UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS - RIO CLARO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO ELISÂNGELA SILVIA MARTINS MARQUES O INFOGRÁFICO ENQUANTO GÊNERO TEXTUAL NA REVISTA SUPERINTERESSANTE - CARACTERIZAÇÃO DA ESTRUTURA DO TEXTO E DA IMAGEM Rio Claro 2015 ELISÂNGELA SILVIA MARTINS MARQUES O INFOGRÁFICO ENQUANTO GÊNERO TEXTUAL NA REVISTA SUPERINTERESSANTE - CARACTERIZAÇÃO DA ESTRUTURA DO TEXTO E DA IMAGEM Orientadora: Marcia Reami Pechula Dissertação apresentada ao Instituto de Biociências do campus de Rio Claro, Universidade Estadual Paulista, como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Educação. Rio Claro 2015 BANCA EXAMINADORA ______________________________________ Nome: Profa. Dra. Marcia Reami Pechula Instituição: UNESP “Julio de Mesquita Filho” Câmpus de Rio Claro. Orientadora ______________________________________ Nome: Profa. Dra. Maria Rosa Rodrigues Martins de Camargo Instituição: UNESP “Julio de Mesquita Filho” Câmpus de Rio Claro. ______________________________________ Nome: Profa. Dra. Germana Fernandes Barata Instituição: UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas. ______________________________________ Elisângela Silvia Martins Marques Aluna Resultado:__________________ Ao Senhor Jesus, aos meus pais José Martins e Diva Rodrigues Martins, e ao meu marido Luis Gustavo Marques da Silva. AGRADECIMENTOS Um sonho realizado e além do que eu esperava é o significado desse trabalho de pesquisa tão intenso que vive nesses últimos anos. Foram muitos momentos marcantes que perpassaram a trajetória desse estudo que trouxe significativas contribuições a minha carreira profissional e à minha vida pessoal, mas o que ressalvo aqui, dentre esses momentos, foi o da aprendizagem, quando digo aprendizagem não me refiro apenas a aquisição de conhecimento, me refiro ao fato de eu aprender a pesquisar, aprender a estudar, aprender a viver. Uma aprendizagem que sem esse estudo eu não iria alcançar, por isso, ao olhar para o meu entorno venho agradecer a todos que fizeram parte desse trabalho juntamente comigo. Agradeço em primeiro lugar a Deus, que esteve ao meu lado o tempo todo, que me guiou e me conduziu ao termino dessa pesquisa. Agradeço ao meu marido Luis Gustavo Marques da Silva que esteve ao meu lado durante esse percurso, tentando me compreender a cada momento e me ajudando constantemente não apenas no cotidiano como também nas leituras, que por vezes, durante as madrugadas líamos juntos. Seria impossível dizer o nome de toda a minha família aqui, pois se trata de uma família com uma grande quantidade de pessoas, por isso agradeço aos meus irmãos, aos meus sobrinhos que por vezes entendia que eu não poderia sair com eles, pois tinha que estudar. Agradeço imensamente aos meus pais, meu pai José Martins e minha mãe Diva Rodriguês Martins por tudo o que fizeram e continuam fazendo por mim até hoje, essa pesquisa se deve a eles e principalmente à minha mãe que desde criança me incentivou a estudar. Agradeço também ao meu irmão Israel José Martins por me apoiar desde criança e por sempre me incentivar na pesquisa. Não posso deixar de mencionar meus amigos, em especial aos que contribuíram de forma diferenciada para esta pesquisa, Roseli Ritter, Ângela Silva e Sílvia Stering. Agradeço a Orientadora Profa. Dra. Marcia Reami Pechula por te me acolhido junto ao grupo e ter me conduzido do inicio ao final da pesquisa, e também aos integrantes do grupo de estudos, que por vezes, também contribuíram para a pesquisa. Também agradeço aos meus colegas e equipe de trabalho, destaco Tânia Gonçalves por toda a compreensão e liberdade de trabalho que me proporcionou nesses anos, a Madilene por ter me ajudado muito na compreensão de alguns textos e aos coordenadores, em especial ao Celso Juliano De Souza, aos professores, alunos e toda a equipe da Escola Estadual Hélio Penteado de Castro. Ao Pastor Anderson de Lima Souza cabe meu imenso agradecimento pelos anos em estivemos juntos e pelo incrível aprendizado que me proporcionou nesses anos. Agradeço ao meu grande amigo Adílson Costa, pelo companheirismo, por me direcionar e me incentivar durante todos os anos que passamos juntos quando sua aluna e atualmente como colega de trabalho. Da mesma forma, agradeço as queridas amigas Luciene Cristina de Moraes, Thamiris Silva e Daniele Posledink pela amizade e companheirismo. Obrigada a todos! “Onde não há texto, não há objeto de pesquisa e pensamento (...). Independentemente de quais sejam os objetivos de uma pesquisa, só o texto pode ser o ponto de partida”. BAKHTIN, em O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas, p. 307, 2011. RESUMO Devido a grandes possibilidades de se fazer uso das tecnologias para a produção do conhecimento na sociedade atual com a pedagogia externa a escola, aquela proposta pela mídia, ao avanço científico e ao crescente interesse da população por assuntos científicos, despertou-se o interesse por analisar textos infográficos. Estes, caracterizados dentro da esfera jornalística, possuem características específicas cujos objetivos envolvem o contexto social, educacional e veiculação da informação para produzir e esclarecer fatos e acontecimentos de interesse do público. O infográfico, formado pela junção de palavras e imagens, possui um dinamismo cujo propósito principal é tornar a informação mais compreensível para o leitor. A revista Superinteressante servirá de suporte para o estudo por ser uma revista que promove assuntos de cunho científico, por possuir um uso contínuo desse tipo de texto e contar com uma tiragem significativa. Para a análise, averigua-se a estrutura do infográfico apoiada nas categorias de De Pablos por possuir tema, título, lead, fonte e assinatura, e considera-se que o infográfico é um texto por seu poder de comunicar; este se veicula como um gênero textual, que na perspectiva de Bakhtin possui tema, um estilo e uma composição; por produzir sentidos múltiplos nos utilizaremos na semiótica da cultura, isto é, a semiótica dos textos, o que permite inferir os sentidos desse texto na revista. Constata-se que o infográfico tem um potencial para comunicar e, pensando na educação, essa linguagem em ascensão poderá trazer importantes contribuições para a aquisição de conhecimento. Palavras-chave: Infográfico. Divulgação Científica. Comunicação. Educação. ABSTRACT Due to great possibilities of making use of technologies for the production of knowledge in today's society, foreign pedagogy school, the one proposed by the media, the scientific advancement and the growing interest of the population for scientific, aroused our interest for analysis infographics texts. These, featured in the journalistic sphere, have specific characteristics, whose goals involve the social, educational and placement of information to produce and clarify facts and events of interest to the public. The infographic, formed by the junction of words and images, has a dynamism whose main purpose is to make information more understandable to the reader. The Superinteressante magazine will serve as support for the study because it is a magazine that promotes scientific nature of matters, because it has a continuous use of this text and have a significant drawing. For the analysis, we ascertain the structure of the infographic supported in De Pablos categories by having theme, title, lead, source and signature, and we think this infographic is a text for its power to communicate; if this conveys as a genre, which in Bakhtin's perspective has theme, style and composition; to produce multiple meanings in will use the semiotics of culture, that is, the semiotics of texts, which allows us to infer the meanings of the text in the magazine. We note that the infographic has the potential to communicate and thinking in education, this language on the rise may make important contributions to knowledge acquisition. Keywords: Infographic. Science Communication. Communication. Education. LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1: Infográfico: Caminhadas e mãos inchadas ........................................................... 26 FIGURA 2: Infográfico: O que acontece no corpo de quem disputa uma supermaratona ..... 31 FIGURA 3: Infográfico: Como funciona a pericia digital ....................................................... 41 FIGURA 4: Infográfico: Como prevenir a seca. ...................................................................... 47 FIGURA 5: A Arte Rupreste .................................................................................................... 48 FIGURA 6: Infográfico: Uma infografia passo a passo. .......................................................... 53 FIGURA 7: Infográfico: Como boi vira bife. ........................................................................... 58 FIGURA 8: Infográfico: Quanto custa um deputado?.............................................................. 63 FIGURA 9: Infográfico: Seu carro decifrado. .......................................................................... 65 FIGURA 10: Infográfico: Como se faz uma cirurgia de mudança de sexo? ............................ 85 FIGURA 11: Infográfico: A água que você usa por dia. .......................................................... 89 FIGURA 12: Infográfico Quadrinhos no Cinema .................................................................... 93 FIGURA 13: Infográfico: Raio X das plásticas ........................................................................ 96 SUMÁRIO As experimentações de uma pesquisadora ........................................................................... 17 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 20 O desenho da pesquisa ........................................................................................................... 22 1. INFOGRÁFICO: TEXTO E GÊNERO TEXTUAL ....................................................... 31 1.1. O que é um texto? ............................................................................................................ 31 1.2. Gêneros textuais ............................................................................................................... 36 1.3. O texto na perspectiva semiótica .................................................................................... 42 2. IMPRENSA, TEXTO E CULTURA ................................................................................ 45 2.1. O texto infográfico: breve contexto histórico e social .................................................. 47 2.2. O infográfico como gênero textual ................................................................................. 55 3. O INFOGRÁFICO NA COMUNICAÇÃO ...................................................................... 60 3.1. Recurso Comunicacional no jornalismo ........................................................................ 60 3.2. Recurso didático na educação ........................................................................................ 63 4. O INFOGRÁFICO NA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA: UM APORTE PARA A REVISTA SUPERINTERESSANTE ................................................................................... 69 4.1. O processo de escolha e seleção dos critérios de análise .............................................. 69 4.2. O infográfico na divulgação científica ........................................................................... 71 4.3. Breve contextualização do segmento revista ................................................................. 74 4.3.1. O surgimento de Superinteressante ............................................................................ 75 4.4. O infográfico na Superinteressante................................................................................ 