SUELLEN OLIVEIRA MILANI ESTUDOS ÉTICOS EM REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO: uma análise da questão feminina em linguagens documentais brasileiras Apoio: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo Marília 2010 SUELLEN OLIVEIRA MILANI ESTUDOS ÉTICOS EM REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO: uma análise da questão feminina em linguagens documentais brasileiras Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Ciência da Informação. Área de Concentração: Informação, Tecnologia e Conhecimento Linha de Pesquisa: Produção e Organização da Informação Orientador: Prof. Dr. José Augusto Chaves Guimarães Marília 2010 Milani, Suellen Oliveira M637a Estudos éticos em representação do conhecimento: uma análise da questão feminina em linguagens documentais brasileiras / Suellen Oliveira Milani. -- Marília, 2010. 140 f. ; 30 cm. Dissertação (mestrado) - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2010. Orientador: Prof. Dr. José Augusto Chaves Guimarães Bibliografia: f. 120 - 129 1. Representação do conhecimento. 2. Ética informacional. 3. Ciência da Informação. I. Título. CDD 025.4 CDU 025.4:17.022 unesp UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA CAMPUS DE MARÍLIA Faculdade de Filosofia e Ciências Departamento de Ciência da Informação CERTIFICADO DE APROVAÇÃO Título: ESTUDOS ÉTICOS EM REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO: uma análise da questão feminina em linguagens documentais brasileiras Autor: Suellen Oliveira Milani Orientador: Prof. Dr. José Augusto Chaves Guimarães Linha de pesquisa: Produção e Organização da Informação Apresentado como parte das exigências para a obtenção do Título de Mestre em Ciência da Informação pela Comissão Examinadora: Prof. Dr. José Augusto Chaves Guimarães Departamento de Ciência da Informação/ Faculdade de Filosofia e Ciências/ Universidade Estadual Paulista Profª. Drª. Mariângela Spotti Lopes Fujita Departamento de Ciência da Informação/ Faculdade de Filosofia e Ciências/ Universidade Estadual Paulista Profª. Drª. Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo Departamento de Biblioteconomia e Documentação/ Escola de Comunicação e Artes/ Universidade de São Paulo Data da apresentação: 02 de fevereiro de 2010 Local da realização: Faculdade de Filosofia e Ciências/ Universidade Estadual Paulista/ Campus de Marília Dedico este trabalho aos meus amados pais Mario e Sueli e à minha amada irmã Samara���� AGRADECIMENTOS À Deus, inteligência suprema. À minha amada família, luz em minha vida. Ao meu namorado Gilson Magalhães Pedroni, fonte de amor. Ao Professor e orientador José Augusto Chaves Guimarães, verdadeiro mestre na arte de ensinar ciência e vida moral. À Professora Mariângela Spotti Lopes Fujita, por acompanhar minha trajetória desde o início e por ser um modelo de cientista e mulher a ser seguido. À Professora Maria de Fátima Gonçalves Moreira Tálamo, por acompanhar a feitura do presente trabalho em todas as suas etapas a partir de um olhar peculiar e valioso. À Professora Lídia Maria Vianna Possas, por plantar em mim a causa social feminina na ocasião da qualificação, abrindo, assim, meus horizontes e os horizontes do presente trabalho. To Professor Hope A. Olson, by introduce the cultural aspects in the discussions of Knowledge Organization and by encourage this research. Our sincere thanks! À Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, campus de Marília, pela estrutura e oportunidades. Ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, pelo incentivo a fazer a diferença. À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), por sua solidez e integridade, o que me faz sentir ainda mais orgulho em ser brasileira. Aos professores que também contribuíram com minha formação: Ely Francina Tannuri de Oliveira, João Batista Ernesto de Moraes, Maria Leandra Bizello, Marta Lígia Pomim Valentim, Oswaldo Francisco de Almeida Júnior, Plácida Leopoldina Ventura Amorim da Costa Santos, Sidney Barbosa e Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti, minha gratidão e apreço. Às funcionárias Margareth de Fátima Colombo Pigozzi (CEDHUM), Maria Luzinete Euclides (Biblioteca), bem como à secretaria do PPGCI, pelo apoio operacional e carinho. Aos meus queridos amigos especiais: Fabio Assis Pinho, Franciele Marques Redigolo, Marli Vítor da Silva, Natália Bolfarini Tognoli e Thiago Bragato Barros, minha gratidão e carinho. We decide what to represent and what to leave unnamed (Hope Olson, 2002) RESUMO A representação do conhecimento, enquanto processo, assim como os instrumentos que a permeiam e os produtos que dela decorrem, não são neutros, estando imbuídos de valores morais. Nesse cenário, emergem problemas de biasses na representação, tais como questões de gênero, categorizações dicotômicas e falta de garantia e hospitalidade cultural. No tocante à questão da mulher, amparada apenas por algumas reflexões iniciais de Berman (1993), Olson (1998, 2002), Caro Castro e San Segundo Manuel (1999), Morán Suárez e Rodríguez Bravo (2001), López-Huertas e Barité Roqueta (2002), López-Huertas, Torres e Barité (2004), López-Huertas Pérez e Torres Ramírez (2005), López- Huertas (2006, 2008a), Guimarães (2006b, 2007) e Rodríguez Bravo (2006, 2007), há uma carência de literatura relativa à representação e ao delineamento de seu quadro epistemológico, tornando-se necessário verificar em que medida os termos relativos à questão feminina estão eventualmente inseridos sob bias nos instrumentos da área. Para tanto, verificou-se a presença dos termos: feminilidade; feminina(s); feminino(s); feminismo(s); feminista(s); materna(o); maternal; mulher(es), e os respectivos termos em inglês: female; femininity; feminism; feminist; maternal; motherly; woman(en), nas linguagens documentais brasileiras: Vocabulário Controlado Básico, Vocabulário Controlado USP, Terminologia de Assuntos da Fundação Biblioteca Nacional e Classificação Decimal de Direito. Cada termo identificado nas linguagens documentais alfabéticas teve seu descritor e não-descritores registrados, bem como notas de escopo, remissivas, termos relacionados e relações hierárquicas, enquanto as incidências relativas à linguagem documental hierárquica, foram sistematizadas de acordo com as diretrizes propostas por Olson (1998). Apresentaram-se como resultados, sinalizações de biasses, bem como possíveis auxílios para atenuá-los, enquanto pontes para discussões posteriores. Assim, reflexões devem continuar sendo realizadas para constatar e prevenir biasses na representação do conhecimento e se os profissionais da informação não forem capazes de preveni-los ou solucioná-los, a mera possibilidade da existência dos mesmos deve ser informada aos usuários, tentando, assim, tornarem-se mais responsáveis face as biasses e se colocarem explicitamente sobre as perspectivas representadas em suas unidades e sistemas de informação. PALAVRAS-CHAVE: Representação do conhecimento; Linguagens documentais; Bias ABSTRACT Knowlede representation, as a process, as well as the tools that take part in it and the products that emanate from it are not, by any means, neutral, being soaked in moral values. In such landscape, problems of bias in representation may rise, such as gender issues, dicotomical categorizations and lack of warrant/ cultural hospitality. Concerning the women’s issue, supported only by a few initial reflexions by Berman (1993), Olson (1998, 2002), Caro Castro and San Segundo Manuel (1999), Morán Suárez and Rodríguez Bravo (2001), López-Huertas and Barité Roqueta (2002), López- Huertas, Torres and Barité (2004), López-Huertas Pérez and Torres Ramírez (2005), López-Huertas (2006, 2008a), Guimarães (2006b, 2007) and Rodríguez Bravo (2006, 2007), there is severe lack of literature related to representation and to the outlining of its epistemological frame, becoming necessary to verify how far the terms connected to the feminine issue are eventually inserted under bias in the tools of area. For such action, it was proposed to verify the presence of the following terms: female; femininity; feminism; feminist; maternal; motherly; woman(en), within the Brazilian indexing languages: Vocabulário Controlado Básico, Vocabulário Controlado USP (University of São Paulo), Terminologia de Assuntos da Fundação Biblioteca Nacional e Classificação Decimal de Direito. Each term identified in the alphabetic indexing languages had its descriptor and non- descriptors recorded, as well as the scope and remissive notes, related terms and hierarchic relations, whereas the incidences related to hierarchic indexing languages were systematized in compliance with the guidelines proposed by Olson (1998). Presented as results signs of biasses, as well as possible aid to attenuate them, as gateways to further discussions. Thus, discussions should continue being realized to detect and avoid biasses in knowledge representation and if the information professionals aren’t be able to avoid or to solve them, the possibility of their existence should be informed to users, trying to become more responsible about the bias and positioning itself clearly about the perspectives represented in their information units and systems. KEYWORDS: Subject analysis; Indexing languages; Bias LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Categorização dos termos encontrados nas quatro linguagens documentais brasileiras analisadas............................................................................................................. 87 Quadro 2 - Caracterização geral das linguagens documentais analisadas..................... 130 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Incidências no VCB.............................................................................................. 84 Tabela 2 - Incidências no VCUSP......................................................................................... 85 Tabela 3 - Incidências na TAFBN........................................................................................ 85 Tabela 4 - Incidências na Classificação Decimal de Direito............................................... 86 LISTA DE ABREVIATURAS BCI Biblioteconomia e Ciência da Informação CDD Classificação Decimal de Dewey CDDireito Classificação Decimal de Direito CDU Classificação Decimal Universal CI Ciência da Informação CRG Classification Research Group ISKO International Society for Knowledge Organization LC Library of Congress LCSH Library of Congress Subject Headings - Lista de Cabeçalhos de Assunto da Library of Congress MARC Machine Readable Cataloging OC Organização do Conhecimento ORC Organização e Representação do Conhecimento RI Recuperação da Informação SORC Sistemas de Organização e Representação do Conhecimento TAFBN Terminologia de Assuntos da Fundação Biblioteca Nacional TE Termo Específico TG Termo Genérico ou Termo Geral TR Termo Relacionado UP Usado Para VCB Vocabulário Controlado Básico VCUSP Vocabulário Controlado USP SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO............................................................................................................... 12 2 ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO ................................................................... 18 2.1 Representação do conhecimento.................................................................................. 28 2.2 Linguagens documentais.............................................................................................. 35 3 ASPECTOS ÉTICOS EM REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO .................. 41 3.1 Bias: o início de uma reflexão ...................................................................................... 48 3.2 Pontuações sobre a não-neutralidade.......................................................................... 