadora da defesa do doutorado, Dra. Patrícia Soares Santiago, Dr. Rafael Victório Carvalho Guido e Dr. Sandro Roberto Marana, por terem se disponibilizado a contribuir com o aprimoramento deste trabalho. Aos funcionários da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Araraquara, que de alguma forma contribuíram para a realização deste trabalho. À Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP em Araraquara, ao Centro de Química Medicinal da UNICAMP e ao Centro de Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes (CERID) da Universidade de Washington, pelo apoio institucional de infraestrutura. À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), pelas bolsas concedidas para realização do projeto no país (processo nº 2018/16672-1) e no exterior (processo nº 2019/24812-0); pelo auxílio à pesquisa – Temático “INCT 2014: Centro de Química Medicinal de Acesso Aberto”, processo nº 2014/50897-0; e pelo auxílio à pesquisa - Parceria para Inovação Tecnológica – PITE “Centro de Biologia Química de Proteínas Quinases: alavancando desenvolvimento de fármacos através de pesquisa de acesso aberto”, processo nº 2013/50724-5. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001, processo nº 88887.161266/2017-00. O presente trabalho também foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-Brasil (CNPq). O presente trabalho foi realizado com suporte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico (PADC) da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP em Araraquara. Muito obrigada!!! “Não se pode esperar construir um mundo melhor sem aprimorar os indivíduos. Para esse fim, cada um de nós deve trabalhar para o seu próprio aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, compartilhar uma responsabilidade geral por toda a humanidade, sendo nosso dever particular ajudar aqueles a quem possamos ser mais úteis”. (Marie Curie) RESUMO O fator de tradução de eucariotos 5A (eIF5A) é altamente conservado em eucariotos e essencial para a proliferação celular. eIF5A é modificado pós-traducionalmente através de uma reação muito específica, chamada hipusinação, a qual é necessária para sua função. A hipusinação ocorre em duas etapas, envolvendo as enzimas desoxi-hipusina sintase (DHPS) e desoxi-hipusina hidroxilase (DOOH). Considerando a essencialidade da hipusinação e de eIF5A, a DHPS e a DOOH correspondem a alvos interessantes para o desenvolvimento de fármacos para inibir a proliferação de vários organismos. Neste contexto, o objetivo deste trabalho é determinar a estrutura tridimensional e buscar inibidores para as DHPSs dos seguintes organismos causadores de doenças tropicais negligenciadas: Paracoccidioides brasiliensis (Pb), Histoplasma capsulatum (Hc), Brugia malayi (Bm) e Leishmania sp. (duas isoformas: A e B). Para tanto, foram padronizadas as condições de clonagem, produção em Escherichia coli e purificação dessas proteínas. Isso possibilitou o estabelecimento de um ensaio bioquímico fácil de ser miniaturizado para a HcDHPSA, BmDHPSA e PbDHPSA, e a determinação da estrutura cristalográfica da BmDHPSA e da HcDHPSA. No entanto, essas estruturas apresentam uma arquitetura muito similar à da enzima humana (HsDHPS), o que dificulta o desenvolvimento de inibidores seletivos para as DHPSs desses patógenos. Portanto, novos esforços foram direcionados para a obtenção das Leishmania sp. DHPSs na forma solúvel a partir de E. coli, visto que essas enzimas provavelmente formam um heterocomplexo, diferentemente da HsDHPS. Após combinar uma série de estratégias, as DHPSs de L. donovani (LdDHPSAB) e de L. major (LmDHPSAB) foram produzidas na forma solúvel e ativa a partir de E. coli, o que permitiu a realização de um high-throughput drug screening in vitro com a LdDHPSAB, empregando a reação parcial das DHPSs acoplada ao ensaio NAD+/NADH-Glo™. Dos 26771 compostos testados inicialmente a 10 μM, 44 compostos (hits) inibiram a atividade da LdDHPSAB em mais de 60%. Uma triagem secundária confirmou que 24 (57%) dos hits exibiram efeitos inibitórios consistentes (maior do que 60%) sobre a atividade da LdDHPSAB. Depois de excluir os hits que também inibiram a atividade das enzimas do ensaio NAD+/NADH-Glo™, os 13 compostos restantes foram analisados quanto à concentração-resposta empregando o mesmo ensaio acoplado. Nove desses 13 compostos apresentaram um IC50 contra a atividade da LdDHPSAB na faixa micromolar baixa. Dentre esses, os compostos MMV1674024 e MMV904563 apresentaram um maior potencial para futuras otimizações com o intuito de melhorar a potência de inibição sobre a atividade das Leishmania sp. DHPSs. Além disso, os dados de inibição in vitro sugerem que a inibição das Leishmania sp. DHPSs sem afetar a atividade da HsDHPS corresponde a uma tarefa viável, confirmando a hipótese de que a DHPS é um alvo interessante para ser explorado em Leishmania sp. Ainda, empregando o ensaio baseado na detecção da fluorescência do NADH, foi possível determinar que o composto MMV1674024 exerce uma inibição sobre a atividade da LmDHPSAB do tipo mista em relação ao NAD+ e à espermidina. Finalmente, foram obtidos cristais para a LmDHPSAB preparada na presença de NAD+ e do composto MMV1674024. Entetanto, esses cristais não difrataram durante a coleta de dados de difração por raios X, mesmo após tentativas de otimização das condições de cristalização. Palavras-chave: eIF5A; desoxi-hipusina sintase; doenças tropicais negligenciadas; leishmaniose; descoberta de fármacos. ABSTRACT The eukaryotic translation factor 5A (eIF5A) is highly conserved in eukaryotes and is essential for cell proliferation. eIF5A undergoes an extremely specific post-translational modification, called hypusination, required for eIF5A function. Hypusination occurs in two steps that involve the enzymes deoxyhypusine synthase (DHPS) and deoxyhypusine hydroxylase (DOOH). Considering the essentiality of hypusination for eIF5A function, DHPS and DOHH are promising targets for developing new drugs to stop cell proliferation in various organisms. In this context, the aim of this work is to determine the three- dimensional structure and search for DHPS inhibitors of the following organisms that cause neglected tropical diseases: Paracoccidioides brasiliensis (Pb), Histoplasma capsulatum (Hc), Brugia malayi (Bm) and Leishmania sp. (two isoforms: A and B). For this purpose, the conditions for cloning, production in Escherichia coli and purification of these proteins were established. This enabled the adaptation of an easy-to-miniaturize biochemical assay for HcDHPSA, BmDHPSA and PbDHPSA, and the determination of the crystallographic structure of BmDHPSA and HcDHPSA. However, these structures present a very similar architecture to the human enzyme (HsDHPS), which hinders the development of selective inhibitors for the DHPSs from those pathogens. Therefore, all the efforts were directed towards obtaining Leishmania sp. DHPSs in a soluble form from E.coli, as these enzymes probably form a heterocomplex, unlike HsDHPS. After combining a series of strategies, it was possible to produce recombinant L. donovani (LdDHPSAB) and L. major (LmDHPSAB) DHPSs in a soluble and active form from E. coli. A high-throughput screening assay was established in vitro with the LdDHPSAB, in which the LdDHPSAB activity was quantified using NAD+/NADH-Glo™ assay coupled with the partial reaction of the DHPSs. Of the 26771 compounds initially screened at 10 μM, 44 compounds (hits) inhibited LdDHPSAB activity by over 60%. The secondary screening confirmed that 24 (57%) hits exhibited consistent inhibitory effects (inhibition above 60%) on LdDHPSAB activity. Then, 11 hit compounds that also inhibited the enzymes from the NAD+/NADH- Glo™ assay were excluded from further analysis. The remaining 13 hit compounds were analyzed for dose-response using the same coupled assay. Nine out of those 13 compounds presented IC50 against LdDHPSAB in the lower micromolar range. Among these, the compounds MMV1674024 and MMV904563 showed increased potential for future optimizations to improve the inhibition potency against Leishmania sp. DHPSs activity. Furthermore, the in vitro data suggested that inhibiting Leishmania sp. DHPS targets without inhibiting the human counterpart is a feasible task, confirming the hypothesis that DHPS is an interesting target to be explored in Leishmania sp. Also, using the assay based on the detection of NADH fluorescence, it was possible to determine that the compound MMV1674024 exerts a mixed-type inhibition on the activity of the LmDHPSAB in relation to NAD+ and spermidine. Finally, crystals were obtained for LmDHPSAB prepared in the presence of NAD+ and the compound MMV1674024. However, these crystals did not diffract during x-ray diffraction data collection, even after attempts to optimize the crystallization conditions. Keywords: eIF5A; deoxyhypusine synthase; neglected tropical diseases; leishmaniasis; drug discovery. LISTA DE FIGURAS Figura 1. Visão geral da tradução em eucariotos ................................................................. 22 Figura 2. Papéis de eIF5A durante a síntese proteica .......................................................... 25 Figura 3. Esquema simplificado da modificação pós-traducional de eIF5A .......................... 27 Figura 4. Modelo para a ação de eIF5A hipusinado no ribossomo ....................................... 28 Figura 5. Mecanismo proposto para a reação da DHPS ...................................................... 31 Figura 6. Estrutura da DHPS humana ligada ao NAD+ e ao GC7 ......................................... 36 Figura 7. Alinhamento múltiplo de sequências baseado na estrutura da BmDHPS, HsDHPS, LmDHPSB, LmDHPSA, TbDHPSp e TbDHPSc ................................................................... 36 Figura 8. Estrutura da DHPS de T. brucei (TbDHPSc:DHPSp) ............................................ 38 Figura 9. O biorreator LEX cultiva até 24 culturas individuais de 2 L .................................... 64 Figura 10. SDS-PAGE das frações purificadas obtidas no teste de expressão em pequena escala .................................................................................................................................. 86 Figura 11. Purificação das construções PbDHPSA-cb001 e PbDHPSA-cb002 em larga escala ............................................................................................................................................ 88 Figura 12. Purificação das construções HcDHPSA-cb001 e HcDHPSA-cb002 em larga escala ............................................................................................................................................ 89 Figura 13. Purificação em larga escala das construções BmDHPSA-cb001 e BmDHPSA- cb002 em larga escala ......................................................................................................... 90 Figura 14. Análise por espectrometria de massa intacta das DHPSs purificadas a partir de culturas em larga escala ...................................................................................................... 91 Figura 15. Reação parcial catalisada pelas DHPSs ............................................................. 93 Figura 16. Estabelecimento de um ensaio enzimático empregando a reação parcial da HcDHPSA-cb001 e determinação do IC50 para o GC7 ......................................................... 