83 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 101 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 106 17 AS EXPERIMENTAÇÕES DE UMA PESQUISADORA Escrever, para mim, não é uma tarefa fácil, seja no processo de escrita acadêmica ou em qualquer outro processo. Escrever exige tempo e reflexão, fatores abafados pela contemporaneidade, e que, de certa forma, me atingem. Talvez por isso, e também pela multiplicidade de ideias desordenadas que discorre meu dia, escrever tenha se tornado doloroso por um determinado tempo, o tempo da experimentação, pois nenhuma técnica, nenhuma habilidade profissional humana pode ser adquirida sem exercício. E dessa forma, inicio o meu processo de escrita enfatizando a importância da leitura e da escrita no contexto das práticas culturais e sociais, que hoje vivenciamos e que influenciam a prática pedagógica. Entrar para o mestrado de Educação e me tornar pesquisadora, não apenas me instigou a escrever, pois a cada experiência que vivo, sinto vontade de escrever, como também me ajudou a ordenar e ter prazer em pesquisar. Vistas são as práticas sociais, mas nem sempre entendidas pelo olhar. Vistas e ramificadas são as políticas, mas o olhar não as modela. Vistas são as questões culturais que ainda permeiam a sociedade, como o racismo e o preconceito, mas não se pode vencê-las através do olhar. Vistas são as desigualdades e as injustiças do país, mas muitas vezes o olhar se fecha! Há quem se iluda que os acontecimentos não estão claros, mas estes abundam ao olhar de todos, o que precisamos é nos movimentar para experimentar. A experimentação me trouxe um novo olhar para a compreensão do outro, do mundo, do entorno e da prática escolar, que me moveu e instigou a pesquisar sobre algo que não estava ali, naquele contexto, pois observo que grande parte das pesquisas feitas por professores pesquisadores se dão no âmbito escolar. Eis a minha grande experimentação, olhar para fora, mas não totalmente fora, apenas fora do contexto escolar, mas que interfere neste, pois a educação social faz parte da vida do homem e faz uso de recursos comunicacionais como os jornais, as revistas, a televisão e a internet que são inerentes ao processo de aquisição de informações. Experimentação? Experimentações? Torno-me parte de cada experimentação vivida, desde a escola, que de extrema importância para mim, foi o local onde vivi muitas experimentações, a de ser aluna, representante de classe, presidente do grêmio estudantil, líder do time de futebol feminino, que, naquela época, era difícil de consolidar, pois as meninas não se interessavam muito por este esporte, menos que hoje, e eu acabava sempre jogando com os meninos. Eu também ajudava na organização dos campeonatos, participava da Fanfarra da 18 escola, e organizava os seminários e os concursos escolares, palestras, show de talentos que universalizava a escola. Voltando ao meu processo de escrita, este se iniciou nessa fase da escola, e se estendeu até aos dias atuais que me trouxe de volta a escola, agora como professora. Mesmo sendo hoje um processo difícil para mim, sempre gostei muito de escrever, escrever memórias que marcavam alguma fase da minha vida, e este processo começou na adolescência, quando as histórias começaram a acontecer. O que colaborou bastante para o processo de escrita foi, sem dúvida, a escola pública na qual eu estudei denominada Escola Estadual Professor Abigail de Azevedo Grillo. Criei um vínculo com a escola, pois foram muitos anos, estudei nela do primário ao colegial (denominações da época), atualmente se diz primeiro ano do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Não era uma aluna nota dez, mas, quase não tirava notas baixas, e criei também um vínculo com meus professores, que, aliás, eu amava, eram todos meus amigos, e me lembro de que, quando ocorria algum problema com determinado professor, eu o defendia com veemência. Estimulada pelos professores, experimentei ler livros de história, romances, literatura, gibis, e até tentei ler a Barsa, uma enciclopédia de livros que eu nunca passei da primeira página, carregava o livro, acredito que pelo desafio que aquele livro enorme causava em mim. Dando sequência as experimentações, comecei a escrever diários com aproximadamente doze anos, e estes foram meus primeiros livros, mas não as minhas primeiras histórias. Eu era sempre uma página em branco, pronta para ser escrita, pois era receptiva e aberta as histórias que me eram apresentadas. Se eu tentasse me descrever em palavras, talvez seria uma pessoa que guarda sua singularidade, pelas múltiplas atividades, interesses e percursos que vão adentrando em minha vida. Se alguém chegasse a mim e dissesse: Vamos fazer tal coisa? Eu ia movida pela curiosidade de experimentar daquela tal coisa, e, dessa forma, estudei pintura em gesso, pintava as esculturas prontas (que dava de presente aos amigos), também fiz trabalhos com argilas, e pintava desenhos com tinta guache ou com o simples lápis de cor, hábito que possuo até hoje. Motivada pelo grupo de música da igreja, fiz aula de canto dos 13 aos 17 anos de idade, e a música estava tão presente em mim, que logo em seguida fiz aula de teclado e só parei de tocar quando roubaram meu teclado. A flauta doce, foi um belo desafio, estudei e aprendi sozinha tocá-la, mas não era apenas a música que me encantava, gostava de esportes, fiz vôlei e basquetebol no ginásio de esportes próximo a escola, e fiz ainda escolinha de futebol no Clube Atlético Piracicabano por alguns anos, e até os dias atuais, sempre que posso 19 marco um jogo. Ainda na adolescência, fiz curso de teatro, cheguei até a me apresentar num festival chamado Coca-Cola no teatro SESI. Mais atualmente, em 2010 fiz aula de hip hop, e assim, sucessivamente uma atividade conduz à outra. Tendo a escola e os estudos tal importância para mim, entrei para a faculdade de Letras na UNIMEP em 2003, após fazer um curso, oferecido por um projeto, que se chama “Orientação Vocacional”. Mais do que a minha escolha e do que a orientação vocacional acredito que a escola foi a que mais contribuiu para que eu me tornasse professora, ela foi o lugar das experimentações que marcaram minha trajetória e eu escolhi ser professora porque a escola faz parte de mim, ensinar faz parte de mim, escolhi porque gosto desse mundo, que me faz experimentar, crescer e ter muitas possibilidades de criar todos os dias. Mas, como nem tudo são flores, apareceu o “caos”. No terceiro ano da faculdade de Letras, comecei a fazer Estágio Obrigatório e esse foi mais um momento de caos pra mim! Fiz estágio numa escola estadual e não gostava do que via: alunos desrespeitando o professor, conversando o tempo todo, atrapalhando as explicações, brigas, xingamentos e isso me abalou! Cheguei a pensar: Porque não me disseram antes que era assim? O que eu vou fazer com essa faculdade agora? No dia seguinte, conversei com a professora responsável pelo estágio e ela me pediu para ter calma, que não era daquela forma, e que eu estava fazendo apenas um estágio, e que, quando eu fosse dar aula, e tivesse a minha turma, seria melhor e que eu iria gostar... Ela “mentiu” pra mim, pois as coisas não melhoraram nesses sete anos em que ministro aulas, mas eu me aperfeiçoei como professora e pude experimentar caminhos, pois, independentemente do comportamento dos alunos, sinto que posso ajudá-los, com as bagagens que cada um carrega. E a cada aula, a cada dia, cada aluno, a escola, os professores, eu, possuímos uma fenda, e dessa fenda, construímos a moldura do que queremos através de alguns ingredientes: amor pela profissão, solicitude, amizade, parceria, compreensão, paciência. Após alguns anos de formação e já ministrando aulas na rede pública e também em colégios particulares, senti a necessidade de algo mais, ainda não sabia o que era, mas já agia como pesquisadora quando buscava leituras diversas e refletia sobre questões relacionadas a educação que me intrigavam muito. Cito as principais: será que os alunos estão aprendendo? Como eles estão aprendendo? E dessa preocupação surgiu o interesse por entrar para o mestrado de Educação, experiência que relatarei no próximo item desse capítulo juntamente com toda a trajetória da presente pesquisa. 20 INTRODUÇÃO Conteúdos relacionados à divulgação científica têm sido mais lidos, independente de classe social, e cada vez mais proliferados na esfera social por meios como televisão, internet, jornais e revistas, impressas ou online. Basta abrir uma revista, mesmo que esta não seja especifica de divulgação científica, para ver nela conteúdos relacionados à ciência, ou ligar a televisão para se deparar por vezes com conteúdos de divulgação científica, acontecendo o mesmo com os jornais, telejornais, internet, que cada vez mais tem se proliferado esses conteúdos. Decorrente dessa assertiva analisa-se aqui o infográfico, partindo do conceito de que ele é um texto, inserido na revista Superinteressante, a fim de compreender o que este comunica, isto é, o que de fato este comunica a partir da construção do discurso presente na produção do sentido nele contido. Para o estudo, parte-se da compreensão mais peculiar do texto infográfico, que é a junção do texto verbal e não verbal como imagem e palavras que se complementam para facilitar a compreensão da informação para o leitor. Vê-se que o infográfico é utilizado em diferentes esferas de comunicação, como o jornalismo e o design, além de estar frequentemente presente na mídia. Sua comunicação é considerada para essas esferas, principalmente a do jornalismo, que constitui o infográfico a fim trazer informações científicas, que por sua vez vão produzir conhecimentos para o leitor, foco que recai sobre a educação. Em “Experimentações de uma pesquisadora” foi apresentada a trajetória pessoal da autora que a trouxe para o presente estudo, tendo como raiz de suas inquietações a escola pública, apesar da pesquisa não estar diretamente voltada para a educação escolar, tal importância se deu ao olhar para a educação que envolve o contexto social, a educação informal, que embarga para o contexto escolar, onde presenciamos a educação formal. Em seguida, em “O desenho da pesquisa”, trata do percurso percorrido até a finalização dessa pesquisa. No capítulo um se traz o conceito de texto, gênero textual e o texto na perspectiva semiótica, que vão colaborar para que o infográfico seja entendido, primeiramente como um texto, pois comunica algo, e, depois como um gênero textual que, na perspectiva de Bakhtin (2011) possui enquadramentos específicos que comportam um tema, um estilo e uma composição, para então se considera uma linguagem para a educação, que na perspectiva semiótica, visa à produção de sentidos para a compreensão mais efetiva de um texto, 21 colocando imagens e palavras numa constante interação de signos. A semiótica, para esta pesquisa, faz parte da concepção de gênero textual de Bakhtin (2010), sendo o gênero parte do campo da semiótica. Nos capítulos dois e três são descritos com maior profundidade o texto infográfico e as características que fazem dele uma linguagem para a sociedade atual, marcada pela rapidez da informação, característica cultural desse texto. Para isso, fez-se necessário um breve contexto histórico e cultural do infográfico, feito por meio de uma revisão bibliográfica, que mostrou que esse gênero textual é uma potente forma de se comunicar, ora como recurso comunicacional, ora como recurso didático. Dentre todos os artigos e dissertações que foram utilizadas para o estudo referente a infografia, são retratadas aquelas que mais se aproximaram do propósito dessa pesquisa para trazer contribuições para a atualização dos estudos da infografia, compreensão mais eficaz e diferenciações do que de fato venha a ser um infográfico, ou seja, infográfico não é gráfico, nem ilustrações. Diferencia-se das outras pesquisas ao considerar o infográfico como um texto, pois, até o momento da investigação, foram encontradas pesquisas que o apontam como um recurso para o design, para o jornalismo, e para a educação, nesse caso, como um instrumento que poderá ser utilizado para informar, e não como uma