56 4 A QUESTÃO FEMININA.............................................................................................. 61 4.1 Multiculturalismo e Direitos Humanos ....................................................................... 63 4.2 A questão feminina....................................................................................................... 68 4.3 A questão feminina na representação do conhecimento ............................................. 74 5 MATERIAL E MÉTODOS ............................................................................................ 79 5.1 Procedimentos de pesquisa .......................................................................................... 79 5.2 Caracterização geral do corpus da pesquisa ............................................................... 83 6 RESULTADOS ............................................................................................................... 84 6.1 Apresentação dos resultados........................................................................................ 84 6.2 Discussão dos resultados .............................................................................................. 87 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................ 116 REFERÊNCIAS............................................................................................................... 120 APÊNDICE A - Caracterização do corpus da pesquisa ................................................. 130 12 1 INTRODUÇÃO Parte-se de uma questão delicada, ou seja, falar sobre como a questão da mulher é tratada em uma área eminentemente, e, talvez, tradicionalmente, feminina como a Biblioteconomia. Adentra-se, ainda, em uma outra questão igual ou potencialmente mais delicada, ou seja, falar sobre o tecnicismo e a diminuição que o processo mais intelectual da Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI) (pois envolve representação e valores morais) sofre perante outras atividades, como a gestão, por exemplo. Isso se dá a partir do que Hjørland (2008a, p. 258, tradução nossa) denomina como “[...] uma forte tendência ideológica na biblioteconomia, a desvinculação do campo dos discursos dos campos que estão sendo organizados. Essa tendência (positivismo) pode ser o mais importante bloqueio do avanço da BCI enquanto um campo acadêmico.” Essa questão é facilmente visualizada, por exemplo, quando se reflete acerca de uma política de indexação, isto é, diretrizes que orientam os parâmetros e os instrumentos que a unidade ou sistema de informação utilizará visando obter a “[...] otimização de serviços, a racionalização de processos e a consistência das operações de tratamento e organização de conteúdos informacionais [...]” (GUIMARÃES, 2001, p. 46) Na elaboração de uma política de indexação que ampare as necessidades informacionais de seus usuários reais, bem como reflita a missão e objetivos de sua unidade de informação deve abranger: cobertura de assuntos; seleção e aquisição de documentos- fonte; nível de exaustividade e de especificidade da indexação; escolha da linguagem de indexação; estratégia de busca; e tempo de resposta do sistema (CARNEIRO, 19851 citado por GUIMARÃES, 2001). Orienta-se, inclusive, que a unidade de informação disponibilize aos usuários a política de indexação que utiliza para representar o conhecimento registrado e socializado que será por ele acessado. Essa iniciativa tornaria os profissionais da informação mais responsáveis pelos substitutos do conhecimento gerados. Será realizada, a partir daqui, uma revisão, uma rediscussão, que se constitui uma postura operante no âmbito contemporâneo dos mundos das ciências e do conhecimento, afinal como defende Santos (2009), a realidade qualquer que seja é um campo de possibilidades e carece de um pensamento alternativo de alternativas. 1 CARNEIRO, M. V. Diretrizes para uma política de indexação. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v. 14, n. 2, p. 221-241, 1985. 13 As atuais reflexões na área de Ciência da Informação (CI) têm revelado uma mudança de paradigma, na medida em que sua ênfase já não se centra apenas em questões de recuperação, acesso e disseminação da informação, mas, muitas vezes, adentra em aspectos epistemológicos, com objetivo de sedimentar cientificamente a área. Assim, para aperfeiçoar seus referenciais teóricos e metodológicos, os pesquisadores têm se dedicado também a reflexões sobre os processos, enquanto maneiras pelas quais se realizam as operações da área, notadamente no âmbito da organização do conhecimento (OC), respaldados por normas, métodos e técnicas específicas utilizando, para isso, instrumentos, e tendo como consequências os produtos. Esclarece-se que a presente pesquisa estudará a representação do conhecimento2 e não a organização do conhecimento como um todo (análise documental: análise, síntese e representação; e classificação)3, mas foi mantida a opção terminológica de cada autor. Tal contexto, por sua vez, encontra espaço em um cenário cada vez mais permeado pelo componente tecnológico, que não deve ser entendido como uma atividade biblioteconômica em si mesmo mas, sim, um aliado à função de recuperação e disseminação da informação. Nesse sentido, “[...] as metas dos bibliotecários não mudam, mas os meios e processos que usamos para cumprir essas metas podem, deveriam, e vão mudar” (GORMAN, 2000, p. 14, tradução nossa), tornando imprescindível à reflexão que permeia a representação do conhecimento, uma vez que a mesma, longe de ser neutra, é imbuída por valores morais e, consequentemente, por barreiras culturais. Assim, o tema dessa pesquisa se estabelece nos aspectos éticos da representação do conhecimento, respondendo, dentre outras coisas, ao apelo registrado em um editorial da revista International Classification, em 1992, em que a pesquisadora alemã e fundadora da International Society for Knowledge Organization - ISKO, Ingetraut Dahlberg, sinalizava para a carência do tão necessário desenvolvimento teórico em questões éticas na área. A discussão sobre ética na área da CI, como destacam Fernández-Molina e Guimarães (2002), tem sido abordada tradicionalmente em termos de prática profissional (negligência, responsabilidade), em aspectos de produção e uso da informação (liberdade intelectual, direito de acesso à informação), muitas vezes mesclada com medidas de recuperação da informação (conceitos de precisão, hospitalidade e garantia literária) ou, ainda, entendida como inerente a um conceito genérico e fluido de bom senso e bem fazer da área. 2 Utiliza-se o conceito representação do conhecimento tal como utilizado pela ISKO e explicado por Rafferty (2001), que encontra como seu correspondente na escola francesa o conceito representação documental. 3 Esclarece-se que se segue a corrente teórica francesa com reflexos na Espanha e no Brasil, denominada Análise Documental. 14 Nesse contexto, observa-se, na literatura, uma forte preocupação de natureza deontológica, voltada especificamente para os códigos de ética profissional, como bem demonstra a coletânea internacional organizada por Vaagan (2002). Por outro lado, e procurando abordar a questão sob um ponto de vista mais axiológico, autores como Froehlich (1994), Gorman (2000), Koehler e Pembertom (2000), entre outros, têm abordado o fazer profissional como um todo e de forma mais verticalizada. Especificamente no âmbito da organização e representação do conhecimento (ORC), registram-se os estudos de Berman (1993), Hudon (1997), Beghtol (2002a, 2005), Fernández-Molina e Guimarães (2002), García Gutiérrez (2002), Olson (2002, 2003), Guimarães e Fernández-Molina (2003), Van der Walt (2004), Bair (2005), Fernández-Molina et al. (2005), Guimarães et al. (2005, 2008), Pinho (2006) e Guimarães (2006b). Nessa abordagem axiológica, distintas temáticas têm encontrado abrigo (aspectos políticos, religiosos, raciais etc.) dentre os quais se destaca a questão de gênero como um domínio do conhecimento interdisciplinar, em cujo âmbito delimita-se o problema específico da pesquisa: em que medida os termos relativos à questão feminina estão inseridos sob bias4 nos instrumentos de representação do conhecimento5? Essa discussão insere-se no universo da gestão das linguagens documentais6. A representação do conhecimento é de natureza documental, desenvolve-se no contexto de uma cultura e visa a disponibilizar informações ao usuário, sendo assim deve atuar de forma a que todos, sem distinção, se sintam refletidos nessa realidade, pois caso alguma bias seja percebida, esse usuário, ou grupo de usuários, poderá se afastar do sistema de informação como um todo, por nele não se ver refletido - ou incluído. Destaca-se que um substituto do conhecimento - um rótulo - é construído sob biasses “[...] quando deixa de incluir diversos aspectos, desprivilegia grupos e temas fora de uma norma aceita” (OLSON, 2002, p. 15, tradução nossa). Nesse aspecto, observa-se uma carência de literatura relativa à representação da mulher e ao delineamento de seu quadro epistemológico, com exceção das reflexões de 4 Optou-se por manter o termo original bias em inglês (correspondente a sesgos, em espanhol) como abrangendo os sentidos de tendência, viés, inclinação, desvio, uma vez que não se encontra, em língua portuguesa, termo que dê conta de todo o conteúdo relativo a bias. 5 Entendem-se como instrumentos de representação do conhecimento as denominadas linguagens documentais controladas (esquemas de classificação, listas de cabeçalhos de assunto e tesauros) que proporcionam uma ponte temática entre o documento e o usuário e, portanto, permitem a recuperação da informação. 6 Na presente dissertação, utiliza-se o termo linguagem documental para todas as modalidades de instrumentos de representação do conhecimento em sistemas de informação e de documentação. Nesse sentido, linguagem documental equivalem aos termos linguagens de indexação ou linguagens artificiais encontrados na literatura da área. 15 Berman (1993), Olson (1998, 2002), Caro Castro e San Segundo Manuel (1999), Morán Suárez e Rodríguez Bravo (2001), López-Huertas e Barité Roqueta (2002), López-Huertas, Torres e Barité (2004), López-Huertas Pérez e Torres Ramírez (2005), López-Huertas (2006, 2008a), Guimarães (2006b, 2007) e Rodríguez Bravo (2006, 2007). Desse modo, apresenta-se como proposição: a) dar continuidade aos estudos de Guimarães (2003, 2006a, 2006b), elencando, para tanto, as biasses nas linguagens documentais brasileiras, bem como apresentar discussões conceituais, de modo a colaborar com o avanço teórico interdisciplinar em temáticas relativas à representação do conhecimento e à mulher; b) analisar a presença de biasses no tocante à questão feminina em linguagens documentais7 brasileiras, comparando-os com a realidade internacional a partir da literatura. Sendo assim, tem-se como objetivo geral: contribuir para a sedimentação teórica da área de pesquisa em Ética na representação do conhecimento por meio da análise de eventuais biasses imbuídas de preconceitos relativos à questão feminina em linguagens documentais. Como objetivos específicos, tem-se: analisar a influência do problema da discriminação nas atividades de representação do conhecimento, como já salientou Guimarães (2006b); verificar se os termos relativos à questão feminina estão inseridos sob biasses nas linguagens documentais; e comparar os possíveis termos preconceituosos em diferentes linguagens documentais nacionais. Essa pesquisa se justificou na medida em que contribuiu diretamente para a produção de conhecimento, em questões éticas em representação do conhecimento, pois existe uma lacuna a esse respeito na literatura da área e, como foi constatado na revisão de literatura, ainda não havia sido realizado um estudo sobre a possível existência de biasses relativas à questão feminina em linguagens documentais brasileiras. A presente pesquisa decorre de uma trajetória de investigação iniciada na Iniciação Científica (Processo FAPESP 2005/02122-0), entre 01/10/2005 e 30/09/2006, obtendo renovação para o período de 01/10/2006 a 30/09/2007, cujos resultados evidenciaram a necessidade de estudos mais verticalizados em relação as biasses que permeiam a representação do conhecimento. Aos pareceres positivos e incentivadores dos relatórios de Iniciação Científica apresentados à FAPESP, se aliou o desejo, enquanto pesquisadora, de aprofundar os estudos 7 Para efeito da presente pesquisa, utilizou-se o conceito linguagem documental, e não linguagem documentária, devido ao fato de o padrão em Língua Portuguesa da derivação dos adjetivos, a partir dos substantivos terminados em –nto (comportamento, monumento, departamento etc.), ser feita em –al (comportamental, monumental, departamental etc.) (GUIMARÃES; MORAES; NASCIMENTO, 2005, p. 135). 