Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP Campus de Bauru Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação – FAAC Departamento de Artes e Representação Gráfica – DARG Graduação em Artes Visuais SARA MANDOLINI O PAPEL DA ARTE NO DESENVOLVIMENTO DA CRIATIVIDADE EM CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL: O QUE PENSAM E FAZEM OS PROFESSORES BAURU 2018 SARA MANDOLINI O PAPEL DA ARTE NO DESENVOLVIMENTO DA CRIATIVIDADE EM CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL: O QUE PENSAM E FAZEM OS PROFESSORES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso Artes Visuais, habilitação em Licenciatura, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – FAAC UNESP/Campus Bauru, como requisito parcial para conclusão da graduação, sob orientação da Profa. Dra. Eliana Patrícia Grandini Serrano. BAURU 2018 SARA MANDOLINI O PAPEL DA ARTE NO DESENVOLVIMENTO DA CRIATIVIDADE EM CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL: O QUE PENSAM E FAZEM OS PROFESSORES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso Artes Visuais, habilitação em Licenciatura, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – FAAC UNESP/Campus Bauru, como requisito parcial para conclusão da graduação, sob orientação da Profa. Dra. Eliana Patrícia Grandini Serrano. Professora Dra. Eliana Patrícia Grandini Serrano Orientadora – Membro da Banca Examinadora Professora Dra. Regilene Aparecida Sarzi Ribeiro Membro da Banca Examinadora Professora Maria Claudia de Sousa Membro da Banca Examinadora Bauru, 29 de novembro de 2018. Dedico este trabalho aos meus primeiros alunos: Eduardo, Alexia, Taísa, Andreza, Jeferson, Ualismã e tantos outros, que me mostraram o propósito da minha existência, ser professora. AGRADECIMENTOS Início este agradecimento a pessoa que sempre esteve comigo ao longo desses quatro anos de faculdade, minha amiga Andressa. Obrigada por ouvir minhas reclamações, por fazer parte da minha felicidade e por me apoiar quando mais precisei. Juntas traçamos um caminho com algumas pedras, mas com muitas flores e borboletas. Agradeço minha irmã Angelita, minha cunhada Ana e minha mãe, por sempre me apoiarem, estarem comigo em todas as dificuldades e por me aguentarem nos meus períodos de stress. Agradeço minha sobrinha Gabriela, por me ajudar tantas vezes com os meus trabalhos, nem que fosse para segurar o celular. Agradeço meu pai por sempre sentir orgulho de mim. Agradeço minha Prof. Patrícia, por aceitar meu projeto e agradeço todas as forças divinas, que nunca me abandonaram, sempre estiveram comigo. E não poderia faltar, o agradecimento a nossa turma de licenciatura, a melhor turma: obrigada por me fazerem feliz! Não tenho muitas ilusões sobre o que podemos fazer individualmente. Cada um de nós só dispõe de um certo espaço vivencial dentro do qual é possível movimentar-se e trabalhar. Ainda que restrito, porém, o espaço existe e é preciso agir nele. É o que devemos às gerações futuras, aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos, na visão esperançosa de que para eles a criação possa tornar-se uma nova dimensão da vida. OSTROWER, Fayga. 1981. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - MIRÓ, Joan. L’Or de Pazuer.. ........................................................................ 34 ../../Downloads/TCC%20-%20versão%20em%2023.10.2018.doc#_Toc528272446 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Apresentação das escolas e professoras entrevistadas............................................39 Tabela 2 – Formação inicial das professoras entrevistadas......................................................97 Tabela 3 – Formação continuada (especializações) das professoras entrevistadas..................97 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 12 Capítulo I – Criatividade e o ensino de Artes: o desenvolvimento da capacidade criadora na Educação Infantil .................................................................................................... 15 1.1. Vigotsky: criatividade como condição inerente ao homem ......................... 17 1.2. Ostrower: ser sensível-cultural-consciente ................................................... 20 1.3. Lowenfeld: criatividade no ensino de arte ................................................... 24 1.4. Kastrup: aprendizagem inventiva ................................................................. 27 1.5. A contemporaneidade e a criatividade no ensino de artes ........................... 29 1.6. O desenvolvimento da criatividade na Educação Infantil ............................ 33 Capítulo II – A criatividade na escola: descrição de entrevistas em escolas de Educação Infantil ......................................................................................................................... 39 2.1. Entrevistas Escola A: professoras A1, A2 e A3 ................................................ 41 2.2. Entrevistas Escola B: professoras 4B e 5B ........................................................ 52 2.3. Entrevista Escola C: professoras 6C, 7C e 8C ................................................... 57 2.4. Entrevistas Escola D: professoras 9D, 10D, 11D e 12D .................................... 70 2.5. Entrevista Escola D: professora 13D .................................................................. 89 Capítulo III – Existe movimento criativo na escola? ................................................... 94 Considerações Finais ..................................................................................................... 106 Referências Bibliográficas ............................................................................................ 110 RESUMO A criatividade é compreendida do contexto geral como o ato de formar algo novo, relacionando-se com a capacidade de sonhar, imaginar, ordenar, significar e brincar; além de se relacionar com a questão da invenção. Desenvolve-se no contexto social e cultural, partindo das experiências vividas, caracterizando-se como instrumentos de expressão, compreensão do eu e do coletivo. Ao longo do século XX, o papel da criatividade na educação ganhou destaque, devido as constantes mudanças sociais, culturais e tecnológicas, a arte possui papel essencial na educação, sendo importante meio de desenvolvimento da capacidade criadora. O presente trabalho, tem como foco a Educação Infantil, e apresenta a proposta de estudar o conceito de criatividade, bem como o seu papel no ensino de arte e principalmente, quais são as práticas desenvolvidas pelos professores para que a arte cumpra seu papel na formação da criança dinâmica, para uma sociedade em constante transformação e movimento. Palavras-chaves: criatividade, educação infantil, prática docente, arte-educação. ABSTRACT Creativity is understood from the general context as the act of forming something new, relating to the ability to dream, imagine, order, signify and play; as well as relating to the issue of invention. It develops in the social and cultural context, starting from the lived experiences, characterized as instruments of expression, understanding of the self and the collective. Throughout the twentieth century, the role of creativity in education has gained prominence, due to constant social, cultural and technological changes, art plays an essential role in education, being an important means of developing creative capacity. The present work focuses on Early Childhood Education and presents the proposal to study the concept of creativity, as well as its role in art education and especially, what are the practices developed by teachers so that art fulfills its role in the formation of the dynamic child to a society in constant transformation and movement. Keywords: creativity, early childhood education, teaching practice, art education. 12 INTRODUÇÃO Criar, é formar algo novo, portanto criatividade compreende a originalidade, a capacidade ordenar, configurar, sonhar, brincar, ressignificar, solucionar e imaginar. Fernandes (2016), afirma que a palavra criar significa formar, gerar e dar existência a algo, “esses significados remetem ao fazer e ao sentir, ao pensar e ao produzir algo novo. Assim a criatividade indica a capacidade humana de originar coisas novas” (p. 111). É na infância onde as possibilidades para o desenvolvimento da criatividade se fazem presentes de forma mais ativa. Os primeiros traços de criatividade, segundo Vigotsky (2009), iniciam-se no ato de brincar, quando a criança se envolve com sua cultura e realidade, compreendendo-a e expandindo-a em algo novo. É no brincar que a criança fantasia e devaneia, construindo assim os primórdios da criatividade. A arte, neste contexto, é concebida como o retorno da fantasia para a realidade, com a materialização da imaginação. Para a criança a arte é o meio de expressão de seus sentimentos, desejos e identidade, é a comunicação com eu e a compreensão do cotidiano (LOWENFELD, 1970). O conceito de criatividade é comumente ligado ao meio artístico, entretanto, atualmente existe um consenso que o ato criador é universal, comum a todos, sendo que sua origem permanece misteriosa e inexplicável (PIAGET, 2001). A psicanálise tem papel importante nesta desconstrução, a criatividade é então entendida como potencialidade e função psíquica. Oliveira (2001), aponta que é no final do século XIX e início do XX, que a psicanálise começa a enfraquecer a ideia de que a criatividade vem da hereditariedade, do divino ou de determinações genéticas, mas que a criatividade provêm da “complexa equação entre os lados racional e irracional da mente, entre tendências pessoais constitucionais e experiências vividas” (p. 22). A criatividade, considerada universal, torna-se característica nobre do homem em nossa sociedade contemporânea, que caracteriza-se por constantes mudanças e exige um indivíduo flexível, que se reconfigure e se adapte. Assim, a criatividade adquire papel importante, visto que é compreendida como aspecto imprescindível da inteligência humana e instrumento para resolução de problemas. A educação seria, portanto, o meio de formar este indivíduo dinâmico, autônomo, flexível, possibilitando conexões sociais, afetivas e culturais. 