Roseli Bernardete Dahlem EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS: a atuação da Itaipu Binacional na Bacia Paraná 3 – Estado do Paraná Rio Claro – SP 2011 Roseli Bernardete Dahlem EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS: a atuação da Itaipu Binacional na Bacia Paraná 3 – Estado do Paraná Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas do Campus de Rio Claro da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, como requisito para obtenção do título de Doutor em Geografia Orientador: Prof Dr. Roberto Braga Rio Claro – SP 2011 FICHA CATALOGRÁFICA FOLHA DE APROVAÇÃO Roseli Bernardete Dahlem EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS: A ATUAÇÃO DA ITAIPU BINACIONAL NA BACIA PARANÁ 3 – ESTADO DO PARANÁ Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Geociências e Ciências Exatas do Campus de Rio Claro da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, como requisito para obtenção do título de Doutor em Geografia Comissão Examinadora Prof. Dr. Roberto Braga – Orientador IGCE/UNESP/Rio Claro (SP) Profa. Dra. Solange Terezinha de Lima Guimarães IGCE/UNESP/Rio Claro (SP) Profa. Dra. Cenira Maria Lupinacci da Cunha IGCE/UNESP/Rio Claro (SP) Prof. Dr. Carlos Eduardo Matheus EESC/USP/São Carlos (SP) Profa. Dra. Ana Maria Marques Camargo Marangoni FFLCH/USP/São Paulo (SP) Rio Claro, SP, 01 de dezembro 2011. DEDICATÓRIA Á minha mãe Inga, 78 anos, e à meu pai Irio, 81 anos, que me possibilitaram as primeiras letras. AGRADECIMENTOS Ao Prof. Dr. Roberto Braga, pela sua orientação, fundamental para a realização deste trabalho. Aos professores Dra. Solange Terezinha de Lima Guimarães, Dra. Cenira Maria Lupinacci da Cunha, Dr. Carlos Eduardo Matheus e Dra. Ana Maria Marques Cardoso Marangoni, pelas sugestões apresentadas no Exame de Qualificação e na Defesa da Tese. À minha família, em especial ao meu esposo, Azenir, e aos amigos, que souberam entender esse momento de minha vida e me apoiar, além de compreender alguns momentos de distanciamento. Aos gestores de Educação Ambiental da Bacia Paraná 3 e aos entrevistados Enéas Machado - Instituto das Águas do Paraná, Kátia de Jesus e Renato Marin - Secretaria de Estado da Educação, Adir Parizotto – Instituto Ambiental do Paraná/Escritório Regional de Toledo, Silvana Vitorassi e Nelton Friedrich da Itaipu Binacional, que, com seus olhares atentos à região e às questões ambientais, trouxeram uma série de contribuições para este trabalho. Aos colegas de trabalho da Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu, até 2010, e do Instituto Federal do Paraná – campus de Foz do Iguaçu, que me incentivaram e me instigaram para a pesquisa. A todos, que direta ou indiretamente ajudaram com uma ideia, uma sugestão, uma dica de leitura, uma revisão, um olhar de carinho por mim e pelo meu trabalho. À UNESP pelo ensino público, gratuito e de qualidade, que está possibilitando tornar meu sonho realidade. RESUMO A gestão de bacias hidrográficas vem, a cada dia, consolidando uma visão sistêmica e colaborativa no uso e cuidado com a água num determinado território. Essa visão é perceptível nos 28 municípios que compõem a Bacia Paraná 3, localizada no Oeste do Estado do Paraná, e que conta com a presença da Usina Hidrelétrica de ITAIPU. A partir de 2003 a empresa passou por um processo de revisão institucional, colocando-se a serviço do desenvolvimento regional e alinhando-se às políticas federais, bem como revendo os processos ambientais regionais que impactam diretamente na produção de energia. Nesse sentido, destaca-se o alinhamento da região em duas frentes de políticas públicas: a de educação ambiental e a de gestão de bacias hidrográficas. No que se refere à Política Nacional de Educação Ambiental, percebe-se que a região foi palco do enraizamento de programas idealizados pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Educação, estimulando a consolidação de uma região ciente de seus direitos e deveres, além da percepção da necessidade de uma participação ativa e consciente. Já em relação à gestão de bacias hidrográficas, percebe-se que as novas diretrizes de ordenamento e planejamento territorial levam a ampliação da atuação de 15 municípios lindeiros ao Lago de Itaipu1 para 28 municípios da Bacia Paraná 3, bem como a necessidade de atuar na região que afeta diretamente na atividade produtiva da Itaipu. Ao falar do elemento participação, cabe destacar o papel fundamental que a Educação Ambiental tem nesse processo, visto que um dos pontos elementares de sua prática é possibilitar que todos os envolvidos tenham acesso às informações e possam dialogar e construir propostas coletivas de atuação em seus territórios. Ao abordar a Educação Ambiental para a Gestão de Bacias Hidrográficas é importante ter claro que a presente tese não pretende criar um corpo de conhecimentos específicos para essa área, nem tampouco desenvolver uma metodologia para servir de subsídio 1 É importante deixar claro o número de municípios a serem trabalhos neste trabalho. No momento de formação do Lago de Itaipu, 16 municípios sofreram alagamento de suas terras, sendo 15 pertencentes ao Estado do Paraná, denominados Municípios Lindeiros ao Lago de Itaipu e 1 município pertencente ao Estado do Mato Grosso de Itaipu, que é denominado de Área de Influência de Itaipu. Com a mudança de foco da Itaipu Binacional, trabalhando com a Bacia Hidrográfica Paraná 3, foram incorporados mais 13 municípios do Estado paranaense, configurando 28. para o desenvolvimento de programas ou ações nas diversas bacias hidrográficas do Brasil, mas sim entender como essa ação aconteceu na Bacia Paraná 3 e como a Educação Ambiental esteve presente nesse processo. Um dos pontos fundamentais identificados é a aceitação regional que a ação proposta pela ITAIPU teve. Com uma visão regional e entendendo a importância da participação, a empresa conseguiu criar espaço para o diálogo de saberes, chamando envolvidos e usuários para essa empreita, identificando problemáticas, elaborando propostas e, o mais importante, chamando para que cada um assumisse o papel que lhe cabe na gestão de recursos hídricos, bem como atuando na manutenção dos elementos que garantem a quantidade e qualidade da água para a produção da Usina. Com um forte papel articulador, em virtude da atuação histórica junto à região e o envolvimento financeiro dos municípios com a empresa, a ITAIPU conseguiu desenvolver programas que atendessem diversas necessidades locais, sempre buscando articular com políticas públicas do Governo Federal as necessidade regionais e da empresa. Essa participação efetiva só se tornou possível com um trabalho forte de Educação Ambiental não apenas com foco escolar, mas principalmente junto às comunidades. Essa EA trabalhada pela ITAIPU trouxe consigo elementos que servem como norteadores internacionais na prática de EA, como a Carta da Terra e as Metas do Milênio. Palavras-chave: Educação Ambiental, Gestão de Bacias Hidrográficas, Políticas Públicas, Planejamento Territorial. ABSTRACT The watershed management is consolidating day-by-day a systemic and collaborative use and care of water in a specific territory. This view is visible in 28 municipalities that make up the Parana Basin 3, located in the west of Parana state and has the presence of Itaipu Hydroelectric Plant. Since 2003 the company has passed through a process of institutional review, placing the service of regional development and aligning with federal policies, as well as reviewing the environmental processes that impact directly on regional energy production. This way the alignment of the region in two fronts of public policies: environmental education and watershed management stands out. In relation to National Environmental Education we realize that the region was the scene of the rooting of programs that were developed by the Ministries of Environment and Education, encouraging the consolidation of the region aware of their rights and duties in addition to the perception of need for an active and conscious participation. In relation to the management of river basins, it is clear that the new guidelines for planning and territorial planning lead to expansion of operations in 15 municipalities bordering Itaipu lake2 for 28 municipalities in Parana Basin 3, as well as the need to act in the region which directly affects the productive activity of Itaipu. When talking about the participation element, we highlight the fundamental role that environmental education is in the process, since one of the basic points of its practice is to enable everybody involved to have access to information and proposals to build dialogue and collective action in their territories. In addressing the Environmental Education for Watershed Management, it is important clarify that this thesis does not intend to create a body of knowledge specific to that area, nor to develop a methodology to be used as input for the development of programs or actions in the various river basins in Brazil, but rather to understand how this action happened in the Parana Basin 3 and as the Environmental 2 It is important to clarify the number of municipalities to be shown in this paper. At the moment of the formation of Itaipu lake, 16 municipalities experienced flooding of their land, 15 belonging to Parana state, called municipalities bordering Itaipu lake and a municipality belonging to Mato Grosso of Itaipu state, which is known as Influenced Area of Itaipu. With the shift from Itaipu, working with Parana Basin 3, 13 more cities were incorporated into Parana state, setting 28. Education was present in this process. One of the identified key issues is the regional acceptance that the action proposed by Itaipu had. With a regional vision and understanding the importance of participation, the company managed to create space for dialogue of knowledge, inviting users to get involved in the dialogue, identifying problems, developing proposals and, most important, asking each one to assume the role in water resources management, as well as acting in the maintenance of the elements that ensures the quality and quantity of water for production at the Hydroelectric Plant. With a strong coordinating role due to the historical performance with the region and the financial involvement of municipalities with the company, ITAIPU was able to develop programs that attended several local needs, always seeking to articulate public policies of the Federal Government, the regional needs and the company. This effective participation was only possible with a strong effort of the Environmental Education with a focus not only educational, but mainly with the communities. This Environmental Education realized by ITAIPU brought elements that serve as guidelines in the international practice of Environmental Education, as the Earth Letter and the Millennium Development Goals. Keywords: Environmental Education, Watershed Management, public policies, territorial planning. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1: Regiões Hidrográficas do território brasileiro ......................................... 28 Figura 2: A Região Hidrográfica do Paraná e suas seis unidades hidrográficas ... 29 Figura 3: Regiões Hidrográficas brasileiras no território paranaense .................... 30 Figura 4: Bacias Hidrográficas do Estado do Paraná ............................................ 31 Figura 5: Municípios do estado paranaense pertencentes à Bacia Hidrográfica Paraná 3 ................................................................................................................33 Figura 6: Públicos prioritários da ANA para capacitação ...................................... 96 Figura 7: Unidades Hidrográficas do Paraná....................................................... 103 Figura 8: Áreas estratégicas de gestão no território paranaense ........................ 105 Figura 9: Logomarca do programa Cultivando Água Boa da ITAIPU Binacional.130 Figura 10: Municípios lindeiros ao Lago de ITAIPU – lado paranaense ............. 136 Figura 11: Rede formal de relacionamento e cooperação do Programa Cultivando Água Boa............................................................................................................. 152 Figura 12: Médias ponderadas das prioridades dos principais desafios para o enraizamento da Educação Ambiental ...............................................................182 Figura 13: Mapa conceitual para a Educação Ambiental para a Gestão de Bacias Hidrográficas .......................................................................................................185 Figura 14: Mapa conceitual da relação do Programa Cultivando Água Boa com a Política Nacional de Educação Ambiental, a Política Estadual de Educação Ambiental e o Plano Nacional de Recursos Hídricos..........................................195 LISTA DE QUADROS Quadro 1: As Correntes em Educação Ambiental ................................................. 75 Quadro 2: Três imagens de Educação Ambientall ............................................... 78 Quadro 3: Temas na área de recursos hídricos a serem contemplados na formação dos públicos prioritários pela ANA ........................................................ 98 Quadro 4: Planejamento financeiro para as ações de Capacitação e Comunicação do PLERH/PR ..................................................................................................... 113 Quadro 5: A Educação Ambiental no PNRH e no PLERH/PR ............................ 117 LISTA DE TABELAS Tabela 1: Dados socioeconômicos dos municípios da Bacia Paraná 3 – Estado do Paraná .................................................................................................................. 35 Tabela 2: Quantidade de inscritos e de concluintes no Programa Multicurso Água Boa – Bacia Paraná 3 ........................................................................................ 178 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1: Disponibilização de recursos financeiros para a prática de EA ........ 165 Gráfico 2: Temas de atuação nos projetos inscritos para captação de recursos financeiros – 2010 .............................................................................................. 166 Gráfico 3: Participação dos gestores municipais no movimento de consolidação do Comitê Gestor dos municípios ........................................................................... 174 Gráfico 4: Participação dos gestores municipais nos encontros regionais de elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná ...... 175 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABRH - Associação Brasileira de Recursos Hídricos ACIESP - Academia de Ciências do Estado de São Paulo AEGs - Áreas Estratégicas de Gestão ANA - Agência Nacional de Águas BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento BP3 – Bacia Paraná 3 CAB - Programa Cultivando Água Boa CEAI - Centro de Educação Ambiental do Iguaçu CEEIBH - Comitê Executivo de Estudos Integrados de Bacias Hidrográficas CER - Comissões Executivas Regionais CERH/PR - Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná CIC - Comitê Intergovernamental Coordenador dos Países da Bacia do Prata CIH - Centro Internacional de Hidroinformática CNRH - Conselho Nacional de Recursos Hídricos CNUMAD - Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento – Rio’92 CODEVASF - Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco COGEA - Coordenação Geral de Educação Ambiental CONAMA - Conselho Nacional de Meio Ambiente Com-Vidas: Comissões de Meio Ambiente e Qualidade de Vida nas escolas COPEL: Companhia Paranaense de Energia CT-Hidro - Fundo Setorial de Recursos Hídricos CTPNRH - Câmara Técnica do Plano Nacional de Recursos Hídricos DDT - Dicloro-Difenil-Tricloroetano DEA – Diretoria de Educação Ambiental DNAE - Departamento Nacional de Águas e Energia DNAEE - Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica EA - Educação Ambiental ECA/USP - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo EIA - Estudo de Impacto Ambiental EIMA 7 - VII Encontro Ibero-Americano de Desenvolvimento Sustentável ELETROBRÁS – Centrais Elétricas Brasileiras EUA - Estados Unidos da América FBOMS - Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento FIB - Felicidade Interna Bruta FGV - Fundação Getulio Vargas FNMA - Fundo Nacional do Meio Ambiente FPTI - Fundação Parque Tecnológico Itaipu FUNAI - Fundação Nacional do Índio GIRH - Gestão Integrada de Recursos Hídricos GWP - Global Water Partnership GT - Grupo de Trabalho IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IB – Itaipu Binacional IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDH - Índice de Desenvolvimento Humano IES – Instituição de Ensino Superior IGCE - Instituto de Geociências e Ciências Exatas IPARDES – Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social MAB – Multicurso Água Boa MEC - Ministério da Educação MMA - Ministério do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal NCE - Núcleo de Comunicação e Educação ONU - Organização das Nações Unidas ONGs - Organização Não Governamental OSCIPS - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público PAP - Pesquisa-Ação-Participante PCA - Plano de Controle Ambiental PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais PEAMSS - Programa de Educação Ambiental e Mobilização Social em Saneamento PIEA - Programa Internacional de Educação Ambiental PLERH/PR - Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná PNEA - Política Nacional de Educação Ambiental PNRH - Plano Nacional de Recursos Hídricos PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PROÁGUA Nacional - Programa Nacional de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos PROCEL - Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica Programa FEA - Programa de Formação de Educadores Ambientais dos municípios da Bacia Paraná 3 e do entorno do Parque Nacional do Iguaçu ProNEA - Programa Nacional de Educação Ambiental – 1999 a atual PRONEA - Programa Nacional de Educação Ambiental – 1994 a 1999 REBEA - Rede Brasileira de Educação Ambiental RELOB - Encontro de Organismos de Bacias da América Latina a Caribe RIMA - Relatório de Impacto Ambiental RUPEA - Rede Universitária de Programas de Educação Ambiental SEED/PR - Secretaria Estadual de Educação – Estado do Paraná SEGRH - Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos SEGRH/PR - Sistema Estadual de Gerenciamento de Recursos Hídricos do Paraná SEMA - Secretaria Especial do Meio Ambiente – Ministério do Interior SEMA/PR – Secretaria do Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – Paraná SENAR - Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SESCOOP - Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo SETI – Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado do Paraná SINGREH - Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos SISNAMA – Sistema Nacional do Meio Ambiente SRH/MMA - Secretaria de Recursos Hídricos SRHU/MMA - Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano SUDERHSA - Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental - Paraná UED - Unidades Executivas Descentralizadas UnB - Universidade de Brasília UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESP- Universidade Estadual Paulista UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná WCDE - World Commission on Environment and Development SUMÁRIO 20 1 INTRODUÇÃO A gestão de bacias hidrográficas tornou-se, nos últimos tempos, um grande desafio, e aos poucos vem conquistando seu espaço para solucionar problemas relacionados com recursos hídricos, envolvendo todos os fatores que são responsáveis pelo seu impacto. A