linguagem. Foram encontradas também pesquisas que apontam o infográfico como um gênero textual, mas não o reconhecem como um texto em potencial, sendo esta a principal diferenciação, pois acredita-se que é a partir dessa concepção de texto, que, em sua complexidade, o infográfico pode ser entendido como uma linguagem para a educação, enquanto pesquisas o descrevem como sendo um recurso. A presente pesquisa, além de contribuir para a ampliação do conhecimento, poderá se expandir trazendo o infográfico para a educação escolar como um texto eficiente e que produz sentidos que poderão gerar conhecimentos nos alunos. No quarto capítulo é feita a análise de alguns infográficos, tratando mais especificamente do infográfico de divulgação científica, aquele com potencial para ensinar, deixando de ser um simples recurso, potencializando determinada informação, tendo como suporte a revista Superinteressante, que possui uma considerável veiculação e é considerada uma das pioneiras em fazer uso da infografia. Para a análise, o infográfico foi tratado primeiramente no contexto da divulgação científica e também no percurso da revista Superinteressante, para então selecionar-se os 22 critérios de escolha e os critérios de análise que são: caracterizado, não caracterizado, informativo e didático, que compõem os elementos estruturais de acordo com as categorias de De Pablos (1999) que são: título, lead, texto, fonte e assinatura, as características fundamentais da infografia, que correspondem ao texto verbal e não verbal, e, nos enquadramentos específicos da teoria bakhtiniana de gênero textual, em que constatamos o seu potencial como um texto, bem como dos signos que estarão presentes no processo de transmissão de informações. É importante destacar que, diante desses critérios estabelecidos, ocorrem exemplificações do texto infográfico no decorrer da pesquisa, no entanto, é neste capítulo, o quatro, que a análise se efetiva. Considera-se, ao final, que o infográfico como um texto, produz sentidos para a divulgação científica na revista Superinteressante, e que essa dinamicidade de texto com palavras e imagens chama a atenção do leitor e pode promover conhecimentos, ressalvando que a imagem também é um texto. Devido a expansão desse texto, além de contribuir para a ampliação do conhecimento, poderá se expandir futuramente como uma importante linguagem para a educação escolar. O desenho da pesquisa Considerando o caminho percorrido até aqui um desenho feito, a partir das inquietações despertadas pelas leituras de textos, livros, artigos e dissertações; um desenho feito pelas situações que aconteciam ao meu entorno, pela universidade, um desenho feito pela orientadora. O desenho da pesquisa adquiria nova forma a cada leitura, a cada encontro, a cada reunião, a cada conversa, a cada participação em congresso. É interessante observar que foi da vontade de estudar assuntos que envolviam temáticas contemporâneas que a pesquisadora se identificou com o grupo de estudos, da Professora Doutora Márcia, o qual começou a participar em 2011. Foi então que surgiu o encantamento cada vez maior com o estilo do grupo e a jornada como pesquisadora se iniciou em 2012. Nesse tempo, todos os escritos estavam relacionados à mídia, tecnologias, imagens, proposta do grupo de estudos. O grupo é aberto a participações e é característica da professora Márcia dar oportunidades para pesquisas diversas. Começou-se então com o projeto de pesquisa que se transformou ao longo dos estudos e das disciplinas cursadas, investigando o texto escrito e as imagens no contexto da sociedade atual pautada pela mídia, que foi a questão que de início inquietou, pois o poder que a mídia 23 exerce sobre a sociedade, também as capacidades adquiridas da leitura de um texto científico e o potencial da imagem eram intrigantes pra nós. Outra questão importante foi o fato do distanciamento que a escola pública tem com as relações externas a ela, pois se vê que os alunos estão totalmente envolvidos com as novas tecnologias digitais e que a mídia perpassa suas vidas, promovendo uma forma de educação. Foi então, que, como citado anteriormente, surgiram os questionamentos relacionados a aprendizagem/aquisição de conhecimento, que conduzem à preocupação com o tipo de informações que os alunos estavam aprendendo fora da escola, ou seja, para além dos conteúdos escolares. Parte-se do princípio de eles aprendem na escola, tanto quanto fora dela, por meio dos recursos externos midiáticos, como a televisão, jornais, revistas, internet. Não se pode deixar de olhar para o que acontece dentro como também fora da escola, ou seja, a educação social, tendo a mídia como pano de fundo. Um dos problemas da pesquisa foi o fato dessa multiplicidade de infográficos, pois se encontra infográficos de anúncios publicitários, de campanhas políticas envolvendo a mídia, de divulgação científica, e de informações diversas. Optou-se pelo infográfico de divulgação científica pelo fato deste contribuir com maior profundidade para a aquisição da informação/conhecimento. Outro problema foi o fato de escolhermos o meio pelo qual se iria selecionar os infográficos, ou seja, a base para a pesquisa, o aporte como citado acima, e foi em uma reunião com a orientadora que surgiu a ideia da pesquisa, pois, segundo ela, um aluno havia observado que a Revista Superinteressante, cada vez mais estava repleta de imagens e/ou textos com imagens e menos textos escritos. Por meio dessa informação, se começou a direcionar o olhar para o infográfico, de divulgação científica tendo a revista como base para esta pesquisa. Nos desdobramentos da pesquisa, houveram problemas com relação ao tempo, pois era preciso focar em uma vertente para que a pesquisa pudesse se expandir, e não estando satisfeitos com essa expansão, mas como o tempo não favoreceu, procurou-se focar no infográfico partindo da concepção de texto, que, como já dito anteriormente, foi o principal diferencial para a pesquisa, que considerado este um gênero textual e aplicado a um olhar que levou a ver o potencial desse texto para a comunicação por meio dos signos, que se baseiam nos estudos da semiótica. Dentre essas problematizações houveram várias descobertas, e esta fez emergir outro desenho, pois ao observar a quantidade de imagens e textos escritos presentes na esfera midiática, o infográfico chamou a atenção logo de início por estar tão presente em revistas e 24 jornais. Foi então que, além de observar a passagem do texto escrito ao texto icônico, se decidiu por aprofundar a pesquisa no infográfico por diversos motivos: trata-se de um dispositivo atual devido ao fato de estar cada vez mais presente não apenas em acervos científicos, como também em jornais, sites e blogs; existem diversas visões encontradas sobre a infografia para diversas áreas e o quanto essas visões ainda podem se expandir; pela possibilidade de descobrir se este tipo de texto ajuda na construção do conhecimento e, por último, dentre os trabalhos encontrados, acredita-se que seja necessários maiores contribuições para a área da educação. Retomando os eventos participados, estes também contribuíram para o desenho da pesquisa, o que mais marcou a trajetória da pesquisa e trouxe contribuições essenciais foi o “Rodas de Conversa Bakhtiniana”, que aconteceu em novembro de 2012 em São Carlos, onde foi apresentado o trabalho: “As contribuições Bakhtinianas e o Gênero reportagem: análise de uma reportagem de divulgação científica: Por que não vivemos para sempre?”. Bakhtin já estava presente nos textos, e foi através da leitura desse autor que se pode enxergar as diversas possibilidades e o desenho para o qual a pesquisa tomava forma. No grupo de estudos da Professora Márcia, iniciou-se uma nova dinâmica onde todos os alunos e orientandos deveriam escrever um texto para ser discutido com o grupo em cada encontro, e isso ajudou a estreitar a pesquisa e a conhecer melhor o autor que era estudado, pois o primeiro texto escrito por mim para esta discussão foi: “Linguagem e sentido em Bakhtin”. Percebe-se que essa dinâmica foi muito importante para todos, não apenas na produção de conhecimentos, como também para que a orientadora conhecesse melhor e para a amizade como um todo. Participou-se de outros eventos que trouxeram, também, contribuições relevantes para a pesquisa. O II Encontro de Divulgação de Ciência e Cultura, na Unicamp realizado pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e pelo Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), onde foi apresentado o texto: “A produção do conhecimento por meio de acervos científicos e o infográfico como recurso”. Até aqui, sabía-se apenas que o infográfico era considerado um recurso comunicacional para a área de comunicação e para o jornalismo, que ele é um texto em potencial para comunicar, descobriu-se por meio das análises dos infográficos que se encontra no capítulo 4. A imagem através do texto infográfico parece encaixar-se mais adequadamente ao estilo de vida da população: o infográfico é lido em poucos minutos, já que é predominantemente visual, e apresenta-se de forma fácil de compreender a uma grande 25 parcela da população, a população leiga, ou seja, ao público não especialista (DE PABLOS, 1999), (CAIXETA, 2005), (MACHADO, GOUVÊA, 2007), (PELTZER, 1991), (SANCHO, 2001), (DONDIS, 2000). Os infográficos podem estar no primeiro nível de leitura de qualquer meio impresso, configurando até como a porta de entrada para outros, já para aquisição de informação e/ou conhecimento o infográfico, reconhecido como um texto é eficiente o poderá trazer conhecimentos que advém da ciência para o leitor. Analisar o infográfico e compreender os seus sentidos no contexto atual da comunicação midiática é, antes de tudo, fazer uma leitura de mundo, à medida que relaciona- se a leitura com a forma com que se vê o mundo e o enxerga como constituinte deste, estando em constante interação os objetos e as diferentes linguagens (FREIRE, 2003). Na movimentação de olhar que se teve desde o início da pesquisa, começa-se a perceber o quanto a esfera social é importante para comunicar, interagir e trazer conhecimentos. No decorrer da pesquisa quando se depara com o texto infográfico “Caminhada e Mãos inchadas”, ficando intrigada pelo fato de ser uma experimentação que constantemente vivia, pois todas as vezes que se caminhava ou praticava alguma atividade física que sentia-se que as mãos inchavam, eis uma experimentação que estava no texto, o texto infográfico. Será apresentado a seguir esse infográfico a título de exemplo de um objeto de início de pesquisa. FIGURA 1: Infográfico de divulgação científica: Caminhada e Mãos inchadas 26 Fonte: Blog WOA; Revista do Correio [internet]. Este, talvez não fosse o primeiro texto infográfico que tenha chamado a atenção, mas foi o texto que fez enxergar algo que era experimentado, o inchaço nas mãos e que chamou a atenção logo no primeiro olhar, pois através das imagens contidas nele, mais especificamente as mãos destacadas, remeteu rapidamente a pergunta que sempre vinha a memória: Porque as mãos incham quando se caminha? Juntamente com as imagens e os pequenos blocos de texto verbal se pôde compreender esse processo, ainda que de forma sucinta, algo que estaria além da compreensão, não fosse esse infográfico. Acredita-se que um texto verbal mais extenso poderia trazer explicações mais efetivas a esse respeito, no entanto, as informações contidas neste texto são suficientes para responder a questão e talvez instigar a ler um texto mais extenso com maiores informações. Trata-se de um texto de divulgação científica encontrado em um blog intitulado “Blog da Saúde”, de Maria Vitória, repórter da Revista do Correio, relacionado à saúde e bem estar, 27 com enunciado persuasivo a leitura, por se tratar de um tema que é de curiosidade de todas as pessoas que praticam atividades físicas. Quem nunca se questionou sobre o inchaço que percorre as mãos ao praticar uma atividade física? No