96 Figura 17. Estabelecimento de um ensaio enzimático empregando a reação parcial da BmDHPSA-cb001 e determinação do IC50 para o GC7 ........................................................ 97 Figura 18. Estabelecimento de um ensaio enzimático empregando a reação parcial da PbDHPSA-cb001 e determinação do IC50 para o GC7 ......................................................... 98 Figura 19. Cristais obtidos a partir das DHPSs full-length de H. Capsulatum e B. malayi na presença de NAD+ e GC7 .................................................................................................... 99 Figura 20. Estrutura da BmDHPSA-cb001 ligada ao cofator NAD+ .................................... 101 Figura 21. Contatos interprotoméricos do homotetrâmero da BmDHPSA-cb001 ............... 102 Figura 22. Determinação do estado oligomérico da BmDHPSA-cb001 em solução ........... 103 Figura 23. Detalhes do sítio ativo da BmDHPSA-cb001. .................................................... 105 Figura 24. Estrutura da HcDHPSA-cb001 .......................................................................... 109 Figura 25. SDS-PAGE das frações obtidas com o teste de co-expressão em pequena escala da LmDHPSA-cb001 e LmDHPSB-cb001 nas linhagens de E. coli BL21(DE3)-R3-pRARE2 e BL21-pGKJE8 (GroES-EL) ................................................................................................ 113 Figura 26. SDS-PAGE das frações obtidas com o teste de expressão com a LmDHPSA com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli em pequena escala ......... 114 Figura 27. SDS-PAGE das frações obtidas com o teste de expressão com a LmDHPSB com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli em pequena escala ......... 115 Figura 28. SDS-PAGE das frações obtidas com o teste de co-expressão da LmDHPSA-cb007 e da LmDHPSB-cb005 com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli na linhagem BL21 – pGKJE8 (GroES-EL) em pequena escala ............................................... 116 Figura 29. Purificação da LmDHPSA-cb007 com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli em larga escala . ............................................................................... 117 Figura 30. Purificação da LmDHPSB-cb005 com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli em larga escala. ................................................................................ 118 Figura 31. SDS-PAGE das frações obtidas com o teste de expressão em pequena escala com as LmDHPSs clonadas em pNIC-CTH0, pNIC-ZB e pSUMO-LIC. ..................................... 128 Figura 32. SDS-PAGE das frações obtidas com o teste de expressão em pequena escala com as Leishmania sp. DHPSs full-lenght clonadas nos vetores AVA. ...................................... 130 Figura 33. Purificação em larga escala da LdDHPSA-cb002 ............................................. 132 Figura 34. Purificação em larga escala da LdDHPSB-cb002. ............................................ 133 Figura 35. Purificação em larga escala da LdDHPSA-cb002 e da LdDHPSB-cb002 em combinação ....................................................................................................................... 135 Figura 36. Purificação em larga escala da LmDHPSA-cb018 e da LmDHPSB-cb010 em combinação ....................................................................................................................... 137 Figura 37. Purificação em larga escala da HsDHPS.. ........................................................ 139 Figura 38. Etapa extra de purificação por cromatografia de troca iônica com a LdDHPSA- cb002+LdDHPSB-cb002 .................................................................................................... 140 Figura 39. Ensaio de atividade enzimática in vitro com as diferentes amostras obtidas com a purificação das duas isoformas da LdDHPS ...................................................................... 143 Figura 40. Estabelecimento de um ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH empregando a reação parcial da LdDHPSA-cb002+LdDHPSB-cb002 ............... 146 Figura 41. Estabelecimento de um ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH empregando a reação parcial da LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 ............. 147 Figura 42. Estabelecimento de um ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH empregando a reação parcial da HsDHPS......................................................... 148 Figura 43. High-throughput screening in vitro primário empregando o ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH gerado pela LdDHPSA-cb002+LdDHPSB- cb002 ................................................................................................................................. 150 Figura 44. High-throughput screening in vitro primário empregando a reação parcial da LdDHPSA-cb002+LdDHPSB-cb002 acoplada com o ensaio NAD+/NADH-Glo™ .............. 154 Figura 45. Grupos funcionais compartilhados pelos hits da coleção de pequenas moléculas MMV12K BF3 .................................................................................................................... 164 Figura 46. Grupos funcionais compartilhados por alguns hits da coleção de pequenas moléculas MMV14K HGL ................................................................................................... 165 Figura 47. SDS-PAGE das frações obtidas a partir do teste de expressão em pequena escala com as DHPSs de Leishmania sp ...................................................................................... 176 Figura 48. Purificação em larga escala da LdDHPSA-cb002 e da LdDHPSB-cb002 em combinação ....................................................................................................................... 178 Figura 49. Purificação em larga escala da LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 em combinação ....................................................................................................................... 181 Figura 50. Purificação em larga escala das LmDHPSs utilizando o detergente CHAPS no tampão de lise ................................................................................................................... 182 Figura 51. Purificação em larga escala da HsDHPS .......................................................... 184 Figura 52. Análise de espectrometria de massa intacta das DHPSs purificadas a partir de culturas em larga escala .................................................................................................... 185 Figura 53. Estabelecimento do um ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH gerado pela reação parcial da LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 ................. 188 Figura 54. Estabelecimento do um ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH gerado pela reação parcial da HsDHPS ............................................................. 189 Figura 55. Concentração-resposta dos compostos MMV1674024 e MMV1732934 contra a LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 e a HsDHPS utilizando o ensaio baseado na detecção da fluorescência do NADH ................................................................................................. 190 Figura 56. Efeito do GC7 sobre a atividade da LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 durante a titulação de espermidina .................................................................................................... 192 Figura 57. Efeito do composto MMV1674024 sobre a atividade da LmDHPSA- cb018+LmDHPSB-cb010 durante a titulação de espermidina ............................................ 194 Figura 58. Efeito do composto MMV1674024 sobre a atividade da LmDHPSA- cb018+LmDHPSB-cb010 durante a titulação do NAD+. ..................................................... 195 Figura 59. Cristais obtidos para a LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 na presença de NAD+ e MMV1674024 ................................................................................................................. 199 LISTA DE TABELAS Tabela 1. Linhagens de E. coli empregadas neste trabalho ................................................. 44 Tabela 2. Plasmídeos empregados neste trabalho .............................................................. 44 Tabela 3. Oligonucleotídeos, plasmídeos e DNA molde para a PCR utilizados na clonagem das DHPSs de interesse ...................................................................................................... 46 Tabela 4. Concentração dos reagentes utilizados nos ensaios enzimáticos com a HcDHPSA, BmDHPSA e PbDHPSA ...................................................................................................... 69 Tabela 5. Dados cristalográficos e estatística de refinamento para a estrutura da BmDHPSA ............................................................................................................................................ 72 Tabela 6. Dados cristalográficos e estatística de refinamento para a estrutura da HcDHPSA ............................................................................................................................................ 73 Tabela 7. Concentração dos reagentes utilizados nos ensaios enzimáticos com a LdDHPSAB, LmDHPSAB e HsDHPS ....................................................................................................... 76 Tabela 8. Concentração dos reagentes utilizados nos ensaios enzimáticos com a LmDHPSAB e a HsDHPS ........................................................................................................................ 79 Tabela 9. Informações detalhadas sobre as construções das DHPSs alvo deste estudo ..... 83 Tabela 10. Condições empregadas no teste de expressão em pequena escala para as duas isoformas da LmDHPS ...................................................................................................... 111 Tabela 11. Informações detalhadas sobre as construções das LmDHPSs clonadas em pNIC- CTH0, pSUMO-LIC e pNIC-Zb ........................................................................................... 121 Tabela 12. Informações detalhadas sobre as construções das Leishmania sp. DHPSs clonadas em vetores AVA .................................................................................................. 124 Tabela 13. Valores de IC50 para o GC7 contra a LdDHPS e a HsDHPS ........................... 152 Tabela 14. Estruturas dos hits da coleção MMV12K BF3 confirmados e seus valores de IC50 .......................................................................................................................................... 157 Tabela 15. Estruturas dos hits da coleção MMV14K HGL confirmados e seus valores de IC50 .......................................................................................................................................... 159 Tabela 16. Parâmetros clássicos da química medicinal calculados pelo software DataWarrior para os hits obtidos com o HTS ......................................................................................... 