elaboração de uma política ambiental usando como referência bacias hidrográficas vem sendo considerada, na atualidade, uma das formas mais adequadas, devido ao fato de vários aspectos ambientais estarem interrelacionados. Isso porque, várias relações causa-efeito de elementos naturais acabam sendo influenciadas pela declividade e altitude do terreno, em especial as relacionadas com a questão de recursos hídricos. Apesar dessa potencialidade que o trabalho em bacias hidrográficas apresenta, cabe destacar que nem todos os problemas e necessidades conseguem ser atendidas nessa forma de política pública, a destacar os problemas de produção, de legislação, entre outros. Isso porque, apesar de encontrarem seu espaço de acontecimento na área de uma bacia hidrográfica, sofrem influência das relações políticas em relação às divisões territoriais municipais, onde cada espaço tem formas específicas de atuar e de legislar, apesar de seguirem determinações superiores (estaduais e federais). Ao visualizar a bacia hidrográfica como constituída de fatores interdependentes, incluindo pessoas, grupos, atitudes, questões ambientais, estrutura formal e informal, interações, entre outros, percebe-se, cada vez mais forte, a necessidade de formas de abordagem e planejamento integrado, o que garante a vez e a voz de todos os envolvidos com o uso e o cuidado com os recursos hídricos. A internalização das questões sociais, econômicas e ambientais no conjunto das políticas públicas de uma localidade é uma das necessidades mais urgentes e que requer quebra de paradigmas na forma de administrar recursos públicos e de pensar em ações concretas, pois não pode mais ser pensada e aplicada por apenas uma parcela da população, mas deve haver o envolvimento de todos os segmentos da sociedade. 21 Nas propostas oficiais de gestão de Bacias Hidrográficas, um dos requisitos destacados no processo de planejamento é a educação ambiental com a população envolvida no processo. Essa preocupação se faz notar em diferentes e diversos órgãos públicos nas várias esferas que buscam planejar suas ações de maneira sistêmica e também na Política Nacional de Recursos Hídricos3, aprovada em 1997, e na Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA4), aprovada em 1999. Segundo a Política Nacional de Recursos Hídricos, a Educação Ambiental tem como objetivo implementar e desenvolver processos educativos integrados voltados à conscientização social, ecológica e política das populações e a disseminação do Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA) nas bacias hidrográficas brasileiras. A Política Nacional de Recursos Hídricos propõe que a bacia hidrográfica seja considerada como unidade física ideal para o manejo e gestão ambiental, de forma sistêmica (BRASIL, 1997) e também a proposição da PNEA, que considera que a Educação Ambiental deva ter “enfoque humanista, holístico, democrático e participativo e deve atuar com uma concepção de meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade” (BRASIL, 1999). Essa justaposição de ações na Política Nacional de Recursos Hídricos com a PNEA demonstra que a educação ambiental, especialmente a não- formal5, constitui-se em pressuposto básico para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e, mais especialmente, para a democratização efetiva dos processos decisórios no âmbito da gestão de bacias hidrográficas, pois apenas comunidades, não apenas cientes, mas verdadeiramente conscientes de seus direitos e deveres de cidadania para com a coletividade, podem compreender a razão de ser de sua participação e efetivamente convertê-la em benefícios ambientais, sociais e econômicos para a natureza e para a sociedade. 3 A Política Nacional de Recursos Hídricos é instituída pela Lei Federal nº 9433/97. 4 A Política Nacional de Educação Ambiental é instituída pela Lei Federal nº 9795/99. 5 A Educação ambiental não-formal, pela Lei Federal nº 9795/99 é entendida como as ações e práticas voltadas à sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais e à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente. 22 Essa questão é bastante perceptível em esfera nacional, onde se percebe um grande movimento da sociedade para organizar-se para atender às novas orientações da legislação vigente e um desses exemplos é o que acontece na região oeste do Estado do Paraná. 1.1 Justificativa Na Conferência de Estocolmo, em 1972, já foi tomada a resolução de que se deve educar o cidadão para a solução dos problemas ambientais e firmado o termo Educação Ambiental (EA), que passa a ser considerada como campo da ação pedagógica, adquirindo relevância e vigência internacionais. Dando legitimidade a esse movimento, em 1974 são definidos os Princípios de Educação Ambiental, e que esta não deve ser vista como um ramo da ciência ou matéria de estudo separada, mas deve estar integrada ao currículo e ser permanente. Em 1975, no Encontro de Belgrado, é definida a criação do Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA), atendendo à recomendação 96 da Conferência de Estocolmo. Essa decisão vai culminar na Primeira Conferência Intergovernamental em Educação Ambiental em 1977, tendo como sede Tbilisi, na Geórgia. Na Conferência de Tbilisi há o reconhecimento da Educação Ambiental como um elemento essencial orientado para a resolução dos problemas por meio da participação, utilizando-se a educação formal e a educação não-formal e também o incentivo para que os países implantem programas nacionais de EA. Nesse contexto, em 1981, o Brasil cria a Política Nacional do Meio Ambiente pela Lei Federal nº 6.938/81, que situa a EA como um dos princípios que garantem a “preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à vida, visando assegurar no país condições ao desenvolvimento socioeconômico, aos interesses da segurança nacional e à proteção da dignidade da vida humana” (BRASIL, 1981b). Baseada nessa lei, em 1987, é aprovada a inclusão da EA nos currículos escolares brasileiros de 1º e 2º graus, como um tema transversal. 23 Em 1992, com a realização da Conferência Rio’92, o papel da EA ganha destaque em diversos documentos e processos formativos, que destacam a necessidade da participação da população na resolução de seus problemas e pela Lei nº 9.795/99 (BRASIL, 1999) é criada a Política Nacional de Educação Ambiental, que coloca os Ministérios da Educação e do Meio Ambiente a dialogarem sobre sua implementação. Nessa mesma lei, Educação Ambiental é definida como: processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (BRASIL, 1999). Cabe destacar que essa lei de 1999 traz em seu bojo a noção de que as questões ambientais devem ser enfrentadas de maneira individual e coletiva, o que demonstra uma preocupação que ainda é bastante atual do papel do indivíduo e também da sociedade organizada. Na definição de EA pela lei de 1999 já se aborda que o trabalho com a Educação Ambiental se desenvolve num contexto de complexidade, onde diversos olhares e metodologias precisam dialogar para poder chegar, não a resultados extremamente adequados, mas que sejam os mais adequados para cada situação, considerando-se todos os envolvidos no processo. Também se percebe uma preocupação com a percepção de que a crise ambiental é resultado de uma crise ética e política. Nesse ponto cabe destacar que além de concordar com esses elementos, precisam ser levantados também outros pontos que afetam diretamente a questão ambiental, em especial os elementos econômicos, sociais, culturais, ou seja, uma verdadeira crise axiológica pela qual a sociedade humana vem passando. De acordo com o ProNEA, a Educação Ambiental é direito de todos, e deve, portanto, estar presente em todos os níveis e modalidades de ensino, tanto em caráter formal (dentro do currículo escolar), como em caráter não- formal (igrejas, associações de moradores, empresas), garantindo-se o acesso e a democratização das informações ambientais. Deve ser uma prática educativa contínua e permanente, e não uma prática pontual, marcada, 24 principalmente, por ações paliativas em datas comemorativas (como, por exemplo, no dia do meio ambiente, dia da árvore). Segundo Zakrzevski (2003 a, p.45), ao longo da história a EA esteve associada a diferentes matrizes de valores e interesses, gerando um quadro bastante complexo de educações ambientais com orientações metodológicas e políticas bastante variadas. A EA tem sido abordada de diferentes modos: como um conteúdo, como um processo, como uma orientação curricular, como uma matéria, como um enfoque holístico, e também tem apresentado objetivos diversos: a conservação da natureza, o gerenciamento de recursos, a resolução de problemas ambientais, a compreensão do ecossistema, a melhoria dos espaços habitados pelo ser humano, a discussão das questões ambientais globais. Na perspectiva brasileira, assim como mundial, a Educação Ambiental vem sendo entendida como uma responsabilidade não somente do ensino formal. Cada vez mais grupos, Organizações Não Governamentais (ONGs), entidades, associações vêm se organizando para trabalhar em prol da melhoria da qualidade ambiental, social e econômica, o que vem trazendo para a prática cotidiana vários dos questionamentos e diálogos que ocorreram nas diversas partes do mundo. Outro aspecto a ser considerado é a necessidade de entender o campo de atuação da educação ambiental, não confundindo-a com gestão ou ação ambiental. Segundo Rosa (2007, p.278), a educação ambiental e a gestão ambiental podem e devem ter convergência, mas deve-se ter cuidado para que o processo educativo não fique apenas na ação. Também muitas vezes a EA é tomada como um recurso operatório para enfrentar problemas ambientais, implicando a redução de sua perspectiva educacional. É importante que no desenvolvimento da Educação Ambiental sejam realizadas ações ambientais, entretanto, para que isso se confirme como processo educativo, deve-se envolver todos os atores sociais envolvidos. Um dos focos que vem ganhando destaque no Brasil é a Educação Ambiental para Gestão de Bacias Hidrográficas, pois com a promulgação de leis das águas em nível federal e dos estados da federação, a bacia hidrográfica passou a ser a unidade territorial de planejamento e gestão das 25 águas. Como consequência, vários projetos de educação ambiental voltados para recursos hídricos foram e estão sendo desenvolvidos, tendo por base a bacia hidrográfica, sendo que a região da Bacia Paraná 3, no estado do Paraná, é um desses espaços. Como isso se dá? Como as instituições e prefeituras estão se articulando, tanto para a elaboração do Plano Local de recursos hídricos, como também para o enraizamento da Educação Ambiental, quais os resultados dessas ações, quais os avanços dessas iniciativas? Entender essas e outras questões é que impulsiona a elaboração dessa tese, com o objetivo de contribuir com as experiências e ações concretas já existentes de Educação Ambiental e Gestão de Bacias Hidrográficas. 