13 A arte é vista como o caminho facilitador dessa formação, é através das experiências artísticas, devidamente planejadas, que a capacidade criadora se desenvolve, e é neste contexto que o presente trabalho se insere. O mesmo apresenta as propostas de verificar os conceitos de criatividade no âmbito geral e escolar, especificamente na Educação Infantil, que muitas vezes passam despercebidos no cotidiano. Abordando brevemente a história do ensino da arte, suas influências, interferências e mudanças sofridas. Por meio de entrevistas com professoras, recurso de coleta de dados, averiguamos o desenvolvimento do processo criativo no ensino de Artes na Educação Infantil, sendo que o objetivo deste trabalho foi analisar as concepções e ações docentes desenvolvidas, para proporcionar o desenvolvimento da capacidade criadora em nossas crianças diante de uma sociedade de constante mudanças. A base teórica utilizada nos estudos sobre os conceitos de criatividade se deu pelos teóricos: Jean Piaget (2001), Lowenfeld (1970), Vygotsky (2009), Ostrower (2010), Kastrup (2001). Tendo em vista que o trabalho trata da relação da criatividade com a Arte e com a Educação fez-se necessário o apoio de autores que trabalham tal relação, são eles: Barbosa (2008, 2010 e 2014), Fernandes (2016), Justo (2001), Soares (2015), Oliveira (2001) e Vasconcellos (2001). Todo o trabalho foi divido em três capítulos. O primeiro consiste em apresentar o levantamento bibliográfico com autores que tratam da criatividade e a sua relação direta com o ensino de artes na Educação Infantil. O segundo capítulo consiste na abordagem da arte na escola, onde encontram-se descritas as entrevistas e as observações realizadas, bem como a motivação para a realização de tal trabalho. No terceiro e último capítulo, partindo no método de análise de conteúdo de Bardin (1977), abordamos os desdobramentos das entrevistas e observações, dialogando com os teóricos e conceitos estudados, para enfim, averiguarmos as práticas docentes que proporcionam o desenvolvimento da capacidade criadora em crianças da Educação Infantil. Destaca-se que o estudo de campo realizado foi de observação indireta. As técnicas e os instrumentos de observação foram constituídos em observação indireta, entrevistas face-a- face, gravadas e transferidas posteriormente, semi-estruturadas, com perguntas referente ao conhecimento dos conceitos e práticas da criatividade com professoras de cinco escolas de Educação Infantil da cidade de Bauru, com características sociais diferentes, inclusive em seus turnos. As escolas foram selecionadas em agosto de 2018, quando as atividades do Arte na 14 ¹ O Instituto Arte na Escola é uma associação civil sem fins lucrativos que, desde 1989, qualifica, incentiva e reconhece o ensino da arte, por meio da formação continuada de professores da Educação Básica. Tem como premissa que a Arte, enquanto objeto do saber, desenvolve nos alunos habilidades perceptivas, capacidade reflexiva e incentiva a formação de uma consciência crítica, não se limitando a auto-expressão e à criatividade. Escola - Polo de Arte¹ de Bauru tiveram início. Quanto ao período e duração de coletas de dados: o levantamento bibliográfico ocorreu durante todo o período de desenvolvimento do projeto e o estudo de campo (entrevistas) ocorreu em agosto e setembro de 2018. 15 Capítulo I – Criatividade e o ensino de Artes: o desenvolvimento da capacidade criadora na Educação Infantil Partindo do entendimento de que a criatividade não é algo apenas restrito aos artistas, mas sim, um conceito comum a todos os humanos e sendo o ensino de arte, segundo Lowenfeld (1970), a área do conhecimento que tem como objetivo especial desenvolver habilidades criadoras que tornam a vida humana mais significativa, surge a questão que desenvolve este trabalho: o que pensam e fazem os professores sobre o processo criativo de seus alunos? É necessário, portanto, definir o conceito de criatividade, o seu papel no ensino da arte e as práticas docentes para desenvolvimento dos processos criativos no ensino. Antes de discorrermos conceitos e teóricos que abordem esses temas, é preciso descrever aspectos relacionados ao desenvolvimento da criatividade na educação diante do atual contexto escolar. As hipóteses levantadas para identificarmos a defasagem no ensino de Arte relacionado ao desenvolvimento do processo criativo infantil foi que, muitos professores possuem o conhecimento dos conceitos de criatividade, mas não desenvolvem esses conceitos em sua prática docente; em contrapartida, há professores que possuem o conhecimento dos conceitos de criatividade, e efetivamente desenvolvem práticas para proporcionar aos alunos o desenvolvimento do processo criativo; todavia, há professores que desconhecem os conceitos de criatividade e portanto, não possuem possibilidade de desenvolver práticas para desenvolver a criatividade. Aspectos esses que levam a precariedade do ensino da arte. O conceito comum de criatividade é de criar algo novo, criar uma nova realidade externa partindo da realidade interna. Relaciona-se com a originalidade, com a resolução de problemas através do sensorial, com a capacidade de sonhar, imaginar, ordenar, significar, relacionar e brincar. A criatividade humana é elaborada em sua relação com o meio, em seu contexto cultural, partindo de experiências vividas, sendo instrumento de expressão, compreensão do eu e do coletivo. A ideia de que o ato criador seja algo inerente aos artistas, seres incomuns, dotados de capacidades e características especiais, aos poucos vem sendo renunciado, dando lugar ao entendimento que a criatividade é uma condição humana, como afirma Ostrower (2010): 16 Em nossa época, as artes são vistas como a área privilegiada do fazer humano, onde ao indivíduo parece facultada uma liberdade de ação em amplitude emocional e intelectual inexistente nos outros campos da atividade humana, e unicamente o trabalho artístico é qualificado de criativo. Não nos parece correta essa visão de criatividade. O criar só pode ser visto num sentido global, como um agir integrado em um viver humano. De fato, criar e viver se interligam. ( p.5) A criatividade não parte do talento inato do ser, ela desenvolve-se. Se olharmos com mais profundidade as invenções humanas ao longo da história, observaremos que grandes acontecimentos partiram de pessoas não consideradas “gênios”. O ato criativo destina-se a todos, acompanha o indivíduo constantemente ao longo de sua vida, é acompanhante normal do desenvolvimento humano, principalmente no desenvolvimento infantil. Uma das áreas que questiona a ideia que o artista é o único ser dotado de criatividade, é a psicanálise. Por intermédio do entendimento da subjetividade, do conhecimento do interno, a partir dos quais a criatividade é compreendida, esta área destaca a criatividade como potencialidade e função psíquica (OLIVEIRA, 2001). Entende-se então, criatividade como sendo universal, como instrumento para manter, transformar e aprimorar a vida. É entendida como capacidade de expressão e representação. Sendo a criatividade comum a todos os humanos, e sendo o agente transformador da realidade, que modifica o presente e projeta o futuro, como se origina a criatividade? Jean Piaget (2001) afirma que, a origem da criatividade mesmo que seja presente em todos, permanece misteriosa e inexplicável, portanto, desenvolve seu pensamento partindo da compreensão do processo, ou seja, como a criatividade acontece. O conceito de criatividade está relacionado com o processo de construção da inteligência e do conhecimento, sendo essa construção contínua. Todo conhecimento caracteriza-se pelo aparecimento de estruturas novas, estas não são pré- formadas e sim, construídas em cada indivíduo, ou seja, é a criação de algo novo. O novo ocorre devido ao processo de abstração reflexiva, definida como abstração das próprias ações, caracterizada na reflexão mental, onde o indivíduo constrói um nível mais avançado do que o anterior. Piaget afirma que é na infância onde ocorre o período de maiores experiências e descobertas, “é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano” (2001, p. 20). 17 Para compreendermos o processo que em se dá a criatividade, destacaremos os estudos de Vigotsky, Ostrower, Lowenfeld e a professora brasileira Virgínia Kastrup. Os estudos realizados, por estes autores, em momentos históricos distintos, apontam os conceitos de criatividade, o contexto no qual se desenvolve, interferências internas e externas, processos emocionais e sociais. 1.1. Vigotsky: criatividade como condição inerente ao homem A atividade criadora é toda aquela que se cria algo novo, sendo sua base a imaginação e manifestando-se em todos os campos da vida cultural, propiciando a criação artística, técnica e científica. Tudo o que nos cerca, portanto, é criação do homem, produto da imaginação e relaciona-se com toda atividade humana, modificando, codificando e criando algo novo. O ato criativo não está relacionado a genialidade, pelo contrário, se desenvolve cultural e socialmente, partindo de relações entre o interno e o externo, da riqueza de experiências vividas, do desenvolvimento da imaginação, da necessidade e dos sentimentos envoltos neste ato. Para que se desenvolva algo novo se faz necessária a experiência prévia, não uma reprodução do que já foi vivido, mas sim uma reelaboração e combinação de elementos da experiência anterior. Partindo dessa premissa, Vigotsky (2009) afirma que a criação é condição inerente ao homem e o acompanha em todo o seu desenvolvimento, principalmente em sua infância, fase onde o processo de criação manifesta-se com toda a sua força, relacionando-se com o desenvolvimento geral e o amadurecimento da criança. É na primeira infância, com as brincadeiras, que a criança reproduz o que vive, não de maneira fiel a realidade, mas de maneira imitativa, reformulando situações, criando um resultado novo. Vigotsky (2009) afirma que, a brincadeira “é uma reelaboração criativa das impressões vivenciadas” (pág. 17). Entendemos que o brincar infantil possui papel importante na construção da criatividade, trazendo os primeiros traços da imaginação, abrange a fantasia e os devaneios. Quando a criança brinca ela expressa os níveis primários da criatividade, que se junta ao ato imitativo do que vivem ou viveram, criando recombinações. É neste processo de combinação entre o antigo e o novo que se caracteriza a base da criatividade humana. Ao brincar a criança investiga e amplifica o real 18 (VASCONCELOS, 2001), os jogos de faz-de-conta e brincadeiras iniciam, no desenvolvimento da criança, o processo de imaginação e fantasia, é no ato de brincar que exploram a cultura e realidade, desenvolvendo a atenção e memória. A arte é concebida nesse contexto, como o caminho de volta da fantasia para a realidade, como equilíbrio, capacidade de comunicação estética e de expressão, segundo Oliveira (2001, p.28) as “produções artísticas e atos criativos continuam ou substituem o brincar infantil”. Em cada etapa da infância existe uma forma característica de criação, que se desenvolve partindo do acumulo de experiências. [...] a atividade criadora da imaginação pode ser formulada diretamente da riqueza e da diversidade da experiência anterior da pessoa, porque essa experiência constitui o material com que que se criam as construções da fantasia. Quanto mais rica a experiência da pessoa, mais material estará disponível para a imaginação dela. (VIGOTSKY, 2009, pág. 22) A atividade criadora depende da riqueza e diversidade da experiência vivida, pois ela é o material onde se cria, quanto mais rica a experiência mais rica será a imaginação. Neste contexto a imaginação da criança é vista por Vigotsky (2009) como sendo mais pobre que a do adulto, devido ao repertório escasso de experiências prévias, mas o que difere a capacidade de imaginação da criança com a do adulto é a confiança que a criança tem sua imaginação, em sua fantasia. Deste modo o papel do educador é proporcionar experiências significativas, que amplifiquem a imaginação, criando assim bases sólidas para desenvolver uma atividade criadora. A imaginação tem função importante no desenvolvimento humano, incluindo nesta ideia inclusive o conhecimento de experiências vividas por outros, pois essas narrativas trazem a imaginação do que não se viu. Toda obra da imaginação constrói-se sempre de elementos tomados da realidade, podendo criar novos níveis de combinações. Outro aspecto que influencia a atividade criativa é a influência de sentimentos, e neste contexto temos duas vertentes: quando os sentimentos influenciam a imaginação, e quando a imaginação influencia os sentimentos. O primeiro caso refere-se quando imagens/impressões que possuem signos emocionais comuns, unem-se e influenciam em nosso sentir, é deste aspecto que identificamos a imaginação combinatória. A segunda vertente designada como lei da realidade 19 emocional da imaginação, abrange o fato de que toda atividade imaginativa possui em si elementos afetivos. O processo de criação é extremamente complexo, Vigotsky (2009) afirma que “o que denominamos de criação costuma ser apenas o ato catastrófico do parto que ocorre como resultado de um longo período de gestação e desenvolvimento do feto” (pág. 35), um aspecto importante desse período de desenvolvimento está no início: as percepções internas e externas, por isso, o que a criança vê, ouve e o que vivencia, são os primeiros passos, os primeiros materiais para sua futura criação. A etapa posterior a este acúmulo de informações (experiências), é o que chamamos de dissociação, que consiste em destacar elementos específicos de um todo, para depois ocorrer a associação, união desses elementos específicos para reelaborar algo novo, ato este, de extrema importância para o desenvolvimento humano, capaz de formar pensamento abstrato e conceitos. Mas por que criar? Por quê passar por esse processo complexo, por esse ato catastrófico? Vigotsky explica isso partindo da passagem da imaginação para a realidade, que tem como base de estímulo motor a necessidade. Ao longo de toda vida do indivíduo este se depara com inúmeros desafios que o colocam em choque com sua zona de conforto, com sua vida equilibrada que vivencia até o momento de se deparar com as dificuldades, essa necessidade de se adaptar ao meio que vive serve de impulso para a criação. Vigotsky (2009) conclui que todo processo criativo possui uma origem motriz que coloca em movimento o processo de imaginação, que em conjunto com “a revitalização de trilhas nervosas dos impulsos fornece material para o seu trabalho. Essas duas condições são necessárias e suficientes para se compreender a atividade da imaginação e de todos os processos que fazem parte dela” (pág. 41). A educação vem como esse impulso motriz, seu papel é justamente promover situações que coloquem seus educandos em posições desafiadoras, que leve o educando a perceber necessidades de adaptação em seu meio. A experiência da criança cresce gradativamente conforme vivencia sua rotina. Proporcionar experiências significativas que amplifiquem a imaginação e percepção da criança é papel fundamental da educação. 