169 LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS % porcentagem ⍺ alfa β beta Δ delta (estatística) ou deleção (genética) °C graus Celsius µg micrograma µL microlitro µM micromolar 3H radioisótopo de hidrogênio trício 40S subunidade menor do ribossomo 60S subunidade maior do ribossomo 80S ribossomos de eucariotos Å angstrom AEBSF 4-(2-aminoetil)benzenosulfonil fluoreto hidrocloreto aa-tRNAs aminoacil-tRNAs A-tRNA tRNA localizado no sítio A do ribossomo BmDHPSA desoxi-hipusina sintase de Brugia malayi cDNA DNA complementar ao mRNA CQMED Centro de Química Medicinal C-terminal carboxi-terminal D.O.600nm densidade óptica a 600 nm DDM n-dodecil-β-D-maltosídeo DHPS desoxi-hipusina sintase DMSO dimetilsulfóxido DNA ácido desoxirribonucleico dNTPs desoxirribonucleotídeos (dATP, dCTP, dGTP e dTTP) DOHH desoxi-hipusina hidroxilase DTNs Doenças Tropicais Negligenciadas DTT ditiotreitol EDTA ácido etilenodiamino tetra-acético eEFs fatores de alongamento eucarióticos eIF5A eukaryotic translation initiation factor 5A eIFs fatores de iniciação eucarióticos eRFs fatores de liberação eucarióticos E-tRNA tRNA localizado no sítio E do ribossomo g grama GC7 N1-guanil-1,7-diaminoheptano h hora HcDHPSA desoxi-hipusina sintase de Histoplasma capsulatum HEPES ácido etanosulfônico 4-2 hidroxietil piperazina-1 HsDHPS desoxi-hipusina sintase de Homo sapiens HTS High-throughput screening IC50 concentração inibitória média IDT Integrated DNA Technologies IEx cromatografia de troca iônica IMAC cromatografia de afinidade por íons metálicos imobilizados IPTG isopropil β-D-1-tiogalactopiranosídeo Kav coeficientes de partição kb kilobase kDa quilodalton Km constante de Michaelis-Menten Kobs constante de velocidade observável de pseudo-primeira ordem L litro LB meio Luria-Bertani LdDHPSA isoforma A da desoxi-hipusina sintase de Leishmania donovani LdDHPSB isoforma B da desoxi-hipusina sintase de Leishmania donovani LIC Ligation Independent Cloning LmDHPSA isoforma A da desoxi-hipusina sintase de Leishmania major LmDHPSB isoforma B da desoxi-hipusina sintase de Leishmania major M molar m/v relação massa/volume Met-tRNAiMet tRNA iniciador de metionina mg miligrama min minuto mL mililitro mM milimolar MMV Medicines for Malaria Venue mRNA RNA mensageiro NAD+ β-nicotinamida adenina dinucleotídeo NADH β-nicotinamida adenina dinucleotídeo reduzido ng nanograma Ni-NTA matriz de ácido nitriloacético-níquel nm nanômetros nM nanomolar N-terminal amino-terminal OMS Organização Mundial da Saúde ORF Open Reading Frame PA-0,5G meio de cultura não indutor pb pares de base PbDHPSA desoxi-hipusina sintase de Paracoccidioides brasiliensis PCR polymerase chain reaction PDB Protein Data Bank PEG polietilenoglicol PEI polietilenimina pg picograma pH potencial hidrogeniônico PMSF fluoreto de fenilmetilsulfonila PTC centro peptidiltransferase do ribossomo P-tRNA tRNA localizado no sítio P do ribossomo RNA ácido ribonucleico rpm rotações por minuto rRNA RNA ribossomal s segundo SDS-PAGE eletroforese em gel de poliacrilamida na presença de SDS SEC cromatografia de exclusão molecular SSGCID Seattle Structural Genomics Center for Infectious Diseases TAE tampão Tris-Acetato-EDTA TB Terrific Broth TCEP tris-2-carboxietil-fosfino TEV Tobacco etch Virus Tris tris-hidroximetilaminometano (trizma base) tRNA RNA transportador Tween 20 monolaurato de polioxietilenosorbitana U unidade de atividade enzimática UV ultravioleta V volt v/v relação volume/volume Vmax velocidade máxima xg aceleração gravitacional ZYP-5052 meio de cultura de autoindução SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 20 1.1. Visão geral da tradução em eucariotos 20 1.2. Fator de tradução de eucariotos 5A (eIF5A) 23 1.3. Hipusinação de eIF5A 26 1.4. Desoxi-hipusina sintase (DHPS) 29 1.5. Potencial da DHPS como alvo terapêutico 32 1.6. Inibidores da DHPS 33 1.7. Estrutura tridimensional da DHPS 35 1.8. Descoberta de fármacos baseada na estrutura do alvo 39 1.9. Doenças tropicais negligenciadas (DTNs) 40 2. OBJETIVOS 43 2.1. Objetivo Geral 43 2.2. Objetivos Específicos 43 3. MATERIAIS E MÉTODOS 44 3.1. Clonagem das DHPSs dos patógenos eucariotos por clonagem independente de ligação (LIC) 52 3.2. Subclonagem da LmDHPSA e da LmDHPSB no vetor pETDuet-1 54 3.3. Clonagem independente de ligação (LIC) das DHPSs de Leishmania sp. em vetores de expressão alternativos 55 3.4. PCR de colônia 57 3.5. Teste de expressão em E. coli em pequena escala (volume de cultura = 1 mL) com as DHPSs dos patógenos eucariotos com indução por IPTG 58 3.6. Teste de expressão em E. coli em pequena escala das Leishmania sp. DHPSs produzidas por autoindução 60 3.7. Produção das DHPSs recombinantes em larga escala (volume ≥ 1,5 L) 62 3.8. Produção das DHPSs recombinantes em larga escala usando o biorreator LEX 63 3.9. Purificação em larga escala das DHPSs de organismos patogênicos eucariotos 65 3.9.1. Cromatografia de afinidade por íons metálicos imobilizados (IMAC) 65 3.9.2. Cromatografia de troca iônica 67 3.9.3. Cromatografia de exclusão molecular (SEC) 67 3.10. Ensaio enzimático com a HcDHPSA, BmDHPSA e PbDHPSA 68 3.11. Triagens de cristalização para PbDHPS, HcDHPS e BmDHPS 70 3.12. Resolução da estrutura da BmDHPSA e da HcDHPSA 71 3.13. Determinação do estado oligomérico da BmDHPSA 74 3.14. High-throughput drug screening in vitro com a LdDHPSA-cb002+ LdDHPSB-cb002 74 3.14.1. Coleções de compostos 74 3.14.2. Ensaio enzimático baseado na fluorescência do NADH 75 3.14.3. Ensaio enzimático baseado em luminescência utilizando a reação acoplada NAD+/NADH-Glo™ 77 3.15. Ensaio enzimático com a LmDHPSA-cb018+ LmDHPSB-cb010 e HsDHPS 78 3.16. Análise do perfil de inibição do composto MMV1674024 sobre a LmDHPSAB 80 3.17. Triagens de cristalização com a LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010 80 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO 82 4.1. Clonagem das DHPSs dos patógenos eucariotos no vetor de expressão em E. coli 82 4.2. Teste de expressão em E. coli das DHPSs dos patógenos eucariotos em pequena escala (volume cultura = 1 mL) 85 4.3. Produção e purificação em larga escala (volume cultura = 1,5 L) das DHPSs de patógenos eucariotos a partir de E. coli 87 4.4. Estabelecimento de um ensaio bioquímico simples e aplicável para o rastreamento em larga escala de inibidores para HcDHPSA-cb001, BmDHPSA-cb001 e PbDHPSA-cb00192 4.5. Cristalização da HcDHPSA-cb001 e da BmDHPSA-cb001 99 4.6. Determinação da estrutura cristalográfica da BmDHPSA ligada ao NAD+ 100 4.7. Sítio ativo da BmDHPSA 104 4.8. Mecanismo de reação proposto para a BmDHPSA 106 4.9. Determinação da estrutura cristalográfica da HcDHPSA-cb001 107 4.10. Expressão em pequena escala das isoformas da LmDHPS em condições modificada 109 4.11. Co-expressão das duas isoformas da LmDHPS 112 4.12. Expressão em pequena escala das isoformas da LmDHPS com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli 113 4.13. Expressão em larga escala das isoformas da LmDHPS com otimização de códons para a produção de proteínas em E. coli 116 4.14. Clonagem das Leishmania sp. DHPSs em vetores de expressão de E. coli alternativos 120 4.15. Expressão em pequena escala (volume = 1 mL) das isoformas da LmDHPS clonadas em pNIC-CTH0, pNIC-ZB e pSUMO-LIC 127 4.16. Expressão em pequena escala das Leishmania sp. DHPSs full-lenght clonadas em vetores AVA 129 4.17. Produção das Leishmania sp. DHPSs utilizando o biorreator LEX e purificação dessas proteínas em larga escala 131 4.18. Etapa extra de purificação por cromatografia de troca iônica para as isoformas da LdDHPS clonadas no vetor pAVA-MBP 140 4.19. Ensaio de atividade enzimática in vitro com as isoformas da LdDHPS 142 4.20. Estabelecimento de um ensaio bioquímico simples e aplicável para o rastreamento em larga escala de inibidores para a LdDHPSA+LdDHPSB, LmDHPSA+LmDHPSB e HsDHPS 144 4.21. High-throughput screening (HTS) in vitro de inibidores com a LdDHPSA- cb002+LdDHPSB-cb002 149 4.21.1. Ensaio enzimático baseado na detecção da fluorescência do NADH 149 4.21.2. Ensaio enzimático baseado em luminescência utilizando a reação acoplada NAD+/NADH-Glo™ 151 4.22. Análise do potencial dos hits obtidos com o HTS para futuras otimizações 167 4.23. Nova expressão em pequena escala das Leishmania sp. DHPSs 175 4.24. Purificação em larga escala da LdDHPS, LmDHPS e HsDHPS 176 4.25. Ensaio de atividade enzimática in vitro por fluorescência com a LmDHPSA- cb018+LmDHPSB-cb010 e a HsDHPS 186 4.26. Análise do perfil de inibição do composto MMV1674024 sobre a LmDHPS 191 4.27. Ensaios de cocristalização com a LmDHPSA-cb018+LmDHPSB-cb010, NAD+ e o composto MMV1674024 198 5. CONCLUSÕES 201 6. REFERÊNCIAS 205 APÊNDICE 223 20 1. INTRODUÇÃO 1.1. Visão geral da tradução em eucariotos A tradução da informação genética codificada em uma molécula de RNA mensageiro (mRNA) para a sequência de aminoácidos de uma proteína corresponde a um processo fundamental em todas as formas de vida. A síntese proteica permite que as células e tecidos mantenham a homeostase e reajam a sinais externos, sendo que a sua desregulação está relacionada a várias doenças, representando assim uma etapa crítica da expressão gênica (HERSHEY; SONENBERG; MATHEWS, 2019; JANI; PAPPACHAN, 2022; LU, 2022; NEELAGANDAN et al., 2020). A síntese proteica é catalisada por uma máquina macromolecular chamada ribossomo. Os ribossomos de eucariotos são formados por quatro tipos de RNA ribossomal (rRNA) e mais de 80 proteínas ribossomais (HERSHEY; SONENBERG; MATHEWS, 2019). Cada ribossomo consiste em duas subunidades que devem ser montadas para que a síntese proteica ocorra. A subunidade menor (40S) liga-se ao mRNA e contém o sítio onde o anticódon do RNA transportador (tRNA) é combinado com a sequência complementar no mRNA. A subunidade maior (60S) contém o local onde são formadas as ligações peptídicas entre os aminoácidos trazidos pelos tRNAs ao ribossomo (HERSHEY; SONENBERG; MATHEWS, 2019; MARCHINGO; CANTRELL, 2022; SCHULLER; GREEN, 2018). Os tRNAs transitam entre três sítios dentro do ribossomo: sítio E (exit ou de saída), que se liga ao tRNA desacilado (descarregado) antes que este se dissocie do ribossomo; sítio P (peptidil), que sustenta a cadeia nascente covalentemente ligada ao tRNA; e sítio A (aminoacil), que corresponde à entrada para os tRNAs carregados no ribossomo (SCHULLER; GREEN, 2018). A tradução é um processo altamente dinâmico e cíclico composto por quatro etapas principais: iniciação, alongamento, terminação e reciclagem de ribossomos (Figura 1) (HERSHEY; SONENBERG; MATHEWS, 2019; NEELAGANDAN et al., 2020; XU; LIU; SONG, 2022). Na iniciação da tradução, várias proteínas chamadas fatores de iniciação eucarióticos (eIFs) facilitam a montagem adequada das subunidades 40S e 60S ribossômicas para formar o complexo 80S no códon de início do mRNA com o Met-tRNAMet iniciador posicionado no sítio P do ribossomo. Durante 21 o alongamento da tradução, o complexo 80S se move ao longo do mRNA, três nucleotídeos por vez, estendendo a proteína codificada, em coordenação com vários fatores de alongamento eucarióticos (eEFs) e aminoacil-tRNAs (aa-tRNAs). Quando o complexo 80S atinge o códon de parada, proteínas chamadas fatores de liberação eucarióticos (eRFs) são empregadas para facilitar a liberação do peptídeo nascente. Finalmente, após a terminação, as subunidades 40S e 60S do ribossomo são recicladas para que possam participar de um novo ciclo de tradução (Figura 1) (HERSHEY; SONENBERG; MATHEWS, 2019; MATEYAK; KINZY, 2017; NEELAGANDAN et al., 2020; SCHULLER; GREEN, 2018). 