16 referentes aos processos, instrumentos e produtos da representação do conhecimento em sua abordagem ética. Ressalta-se que este estudo encontrou bases acadêmicas de realização no âmbito do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências - FFC, Universidade Estadual Paulista - UNESP, Campus de Marília - SP, pois se fundamentou em estudos interdisciplinares provenientes da Ética, Filosofia e Sociologia para constatar a existência ou não de biasses nas linguagens documentais. Desse modo, essa proposta se enquadrou na área de concentração do referido Programa de Pós-Graduação, Informação, Tecnologia e Conhecimento, mais especificamente na linha 2 Produção e Organização da Informação como demonstra sua ementa8, pois contribuirá com o desenvolvimento de referenciais teórico-metodológicos para a área, bem como para os estudos da International Society for Knowledge Organization - ISKO, principalmente no que se refere à representação temática das questões da área, que tem no Classification Scheme for Knowledge Organization Literature (DAHLBERG, 1993), seu principal instrumento. Para tanto, a presente pesquisa qualitativa, exploratória e documental, de caráter descritivo e indutivo, verificou a presença dos termos: feminilidade; feminina(s); feminino(s); feminismo(s); feminista(s); materna(o); maternal; mulher(es); e os respectivos termos em inglês: female; femininity; feminism; feminist; maternal; motherly; woman(en), nas linguagens documentais brasileiras: Vocabulário Controlado Básico (VCB), Vocabulário Controlado USP - Universidade de São Paulo (VCUSP), Terminologia de Assuntos da Fundação Biblioteca Nacional (TAFBN) e Classificação Decimal de Direito (CDDireito). Cada termo identificado nas linguagens documentais alfabéticas teve seu descritor, nota de escopo, relação de equivalência (Usado Para/ USE), relação associativa (Termo Relacionado) e relação hierárquica (Termo Geral/ Termo Específico) registrados, enquanto as incidências relativas à linguagem documental hierárquica foram sistematizadas de acordo com as diretrizes propostas por Olson (1998). 8 Considerando a informação registrada e institucionalizada como insumo básico para a construção do conhecimento no contexto da Ciência da Informação, destaca-se o desenvolvimento de referenciais teóricos e metodológicos interdisciplinares acerca dos procedimentos envolvidos na produção e na organização da informação. Assim, a produção da informação é abordada sob os eixos da produção científica (avaliação do comportamento da ciência) e da produção documental (Diplomática contemporânea), enquanto, na organização da informação, destacam-se os processos de análise, síntese, condensação, representação e recuperação do conteúdo informacional. Ressaltam-se, como dimensões teóricas, a reflexão sobre a teoria da ciência e a organização do conhecimento, e, como dimensões aplicadas, os estudos métricos (Informetria, Cienciometria, Bibliometria e Webometria), a tipologia documental, os instrumentos e produtos de organização da informação e as questões de formação e atuação profissional na área. 17 De modo a cumprir os objetivos da pesquisa, a seção 2 apresenta um resgate teórico acerca da representação do conhecimento a partir dos princípios postulados por Buckland (1991), partindo da OC enquanto disciplina. A seção 3 estrutura uma discussão acerca dos aspectos éticos que permeiam a OC, as biasses na representação do conhecimento nesse contexto, bem como algumas pontuações sobre a não-neutralidade dos processos, instrumentos e produtos de representação do conhecimento. A seção 4, por sua vez, aborda a questão feminina e seus reflexos na representação do conhecimento a partir de biasses em um contexto multicultural e de Direitos Humanos. A seção 5 descreve os procedimentos metodológicos utilizados e é composta por uma caracterização geral do corpus da pesquisa, enquanto a seção 6 apresenta os resultados e as discussões dos mesmos a partir da literatura selecionada. A seção 7 finaliza essa reflexão, por meio das considerações finais. Ressalta-se que houve a tentativa de adequar o presente texto ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Lisboa, 1990). 18 2 ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO A OC, como disciplina, contribui diretamente com o campo da CI9 e, como recorda Guimarães (2000b), para se abordar teoricamente a OC, enquanto área de estudo, há, primeiramente, de se diferenciar duas concepções de conhecimento: a) enquanto processo individual; e b) enquanto algo sobre o qual existe um certo consenso social, trabalhando-se aqui com o conhecimento registrado e divulgado. Um campo, conforme explica Saracevic (1996) é definido pelos problemas que lhe são endereçados e as metodologias que ele elege para solucioná-los. Dessa maneira, a CI é definida como um campo englobando tanto a pesquisa científica quanto a prática profissional. A razão da existência e da evolução da CI, de acordo com Saracevic (1996), pode ser sintetizadas nos seguintes pontos: 1) É, por natureza, interdisciplinar, embora suas relações com outras disciplinas estejam mudando; 2) Está ligada à tecnologia da informação. O imperativo tecnológico causa forte impacto na CI, como ocorre também em outros campos. Em sentido amplo, o imperativo tecnológico está impondo a transformação da sociedade moderna em sociedade da informação, era da informação ou sociedade pós-industrial (ou, como acreditam alguns pensadores, pós-moderna); e 3) É, juntamente com muitas outras disciplinas, uma participante ativa e deliberada na evolução da sociedade da informação. A CI teve e tem um importante papel a desempenhar por sua forte dimensão social e humana que ultrapassa a tecnologia. Nesse cenário, a OC, assim como muitos campos contemporâneos, busca sedimentar- se e evoluir nos diversos ambientes, atuais e futuros. Segundo Esteban Navarro e García Marco (1995, p. 151, tradução nossa), “A construção da disciplina OC deve ser feita a partir das e para as Ciências da Documentação10.” A OC trata-se, então, de uma disciplina: [...] dedicada ao estudo e desenvolvimento dos fundamentos e técnicas do planejamento, construção, gestão, uso e avaliação de sistemas de descrição, 9 É uma ciência interdisciplinar que investiga as propriedades e o comportamento da informação, as forças que governam o fluxo e o uso da informação, e as técnicas, ambas manual e mecânica, do processamento da informação para ótimo armazenamento, recuperação, e disseminação (BORKO, 1968, p. 5, tradução nossa). 10 Ressalta-se que a expressão Ciência da Informação é mais utilizada na tradição norte-americana, enquanto a Europa continental se vale do termo Ciências da Documentação. 19 catalogação, ordenação, classificação, armazenamento, comunicação e recuperação dos documentos criados pelo homem para testemunhar, conservar e transmitir seu saber e seus atos, a partir de seu conteúdo, com o fim de garantir sua conversão em informação capaz de gerar novo conhecimento. Trata-se, portanto, de uma ciência tridimensional, já que se ocupa dos princípios, métodos e instrumentos postos em ação para a gestão do conhecimento humano desde uma tripla perspectiva: sua representação, sua organização e sua comunicação documental. Não obstante, a Ciência da Representação, Organização e Comunicação do Conhecimento, denomina-se de modo mais comum e breve Organização do Conhecimento, devido a que a organização é o elemento mediador entre os outros dois atos; já que, por um lado, a representação se efetua com a finalidade de permitir uma eficaz organização, e, por outro, a comunicação exige uma correta recuperação, cujo êxito depende da qualidade da organização (ESTEBAN NAVARRO; GARCÍA MARCO, 1995, p. 149, tradução nossa). McIlwaine e Mitchell (2008) colocam alguns pontos que norteiam essa discussão: O que é OC? Quais são os significados de documento, informação e conhecimento em OC? Quais são as questões definidas em OC? Quais campos têm interesse nas questões definidas em OC? Quais epistemologias, teorias e metodologias são relevantes no campo de OC? Quais são as questões comuns de pesquisa em OC? Quais são as questões de pesquisa em longo prazo em OC? Quais relacionamentos são específicos em OC? O que são sistemas de OC? Elegeu-se para início de uma discussão teórica nesta seção a busca por um esclarecimento sobre o objeto e escopo da OC e a representação do conhecimento nesse contexto. Para tanto, será utilizada, principalmente, a abordagem apresentada pela International Society for Knowledge Organization (ISKO), uma vez que se segue sua linha de pensamento enquanto sociedade internacional que ampara as discussões formais do campo. Em relação aos aspectos históricos, a OC pode ser sistematizada, conforme ensina Hjørland (2008b, p. 87-88, tradução e grifo nossos), em sete abordagens, as quais são comentadas a seguir. 1) Abordagem tradicional da OC expressa pelos sistemas de classificação (aproximadamente em 1876); Ressaltam-se as contribuições de: Charles Ami Cutter (1837-1903): Regras para um Catálogo Dicionário, Expansive Classification e Tabela Numérica de Autor; Henry Evelyn Bliss (1870-1955): Bibliographic Classification e literatura produzida; Library of Congress; Melville Louis Kossuth Dewey (1851-1931): CDD, publicada em 1876 como Dewey Decimal Classification; Paul Otlet (1869-1944): Traité de Documentation (1934); e Paul Otlet e Henri de La Fontaine (1854-1943): Classificação Decimal Universal (CDU), publicada em 1905 como Manuel du répertoire bibliographique universel; dentre outros. 20 Inserem-se aqui, também, as contribuições de Julius Kaiser enquanto precursor da facetagem. Straioto e Guimarães (2004) esclarecem que: Embora sintético Kaiser apresenta em sua proposta as bases essenciais para o tratamento temático facetado, pois contempla as dimensões estática e dinâmica do conteúdo. O sistema de Kaiser [Systematic Indexing, 1911], embora idealizado para uma literatura de natureza mais técnica, aplica-se a documentos de naturezas distintas pois a essência temática (concreto) e as ações que lhe aplicam (processos) estão presentes nas mais distintas áreas do conhecimento. 2) Abordagem analítico-facetada instituída por Ranganathan aproximadamente em 1933 e mais adiante desenvolvida pelo British Classification Research Group; Shiyali Ramamrita Ranganathan (1892-1972) estabeleceu em 1931 as Cinco leis da CI (1- Os livros são para serem usados; 2- A cada leitor o seu livro; 3- A cada livro o seu leitor; 4- Poupe o tempo do leitor; 5- A biblioteca é um organismo em crescimento); o Sistema de Classificação de Dois Pontos (Colon Classification, 1933), bem como teve sua teoria desenvolvida pelo British Classification Research Group (composto por professores, documentalistas e cientistas da informação, tais como: “[...] Vickery, Mills, Foskett, Coates, Palmer, Langridge e Austin, dentre outros” (STRAIOTO; GUIMARÃES, 2004)). “A influência de Ranganathan nos trabalhos do Classification Research Group se fez sentir, ainda, em projetos específicos de alguns de seus membros, como o PRECIS de Derek Austin e o Thesaurofacet de Jean Aitchison” (STRAIOTO; GUIMARÃES, 2004). Ressalta-se que o PRECIS (Preserved Context Index System, 1984) consiste em um sistema pré- coordenado de indexação alfabética com uma parte sintática e uma semântica, enquanto o Thesaurofacet (1969) consiste na combinação do tesauro com a tabela de classificação. 