entanto, poucas pessoas procuram um médico para saber o porquê isso ocorre. Em contraste com essa curiosidade, o enunciado é composto por recursos semióticos que não apenas servem para propiciar a compreensão do texto, como também para disseminar seus sentidos de forma prática e rápida, visualizando o leitor atual que não tem tempo para ler um texto mais extenso. O leitor, ao bater os olhos sobre o texto, já é capaz de assimilar o tema pelos recursos visuais presentes, como uma mulher com trajes esportivos com destaque para as mãos em amarelo, situando em vermelho, exatamente onde o inchaço é mais fortemente marcado, e ainda, há um círculo em volta das mãos. O texto “Caminhada e Mãos inchadas” ajuda o leitor a entender como funciona o corpo humano e a circulação sanguínea, no que diz respeito a essa problemática. O texto também é composto de pequenos blocos de palavras com informações precisas, numa página digital, não estando desvinculados dos recursos audiovisuais e nem da temática. Observa-se que há toda uma composição pautada na intercalação de todos os recursos produzidos pelo texto: a escrita, as imagens e os recursos visuais e este, alerta para possíveis causas do inchaço das mãos durante a atividade física e ainda fornece dicas sobre como combater esse inchaço. Este infográfico se encaixa na concepção de gênero textual, de divulgação científica, que visa propósitos didáticos, este possui relações dialógicas com as imagens e as palavras para que possa produzir um conhecimento no leitor. Esse texto, as disciplinas do curso de mestrado e as reuniões mensais dirigidas pela Profa. Dra. Márcia Reami Pechula, ajudou a compreender que a educação não se limita a instituição e que há todo o momento, as pessoas estão num emaranhado de aprendizagens, e é nesse âmbito que a pesquisa toma forma e novas experimentações começam a aparecer abrindo espaço para novos caminhos para o conhecimento. Para as considerações a respeito de objeto de estudo, o infográfico, foi realizado um estudo denominado “revisão bibliográfica”, que mostrou, entre artigos e dissertações, o que já havia sido publicado sobre infográficos, e onde foram lidos aproximadamente 45 textos. A partir dessas leituras, buscou-se o conceito de infografia através dos autores que iam aparecendo nessas pesquisas, bem como foram selecionadas aquelas que mais se aproximavam do objeto de estudo, tais como, Paiva (2009), Teixeira (2004, 2005, 2006), 28 Rocha (2013), Velho (2001, 2004), Machado e Gouveia (2007), De Pablos (1999), Peltzer (1991), e outros. A respeito do conceito de infografia, de acordo com Foucault (2000), todos os saberes que temos estão em semelhança com a palavra, ao passo que não se pensa e escreve apenas sobre um objeto de estudo, como também no ato de leitura e escrita que sobrepõem as relações da vida, da história e das coisas. Essa assertiva orientou quanto à necessidade de esclarecer o conceito de infografia, e verificar a situação atual do infográfico, ou seja, a situação em que se encontra nas ciências, afinal, poderia partir do que já havia sido propagado a respeito, e focar no que ainda não havia sido dito. Para dar início, poderia ter grandes respostas ao olhar para coisas simples e iniciar a pesquisa fazendo perguntas simples, não deixando de observar as possibilidades de conhecimentos que envolvem o conhecimento científico natural e social. Partindo dessa compreensão, pensando na educação, foco de preocupação, algumas questões foram lançadas: O que é um infográfico? É um texto? Comunica? Informa? É um gênero textual? Pode trazer conhecimentos? É um recurso para o jornalismo? É um recurso didático? Este promove uma compreensão mais facilitada da informação para o leitor? É preciso ler o infográfico presente no mundo e observar suas relações com a realidade que se vive atualmente para poder inferir os sentidos, pois a leitura está para além das palavras, onde a linguagem e a realidade se prendem dinamicamente (FREIRE, 2003). Entende-se que ler, entre outras coisas, é interpretar, ou seja, atribuir sentido, que deve se concretizar numa leitura ampla e aprofundada. Acredita-se que as revistas fazem uma leitura de mundo, pois esta percebe seu interlocutor sob vários aspectos. Na produção de infográficos, por exemplo, prevê-se que o leitor atual requer um texto rápido e objetivo, bem como também o tema a ser trabalhado na notícia, que normalmente presume-se que este surge do interesse do leitor veiculado pela mídia, que permeia o mundo de hoje. Mundo da ciência; mundo da tecnologia; mundo da mídia; mundo da comunicação; mundo da educação; mundo da arte; mundos que permeados de linguagens devem estar a serviço do homem. A ciência para proporcionar o conhecimento que com grande sageza evolui rapidamente; a tecnologia vem facilitar a vida e propiciar formas de interação com o uso da internet; a mídia, sempre a favor da sociedade de consumo, também cresce e se opõe inserindo cada vez mais no mundo da comunicação. A educação como um processo inerente à 29 vida do cidadão, afinal, o que seria do homem sem a comunicação, sem a troca, sem a interação?! E nessa evolução constante entre o homem e o mundo surge o infográfico - a arte de explicar uma notícia -, marcando as características do leitor contemporâneo, que prefere ler por meio de imagens, pois de acordo com uma pesquisa de mercado feita pelo idealizador Allen Neuharth do diário USA Today, que lançou o diário pensando na televisão, mostrou que a preferência do leitor era com cores, gráficos, imagens e pouco texto (VELHO, 2009), (SCHMITT, 2006). Como uma nova possibilidade de comunicação para aquisição de informações científicas, o infográfico surge como um recurso informacional para o jornalismo, tomando forma na divulgação científica a partir da concepção de gênero textual de forma a atender os propósitos didáticos. Bakhtin (2003) enfatiza a linguagem em seu funcionamento enquanto atuação social, atividade e interação verbal, de forma a produzir sentidos. O infográfico inserido na revista impressa promove a interação verbal e possui uma intertextualidade, além de ser um gênero textual transformado pela ação social e histórica. Dado o amplo crescimento da infografia, enquanto linguagem comunicacional, faz-se importante verificar seu potencial na divulgação científica, pois se acredita que a infografia aparece com propósitos diferenciados em determinadas esferas do uso da comunicação social. Pressupõe-se que o infográfico jornalístico, de forma geral, é informacional e o infográfico de divulgação científica, vai além da informação, tornando-se potencial na tarefa de ensinar. Para compor referencial bibliográfico da pesquisa, conta-se com o aporte teórico de Bakhtin (2010) para entender o infográfico e seus sentidos como uma nova forma de se comunicar, interagir e aprender, além de um gênero textual que configura numa linguagem no contexto atual da comunicação voltada para a educação social, pois o autor, a linguagem não é apenas um sistema abstrato, regulada por regras gramaticais e desvinculada de suas próprias condições de realização, mas deve ser compreendida como um sistema em função, isto é, a linguagem em seu funcionamento enquanto atuação social, atividade e interação verbal, produzindo um sentido. A linguagem, enquanto sistema pelo qual o homem comunica suas ideias e sentimentos, onde também o homem possui uma capacidade para a aquisição e utilização de sistemas complexos de comunicação, para codificação e decodificação de informações, aparece no cotidiano como linguagem verbal, por meio da fala e da escrita e linguagem não http://pt.wikipedia.org/wiki/Allen_Neuharth 30 verbal, integra todos os outros recursos de comunicação como imagens, símbolos, músicas, desenhos, gráficos, e outros. No decorrer dos estudos verifica-se que a infografia serve de recurso para diferentes áreas, como comunicação, jornalismo, design, e que cumpre propósitos diferenciados em cada área, com sua finalidade sendo a mesma para todas as áreas, que é tornar a compreensão da informação mais facilitada para o leitor. No contexto da educação esse texto torna-se um diferencial à medida que não é visto apenas como um recurso, pois é antes de tudo um texto, um gênero textual, que possui as características e formas de um enquadramento específico de texto, além de estarem presentes em jornais, revistas e internet, ocupando livros didáticos escolares e livros didáticos especializados, e cumprindo o papel de ser um formato de texto que em alguns casos informa, em outros ensina, fazendo seu uso uma linguagem para a sociedade atual. A partir de agora, a pesquisa será direcionada a respeito da infografia para o conceito que remete ao texto, ao gênero textual e seus sentidos que visam trazer uma compreensão mais facilitada para o leitor, pois, facilitar a compreensão é o papel do infográfico. 31 1. INFOGRÁFICO: TEXTO E GÊNERO TEXTUAL 1.1. O que é um texto? Para além da interpretação de que texto configura-se apenas como um conjunto de palavras e frases, utilizado para transmitir uma mensagem, são trazidas algumas contribuições que vão mostrar por meio do infográfico, que o texto comunica e comunica por meio de palavras, de gestos, de imagens, de ilustrações, bem como com todos esses formatos presentes. A apresentação será iniciada com um infográfico que mostra o que acontece no corpo de quem disputa uma supermaratona: FIGURA 2: Infográfico: O que acontece no corpo de quem disputa uma supermaratona. FONTE: Superintessante. p. 20. Edição 264, Abril 2009. A título de exemplo, foi selecionado esse infográfico da Revista Superinteressante, comportado na seção Superrespostas, que busca responder por meios de imagens e palavras, 32 simulando o movimento dos atletas, o que acontece no corpo de quem disputa uma supermaratona. Da necessidade de um texto como base para a comunicação, a busca pela compreensão do infográfico como esse dispositivo atual, midiático e inovador como um texto, ao passo que comunica, visa trazer informações ao leitor, e acredita-se que aqui consiste um dos pontos em que se diferencia a pesquisa, na compreensão do infográfico como um texto, mostrando que para além de recurso, é um texto complexo. Óbvio que não se tem aqui a pretensão de acreditar serem os primeiros a compreenderem o infográfico como um texto, pois a cada momento, novas ideias, novos conceitos e novas pesquisas surgem, por isso, é colocado esse diferencial até o presente momento e diante das publicações observadas. Para iniciar essa compreensão, algumas questões sobre o componente “texto” serão anunciadas. O que é um texto? Algo escrito de forma extensa numa folha? Talvez uma historinha em quadrinhos? Um anúncio? Uma placa? Seria a imagem um texto? São esses os pensamentos e dúvidas que ocorrem muitas vezes numa sala de aula, quando, por exemplo, o professor chega à aula de língua portuguesa e anuncia que irá passar um texto na lousa. Imediatamente, a reação dos aprendizes é negativa, pois imaginam que o professor irá completar a lousa com palavras, pois, para eles, o processo de copiar é cansativo. Essa cena com certeza já ocorreu com vários professores, e, diante dessa situação, como um questionamento informal, por várias vezes questiona-se os alunos: O que é um texto para você? Alguns não sabiam a resposta, mas a maioria respondeu dizendo que “texto é uma folha cheia de palavras” ou “um monte de palavras juntas”. Compreendendo o texto como algo escrito extenso e longo, inclusive alguns alunos mostrando os textos ao invés de dar a resposta à pergunta, vê-se que pensamentos como esse não ocorrem apenas na escola, mas de forma geral, grande partes das pessoas compreendem o texto dessa forma. Ao se falar sobre texto, é inevitável vir a mente uma ou mais folhas extensas contendo somente palavras. Como essas questões vão além da sala de aula, é preciso não apenas identificar um texto, mas compreendê-lo, e para isso é preciso considerá-lo não apenas como um produto como diz Bakhtin (2011), mas como um processo envolvendo as relações complexas entre produtor, texto e interlocutor. Relações estas que se intercruzam com os discursos da sociedade, pois como afirma Pêcheux (1975), toda a produção e interpretação de um texto vêm de uma relação de discursos que circulam e circularam na sociedade em um determinado momento histórico, ou seja, além das relações linguísticas, culturais e sociais que envolvem o processo de produção de um texto, é preciso um olhar amplo para os discursos anteriores. 