1.2 Objetivos 1.2.1 Objetivo geral Discutir e avaliar os principais elementos da Educação Ambiental para a Gestão de Bacias Hidrográficas, usando como referência as propostas do Plano Nacional de Recursos Hídricos, o Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná e a ação da Usina Hidrelétrica de Itaipu na Bacia Paraná 3. 1.2.2 Objetivos específicos: a) Avaliar a Educação Ambiental no processo de Gestão da Bacia Hidrográfica Paraná 3 (BP3), por meio do Programa Cultivando Água Boa (CAB), desenvolvido pela Itaipu Binacional em conjunto com as 28 prefeituras municipais do Estado do Paraná; b) Identificar as inter-relações entre a prática de Educação Ambiental na BP3 e a PNEA, a Política Estadual de Educação Ambiental, o PNRH e o Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná; c) Avaliar o papel da Educação Ambiental para a Gestão de Bacias Hidrográficas realizada na BP3 articulada com a Política Nacional de Educação Ambiental e a Política Nacional de Recursos Hídricos; 26 d) Avaliar a metodologia da Itaipu Binacional na BP3 na organização da comunidade para a atuação participativa na região, através das ações desenvolvidas pelo Programa CAB. 1.3 Estratégias de Pesquisa Para a produção desta Tese foi realizada uma revisão bibliográfica envolvendo a Política Nacional de Recursos Hídricos, a Política Nacional de Educação Ambiental e o Programa Nacional de Educação Ambiental. Também foi pesquisado o processo de ocupação da região onde se localiza a Bacia Paraná 3, em especial seu processo de colonização, de planejamento e construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu com os impactos (positivos e negativos) produzidos por essa obra de engenharia. Além disso, foi identificada a criação do Conselho de Desenvolvimento dos Municípios Lindeiros ao Lago de Itaipu, que em parceria com as Prefeituras Municipais e com a Usina Hidrelétrica de Itaipu, atua diretamente nos municípios na execução de políticas públicas. Além de pesquisa bibliográfica foram realizadas pesquisa em forma de questionário e entrevista oral. Sobre a pesquisa em forma de questionário (Apêndice 1), esta foi estruturada com questões objetivas, sendo algumas com escolhas únicas e outras com escolhas múltiplas, bem como questões em aberto para que os entrevistados expressassem suas ideias sobre o tema, tendo sido aplicada aos Gestores de Educação Ambiental dos 28 municípios da BP3, sendo entregue um questionário por município. Sobre a aplicação desta pesquisa, ela ocorreu entre os dias 07 de abril a 12 maio de 2011, sendo que o questionário foi entregue aos gestores municipais de Educação Ambiental no dia 07 de abril de 2011, em uma reunião realizada nas dependências do Centro de Treinamento da Cooperativa Lar, município de Medianeira, onde estavam reunidos os representantes dos municípios. Na ocasião foram apresentados os objetivos da presente tese e solicitado o apoio dos gestores em responder o questionário e devolver por e-mail as respostas. Dos 28 municípios pesquisados, foi recebido o retorno de 26 municípios, faltando apenas o retorno de Ramilândia e São Pedro do Iguaçu. 27 Em relação às entrevistas, tiveram como foco identificar as ações de cada uma das instituições, o que os entrevistados representam e como elas estão articuladas para atuar na Bacia Paraná 3, sendo que as entrevistas foram realizadas no mês de julho, seguindo transcritas no Apêndice desta Tese. As entrevistas se deram com as seguintes pessoas: a) Adir Parizotto: funcionário da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Sua entrevista “A Política estadual de Recursos Hídricos e o Plano da Bacia Paraná 3” foi concedida no dia 11 julho de 2011. b) Enéas Machado: funcionário da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Diretor de Bacias Hidrográficas do Instituto das Águas do Paraná. Concedeu a entrevista “A Política Estadual de Recursos Hídricos” no dia 07 de julho de 2011. c) Katia Jesus e Renato Marin: a primeira é geógrafa e coordenadora da equipe de Educação Ambiental da Diretoria de Política e Programas Educacionais (DPPE) da Secretaria de Estado da Educação do Estado do Paraná. Já Marin é biólogo de formação e também atua no DPPE. Ambos concederam a entrevista “A Política estadual de Educação Ambiental” no dia 07 de julho de 2011. d) Silvana Vitorassi: gerente da Divisão de Educação Ambiental da Itaipu Binacional. Concedeu a entrevista “A Educação Ambiental: conceitos e o enraizamento na Bacia Paraná 3” no dia 13 de julho de 2011. e) Nelton Miguel Friedrich: Diretor de Coordenação da Itaipu Binacional. Concedeu a entrevista “Programa Cultivando Água Boa e a atuação nos municípios da Bacia Paraná 3” no dia 29 de julho de 2011. As informações levantadas foram analisadas sob a ótica dos referenciais teóricos e a realidade de cada espaço, tendo servido de base para a construção de textos que culminaram nesta Tese de Doutorado. 28 1.4 Caracterização da Área de Estudo Na Política Nacional de Recursos Hídricos, pela Resolução do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) n° 32, de 15 de outubro de 2003, foram criadas 12 Regiões Hidrográficas no território brasileiro, conforme pode ser visualizado na figura 1: Figura 1: Regiões Hidrográficas do território brasileiro. Fonte: BRASIL, 2010 c De acordo com Brasil (2006a, p.66), a Região Hidrográfica do Paraná, uma das 12 regiões hidrográficas do território brasileiro, apresenta grande importância no contexto nacional, possuindo, aproximadamente, 32% da população nacional, ou seja, 54.639.523 habitantes, concentrada, sobretudo, em grandes cidades. Sua área corresponde a 879.873 km2, o equivalente a 10% do território nacional, abrangendo sete unidades federativas brasileiras: o Distrito Federal, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, conforme pode ser visualizado na figura 2: 29 Figura 2: A região Hidrográfica do Paraná e suas seis unidades hidrográficas. Fonte: BRASIL, 2006c, p. 34 O Rio Paraná possui uma extensão de 2.570 km, tendo sua foz no rio da Prata; a vazão média da Bacia do Paraná é de 11.453 m3/s (6,38% do país) e a região apresenta os biomas Mata Atlântica e Cerrado, tendo como principais tributários os rios Paranaíba, Grande, Tietê, Paranapanema e Iguaçu (BRASIL, 2006 a, p. 67). No território do Estado do Paraná, a Bacia do Rio Paraná conta com três sub bacias, que são as do Rio Paranapanema, do Rio Paraná e do Rio Iguaçu. O Rio Paraná possui uma extensão de 2.570 km, tendo sua foz no rio da Prata, O Estado do Paraná, além de possuir áreas drenadas para a bacia do Paraná, também contribui com outras duas bacias hidrográficas nacionais, conforme apresentado na figura 3. As regiões hidrográficas brasileiras no território paranaense tem representação espacial bastante diferenciada. Em relação a isso, torna-se importante destacar: a) Região Hidrográfica do Atlântico Sul: possui a menor porção do território paranaense, 2,9%, e é depositária direta do Oceano Atlântico; b) Região Hidrográfica do Atlântico Sudeste: ocupa 4,7% do território paranaense e também é depositária direta do Oceano Atlântico; 30 c) Região Hidrográfica do Paraná: o Estado do Paraná tem 92,4% de sua área territorial inserida nessa região. Figura 3: Regiões hidrográficas brasileiras no território paranaense Fonte: PARANÁ, 2009 e Segundo Mack (1981, p.294), a Serra do Mar é o principal divisor de águas entre essas três regiões hidrográficas presentes no território paranaense, sendo esta responsável pela distribuição da água diretamente ao Oceano Atlântico ou à Bacia do Rio Paraná por meio de seus afluentes. No processo de elaboração do Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná (PLERH/PR), o território do estado do Paraná também foi dividido em 16 Bacias Hidrográficas, conforme figura 4. Dentre essas 16 Bacias Hidrográficas, chama-se atenção para a Bacia Paraná 3 (BP3), que é o foco desta pesquisa. 