22 Figura 1. Visão geral da tradução em eucariotos. A tradução começa com a iniciação, onde as subunidades 40S e 60S do ribossomo são posicionadas no códon de início com o tRNA iniciador ligado a metionina (Met-tRNAiMet) no sítio P do ribossomo, através da ação de uma série de proteínas denominadas fatores de iniciação eucarióticos (eIFs). Em seguida, o alongamento envolve a síntese da cadeia polipeptídica através das ações coordenadas de fatores de alongamento eucarióticos (eEFs) e aminoacil-tRNAs (aa-tRNAs), até que o ribossomo atinja o códon de parada. Nesta fase de terminação, a cadeia polipeptídica é liberada através das ações dos fatores de liberação eucarióticos (eRFs). Finalmente, as subunidades do ribossomo são recicladas pela ATPase ABCE1 para que ocorra um novo ciclo da tradução. Fonte: Adaptado de SCHULLER; GREEN, 2018. 23 1.2. Fator de tradução de eucariotos 5A (eIF5A) O processo de tradução apresenta componentes muito conservados ao longo da evolução (OLSEN; WOESE, 1997; OUZOUNIS; KYRPIDES, 1996). O fator de tradução de eucariotos 5A (eukaryotic translation initiation factor 5A; eIF5A) corresponde a um exemplo desse fato, pois está presente em eucariotos e em arqueas (BENNE; HERSHEY, 1978; KYRPIDES; WOESE, 1998; WOLFF et al., 2007). Apesar de não ser encontrado em eubactérias (KLIER et al., 1993; PARK; LEE; JOE, 1997; PARK; WOLFF; FOLK, 1993), eIF5A possui um homólogo estrutural e funcional nesses organismos, o fator de alongamento P (EF-P) (BLAHA; STANLEY; STEITZ, 2009; DEVER; GUTIERREZ; SHIN, 2014; ROSSI et al., 2014a). Além do fato de ser conservado, eIF5A mostrou-se essencial para a viabilidade celular em todos os organismos testados até o momento (DEVER; GUTIERREZ; SHIN, 2014; NGUYEN et al., 2015; NISHIMURA et al., 2012; PARK et al., 2010; ROSSI et al., 2014a). Na maioria dos eucariotos, eIF5A apresenta duas isoformas, como por exemplo, eIF5A1 e eIF5A2 em humanos. Essas isoformas compartilham uma identidade de sequência de aminoácidos de mais de 90% e são produzidas em diferentes condições (BARBA-ALIAGA; ALEPUZ, 2022). eIF5A1 é a principal isoforma, sendo produzido em praticamente todos os tecidos, enquanto eIF5A2 é produzido principalmente nos testículos, cérebro e células tumorais (CLEMENT et al., 2006; JENKINS; HÅÅG; JOHANSSON, 2001; MATHEWS; HERSHEY, 2015). eIF5A foi isolado pela primeira vez a partir de ribossomos extraídos de lisados de reticulócitos de coelho, em 1976, e foi inicialmente classificado como um fator de iniciação da tradução, com base na sua atividade estimuladora da síntese de metionil- puromicina in vitro (BENNE; HERSHEY, 1978; KEMPER; BERRY; MERRICK, 1976; SCHREIER; ERNI; STAEHELIN, 1977). Este experimento corresponde a um ensaio modelo para se testar a influência de moléculas na formação da primeira ligação peptídica, onde se mede a transferência de metionina radioativa do tRNAMet iniciador para o aceptor puromicina (PARK et al., 2022). No entanto, com o passar do tempo o papel de eIF5A no alongamento de sequências específicas, ricas em prolina, foi desvendado (GUTIERREZ et al., 2013; LI et al., 2014). Estudos mais recentes demonstraram que eIF5A afeta a tradução de uma forma mais geral, sendo que essa proteína é capaz de se ligar ao ribossomo com o sítio E vazio, podendo participar da 24 iniciação, alongamento e terminação da tradução (DEVER; IVANOV, 2018; MELNIKOV et al., 2016; PELECHANO; ALEPUZ, 2017; SCHMIDT et al., 2016; SCHULLER et al., 2017). Na etapa de iniciação, a supressão da pausa ribossomal causada por eIF5A é necessária para manter a fidelidade da seleção do códon de início, pois esse evento mantém a varredura eficiente do mRNA promovida pelos ribossomos e a iniciação da tradução no local apropriado (Figura 2). Na ausência de eIF5A, a pausa dos ribossomos leva a utilização de códons de início não ideais e ao aumento da produção de proteínas com extensão na região N-terminal (IVANOV et al., 2018; MANJUNATH et al., 2019). Durante o alongamento da tradução, eIF5A alivia o stalling (atraso ou parada) dos ribossomos (Figura 2) em vários motifs peptídicos além das poliprolinas, facilitando a formação de ligações peptídicas que são mais difíceis para serem formadas pelo centro peptidiltransferase do ribossomo (PTC), tais como prolinas consecutivas ou combinações de prolinas, glicinas e aminoácidos carregados. Na terminação da tradução, eIF5A estimula a hidrólise da ligação peptidil-tRNA mediada por eRF1 (Figura 2). Portanto, esses papéis expandidos para eIF5A na tradução ajudam a explicar sua natureza essencial e a abundância em eucariotos (PELECHANO; ALEPUZ, 2017; SCHULLER et al., 2017). O interesse em pesquisas relacionadas a eIF5A vem crescendo devido a essa proteína ser altamente produzida em diferentes tipos de câncer, sendo indispensável para o crescimento tumoral e estando intimamente relacionada com a agressividade do tumor (HAO et al., 2020; KAISER; AGOSTINELLI, 2022; KIM et al., 2022; LI et al., 2022; MATHEWS; HERSHEY, 2015; NAKANISHI; CLEVELAND, 2016; ZHENG et al., 2020). Além disso, eIF5A tem sido associado a várias outras condições patológicas humanas, incluindo diabetes (IMAM et al., 2019; KULKARNI et al., 2022; MAIER; TERSEY; MIRMIRA, 2010; PADGETT et al., 2021), síndromes neurológicas raras (FAUNDES et al., 2021; PARK et al., 2022), infecções virais pelo vírus da imunodeficiência humana tipo 1 (HIV-1), ebola e herpes vírus associado ao Sarcoma de Kaposi (FICHES et al., 2022; MANCONE et al., 2017; OLSEN et al., 2018; OLSEN; CONNOR, 2017; SEOANE et al., 2022). 25 Figura 2. Papéis de eIF5A durante a síntese proteica. eIF5A se liga a ribossomos com o sítio E vazio, podendo assim participar da iniciação, alongamento e terminação da tradução. Na etapa de iniciação da tradução, a supressão da pausa ribossômica por eIF5A é necessária para manter a fidelidade da seleção do códon de início. A supressão da pausa ribossômica por eIF5A mantém a varredura eficiente do mRNA pelos ribossomos e a iniciação da tradução no local apropriado (direita). Na ausência de eIF5A, os ribossomos pausados impedem a varredura apropriada do mRNA, aumentam o tempo de permanência e a iniciação à montante, levando a utilização de códons de início não ideais (esquerda). eIF5A é crucial na etapa de alongamento da tradução, pois facilita a formação de ligações peptídicas que são mais difíceis para serem formadas pelo PTC do ribossomo, recuperando o stalling do mesmo. Finalmente, eIF5A participa da terminação da tradução estimulando a hidrólise da ligação peptidil-tRNA mediada por eRF1 (RF). Fonte: adaptado de TAUC et al., 2021. A depleção de eIF5A resulta em fenótipos pleiotrópicos relacionados a múltiplos processos celulares, como, por exemplo, progressão do ciclo celular (CHATTERJEE et al., 2006; PARK et al., 2010; ZANELLI; VALENTINI, 2005), translocação de 26 proteínas para o retículo endoplasmático (ROSSI et al., 2014b), ativação da resposta a proteínas mal enoveladas no retículo endoplasmático (MANDAL; MANDAL; PARK, 2016), apoptose (BARBA-ALIAGA; ALEPUZ, 2022; MARTELLA et al., 2020; YAO et al., 2022b), migração celular e metástase (LIU et al., 2021b; NING et al., 2020; ZHENG et al., 2020), senescência celular (JIANG; LOAYZA-PUCH, 2022), autofagia (LUBAS et al., 2018; ZHANG et al., 2019), resposta antimicrobiana de macrófagos (GOBERT et al., 2020) e modulação da função mitocondrial (BARBA-ALIAGA; ALEPUZ, 2022; PULESTON et al., 2019). Entretanto, ainda não está completamente claro se eIF5A atua direta ou indiretamente por meio da tradução para afetar esses processos. 1.3. Hipusinação de eIF5A Para desempenhar corretamente sua função na tradução, eIF5A deve passar por uma modificação pós-traducional única chamada hipusinação (Figura 3) (CHEN; LIU, 1997; PARK, 2006, p. 200; PARK; LEE; JOE, 1997; PARK; WOLFF, 2018). Na primeira etapa da hipusinação, a enzima desoxi-hipusina sintase (DHPS) catalisa a transferência do grupo aminobutil da poliamina espermidina para uma lisina particular (Lys50 em humanos) de eIF5A precursor (Figura 3). Em eucariotos, a hidroxilação deste grupo, pela enzima desoxi-hipusina hidroxilase (DOHH), termina a maturação de eIF5A com a formação do aminoácido hipusina (Nɛ-(4-amino-2-hidroxibutil)- lisina) (Figura 3) (PARK, 2006; PARK et al., 2010; PARK; WOLFF, 2018). Estudos estruturais envolvendo eIF5A ligado ao ribossomo 80S de Saccharomyces cerevisiae foram essenciais para desvendar o mecanismo da regulação da tradução por eIF5A hipusinado (Figura 4) (MELNIKOV et al., 2016; SCHMIDT et al., 2016). Essas estruturas revelaram que eIF5A se liga ao sítio E do ribossomo, adjacentemente ao tRNA localizado no sítio P do ribossomo (P-tRNA) (Figura 4B), com a cadeia lateral da hipusina alcançando o PTC do ribossomo. A cadeia lateral da hipusina interage com a extremidade do P-tRNA através de uma ligação de hidrogênio (Figura 4C). Esta interação estabiliza e orienta a alça peptidil para facilitar o ataque nucleofílico pelo tRNA localizado no sítio A do ribossomo (A- tRNA) (Figura 4C) (PARK et al., 2022; SCHMIDT et al., 2016). Embora esse reposicionamento do P-tRNA tenha potencial de auxiliar na síntese de todas as ligações peptídicas, alguns resíduos de aminoácidos, como prolinas consecutivas ou 27 combinações de prolinas, glicinas e aminoácidos carregados, que são conhecidos por serem substratos pobres para a formação da ligação peptídica, apresentam uma necessidade maior da atuação de eIF5A (BARBA-ALIAGA; ALEPUZ, 2022; GUTIERREZ et al., 2013). Figura 3. Esquema simplificado da modificação pós-traducional de eIF5A. A DHPS catalisa a primeira etapa da hipusinação, transferindo a porção aminobutil da espermidina para um resíduo de lisina específico do eIF5A precursor (eIF5A prec) para formar a desoxi-hipusina (eIF5A(Dhp)) e 1,3-diaminopropano. A segunda etapa da hipusinação é catalisada pela DOHH e envolve a hidroxilação da desoxi- hipusina ligada à proteína, formando assim a hipusina (eIF5A(Hpu)). Fonte: Adaptado de KALTENEGGER et al., 2021. 28 Figura 4. Modelo para a ação de eIF5A hipusinado no ribossomo. (A) Certas cadeias polipeptídicas nascentes desestabilizam o tRNA localizado no sítio P do ribossomo (P-tRNA) (verde) e impedem a formação de ligações peptídicas com o tRNA localizado no sítio A do ribossomo (A-tRNA) (azul). (B) Os ribossomos paralisados são reconhecidos por eIF5A, que se liga no sítio E vazio de tal forma que o resíduo de hipusina (Hyp51 em S. cerevisiae) interaja com a extremidade do P-tRNA. Essa interação estabiliza o P-tRNA na geometria ideal para a formação de ligações peptídicas de forma mais eficiente. (C) A formação de ligações peptídicas resulta em um tRNA desacilado no sítio P e a um A-tRNA contendo a cadeia polipeptídica nascente estendida em um aminoácido. Fonte: SCHMIDT et al., 2016. 