20 1.2. Ostrower: ser sensível-cultural-consciente O conceito de criatividade de Fayga Ostrower assemelha-se com as afirmações de Vigotsky: a realização do ato criativo parte de uma necessidade, sendo ela constante na vida humana tornando a criatividade característica de nossa existência, elaborando-se no contexto individual e social. Criar algo novo é um processo de reelaboração, reordenação e reconfiguração. Como ressalta May (1982), “o processo criativo é a expressão dessa paixão pela forma. A luta contra a desintegração, o esforço para dar vida a novos seres que trazem harmonia e integração” (pág. 135). Entretanto, Ostrower apresenta alguns aspectos presentes na formação da criatividade no indivíduo, dando enfoque ao potencial criador e trazendo o indivíduo como “ser sensível-cultural- consciente”, sendo a consciência a premissa para o desenvolvimento criador. É na busca de ordenações e de significados que está a essência do criar humano, é através da consciência de se compreender as passagens e acontecimentos da vida humana, que o homem é levado a formar algo. O ser humano cria não apenas porque gosta, mas principalmente porque precisa. O processo de criação tem como base a intuição, agrega toda a experiência e se torna consciente quando se expressa, quando se constitui forma. É na integração com o consciente, com o sensível e com o cultural que se baseiam todos os comportamentos humanos. Em qualquer contexto cultural o indivíduo será sensível e consciente, pois estas são características biológicas do ser humano e se realizam sempre em formas culturais. Sendo assim, Ostrower (2010) afirma que é dentro de padrões culturais e histórico que se constitui os comportamentos humanos, onde ele se desenvolve. Dentro deste contexto, destacamos características desse ser consciente- sensível-cultural. Como processos intuitivos, os processos de criação interligam-se intimamente com o nosso ser sensível. Mesmo no âmbito conceitual ou intelectual, a criação se articula principalmente através da sensibilidade. (OSTROWER, 2010, pág. 12) O uso do termo sensível usado por Ostrower (2010) designa a sensibilidade em permanente estado de excitabilidade sensorial, uma porta de entrada de sensações. Uma parte dessa sensibilidade acontece em nosso inconsciente, entretanto, outra parte em nosso consciente, 21 isso é nossa percepção. A percepção é a “elaboração mental das sensações” (pág. 12). É através da percepção, entendida aqui como sensibilidade, que somos capazes de sentir e compreender. Para compreender o ser cultural no conceito de Ostrower, é preciso compreender que o termo cultura designa as formas materiais e espirituais em que os indivíduos convivem em um grupo, formas de atuação e comunicação e que transmitem as experiências para gerações seguintes através de vias simbólicas. É através do processo de aculturamento que ocorre a transmissão de experiência, a constituição de um ser cultural é biológico, sendo esse biológico inseparável da cultura, devido ao início de utilização de ferramentas por nossos ancestrais. O caráter consciente é apresentado como a consciência da existência individual: a consciência entendida como individualidade subjetiva é considerada cultura do ser. Todos os hábitos, ideias e comportamentos são moldados em um contexto social, que influencia diretamente no agir do indivíduo. No processo de consciência a cultura influencia na visão de cada um, é orientadora do sensível e do consciente. Ostrower (2010) entende que “a sensibilidade é aculturada e por sua vez orienta o fazer e o imaginar individual” (pág. 17), essa sensibilidade se tornaria criatividade quando ligar-se com uma atividade social. Em nosso consciente destaca-se o papel executado pela memória, é neste contexto que Ostrower dialoga com Vigotsky ao afirmar que é a partir da memória que integramos experiências feitas com as que se pretende fazer, recolhendo das experiências anteriores para orientar ações, ordenando e reconfigurando vivências já obtidas. É no processo de ordenação da memória que se articula limites entre o que lembramos e o que imaginamos. As associações, termo também utilizado por Vigotsky, são estabelecedoras de determinadas combinações que se ligam a sentimentos e ideias. Essas associações são a essência do mundo imaginativo humano, sendo elas espontâneas, geram hipóteses no pensar e no agir. “O nosso mundo imaginativo será povoado por expectativas, aspirações, desejos, medos, por toda sorte de sentimentos e de prioridades interiores” (OSTROWER, 2010, pág. 20), e são as prioridades interiores que influenciam em nosso criar. O ato criador está diretamente relacionado as ordenações e compromissos do interno e externo. Ostrower (2010) traz como aspecto importante no desenvolvimento humano o potencial criador, que é um fenômeno de ordem geral, diferenciando-se dos processos de criação, fenômeno de ordem mais específica. O potencial criador elabora-se em diversos níveis do ser 22 sensível-cultural-consciente, presente nos vários caminhos que o indivíduo tende a configurar as realidades da vida. No potencial criador a tensão psíquica é compreendida como renovação constante, renovação esta que caracteriza a criatividade, pois essa implica em uma força crescente. Essa tensão é vista às vezes como um conflito emocional, mas isso não a menospreza como tese para o processo criativo, pelo contrário, pois é o conflito condição de crescimento. A energia necessária para os feitos da ação humana não ocorre apenas no aspecto físico, devido sua percepção consciente ocorre também em sua percepção psíquica. Neste sentido cada ação, cada criar, compreende uma tensão, são essas intensidades psíquicas que estimulam e impelem o fazer. A tensão psíquica pode e deve ser elaborada. Assim, nos processos criativos, o essencial será poder concentrar-se e poder manter a tensão psíquica, não simplesmente descarregá-la. Criar, significa poder sempre recuperar a tensão, renová-la em níveis que sejam suficientes para garantir a vitalidade tanto da própria ação, como dos fenômenos configurados. (OSTROWER, 2010, pág. 28) Seria então criar, a capacidade de manter ativa, renovada e contínua a tensão psíquica. Criar é a intensificação do viver, não substitui a realidade, mas é a realidade. Outro aspecto que compreende a criação é que ao fazer, ao configurar, ao ordenar algo, o próprio homem se configura. Todo processo de criação caracteriza-se como tentativas de experimentação, configuração e formação. São nestes processos que o homem se descobre, se ordena, se configura interiormente. Busca se conhecer melhor, ampliar sua consciência. Os processos de criação são naturais da humanidade, e neste contexto Ostrower dialoga novamente com Vigotsky, ao afirmar que a criatividade é condição inerente ao homem. O ato de criar em alguns momentos parece-nos fluir por si só, o impulso para criar provém do interior do ser, dos impulsos do inconsciente, de tudo o que homem aprendeu e vivenciou, seus pensamentos e imaginação. O homem utiliza seu conhecimento para avaliar suas ações e realizar novos comportamentos, assim, o consciente não pode ser visto como algo inexistente na atividade criadora, desvinculá-lo seria como se retirássemos uma dimensão humana. Para compreendermos o processo de criação, Ostrower (2010) destaca alguns aspectos para seu desenvolvimento, porém deixa claro que o ato de criar é existencial e só pode ser 23 compreendido integralmente de maneira global, estes são: a intuição, base dos processos criativos; ordenações perceptivas, tudo que percebemos é apreendido em ordenações e perceber é estruturar; as imagens referenciais, que não são herdadas, mas formam-se de modo intuitivo e é única em cada ser; a constância de imagens, é o sentido que as formas possuem para nós; a seletividade, partindo do interior, compreendendo as coerências dos acontecimentos e reformulando-os; o insight; o formar, fazer, sempre o formar será fazer, quando o fazer ainda está no campo da intenção, não se tem a forma, é sempre necessário fazer; a elaboração, a criação exige do homem atuação, posteriormente sendo analisados e interpretados; e a inspiração, sendo essa o momento final, decisivo e criativo, o resultado do fazer. A criação é entendida aqui como uma atitude básica da pessoa, por isso é importante atentar-se para a capacidade de renovação, “a capacidade de intuir espontaneamente e ao mesmo tempo sustentar a tensão psíquica em níveis mais profundos, será determinante para a criação” (OSTROWER, 2010, p. 74). O ato de criar do homem é ordenador e configurador, a capacidade de selecionar em momentos vividos experiências e interligá-las a outros momentos, ampliando a compreensão. Quando o homem cria e formula, estrutura sua consciência perante o viver. No contexto da criança a criatividade se manifesta em todo seu fazer, criar é viver. Manifesta-se em seu sonhar, imaginar, brincar. Sempre há a curiosidade em torno dos atos da criança, mas essas agem espontaneamente, sendo assim a produtividade infantil é rica em suas descobertas. As formas de expressão da criança alteram-se conforme ocorre o seu desenvolvimento, alterando também seus comportamentos. Essas alterações na expressividade infantil ocorrem de acordo com as mudanças físicas e psíquicas da criança. Ostrower (2010) afirma que a criatividade infantil pode ser estimulada. Este estímulo, influência nos objetivos e nos comportamentos da criança, representando uma forma de aculturamento: A criatividade infantil é uma semente que contém tudo o que o adulto irá realizar. Interessam-nos as comparações com o mundo infantil para podermos enfocar mais claramente o início dos processos criativos e também o desenvolvimento sob determinadas circunstâncias culturais [...]. (OSTROWER, 2010, pág. 130). 24 Se a criatividade infantil é a semente para o futuro adulto que a criança se tornará, o estímulo a essa criatividade é essência para o desenvolvimento da criança como ser autônomo, responsável, consciente, sensível e pertencente a uma sociedade. O processo de maturação envolve a busca de identidade e a possível construção da personalidade. 