31 Figura 4: Bacias Hidrográficas do Estado do Paraná Fonte: PARANÁ, 2007 32 A Bacia Paraná 3 está localizada na mesorregião Oeste do Paraná e estende-se em áreas de 28 municípios: Altônia, Cascavel, Céu Azul, Diamante do Oeste, Entre Rios do Oeste, Foz do Iguaçu, Guaíra, Itaipulândia, Marechal Cândido Rondon, Maripá, Matelândia, Medianeira, Mercedes, Missal, Nova Santa Rosa, Ouro Verde do Oeste, Pato Bragado, Quatro Pontes, Ramilândia, Santa Helena, Santa Tereza do Oeste, Santa Terezinha de Itaipu, São José das Palmeiras, São Miguel do Iguaçu, São Pedro do Iguaçu, Terra Roxa, Toledo e Vera Cruz do Oeste (UNIOESTE, 2011, p.14), conforme figura 5. Segundo a Secretaria do Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado do Paraná (SEMA/PR) (PARANÁ, 2010d), a área de drenagem da Bacia Paraná 3 é de 8.389 km² e os limites são definidos pelos divisores de bacias do Rio Piquiri, a nordeste, e os divisores da bacia do Rio Iguaçu, a sudeste. Possui altitudes que variam de 300m a 800m ao nível do mar e não se constitui, na prática, em uma bacia hidrográfica única, pois vários rios desaguam diretamente no rio Paraná, no trecho alagado pelo reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. A BP3 é subdividida em 13 sub-bacias: Taturi, Chororó, Guaçu, São Francisco Verdadeiro, São Francisco Falso Braço Norte, São Francisco Falso Braço Sul, São Vicente, Ocoí, Pinto, Passo-Cuê, Gabiroba, Dois Irmãos e Matias Almada. Dentre os principais rios, destacam-se os rios São Francisco Verdadeiro, que nasce em Cascavel, o Guaçu, cujas nascentes se encontram em Toledo, e os rios São Francisco Falso e Ocoí, que nascem em Céu Azul e Matelândia, respectivamente. O clima predominante na BP3, segundo a classificação de Köppen, é do tipo Cfa, que corresponde a clima temperado chuvoso, sem a ocorrência de estação seca e moderadamente quente, com temperatura média, no verão, superior a 22ºC e média, no inverno, inferior a 18ºC (UNIOESTE, 2011, p. 16). A distribuição anual das chuvas varia com índices entre 1.500 a 1.900mm. 33 Figura 5: Municípios do estado paranaense pertencentes à Bacia Hidrográfica Paraná 3 Fonte: ITAIPU Binacional, 2010 34 A cobertura vegetal natural da região referente à BP3 é composta pela Floresta Estacional Semidecidual, que abrange o terceiro planalto paranaense, desde a região sudoeste, oeste e norte do Paraná, sendo que sua distribuição original abrangia 37,7% da cobertura do Estado. É considerada a floresta mais ameaçada do Paraná, restando apenas 3,4% de sua cobertura inicial, visto que o restante da área está destinada à produção agrícola. A principal característica apresentada por essa vegetação é a perda parcial de suas folhas em função dos períodos climáticos, permitindo que a floresta possa regular seu balanço hídrico, perdendo de 20 até 50% das folhas conforme as estações (UNIOESTE, 2011, p. 41). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), a população residente total dos municípios que formam a BP3 aumentou 106,52% no período de 1970 a 2000, sendo que o maior crescimento foi entre 1970 e 1980, na ordem de 54,10%, reflexo da construção de Itaipu. Entre 1980 e 1991 essa variação foi de 12,08%, enquanto que entre 1991 a 2000 houve um aumento de 19,57% na população total desses municípios. Nesse mesmo período houve uma inversão em relação à proporção da população rural e urbana na população total. Enquanto em 1970 havia 74,30% da população rural residindo nas áreas rurais, no ano de 2000 esse percentual era de 13,80%. Além disso, a população rural total diminuiu na ordem de 61,64% entre 1970 e 2000, enquanto a população urbana aumentou 592,54% no mesmo período, ou seja, o aumento da população total foi decorrente do crescimento das populações urbanas (UNIOESTE, 2011, p. 52). A maioria dos municípios apresentou aumento da população urbana no período de 1996 a 2007. Pato Bragado, Entre Rios do Oeste, São Pedro do Iguaçu, São José das Palmeiras, Quatro Pontes, Nova Santa Rosa, Maripá, Itaipulândia e Missal foram os municípios que fizeram a transição populacional do rural para o urbano nesse período. No ano de 2007, os municípios com maiores taxas de população urbana foram Foz do Iguaçu, Cascavel e Toledo, com 99,30%, 94,20% e 89,76%, respectivamente. Esses municípios se consolidaram como os de maior taxa de população na área urbana, refletindo suas posições de maiores centros populacionais e econômicos. Por outro lado, existem três municípios em que a maior parte da população reside no meio 35 rural, ou seja, o grau de população urbana é inferior a 50%, sendo eles: Diamante do Oeste, Santa Helena e Mercedes (UNIOESTE, 2011, p. 58). Na Tabela 1 é possível identificar alguns dados socioeconômicos dos municípios da Bacia Paraná 3. Tabela 1: Dados socioeconômicos dos municípios da Bacia Paraná 3 – Estado do Paraná Município População Municipal 2010 Área do município Km2 PIB per capita 2008 (em reais) IDH municipal 2000 Ranking no estado do PR – IDH 2000 Altônia 20.516 662 6.156,56 0,743 189º Cascavel 286.172 2.101 15.214,21 0,810 15 º Céu Azul 11.032 1.179 24.622,85 0,780 65 º Diamante do Oeste 5.027 309 9.578,07 0,709 307 º Entre Rios do Oeste 3.922 122 16.860,19 0,847 4 º Foz do Iguaçu 256.081 618 18.831,07 0,788 42 º Guaíra 30.669 560 12.116,61 0,777 69 º Itaipulândia 9.027 331 12.715,80 0,760 129 º Marechal Cândido Rondon 46.799 748 19.172,48 0,829 8 º Maripá 5.691 284 25.452,53 0,841 6 º Matelândia 16.077 640 13.231,84 0,760 127 º Medianeira 41.830 329 14.469,76 0,779 67 º Mercedes 5.046 201 17.291,92 0,816 13 º Missal 10.474 324 12.896,66 0,790 39 º Nova Santa Rosa 7.625 205 16.542,49 0,806 17 º Ouro Verde do Oeste 5.690 293 14.148,42 0,764 106 º Pato Bragado 4.823 135 11.773,20 0,821 11 º Quatro Pontes 3.804 114 19.710,47 0,851 2 º Ramilândia 4.134 237 10.268,22 0,697 348 º Santa Helena 23.425 758 13.106,14 0,799 25 º Santa Tereza do Oeste 10.342 326 12.697,03 0,735 222 º Santa Terezinha de Itaipu 20.834 259 10.994,91 0,778 68 º São José das Palmeiras 3.831 182 8.906,00 0,724 259 º São Miguel do Iguaçu 25.755 851 14.712,53 0,779 66 º São Pedro do Iguaçu 6.492 308 14.281,90 0,732 233 º Terra Roxa 16.763 801 16.365,18 0,764 105 º Toledo 119.353 1.197 18.694,32 0,827 9 º Vera Cruz do Oeste 8.973 327 11.621,11 0,737 214 º Fontes: 1) IBGE, 2010 2) IPARDES, 2000 36 A população dos municípios da região, segundo o IBGE (2010), é de 1.010.207 habitantes, e é composta principalmente por descendentes de italianos, alemães e poloneses. A região também abriga três áreas indígenas: o Aldeamento Avá-Guarani, no município de São Miguel do Iguaçu, e os Aldeamentos Tekohá Anetete e Itamarã, no município de São José das Palmeiras. Em relação à qualidade de vida, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH6) da região situa-se entre 0,709 a 0,851. Pelos dados do ano de 2000, apresentados na Tabela 1, pode-se perceber que nove municípios passaram a apresentar um IDH considerado alto: Cascavel, Entre Rios do Oeste, Marechal Cândido Rondon, Maripá, Mercedes, Nova Santa Rosa, Pato Bragado, Quatro Pontes e Toledo. Esses índices, como forma de entendimento, podem ser comparados com o IDH do Estado do Paraná, que em 2000 era de 0,787, ocupando a sexta posição no ranking nacional. Em relação ao estado do Paraná, destaca-se que dos 28 municípios paranaenses pertencentes a BP3, nove estão entre as 20 melhores posições do Estado, sendo eles: 2º lugar: Quatro Pontes; 4º lugar: Entre Rios do Oeste; 6º lugar: Maripá; 8º lugar: Marechal Cândido Rondon; 9º lugar: Toledo; 11º lugar: Pato Bragado, 13º lugar: Mercedes; 15º lugar: Cascavel; e 17º lugar: Nova Santa Rosa. Cabe destacar que a capital do Estado do Paraná, a cidade de Curitiba, apresentava em 2000 o IDH de 0,856, ficando em 1º lugar no IDH Estadual. A região é intensamente explorada por agricultura intensiva mecanizada, mas com diferentes níveis de ocupação, em função de condições de relevo e características locais, e possui uma agroindústria dinâmica e em expansão, mas centralizada em alguns municípios polos. Dessa forma, seu crescimento tem sido heterogêneo, com municípios em fase de expansão populacional e municípios com crescimento populacional mínimo, ou mesmo crescimento negativo. 6 O Índice de Desenvolvimento Humano foi criado originalmente para medir o nível de desenvolvimento humano dos países a partir de indicadores de educação (alfabetização e taxa de matrícula), longevidade (esperança de vida ao nascer) e renda (PIB per capita). O índice varia de 0 (nenhum desenvolvimento humano) a 1 (desenvolvimento humano total). Países com IDH até 0,499 têm desenvolvimento humano considerado baixo; os países com índices entre 0,500 e 0,799 são considerados de médio desenvolvimento humano; países com IDH maior que 0,800 têm desenvolvimento humano considerado alto (ONU,2011). 37 Na área de abrangência da Bacia Paraná 3, a estrutura fundiária se caracteriza pela mescla de pequenas, médias e grandes propriedades. As atividades econômicas, segundo a SEMA/PR (PARANÁ, 2007), são: serviços, 54,3%; indústria, 24,5%; e agropecuária, 21,2%. Em relação aos serviços, a região registra grande movimento turístico, que colabora com a economia regional, ou no caso do município de Foz do Iguaçu, onde o turismo é o alicerce da economia local. Essa movimentação de pessoas deve-se à presença do Parque Nacional do Iguaçu, com as Cataratas do Iguaçu, bem como pela Tríplice Fronteira e pela presença de praias artificiais em vários municípios, resultantes da formação do Lago de Itaipu.7 Na agricultura, os principais produtos são soja, trigo, milho e mandioca, e na pecuária, as principais atividades são suinocultura, avicultura, gado leiteiro e de corte, e piscicultura. Também a agroindustrialização se destaca, com presença de frigoríficos, laticínios, indústria de óleos vegetais e fecularias. A região é responsável pela produção de 21% da suinocultura, 16% da avicultura, 18,3% da bovinocultura de corte e 15% piscicultura de água doce dentro do território do Estado do Paraná. Apesar de toda esse destaque na área de produção agrícola local, em 1985 já se começava a abordar a necessidade de repensar o modelo produtivo local. Percebe-se um grande interesse da região em trabalhar com as questões ambientais, conforme observado por Neves Neto: No Estado do Paraná, no município de Toledo, em 1985, realizou-se o primeiro Congresso de Microbacias do país, organizado pelas associações de agrônomos. Nesse evento, a agricultura “produtivista” sem levar em consideração o manejo correto do meio ambiente foi criticada e uma “nova agricultura”, mais preocupada com os aspectos ambientais, foi proposta. (NEVES NETO, 2009, p.64). Com essas e outras questões sendo dialogadas na região, a Bacia Paraná 3 também se agregou ao movimento de elaboração do Plano Local de Recursos Hídricos, bem como ao desenvolvimento de programas, projetos e ações de Educação Ambiental, que tem um dos focos de atuação a Gestão de Bacias Hidrográficas. 