29 A característica mais notável da hipusinação é a estrita especificidade em relação ao seu substrato eIF5A, como evidenciado pela marcação radioativa exclusiva das isoformas de eIF5A após a cultura de células de mamífero na presença de espermidina radioativa. As interações macromoleculares entre eIF5A(Lys) e DHPS, e aquelas entre eIF5A(Dhp) e DOHH, podem ser a base para essa especificidade (PARK et al., 2022). Adicionalmente, a hipusina é formada apenas pós- traducionalmente em eIF5A e não há nenhuma via conhecida para a sua síntese como um aminoácido livre (PARK et al., 2022). Após décadas de pesquisa, os reflexos biológicos da hipusinação e sua regulação em eucariotos e na saúde humana ainda estão sendo desvendados (PARK et al., 2022). A síntese da hipusina exclusivamente em uma única proteína representa uma das modificações pós-traducionais mais específicas conhecidas até o momento. (PARK et al., 2022; PARK; WOLFF, 2018). O alto grau de conservação dos resíduos flanqueadores do sítio de hipusinação de eIF5A em diferentes espécies atestam a importância vital deste aminoácido incomum (CHEN; LIU, 1997; MAGDOLEN et al., 1994; PARK et al., 2022). Além disso, ambas enzimas modificadoras de eIF5A são também conservadas evolutiva e funcionalmente (CHEN; LIU, 1997; PARK et al., 2010, 2022; WOLFF et al., 2007). Vale destacar ainda que a hipusina parece ser essencial para a função de eIF5A, sendo que as duas enzimas responsáveis por essa modificação são dedicadas a esta via, correspondendo assim a interessantes alvos para intervenções terapêuticas (KAISER; AGOSTINELLI, 2022; MATHEWS; HERSHEY, 2015; NAKANISHI; CLEVELAND, 2016; PARK et al., 2017, 2022; PARK; WOLFF, 2018; TAUC et al., 2021). Nas células de mamíferos, os inibidores das enzimas biossintéticas da hipusina exercem efeitos antiproliferativos (JAKUS et al., 1993; NISHIMURA et al., 2005; PARK et al., 1994), inclusive em linhagens celulares tumorais, levando à parada da progressão do ciclo celular (HANAUSKE-ABEL et al., 1994). 1.4. Desoxi-hipusina sintase (DHPS) Os genes que codificam a DHPS estão presentes em todas as espécies verificadas de arqueas e eucariotos. Além disso, essa enzima, assim como eIF5A, mostrou-se essencial em todos os organismos estudados até o momento (AROONSRI 30 et al., 2019; KERSTING et al., 2016; NGUYEN et al., 2013, 2015; NISHIMURA et al., 2012; PARK et al., 2010; PARK; LEE; JOE, 1997; SASAKI; ABID; MIYAZAKI, 1996; SCHNIER et al., 1991; WOLFF et al., 2007). Por outro lado, arqueas não possuem homólogos evidentes para a DOHH (PARK, 2006; WOLFF et al., 2007). Ainda, a DOHH não é essencial para S. cerevisiae, é essencial apenas em algumas condições de crescimento para Schizosaccharomyces pombe e é essencial nos eucariotos multicelulares testados, o que evidencia um aumento da importância da segunda etapa da hipusinação ao longo da evolução (PARK et al., 2010, 2022; PARK; WOLFF, 2018; PEGG, 2018). A progressão evolutiva da essencialidade e da estringência estrutural de eIF5A e sua modificação pós-traducional pode ter sido ditada por um aumento na demanda para traduzir proteínas complexas com maior fidelidade e eficiência em eucariotos superiores (PARK et al., 2022; WOLFF et al., 2007). Quanto ao mecanismo de ação, a DHPS utiliza NAD+ como cofator e a reação pode ser dividida em duas reações parciais (Figura 5) (PARK et al., 2003). Na primeira reação parcial, um hidrogênio da espermidina é transferido para o NAD+ para gerar desidroespermidina e NADH; em seguida, um resíduo de lisina conservado (Lys329 na HsDHPS) ataca a espermidina oxidada, formando um aduto covalente enzima- butilimina e liberando 1,3-diaminopropano (Figura 5) (WOLFF; FOLK; PARK, 1997; WOLFF; WOLFF; PARK, 2000). Na segunda parte da reação, eIF5A precursor liga-se a DHPS e a fração butilimina é então transferida para o grupo ε-amino de um resíduo de lisina específico de eIF5A (Lys50 em humanos) e em seguida reduzido em desoxi- hipusina pela regeneração do NAD+ (Figura 5) (KALTENEGGER et al., 2021; PARK et al., 2017). Aparentemente apenas um único eIF5A precursor (eIF5A prec) se liga a DHPS (tetrâmero, apresentado adiante no texto) a cada ciclo da reação (Figura 5). 31 Figura 5. Mecanismo proposto para a reação da DHPS. Primeiro, a espermidina é clivada pela redução do NAD+, a sua porção butilamina é transferida para um resíduo de lisina específico da DHPS (Lys329 em humanos) para formar um intermediário enzima-butilimina e o 1,3-diaminopropano é liberado (stage 1). Em seguida, eIF5A precursor liga-se a DHPS e a fração butilimina é transferida para um resíduo de lisina específico no eIF5A precursor antes de ser reduzido para desoxi-hipusina pela regeneração do NAD+ (eIF5A (Dhp)) (stage 2). Fonte: adaptado de KALTENEGGER et al., 2021. 32 1.5. Potencial da DHPS como alvo terapêutico O envolvimento em várias doenças, juntamente com a alta especificidade e relevância funcional da hipusinação, levaram vários pesquisadores a considerar eIF5A e sua via de modificação como um alvo terapêutico importante e promissor, estimulando o desenvolvimento de inibidores direcionados à hipusinação (KAISER; AGOSTINELLI, 2022; OLSEN; CONNOR, 2017; PARK; WOLFF, 2018; TAUC et al., 2021; TURPAEV, 2018). Diferentes inibidores já foram descritos para a DHPS (JAKUS et al., 1993; LIU et al., 2021a; NAKANISHI; CLEVELAND, 2016; TANAKA et al., 2020a, 2020b) e para a DOHH (HOQUE et al., 2009; OLSEN; CONNOR, 2017). Entretanto, os inibidores direcionados à DHPS são os mais bem caracterizados. Além disso, a DOHH necessita de ferro como cofator. Assim sendo, os inibidores para a DOHH disponíveis atualmente são quelantes de ferro (KAISER; AGOSTINELLI, 2022; KIM et al., 2006; VU et al., 2009), que acabam afetando a atividade de outras enzimas (CLEMENT et al., 2002) e a sua utilização induz a vários efeitos colaterais (CLEMENT et al., 2002; TURPAEV, 2018). Até o momento, nenhum inibidor direcionado à formação do complexo DHPS/eIF5A foi desenvolvido (D’AGOSTINO et al., 2020). A inibição da DHPS tem sido apontada em diversos estudos como um alvo promissor para intervenções farmacológicas, principalmente voltadas ao tratamento de câncer (BANDINO et al., 2014; CONI et al., 2020; KAISER; AGOSTINELLI, 2022; KIM et al., 2022; LIU et al., 2021a; NAKANISHI; CLEVELAND, 2016), diabetes (COUGNON et al., 2021; MAIER; TERSEY; MIRMIRA, 2010; ROBBINS et al., 2010; TERSEY et al., 2014; TURPAEV, 2018), doenças isquêmicas (BOUROUROU et al., 2021; MELIS et al., 2017), terapia antirretroviral (OLSEN et al., 2018; OLSEN; CONNOR, 2017; SCHRÖDER et al., 2016; SCHROEDER et al., 2014) e no tratamento de infecções causadas por organismos eucarióticos patogênicos, como por exemplo, Trypanosoma brucei (AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018; NGUYEN et al., 2015), Leishmania donovani (CHAWLA et al., 2010), Leishmania major (SILVA et al., 2020), Plasmodium vivax (KERSTING et al., 2016), Plasmodium falciparum (AROONSRI et al., 2019) e Entamoeba histolytica (JEELANI; NOZAKI, 2021). 33 1.6. Inibidores da DHPS O desenvolvimento de inibidores para a DHPS de humano (HsDHPS) é uma atividade em andamento para novas terapias anticâncer (LIU et al., 2021a; TANAKA et al., 2020a, 2020b). Esforços semelhantes para desenvolver inibidores para as DHPSs de organismos patogênicos são dificultados pela falta de informações estruturais e ensaios para a triagem de compostos. Além disso, as funções celulares e os mecanismos reguladores das DHPSs nesses organismos não são completamente compreendidos (SILVA et al., 2020). Vários análogos da espermidina, que corresponde ao substrato da HsDHPS, foram caracterizados como inibidores dessa enzima. Dentre estes inibidores competitivos, o composto mais potente in vitro foi o N1-guanil-1,7-diaminoheptano (GC7), com um valor de Ki em torno de 10 nM, que é 400 vezes menor do que o valor do Km da HsDHPS para a espermidina (JAKUS et al., 1993; PARK et al., 1994). Além disso, dados de cocristalização confirmaram a ligação específica do GC7 ao sítio ativo da HsDHPS (TANAKA et al., 2020a; UMLAND et al., 2004). O GC7 é amplamente utilizado para inibir a hipusinação de eIF5A em células de mamíferos (BANDINO et al., 2014; LOU et al., 2013) e mostra um efeito antiproliferativo em várias linhagens de células tumorais em cultura (CHEN et al., 1996; JASIULIONIS et al., 2007; SHI et al., 1996). No entanto, o uso terapêutico do GC7 é limitado, pois seus efeitos celulares não são restritos à atuação sobre a DHPS, podendo inibir diferentes enzimas que utilizam a espermidina como substrato, resultando assim em efeitos colaterais (KAISER; AGOSTINELLI, 2022; LIU et al., 2021a; OLIVERIO et al., 2014; TANAKA et al., 2020b; TAUC et al., 2021; TURPAEV, 2018). Além disso, a biodisponibilidade desse composto é restringida pelas poliaminas oxidases fisiológicas presentes no sangue. Por esses motivos o CG7 não é utilizado em ensaios clínicos (D’AGOSTINO et al., 2020; LIU et al., 2021a; TAUC et al., 2021; TURPAEV, 2018). A guanilhidrazona CNI-1493 foi identificada como um inibidor eficiente da HsDHPS, sendo capaz de suprimir o ciclo de replicação do HIV-1 em culturas de células (HAUBER et al., 2005). Posteriormente foi descrito que análogos do CNI-1493 suprimem a replicação do HIV-1 de maneira dose-dependente, sem efeitos colaterais tóxicos (SCHRÖDER et al., 2016). Ainda, o CNI-1493 foi testado como um inibidor de 34 proteínas quinases ativadas por mitógenos (MAPKs) em um ensaio clínico em pacientes com a doença de Crohn, sendo que uma resposta clínica foi observada em 67% dos pacientes após quatro semanas de tratamento (HOMMES et al., 2002). Entretanto, resta determinar se esses efeitos clínicos foram em parte relacionados ao efeito inibitório do CNI-1493 sobre a hipusinação de eIF5A, uma vez que esse composto foi descrito posteriormente como um inibidor da HsDHPS (SOMMER et al., 2004). Contudo, uma desvantagem do CNI-1493 é sua instabilidade em solução (SCHRÖDER et al., 2016). Com base na estrutura de inibidores conhecidos da HsDHPS, Ziegler e colaboradores conceberam 20 compostos, incluindo o DHSI-15, que foi capaz de inibir a síntese de hipusina no ensaio in vitro (ZIEGLER et al., 2012). DHSI-15 exerce um efeito antiproliferativo forte em células BCR-ABL, incluindo mutantes resistentes ao Imatinib. Apesar disso, este inibidor não se encontra atualmente em uso clínico (TAUC et al., 2021). Para obter inibidores da HsDHPS mais eficazes na prevenção da ativação de eIF5A em células tumorais em proliferação, uma nova série de potentes inibidores alostéricos foi desenvolvida recentemente, a partir da otimização da estrutura de um composto hit obtido por meio de um ensaio de high-throughput screening (HTS) (TANAKA et al., 2020a). O inibidor mais potente da série foi o bromobenzotiofeno YT- 11g, apresentando um IC50 de 62 nM. A análise por cristalografia de raios X desse composto ligado à HsDHPS revelou uma mudança conformacional nessa enzima, sugerindo a presença de um novo sítio alostérico (TANAKA et al., 2020a). Embora a atividade anticancerígena do YT-11g precise ser melhor avaliada, a descoberta desse sítio alostérico abriu novos caminhos para projetar inibidores alostéricos para a HsDHPS (TANAKA et al., 2020a; TAUC et al., 2021). Outro trabalho recente descreveu uma nova classe de inibidores alostéricos potentes para a HsDHPS (TANAKA et al., 2020b), no qual foram empregados estudos de relação estrutura-atividade, explorando os scaffolds bicíclicos dos hits provenientes de um ensaio HTS, que foram sugeridos como grupo farmacofórico (TANAKA et al., 2020b). Esses compostos foram caracterizados como inibidores competitivos de NAD+ e, dentre estes, o derivado de 5,6-dihidrotieno[2,3-c]piridina (26d) apresentou um IC50 de 9,2 nM. Adicionalmente, a análise por cristalografia de raios X do complexo HsDHPS/26d demonstrou um modo de ligação distinto ao sítio alostérico da HsDHPS, 35 em comparação com o inibidor YT-11g relatado anteriormente (TANAKA et al., 2020b). Portanto, esse fato demonstra a versatilidade do sítio alostérico da HsDHPS como um sítio drogável, que pode ser utilizado para o desenvolvimento de inibidores para essa enzima (TANAKA et al., 2020b). Também explorando o novo sítio alostérico da HsDHPS, derivados da 5-(2- metoxifenoxi)-2-fenilpirimidin-4-amina foram projetados e sintetizados (LIU et al., 2021a). Dentre eles, o composto 8m foi o mais potente (IC50 = 14 nM) e apresentou excelente inibição contra células de melanoma, superior à do GC7. Além disso, este composto foi capaz de inibir a migração de células de melanoma e inibiu efetivamente o desenvolvimento de melanoma em um estudo in vivo, apresentando baixa toxicidade (LIU et al., 2021a). 