3) A tradição da recuperação da informação instituída na década de 1950; Nesse momento, a ênfase recaía na recuperação do registro em si mesmo, de acordo com estudos de Lancaster. Assim, pontos de acesso de assunto, por exemplo, “[...] eram vistos, frequentemente, como meras ‘condensações semânticas’ dos textos representados (implicando que o objetivo final era a representação do texto completo e nada mais)” (HJØRLAND, 2003, p. 90, tradução nossa). Desse modo, a maioria das pesquisas utilizavam metodologias quantitativas, enquanto uma pequena parte apresentava caráter qualitativo. 4) Visões orientadas ao usuário, de natureza mais cognitiva ganhando influência na década de 1970; 21 5) Abordagens bibliométricas seguindo a construção do Science Citation Index de Garfield em 1963; A respeito dessas duas abordagens, Hjørland (2003, p. 89, tradução nossa) explica que o surgimento dos estudos de usuários (Ex.: Bernal) e bibliométricos (Ex.: Bradford) “[...] podem primeiramente e mais importante, serem caracterizados por uma abordagem de conteúdo documental mais específica, um nível mais profundo de indexação, maior ênfase na tecnologia moderna e uma atitude mais científica acerca dos objetivos e problemas.” 6) Abordagem analítica de domínio (formulada aproximadamente em 1994); Considera-se, nessa abordagem, que as unidades básicas da OC são as “[...] relações semânticas das relações entre os conceitos [e que toda] relação semântica não pode ser estabelecida, primeiramente, por considerações universalistas, mas deve ser entendida como um domínio específico, como descoberto por (e construído por) disciplinas científicas” (HJØRLAND, 2003, p. 107, tradução nossa). 7) Outras abordagens (entre as sugestões mais recentes estão as abordagens da semiótica, da crítica hermenêutica, da análise do discurso e a baseada em gênero). Uma importante tendência é a ênfase nas representações do documento, tipologia e descrição do documento, linguagens de marcação, arquiteturas do documento etc. Em cada abordagem apresentada inserem-se metodologias e teorias diversas, as quais não são abordadas nessa pesquisa, mas podem ser recuperadas em Hjørland (2002, 2003). Especificamente na área de Biblioteconomia, Guimarães (2000b, p. 208, grifo nosso), pautando-se nos estudos de Dahlberg, verifica três fases na OC, sendo elas: a) fase classificatória original (ou notacional), em que a tônica residia no organizar para achar (Dewey, LC etc.); b) fase tesáurica (ou alfabética), marcada pela ruptura com os sistemas tradicionais de classificação, buscando em referenciais da Linguística soluções para a representação temática da informação; c) nova fase classificatória (ou fase classificatória revisitada, como define Dahlberg), em que reconhece a complementaridade da organização lógica de conceitos e de sua representação linguística (Bliss, CRG, Aitchison, ISKO). Ressalta- se que foi nesse momento que Dahlberg fundamentou a Teoria do Conceito. Em relação ao conceito e objeto de estudo, Hjørland (2008b) atesta que o termo OC é originado no campo da Biblioteconomia e foi estabelecido por volta de 1900 por autores como Charles Ami Cutter e Ernest Cushington Richardson e estabilizado por W. C. Berwick Sayers e Henry Bliss. O livro The organization of knowledge and the system of the sciences, 22 de Henry Bliss (1929), “[...] representa uma das principais contribuições intelectuais no campo” (HJØRLAND, 2008b, p. 97, tradução nossa). Ao sintetizar as ideias dos referidos autores, Hjørland (2008b, p. 97, tradução nossa) destaca que as classificações bibliográficas “[...] são baseadas na organização do conhecimento, em como ela aparece na ciência e no saber”, refletindo a natureza da realidade. Bliss acreditava que o conhecimento é, relativamente, “[...] segurança e verdade, que é a razão pela qual um tipo de consenso poderia ser estabelecido. Por causa disso, Bliss e sua escolha contemporânea do termo ‘organização do conhecimento’, ‘conhecimento’ entendido na tradição Platônica como ‘autêntico, crença verdadeira’” (HJØRLAND, 2008b, p. 97, tradução nossa). Duas visões de conhecimento podem ser contrastadas na OC, conforme ensina Hjørland (2008b), sendo elas: 1) Visão positivista: Conhecimento e OC enquanto uma transcrição nua ou duplicação de algum arranjo acabado e feito pré-existente na natureza; 2) Visão pragmática: Conhecimento e OC como alguma coisa construída para lidar com algumas necessidades e interesses humanos. O autor acredita que deveria se conversar sobre knowledge claims (declarações de conhecimento) e organization of knowledge claims (organização de declarações de conhecimento). A implicação é que “[...] cada declaração de conhecimento é amparada por e ligada a argumentos, teorias e visões de mundo. Se isso for reconhecido pelas pessoas que executam a OC, então a atividade não está baseada no ‘positivismo’” (HJØRLAND, 2008b, p. 98, tradução nossa). Nessa mesma linha de pensamento, Guimarães (2000b, p. 208) destaca que se verificam dois tipos de preocupações advindas da área da Documentação, ou seja, “Em um âmbito teórico, tem-se a necessidade de sistematização e consolidação de um conhecimento (conjunto de saberes) verificável em uma dada sociedade em um dado momento histórico, com o objetivo de transmissão”, destacando os trabalhos dos filósofos ligados à Teoria do Conhecimento, tais como Aristóteles, Platão, Porfírio, Bacon e Harris, e educadores, tal como Comênio. Por outro lado, tem-se, em um âmbito mais pragmático, “[...] a necessidade de resgate do conhecimento registrado em documentos, visando ao seu acesso, com um objetivo de recuperação” (GUIMARÃES, 2000b, p. 208), destacando os trabalhos de documentalistas, tais como Calímaco, Otlet e La Fontaine. Desse modo, a área de OC, como destaca Barité (2001, p. 41, tradução nossa), “[...] tem por objeto principal o conhecimento socializado [...]” e registrado, desempenhando, assim, uma função essencial entre a informação e o usuário. Enquanto disciplina abarca o 23 “[...] desenvolvimento de técnicas para a construção, a gestão, o uso e a evolução de classificações científicas, taxonomias, nomenclaturas e linguagens documentais. Por outro lado, aporta metodologias de uso e recuperação por meio de linguagem natural” (BARITÉ, 2001, p. 41, tradução nossa). Trata-se, desse modo, de um universo que, [...] procura, então, apresentar um modelo conceitual adequado às diversas práticas e atividades sociais vinculadas com o acesso do conhecimento, e pretende operar como instrumento de tratamento da informação, e da gestão de uso da informação, abarcador e integrador dos fenômenos e das aplicações vinculados à estruturação, à disposição, ao acesso e à difusão do conhecimento socializado (BARITÉ, 2001, p. 39-40, tradução nossa). Nesse sentido, a OC, conforme ensina Guimarães (2000b, p. 210), realiza um circuito, sendo “[...] o estudo das possibilidades de organização de um conhecimento registrado sob a perspectiva de geração de novo conhecimento que, uma vez registrado, transforma-se em informação (conhecimento em ação, na concepção de Dahlberg, 1993, p. 214) para gerar novo conhecimento.” Esse universo é amparado pela ISKO, que é a primeira sociedade acadêmica internacional dedicada à teoria e à prática da OC. McIlwaine e Mitchell (2008) sinalizam que apesar de a maioria dos membros da ISKO advirem da área da BCI, a OC não se limita a esse campo e destacam as contribuições interdisciplinares e a confusão sobre o significado de organização do conhecimento e sua relação com outros campos como gestão do conhecimento, por exemplo. De acordo com um anúncio publicado na revista International Classification11, no dia 22 de julho de 1989, um grupo de alemães e não-alemães da Sociedade Alemã de Classificação reuniu-se no restaurante Intercity, em Frankfurt, fundou a ISKO e estabeleceu as propostas da sociedade, elegendo como presidente a Drª. Ingetraut Dahlberg. A sociedade foi criada, segundo o anúncio, com o objetivo de unir nacional e internacionalmente membros pessoais e institucionais, interessados em, segundo a carta patente Art. 4.1 “[...] pesquisa, desenvolvimento e aplicação de todos os métodos de organização do conhecimento em campos gerais ou particulares, integrando, especialmente, a aproximação das pesquisas em classificação e inteligência artificial.” 11 ANNOUNCEMENT. The foundation of the International Society for Knowledge Organization. Frankfurt, 22 july 1989. International Classification, Frankfurt, v. 16, n. 2, p. 71-72, 1989. 24 A ISKO tem atuado, assim como o proposto, como um fórum internacional em um âmbito amplo e interdisciplinar, contribuindo para o avanço da produção literária em OC em todas as suas formas, inclusive bases de dados, bibliotecas, dicionários e Internet. Atualmente, A ISKO tem como presidente (2006-2010) a Drª. María José López- Huertas, professora da Faculdade de Biblioteconomia e Documentação, Universidade de Granada, Granada, Espanha, e desempenha como atividades mais importantes: conferências internacionais a cada dois anos; conferências nacionais e regionais em tópicos especiais; publicações de caráter científico na Knowledge Organization; um boletim informativo incorporado a Knowledge Organization intitulado ISKO News; e as séries Advances in Knowledge Organization - AKO e Knowledge Organization in Subject Areas - KOSA. A revista Knowledge Organization12 (KNOWLEDGE..., 2008) reflete os interesses da própria sociedade, atua como fórum para todos aqueles interessados na OC em um domínio de escala universal ou específica, utilizando abordagens de conceito analítica ou sintética, assim como metodologias quantitativas e qualitativas. A revista também veicula compilações intelectual e automática e uso de sistemas de classificação e tesauro em todos os campos do conhecimento, com atenção especial aos problemas de terminologia. A sociedade coopera com organizações nacionais e internacionais, como por exemplo: a UNESCO; a European Comission; International Organization for Standardization - ISO; International Federation of Library Associations and Institutions - IFLA, principalmente com a Seção de Classificação e Indexação; a American Society for Information Science and Technology - ASIST, especialmente com o SIG/ CR (o Grupo com Interesse Especial em Pesquisa em Classificação); Networked Knowledge Organization Systems/ Services - NKOS; e The International Information Centre for Terminology - Infoterm. Em suma, a ISKO [...] está concebida como um círculo internacional de pesquisadores, especialmente aqueles inerentes à Ciência da Informação, que trabalham com os problemas relacionados à organização conceitual do conhecimento, trazendo influências das teorias desenvolvidas por Ranganathan e pelo Classification Research Group (PINHO, 2006, p. 15). 12 A Knowledge Organization, distribuída trimestralmente pela ERGON-Verlag (ISSN: 0943-7444), Würzburg, Alemanha, apresenta fator de impacto ISI 0,533. Criada em 1973 por um grupo de acadêmicos que contava com um grupo editorial que representava as regiões do mundo e também, os ramos especiais da classificação e as áreas de assunto envolvidas, a revista era intitulada International Classification. Em 1989, tornou-se órgão oficial da ISKO e, em 1993, no volume 20, seu nome mudou para Knowledge Organization. O conteúdo da revista é indexado e resumido nas bases de dados: Information Science Abstracts; INSPEC; Library and Information Science Abstracts - LISA; Library Literature; PASCAL; Referativnyi Zhurnal Informatika; e Sociological Abstracts. O editor-chefe da Knowledge Organization é o Dr. Richard P. Smiraglia, professor da Escola de Biblioteconomia e Ciência da Informação da Long Island University, New York, Estados Unidos. 