7 No ano de 2009, o município de Foz do Iguaçu recebeu um total de 2.019.069 turistas (Paraná Turismo, 2010) e oferecia, em 2010, o total de 21.780 leitos para atendimento ao turista. 38 2 GESTÃO DE BACIAS HIDROGRÁFICAS 2.1 Fatos importantes sobre a questão da água A Década Mundial e Brasileira da Água foi iniciada em 2005, tendo como propósito chamar a atenção para a elevada importância do tema água em nossa sociedade e para todas as formas de vida. Vários autores, bem como órgãos públicos, abordam essa importância de forma enfática e clara, tais como: O Planeta Terra abriga um complexo sistema de organismos vivos no qual a água é elemento fundamental e insubstituível. Sem água não existe vida! Ela é responsável pelo equilíbrio da “comunidade vida”, da qual nós, seres humanos, fazemos parte. A água é também insumo indispensável à produção e recurso estratégico para o desenvolvimento econômico. Todas as atividades humanas dependem da água. Navegação, turismo, indústria, agricultura e geração de energia elétrica são alguns exemplos de seu uso econômico. O acesso à água é um direito humano fundamental. Toda pessoa deve ter água potável em quantidade suficiente, com custo acessível e fisicamente disponível, para usos pessoais e domésticos, conforme previsto na legislação brasileira e na Agenda 21. Cuidar da água é uma questão de sobrevivência; depende da decisão e da ação de cada pessoa, comunidade e da sociedade em geral. Somente com sensibilidade, criatividade, determinação e participação será possível construir as respostas técnicas, científicas, ecológicas, sociais, políticas e econômicas para a gestão da água na perspectiva do desenvolvimento sustentável, com inclusão social e justiça ambiental. (BRASIL, 2006a, p.11) ...podem-se considerar três aspectos distintos da importância da água: 1- como elemento ou componente físico do ambiente; 2- como meio para o desenvolvimento da vida (ambiente aquático) e, 3- como fator indispensável para a vida em geral. (BRANCO, 1993, p.40) A falta e/ou escassez da água junto com os problemas originados pelos riscos decorrentes da sua poluição constituem a “crise da água”, flagelo reconhecido hoje pelos governos do mundo. Atualmente faz-se necessário o estudo integrado de áreas diferentes do conhecimento para buscar e encontrar soluções compatíveis com a demanda crescente por água. Neste sentido, preservação, conservação e recuperação do ecossistema dos mananciais devem ser prioritárias para a manutenção da boa qualidade das águas com a finalidade de garantir a sobrevivência humana e honrar nossas responsabilidades com as diversas formas de vida. (BUSTOS, 2003, p.2) A informação de que atualmente os recursos hídricos são agredidos constantemente e, cada vez com maior intensidade, tem levado a água a ser apresentada com significativa importância em discussões em fóruns sobre desenvolvimento sustentável, demonstrando uma real e crescente preocupação com sua disponibilidade e qualidade. (LIMA, 2003, p.3) 39 Dentro dessa perspectiva, percebe-se um movimento internacional e nacional para se pensar e agir para a conservação e recuperação dos recursos hídricos. Várias iniciativas referentes aos recursos naturais, entre eles os recursos hídricos, já foram feitas anteriormente à criação da Década Mundial e Brasileira da Água. De acordo com Pereira (2008, p.54), as primeiras discussões internacionais que enfocaram a necessidade global de um plano de ação para um novo modelo de gestão da água aconteceram na Conferência das Nações Unidas sobre Água, em Mar Del Plata, em 1977, sendo que essa preocupação com os recursos hídricos esteve, inicialmente, limitada a técnicos e às universidades. Apesar da consolidação da democracia e os avanços sociais e políticos, sobretudo na elaboração de leis ambientais, o processo de discussão e participação da sociedade na gestão dos recursos naturais se limitou a um grupo restrito e foi praticamente ignorado pela maioria da população. A deterioração dos rios e mananciais de abastecimento e o agravamento de conflitos entre os diversos setores de usuários das águas em inúmeras regiões forçaram o início de diálogos sobre a situação e o futuro das águas. A sociedade passou a questionar a forma como os governos gerenciavam os recursos naturais e a exigir mecanismos de participação e controle mais eficazes. Técnicos, homens públicos, cientistas, universidades e instituições representativas passaram, então, a cobrar a implementação de políticas públicas de gerenciamento integrado dos recursos hídricos. A partir da Constituição de 1988, foram criadas condições iniciais para se pensar e propor um novo modelo de gestão de recursos hídricos no Brasil, baseado num modelo integrado e participativo, que além de examinar o crescimento econômico, também passaria a verificar a equidade social e o equilíbrio ambiental, sendo que a integração desses objetivos deveria se dar na forma de negociação social, no âmbito da unidade de planejamento da bacia hidrográfica. Pela Constituição, passa a estabelecer-se que a água é um bem de domínio público, finito e com valor econômico, e responsabiliza-se as esferas públicas por estabelecer regras dentro de suas competências, para que garantam os múltiplos usos da água. A Carta Magna também define algumas competências entre as instâncias do Governo, Estados e os próprios municípios em relação à água, pelas quais tanto os Estados quanto a União 40 receberam autonomia para a criação de uma política pública que regule os usos dos recursos hídricos de sua propriedade (BUSTOS, 2003, p.57). Também é abordado o aproveitamento e a poluição das águas subterrâneas, e que ninguém pode causar atos lesivos para com a água, sendo que os infratores poderão responder pelas perdas e danos que causarem com o pagamento de multas. Outro momento a destacar na elaboração da gestão dos recursos hídricos do país é a II Conferência Internacional das Nações Unidas, ocorrida em janeiro de 1992, em Dublin, na Irlanda, que tinha como tema: “A água e o meio ambiente”. A Conferência de Dublin teve a participação de vários especialistas e a representação de diversas entidades internacionais e de organizações não governamentais, tendo sido a principal constatação dos especialistas a situação crítica mundial dos recursos hídricos. Segundo especialistas participantes desse evento, as águas doces são um recurso finito e vulnerável e a situação de escassez8 e desperdício de água potável representava uma séria e crescente ameaça para o desenvolvimento sustentável e a proteção do meio ambiente, sendo que a saúde pública, o bem- estar, a produção de alimentos, o desenvolvimento industrial e os ecossistemas dos quais eles dependem estavam todos em risco, caso os recursos hídricos e o aproveitamento do solo não tivessem um gerenciamento mais eficiente. Também foi constatado que a situação dos recursos hídricos em diversos países já interferia diretamente no consumo humano, e que as participações dos governos e da sociedade são fundamentais para avaliar, gerenciar e desenvolver políticas próprias para os recursos hídricos. Os participantes da Conferência de Dublin produziram recomendações e um programa de ação sob o título de “A Água e o Desenvolvimento Sustentável”. A Conferência de Dublin foi um marco na história ambiental e nesse encontro se explicitou muito claramente a relação entre a água e a diminuição da pobreza e das doenças, a proteção e as medidas de proteção contra os 8 Apesar do uso do termo escassez nos documentos da Conferência de Dublin, na atualidade o termo adequado poderia ser redução da disponibilidade de água. Isso porque sabe-se que a quantidade de água presente no Planeta Terra é sempre a mesma, porém pode ser disponibilizada em muitas regiões em quantidade inferior à necessidade de utilização, Outro ponto a ser destacado é que esse elemento sofre sensivelmente com as ações do ser humano, que modificam a qualidade e a quantidade desse recurso no tempo e no espaço (Christofodis, 2002, 13). Em relação à isso e focando a área de pesquisa é importante lembrar a presença do Aquífero Guarani em todo o subsolo da Bacia Paraná 3. 41 desastres naturais, a conservação e o reaproveitamento da água, o desenvolvimento urbano sustentável, a produção agrícola e o fornecimento de água potável ao meio rural, a proteção dos sistemas aquáticos e as questões transfronteiriças, e se reconheceu a existência de conflitos geopolíticos derivados da posse das bacias hidrográficas. Também se destaca a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), mais conhecida como Rio’92 ou Eco’92, realizada no Rio de Janeiro em junho de 1992, onde um dos principais resultados foi a decisão da construção das Agendas 21. Dentre os diversos assuntos tratados nos 40 capítulos da Agenda 21 Global (BRASIL, 2010b) destacam-se as seguintes preocupações com a água: a) capítulo 12: manejo de ecossistemas frágeis e a luta contra a desertificação e a seca; b) capítulo 17: proteção dos oceanos, de todos os tipos de mares, inclusive mares fechados e semi-fechados, e das zonas costeiras, proteção, uso racional e desenvolvimento de seus recursos vivos; c) capítulo 18: proteção da qualidade e do abastecimento dos recursos hídricos, aplicação de critérios integrados no desenvolvimento, manejo e uso dos recursos hídricos; d) capítulo 21: manejo ambientalmente saudável dos resíduos sólidos e questões relacionadas ao esgoto. Outro documento iniciado na Rio’ 92 foi a redação da Carta da Terra9, na qual a preocupação com a água aparece em vários princípios, tais como: a) Princípio II, que trata da Integridade Ecológica, aparecem dois subitens que tratam dessa questão: b) estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e águas marinhas para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural; e) Manejar o uso de recursos renováveis como a água, o solo, os produtos florestais e a vida 9 A Carta da Terra é o resultado de um processo conversacional intercultural de mais de uma década realizado a nível mundial com o objetivo de “estabelecer uma base ética sólida para a sociedade emergente e ajudar na construção de um modo sustentável baseado no respeito à natureza, aos direitos humanos universais, à justiça econômica e a uma cultura de paz” (ITAIPU, 2004, p.24). A versão final da Carta da Terra foi aprovada no escritório da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em Paris, em março de 2000. 