1.7. Estrutura tridimensional da DHPS Outro fato que torna a DHPS um melhor alvo de estudo, em comparação com a DOHH, é que existem mais informações a respeito de sua estrutura, incluindo a estrutura cristalográfica da HsDHPS ligada ao seu cofator NAD+ (LIAO et al., 1998), a inibidores (TANAKA et al., 2020a, 2020b; UMLAND et al., 2004) e a algumas poliaminas, incluindo seu substrato, a espermidina (WĄTOR; WILK; GRUDNIK, 2020). Com relação à estrutura tridimensional, a HsDHPS se organiza na forma de um homotetrâmero que consiste em quatro monômeros idênticos de aproximadamente 40 kDa (LIAO et al., 1998; UMLAND et al., 2004). As estruturas cristalográficas desta enzima em complexo com NAD+ (PDB: 1DHS) (LIAO et al., 1998) e em complexo com NAD+ e GC7(PDB: 1RQD) (Figura 6A) (UMLAND et al., 2004), revelaram que os monômeros se associam em dois pares de dímeros, totalizando quatro sítios ativos por molécula, localizados nas interfaces dos dímeros (LIAO et al., 1998; UMLAND et al., 2004). A espermidina se liga à HsDHPS em uma cavidade estreita composta por aminoácidos com propriedades físico-químicas específicas capazes de estabelecer uma rede característica de interação com o ligante, ancorando-a no sítio de ligação (Figura 6B) (LEE; UM; PARK, 2001; WĄTOR; WILK; GRUDNIK, 2020). 36 Figura 6. Estrutura da DHPS humana ligada ao NAD+ e ao GC7. (A) Tetrâmero da HsDHPS ligada ao NAD+ (PDB ID: 1RLZ), com cada monômero indicado por uma cor diferente, sendo o NAD+ representado em vermelho. Os diamantes pretos indicam a localização dos sítios ativos da enzima. (B) O inibidor GC7 (em amarelo) ligado ao sítio ativo da HsDHPS. As interações entre o GC7 e a DHPS são indicadas pelas linhas pontilhadas pretas (PDB ID: 1RQD). Fonte: adaptado de UMLAND et al., 2004. Ao contrário dos demais eucariotos, os genomas dos tripanossomatídeos e Entamoeba sp. codificam dois genes parálogos da DHPS (NGUYEN et al., 2013). No caso de Trypanosoma sp. e Leishmania sp., uma dessas isoformas parece estar desativada cataliticamente, ou seja, não possui alguns resíduos de aminoácidos essenciais para a sua atividade (Figura 7) (NGUYEN et al., 2013; PHILLIPS, 2018). Figura 7. Alinhamento múltiplo de sequências baseado na estrutura da BmDHPS, HsDHPS, LmDHPSB, LmDHPSA, TbDHPSp e TbDHPSc (próxima página). Os resíduos destacados em amarelo participam da ligação ao NAD+, em azul à espermidina ou ao GC7 (mesma região) e, em verde, da ligação a ambos. Os resíduos destacados em preto ou emoldurados em uma caixa são conservados em todas as DHPSs analisadas. A lisina catalítica encontra-se marcada com uma estrela vermelha. As lacunas são indicadas por pontos pretos. Para maior clareza, as inserções grandes da LmDHPSA foram omitidas e seus comprimentos estão indicados entre parênteses destacados em roxo. A estrutura secundária (α-hélices e folhas β) e a numeração mostrada na linha superior são relativas à estrutura da BmDHPSA. As sequências e estruturas das proteínas utilizadas no alinhamento foram: BmDHPSA (UniProt ID A0A0J9XTC4; PDB ID 6W3Z); HsDHPS (UniProt ID P49366, PDB ID 1DHS); LmDHPSB/DHPSA (UniProt IDs Q4QD19 / Q4Q3H5); e TbDHPSp/DHPSc (UniProt IDs Q4GZD1 / Q38BX0, PDB ID 6DFT). O alinhamento estrutural foi realizado através do programa PROMALS3D (PEI; GRISHIN, 2007). 37 Fonte: SILVA et al., 2020. Diferentemente da HsDHPS, a DHPS de T. brucei corresponde a um heterotetrâmero (dímero de heterodímeros) formado por uma isoforma cataliticamente deficiente (TbDHPSc; c para catalítica) e outra inativa (TbDHPSp; p para proenzima), sendo a DHPSc homóloga da HsDHPS (AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018). 38 Cada heterodímero contém dois sítios de ligação ao NAD+, um localizado no sítio catalítico funcional enquanto o outro está localizado em um sítio remanescente inativo, devido ao fato de não possuir alguns resíduos catalíticos chave (Figura 7), incluindo a lisina catalítica essencial para a realização da hipusinação (Lys329 para HsDHPS; Lys418 para TbDHPSc) (AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018). A oligomerização entre a DHPSc e a DHPSp resulta em um aumento de mais de 1000 vezes na atividade catalítica em comparação com a atividade da DHPSc sozinha (AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018; NGUYEN et al., 2013). Uma arquitetura heterotetramérica semelhante é sugerida para as DHPSs parálogas de Leishmania major (SILVA et al., 2020). Figura 8. Estrutura da DHPS de T. brucei (TbDHPSc:DHPSp). (A) Representação da DHPS humana (HsDHPS) e de T. brucei (TbDHPSc:DHPSp). A HsDHPS (cinza) forma dois sítios ativos funcionais equivalentes em cada uma das duas interfaces dos dímeros do homotetrâmetro. No caso da TbDHPSc:DHPSp, um sítio catalítico e um sítio inativo são formados entre a DHPSc (laranja) e a DHPSp (verde) na interface do dímero; o tetrâmero é composto por um dímero de heterodímeros. (B) Estrutura heterotetramérica da TbDHPSc:DHPSp com os quatro moléculas de NAD+ ligadas mostradas como esferas. Fonte: adaptado de AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018. Sendo assim, estas diferenças estruturais significativas entre a DHPS de agentes patogênicos e a enzima humana podem ser exploradas para o desenvolvimento de moléculas que interajam especificamente com a enzima do parasita, não gerando efeitos tóxicos ao hospedeiro (AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018; AROONSRI et al., 2022; BILSLAND et al., 2016; CHAWLA et al., 2010; PEGG, 2018; SILVA et al., 2020). 39 Um exemplo de que a inibição seletiva da hipusinação em agentes patogênicos é possível foi descrita para Fusarium graminearum, onde há estudos mostrando que a inibição da DHPS nesse fungo durante a infecção do trigo promoveu uma ação específica sobre o patógeno sem gerar interferência no desenvolvimento dos grãos (MARTINEZ-ROCHA et al., 2016; WORIEDH et al., 2011). 1.8. Descoberta de fármacos baseada na estrutura do alvo A determinação da estrutura tridimensional de uma proteína fornece pistas sobre sua função, mecanismo pelo qual essa função ocorre e, em alguns casos, até mesmo como esta é regulada (BROWN; SHOTTON, 2015; BURLEY, 2021; SWARBRICK et al., 2020). A ideia de utilizar informações sobre a estrutura de uma proteína para orientar a concepção de novos agentes terapêuticos teve origem entre os anos 1950 e 1960, quando as primeiras estruturas das proteínas mioglobina e hemoglobina foram elucidadas por cristalografia de raios X (JASKOLSKI; DAUTER; WLODAWER, 2014; THOMAS et al., 2017). Esse evento culminou com a determinação das propriedades de transporte e armazenamento do oxigênio dessas proteínas, esclareceu as bases moleculares da anemia falciforme e potenciais tratamentos para esta doença (PERUTZ; ROSA; SCHECHTER, 1978). Similarmente, a determinação da sequência de aminoácidos e da estrutura tridimensional da insulina foi empregada para projetar insulinas sintéticas de ação lenta para o tratamento do diabetes (THOMAS et al., 2017). Esses estudos inovadores exemplificam como a exploração terapêutica sempre esteve intimamente ligada ao entendimento da estrutura e função das proteínas. É importante ressaltar que a disponibilidade das estruturas tridimensionais de proteínas relevantes terapeuticamente também permitiu a identificação e caracterização de sítios potenciais para a ligação de inibidores, fornecendo assim a base para o desenvolvimento de fármacos baseadas em estruturas (VAN MONTFORT; WORKMAN, 2017). O planejamento de fármacos baseado na estrutura do alvo tornou-se uma ferramenta muito útil para o desenvolvimento de novos medicamentos (ANDERSON, 2003; BURLEY, 2021; MAVEYRAUD; MOUREY, 2020; ROBERTSON; MEYEROWITZ; SKINIOTIS, 2022; TARI, 2012; THOMAS et al., 2017), sendo que os 40 primeiros exemplos dessa abordagem foram o uso da estrutura da renina para projetar anti-hipertensivos e da estrutura da protease do HIV-1 no planejamento de antivirais contra a AIDS. Atualmente, essa técnica tem sido muito empregada para o desenvolvimento de fármacos para o tratamento de câncer e de agentes infecciosos, incluindo os direcionados ao SARS-CoV-2 e a organismos causadores de doenças negligenciadas (AMELIA et al., 2022; BURLEY, 2021; DAI et al., 2020; FERREIRA; DE MORAES; ANDRICOPULO, 2022; JIN et al., 2020; SONI; PRATAP, 2022; THOMAS et al., 2017; YAO et al., 2022a). É importante ressaltar que a disponibilidade das estruturas tridimensionais de proteínas também permite uma inspeção da topologia do sítio de ligação do fármaco (BURLEY, 2021). Além disso, as propriedades eletrostáticas, como distribuição de carga, podem ser cuidadosamente examinadas (BLANEY, 2012; CONS et al., 2022; MANDAL; MOUDGIL; MANDAL, 2009). O uso dessas informações facilita o processo de aprimoramento da molécula do fármaco, destacando as possíveis interações existentes no sítio de ligação, sendo que esse conhecimento é empregado na tentativa de gerar aumentos de potência e seletividade das moléculas (BROWN; SHOTTON, 2015; BURLEY, 2021; CONS et al., 2022; MAVEYRAUD; MOUREY, 2020; NERO; PARKER; MORTON, 2018; ROBERTSON; MEYEROWITZ; SKINIOTIS, 2022). Essa modulação seletiva de um alvo por ligantes de alta afinidade gera uma interferência em processos celulares específicos, conduzindo assim aos efeitos terapêuticos desejados (BURLEY, 2021; PHILLIPS; RATHOD, 2010; URWYLER, 2011; VAN MONTFORT; WORKMAN, 2017). 