25 De acordo com Dahlberg (2008), a assembleia fundadora da ISKO decidiu não utilizar mais em seu nome classificação por causa das sociedades de classificação numericamente orientadas. “Uma vez que o termo ‘ordem’, como foi utilizado no título da minha dissertação poderia implicar no inglês outra conotação, pensamos em utilizar ‘organization of knowledge’ como Bliss havia feito em seus dois livros” (DAHLBERG, 2008, p. 84, tradução nossa). Posteriormente, decidiu-se denominar knowledge organization, enquanto um termo mais sucinto e que traduziria fielmente o termo em alemão. Dahlberg (2008) explica que o termo foi aceito e “Todavia, nosso campo de empreendimento é a classificação conceitual, bem como, é claro, a teoria do conceito, indexação do conceito, representação/ terminologia do conceito” (DAHLBERG, 2008, p. 84, tradução nossa). A ampla aceitação da OC, embora confundida por algumas pessoas com gestão do conhecimento, entre outras áreas, “[...] implica que ela tem que se mudar do presente lugar sob ‘classificação e indexação’ nos estabelecimentos da BCI, onde ela é até mesmo negligenciada por causa das novas possibilidades da Internet” (DAHLBERG, 2008, p. 85, tradução nossa). A autora ressalta que para o desenvolvimento conceitual do conhecimento da área, há a necessidade do reconhecimento das contribuições interdisciplinares, mais especificamente dos cientistas e especialistas de cada campo de assunto, dos terminologistas e dos especialistas treinados em OC. Dahlberg (2008, p. 85, tradução nossa), alerta que: Somente se essa nova ciência puder ser considerada como um campo de empreendimento científico, ela receberá a reputação que merece. Por isso, institutos de organização do conhecimento devem ser estabelecidos onde se trabalhe a definição e sistematização (estabelecendo a posição correta de cada conceito no sistema) em um dado campo do conhecimento [...] E Pinho (2006, p. 20) completa que “[...] é difícil esboçar o progresso teórico e científico da área, visto que, nesse campo, a maior parte dos pesquisadores segue linhas de pensamento diferentes, além de estar fragmentado, ocasionando a falta de uma melhor fundamentação teórica sobre a própria área [...]” Em relação aos fundamentos teóricos que abarcam a OC, pontuam-se dois sentidos: estrito e amplo13. 13 Brascher e Café (2008) não concordam com Hjørland, e, consequentemente, com a presente pesquisa, e fazem uma distinção entre OC (construção de modelos de mundo que se constituem em abstrações da realidade, por meio de estruturas conceituais - representação do conhecimento) e Organização da Informação (arranjos 26 No sentido estrito, de acordo com Hjørland (2008b, p. 86, tradução nossa), a OC aborda [...] atividades tais como descrição de documentos, indexação e classificação executadas em bibliotecas, bases de dados bibliográficas, arquivos e outros tipos de “instituições de memória” por bibliotecários, arquivistas, especialistas em informação, especialistas de assunto, bem como por algoritmos de computador e leigos. O autor destaca a BCI como a disciplina central dessa abordagem estrita, influenciadas por outras como a ciência da computação, por exemplo. Em um sentido mais amplo, conforme explica Hjørland (2008b, p. 86, tradução nossa), a OC refere-se à “[...] divisão social do trabalho mental, p. ex. a organização de universidades e de outras instituições para pesquisa e educação superior, a estrutura de disciplinas e profissões, a organização social da mídia, a produção e disseminação do ‘conhecimento’ etc.” Em síntese, no sentido amplo a OC aborda a organização social do conhecimento (p. ex.: organização acadêmica) e no sentido estrito a OC abarca a organização documental (p. ex.: o processo de indexação). Assim, “Não existe um ‘universo do conhecimento’ fechado que possa ser estudado pela OC isolado de todos os estudos da realidade de outras ciências” (HJØRLAND, 2008b, p. 87, tradução nossa). A descrição do campo de OC perpassa outras perspectivas teóricas, desse modo, Hjørland (2008b, p. 87, tradução nossa) ressalta que “[...] temos que examinar e interpretar diferentes rótulos utilizados por abordagens muito honesta e cuidadosamente. Diferentemente, ficaremos em um campo muito desordenado.” Em relação à tecnologia da informação, o progresso da OC é influenciado por cinco estágios, sendo eles: indexação manual e classificação em bibliotecas e serviço de referência; documentação e comunicação científica; armazenamento e recuperação da informação por computadores; recuperação baseada em citação e Organização do Conhecimento; texto completo, hipertexto e internet (HJØRLAND, 2003). A essa discussão estão aliadas as dez premissas básicas que embasam teoricamente a OC, propostas por Barité (2001, p. 42-53, tradução nossa), a saber: sistemáticos, por meio das descrições física e de conteúdo - representação da informação). Tem-se, dessa maneira, “[...] dois tipos distintos de processos de organização, um que se aplica às ocorrências individuais de objetos informacionais - o processo de organização da informação, e outro que se aplica a unidades do pensamento (conceitos) - o processo de organização do conhecimento” (BRASCHER; CAFÉ, 2008). 27 1) O conhecimento é um produto social, uma necessidade social e um dínamo social; 2) O conhecimento se realiza a partir da informação e, ao se socializar, se transforma em informação; 3) A estrutura e a comunicação do conhecimento formam um sistema aberto; 4) O conhecimento deve ser organizado para o seu melhor aproveitamento individual e social; 5) Existem “n” formas possíveis de organizar o conhecimento; 6) Toda organização do conhecimento é artificial, provisional e determinista; 7) O conhecimento se registra sempre em documentos, como conjunto organizado de dados disponíveis e admite usos indiscriminados; 8) O conhecimento se expressa por meio de conceitos e é organizado por meio de sistemas de conceitos; 9) Os sistemas de conceitos se organizam para fins científicos funcionais ou de documentação; 10) As leis que regem a organização de sistemas de conceitos são uniformes e previsíveis e se aplicam por igual a qualquer área disciplinar. Em suma, “As tradições, ideologias e paradigmas na OC devem ser vistos como a combinação de conceitos entre a organização intelectual e social14. Elas são organizações cognitivas baseadas em influências sociais” (HJØRLAND, 2003, p. 94, tradução nossa). Hjørland (2003) ensina que paradigmas15 são compostos por: 1) Ideais e crenças sobre ciência (objetivos epistêmicos, métodos e critérios na produção e avaliação de resultados científicos dentro da disciplina); 2) Hipóteses de visão de mundo, suposições ontológicas básicas; e 3) Ideais significativos para a sociedade e cultura, para uso prático e para a sabedoria. 14 Hjørland (2003) sinaliza a existência da OC Cognitiva - estrita - (OC em conceitos, sistemas conceituais e teorias) e a OC Social - ampla - (OC em profissões, tendências e disciplinas). 15 Dentro de uma disciplina formal, diversas teorias maiores podem coabitar, mas há um paradigma apenas quando uma teoria experimentada domina sozinha todas as teorias e é aceita por toda a comunidade científica. Quando Pasteur descobriu o micróbio, a teoria da geração espontânea ruiu: contágio se tornou o novo paradigma. Nas ciências sociais, no entanto, vemos, quando muito, um confronto entre diversas teorias não testadas. Na maior parte do tempo não há um confronto ainda, mas cuidadosa anulação mútua, desprezo de todos os lados. Isso é relativamente fácil devido à extensão das disciplinas científicas, e suas divisões nas escolas; isso é verdadeiro para todos os países, grandes ou pequenos (DOGAN, 2001, p. 11024 citado por HJØRLAND, 2003, p. 100, tradução nossa). DOGAN, M. Paradigms in the social sciences. In: SMELTSER, N. J.; BALTES, P. B. (Ed.). International Encyclopedia of the Social & Behavioral Sciences. Amsterdam: Elsevier, 2001. v. 16. p. 11023-11027. 28 As bases da OC na CI “[...] são fortemente ligados à discussão das diferentes teorias da epistemologia” (HJØRLAND, 2003, p. 107, tradução nossa), mas atua, ainda, como uma teoria maior. Destaca-se, nesse sentido, uma variedade de paradigmas percebida no decorrer da história da CI e, consequentemente, da OC. Assim, tem-se, segundo Guimarães (2000b, p. 210): a) no documento, o suporte (que, como tal, deve ser objeto de estudo, mormente em questões relativas a sua proveniência, organicidade e autenticidade) pois, como afirma Popper, ao mundo físico e cultural se agrega o mundo documental; b) na informação [aqui entendida como conhecimento registrado e socializado composto por informações em potencial], o conteúdo veiculado pelo documento, sua fonte primordial de busca; c) no conhecimento, o que se almeja com a apropriação da informação. Considerando que a OC é um marco teórico-conceitual que lida com o conhecimento registrado e socializado, amparando, dessa maneira, a atuação do profissional da informação, destaca-se a representação do conhecimento como sendo sua principal contribuição para a área da CI, por meio das representações (físicas, digitais e virtuais) descritiva e temática do conhecimento. Nas palavras de Barité (2001, p. 38, tradução nossa), a OC, enquanto um fazer do profissional da informação, busca apresentar “[...] subsídios teóricos (e realimentar-se) com tudo aquilo que é relativo ao tratamento da informação, particularmente com o tratamento temático da informação, e de um modo menos específico - mas não menos importante - com a gestão do uso social da informação.” 2.1 Representação do conhecimento Em relação à questão da representação do conhecimento, enquanto uma importante faceta da OC que, como simplifica Buckland (1991), não é mais do que um determinado filme é de um determinado evento, destaca-se que tem como objetivo a recuperação relevante de informação pelo usuário a partir de sistemas de organização e representação do conhecimento (SORC). 29 Sobre o feedback com relevância, resultado e valor muito prezados pela OC a partir da representação do conhecimento, Hjørland (2008b, p. 92, tradução nossa) pontua que: 1. [...] é baseado em certas premissas sobre o conhecimento do usuário que é muito inexplorado e pode comparecer para ser altamente irreal: Se os usuários não têm o conhecimento necessário para classificar um domínio, não podem distinguir documentos relevantes e não-relevantes e são, dessa forma, incapazes de fornecer feedback úteis. 2. [...] representa relações semânticas não específicas e não claras entre documentos considerados relevantes. Por que preferir um tipo de sistema que implique relações não específicas ao invés de relações específicas e controladas pelo usuário? Os resultados do feedback com relevância têm considerado principalmente os resultados estatísticos e têm se esquecido “[...] de investigar como diferentes tipos de representação e algoritmos podem servir a diferentes visões e interesses” (HJØRLAND, 2008b, p. 87, tradução nossa). Em outras palavras, a relevância, assim como muitas outras variáveis que envolvem a recuperação da informação, deixou de ser apenas uma medida estatística para assumir o papel de valor da área no tocante ao usuário e suas necessidades de informação, conforme ressaltam Guimarães et al. (2008). Hjørland (2008b) destaca a confusão que ocorre na área entre os conceitos usuário e subjetividade (visões coletivas compartilhadas por muitos usuários). Há a necessidade da valorização da criação de diferentes representações do mesmo documento para amparar diversos usuários, bem como o reconhecimento da não-objetividade e não-neutralidade da representação do conhecimento, e, principalmente, que uma representação do conhecimento não ampara a todos. Quando se adentra em discussões conceituais é interessante destacar a divisão que Buckland (1991)16 apresenta desse processo: informação-como-processo (alguém é informado de algo e o que ele sabe se modifica; ato de informar); informação-como-conhecimento (o conhecimento comunicado diz respeito a algum fato particular, assunto ou evento; fruto do processo de informar), ambas envolvendo a Ciência Cognitiva; e informação-como-coisa (objetos, como dados ou documentos, considerados informativos). 