42 marinha com maneiras que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas; b) Princípio III, que trata da justiça social e econômica, no subitem II) garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos naturais nacionais e internacionais requeridos. Também nas Metas do Milênio10 a questão da água é abordada enfaticamente em dois deles. No objetivo 4, que aborda a redução da mortalidade infantil, trata-se da questão da transmissão de doenças pela veiculação hídrica e falta de saneamento e no objetivo 7, que visa garantir a sustentabilidade ambiental, aborda-se o grande número de pessoas sem acesso à água potável. Como se pode observar, a questão dos recursos hídricos vem ganhando destaque a cada dia na sociedade e vem se consolidando como um tema de constante diálogo e de elaborações de políticas públicas para atender às necessidades de oferta em quantidade e qualidade que garantam a manutenção da vida. 2.2 Bacia hidrográfica como unidade de planejamento Na literatura cientifica o termo bacia hidrográfica tem recebido diferentes definições. Para a Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), uma bacia hidrográfica é “a área total de drenagem que alimenta uma rede hidrográfica, espaço geográfico de sustentação dos fluxos d’água de um sistema fluvial hierarquizado” (ACIESP, 1997, s.p.). Segundo o IBGE, bacia hidrográfica é a “região compreendida entre divisores de água, na qual toda a água aí precipitada escoa por um único exutório” (BRASIL, 2004, p. 41). Para a Global Water Partnership (GWP), “uma bacia hidrográfica ou lacustre é a área delimitada pelos divisores de água de um sistema de arroios e rios que convergem para a mesma desembocadura” (GWP, 2009, p. 9). Como é possível identificar, todas as definições chamam atenção para a 10 O Programa Metas do Milênio – 2005 a 2015 é um plano de ação concreta para que o mundo reverta o quadro de pobreza, fome e doenças opressivas que afetam bilhões de pessoas, sendo que as principais preocupações foram agrupadas em 8 grande objetivos 43 área espacial que delimita uma bacia hidrográfica, sendo que Christofodis (2002, p.20) salienta que é no espaço da bacia hidrográfica que devem ser compatibilizados os diversos usos para esse recurso, e destaca as atividades econômicas, o consumo humano e a proteção aos ecossistemas. É importante, também, uma afirmação de Lanna (1995, p.61), para entender a diferenciação entre Gestão de Bacias Hidrográficas e Gestão de Recursos Hídricos. “o gerenciamento de bacia deve ser considerado como resultado da adoção da bacia hidrográfica como unidade de planejamento e intervenção da gestão ambiental, sistêmica e globalizada. O gerenciamento de recursos hídricos busca a harmonização das demandas e ofertas da água em uma bacia”...”ou seja, o gerenciamento de recursos hídricos é o gerenciamento de um único recurso ambiental – a água, quando realizado no âmbito da bacia hidrográfica” (LANNA,1995, p. 61). Nesse sentido, observa-se que a gestão de recursos hídricos amparada no processo de gestão de bacias hidrográficas busca trabalhar, de forma integrada, com todos os elementos locais que interferem nesse local e na qualidade da água. Portanto, tanto no Brasil como em outros países do mundo, a apropriação das bacias hidrográficas como espaço de atuação para a conservação dos recursos hídricos encontra justificativa conceitual e prática para sua execução, conforme destacada por alguns autores que seguem: A bacia hidrográfica de um determinado rio pode ser compreendida como o lugar na superfície terrestre que coleta toda a água da chuva que escoa para esse rio. A bacia hidrográfica é mundialmente recomendada como a unidade territorial mais adequada à temática dos recursos hídricos. (GUANABARA, 2008, p.3) ....unidade física ideal para o manejo e gestão ambiental, principalmente para a educação ambiental quando se pretende trabalhar o assunto de modo interdisciplinar e compreensivo, envolvendo desde os domínios da escola (professores, alunos, direção e funcionários) até a comunidade do bairro de uma determinada localidade. (GUANABARA, 2008, p.2) ...se tem reconhecido que a bacia é uma unidade prática para a gestão de recursos hídricos (GWP, 2009, p. 9). O enfoque integrado de gestão de Bacias Hidrográficas ajuda a administrar e desenvolver os recursos hídricos de forma sustentável e equilibrada, considerando os interesses sociais, econômicos e ambientais. Reconhece os diferentes grupos de interesse que competem entre si, os setores que usam e abusam da água e as necessidades do meio ambiente. (GWP, 2009, p. 10) Segundo Lanna (1995, p.62), a World Commission on Environment and Development (WCDE) destaca que gerenciamento de Bacia Hidrográfica é o 44 processo de negociação social, sustentado por conhecimentos científicos e tecnológicos, que visa a compatibilização das demandas e das oportunidades de desenvolvimento da sociedade com o potencial existente e futuro do meio ambiente, na unidade espacial de intervenção da bacia hidrográfica, a longo prazo. A partir da escolha de uma unidade territorial, a gestão da água passa a ser incorporada em um processo mais amplo de gestão ambiental integrada, compreendida como a gestão de abordagem ecossistêmica, na qual o desafio é realizar a transição demográfica, econômica, social e ambiental rumo a um equilíbrio durável (MAGALHÃES JR, 2007, p.66). Para sintetizar o que se pensa sobre a Gestão de Bacias Hidrográficas, e compartilhando da ideia expressa pela GWP (2009, p.18), é um processo que promove o desenvolvimento e a gestão coordenada da água, terra e recursos associados, para maximizar o resultado de bem estar econômico e social de maneira equitativa sem comprometer a sustentabilidade de ecossistemas vitais. (GWP, 2009, 18) A gestão adequada e eficiente dos recursos hídricos compõe uma importante missão, pois estes são patrimônios públicos de insubstituível valor estratégico para o desenvolvimento social e econômico (COIMBRA, 1999, s.p). A água deve ser reservada em quantidade adequada para a manutenção saudável dos ecossistemas, o que no planejamento e gerenciamento tradicionais é considerado satisfatório. A legislação procura, cada vez mais, proteger as águas, estabelecendo padrões de vazão e qualidade, bem como alocar ao ambiente natural parte da água que antes era destinada a grandes projetos usuários (BRASIL, 2002b). Dentro dessa inadiável necessidade, segundo Borsoi e Torres (2011, p.5), na Alemanha dos inícios do século XX, num momento de crescimento industrial e populacional, adotou-se a área da bacia hidrográfica do rio Ruhr e, de imediato, propôs-se a desenvolver o conceito de associações cooperativas de água que emergiram na tentativa de gerenciar os recursos hídricos. Com o passar do tempo, foi promulgada a lei que criou as associações de usuários para gerenciar os aspectos de qualidade e quantidade de água. A partir do conceito alemão de bacia hidrográfica e associações para gerenciamento das águas, em 1964, a França criou novas formas institucionais 45 de gestão através dos Comitês de Bacias e Agências, tendo sido considerados modelos de gestão em virtude da sua praticidade e dos resultados alcançados. Nesse sentido, os comitês de bacia hidrográfica franceses foram criados para estabelecer o planejamento e a gestão dos recursos hídricos, com fundamento na integração das ações setoriais dos órgãos governamentais e privados, e da sociedade civil. Esses comitês, em constante evolução, conformam-se por parlamentos que discutem e encaminham as vontades locais e regionais, permitindo priorizar as necessidades do gerenciamento hídrico do Estado. Portanto, a participação da população é representada por segmentos distintos da sociedade civil organizada com essa finalidade integradora. De acordo com Bustos, o modelo francês influenciou bastante a criação do sistema brasileiro de recursos hídricos permitindo ao poder público e à sociedade brasileira, a conscientização dos direitos e deveres inerentes à utilização da água, como instrumento do desenvolvimento sustentável, econômico e socioambiental, destinados a efetivar a proteção nas bacias hidrográficas. (BUSTOS, 2003, p.2) Baseado nesses eixos fundamentais há a necessidade de um modelo de gestão, e que esse deve envolver um conjunto de organismos e instalações estabelecidos para executar a política da água. Cabe destacar que a definição de políticas e sistemas de gerenciamento da água não significa, obrigatoriamente, a obtenção de um modelo de gestão ideal. “Entre os dois extremos de priorização da satisfação das necessidades humanas ou de priorização da preservação dos meios naturais, o equilíbrio não é algo evidente” (MAGALHÃES JR, 2007, p. 69). Segundo Magalhães Jr (2007, p.69), as políticas, as leis e práticas que regulam o uso da água raramente promovem os três aspectos básicos do uso sustentável dos recursos hídricos: eficiência, equidade e integridade ecológica. Para se atingir esses objetivos, geralmente, precisa-se a revisão, a definição e a implementação de reformas legais, institucionais e administrativas, e isso implica em mudanças nas relações e responsabilidades que envolvem o Estado, a sociedade e o usuário