1.3. Lowenfeld: criatividade no ensino de arte Os autores citados anteriormente desenvolveram os conceitos de criatividade partindo da compreensão do processo criativo, como este se desenvolve, seus aspectos de configuração e ordenação, abrangendo como bases da criatividade a intuição, memória, consciência, sensibilidade, aculturamento do indivíduo e desenvolvimento deste como ser com necessidade de criação, concluindo que a criatividade é essência da existência humana. Por sua vez, Lowenfeld (1970) aborda a criatividade no âmbito da educação, com foco nas produções artísticas das crianças e ensino de Artes na educação formal. A arte em si é vista por Lowenfeld (1970) como área do conhecimento que possibilita a formação do novo. É através do desenhar, pintar ou construir que a criança reúne aspectos de sua experiência para formação de um todo significativo. No processo de selecionar, interpretar e reformar esses elementos, a criança proporciona mais do que um quadro ou uma escultura; proporciona parte de si própria: como pensa, como sente e como vê. Para ela, a arte é a atividade dinâmica e unificadora. (LOWENFELD, 1970, pág. 13). Com esta afirmação, Lowenfeld (1970) traz para o fazer artístico infantil o que Ostrower (2010) afirma no âmbito geral: quando o indivíduo reestrutura algo, configura, ordena, não se refere apenas a forma em si, mas principalmente ao seu interior. É criando que o ser humano se cria também, é ordenando que se ordena, se conhece. O fazer artístico é instrumento para a criança se conhecer, entender seus desejos, medos, sentimentos, fazer escolhas, conhecer a si mesmo. 25 A educação formal possui papel fundamental no desenvolvimento do indivíduo, mas podemos fomentar interrogações quanto a capacidade de educar para além da produção e consumo. Lowenfeld (1970) questiona se em nosso sistema educacional realmente damos atenção aos valores humanos ou se apenas influenciamos o trabalho, o consumo e recompensas materiais. Deste modo afirma que existem valores significativos para a formação do ser, de uma filosofia e da estrutura do sistema educacional. Habilidades básicas como procurar e descobrir respostas, deveriam ser ensinadas nas escolas. Habilidades estas que estão presentes intrinsicamente nas atividades artísticas, proporcionando experiências. O ato de educar muitas vezes é entendido como apresentar respostas pré-determinadas e limitadas, o desenvolvimento da educação compreende 23 letras e 10 algarismos, que são manipuladas desde a fase infantil até a fase adulta, isto torna o crescimento mental abstrato, cada vez que se modifica o significado desses símbolos, entretanto o crescimento mental depende de relação ricas e diversificadas da criança com o seu meio, sendo este aspecto base fundamental para a criação artística. As crianças pequenas agem espontaneamente, independente das construções realizadas historicamente pelo homem, porém a criança cria a partir de um pequeno conhecimento que possua nesta etapa da vida. O criar proporciona novidades, novos vislumbres, perspectivas e compreensão. Lowenfeld (1970) afirma que a arte possui papel essencial na educação, constituindo um ser flexível e sensível, que sabe aplicar o que aprendeu. Em um sistema educacional equilibrado, o desenvolvimento da capacidade criadora se faz através do desenvolvimento equilibrado do pensamento, sentimento e percepção. É no processo criador que ocorre a incorporação do eu (aquilo que é interno) na atividade, proporcionando entendimento do processo pessoal e coletivo diante das situações cotidianas, enfrentando e analisando suas próprias experiências, desenvolvendo assim, a autonomia da criança, formando indivíduos com confiança em si mesmo e em suas ações, do contrário, quando não há estímulo da expressão e da capacidade criadora, corremos o risco de fomentar um indivíduo dependente. A arte pode desempenhar papel significativo no desenvolvimento das crianças. O foco de aprendizagem é a criança dinâmica, em desenvolvimento, em transformação, a qual se torna cada vez mais consciente de si própria e do seu meio. A educação artística pode proporcionar a oportunidade de aumentar a capacidade de ação, de 26 experiência, de redefinição e a estabilidade que é necessária numa sociedade prenhe de mudanças, de tensões e incertezas. (LOWENFELD, 1970, p. 33) A arte para a criança é um meio de expressão. Sendo a criança um ser dinâmico, a arte é relacionada com a comunicação de pensamentos, é a partir de seu crescimento, que passa a perceber e interpretar o meio em que vive. Alguns professores que encantam-se com as criações de seus alunos tendem a conservar suas produções, outros ao perceber que naquela produção não existe o domínio da cor apropriada ou forma adequada, tende a impor esquemas prontos para criança. Isso inibe a capacidade de criação infantil, interfere em seu desenvolvimento, construindo um ser reprimido em suas ações. Assim como Vigotsky (2009), Lowenfeld (1970) afirma que o importante na produção artística infantil não é o resultado, mas sim o processo, o sentimento envolto, o pensamento expressado, suas percepções e sua integração com o ambiente em que vive. Devemos compreender as crianças acima de tudo como indivíduos. A expressividade da criança nada mais é que reflexo de si. Lowenfeld (1970) afirma que, apenas através dos sentidos que se processa a aprendizagem, e as escolas pouco fazem para educar esses sentidos. As crianças devem ser envolvidas em experiências que estimule o tocar, o ver, o sentir e o cheirar; a disciplina de Artes é, neste nosso atual cenário da educação, a única disciplina capaz de desenvolver experiências sensoriais. Tem como função desenvolver na criança “sensibilidades criadoras que tornam a vida satisfatória e significativa” (pág. 26). Em nossa sociedade muito se vê indivíduos que perderam sua identidade, que não conseguem se identificar com o que fazem, entretanto, a auto-identificação com as experiências vividas é primordial para qualquer fazer artístico. As experiências mudam de acordo com o crescimento da criança, a auto-identificação abrange mudanças sociais, intelectuais, emocionais e psicológicas. Sendo que a arte proporciona o equilíbrio entre o emocional e intelectual. Outro aspecto importante do processo de criação na educação é a auto-expressão. A criança se expressa de acordo com seu nível de encorajamento de seu próprio pensamento e exprime através de seus próprios meios. A auto-expressão e o estímulo a ela, gera autonomia e confiança em si mesmo, visto que, uma criança reprimida aos estímulos e expressão, tende a exercer atos imitativos, muitas vezes desenvolvendo para possíveis distúrbios mentais. 27 Para Lowenfeld (1970), a tarefa mais difícil para o professor é proporcionar formas socialmente aceitáveis que encorajam a utilizar sua capacidade criadora. O período indiscutível para o estímulo do pensamento criador é quando a criança inicia sua fase escolar. É possível proporcionar oportunidades para o desenvolvimento da criatividade nas experiências artísticas, para tal as atividades devem ser pensadas e planejadas. O ambiente deve estar preparado para estimular a criatividade, esta tem que ser amparada e orientada por caminhos sociais. Os professores possuem diante de si a tarefa de ser “agente mobilizador de uma nova maneira de aprender e de ser, para construir um futuro” (ALESSANDRINI, 2001, p. 111). 1.4. Kastrup: aprendizagem inventiva Kastrup (2001), nos traz o conceito de Aprendizagem Inventiva e as problemáticas envoltas neste tema. O primeiro conceito que desconstrói é a noção de que a aprendizagem esteja ligada apenas aos processos de transformações e consequentemente, as leis científicas. Se assim fosse, toda aprendizagem teria resultados passíveis de previsão. A autora entende o conceito de Aprendizagem Inventiva como invenção de novidade e invenção de problemas, que está intrinsicamente ligado as experiências de problematização. Por exemplo, quando alguém viaja a um país estrangeiro, as atividades mais cotidianas, como abrir uma torneira para lavar as mãos, tomar um café ou chegar a um destino desejado tornam-se problemáticas. Ao ser bruscamente transportado para um novo ambiente, os hábitos anteriores não servem e o viajante vive sucessivas experiências de problematização. Não se trata de mera ignorância, mas de estranhamento e tensão entre o saber anterior e a experiência presente. (KASTRUP, 2001, p.17) No exemplo do viajante dado por Kastrup (2001), mostra-nos que a experiência de problematização ocorre quando a sensibilidade, a memória, a imaginação, atuam de modo divergente, ocorrendo uma tensão entre o saber antigo e a experiência nova. A aprendizagem só começa quando não reconhecemos aquilo que estamos vivenciando, mas ao contrário, estranhamos. 28 E como essa aprendizagem inventiva interfere no Ensino de Arte e na criatividade em si? Neste contexto é importante lembrar que a invenção, bem como a criatividade, não pode ser vista como algo raro, excepcional e exclusivo dos artistas, mas sim “é pensar a inventividade que perpassa o nosso cotidiano e que permeia o funcionamento cognitivo de todos nós, do homem comum” (KASTRUP, 2001, p. 19). A Arte é vista não como um ponto fixo, um resultado, mas como um atrativo caótico. A Arte surge como um modo de exposição de problemas, que a partir dos signos irá construir no indivíduo uma experiência de problematização, e busca de solução e sentido. Os signos são entendidos como objetos de aprendizagem, e interpretá-los é o objetivo dessa aprendizagem, e podem ser emitidos por diversos sistemas, sendo ele objetos ou sujeitos. Os signos são a essência de qualquer matéria. Portanto, os signos da arte possuem uma superioridade em relação aos demais. O privilégio concedido aos signos da arte explica o desenvolvimento ou a progressão do processo de aprendizado. A arte impõe-se como um ponto de vista, retroagindo sobre os outros domínios de signos. O que torna os signos da arte privilegiados em relação aos demais é a maior potência da diferença que portam. (KASTRUP, 2001, p.21) Seria então por meio de diversas experiências de problematização que a criança aprenderia, ou seja, a apresentação e oportunização de contato com diversos signos artísticos, que a criança conseguiria desenvolver uma aprendizagem inventiva. Mas é possível ensinar a invenção? Em primeiro momento é necessário entender, que o professor não deveria se esquecer da sua condição de aluno, portanto para Kastrup (2001), o professor não seria o centro do processo de ensino-aprendizagem, “do ponto de vista da arte, ele faz circular afetos e funciona como um atrator. Além de um emissor de signos, o professor é um atrator de afetos” (p. 25). A função aqui designada para o professor é de atrair para uma matéria e não para um saber pronto, de conduzir um processo. Cada encontro com seu aluno é um campo de indeterminações, nada lhe é garantido, por isso não existe método para a aprendizagem inventiva, existe sim uma política pedagógica a ser praticada. A política de experimentar e compartilhar problematizações. Neste ponto de vista a Arte é vista como papel fundamental, pois coloca a frente o processo de aprender por meio da problematização. 