1.9. Doenças tropicais negligenciadas (DTNs) No âmbito da necessidade de melhoria na seletividade dos fármacos disponíveis, as doenças tropicais negligenciadas (DTNs) se destacam. Estas doenças são consideradas negligenciadas por não serem economicamente atrativas para o desenvolvimento de medicamentos (DA CONCEIÇÃO et al., 2022; EISENSTEIN, 2021; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021). O plano estratégico da OMS voltado ao controle das DTNs para o período de 2021 a 2030 reconhece um conjunto heterogêneo de 20 condições infecciosas que devem ser priorizadas: (1) úlcera de Buruli, (2) doença de Chagas, (3) dengue e 41 chikungunya, (4) dracunculíase, (5) equinococose, (6) leishmaniose, (7) hanseníase, (8) filariose linfática, (9) oncocercose, (10) raiva, (11) esquistossomose, (12) helmintoses transmitidos pelo solo (ascaridíase, ancilostomíase e tricuríase), (13) teníase e cisticercose, (14) tracoma, (15) trematodíases alimentares, (16) tripanossomíase africana, (17) bouba (treponematoses endêmicas), (18) micoses sistêmicas, (19) sarna e outras ectoparasitoses e (20) envenenamento por picada de serpentes (DA CONCEIÇÃO et al., 2022; JACOBSEN et al., 2022; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021). As DTNs ocorrem predominantemente em países tropicais e subtropicais, afetando pessoas vulneráveis que vivem na pobreza e em contato com organismos infecciosos, além de diversos tipos de vetores (HOTEZ et al., 2020). Essas doenças afetam cerca de 1,5 bilhão de pessoas e causam até 500000 mortes por ano (BANGERT et al., 2017; KLOHE et al., 2019; SRIPA et al., 2022; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021). Apesar do grande número de pessoas acometidas, existem poucas opções terapêuticas para o tratamento das DTNs. Além disso, tais medicamentos apresentam efeitos colaterais graves nos pacientes e o surgimento de organismos infecciosos resistentes ao medicamentos disponíveis tem sido relatado (FIORAVANTI et al., 2020; PHILLIPS, 2018; SCARIOT et al., 2022; WENG; CHEN; WANG, 2018). Ainda, a escassez de alvos validados é uma grande desvantagem no contexto das DTNs (FERREIRA; DE MORAES; ANDRICOPULO, 2022). A falta de atenção para essas doenças é desproporcional à sua importância global (WENG; CHEN; WANG, 2018), sendo que as DTNs foram ignoradas por fabricantes de medicamentos e formuladores de políticas públicas por décadas (AL JALALI; ZEITLINGER, 2020; EL-SAYED; KAMEL, 2020; HOTEZ; PECOUL, 2010). Coordenados pela OMS, organizações filantrópicas, governos nacionais e a indústria farmacêutica tem feito esforços para melhorar esse cenário, mas o controle das DTNs ainda é inadequado e difícil, sendo que a falta de medicamentos seguros, eficazes e acessíveis é um fator determinante para tal situação (AL JALALI; ZEITLINGER, 2020; DA CONCEIÇÃO et al., 2022; LAGO; DOMINGUES PASSERO, 2022; WENG; CHEN; WANG, 2018). As necessidades de tratamento não atendidas causam alta mortalidade e incapacidade, impondo assim consequências sociais e econômicas severas para as pessoas afetadas (BANGERT et al., 2017; WENG; CHEN; WANG, 2018). 42 Para complicar ainda mais a situação das DTNs, a pandemia da COVID-19 afetou gravemente os sistemas de saúde e as economias em todo o mundo e resultou na suspensão de muitos serviços e programas de saúde, incluindo aqueles voltados para a mitigação das DTNs (BROOKER et al., 2021). Diversos estudos recentes demonstram extrema preocupação com o controle das DTNs durante e após a pandemia da COVID-19 (AKINOKUN et al., 2021; EHRENBERG et al., 2020, 2021; EISENSTEIN, 2021; HOTEZ; FENWICK; MOLYNEUX, 2021; MARTÍNEZ-JUÁREZ et al., 2020; MCKAY et al., 2021; MIGUEL et al., 2021; PAUL; SINGH, 2022). A previsão é que a COVID-19 continuará a desviar os recursos financeiros e humanos necessários para o combate das DTNs, podendo até reverter o progresso alcançado até o momento no controle e eliminação das mesmas (EHRENBERG et al., 2020, 2021; ELPHICK-POOLEY; ENGELS, 2022; MIGUEL et al., 2021; PAUL; SINGH, 2022). Ainda, o impacto econômico negativo que a COVID-19 tem gerado está levando uma grande parcela da população mundial à pobreza extrema, o que é um agravante para a ocorrência das DTNs (AKINOKUN et al., 2021; EHRENBERG et al., 2020, 2021; HOTEZ; FENWICK; MOLYNEUX, 2021; PAUL; SINGH, 2022). Nesse contexto, considerando a natureza altamente específica da hipusinação, as enzimas biosintéticas da hipusina, principalmente a DHPS, apresentam-se como alvos potenciais para intervenções terapêuticas, incluindo as voltadas para patógenos eucariotos causadores de DTNs. Esse fato é de extrema importância, pois há uma grande necessidade da descoberta de novas moléculas seguras, eficazes e acessíveis para o tratamento dessas doenças. Além disso, já foram descritas diferenças estruturais significativas entre a HsDHPS e a DHPS de alguns parasitas causadores de DTNs, o que pode favorecer a descoberta de inibidores seletivos para esses organismos (AFANADOR; TOMCHICK; PHILLIPS, 2018; AROONSRI et al., 2022; CHAWLA et al., 2010; PHILLIPS, 2018; SILVA et al., 2020) através da caracterização da estrutura tridimensional da DHPS dos mesmos e da triagem de inibidores em larga escala. 43 2. OBJETIVOS 2.1. Objetivo Geral Determinar a estrutura tridimensional da enzima DHPS (primeira etapa da hipusinação) de diferentes organismos patogênicos causadores de doenças tropicais negligenciadas e buscar inibidores para essas enzimas por meio de um ensaio de high-throughput drug screening in vitro. Para tanto, foram escolhidas as DHPSs dos seguintes organismos patogênicos: Paracoccidioides brasiliensis, Histoplasma capsulatum, Brugia malayi e Leishmania sp. (duas isoformas). 2.2. Objetivos Específicos • Produção das DHPSs dos patógenos escolhidos em Escherichia coli, após a clonagem de várias porções dos genes de interesse, além do gene completo, através da metodologia de clonagem independente de ligação (Ligation Independent Cloning; LIC); • Purificação das DHPSs produzidas de forma solúvel em E. coli; • Rastreamento automatizado para obtenção de cristais das proteínas purificadas; • Determinação da estrutura cristalográfica por difração de raios X das DHPSs das quais se obtenham cristais de tamanho e organização suficientes para a determinação de uma estrutura de alta resolução (em torno de 2 Å); • Padronização e aumento de escala do ensaio enzimático in vitro com as DHPSs de interesse para buscar inibidores direcionados às DHPSs desses patógenos através do ensaio de high-throughput drug screening in vitro. 44 3. MATERIAIS E MÉTODOS As informações sobres as linhagens de Escherichia coli, os plasmídeos e os materiais utilizados para a clonagem das DHPSs de interesse estão listados nas Tabelas 1, 2 e 3, respectivamente. Tabela 1. Linhagens de E. coli empregadas neste trabalho. Linhagens Genótipo Origem Mach1™ F- φ80(lacZ)∆M15 ∆lacX74 hsdR(rK-mK+) ∆recA1398 endA1 tonA Invitrogen GC5™ F- φ80(lacZ)∆M15 ∆ (lacZYAargF)U169 endA1 recA1 relA1 gyrA96 hsdR17 (rK–, mK+) phoA supE44 thi-1 l– T1R Sigma-Aldrich BL21(DE3)-R3- pRARE2 F- ompT hsdSB(rB - mB -) gal dcm (DE3) pRARE2 (ChlorR) (GILEADI et al., 2008) BL21 – pGKJE8 (groES-groEL) F-, ompT, hsdSB(rB - mB -), gal, dcm pGKJE8 (ChlorR) Takara Bio Fonte: autoria própria. Tabela 2. Plasmídeos empregados neste trabalho. Plasmídeo Características Origem pNIC28-Bsa4 Vetor de expressão pET; tag His6 no N-terminal; sítio de clivagem por protease TEV; sítios para clonagem LIC; gene sacB como “stuffer” e seleção negativa; kanR; T7pr SGC-Oxford (STOLS et al., 2002) pNIC-CTH0 Vetor de expressão pET; tag His6 no C-terminal; sítio de clivagem por protease TEV; sítios para clonagem LIC; gene sacB como “stuffer” e seleção negativa; kanR; T7pr SGC-Oxford pSUMO-LIC Vetor de expressão pET; tags His6 e SUMO no N-terminal; sítio de clivagem por protease de SUMO; sítios para clonagem LIC; gene sacB como “stuffer” e seleção negativa; kanR; T7pr SGC-Oxford (WEEKS; DRINKER; LOLL, 2007) pNIC-Zb Vetor de expressão pET; tags His6 e Z-basic (ZB) no N-terminal; sítio de clivagem por protease TEV; sítios para clonagem LIC; gene sacB como “stuffer” e seleção negativa; kanR; T7pr SGC-Oxford (HEDHAMMAR; HOBER, 2007) 45 pETDuet-1 Vetor de expressão pET com dois sítios de clonagem múltipla para co-expressão de proteínas; Tag His6 no N- terminal do sítio de clonagem múltipla 1 e S•Tag™ no C- terminal do sítio de clonagem múltipla 2 ; ampR; T7pr Merck Millipore pAVA0421 Vetor de expressão pET; tag His6 no N-terminal; sítio de clivagem por HRV-protease 3C; sítios para clonagem LIC; ampR; T7pr Wesley Courtlandt Van Voorhis pAVA-MBP Vetor de expressão pET; tags His6 e MBP no N-terminal; sítio de clivagem por HRV-protease 3C; sítios para clonagem LIC; ampR; T7pr (HEWITT et al., 2011) pAVA-TRX Vetor de expressão pET; tags His6 e TrxA no N-terminal; sítio de clivagem por HRV-protease 3C; sítios para clonagem LIC; ampR; T7pr Wesley Courtlandt Van Voorhis pAVA-SUMO Vetor de expressão pET; tags His6 e SUMO no N-terminal; sítio de clivagem por protease de SUMO; sítios para clonagem LIC; ampR; T7pr Wesley Courtlandt Van Voorhis pVZ1142 pET24b/HsDHPS-His6; Vetor de expressão pET contendo a isoforma A da DHPS de humano; tag His6 não clivável no C-terminal; kanR; T7pr John Hershey Fonte: autoria própria. 46 Tabela 3. Oligonucleotídeos, plasmídeos e DNA molde para a PCR utilizados na clonagem das DHPSs de interesse. Oligonucleotídeo Plasmídeo Sequência (5’-3’)a Organismo/ Sigla da DHPS Molde para a PCR BmDHPSA F1 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGGACAACGGTAACTGTAAATTCGATGTTC B. malayi (BmDHPSA) Gene sintético BmDHPSA F2 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGGGTAACTGTAAATTCGATGTTCATATCGCC B. malayi (BmDHPSA) Gene sintético BmDHPSA F3 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGAAATTCGATGTTCATATCGCCGAAATGT B. malayi (BmDHPSA) Gene sintético BmDHPSA F4 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGGATGTTCATATCGCCGAAATGTCC B. malayi (BmDHPSA) Gene sintético HcDHPSA F1 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGGCAGGCAACGGTGTGGA H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético HcDHPSA F2 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGGGTGTGGACGGGACCTCT H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético HcDHPSA F3 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGTCTGCTGTCCCGTCAGTC H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético HcDHPSA F4 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGCCGTCAGTCTCCACCGCT H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético LmDHPSA F1 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGGCGAATATTGCGGAGTCTGC L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSA F2 pNIC-CTH0 TTAAGAAGGAGATATACTATGGCCAACATAGCGGAATCGGC L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA F3 pSUMO-LIC ACCAGGAGCAAACGGGAGGTATGGCCAACATAGCGGAA L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA F4 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TACTTCCAATCCATGGCCAACATAGCGGAATCG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSB F1 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGCTTGCCTCTGCCCCAGC L. major (LmDHPSB) DNA genômico LmDHPSB F2 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGCCGGCCAAGAAGGACTCC L. major (LmDHPSB) DNA genômico LmDHPSB F3 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGTCCGCTGCGTCCCGTAGG L. major (LmDHPSB) DNA genômico LmDHPSB F4 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGAAGGATGACTCATCAGCGAGAGT L. major (LmDHPSB) DNA genômico LmDHPSB F5 pNIC-CTH0 TTAAGAAGGAGATATACTATGTTAGCGAGTGCACCGGCA L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F6 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TACTTCCAATCCATGTTAGCGAGTGCACCGGC L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F7 pSUMO-LIC ACCAGGAGCAAACGGGAGGTATGTTAGCGAGTGCACCG L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F8 pSUMO-LIC ACCAGGAGCAAACGGGAGGTCCAGCCAAGAAAGATTCAGC L. major (LmDHPSB) Gene sintético 47 LmDHPSB F9 pNIC-CTH0 TTAAGAAGGAGATATACTATGCCAGCCAAGAAAGATTCAGCCG L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F10 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TACTTCCAATCCATGCCAGCCAAGAAAGATTCAGC L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F11 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TACTTCCAATCCATGTCAGCCGCGAGTCGTAGA L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F12 pSUMO-LIC ACCAGGAGCAAACGGGAGGTTCAGCCGCGAGTCGTAGA L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F13 pNIC-CTH0 