33 Aponta-se então, que os textos verbais, não são delimitados por seu tamanho, e podem ter tamanhos variados, que vai depender do suporte em que se encontram e da forma como são compostos pelos produtores. Tem-se o exemplo dos aforismos, mesmo sendo curtos são recheados de sentidos postos por essas relações e também pelas suas condições históricas. O que define um texto não é sua extensão, mas o seu significado enquanto unidade de significação em relação à situação, pois um texto, no sentido amplo, é algo que comunica, podendo ser uma escrita, um aforismo, uma palavra ou uma imagem, e é nesse aspecto que se identifica o infográfico como sendo um texto. A compreensão de um texto se dá por meio da linguagem, que é constituída e marcada pelo sujeito, que, por sua vez, é social e ideológico. Sem o sujeito, a comunicação não poderia existir, pois ele se constitui na relação com o outro, ou seja, na medida em que se interage com o outro, e é nessa relação dinâmica com a alteridade que a identidade se constrói (BAKHTIN, 2011). Acontece assim, a dinâmica de interação entre o texto, o locutor e o interlocutor, mas não é só essa relação que deve ser mencionada. É relevante refletir também sobre a relação dinâmica entre os textos que percorrem o momento histórico atual, os quais estão presentes na sociedade de forma múltipla, como o texto de um blog, um texto de uma campanha comunitária, um texto ilustrativo, um texto com gráficos e animações, entre outros. Koch (2003) traz alguns conceitos importantes sobre texto e seu sentido, que depende das concepções que se tenha de língua e de sujeito. O texto é visto como um produto na concepção de língua como representação do pensamento, a representação mental do autor que faz o leitor captar passivamente essa imagem e também as intenções do autor. Na concepção de língua enquanto um código, o papel do leitor é o de decodificador, e o leitor é passivo, bastando decifrar os códigos. É preciso unir a concepção de língua, de sujeito e de texto estando em interação para que a compreensão deixe de ser uma simples captação, e, somente na concepção dialógica da língua, apontada também por Bakhtin (2011) que os sujeitos são vistos como atores, construtores sociais, de forma que o texto passa a ser considerado o próprio lugar da interação, e os interlocutores, como sujeitos ativos – dialogicamente –, onde nele se constroem e nele são construídos (KOCH, 2003). Para a autora: O sentido de um texto é, portanto, construído na interação texto-sujeito (ou texto - co- enunciadores) e não algo que preexista a essa interação. Também a coerência deixa de ser vista como mera propriedade ou qualidade do texto, passando dizer respeito ao modo como os elementos presentes na superfície textual, aliados a todos 34 os elementos do contexto sociocognitivos mobilizados na interlocução, vêm a constituir, em virtude de uma construção dos interlocutores, uma configuração veiculadora de sentidos. (KOCH, 2003. p. 17). De acordo com a autora, questões relativas ao sujeito, ao texto e à produção textual de sentidos são baseadas na concepção de interação, bem como para Bakhtin (2011) quando diz que o texto é o lugar de interação entre interlocutores, assim, a produção e o processamento de textos depende de uma interação entre os sujeitos envolvidos. Além dessa interação entre interlocutores, o texto possui uma natureza multissemiótica, ou seja, são produzidos na relação com diferentes linguagens produzindo sentidos múltiplos. Por exemplo, quando a fala é utilizada, são produzidos textos orais que, conforme falados são moldados por gestos, por direcionamento do olhar e pela postura corporal, pelo tom de voz. E não é diferente quando se produz textos escritos, quando são feitas uso de outras linguagens para compor e organizar o texto. Aqui, os exemplos são variados, como os diferentes tipos de letras, o tamanho do texto no suporte papel ou até mesmo no suporte tela do computador, o mais comumente utilizado nos dias atuais, também as cores das letras e das páginas, as imagens, incluindo fotos, desenhos, ilustrações, gráficos, etc. principalmente no ambiente digital (ROJO, 2011). Com relação ao computador, os textos da internet podem conter imagens em movimentos, vídeos, links, animações, sendo múltiplos os elementos que podem compor os sentidos de um texto. Ainda sobre os textos escritos, sejam eles disponibilizados no suporte impresso ou digital, vão sempre mostrar a relação de grande proximidade e também de grande tensão, podendo ocorrer até mesmo uma disputa entre o verbal e o não verbal. Considera-se então, que todo o texto possui uma condição multissemiótica, ao passo que toda a atividade de produção resulta da articulação e da manipulação de recursos semióticos variadas como as imagens, estáticas ou em movimento, a escrita, a fala, a música, para criar, significar e comunicar algo (ROJO, 2011). Pode-se entender que a mídia e as novas tecnologias digitais presentes no contexto atual, dão a possibilidade de se estar em constante interação com os mais diversos tipos de textos multissemióticos, não somente na sala de aula através dos livros didáticos que utilizam diferentes linguagens como a visual e a gráfica, como também com a educação que acontece no contexto social, por meios de revistas de divulgação científica, por meios de artigos veiculados pela mídia, pelas matérias televisivas, entre outros, estando numa interação constante. 35 Em “O problema do texto na linguística, na filologia e em outras ciências humanas”, Bakhtin (2011) descreve sobre o texto relacionado ao pensamento das ciências humanas, voltado para pensamentos, sentidos e significados dos outros, dados ao pesquisador no formato de texto, ou seja, procuram-se descobrir sentidos, fatos, acontecimentos por meio do texto. O texto vem como uma realidade imediata, do pensamento e das vivências, independentemente de quais sejam os objetivos de uma pesquisa, só o texto pode ser o ponto de partida. Para Bakhtin (2011), onde não há texto não há objeto de pesquisa e pensamento, justamente, o caminho pelo qual a presente pesquisa percorre, com o encontro do pesquisador e com o seu outro, o encontro com a pesquisa e com o objeto de pesquisa, não deixando de fora as relações que trouxeram significados para ela. Além das considerações filosóficas mencionadas acima, bem como para Koch (2003), Bakhtin (2011) aponta os mesmos elementos que constituem o texto, como o sujeito, o autor (o falante, ou quem escreve) e também seus possíveis tipos e modalidades, além de formas de autoria (BAKHTIN, 2011 p. 308). Todos esses elementos são importantes, mas são focados os elementos que corroboram mais acentuadamente para a pesquisa, como os que vão determinar o texto como enunciado: a ideia do texto (intenção) e a realização dessa intenção. O acontecimento da vida do texto, isto é, sua verdadeira essência, sempre se desenvolve na fronteira de duas consciências, de dois sujeitos. (...) É um encontro de dois textos – do texto pronto e do texto a ser criado, que reage; consequentemente, é o encontro de dois sujeitos, de dois autores. (BAKHTIN, 2011 p. 311) É nesse contexto dialógico que cada época participa do texto por meio da linguagem, pois sem ela, não pode haver relações dialógicas. Estas são ligações semânticas que envolvem toda a espécie de enunciados na comunicação discursiva, por isso, em cada época e em diferentes gêneros acontece a formação de uma determinada linguagem (BAKHTIN, 2011 p. 323). Nessa relação dialógica entre textos e no interior destes, pressupõe um sistema universalmente aceito (isto é, convencional no âmbito de um dado grupo) de signos, uma linguagem: Portanto, por trás de cada texto está o sistema da linguagem. A esse sistema corresponde no texto tudo o que é repetido e reproduzido e tudo o que pode ser repetido e reproduzido, tudo o que pode ser dado fora de tal texto (o dado). Concomitantemente, porém, cada texto (como enunciado) é algo individual, único e singular, e nisso reside todo o seu sentido (sua intenção em prol da qual ele foi criado). É aquilo que nele tem relação com a verdade, com a bondade, com a beleza, com a história. (BAKHTIN, 2011 p.310) 36 Embora os textos estejam sempre num movimento dialógico, pertencentes a um sistema de linguagem, é possível repetir e reproduzir externamente o texto, mas quando é observado como um enunciado percebe-se que o mesmo é singular, mantendo sentidos estão na intenção para qual ele foi criado. Cada texto poderá ser reproduzido mecanicamente, como uma cópia, mas a reprodução do texto pelo sujeito (a retomada, a repetição da leitura, uma nova execução, uma citação) é um acontecimento novo e singular na vida do texto, o novo elo na cadeia histórica da comunicação discursiva (BAKHTIN, 2011 p. 311). Concorda-se que, simbolicamente, se pode considerar o texto como um “ser vivo”, pois a cada escritura, a cada movimento dialógico cria-se um novo enunciado. O mesmo ocorreu com a pesquisa, em que novas possibilidades de estudos surgiram, mas que, por motivo cronológico não foi possível abranger. Voltando ao infográfico, a vividez desse texto está no seu processo de criar, significar e comunicar alguma informação, por criar e produzir sentidos, por explicar fatos e acontecimento, mantendo a intenção inicial do autor no enunciado, que almeja atingir seu leitor, e sua vividez está também na ampliação de leituras que o infográfico possibilita. Essa comunicação, podendo ser considerada até multissemiótica, se dá pela composição do infográfico: palavras e imagens, que é feita por imagens e suas relações textuais, ao passo que dialoga entre si e dialoga com o leitor e pode ser compreendido por meio da linguagem ou como linguagem. No próximo item, são abordados os gêneros textuais, pois o texto é um exemplar concreto de gênero. O infográfico ao veicular pela mídia como um texto, constituí-se por meio de textualizações específicas feitas por um produtor as quais apresenta certa intencionalidade. 