29 1.5. A contemporaneidade e a criatividade no ensino de artes Partindo dos estudos dos quatro autores, podemos compreender que a criatividade é essencial a existência humana, sendo condição inerente. A ordenação, configuração e reestruturação são características desse processo de criação, tendo como base a memória e imaginação, parte de experiências já vividas que através do processo de associação é capaz de transformar o antigo no novo. A criatividade recebe influência do meio, traz necessidade e desafios que rompem o equilíbrio do cotidiano humano, levando o homem a criar para compreender o mundo e a si mesmo. Sendo a criatividade inerente ao homem, a educação é o instrumento primordial para desenvolvimento e estímulo criador. Apesar de o ato criativo nascer conosco, se formos reprimidos durante nossa vida a nos expressarmos, a nos identificarmos, a sermos sensíveis, se formos criados apenas para o mundo capitalista e consumista sem enfoque nos valores humanos, na sensibilidade, na compreensão do mundo e do que somos neste mundo, a criatividade tende a ser perdida ou então diminuída durante os anos, criando indivíduos enrijecidos. A educação precisa, portanto, voltar seu ensino para formar indivíduos autônomos, sensíveis, responsáveis e conscientes do seu eu e de seu papel na sociedade. Dentre as disciplinas que compreendem o sistema educacional, a arte é a disciplina que desempenha este papel de formação com maior eficácia. Seria ela o meio de desenvolver a expressão infantil, a sensibilidade com o mundo. A arte é a propiciadora de experiências sensoriais, materiais e emocionais. Não podemos deixar de destacar a contemporaneidade no aspecto da educação. A sociedade contemporânea caracteriza-se pelas constantes transformações, por isso se faz necessário a compreensão da criatividade diante desta. As mudanças de maior visibilidade ocorrem nos aspectos econômicos e políticos, tais mudanças interferem no cotidiano, afetando a sociabilidade, a afetividade e a sobrevivência. O indivíduo dessa sociedade de constante movimento, tem a necessidade de refazer suas estratégias cotidianas, é no enfrentar esse mundo mutante que se faz importante a criatividade. Este mundo possibilita uma libertação do homem, gerando movimentação, possibilidades de conexões culturais, afetivas, sociais e econômicas, “liberto, o homem da atualidade teria 30 caminhos mais diversificados e abertos para percorrer ao longo da vida, dispondo de maior autonomia e espaço para exercício da criatividade” (JUSTO, 2001, p. 68). Existe, entretanto, uma contradição nesse pensamento. A mesma sociedade que liberta o homem das amarras das tradições, o priva de sua identidade, caracterizando-o em um sujeito fragmentado e individual. A mesma sociedade que produz solidão, possibilita maior comunicação, abrem novos horizontes e encontros. Neste contexto, as ações humanas carecem de criatividade, o sujeito não pode ser um ser fixo, precisa estar em constantes transformações e adaptações. É importante, portanto, estimular a criatividade, assim como se estimula o pensamento e a linguagem, em todos os âmbitos: família, escola, trabalho, lazer, relacionamento e assim por diante. [...] A pessoa precisa, antes de tudo, ser criativa, ou seja, capaz de constantemente se reconfigurar, rever seus pensamentos, afetos e comportamentos, abarcando a multiplicidade de potenciais e forças que o compõem e as heterogeneidades que o habitam e habitam seu mundo. Renovar-se, inovar, sair da mesmice, da repetição, da harmonia e coerência castradoras parece ser no momento um imperativo não necessariamente alienador. (JUSTO, 2001, p. 72) Quando o indivíduo diante destas constantes transformações não está preparado para lidar com os desafios, sente-se reprimido, não sente prazer no que faz, torna-se um indivíduo alienado em seu viver. Indivíduo este que, apenas executa sem compreender a essência daquilo que faz, sem pensar ou se importar com que o incomoda, com o que não concorda, sendo assim não desenvolve feitos pessoais e assim não desenvolve feitos sociais. Torna-se na sociedade um ser reprimido, submisso e sobrevivente, não sente satisfação no viver e fazer. Entretanto, quando o indivíduo recebeu formação que estimulou sua busca por respostas, sem medo de ter dúvidas e buscar soluções para problemas, desenvolveu seu ato criador, sua expressividade e sensibilidade, este indivíduo tem capacidade para lidar com as constantes transformações e encontra diversas possibilidades neste mundo contemporâneo, tornando assim um ser criativo. Ao longo do século XX, o papel da criatividade na educação ganhou destaque, devido as constantes mudanças sociais, econômicas e tecnológicas, sendo considerada aspecto importante da inteligência humana e instrumentos de resolução de problemas. A idade escolar é considerada a oportunidade do pleno exercício da criatividade da criança, com o objetivo de praticar a espontaneidade da expressão infantil. 31 A importância da atividade criadora na educação se dá do fato de auxiliar a criança a superar a passagem estreita da imaginação criadora para o campo amplo de seu funcionamento (JAPIASSU, 2001), proporcionando novos caminhos para a imaginação, aprofundamento em sua vida afetiva, flexibilidade social, exercício de seus desejos e a formação de hábitos. Cada desenho, pintura, cada ato artístico realizado pela criança, compreende seus sentimentos. Para a criança a arte, pode ser um meio de expressão ou ir além, depende de sua idade e do contexto em que vive. É através de suas produções artísticas que comunicam consigo mesma e com o outros, relaciona com o meio, com o que se identificam, relacionando e reorganizando em algo novo. O papel da arte na educação infantil é desenvolver o pensamento, percepção e emoção, “para sua crescente conscientização social e para seu desenvolvimento criador” (LOWENFELD, 1970, p.21). A arte proporciona para a criança possibilidades. Nosso sistema atual de educação, dá ênfase à aprendizagem de informações, deixando de lado, em alguns contextos, o desenvolvimento da capacidade criadora, os valores humanos, a sensibilidade, o estímulo a expressão, a convivência social e a formação de um indivíduo dinâmico e autônomo. Por isso se faz necessário voltarmos nossa atenção no ensino de arte e nas práticas docentes desenvolvidas no sistema educacional. A forma comum e rotineira de abordam o tema criatividade “escamoteia, as fragilidades conceituais sobre a criatividade, bem como aponta para a necessidade de compreender processos e práticas criativas nas aulas de Arte considerando a formação inicial e continuada [...]” (FERNANDES, 2016, p. 18). Neste contexto surgem as críticas referentes aos trabalhos previamente prontos e iguais, entregues para as crianças apenas com o objetivo que elas pintem ou para função decorativa. As críticas e as interferências adultas aos trabalhos de produção artísticas infantis também se fazem presentes: a criança possui uma forma única e livre de expressão, e muitas vezes, o adulto já formado em padrão estético, tende a opinar, corrigir ou modificar suas produções, essa interferência é incompreensível para a criança. A produção artística criadora só faz sentido quando esta é significativa para a criança. Barbosa (2014), em seu livro Redesenhando o Desenho: educadores, política e história, faz um levantamento histórico do ensino de arte no Brasil, apresentando quatro fases deste ensino. 32 ² A Abordagem Triangular foi, incialmente, divulgada como Metodologia Triangular, em 1991. Em 1998, Ana Mae Barbosa revisou a Metodologia de forma conceitual, prática e incisiva, alterando o nome para Abordagem Triangular. A Abordagem compreende três eixos: o ler, o fazer e o contextualizar. Essa Abordagem é flexível e pode ser aplicada em áreas distintas, mas principalmente, rege o ensino de Arte no Brasil. A virada cultural ou virada literária (1880-1920), que se caracteriza por um movimento educacional vivo e participativo, nascendo a classe dos educadores e a ideologia da Escola Nova. A segunda fase apontada por Barbosa é A Virada Modernista, que se divide em dois períodos, o primeiro de 1920 e 1950, no qual aponta intelectuais que influenciaram no ensino da arte e a importância das exposições de arte infantil, e no segundo período, 1960 e 1970, traz os acontecimentos que desencadearam na crítica de apenas um professor ser responsável por vários temas da arte (música, desenho, artes plásticas, etc), fase essa, que compreende a ditatura militar e a lei nº 5.692 de 1971. A Virada Pós-Moderna (1980 e 1990), traz a contribuição das Universidades para a qualidade do Ensino de Arte, abrangendo revoluções de costumes, comportamento, arte e da escola, ampliando o conceito de arte que se integrou ao conceito de cultura. Ensinar arte passa a ser não apenas atividades artísticas, mas sim ver, falar e valorizar a arte, é neste contexto que surge a Abordagem Triangular². E por último, a Virada Educacional dos Artistas (2000), artistas estes que, apresentam seu trabalho educacional como arte, artistas que se envolvem no ensino de arte. O conhecimento do fator histórico do ensino de arte no Brasil se faz necessário para compreensão do atual sistema educacional, as influências no ensino de arte que hoje predomina nas escolas e da formação docente. Compreender quais são as dificuldades existentes no sistema educacional e as limitações em diversos níveis (espacial, temporal, material e até mesmo limitações no conhecimento), nos levará a compreender o desenvolvimento da criatividade no âmbito escolar em nossos dias atuais. O que os professores fazem e pensam sobre a criatividade em seu cotidiano, na rotina assoberbada de afazeres, como os educandos respondem a esses estímulos, como esses professores lidam com novo, com o velho, com as mudanças e com os imprevistos. Estes são importantes dados para iniciarmos a compreensão de como se desenvolve a criatividade na educação e qual é o papel do professor neste contexto. 33 1.6. O desenvolvimento da criatividade na Educação Infantil A criatividade está intrínseca em nossa sociedade, principalmente no que se refere a educação, porém, esse tema nos passa despercebido cotidianamente, sendo esquecido em um canto da nossa consciência. Fernandes (2016), afirma que “a forma corriqueira e naturalizada de abordar a criatividade, em alguma medida, escamoteava, e ainda escamoteia, as fragilidades conceituadas sobre a criatividade” (p.18) e destaca a necessidade de compreender as práticas no ensino da arte. O tema do presente trabalho provém da experiência profissional e da observação cotidiana do ambiente escolar: no decorrer das aulas de arte, ao propor atividades que abrangessem o ato criador, identificamos alunos, em fase de adolescência, que não possuíam propriedade para tal, lhes faltava entendimento do que é criar, a incompreensão do que lhes era pedido transpassava seus olhares, o papel a frente era apenas uma folha em branco, não havia imaginação e o que lhes era solicitado, surgia como mistério. Surge então, a necessidade de compreender o que é a criatividade, o seu papel no ensino de arte e principalmente, quais são as práticas desenvolvidas pelos professores para que o ensino de arte cumpra sua missão de desenvolver habilidades criadoras que tornam a vida humana mais significativa (LOWENFELD, 1970), aumentando a capacidade de experiência, expressão e ação, formando essa criança dinâmica para uma sociedade em constante transformação e movimento. Este trabalho tem foco na Educação Infantil, provindo do entendimento que é neste período que a criatividade, a expressão e as novas experiências possuem maior possibilidade de exploração, onde a transformação, adaptação e aprendizagem abrangem dimensões mais expansivas, como afirma Jean Piaget (2001, p. 20) a infância “é o tempo de maior criatividade na vida de um ser humano”. Muitos artistas são levados à sala de aula por professores, a fim de estimularem os olhares e as leituras de imagem, por consequência a criatividade. Um deles é o espanhol Joan Miró (1893-1983) que por meio de sua poética, aproxima-se da estética infantil, fazendo com que ocorra um fecundo processo de identificação entre os pequenos leitores e a pintura. Em uma entrevista ao escritor e professor Georges Raillard (1989), Miró afirma que em seu trabalho não é a infância que vai atrás de sua obra, mas sim, ele quem vai em busca dela, e, sutilmente completa, “sim, é preciso esgaravatar a terra para encontrar a fonte; é preciso escavar” (p. 73). 