16 Partilhando da visão do autor, Smit e Barreto (2002, p. 21) definem informação como sendo “[...] estruturas simbolicamente significantes, codificadas de forma socialmente decodificável e registradas (para garantir permanência no tempo e portabilidade no espaço) e que apresentam a competência de gerar conhecimento para o indivíduo e para o seu meio. Estas estruturas significantes são estocadas em função de um uso futuro, causando a institucionalização da informação.” 30 Qualquer representação “[...] está necessariamente na forma tangível (indício, sinal, dado, texto, filme etc.) e então representações do conhecimento (e de eventos) são necessariamente ‘informação-como-coisa’” (BUCKLAND, 1991, p. 352, tradução nossa). Esclarece-se, assim, que “[...] qualquer expressão, descrição ou representação pode ser informação-como-coisa” (BUCKLAND, 1991, p. 351, tradução nossa), que é o objeto das áreas aplicadas da CI, que podem ser denominadas no todo como Documentação: Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia. Smit (1994) diferencia a representação (ou descrição) nessas três áreas aplicadas, chamadas por ela de “3 Marias” (devido aos laços comuns que as perpassam), da seguinte maneia: Na Biblioteconomia a descrição é realizada apenas uma vez, havendo apenas algumas exceções, como no caso da baixa do acervo. Já o arquivista “[...] trata os documentos de acordo com sua origem, imaginando cada documento inserido numa ordem maior de documentos que representam funções semelhantes, priorizando, consequentemente, a questão da tipologia documental [...]” (SMIT, 1994, p. 13). Os museólogos, por sua vez, “[...] consideram que a descrição que fazem dos objetos que têm sob sua guarda pode ser constantemente apurada, em decorrência de novas pesquisas e novas informações [...]” (SMIT, 1994, p. 13). Deve-se, dessa maneira, tomar muito cuidado com os intercâmbios dos profissionais da informação entre as “3 Marias”, dada as especificidades do processo de representação em cada área. Nos SORC, potencializados pelas tecnologias de informação e comunicação, muita da informação “[...] tem sido processada por ser codificada, interpretada, resumida, ou, de outro modo, transformada” (BUCKLAND, 1991, p. 358, tradução nossa) e muitas vezes alguma coisa do original é perdida, mesmo que seja somente incompleteza, finaliza o autor. Em uma vertente mais aplicada, “[...] não pode haver algo como um sistema especialista ‘baseado em conhecimento’ [knowledge-based] ou um sistema ‘de acesso ao conhecimento’ [knowledge access], somente sistemas baseados em representações físicas do conhecimento” (BUCKLAND, 1991, p. 352, tradução nossa), conforme exposto na página 22. Parte-se, então, da divisão que o autor coloca: aspectos da informação intangíveis: informação-como-conhecimento; conhecimento (Entidade 2); informação-como-processo; tornar-se informado (Processo 1); e tangíveis: informação-como-coisa; dado, documento (Entidade 3); e processamento da informação; processamento do dado (Processo 4). A CI lida com coisas que tenham o mínimo de materialidade e institucionalização (monumentalização e estar ao lado de seus congêneres, respectivamente), quando há um 31 referente, um registro, uma evidência17, ou seja, uma representação primária que possa se perpetuar no tempo e no espaço. O conhecimento tem de ser materializado para ser socializado. Nesse contexto, Guimarães (2008) comenta o reflexo das ideias de Otlet nos trabalhos do próprio Michael Buckland e de Suzanne Briet (Qu’est-ce que la documentation, 1951) e destaca que Briet “[...] preocupou-se com a delimitação conceitual de documento enquanto evidência concreta ou simbólica, registrada e conservada, visando a representar, reconstruir ou provar um fenômeno físico ou intelectual” (GUIMARÃES, 2008, p. 35). O documento, de acordo com a autora, afirma Guimarães (2008), pressupõe: delimitação espacial e temporal; caráter permanente na medida em que conserva um conteúdo e inteligibilidade18. No tocante aos objetos, a abordagem dos documentalistas era de usar documento “[...] como um termo genérico para denotar qualquer fonte de informação física em vez de limitá-lo a objetos de texto em um meio físico específico como um papel, papiro, vellum, ou microfilme” (BUCKLAND, 1991, p. 354, tradução nossa), assim, segundo o autor, objetos se tornam documentos assim que são processados para propósitos informacionais. O autor divide os objetos em: artefatos intencionais a constituir discurso (tais como livros), artefatos que não foram intencionais (tais como navios), e objetos que não são artefatos (tais como animais). Entende-se por discurso uma composição de sentidos advinda de um sujeito ou uma comunidade. O texto (em todas as suas manifestações e formas) atua como a materialização de um discurso e ao analisá-lo a partir da metodologia da análise de discurso, assim como ocorre nos processos de representação do conhecimento, o analista “[...] através de um dispositivo analítico, [...] explicita (torna visíveis) os gestos de interpretação que textualizam a discursividade e ele interpreta os resultados dessa análise, no interior de um dispositivo teórico” (ORLANDI, 2008, p. 78). Buckland (1991) apresenta, assim, três diferentes modos de evidência de eventos, sendo elas: 1) objetos, que podem ser colecionados e representados, podem existir como evidência associada a eventos, p. ex.: manchas de sangue no carpete ou uma pegada na areia; 2) Representações do evento em si mesmo, p. ex.: fotos, reportagens de jornais, biografias, tais documentos podem ser armazenados e recuperados; e 3) Criação ou recriação de 17 Evidência é um termo apropriado porque denota alguma coisa relacionada ao entendimento, alguma coisa que, se encontrada e entendida corretamente, poderia mudar o conhecimento, as crenças de alguém, no que diz respeito a uma questão (BUCKLAND, 1991, p. 353, tradução nossa). Isso ocorre com a evidência no aprendizado, por exemplo, enquanto base para o entendimento. 18 “Com isso, a autora distingue fenômenos, objetos e criaturas (como uma estrela no céu, uma pedra no rio ou um animal na selva) de documentos propriamente ditos (tais como uma foto da estrela, a pedra no museu e o animal no jardim zoológico)” (GUIMARÃES, 2008, p. 35). 32 eventos, p. ex.: nas ciências experimentais isso é considerado como sendo de grande importância para um experimento - um evento - ser desenhado e descrito de modo que esse possa ser replicado subsequentemente por outros. Desde que um evento não possa ser armazenado e desde que as explicações dos resultados sejam não mais do que rumores de evidência, a possibilidade de re-executar o experimento bem como a validade da evidência, da informação, poder ser verificada, é altamente desejável. Emergem, então, duas questões: o que chamar de “outras coisas informativas” (tais como fósseis, pegadas e gritos de terror, por exemplo) e quanto é necessário processar e agregar ao dado para ele ser denominado informação? (BUCKLAND, 1991) Há uma diferença entre informação e informativo. O autor apresenta o exemplo da lista telefônica que é um recurso informativo mesmo que ninguém adquira informação a partir de uma recuperação neste recurso. Entra-se, nesse momento, em uma questão delicada da área, pois “Se qualquer coisa é, ou poderia ser, informativa, então tudo é, ou poderia ser, informação. Nesse caso chamar alguma coisa de ‘informação’ há pouco ou nada para defini-la. Se tudo é informação, então ser informação não é nada especial” (BUCKLAND, 1991, p. 356, tradução nossa). Ser informação é situacional. A característica essencial da informação-como-coisa deve ser situacional também. Na prática de arquivo, por exemplo, “[...] dois documentos fisicamente idênticos são considerados como diferentes se eles ocorrerem em diferentes lugares na ordem original dos arquivos” (BUCKLAND, 1991, p. 357, tradução nossa). Assim, a informação-como-coisa é significativa em dois sentidos: (1) Abandonar situações específicas e indicar um objeto ou evento pode evidentemente ser informativo, p. ex., constituir uma evidência que é usada de um modo que afete as crenças de alguém; e (2) Desde que o uso da evidência está predito, entretanto imperfeitamente, o termo “informação” é comumente e com razão usado para denotar alguma população de objetos cuja alguma probabilidade significante de ser utilmente informativa no futuro tem sido atribuída. É nesse sentido que o desenvolvimento de coleções está preocupado com coleções de informação (BUCKLAND, 1991, p. 357, tradução nossa). Do mesmo modo, a informação-como-processo, bem como a evidência envolvida na informação-como-processo, são situacionais. Aqui cabe ao profissional da informação refletir sobre um valor, já comentado nas páginas 29, que perpassa a sua atuação enquanto indexador - a relevância - ou seja, o objetivo de que as representações recuperadas respondam as 33 necessidades informacionais dos usuários, as quais foram materializadas no processo de busca da informação. Seguem algumas pontuações que constituem uma síntese do pensamento de Buckland (1991): 1) Embora todos os sistemas de informação lidem diretamente com a informação- como-coisa, pode-se criar alguma ordem para essa área. “As descobertas dessas artes úteis podem ser de grande significância, mas seus interesses estão primeiramente na evidência em si mesma” (BUCKLAND, 1991, p. 359, tradução nossa). 2) Sistemas de armazenamento e recuperação de informação “[...] podem lidar diretamente somente com ‘informação-como-coisa’, mas as coisas que podem ser armazenadas para a recuperação nas coleções reais ou virtuais variam de maneira significante” (BUCKLAND, 1991, p. 359, tradução nossa). 3) A representação do conhecimento consiste em “[...] um distinto subgrupo de informação-como-coisa e então poderia, em princípio, ser usada para identificar e definir outra classe de sistemas de informação nos quais o interesse primeiro é baseado no conhecimento representado” (BUCKLAND, 1991, p. 359, tradução nossa). Nesses casos, a informação-como-coisa “[...] está inevitavelmente com interesse, mas é somente um meio para lidar com a informação-como-conhecimento e, sendo meramente um meio, sua amplitude considerável é inimaginável” (BUCKLAND, 1991, p. 359, tradução nossa). 4) A informação-como-processo “[...] poderia também ser a base para definir uma classe de estudos relacionados à informação” (BUCKLAND, 1991, p. 359, tradução nossa), por meio de contribuições advindas da psicologia cognitiva, retórica e outros estudos de comunicação interpessoal e persuasão. A partir da reflexão sobre a terceira pontuação ora apresentada referente à representação do conhecimento, duas vertentes podem ser delineadas a partir dos aspectos a serem representados e organizados. Assim, enquanto a vertente descritiva, ou formal, volta-se primordialmente a aspectos físicos, ligados à localização do recurso informacional enquanto substituto19 (surrogate of knowledge, em inglês) desse conhecimento registrado e socializado, a vertente temática, ou de conteúdo, volta-se mais especificamente para o conteúdo informacional. Com o advento das tecnologias, a representação descritiva e a temática passaram por um processo de mesclagem, visto que na representação descritiva, por exemplo, o campo de 19 “Os substitutos são registros catalográficos que ficam no lugar dos itens materiais, como os livros” (OLSON, 2002, p. 65, tradução nossa). 