1.2. Gêneros textuais Bem como os usos sociais da linguagem na sociedade são multiformes e heterogêneos, são também os campos da atividade humana relacionados à comunicação, pois é por meio da linguagem, que tem por função mediar o processo de comunicação, que se constituem os enunciados pronunciados pelos sujeitos atuantes numa determinada esfera da comunicação (BAKHTIN, 2011), (ROJO, 2007). Esses enunciados reproduzem e/ou retratam as condições sociais pertencentes a determinadas esferas comunicacionais, e, para isso, estes enunciados são regulados pelo tema, 37 pelo estilo e por sua composição, conforme será detalhado logo adiante. Se toda a esfera da atividade humana como aponta Bakhtin (2011), estão relacionadas com a linguagem, pressupõe-se que há muitos enunciados relativamente estáveis que são específicos dos gêneros, e, podem se modificar, desaparecer ou derivar novos enunciados conforme os usos sociais, fazendo emergir os gêneros. Bakhtin (2011) teoriza sobre o gênero, assim como o texto, não como um produto, mas em seu processo de constituição vinculado à utilização da linguagem e às atividades humanas. Compreende-se então, que o texto é amplo para a comunicação, podendo aparecer em diversos formatos como os citados anteriormente, como num blog, numa rede social, na internet, por meio de um gráfico ou de uma ilustração, e este se comporta dentro de um determinado gênero, sendo mais específico, possuindo tipificações para se enquadrar e veicular como linguagem. Ao ponto que os seres humanos agem em determinadas esferas de atividades, como por exemplo a escola, trabalho, igreja, política, relações afetivas de amizade, entre outras, faz- se necessário enquadrar os gêneros, pois são nessas relações que os gêneros estão presentes, já que estes não surgem do nada, mas são constituídos historicamente e gerados pelo campo do conhecimento humano: Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo; é a esses gêneros que correspondem determinados estilos. Uma determinada função (científica, técnica, publicística, oficial, cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursiva, específicas de cada campo, geram determinados gêneros, isto é, determinados tipos de enunciados estilísticos, temáticos e composicionais relativamente estáveis. (BAKHTIN, 2011, p.266) É importante retomar o surgimento dos gêneros para poder observar a relação com a história e como as novas formas de comunicar evoluíram e então, novos gêneros tomam conta da sociedade. O estudo dos gêneros do discurso tem origem antiga desde Aristóteles, com os gêneros presentes no ensino de disciplinas como Retórica, Literatura, Filosofia e Filologia e mais atualmente no campo de estudos linguísticos, semióticos e gramaticais. A partir de 1960, sob novo formato são conhecidos como gêneros do discurso. Foi então que após a invenção da escrita alfabética, por volta do século VII A.C. que os gêneros se multiplicaram. A partir do século XV, houve uma ampliação dos gêneros devido ao amadurecimento da cultura impressa, mas a grande expansão dos gêneros acontece com a industrialização no século XVIII, que trouxe aos dias atuais a cultura eletrônica com os novos meios de comunicação e também com os meios que coexistiram como a TV, o rádio, o 38 gravador, o telefone, ou seja, estes apenas ganharam novos formatos, já o computador expandiu com a internet, o que tornou possível a proliferação de novos gêneros. As tecnologias propiciaram o surgimento de novos gêneros como os sites, blogs e redes sociais. É importante observar que não foi apenas o surgimento de um ou outro meio de comunicação que proporcionou o surgimento dos novos gêneros, mas sim a aceitação desses gêneros pela sociedade, que intensifica os usos dessas tecnologias no cotidiano e dá crédito aos novos gêneros textuais. Também os suportes centrais e até os mais popularizados como a TV, o rádio, o jornal, a revista e a internet ajudaram a criar novos gêneros característicos de suas respectivas esferas, surgindo então novas formas discursivas, como editoriais, artigos, notícias, telefonemas, telegramas, telemensagens, teleconferência e videoconferência, reportagens ao vivo, e-mail, entre outros utilizados para a comunicação de entretenimento (nas salas de bate-papo), para promover a educação efetivada nas aulas virtuais, nos grupos de pesquisa, entre outros. Bakhtin (1997) fala também da transmutação dos gêneros e na assimilação de um gênero por outro, dessa forma, não são propriamente novos. O e-mail, por exemplo, pode ser entendido no que se trata de uma evolução do bilhete, da carta, possuindo peculiaridades diferentes. O telefonema que se assemelha a uma conversação, no canal eletrônico também assume características próprias, gerando um hibridismo nas relações entre a oralidade e a escrita. Além disso, esses gêneros promovem uma integração entre os vários tipos de semioses como os signos verbais, as imagens e suas formas em movimento, os sons. Os gêneros, além de estarem incorporados em determinada esfera social, incorporam os objetivos, as ideologias e as relações dialógicas pertencentes a essa esfera. Para Bakhtin (2010) tudo o que é ideológico possui um valor semiótico, pois onde o signo se encontra, se encontra também o ideológico. Para o autor, todas as esferas da atividade humana estão efetivamente relacionadas com o uso da linguagem, a qual é compreendida pela sua dimensão social e dialógica, estando numa relação intrínseca com a sociedade e os objetos que interagem num determinado momento histórico, significando que os enunciados constituem- se historicamente, por meio da linguagem formando os gêneros. Discurso, ideologia e sociedade se constituem por meio das linguagens que se interagem, se reproduzem e se renovam. Os gêneros são enunciados relativamente estáveis. Seria confuso se toda essa variedade de gêneros presente na sociedade hoje - chat, blog, reportagem, artigo de opinião -, não 39 tivessem classificações típicas que o designassem e correspondessem a sua forma comunicativa! Isso dificultaria a comunicação, por isso: Os gêneros do discurso organizam o nosso discurso quase da mesma forma que o organizam as formas gramaticais (sintáticas). Nós aprendemos a moldar o nosso discurso em forma de gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já advínhamos o seu gênero pelas primeiras palavras, advínhamos um determinado volume (isto é, uma extensão aproximada do conjunto do discurso que em seguida apenas se diferencia no processo da fala). Se os gêneros do discurso não existissem e nós não os dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo do discurso, de construir livremente e pela primeira vez cada enunciado, a comunicação discursiva seria quase impossível (BAKHTIN, 2011 p. 283). Com incessante alteração, os gêneros estão com seu repertório em contínua mudança, devido ao desenvolvimento das esferas de atividades humanas, unindo estabilidade e instabilidade, permanência e mudança, que os tornam relativamente estáveis. Com essas alterações e mudanças, gêneros podem aparecer ou desaparecer, diferenciar-se e até ganhar novos sentidos, como o surgimento da internet, com os seres humanos expostos a novas esferas de comunicação. Os gêneros só ganham sentido se existir uma correlação entre essas esferas e suas atividades. Os gêneros são meios de apreender a realidade, com novos modos de ver e de conceitualizar a realidade implicando o aparecimento de novos gêneros e a alteração dos já existentes. Ao mesmo tempo, novos gêneros ocasionam novas maneiras de ver a realidade, e a aprendizagem dos modos sociais de fazer leva, concomitantemente, ao aprendizado dos modos sociais de dizer, os gêneros. Não são todas as pessoas que conseguem dominar todos os gêneros, pois, mesmo que alguém domine bem uma língua, terá dificuldades de participar de determinada esfera de comunicação se não obtiver controle do(s) gênero(s) que ela requer. É por isso que há pessoas que conversam brilhantemente, mas são incapazes de participar de um debate público ou de discursar para uma grande platéia, e a falta de domínio do gênero é a falta de vivência de determinadas atividades de certas esferas. Fala-se e escreve-se sempre por gêneros e, portanto, aprender a falar e a escrever é, antes de qualquer coisa, aprender gêneros. (FIORIN, 2006 p.69). Bakhtin divide os gêneros em primários e secundários. Os gêneros primários são os gêneros da vida cotidiana e em sua maioria são orais, pertencentes à comunicação verbal espontânea, como a piada, o bate-papo, a conversa telefônica, o bilhete, o e-mail, o chat. Já os secundários, pertencem à esfera da comunicação cultural mais elaborada, como a jornalística, a religiosa, a política, a pedagógica. Eles são, em sua maioria, escritos, como o editorial, o 40 ensaio filosófico, o sermão, o romance, a divulgação científica. Os gêneros secundários absorvem e dirigem os primários, transformando-os. O autor faz do romance o gênero central de sua obra, pois foi foco de sua atenção ao longo de toda a sua vida, onde o romance é a expressão do dialogismo no seu mais alto grau, pois se acentua nesse gênero, mais que nos outros, à diversidade, à diferença. Sua construção está fundamentada na relatividade, não tem linguagens próprias porque assimila todos os gêneros, com a linguagem peculiar de cada um. Bakhtin (2011), ao utilizar o termo gênero discursivo refere-se não somente a um tipo de gênero, mas sim, a todos os outros gêneros que existem em campos diferentes que comportam uma atividade humana. Para isso, é utilizado o termo gênero textual para o presente estudo. Na escola aprende-se por meio dos gêneros textuais quando se identificam as características dos textos que apresentam propriedades comuns e assim compreende-se a mensagem. Acredita-se que os gêneros que aparecem no contexto social como em revistas, jornais, internet podem trazer algum tipo de conhecimento, pois, dentre as características que dão sentido ao gênero textual, seu conteúdo temático que é o domínio de sentido de que ocupa um gênero; o estilo é a seleção dos meios linguísticos utilizados; e sua organização composicional é o modo como o texto é organizado, em relação a sua estrutura, tendo por função estabelecer uma interconexão da linguagem com a vida social. Retomando as características comuns aos gêneros textuais, Bakhtin (2011) menciona que o tema atua nos gêneros textuais com o objetivo de enquadrá-los nas situações interativas. Em concordância com Bakhtin (2011), Fiorin (2006) esclarece que o tema não é o assunto específico de um texto e sim, o domínio de sentido que preenche o gênero. Se os gêneros servem para orientar para a vida, ele reflete e refrata uma realidade, o conteúdo temático é a forma como o gênero seleciona elementos da realidade e se constitui. O estilo do texto está relacionado à utilização de recursos linguísticos determinantes das atividades em que se insere. O tema determina a seleção dos aspectos da realidade à partir dos quais opera, e o estilo favorece com os recursos linguísticos que servem para representar e refratar a realidade do gênero. Por último, o conteúdo composicional para Bakhtin (2011), são os procedimentos de disposição, orquestração e acabamento do enunciado, onde está presente a mobilização dos participantes da comunicação, a construção composicional de um gênero organiza o material do enunciado e está também ligada a forma padrão de uma estrutura geral. 41 FIGURA 3: Infográfico: Como funciona a pericia digital FONTE: Superinteressante, Edição 296, outubro 2011. Como exemplo, esse infográfico foi escolhido da seção Respostas, que comumente faz uso da palavra “como” em seu título: “Como funciona a perícia digital”. Este possui um tema: Perícia digital, um estilo linguístico que engloba apenas características típicas desse texto desenvolvidas em cada crime, apesar de fazer uso de alguns termos técnicos, conseguiu entender de forma sintética devido a sua composição que se apropria de imagens na dinamização com as palavras. O infográfico se enquadra na concepção de gênero textual não somente por ser um exemplar do texto, ou pelos enquadramentos específicos que como um gênero de texto este deve possuir, mas por estar vinculado a uma linguagem que se expandiu na mídia, o que faz dele um dispositivo atual, pois no caso desse infográfico apresentado acima, trata-se de uma informação contemporânea que advinda da ciência popularizou dados como este. No capítulo quatro isso será mais acentuado, com uma análise de um infográfico como um gênero textual. Sendo o texto o ponto de partida para a comunicação, a concepção de gênero textual, os enquadramentos necessários ao infográfico, o próximo item tratará dos sentidos do texto, daquilo que significa a partir dos sentidos presentes no texto e de alguma forma dialoga com o 42 leitor, que esta na perspectiva semiótica, sendo o gênero textual pertencente ao campo da semiótica. 