34 Miró vem, com sua fala e com suas obras, ilustrar o que Vigotsky (2009), Lowenfeld (1970) e Piaget (2001) afirmam sobre a criatividade e a infância das crianças: o ato criativo é inerente ao homem e o acompanha durante todo seu desenvolvimento, primordialmente em sua infância, onde a criatividade se manifesta com força total. Se é neste período que o processo criativo se manifesta em sua total potencialidade, seria portanto na Educação Infantil o momento ideal para desenvolver práticas que promovam o desenvolvimento do processo criativo infantil, proporcionando experiências e condições adequadas para tal. Como exemplo, temos a pintura L’Or de Pazuer, a qual traz uma qualidade poética intensa: o amarelo preenche o fundo da tela, mas não totalmente, Miró deixou espaços em branco para que a tela pudesse “respirar”. Fonte: https://www.fmirobcn.org/en/ Linhas finas, formas circulares e estrelas foram distribuídas, sendo que algumas, conectam-se entre si. O ponto verde, vermelho e a tonalidade de azul, equilibram o amarelo Figura 1 - MIRÓ, Joan. L’Or de Pazuer. 4 de dezembro de 1967. Acrílico sobre tela. https://www.fmirobcn.org/en/ 35 predominante da obra. Miró, pintor surrealista, é conhecido por evitar “o academicismo em sua busca constante por uma arte pura e global” (Fundació Joan Miró, acesso em 26 de agosto de 2018). Ao ser entrevistado por George Raillard, em 1975, Miró relata seus processos de criação, como por exemplo, a excitação do mesmo ao observar a mesa onde coloca seus pinceis e que com passar do tempo acaba sendo manchada pela tinta, e que essas manchas se tornarão algum dia produto final de sua criação. Além dos textos poéticos, da práxis docente, do Projeto Político Pedagógico da Escola, existem também alguns documentos que regem a Educação Infantil, um deles, e o mais recente é a BNCC. A Base Nacional Comum Curricular, promulgada em 2017, é um documento normativo que define um conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos matriculados na Educação Básica devem desenvolver, e visa assegurar o direito de aprendizagem e desenvolvimento dos mesmos. Aqui, pensaremos na BNCC como um documento que, apesar de toda crítica que o envolve e sendo ele um documento relativamente novo em nosso contexto escolar, é um documento promulgado e que deverá ser cumprido. A Educação Infantil é considerada pela BNCC como o início do processo educacional, assim As creches e pré-escolas, ao acolher as vivências e os conhecimentos construídos pelas crianças no ambiente da família e no contexto de sua comunidade, e articulá-los em suas propostas pedagógicas, têm o objetivo de ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens [...] (BNCC, 2017) Durante as últimas décadas a concepção de educar e cuidar relacionada a Educação Infantil vem se consolidando, sendo que, o cuidado não pode ser desassociado do processo educacional. Neste contexto, a BNCC aponta que o diálogo com a família, o compartilhamento das responsabilidades, o trabalho com a diversidade e riqueza de diferentes culturas do contexto familiar e das comunidades onde essas crianças estão inseridas, são estratégias fundamentais para cumprir o objetivo apresentado. O documento da BNCC relacionado à Educação Infantil é pautado no eixo estrutural pedagógico apresentado pela Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil (Resolução CNE/CEB nº 5/2009), que são interações e brincadeiras. Partindo deste eixo, as competências 36 gerais da Educação infantil apresentada pela BNCC, dividem-se em duas etapas, sendo a primeira etapa composta por seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento e a segunda etapa composta por cinco campos de experiências. Para além disso, a BNCC reformulou a divisão das faixas etárias na Educação Infantil, que agora são divididas em três, são ela: Bebês (de zero a 1 ano e 6 meses), Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e Crianças Pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). No que compreende aos diretos de aprendizagem e desenvolvimento, a criança inserida na Educação Infantil tem seis direitos garantidos: conviver, com diversos tipos de grupos, pequenos e grandes, com adultos e criança, segundo Rinaldi (2012) “avançando de uma linguagem para a outra, de um campo de experiência para outro, as crianças podem cultivar a ideia de que os outros são indispensáveis para a sua própria identidade e existência (p. 191)”, é compartilhando experiências, ações, conhecimentos, ideias, que as crianças constroem a si mesmos e contribuem para a formação do outro; brincar, diariamente, ampliando sua imaginação, experiência e sua criatividade; participar, devemos enfatizar que o participar não está inserido apenas nas atividades desenvolvidas pelos professores, mas também da organização e planejamento dessas atividades e da gestão escolar, desenvolvendo assim o sentimento de pertencimento ao local; explorar tudo que está ao seu redor (sons, texturas, movimentos, histórias, relacionamentos, entre outros), para que amplie seus conhecimentos; expressar seus sentimentos, ideias, opiniões, descobertas, através de diversas linguagens; e por último o conhecer-se, que compreende a construção de sua identidade pessoal, cultural e social. No que compreende aos Campos de Experiências, a Base Comum Curricular define cinco campos, são eles: o eu, o outro e o nós, compreendendo a relação da criança com os outros e como essa criança se entende e se identifica dentro dessa sociedade; corpos, gestos e movimentos, é através da expressão, do brincar, do movimentar-se que a criança adquire consciência a sua corporeidade e da do outro; traços, sons, cores e formas, que refere-se as diferentes manifestações artísticas, locais e universais; escuta, fala, pensamento e imaginação, é com a convivência, com a curiosidade que a criança apresenta e integração com outros, que essa desenvolverá o seu imaginar, pensar e se expressar; espaços, tempos, quantidades, relações e transformações, o reconhecimento da criança no espaço, na cultura e no meio social em que está inserida, além dos conhecimentos matemáticos iniciais e mudanças no espaço físico. 37 A Educação Infantil, portanto, deve proporcionar experiências onde essa criança deverá explorar objetos, materiais, espaços, movimentos, conhecer e participar de diversas manifestações artísticas, conhecer, explorar e realizar diversos tipos de manifestações de expressão. A palavra chave da Educação Infantil é experimentação: apenas o ato de experimentar, explorar, testar, fazer para ver o que dá e tentar, é que permitirá a criança a ampliação de sua imaginação e curiosidade, e a partir disso, permitirá o desenvolvimento da criatividade. Desenvolver a sensibilidade da criança é fundamental neste processo, só assim, a educação alcançará a sua finalidade, ou o início dela: a formação e transformação de seres criativos, sensíveis e conscientes, para enfrentar uma sociedade de mudanças constante, instabilidades sociais, culturais, econômicas e políticas. Para tal, nossos professores precisam estar devidamente preparados. Fernandes (2016) afirma que o professor é o responsável principal por desenvolver a criatividade do aluno, mas este por vezes encontra limitações: de espaço, materiais, tempo; mas estas limitações não deveriam ser a restrição total para o desenvolvimento da criatividade, o professor deve compreender que o desenvolvimento do processo de criação encontra-se como habilidade em seus alunos, se desenvolve a partir do próprio indivíduo e neste contexto devemos falar também da criatividade no trabalho pedagógico do professor. Antes de ser professor, este é e foi também aluno, está inserido dentro do mesmo sistema educacional que formará seus educandos. Segundo Davies e Howe (2010), um dos maiores riscos dos profissionais é não entender sua profissão como uma profissão criativa, o que se vê é um conformismo por parte de alguns professores, em não buscar, mas apenas reproduzir prática pré-existente. Parte deste conformismo vem das limitações que os professores encontram em sua profissão, para Davies e Howe, são eles: a dificuldade em entender o que é a criatividade, o que os professores defendem e o que realmente fazem, o próprio conteúdo curricular e as metodologias controladas. Para desenvolver criativamente sua profissão, o educador deverá ensinar criativamente para conseguir ensinar para a criatividade, rompendo o conformismo, indo além das normas e práticas usuais, “os educadores não podem realmente promover a criatividade infantil se a sua própria estiver sendo suprimida” (HOWE, DAVIES. 2010, p. 264). 38 Partindo deste entendimento, apresentaremos no próximo capítulo as entrevistas realizadas com treze professoras de Educação Infantil, a fim de conhecer e averiguar os conhecimentos sobre processo de criação, criatividade, desenvolvimento da criatividade na educação e na Arte, formação e as práticas docentes realizadas. 39 Capítulo II – A criatividade na escola: descrição de entrevistas em escolas de Educação Infantil O professor é o mediador entre a criatividade e o aluno, é ele o responsável por proporcionar experiências significativas e atividades que oportunizem a criação. Como visto no capítulo anterior, seria na primeira infância a idade onde a criatividade chegaria ao seu ápice, e muitas vezes os professores encontram dificuldades para proporcionar um ambiente ideal, aqui se entende tanto o espaço físico da escola até o nível de conhecimento do próprio professor, para estimular o processo criativo de seus alunos. Fernandes (2016), afirma que “o professor, como o principal responsável por desenvolver a criatividade do aluno, por vezes dispõem apenas do espaço da sala de aula para realizar tal tarefa” (p. 39). Portanto, há necessidade de conhecer e compreender o contexto escolar encontrado hoje pelos professores. A presente pesquisa tem como instrumento a entrevista com professoras da Educação Infantil, com perguntas previamente formuladas partindo dos estudos teóricos executados ao longo da pesquisa. As questões, onze no total, partem do âmbito geral para o específico, e muitas abrem possibilidades diversas de respostas. As entrevistas foram realizadas com professoras de escolas públicas e privada, totalizando treze professoras de cinco escolas de Educação Infantil. Todos os participantes da entrevista se encontram em situação de anonimato. Escola Tipo Quantidade de Professoras Denominação das Professoras Escola A Pública Três A1, A2 e A3 Escola B Pública Dois B4 e B5 Escola C Pública Três C6, C7 e C8 Escola D Pública Quatro D9, D10, D11 e D12 Escola E Particular Um E13 Tabela 1 – Apresentação das escolas e professoras entrevistadas. Fonte: autoria da pesquisadora. 40 As escolas foram nomeadas por letras (A, B, C, D e E), já as professoras foram nomeados com a letra referente a escola que atua e com o número da ordem que foi entrevistado, dentro da quantidade geral das professoras. Veremos que ao longo das entrevistas, houveram alguns comentários, observações e perguntas para as professoras que não estavam pré-determinadas. Essas interações estão indicadas na transcrição das entrevistas sempre em parênteses, e indicadas com a letra E, que refere-se à entrevistadora. Entretanto, o questionário base apresentado às professoras consiste em onze questões. São elas: Questionário Pergunta 01 – Em seu entendimento pessoal e de acordo com seu conhecimento profissional, no que compreende a criatividade, processo de criação ou ato criativo? Pergunta 02 – Partindo do seu entendimento de criatividade, o quanto ela interfere na educação? É um aspecto importante na educação? Pergunta 03 – Em sua formação profissional você estudou conceitos de criatividade? Pergunta 04 – Você lembra de algum teórico que aborde a questão da criatividade no âmbito escolar que tenha estudado em sua formação? Pergunta 05 - Após concluir sua formação inicial, participou ou participa de algum projeto de formação continuada? Pergunta 06 – Qual o papel da arte no desenvolvimento da criatividade? Pergunta 07 – Qual é o papel da arte na educação? 