TTAAGAAGGAGATATACTATGTCAGCCGCGAGTCGTAGAAAGT L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F14 pSUMO-LIC ACCAGGAGCAAACGGGAGGTAAAGATGATTCTTCGGCACG L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F15 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TACTTCCAATCCATGAAAGATGATTCTTCGGCACGGG L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB F16 pNIC-CTH0 TTAAGAAGGAGATATACTATGAAAGATGATTCTTCGGCACGGGTTTC L. major (LmDHPSB) Gene sintético LbDHPSA AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGGCGAGCATTGCGGAG L. brasiliensis (LbDHPSA) DNA genômico LbDHPSB AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGGCTGCCTCTGACTCAGC L. brasiliensis (LbDHPSB) DNA genômico LdDHPSA AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGGCGAATATTGCGGAATCTGC L. donovani (LdDHPSA) DNA genômico LdDHPSB AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGCTTGCCTCTGTCCCAGC L. donovani (LdDHPSB) DNA genômico 48 LiDHPSA AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGGCGAATATTGCGGAATCTGC L. infantum (LiDHPSA) DNA genômico LiDHPSB AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGCTTGCCTCTGTCCCAGC L. infantum (LiDHPSB) DNA genômico LmDHPSA AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGGCGAATATTGCGGAGTCTG L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSB AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGCTTGCCTCTGCCCCA L. major (LmDHPSB) DNA genômico LmeDHPSA AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGGCGAATATTGCGGAGTCTG L. mexicana (LmeDHPSA) DNA genômico LmeDHPSB AVA F pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO GGGTCCTGGTTCGATGCTTACCTCTGCTCCAGCG L. mexicana (LmeDHPSB) DNA genômico PbDHPSA F1 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGAATTCACAATCTAAAAGCGCTCCTTCA P. brasiliensis (PbDHPSA) cDNA PbDHPSA F2 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGTCACAATCTAAAAGCGCTCCTTCA P. brasiliensis (PbDHPSA) cDNA PbDHPSA F3 pNIC28-Bsa4 TACTTCCAATCCATGAGCGCTCCTTCATCGGCA P. brasiliensis (PbDHPSA) cDNA BmDHPSA R1 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCAGGCTTCTTGCAATTCGGA B. malayi (BmDHPSA) Gene sintético 49 HcDHPSA R1 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCAACAACGGGAACCTTCCGG H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético HcDHPSA R2 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCACGGCAACGAAGAACCAGA H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético HcDHPSA R3 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCAAGACCAGGGTTGCCGTTT H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético HcDHPSA R4 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCAAGGTGCCTCCTTGACCTC H. capsulatum (HcDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R1 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCATTCTCCACGACACAGGTG L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSA R2 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCAGGAGACGTCTTGCGGCAG L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSA R3 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCACGAGGATTGCCTCCTGCG L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSA R4 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCACGGCTGCGCGTCGTCCGT L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSA R5 pNIC-CTH0 GATTGGAAGTAGAGGTTCTCTGCCTCACCGCGACACAAATG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R6 pSUMO-LIC CAGACCGCCACCGCTTCACTCACCGCGACACAAATG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R7 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TATCCACCTTTACTGTCACTCACCGCGACACAAATG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R8 pNIC-CTH0 GATTGGAAGTAGAGGTTCTCTGCGGAGACATCCTGAGGTAAAC L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R9 pSUMO-LIC CAGACCGCCACCGCTTCAGGAGACATCCTGAGGTAAAC L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R10 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TATCCACCTTTACTGTCAGGAGACATCCTGAGGTAAACG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R11 pSUMO-LIC CAGACCGCCACCGCTTCAGGACGATTGGCGTCTGCG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R12 pNIC-CTH0 GATTGGAAGTAGAGGTTCTCTGCGGACGATTGGCGTCTGCG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R13 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TATCCACCTTTACTGTCAGGACGATTGGCGTCTGCG L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R14 pSUMO-LIC CAGACCGCCACCGCTTCAGGGTTGCGCGTCGTCGGT L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R15 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TATCCACCTTTACTGTCAGGGTTGCGCGTCGTCGGT L. major (LmDHPSA) Gene sintético LmDHPSA R16 pNIC-CTH0 GATTGGAAGTAGAGGTTCTCTGCGGGTTGCGCGTCGTCGGT L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB R1 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCACGCTGCAGCCCCCTCCAG L. major (LmDHPSB) DNA genômico 50 LmDHPSB R2 pSUMO-LIC CAGACCGCCACCGCTTCAGGCTGCGGCACCCTCTAA L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB R3 pNIC28-Bsa4 pNIC-Zb TATCCACCTTTACTGTCAGGCTGCGGCACCCTCTAA L. major (LmDHPSB) Gene sintético LmDHPSB R4 pNIC-CTH0 GATTGGAAGTAGAGGTTCTCTGCGGCTGCGGCACCCTCTAA L. major (LmDHPSB) Gene sintético LbDHPSA AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTACTAAACGCCCTTCACCACACTGGTG L. brasiliensis (LbDHPSA) DNA genômico LbDHPSB AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTACTACGCTGCTGCATCCTCCAG L. brasiliensis (LbDHPSB) DNA genômico LdDHPSA AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATCATTCTCCAAGACACGGGTGGG L. donovani (LdDHPSA) DNA genômico LdDHPSB AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATTACGCTGCGGCCCGC L. donovani (LdDHPSB) DNA genômico LiDHPSA AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATCATTCTCCAAGACACGGGTGGG L. infantum (LiDHPSA) DNA genômico LiDHPSB AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATTACGCTGCGGCCCGC L. infantum (LiDHPSB) DNA genômico 51 LmDHPSA AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATCATTCTCCACGACACAGGTGAG L. major (LmDHPSA) DNA genômico LmDHPSB AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATTACGCTGCAGCCCCCTC L. major (LmDHPSB) DNA genômico LmeDHPSA AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATCATTCTCCAGCACACGGGC L. mexicana (LmeDHPSA) DNA genômico LmeDHPSB AVA R pAVA0421 pAVA-MBP pAVA-TRX pAVA-SUMO CTTGTTCGTGCTGTTTATTACGCTGCTGCCCTCTCCA L. mexicana (LmeDHPSB) DNA genômico PbDHPSA R1 pNIC28-Bsa4 TATCCACCTTTACTGTCATTTTTGCAGCTGTTTCTCAGTCC P. brasiliensis (PbDHPSA) cDNA a: Região destacada em negrito representa a sequência para a clonagem independente de ligação para cada vetor utilizado. Fonte: autoria própria. 52 Os experimentos foram conduzidos no Laboratório de Biologia Celular e Molecular de Microrganismos da UNESP, no Campus de Araraquara; no Centro de Química Medicinal (CQMED) da UNICAMP; e no grupo de purificação de proteínas do Seattle Structural Genomics Center for Infectious Diseases (SSGCID) do Dr. Wesley C. Van Voorhis, na Universidade de Washington, Seattle-EUA (BEPE FAPESP 2019/24812-0). As Figuras Suplementares 1 e 2 demonstram o fluxo de trabalho realizado no CQMED e na Universidade de Washington, respectivamente. O cultivo das linhagens de E. coli, modo de preparo e composição dos meios de cultura e soluções, bem como as técnicas utilizadas neste trabalho foram realizadas de acordo com protocolos padrão (AUSUBEL et al., 2003; BRYAN et al., 2011; CHOI et al., 2011; STUDIER, 2005). A Figura Suplementar 3 compreende a representação das principais construções (porções dos genes de interesse) utilizadas neste trabalho e a Figura Suplementar 4 resume quais construções foram empregadas durante os principais experimentos executados neste trabalho. 3.1. Clonagem das DHPSs dos patógenos eucariotos por clonagem independente de ligação (LIC) Foram desenhados conjuntos de oligonucleotídeos que amplificavam as sequências completas (full-length) e sequências parciais de cada DHPSs de interesse (Tabela 3). Essas sequências parciais geraram proteínas truncadas, com a remoção de trechos possivelmente não estruturados, o que poderia favorecer a produção das DHPSs solúveis em E. coli e a aquisição de estruturas compactas durantes os ensaios de cristalização (GILEADI et al., 2008; SAVITSKY et al., 2010). Para determinar quais seriam os segmentos da sequência do gene alvo clonados, aqui denominados construções, a melhor correspondência para essas proteínas no Protein Data Bank (PDB) foi identificada, através da ferramenta BLAST (MADDEN; TATUSOV; ZHANG, 1996). Após esse processo, foi executado um alinhamento múltiplo das sequências das DHPSs com a sequência de maior correspondência no PDB, através do software de predição de estrutura secundária GenomeThreader (GREMME et al., 2005) para determinar quais regiões poderiam ser removidas nas diferentes DHPSs. Após esse processo, as regiões codificadoras dos genes das DHPSs de P. 53 brasiliensis (PbDHPSA, gene ID: 22579983), H. capsulatum (HcDHPSA, gene ID: 5442746), B. malayi (BmDHPSA, gene ID: 6098167) e L. major (duas isoformas: LmDHPSA, gene ID: 5654787; LmDHPSB, gene ID:5651301) foram amplificados por PCR utilizando os oligonucleotídeos que continham as sequências LIC para cada vetor utilizado (regiões destacadas na Tabela 3). No caso das LmDHPSs, além da utilização do DNA genômico como molde para a PCR, também foram adquiridos genes sintéticos com a otimização de códons para E. coli para as duas isoformas (Integrated DNA Technologies; IDT), como uma estratégia para aumentar o rendimento na produção dessas proteínas. Informações detalhadas sobre sequências de oligonucleotídeos, DNA molde utilizado para a PCR e os vetores de expressão em E. coli empregados durante a clonagem estão disponíveis na Tabela 3. As reações de PCR para as clonagens foram realizadas nas seguintes condições: tampão da enzima Phusion Polymerase 1X, 200 μM de cada dNTP, DNA molde (200 ng no caso de DNA genômico ou cDNA e 12,5 ng no caso de gene sintético; Tabela 3), 0,5 μM de cada combinação de oligonucleotídeos (descrita nos resultados) e 1 U de Phusion High-Fidelity DNA Polymerase (NEB), em um volume de 50 μL e utilizando uma ciclagem touch-down PCR (GILEADI et al., 2008). Para confirmar a amplificação do segmento alvo (inserto), os produtos da PCR foram analisados por eletroforese em gel de agarose 1,5% (m/V) em TAE (Tris 40 mM, ácido acético glacial 0,11% e EDTA 1 mM), contendo 1:10000 (V/V) de SYBR Safe DNA Gel Stain (Thermo Fisher Scientific). O DNA foi visualizado utilizando luz ultravioleta e a imagem documentada através do fotodocumentador L-PIX EX (Loccus). No caso de sucesso na amplificação, os produtos de PCR foram purificados pelo kit Pure link PCR purification (Invitrogen). Posteriormente, os produtos de PCR purificados foram clonados no vetor de expressão de proteínas em E. coli pNIC28-Bsa4 (Tabela 2) pela metodologia de clonagem LIC (SAVITSKY et al., 2010; STOLS et al., 2002; TOSARINI et al., 2018). Para realizar a clonagem LIC, o plasmídeo pNIC28-Bsa4 foi digerido com a enzima de restrição BsaI, sendo em seguida purificado com o kit Pure link PCR purification (Invitrogen). Após esse processo, os insertos e o vetor linearizado foram incubados com a enzima DNA polimerase T4, com o intuito de gerar extremidades complementares de fitas simples entre o inserto e o vetor, através de sua atividade 3'- 54 exonuclease, para promover o anelamento entre eles. Para isso, os insertos foram tratados