1.3. O texto na perspectiva semiótica Da emergente necessidade já citada anteriormente de produzir informações com um novo perfil, um perfil que atenda a cultura da era das tecnologias de comunicação, cultura esta ramificada na interação entre a linguagem verbal e a linguagem visual, é proposta então uma reflexão sobre a semiótica dos textos, isto é, os sentidos dos textos perante esses aspectos. Sentidos estes, presentes no infográfico, que podem trazer as mais diversas sensações no leitor, produzir sentidos múltiplos de entendimento do texto que advém do perfil do leitor, do ambiente cultural e da dinâmica interação entre imagens e palavras que esse texto possui. O texto infográfico já está enquadrado em tipificações específicas contendo um tema, um estilo e uma composição própria, como visto anteriormente no estudo dos gêneros, que em nada se desvincula dos estudos da semiótica, pois é por meio desta que os sentidos vão sendo produzidos em parte pelo que o texto já prevê em demonstrar ao leitor, e em parte pelo que o leitor vai reter desse texto, considerando que os leitores são diferenciados e cada leitor vai interpretar os sentidos de uma forma, motivo pelo qual não se entrará no âmbito do que o leitor assimila de um texto, porém, colocam-se como leitores desse tipo de texto. Os campos de estudos da semiótica são variados, e para compreender a semiótica cultural, são utilizados as concepções de Lotman (2007) e Bakhtin (2010), que entendem a semiótica cultural não puramente linguística, codificada, mas também movida e modificada por um ambiente cultural, como ocorre no enquadramento do gênero textual infográfico, tornando-se a semiótica parte integrante e potencialmente produtora dos sentidos desse gênero, pois toda e qualquer forma de conhecimento de mundo é uma forma de interpretação e significação que se pronuncia por meio dos signos, são entre eles, os gestos, os ritos, as palavras e os símbolos. Entretanto, “embora a semiótica seja uma disciplina historicamente recente enquanto um estudo especificamente sistematizado, seu objeto de preocupação – os signos – faz-se presente em toda a história de compreensão e interpretação de mundo formulada pelos homens.” (PECHULA, 2001. p.15). Apesar de seu recente estudo sistematizado, a semiótica da cultura vai além de uma disciplina com estatuto autônomo; ela atravessa toda a história da filosofia e da ciência, pois 43 sua preocupação consiste no trabalho de compreensão dos signos que pode ser vislumbrada desde os primeiros filósofos. Iuri Lotman é considerado o nome mais expressivo da escola soviética. Seu pensamento representa o cerne da semiótica da cultura. Parte do princípio da instauração da cultura como resultante da necessidade do homem adaptar-se ao meio natural para sobreviver, o que exige a criação de instrumentos de adaptação, tais como o trabalho, a organização social, a linguagem e a consciência, que são inseparáveis e determinam-se mutuamente. Por esse aspecto, toda a análise semiótica implica a consideração desses instrumentos. (PECHULA, 2001 p.18). Mesmo com as contribuições do campo semiótico para a compreensão do texto enquanto um signo cultural, não é feito nessa pesquisa um estudo sistematizado da semiótica. No presente estudo, a semiótica caracteriza um aporte para os estudos a respeito da infografia, no que se refere a produção de sentidos do texto. A semiótica da cultura, embasada na própria concepção de cultura, que, para Machado (2013) consiste em organizar estruturalmente o mundo que rodeia o homem, sua capacidade de transformar toda informação circundante em conjuntos diversificados, mas organizados, de sistemas de signos, aptos a constituir linguagens, estão tão distintas quanto às necessidades expressivas dos diferentes sistemas culturais, pois é dessa forma que a semiose se realiza desses processos distintos que geram a linguagem verbal humana que pode configurar novos gêneros, já que o gênero textual pertence ao campo da semiótica. Se um serve para organizar/compor o texto por meio de temas e estilos linguísticos (gêneros textuais), o outro (campo da semiótica) vai trazer sentidos que muitas vezes podem não estar explícito na composição do texto, mas que, farão sentidos para o leitor. Por isso, os sistemas culturais são entremeados de linguagens, e estas transmitidas por meio dos textos, os quais o escritor lê e se insere, reescrevendo-os (LOTMAN, 1981). Esses sistemas culturais, para Machado (2013) modelizam tanto as linguagens artificiais da ciência, quanto às linguagens secundárias da cultura, dos mitos, da religião, da moda, dos sistemas e dos meios. Para a autora, embora a tradição linguística tenha consagrado o conceito de texto como unidade verbal, no sistema geral da cultura, os textos são sistemas modelizantes, e nele circulam, interagem, interferem e se auto-organizam hierarquicamente as linguagens como dispositivos pensantes, dialógicos e produtores de sentido, conforme diz Bakhtin: O texto “subentendido”. Se entendido o texto no sentido amplo como qualquer conjunto coerente de signos, a ciência das artes (a musicologia, a teoria e a história das artes plásticas) opera com textos (obras de arte). São pensamentos sobre pensamentos, vivencias das vivencias, palavras sobre palavras, textos sobre textos. (BAKHTIN, 2011 p. 307) 44 É nesse sentido que a pesquisa de embasa, com os textos entendidos no sentido amplo e não meramente unidade verbal. A semiótica da cultura tem por função tratar dos textos e de seus múltiplos sentidos que são codificados pelo contexto ambiental de sua produção e esse sistema semiótico desencadeia formações interpretantes e de leitura, que resulta na constituição do próprio conhecimento. Para Machado (2013) isso significa que todo o texto deve estar codificado, no mínimo, duas vezes: pelo código que apreende a informação e a transforma num conjunto organizado de signos; e pelo contexto sistêmico da cultura historicamente constituído. A realidade cultural está nas coisas que significam e o texto tem essa condição de significação da cultura, que para gerar novos sentidos deve estar relacionada ao ambiente, a relação com outros textos e também com as linguagens constitutivas desses textos, como é o caso do texto infográfico que produz sentidos no leitor, podendo ser diversos, pois cada leitor atribuirá os sentidos de acordo com o seu tempo, sua cultura, o ambiente e a relação com textos e com linguagens distintas. Esses múltiplos sentidos poderão ser verificados nos infográficos aqui apresentados, seja a critério de exemplificação ou de análise, que acontece no capítulo 4. Texto, então para a semiótica, além da configuração linguística, que é articulada pela língua natural, se expande para a configuração cultural, que pautado na concepção cultural é codificado pelo signo, seu sistema semiótico, e também pelo ambiente no qual foi produzido, características que serão expressas no infográfico. No capítulo três será dialogado com a imprensa, que é por onde veicula a informação por meio do texto embasado na cultura que resignifica o objeto de estudo, o infográfico. 45 2. IMPRENSA, TEXTO E CULTURA São relatados brevemente alguns aspectos das mudanças culturais ocorridas a partir da invenção da imprensa, que, desde então, vem alterando as formas de comunicação. A questão crucial para qual corroborou estes estudos são advindas do século XX, com o surgimento das mídias digitais, que fez com que aumentasse as possibilidades de acesso à informação, através das tecnologias da informação aproximando cada vez mais emissor e receptor, época em que o jornalismo começa a ter a intenção de proporcionar ao cidadão comum a compreensão das pesquisas nos diversos ramos da ciência, criando modelos de linguagem específicos, textos multicodificados, coerentes com a época atual (VELHO, 2004). Sobre os textos, de acordo com Santaella (1983), a semiótica cultural que significa o estudo das linguagens ou expressões de códigos culturais das mais diversas naturezas, permite a percepção de que a cultura acompanha e se adapta aos novos tempos. Vista por essa lógica, percebe-se a rápida absorção das pessoas aos meios midiáticos contemporâneos, sobretudo, pela sua ampla informação visual, possibilitada pelas tecnologias da informação. O sistema de signos da cultura promove o desenvolvimento de linguagens para os processos comunicativos, dentre eles os textos, sendo o objeto de reflexão como modelos elementares para o pensamento semiótico sobre a cultura, pois caracterizam o pressuposto de que a cultura confecciona uma trama de relações que não são unificadas por um único sistema de signos dominante, nem mesmo a língua, mas sim pela diversidade semiótica (MACHADO, 2013). Nesse sentido, o texto é um mecanismo elementar de produção da semiose, que, ao se transformar em informação codificada, torna-se perceptível, por isso se diz que o texto está inserido na cultura e se manifesta através dela, e esta não apenas produz um texto, como se constitui como um texto. Quando é afirmado acima: “Onde não há texto não há objeto de pesquisa e pensamento” (BAKHTIN, 2010), percebe-se que as ciências humanas são ciências do homem em sua especificidade e está veiculada pelo texto, o homem em ação, enquanto fala, cria textos. Para Machado (p. 65, 2013): De onde se pode sintetizar a máxima de seu pensamento semiótico: “Quando estudamos o homem, procuramos e encontramos signos por toda parte e nos empenhamos em interpretar seu significado”. Segundo esta linha de raciocínio, signo gera signo, do mesmo modo que texto gera texto. O texto da cultura pressupõe, portanto, a semiotização do entorno. Tal é a noção desenvolvida pela disciplina teórica em suas formulações fundamentais, como se pode ler no fragmento. 46 Voltando na perspectiva do pensamento de Velho (2004), a autora cita as pesquisas de Joly (1996) que considera significativa para a semiótica explicar que a estrutura da linguagem visual está baseada na organização de diferentes signos, ou seja, a imagem transporta diferentes categorias de signos: signos icônicos – imagens no sentido teórico, puramente visual; signos plásticos – formas, texturas e cores; signos linguísticos – a linguagem verbal. Da manipulação desses signos que se cria a infografia, que será estudada mais detalhadamente adiante, já reconhecida pela autora como uma nova linguagem para o jornalismo. Ela pontua que a capacidade de leitura semiótica vai contribuir para que as pessoas ganhem competência para lidar com as ferramentas do discurso midiático atual, o qual está baseado na mistura de códigos e signos e enfatiza ainda que, se a alfabetização semiótica começar na educação básica, as pessoas se tornarão mais competentes para a leitura e também a construção de textos midiáticos. Embora o foco desta pesquisa não recaia no conceito do leitor e sim no conceito de texto, acredita-se ser importante para esta reflexão os pensamentos relacionados a educação advindos de uma jornalista, ou seja, até o jornalismo, que não está intimamente ligado a educação, já reconhece o uso da infografia como uma linguagem e como uma forma de ensino. Embora haja uma tendência no aparecimento de imagens nos meios midiáticos, como forma de evolução dos processos de comunicação histórica e cultural, não há dúvidas de que o jornalismo, especialmente o jornalismo científico se apropria do uso da infografia para tornar a mensagem/informação mais compreensível culturalmente. Como característica dessa cultura semiótica, esse tipo de texto tem a estrutura característica da tela do computador e se apresenta por meio de ícones e símbolos, letras e cores e todo um aparato de características de visualidade que incorpora e representa o momento cultural. Na perspectiva de Lotman (1981), qualquer linguagem que sirva de meios de comunicação é, em última instância, constituída por signos. A constituição das linguagens depende de regras de combinação que se formalizam em determinadas estruturas como um modo de hierarquização próprio. A linguagem infográfica depende do meio social que as comuniquem, e essa comunicação é aceita na organização social atual, trata-se de um produto social que representa formas de interpretação do mundo por meio desse texto dentro da cultura emergente o qual foi criado, que também é repleto de ideologia: 47 Portanto, ao lado dos fenômenos naturais, do material tecnológico e dos artigos de consumo, existe um universo particular, o universo de signos. (...) Um signo não existe apenas como uma realidade, ele também reflete e refrata uma outra. Ele pode distorcer essa realidade, ser-lhe fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista específico, etc. (BAKHTIN, 2010. p. 32). Bakhtin (2010) ao considerar que um produto ideológico faz parte de uma realidade, reflete e refrata uma realidade, mencionando que tudo o que é ideológico possui um significado e remete a algo fora de si mesmo, trazendo um exemplo de qualquer produto de consumo, que pode ser transformado em produto ideológico, já que não existe signo sem ideologia, quando fala do pão e do vinho, que se tornaram símbolos religiosos no tratamento cristão da comunhão, e enfatiza, que esses produtos por si só não são ideológicos fora do contexto da religião. O infográfico é um texto cultural do qual a cultura representa-se por meio do texto, e este, é marcado também pela ideologia, pois ao se reconhecer como um produto de consumo é associado a símbolos ideológicos. No próximo item será tratado especificamente do texto infográfico, seus contextos históricos e sociais e seus conceitos. 