41 Pergunta 08 – Partindo o entendimento que a arte é o meio que mais propicia o desenvolvimento da criatividade, quais são os meios/métodos/atividades que você utiliza para estimular a criatividade em seus alunos? Pergunta 09 – Quais são as dificuldades que você como professor encontra ao desenvolver a criatividade em seus alunos (dificuldade materiais, espaciais, temporais...)? Pergunta 10 – Pra você qual a idade que mais proporciona o desenvolvimento da criatividade? Pergunta 11 – Qual a importância, e se há importância, do desenvolvimento da criatividade na formação do indivíduo? 2.1. Entrevistas Escola A: professoras A1, A2 e A3 A escola aqui nomeada como Escola A, refere-se a uma escola pública, de período parcial. Para a realização das entrevistas nessa escola, não foi necessário agendamento de data e horário, ao apresentar o projeto para a diretora da escola, a mesma já solicitou às professoras que se possível, participassem da entrevista. Inicialmente eram quatro professoras, entretanto, por motivo de religião e respeito à ela, uma das professoras se negou a participar. Entrevista Escola A, professora 1A. Entrevista realizada face-a-face com duração de 11m41s. Formação: Pedagogia, habilitação em gestão e educação infantil, Pós em psicopedagogia e educação especial. Pergunta 01 – Em seu entendimento pessoal e de acordo com seu conhecimento profissional, no que compreende a criatividade, processo de criação ou ato criativo? Resposta: Certo. O que eu acho que é criatividade... Pra mim criatividade é a habilidade de transformar alguma coisa, alguma informação em alguma arte, por exemplo, escutar uma história e transformar em um desenho, em uma modelagem, em uma pintura. Pra mim é isso, ou até um 42 sentimento: quando pinta assim, pensando em um sentimento, a obra que transmite alguma coisa. É transformar alguma coisa abstrata (um pensamento, um sentimento, uma história), poder expressar através de alguma produção artística. Eu acho que é isso. Pergunta 02 – Partindo do seu entendimento de criatividade, o quanto ela interfere na educação? É um aspecto importante na educação? Resposta: Muito. Muito. Eu acredito que é, principalmente na educação infantil, é a fase dele desenvolver essas habilidades, de perceber que isso também é importante, de ficar só em alfabetização, em número, perceber que isso tem o seu valor. Que eu penso assim: eu não sei o que vão ser minhas crianças, não vão ser todos engenheiros, contadores, eu posso ter um artista ali, então toda habilidade que você poder desenvolver, de fala, de cantar, de fazer alguma coisa, eu acho válido. Eu fico pensando quantos artistas poderiam ser (artistas) e foram podados porque tem que pintar dentro daqui, é a cor tal, então é assim também, não tenho muita experiência na área de artes, penso que é importante sim. Pergunta 03 – Em sua formação profissional você estudou conceitos de criatividade? Resposta: Alguma coisa de criatividade sim, por que eu tinha uma matéria, que fazia ela lá na parte da Artes mesmo, quem dava, ela aposentou agora, era a Fofa (E: a Fofa!), ela chegou a dar aula. Só que a aula dela era assim: no início para despertar a nossa criatividade, o nosso tirar estereótipo, nosso, para poder aplicar isso na criança. Mas é uma matéria só, é pouco para quem já está engessado, o adulto, que já está engessado com o estereótipo, eu achei pouco, mas de ter já é interessante, já fez pensar um pouco sobre o assunto. Pergunta 04 – Você lembra de algum teórico que aborde a questão da criatividade no âmbito escolar que tenha estudado em sua formação? Resposta: Não, não me lembro. Pergunta 05 - Após concluir sua formação inicial, participou ou participa de algum projeto de formação continuada? (E: Você já citou até que fez Pós, além disso, participa de algum outro projeto?). 43 Resposta: Participo, dos que a prefeitura oferece. (E: Poderia citar pra gente?) Sim, eu fiz de Ioga e o que falava de habilidades sociais, da área de psicologia. Pergunta 06– Qual o papel da arte no desenvolvimento da criatividade? Resposta: Deixa eu pensar. Não sei, fazendo o caminho ao contrário, porque eu sempre pensei que a criatividade gerasse Arte, mas assim eu acho que a arte tem o poder de experimentar. Como ele experimenta fazendo arte, pintando, fazendo qualquer produção artística, isso ele pode ver “ah que legal”, posso fazer assim, ou posso fazer... ou mudar, mexer com a criatividade, eu acho, porque eu sempre pensei que fosse ao contrário, pesando nesse outro processo, eu não sei. (E: É que aqui, o entendimento da pergunta é: o que na disciplina de Artes, que é trabalhado com a criança, desenvolve a criatividade). Entendi. Quebra de estereótipo. Não existe todo livrinho ter desenhado assim, o cabelinho assim, não! Pode ser feito com outros materiais, pode ser feito com outras texturas. Pergunta 07 – Qual é o papel da arte na educação? Resposta: Desenvolver a criatividade (risos). Eu acho que é isso mesmo, desenvolver a criatividade, desenvolver esse senso de sensibilidade, de compreender outras formas de representar um conceito, que não só pela palavra, apesar da palavra ser muito importante em uma sociedade letrada, mas eu acho que é isso. Pergunta 08 – Partindo o entendimento que a arte é o meio que mais propicia o desenvolvimento da criatividade, quais são os meios/métodos/atividades que você utiliza para estimular a criatividade em seus alunos? Resposta: Certo. (E: Pode falar das suas experiências) Na turma que estou, como eles são pequenos, mais experimentação. Nós começamos experimentação com tinta, então não é só com o pincel, até chegar no pincel, é tinta com o corpo. Que não importa tanto o final, que pra eles não importa ainda, é mais o processo: pintou com o dedo, pinto com a mão, pintou com o antebraço, com o cotovelo, com os pés. Na massinha também, eu não ensino assim: vamos fazer tal coisa desse jeito, e sim o que que eles querem fazer, e eles vão amassando, experimentando. (E: Você não dá uma fórmula pronta para eles?) Não, nem forminhas. Que mais, deixa eu 44 pensar... Desenho! Trabalho muito desenho livre, desenho da história, mas não história de livro, porque quando eles olham a figura no livro, eles querem copiar, então assim, de histórias que eu conto que é de memória, ou de teatro que é mais difícil. Eu acho que é mais isso, deixa eu pensar... de material pronto é isso. Pergunta 09 – Quais são as dificuldades que você como professor encontra ao desenvolver a criatividade em seus alunos (dificuldade materiais, espaciais, temporais...)? Resposta: Sim. Eu acho que... que aqui até tem um espaço bacana para desenvolver isso, eu acredito que minha maior dificuldade é comigo mesmo, é você se barrar, de por exemplo, isso também está certo, ele está experimentando, você já quer mesmo, você remete a sua formação dentro da faculdade, a minha formação de quando eu aprendi: de pintar dentro é... só pinta dentro, o desenho tem que daquela maneira está certo, pegar na mão pra fazer daquele jeito. Quando por exemplo eu estou trabalhando um tema que ele poderia criar do jeito dele, através de sucata, alguma coisa, isso não vem na minha cabeça, vem primeiro “quero que ele desenhe isso”, e desenha do jeito que eu pensei. Acho que essa quebra comigo mesmo é mais difícil. Procurar atividade relacionada a isso também, porque a gente acaba pesquisando no dia-a-dia na internet, eu não acho isso, acho coisa já pronta, xérox. Pergunta 10 – Pra você qual a idade que mais proporciona o desenvolvimento da criatividade? Resposta: Eu acho que na primeira infância mesmo, a Educação Infantil é primordial nisso, porque depois no ensino fundamental já é um pouco mais engessado, já pega mais no pé na questão da alfabetização, já fica mais tempo sentado, carteira menor, caderno menor, eu acho que é na educação infantil mesmo, desde os pequenininhos mesmo. (E: Você se sente realizada com seu trabalho hoje?). Sim, acredito que eu tenho muito a melhorar, até pela falta de experiência, já que eu sou professora iniciante, mas eu acredito que eu estou me esforçando. Pergunta 11 – Qual a importância, e se há importância, do desenvolvimento da criatividade na formação do indivíduo? Resposta: Eu acredito que isso vai... o indivíduo criativo pra mim... quando for adulto assim, vai ser mais fácil do que quem não é, porque por exemplo, tendo uma reunião de empresa, ele vai ter 45 o insight de uma ideia, de uma mudança, de isso também é legal, vamos ver, do que aquele pensamento mais engessado. Poder criar um projeto, coisas diferentes, querendo ou não, quem fez as invenções que usamos, pensou isso, criativamente, e se eu fizesse tal coisa, e se fizesse um tubo que gerasse imagem, hoje temos a televisão, do que não, tá bom, é assim, sempre existiu assim, é preto e branco, não, alguém pensou em colocar cor, teve criatividade para isso. E também, pra... eu acredito nisso, e que essa pessoa vai ser mais sensível as produções artísticas que ela vê. Se ela tiver a criatividade, ter o contato com a arte na educação infantil, ela vai se interessar em ver uma obra de arte, um teatro, ver que isso é legal, importante também, conseguir apreciar. Eu acho isso. Ao final da entrevista a Professora comenta que a Unesp possui um curso muito legal em parceria com a Prefeitura Municipal, que é o Polo de Arte na escola, e ressalta que ainda não faz o curso, pois trabalha o dia todo, e que futuramente irá participar. Ressalta que conhece professores que fazem o curso e percebe que o trabalho desses professores é diferenciado dos professores que não participam. Entrevista Escola A, professora 2A. Entrevista realizada face-a-face com duração de 08m22s. Formação: Pedagogia, especialização em gestão de pessoas. Pergunta 01 – Em seu entendimento pessoal e de acordo com seu conhecimento profissional, no que compreende a criatividade, processo de criação ou ato criativo? Resposta: Eu acho que a criatividade vem do desenvolvimento né, do que a criança consegue é... formar com o contexto que ela tem de vida, do que ela adquire no meio social dela, até mesmo na escola né, ela consegue transformar aquilo em algo né, tanto para a parte pessoal, ou profissional. Pergunta 02 – Partindo do seu entendimento de criatividade, o quanto ela interfere na educação? É um aspecto importante na educação? Resposta: Muito. A criança só consegue criar algo se ela é estimulada né, então assim, na educação a gente precisa muito do estímulo da criatividade dela né, dessa parte de todo o 46 desenvolvimento dela, tanto no todo, ele interfere muito, se ela não tem esse contexto não tem essa vivência, de forma meio geral, de tudo, interfere muito. É um aspecto importante. Pergunta 03 – Em sua formação profissional você estudou conceitos de criatividade? Resposta: Não, na minha formação acadêmica não. Muito pouco, muito vago também e que não relacionaria, foge um pouquinho, mais para o método profissional, porque eu fiz especialização em gestão de pessoas. Então, para profissionais de empresas, para grandes empresas, mercado de trabalho tudo, o ato da criatividade, o ato da pessoa desenvolver isso, eu estudei um pouco, mas não na minha formação acadêmica como professora. Pergunta 04 – Você lembra de algum teórico que aborde a questão da criatividade no âmbito escolar que tenha estudado em sua formação? Resposta: Não, na minha época não. (E: Você se formou quando?) 