34 autor (paternidade intelectual da obra) é também um conteúdo documental, pois é utilizado na recuperação da informação como tal. Entre os autores que têm tentado descrever o processo de representação do conhecimento, destaca-se Pinto Molina (1994), que estabelece uma sequência cronológica a que chama de analítico-sintético-textual, na qual identifica três estágios consecutivos: estágio da leitura e compreensão; estágio da inferência-interpretação; e estágio da síntese. Nesse sentido, a autora identifica cinco componentes básicos necessários ao processo: o texto, o contexto, a base do conhecimento do analista, os objetivos documentais e o método de validação dos resultados. Em relação aos processos de representação do conhecimento visando a extração do conteúdo documental, destaca-se a análise documental, indexação ou catalogação de assunto, considerando as distintas linhas teóricas das quais procedem (notadamente francesa, inglesa e norte-americana), que procuram caracterizar o universo da representação do conhecimento. A análise documental decorrente dos conceitos oriundos de Jean-Claude Gardin, é definida como “[...] um conjunto de procedimentos efetuados com o fim de expressar o conteúdo de documentos, sob formas destinadas a facilitar a recuperação da informação” (CUNHA, 1987, p. 40), ou seja, consiste em um conjunto de operações que visam a representar o conteúdo de um documento sob uma forma diferente de seu estado original (comprimento, complexidade e apresentação), facilitando assim a recuperação deste e/ ou sua posterior localização. Nesse sentido, seu universo abrange os processos específicos de análise (exame das partes do documento, leitura documental, identificação de termos e análise conceitual de acordo com a política de indexação e as necessidades dos usuários); síntese (processo de sumarização, seleção de termos, elaboração de enunciado de assunto e extração de conceitos/ palavras-chave) e representação (controle de vocabulário com as linguagens documentais e criação de índices). No primeiro processo, de acordo com Milani (2007), a ênfase recai no abandono de uma concepção simplista que, durante muitos anos, foi baseada no bom senso e no bem fazer profissional, em busca de estudos interdisciplinares (p. ex.: com a Linguística, a Lógica e a Terminologia) que permitam aproximar-se de uma abordagem mais metodológica de processos como por exemplo, a Leitura Documental em que, segundo Cintra (1987, p. 36), “[...] os textos são desautentificados, na medida em que são deslocados de seus contextos naturais.” Nesse sentido, a atividade do analista é permeada por seu conhecimento prévio e pela utilização de estratégias, pois “[...] enquanto o conhecimento prévio viabiliza, por força 35 de esquemas, uma leitura mais rápida, as estratégias, especialmente as metacognitivas, conduzem à eficácia da tarefa” (CINTRA, 1987, p. 36). Diferentemente da análise da forma de um documento com fins de representação e individualização, a representação do conteúdo documental refere-se ao conjunto de processos, instrumentos e produtos destinados a representar tematicamente o documento. Os processos que envolvem a OC são: análise documental (análise, síntese e representação) e classificação, os quais utilizam as linguagens documentais enquanto instrumentos (ou ferramentas)20, e por meio dos quais são gerados produtos, como: índices, resumos e notações de classificação. Os referidos instrumentos são denominados linguagens documentais e estão presentes em dois momentos do ciclo documental: entre a produção e a OC e entre a OC e a recuperação. 2.2 Linguagens documentais A respeito das linguagens documentais, que são vocabulários controlados, ou seja, linguagens não-naturais ou linguagens artificiais construídas de modo a estabelecer os descritores permitidos e seus relacionamentos para representar o conteúdo documental em um âmbito geral ou de um domínio específico, Cintra et al. (2002, p. 35) explica que: [...] diferentemente da LN [linguagem natural], o sistema de relações das LDs [linguagens documentais] não é virtual, bem como seus mecanismos de articulação são extremamente precários, em face daqueles existentes nas línguas em geral. Bem ao contrário, elementos dessa linguagem específica são selecionados de universos determinados e seu sistema de relações é construído, sendo indispensável, para utilizá-la, a existência de regras explícitas. Por esse motivo, as LDs [linguagens documentais] são linguagens construídas. Discutem-se os parâmetros utilizados para a construção, validação e avaliação das linguagens documentais, bem como os preconceitos materializados nelas mesmas e nos 20 As linguagens documentais “[...] não se confundem com léxicos, vocabulários, nomenclaturas e terminologias, embora incorporem elementos de todos eles” (CINTRA et al., 2002, p. 38). 36 substitutos do conhecimento gerados a partir delas e de que maneira se dá esse processo no caso dos grupos marginalizados21 pela atual sociedade (MILANI et al., 2009). As linguagens documentais atuam, então, como pontes22 entre o recurso informacional e o usuário a partir de “[...] uma normalização léxica, umas relações semânticas e uns critérios de ordenação a priori que permitem outorgar um ou vários lugares inequívocos a descrição bibliográfica em virtude dos pontos de acesso utilizados pelo usuário e o sistema” (CARO CASTRO; SAN SEGUNDO MANUEL, 1999, p. 102, tradução nossa). Para isso, há a eleição de termos, a estruturação das classes, as relações entre os termos a partir de “[...] princípios claros, lógicos e consistentes desenvolvidos na prática bibliotecária e obtidos em manuais, normas e diretrizes” (CARO CASTRO; SAN SEGUNDO MANUEL, 1999, p. 102, tradução nossa). Cintra et al. (2002, P. 35-36) baseadas nas obras de Jean-Claude Gardin ensinam que uma linguagem documental deve integrar três elementos básicos: • um léxico, identificado como uma lista de elementos descritores, devidamente filtrados e depurados; • uma rede paradigmática para traduzir certas relações essenciais e, geralmente estáveis, entre descritores. Essa rede lógico-semântica, corresponde à organização dos descritores numa forma que, latu sensu, poder-se-ia chamar classificação; e • uma rede sintagmática destinada a expressar as relações contingentes entre os descritores, relações que são válidas no contexto particular onde aparecem. A construção de “sintagmas” é feita por meio de regras sintáticas destinadas a coordenar os termos que dão conta do tema. Em relação à seleção e à representação léxica dos conceitos, há três princípios que deveriam orientá-las, sendo eles: o princípio de justificação baseado no conhecimento: o conjunto de termos deve se adequar ao conhecimento sobre um domínio da realidade que transmite a disciplina ou disciplinas das quais tratam os documentos; o princípio de justificação baseado na literatura: os termos autorizados se derivam dentro do possível do vocabulário que aparece nos documentos presentes em um sistema de informação documental; e o princípio de justificação baseado no uso: a eleição dos termos deve levar em conta as necessidades informacionais e o léxico empregado pelos usuários habituais, e, por 21 Entende-se por grupos marginalizados, indivíduos e/ ou comunidades que são tratados como se estivessem à margem da sociedade (sistema construído por seus cidadãos), em oposição a um grupo economicamente, politicamente e socialmente considerado dominante, o qual é considerado como pertencente ao centro da sociedade. 22 Nesse sentido, pode-se considerá-las como linguagem intermediária ou metalinguagem (GIL URDICIAIN, 2004). 37 tanto, os vocábulos que se pode presumir que foram utilizados inicialmente nas suas buscas no sistema de informação (ESTEBAN NAVARRO, 1997). A linguagem documental consiste, dessa forma, em “[...] todo sistema artificial de signos normalizados, que facilitam a representação formal do conteúdo dos documentos para permitir a recuperação, manual ou automática, da informação solicitada pelos usuários” (GIL URDICIAIN, 2004, p. 17-18, tradução nossa). Assim, reconhece-se a natureza conceitual da linguagem documental. Apresentam-se, abaixo, elementos que compõem as linguagens documentais, extraídos da compilação de Austin e Dale (1993) e Gil Urdiciain (2004): • Descritor (ou Termo preferido); • Não descritor (ou Termo Não-preferido); • Notas de escopo ou Nota Explicativa ou Definição; • Relação associativa: sintagmática (disciplina e seu objeto de estudo; processo e seu agente ou instrumento; ação e seu resultado ou produto; ação e seu sujeito passivo, conceitos ou produtos e suas propriedades; conceitos relacionados com suas origens; conceitos ligados por dependência casual; objetos e seus contra-agentes; conceitos e suas unidades de medida) (Termo Relacionado); • Relação de equivalência (USE/ Usado Para); • Relação hierárquica: paradigmática (situações lógicas: relação genérica - gênero/ espécie; Relação partitiva - todo/ parte; Relação enumerativa - geral/ específico, comum/ nome próprio) (Termo Genérico ou Termo Geral/ Termo Genérico Maior/ Termo Genérico Partitivo/ Termo Específico/ Termo Específico Partitivo). As linguagens documentais podem ser dos seguintes tipos: • Classificações hierárquicas (termos associados ou equivalentes); • Listas de cabeçalhos de assunto (a organização hierárquica é imperfeita, pois não se diferenciam as relações hierárquicas e associativas nem se esclarecem os critérios para definir as vinculações); e • Tesauros (estrutura semântica desenvolvida). 38 O sistema de classificação consiste, então, em uma “distribuição sistemática de conceitos em diversas categorias ou classes, de maneira que cada disciplina tenha um lugar predefinido. Trata-se de uma linguagem codificada de forma numérica, alfabética ou alfanumérica que pretende ser a descrição sintética do conteúdo dos documentos” (GIL URDICIAIN, 2004, p. 26, tradução nossa). Apresentando caráter enciclopédico, o sistema de classificação (ou seja, estrutura de classificação) tem função tanto de descrição do conteúdo documental tópico, quanto de ordenação dos recursos informacionais. Segundo Gil Urdiciain (2004), as classificações podem ser denominadas a partir: do seu conteúdo (enciclopédicas; ou especializadas); e de sua estrutura (enumerativas; por facetas; ou mista). Já a lista de cabeçalho de assuntos é uma “[...] linguagem pré-coordenada, de estrutura associativa ou combinatória que consiste em listas alfabéticas de palavras ou expressões da linguagem natural capazes de representar os temas de que trata um documento” (GIL URDICIAIN, 2004, p. 29, tradução nossa). E, por fim, o tesauro é uma “[...] linguagem pós-coordenada de estrutura combinatória, constituída por listas estruturadas de conceitos - descritores - que possibilitam a descrição analítica de conteúdo dos documentos” (GIL URDICIAIN, 2004, p. 27, tradução nossa). O controle terminológico de um tesauro é muito alto e sua especificidade também pode ser, desse modo essa linguagem torna-se uma grande aliada à etapa de recuperação da informação. Em relação ao controle vocabulário que compõe a linguagem documental, concorda-se com Gil Urdiciain (2004), quando os define como: não-controlado/ livre/ natural (p. ex.: lista de descritores livres; palavras-chave) ou controlado (p. ex.: esquema de classificação; tesauro; lista de cabeçalhos de assunto etc.). Toda linguagem documental controlada é construída com propósitos e normas específicas, o que garante um maior controle na representação e acesso, mas, atualmente, com o advento das tecnologias de informação e comunicação há uma maior utilização de descritores livres ou da submissão destes a um controle pós-coordenado. Gil Urdiciain (2004) explica, ainda, que os critérios de caracterização das linguagens documentais são: • Controle (ausente: lista de descritores livres; ou presente: classificação, tesauro etc.); • Coordenação (pré-coordenada - a relação gramatical entre os descritores é estabelecida na elaboração da linguagem: classificação, lista de cabeçalhos de assunto; ou pós-coordenada - a relação lógica entre os descritores é estabelecida durante o 39 processo de busca e recuperação da informação: lista de descritores livres, lista de palavras-chave, tesauro); e • Estrutural (hierárquica: sistema de classificação hierárquico; ou combinatória: léxicos documentais, tesauro). O processo de representação do conhecimento a partir das linguagens documentais dispõe de regras explícitas e imprescindíveis à sua aplicação, de modo a evitar biasses, a partir de fenômenos linguísticos tais como os destacados por Cintra et al. (2002): ambiguidade (uma palavra pode ter plurisignificação - fenômeno específico da área semântica): polissemia (uma palavra pode ter plurisignificação - fenômeno específico da área vocabular) e homonímia (uma mesma forma significante remete a duas realidades vocabulares diversas, seja como identidade fônica ‘homofonia’ ou como identidade gráfica ‘homografia’); sinonímia23 (relação de equivalência entre, ao menos, duas palavras); hiponímia (relação parte/ todo, gênero/ espécie, hierarquias); eufemismo (suavizar expressões por meio da substituição de conceitos) e línguas diferentes. Nesse momento, há de se recordar à ponderação de Cintra et al. (2002, p. 35) no sentido de que cada linguagem “[...] representa um ponto de vista particular sobre a realidade [...] e o significado de cada um de seus elementos vai estar diretamente subordinado às definições correspondentes aos elementos colocados nas posições superiores do sistema”, ou seja, a linguagem documental isola e rotula uma evidência. Assim, os sistemas de conceitos têm limites e condicionamentos, como: “[...] sua relatividade temporal e espacial, seu determinismo temático, a lógica particular que imprime o objetivo que se almeja, os esquemas cognitivos e o nível de discurso aceitável [...] para seus destinatários, questões regulamentares ou políticas de classificação etc.” (BARITÉ, 2001, p. 52-53, tradução nossa). Em suma, conceitos e categorias têm historicidade. Desse modo, enquanto a língua é dinâmica, a linguagem documental é criada muitas vezes, como algo categórico e definitivo. Por isso, é imprescindível lembrar que: [...] a utilização de unidades retiradas da LN [linguagem natural], dá às LDs [linguagens documentais] um caráter particular que as torna, de certa forma, diferentes dos sistemas estáticos. Na sua utilização há como que uma contaminação da mobilidade da LN [linguagem natural], passada via escolhas lexicais que se transformam em unidades documentárias. Assim, as LDs [linguagens documentais] não se livram completamente de interferências culturais que acabam por exigir um trabalho quase permanente de atualização (CINTRA et al., 2002, p. 15-16). 23 Destaca-se o fato de que a sinonímia entre diferentes dialetos deve ser sempre salientada, de forma que usuários de diferentes culturas e localidades sintam-se contemplados pelo esquema de representação. 40 Essa necessária atualização se dá a partir de políticas de gestão de linguagens documentais, aspecto ainda incipiente na realidade brasileira, pois, apesar de haver atualização das linguagens documentais, conforme se vê no quadro no apêndice A, não há uma regularidade das mesmas, nem ao menos a divulgação de parâmetros para que ocorram. Por esse motivo, viu-se a necessidade de oferecer subsídios para o universo da gestão das linguagens documentais, enquanto pontes para discussões posteriores. Para complementar essa reflexão ressalta-se as pontuações do linguista estruturalista francês Émile Benveniste (1902-1976) em suas duas obras sobre Problèmes de linguistique générale (Problemas de Linguística Geral, em português) no tocante a complexa dinamicidade da linguagem natural. No tocante a linguagem documental, ressalta-se o livro Para entender as linguagens documentárias (CINTRA et al., 2002), enquanto um guia completo sobre esses instrumentos de representação do conhecimento. Uma vez representada e armazenada, a informação (enquanto insumo que compõe o conhecimento registrado e socializado) será objeto de busca e recuperação para posterior acesso e disseminação. A recuperação da informação atua, desse modo, como um processo de comunicação, ou seja, “[...] usuários de um sistema ou serviço de informação podem encontrar os documentos, registros, imagens gráficas, ou sons gravados que vão ao encontro das suas necessidades ou interesses” (MEADOW et al., 2007, p. xv, tradução nossa). Dessa maneira, ao rotular um documento cria-se por meio de processos, instrumentos e produtos, que não são neutros, mas, sim, construídos e convencionados, um rótulo, o qual atuará como substituto do conhecimento, como um simulacro desse documento. E será por meio desse rótulo (OLSON, 2002) ou informação-como-coisa (BUCKLAND, 1991), que o usuário terá acesso à informação desejada, utilizando-se, para isso, o processo de busca e recuperação de informação. Em síntese, destaca-se um metavalor da CI - acesso e apropriação da informação - ou seja, a mediação entre o coletivo de informações - produção - e o coletivo de usuários - uso -, interagindo em um contexto social de OC, ou seja, permeado por elementos multiculturais e diretrizes advindas dos Direitos Humanos, a partir da representação do conhecimento. 41 3 ASPECTOS ÉTICOS EM REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTO É exatamente no cenário de competência profissional e informacional que os estudos relacionados aos aspectos éticos24 envolvidos nas atividades de representação do conhecimento se tornam essenciais, atualmente, na área de CI, contribuindo fortemente para a preservação e disseminação da memória cultural, como salienta Olson (1998). Retoma-se que a representação do conhecimento visa à criação de substitutos do conhecimento, enquanto simulacros do documento original (livros, artigos, partituras etc.), tal como a foto que consta no documento de identidade atua em determinadas ocasiões como um simulacro, um substituto de seu portador. A presente pesquisa optou por abordar a questão feminina e, pode-se dizer, a OC a partir da Ética, enquanto uma reflexão acerca da moral, ou seja, refletir com um olhar crítico acerca de uma realidade específica datada, localizada e construída. Parte-se, desse modo, de uma trajetória investigativa que se iniciou com a reflexão dos aspectos éticos que envolvem as dimensões profissional, pedagógica e investigativa na área da Biblioteconomia no Mercosul, incluindo reflexões sobre os códigos de ética profissional do bibliotecário (GUIMARÃES, 2003); a partir da qual viu-se a necessidade da análise dos valores e problemas morais que envolvem especificamente a representação do conhecimento, seus processos e instrumentos (GUIMARÃES, 2006a, PINHO, 2006, MILANI, 2007); e encontra-se atualmente refletindo sobre como determinados domínios do conhecimento são representados nos instrumentos, ou seja, nas linguagens documentais utilizadas pelos bibliotecários. Nesse contexto ético, os valores adquirem a condição de normas, princípios ou padrões eleitos por uma sociedade (só os atos humanos conscientes e voluntários possuem valores), que não funcionam como universais (mas alguns possuem extensão global) e partem das raízes culturais de cada sociedade, que os julgam moralmente (reflexão ética) e então são admitidos e respeitados por estes cidadãos. Construídos ao longo da história de cada indivíduo, os valores refletem as diferentes etapas de desenvolvimento do ser humano social. Em relação à atuação dos profissionais da informação, Froehlich (1994, p. 460, tradução nossa) destaca que existem oito grupos de fatores que afetam as decisões éticas, sendo eles: (1) utilidade social, (2) responsabilidade social, (3) sobrevivência organizacional, 24 Para efeito da presente pesquisa, tem-se por ética “[...] um saber que pretende orientar as ações dos seres humanos, enquanto a moral atua como um saber que oferece orientações concretas em casos concretos” (CORTINA; MARTÍNEZ, 2005, p. 9). Para uma reflexão mais aprofundada consultar Milani (2007). 42 (4) sobrevivência informacional, (5) respeito por si mesmo, (6) respeito por outros indivíduos e instituições, (7) padronização comunidade-cultural, e (8) normas jurídicas. Buscando sistematizar um pouco mais a questão da ética no exercício profissional na área da informação, Guimarães (2000a, p. 65) propõe cinco dimensões de compromissos éticos desse profissional: com o usuário, com a organização, com a informação, com a profissão e consigo mesmo, enquanto cidadão. Essas dimensões sofrem interferências de dois mitos25 destacados por Vergueiro (1994): o mito da neutralidade (sendo este a origem de biasses na representação do conhecimento) e o mito da corporação. O mito da neutralidade, ou seja, por muito tempo os profissionais da informação acreditaram e divulgaram a liberdade de acesso à informação com a ausência de censura e a não-interferência dos seus próprios valores morais em seus fazeres, consagrado, segundo Vergueiro (1994, p. 9), pela expressão de Foskett26: no politics, no religion, no moral. A literatura que ampara os estudos éticos em CI (ver lista de referências ao final do trabalho) vem discutindo e oferecendo subsídios que desmascaram essas afirmações e consolidam as promessas de ausência de censura e não-interferência do profissional como sendo mitos, pois os profissionais da informação escondiam-se atrás de uma técnica como garantia de resultados neutros e unânimes. E o mito da corporação, que, segundo análise de Guimarães (2006b, p. 247), “[...] aponta para o papel do coletivo profissional enquanto zelador de uma ética a ele intrínseca, mas por outro lado, alerta para o perigo de uma dimensão normativa excessiva prestar-se ao corporativismo e ao acobertamento de ações consideradas antiéticas.” Esse mito não assola apenas a CI, mas todas áreas do conhecimento, que utilizando a justificativa de zelar pela corporação, realiza ou acoberta ações consideradas antiéticas nesse ambiente. O instrumento legal que atua como guia para as situações reais que envolvem valores e problemas éticos no cotidiano dos profissionais da informação ainda é o código de ética profissional, o qual deve buscar amparar os dilemas éticos e discutir condutas e ações inerentes a um fazer profissional. O Código de Ética Profissional do Bibliotecário (Resolução CFB nº 042 de 11 de janeiro de 2002) é um instrumento ainda excessivamente prescritivo, não apresentando subsídios para uma verdadeira reflexão ética sobre a área, mas apenas questões pontuais, no 25 Entendem-se mitos, enquanto dogmas, postulados que são tomados como imperativos, como verdades absolutas. Acerca dos mitos não há reflexão nem sequer são questionados. 26 FOSKETT, D. J. The Creed of the Librarian: No Politics, No Ethics, No Morals. London: Library Association, 1962. 43 mais das vezes administrativas. Comprovação disso é o fato de que a única menção que o Código de Ética Profissional do Bibliotecário faz em relação à representação do conhecimento encontra-se no seguinte recorte: [...] Seção IV - Das proibições Art. 12 - Não se permite ao profissional de Biblioteconomia, no desempenho de suas funções: [...] h) deturpar, intencionalmente, a interpretação do conteúdo explícito ou implícito em documentos, obras doutrinárias, leis, acórdãos e outros instrumentos de apoio técnico do exercício da profissão, com intuito de iludir a boa fé de outrem; [...] (CONSELHO..., 2002). Bair (2005, p. 22, tradução nossa) ensina que um código de ética “[...] deve ser desejado e suficiente para abranger qualquer dilema ético enfrentado por catalogadores [bem como por indexadores e classificadores], deve discutir condutas e ações específicas, de modo a servir como um guia útil nas situações atuai