2.1. O texto infográfico: breve contexto histórico e social FIGURA 4: Infográfico: Como prevenir a seca Fonte: Superinteressante, Edição 322, agosto 2013. 48 É importante resgatar de forma breve, o contexto histórico e social do infográfico, visto o formato do infográfico que se tem hoje, assemelhando-se ao exemplo dado acima “Prevenir a seca”, utilizado nas mídias impressas e digitais, onde houve uma evolução no processo da imagem e da comunicação, sendo esta histórica e social. É fato que desde o homem primitivo a imagem esteve presente no processo de comunicação, iniciando-se pelas pinturas rupestres registradas pelo homem nas paredes da caverna há mais de 200 mil anos e eram gravadas ali seus sentimentos, pensamentos e ideias, o que deu início a linguagem visual. A combinação imagem e escrita estão presentes na sociedade desde tempos remotos, quando o homem utilizou-se de imagens para representar seu pensamento, como aponta Valero Sancho (p. 15, 2001): O homem moderno entende melhor o que vê que o que lhe conta e faz facilmente seu um novo modo de conceber ideias através de infografias. Estão mudando os meios didáticos, mas não determinados fundamentos epistemológicos, ainda que estejam se transformando muitos dos hábitos comunicativos [...] o ser humano, ao comunicar-se com os outros através de infografias, não estão fazendo nada e novo que rompa com sua condição comunicativa anterior. Ele está fazendo o de sempre, posto que ao largo de toda a história se comunicou mediante representações visuais mais ou menos complexas. No papel de representar o pensamento pela comunicação, a linguagem visual antecede qualquer outra linguagem utilizada para comunicar. FIGURA 5: A Arte Rupreste. Fonte: As Arteiras – CSJB. Pinturas rupestres registradas pelo homem nas paredes de cavernas há milhares de anos. [internet, 2012]. 49 Essas imagens são pictóricas, ordenadas por pigmentos; mesma técnica utilizada em desenho, pintura, gravura e até mesmo em fotografia. Pode-se afirmar que imagens pictóricas são pré-fotográficas, que inclui fotos e cinema, e mais atualmente, surgiram às imagens de Síntese, as Numéricas e Holográficas. Bem simplificadamente falando dessas três categorias, as imagens de síntese são aquelas que por meio da descrição dos objetos nela contidos (fontes de luz, geometria, por exemplo), promovem certo grau de realismo. As numéricas estão relacionadas com a sua dimensão no suporte e as holográficas compõem-se de uma técnica de gravação de um todo da imagem, como se fosse um objeto inteiro, sendo uma figura em três dimensões, com altura, comprimento e largura, e assemelha-se à visão humana das coisas. Nessa técnica está inserida a infografia. Assistimos a uma transformação profunda e radical mudança no que se refere à produção de imagens. Isso se deve à mudança radical de sistemas produtivos, não mais o domínio de sistemas artesanais ou mecânicos, mas sim sistemas eletrônicos que transmutam as formas de criação, geração transmissão, conservação e percepção de imagens (PLAZA, 1998, p. 72). Da mesma forma que a linguagem verbal passou a ocupar um espaço maior na transmissão de informações, agora novamente a imagem ganha força nos meios de comunicação, devido à evolução desses meios e às facilidades de reprodução que a informatização e a mídia trazem. Diante desse contexto histórico, propagam-se também a necessidade emergente do homem: se comunicar mais rapidamente (CAIXETA, 2005). Presumindo-se então, que a imagem pode cumprir esse papel e para ser ainda mais eficaz, que tal juntar a imagem e a escrita para comunicar? A infografia é mais uma forma de evolução da comunicação que perpassa a sociedade atual, advinda de um processo contínuo de transformação dos meios midiáticos. A comunicação evolui ao longo da história, assim como o ser humano cresce e evolui com o tempo, as novas formas de se comunicar também sofrem transformações ao longo do tempo. O ser humano tem a necessidade de se comunicar, e essa comunicação que envolve a todo instante está associada ao processo social, pois, desde o nascimento, se interage numa determinada sociedade por meio da linguagem. Há uma multiplicidade de linguagens que busca trazer informações em diferentes meios midiáticos, e o foco recai sobre a infografia pelo fato de que cada vez mais tem crescido e ganhado espaço nos meios de comunicação. Caixeta (2005) aponta que o uso dos infográficos nos meios de comunicação impressa, particularmente em jornais, não é um fato recente: o primeiro infográfico teria sido publicado em 1702, no The Daily Courantm, primeiro diário inglês. Há também o infográfico publicado 50 na primeira página do The Times, o jornal de Londres, em 1806, a notícia mostrava o passo a passo de um assassinato. Profissionais especializados em gráficos e mapas já faziam parte da equipe jornalística nos anos de 1970, estando o departamento de artes ainda sendo estruturado. Em se tratando de revistas, a Times faz uso da infografia desde 1930. O infográfico se destacou a partir de 1980, principalmente com o lançamento do USA Today (1982), revolucionando o design dos jornais com os elementos visuais. Já no Brasil, em 1925, a técnica da infografia foi utilizada na primeira edição do jornal O Globo com um infográfico na primeira página mostrando o aumento dos automóveis no Rio de Janeiro de um ano para o outro (PRADO, 2005). Foi então que com a chegada dos computadores, em 1985, expandiu-se a produção de infográficos deixando a habilidade manual para trás. Ainda sobre o surgimento da infografia, acredita-se que esta surgida nos anos de 1970, incorporada à notícia, cresce devido ao impacto que a TV e o computador causaram, podendo tentar aproximar o leitor da revista com a mídia eletrônica, principalmente a TV, que detinha uma abrangente audiência. Ressaltando, a infografia fez e faz uso dos recursos eletrônicos para se apresentar tanto no suporte digital quanto no papel por meio de jornais e revistas. De Pablos (1999, p.54) conta que os jornais começaram a segmentar o texto em porções menores e ampliaram o uso de imagens e gráficos para poder competir com uma linguagem já existente, a linguagem visual da TV e, sobreviver ao mundo da comunicação. Para este autor, foi nos anos de 1980 que começou o atual renascimento da infografia jornalística, devido à perda continuada de leitores, a incorporação nula de jovens e a presença de uma TV cada dia mais global, que leva a pensar que a preocupação inicial foi a decadência das vendas de jornais e revistas, porém não se pode deixar de admitir que houve de fato uma preocupação e uma olhada para a sociedade que a fez, inclusive, surgir novas formas de comunicar, dentre essas formas ou formatos da comunicação, o infográfico. Os infográficos aparecem em grande quantidade na internet e têm diferentes propósitos: informar, comunicar, esclarecer algum fato e ensinar. Ao lado das ilustrações e das fotografias, a infografia ocupa cada vez mais espaço na mídia impressa, consolidando-se no jornalismo tanto impresso quanto online; porém, a infografia não está restrita ao jornalismo, pois é encontrada em manuais técnicos, em divulgação científica, em formatos e- book e também em livros didáticos. 51 Normalmente, os infográficos são utilizados também em cadernos de Saúde e Ciência e Tecnologia, em que dados técnicos estão mais presentes. Partindo do pressuposto que o infográfico vem atender a uma nova geração de leitores, que é predominantemente visual e quer entender tudo de forma prática e rápida, este pretende atuar para a compreensão desses dados técnicos ou até mesmo científicos. A primeira informação que se lê num jornal são os títulos, seguidos pelos infográficos, que, muitas vezes, é o único aspecto consultado na matéria (CAIXETA, 2005). Para Machado e Gouvêia (2007), o infográfico é considerado um fenômeno por aprimorar um texto associando imagens e palavras para atender essa nova sociedade, que busca uma leitura que possa ser compreendida rapidamente e com eficácia, ou pelo menos, que atenda aos propósitos para qual foi destinada. Concorda-se que este é um texto em seu conjunto por fornecer elementos como imagens e palavras, que faz dele um gênero textual com uma leitura semiótica muito forte, mas há uma complexidade em sua leitura, que para a efetiva compreensão ou facilitação da informação dependerá também do perfil desse leitor. Para os autores, foi através da revolução tecnológica ocorrida nos anos de 1970 e 1980, que o potencial da infografia passou a ser reconhecido, mas apenas para essa questão que diz respeito ao seu formato, isto é, essa junção de imagens e palavras chamou a atenção para os propósitos jornalísticos preocupados com a venda de seus produtos, pois a soma de texto escrito e imagem transformam a complexidade em clareza e os dados abstratos em elementos visuais, pois a representação gráfica perpassa por todas as áreas do conhecimento e ganha força devido à tendência humana a informação visual, pois alguns casos, apenas o infográfico é capaz de delimitar o teor de uma notícia. Ainda sobre a história da infografia, Peltzer (1991) e Teixeira (2004) assinalam que antes dessa época, era reconhecida como mero elemento decorativo a qual tinha apenas a função de atrair o leitor para a notícia, vista pela imprensa como arte decorativa ou simplesmente como complemento da informação textual do que como informação em si mesma, a infografia logo passa a ter o papel de não apenas atrair o leitor, mas de proporcionar um conhecimento com qualidade e passa a ser usada em jornais e revistas. É importante ressaltar que a infografia surge antes da era dos computadores, levando a entender que ela não é um produto da informática, embora tenha sido aprimorada por esta. Os autores concordam que a que está presente na mídia é destinada a pessoas que têm pouco tempo para se ater às leituras detalhadas. (DE PABLOS, 1999; PELTZER, 1991; DONDIS, 2000; SANCHO, 2001). 52 Teixeira (2004) salienta que a importância da infografia na mídia impressa se dá como sendo uma necessidade da população de obter conhecimentos, e não qualquer conhecimento, mas os que advêm da ciência e da tecnologia. Tal concepção será detalhada nos capítulos seguintes. Percebe-se então, que a infografia além de ser um produto da evolução das formas de se comunicar, um texto comportado em um gênero textual, recheado de sentidos, revela também que possui variadas importâncias, seja a de atrair ao leitor, de chamar a atenção para uma notícia, quando seu propósito for apenas o de informar, de transmitir uma informação rápida, como também de popularizar um conhecimento, no caso o cientifico, que será explorado na pesquisa inferindo que com o avanço da ciência, estendeu-se uma necessidade da população em geral pelo conhecimento científico. Não há uma mudança de conceitos nos estudos referente ao conceito de infografia, pois os infográficos continuam partindo do princípio da junção da palavra e da imagem para comunicar pressupondo que de forma eficiente, o que ocorre são diferentes olhares para este disp