2004. Pergunta 05 - Após concluir sua formação inicial, participou ou participa de algum projeto de formação continuada? Resposta: Então, não tenho tempo, mas deveria. Mas assim, eu venho tentando participar, muito vago. A gente tem na Prefeitura é... que tem vários aspectos para a criatividade, para tudo isso, mas eu não consigo, por dar aula nos dois períodos. Uma coisa que eu não falei, que eu não tive, que eu acho que faz falta, que é muito importante, é o magistério né. O magistério abordava muito esse aspecto, a parte técnica, então tirou, então na parte acadêmica a gente não tem. Agora quem fez o magistério e a faculdade tem um outro entendimento. Pergunta 06– Qual o papel da arte no desenvolvimento da criatividade? Resposta: Que através dela, que através do estímulo da arte né, que você consegue desenvolver isso, então a partir do momento que você aplica a arte que você consegue desenvolver a criatividade. Se você não aplica, se você não coloca pra criança, como você vai desenvolver ela? Como você vai estimular isso nela? É através da arte que você desenvolve a criatividade. Pergunta 07 – Qual é o papel da arte na educação? 47 Resposta: Na educação geral você fala né? (E: Na educação geral) É muito importante. A arte não é só fazer desenho, só fazer, montar alguma coisa. É como eu te disse, a arte faz parte do que ele consegue colocar para fora, do que ele consegue desenvolver. Eu acho muito importante, mas tem uma visão diferente do que é arte: o que a criança faz é uma arte, como ele tirou aquilo, o que que vem da vivência dele. Acho importante sim. Pergunta 08 – Partindo o entendimento que a arte é o meio que mais propicia o desenvolvimento da criatividade, quais são os meios/métodos/atividades que você utiliza para estimular a criatividade em seus alunos? Resposta: Mais o lúdico, sabe, contar história, o que eles podem fazer através do que a gente contou, com diversos materiais de sucata, essas coisas, então mais nessa parte... com o meio ambiente também, a questão do desenvolvimento, de reciclagem, mais em relação ao lúdico deles, com materiais alternativos. Pergunta 09 – Quais são as dificuldades que você como professor encontra ao desenvolver a criatividade em seus alunos (dificuldade materiais, espaciais, temporais...)? Resposta: Eu encontro uma dificuldade comigo mesmo por eu não ter uma formação um pouquinho mais específica, por não ter feito nada ainda, e eu encontro com as crianças também, porque elas são muito podadas hoje né. Então assim... limitadas... vamos trabalhar com tinta, um exemplo, hoje não se pode usar tinta, porque suja, não sei o quê, então como você estimula aquilo se não pode mexer. Não pode recortar né, porque vai usar a tesoura, não sei o quê... Então eu sinto essa dificuldade, na habilidade motora deles, porque eles não tem estímulo lá trás, no comecinho, e um pouco minha de não me aperfeiçoar. (Interrupção da entrevista, pois o aparelho onde estava sendo gravada a entrevista, parou de funcionar) Pergunta 10 – Pra você qual a idade que mais proporciona o desenvolvimento da criatividade? Resposta: Três anos. (E: Três anos. Por que?) Porque é quando ele começa a se alto conhecer, se alto descobrir, é ali que é a chavinha, que você vai... Entra na educação infantil com dois aninhos, 48 ele chega aqui, esses dois aninho ele está saindo do berço materno, cortando o cordão umbilical. Com três para quatro anos é a hora que ele se alto conhece, quais são as habilidades dele, a se desenvolver, e vai ser gradativo: começa aí, e vai se desenvolvendo com cinco, seis anos. Mas com três anos, ele já... Seria na educação infantil. (E: Você se sente realizada com seu trabalho hoje?) Me sinto, uma missão que eu tive, uma escolha. Eu me sinto realizada com minha escolha, com o que fiz, pra ser realizada plenamente falta muita coisa, para eu conseguir colocar em prática tudo isso. Pergunta 11 – Qual a importância, e se há importância, do desenvolvimento da criatividade na formação do indivíduo? Resposta: Desenvolvimento da criatividade no indivíduo? Se a gente não desenvolver o indivíduo com a criatividade, ele fica muito no mundo dele, ele fica fechado, ele não consegue, ele não vai ser um bom profissional, em determinada área que ele escolher, seja ela... saúde, humanas, biológica, ele não vai conseguir desenvolver isso, ele não vai conseguir ir além, ele não vai conseguir pensar, ele não vai conseguir é.. focar em todas as habilidades dele, então você não consegue desenvolver a criatividade dele... o que ele cria, porque o que é a criatividade? É algo criado por nós, ele criou, é a criatividade dele, o que a gente cria, eu tenho habilidade para alguma coisa, você tem pra uma, ele tem para uma, todos nós temos... se nós não estimulamos isso a gente não consegue saber qual é a nossa habilidade, a criança não vai ser estimulada, e vai crescer um indivíduo fechado. Vamos colocar assim, não foi lapidado né, ele não é lapidado, ele é uma pedra bruta. Escola A, professora 3A. Entrevista realizada face-a-face com duração de 11m38s. Formação: Pedagogia Pergunta 01 – Em seu entendimento pessoal e de acordo com seu conhecimento profissional, no que compreende a criatividade, processo de criação ou ato criativo? Resposta: Eu acho que seria processo de criação né, a criança ela precisa pensar para poder criar né, é o que a gente trabalha aqui na educação infantil, então a gente trabalha o pensar para se 49 desenvolver, e a gente trabalha também através da arte, porque é através do desenho que desenvolve a escrita, então a gente começa primeiro com a... o nosso estudo é voltado para a evolução do desenho da criança. A criança tem as fases, assim como na escrita, tem as fases do desenvolvimento do desenho, e a gente trabalha em cima disso, quando a criança chega na escola, os pequenininhos, a gente vê né, eles começam com as garatujas, e aí vai evoluindo conforme vai sendo trabalhado, conforme vai sendo estimulado, e conforme o material que a gente apresenta para eles também. (E: Você saberia me informar, assim de memória, algum teórico que você estão trabalhando?) Olha, aqui na... aqui na... eu não fiz nenhuma formação continuada aqui na... pela rede municipal, envolvendo nenhum teórico, mas acredito que a rede municipal tenha feito sim, eu no momento não me recordo, porque não fiz, mesmo porque eu sou do fundamental também, e aí as minhas formações são voltadas mais para o fundamental. Mas assim, a linha é essa que a gente trabalha. Pergunta 02 – Partindo do seu entendimento de criatividade, o quanto ela interfere na educação? É um aspecto importante na educação? Resposta: No desenvolvimento da criança, em todos os aspectos né, porque ela vai criar, ela vai imaginar, a gente trabalha muito com a imaginação da criança, e a partir do imaginação, do brincar, do imaginário dela, que ela vai desenvolver todas as suas áreas e potencialidades. É um aspecto importante, sem dúvida, com certeza. Pergunta 03 – Em sua formação profissional você estudou conceitos de criatividade? Resposta: Que eu me lembre muito pouco, foi na prática mesmo, mesmo porque quando eu fiz a pedagogia eu já tinha prática, um pouco de prática. Foi bem assim na prática e na formação dentro da escola mesmo. Pergunta 04 – Você lembra de algum teórico que aborde a questão da criatividade no âmbito escolar que tenha estudado em sua formação? (Professora respondeu na pergunta número 01) 50 Pergunta 05 - Após concluir sua formação inicial, participou ou participa de algum projeto de formação continuada? Resposta: Não, pela escola não. Pela rede municipal não. (E: Mas assim, uma busca sua) Ah, assim, a gente tenta seguir a proposta da prefeitura, e a gente segue a proposta da prefeitura, dentro da linha da prefeitura mesmo, particular não. Inclusive, depois você vai né (no sentido de organizar a entrevista), teve um curso da prefeitura, que eu estou me recordando agora, não fiz, mas eu lembro que algumas professoras fizeram, sobre arte e veio um material bem bacana para as escolas. Eu tive acesso, vi esse material, estou me lembrando agora, mas eu não sei nem como foi trabalhado, porque assim quem fez, trabalhou e quem não fez, não compartilhava. E tinha obras, eu me lembro, da Tarsila Amaral, que é o que mais se trabalha, um dos mais, eu me lembro disso. Pergunta 06 – Qual o papel da arte no desenvolvimento da criatividade? Resposta: Ela leva a pensar, e pensando vai desenvolvendo né. Vai praticando a criatividade... é... eu vejo assim, a criança, ela faz a criança pensar, e pensando ela vai desenvolvendo. Pergunta 07 – Qual é o papel da arte na educação? Resposta: A arte ela desenvolve a escrita para mim, o desenho. Ela desenvolve a imaginação, a criatividade, e a partir dela vai se desenvolver as outras áreas né, para a criança se desenvolver, ser um adulto autônomo, criativo. Pergunta 08 – Partindo o entendimento que a arte é o meio que mais propicia o desenvolvimento da criatividade, quais são os meios/métodos/atividades que você utiliza para estimular a criatividade em seus alunos? Resposta: Então, eu trabalho com vários suportes para desenvolver a arte, inclusive, vários tipos de tinta né... estou falando em suportes, materiais. A gente trabalha muito com pincel, com bucha, sabe, assim, coisas diferentes, e a partir desses materiais... E a gente faz muita contação de história, e eles desenvolvem através do desenho, da pintura, da arte, eu acho que em todas as áreas entra: na matemática dá para trabalhar arte né, no... na língua portuguesa dá para trabalhar, na linguagem oral para depois se transformar. (E: Você acha que esses métodos que você utiliza, 51 eles propiciam a criatividade?) Eu acho que sim, deve, a gente não pode ficar em uma mesmice, você tem que apresentar vários suportes, e não assim separadas, ao mesmo tempo né... eles devem explorar bastante. Então, aqui a gente explora bastante o meio ambiente (E: Tem um espaço maravilhoso para isso!). Tem um espaço maravilhoso, a gente explora esse meio ambiente, que é uma forma rica que a natureza dá para nós, a partir disso, é... e também assim de leituras e do meio deles mesmo, das vivências deles, a gente pega e a partir disso a gente trabalha a arte em cima disso, que é o desenho, pra eles produzirem, a pintura. Pergunta 09 – Quais são as dificuldades que você como professor encontra ao desenvolver a criatividade em seus alunos (dificuldade materiais, espaciais, temporais...)? Resposta: Eu encontro bastante, porque hoje em dia eles vem de casa só com a televisão, com o computador, com o celular, só isso. Então eles não tem essa vivência, eles não... eles chegam aqui sem a vivência de parque, sem a vivência de brincar coleguinha, então esse é o primeiro bloqueio que a gente sente, e com isso eles não tem dialogo em casa, a mãe não deixa falar, não deixa contar né. Esse contato deles poderem contar e se expressar, desenvolve também, muito. E... desenvolve a oralidade, a imaginação, o pensamento, e eles vem com isso zerado, então a gente tem que começar assim, bem lá de baixo, e ir construindo com eles. É essa dificuldade que eu mais tenho, no começo, depois eles vão se soltando, aprendendo a falar, aí vai, mas o comecinho é mais difícil mesmo, por quanta da família, da estrutura familiar. Pergunta 10 – Pra você qual a idade que mais proporciona o desenvolvimento da criatividade? Resposta: A partir dos quatro, assim, anterior a isso eles estão, eles vem pra escola, naquela fase do egocentrismo, então tudo é meu, eles não conhecem ainda viver no social com as outras crianças, é o primeiro contato. Então quando eles chegam para cá com dois aninhos, é trabalhado isso, eles ficam juntos, com os outros, conhecerem os integrantes da escola, depois, a partir dos quatro eles já começam. Pergunta 11 – Qual a importância, e se há importância, do desenvolvimento da criatividade na formação do indivíduo? 52 Resposta: Eu acho que a criança, a criança bem trabalhada, no sentido de escola, família, ela vai ser em todas as suas áreas, é... lá no futuro quando for adulto, ela vai saber escolher, ela vai saber decidir o que ela quer pra ela, não vai ser indeciso na vida, nos momentos mais difíceis, porque a criança, de pequena, que não é tra