do recurso. Para Christofodis (2002, p. 17), a responsabilidade da gestão de recursos hídricos, esteve, no passado, mais concentrada no poder público, mas atualmente essa tarefa cabe tanto às entidades públicas como a todos os 46 componentes sociais, os usuários, às entidades a eles ligadas, organizadas ou não. Essa visão é compartilhada com Lanna (1995, p.75), que classifica a atuação do poder público e da comunidade em três modelos – o modelo burocrático, o modelo econômico-financeiro e o modelo sistêmico, cujos pressupostos básicos são: a) Modelo burocrático: implantado mundialmente no final do século XIX, sendo que no Brasil seu marco referencial foi estabelecido com a aprovação do Código das Águas, no início da década de 1930. É um modelo centralizado no Estado, que usa instrumentos de controle e comando, com racionalidade e hierarquização. O objetivo predominante do administrador público consiste em cumprir e fazer cumprir os dispositivos legais, e para isso foram geradas grande quantidade de leis, decretos, portarias, regulamentos e normas sobre uso e proteção do ambiente. Observa-se que a visão do processo de gestão era fragmentada, o desempenho estava restrito ao cumprimento das normas, havia dificuldade de adaptação a mudanças, centralização do poder decisório nos altos escalões do governo, e pouca importância era dada ao ambiente externo ao sistema de gestão. Acreditava-se que pelo simples fato de existirem leis regulamentadoras, os problemas de gestão estavam resolvidos. Diante disso, a autoridade pública tornou-se ineficiente e politicamente frágil ante os grupos interessados no uso dos recursos hídricos. b) Modelo econômico-financeiro: esse modelo teve início no Brasil com a criação da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF), em 1948. Sua implementação começou a partir da experiência de gestão observada em outros países do mundo, com a priorização de setores específicos do governo, como saneamento, irrigação, eletrificação, etc. Era um modelo que perdia a visão do todo ao olhar especificamente para as partes. Caracterizou-se pela predominância do emprego das negociações político-representativas e econômicas, através de instrumentos econômicos e financeiros aplicados pelo poder público para promoção do desenvolvimento econômico nacional ou regional e indução à obediência das disposições 47 legais vigentes. Com a aplicação desse modelo começou a perceber-se que a visão fragmentada não seria suficiente para resolver os problemas de forma definitiva, pois sempre que se resolviam problemas de um setor, criavam-se novos problemas para outros setores, pois este não apresentava a flexibilidade que um Sistema Ambiental precisa, sendo que na prática aparecem sistemas relativamente fechados com a apropriação, em especial de recursos financeiros, por parte de setores que possuem uma negociação político-representativa mais atuante. Também pode incorrer no subdimensionamento ou superdimensionamento das questões ambientais na gestão da bacia hidrográfica, ocasionando a clássica separação entre ambientalistas e desenvolvimentistas. c) Modelo sistêmico de integração participativa: no Brasil se dá a partir da promulgação da Constituição de 1988, quando são criadas as condições iniciais para se inaugurar a terceira etapa de gestão de recursos hídricos no Brasil. Lanna (1995, p.79) considera o modelo sistêmico o mais moderno, pois busca integrar sistematicamente os quatro tipos de negociação social: econômica, política direta, político-representativa e jurídica, e se caracteriza pela criação de uma matriz institucional de gerenciamento, responsável pela execução de funções gerenciais específicas e pela adoção de instrumentos para a integração participativa: I) planejamento estratégico por bacia hidrográfica;: II) tomada de decisão através de deliberações multilaterais e descentralizadas; III) estabelecimento de instrumentos legais e financeiros. O que se espera com o modelo sistêmico de integração participativa é a criação de vontades políticas regionais e não somente no âmbito federal, a negociação entre os diversos agentes públicos, usuários e sociedade civil organizada, e a arrecadação de recursos. No bojo desse modelo sistêmico é criada a Política Nacional de Recursos Hídricos pela Lei 9.433/97 (BRASIL, 1997), que também cria o Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) e o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH). 48 2.3 A política de recursos hídricos no Brasil A primeira lei a tratar de recursos hídricos no Brasil, o Código de Águas, foi promulgada em 1934, com o objetivo de harmonizar o uso das águas para fins de geração de energia elétrica, agricultura e demais usos. Nesse documento já se explicitavam alguns princípios orientadores da atual política de recursos hídricos que, segundo Sousa Jr (2004), são: a) Uso indireto para as necessidades essenciais à vida; b) A necessidade de concessão e/ou autorização para derivação de águas públicas; c) O conceito poluidor-pagador, que previa a responsabilização financeira e penal para atividades que contaminassem os mananciais hídricos. (SOUSA, 2004, p. 47) Bustos (2003, p.60) destaca que o Código de Águas já desvinculou a propriedade da água da propriedade do solo e, com isso, definiu as águas nacionais como recurso natural, quase exclusivo, de domínio público. A intensificação do desenvolvimento industrial iniciado a partir da segunda metade do século XIX propiciou uma demanda crescente de água nas atividades produtivas como a indústria, a mineração e a agricultura irrigável, e ao mesmo tempo, ocasionando, ao mesmo tempo, o aumento da demanda por água nas cidades para acompanhar o crescimento econômico. A hidroeletricidade apareceu como consequência do avanço tecnológico e da crescente demanda por energia, originando um novo grande usuário de água (PIRES, 2001, p.79). Para Sousa (2004, p.48), as necessidades de intervenção estatal na regulação e uso das águas para fins de geração hidrelétrica, que demandou grandes obras e investimentos, foram os principais entraves para regulamentação do Código das Águas. Isso porque o setor de geração hidrelétrica passou a ser o principal regulador do uso dos recursos hídricos. Essa estreita ligação entre água e energia levou então à criação, em 1965, do Departamento Nacional de Águas e Energia (DNAE), que em 1969 passou a ser denominado de Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica (DNAEE), numa clara alusão a essa estreita ligação entre os dois setores11. 11 A hegemonia do setor elétrico como “gerenciador” dos recursos hídricos mudou com a Constituição de 1988, pois ela trouxe uma série de mudanças significativas para a administração de recursos hídricos. A Constituição Federal de 1988 introduziu a visão da água como bem de domínio. Segundo Sousa, a base do sistema de gerenciamento de recursos hídricos proposta na Constituição de 1988 foi discutida e formulada com base em encontros da 49 Segundo BRASIL (2006b, p.54), a primeira experiência de superação do tradicional enfoque setorial ocorre em 1978, tendo como foco as bacias hidrográficas como unidade de gestão. Nesse ano, os Ministérios de Minas e Energia e do Interior criaram o Comitê Executivo de Estudos Integrados de Bacias Hidrográficas (CEEIBH), que estimulou a criação de mais de dez comitês de rios federais. É importante ressaltar que esses comitês tinham participação exclusiva de técnicos do Estado, praticamente sem inserção de Municípios e da sociedade civil organizada. Cabia a esses Comitês a classificação dos cursos de água da União, o estudo integrado e o acompanhamento da utilização racional dos recursos hídricos das bacias hidrográficas dos rios federais, o aproveitamento múltiplo dos cursos de água e a mitigação de consequências nocivas à ecologia da região. Apesar da originalidade para o período, houve uma série de dificuldades, entre elas a falta de embasamento legal e de recursos financeiros, que levaram à paralisação dos Comitês, com exceção do Comitê do rio São Francisco, que permaneceu em funcionamento. Na década de 1980 foi criada a Política Nacional de Meio Ambiente, pela Lei Federal nº 6.938/81 (BRASIL, 1981 b), que definiu os princípios, objetivos e instrumentos de controle do meio ambiente, como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). Também estabeleceu-se a constituição do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), composta por órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, bem como as fundações instituídas pelo Poder Público, responsáveis pela proteção e melhoria da qualidade ambiental. Outro ponto importante dessa lei foi a criação do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), que possui funções normativas e suas resoluções têm força legal para instituir normas técnicas e administrativas, cumprindo a lei que o criou12. Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), uma entidade técnica que envolve profissionais de diversas áreas, principalmente engenheiros de formação hidráulica à época, o que diferencia-se das demais legislações por terem um quadro mais ampliado de participação 12 Na área de recursos hídricos cabe destacar a Resolução nº 05/88 (CONAMA, 1988) que determinou o licenciamento ambiental para obras de saneamento básico, atividade de abastecimento de água, sistema de esgoto sanitário, sistema de drenagem e de limpeza urbana e a Resolução nº 20/86 (CONAMA, 1986) que definiu a regulamentação de padrões e classificações de qualidade da água. 50 Na década de 1990 houve várias mudanças na Política Nacional de Meio Ambiente, em especial no que se refere à gestão de recursos hídricos. Em novembro de 1992 foi criado o Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal (MMA), que em 1995 passou a ser denominado Ministério do Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Amazônia Legal, tendo como missão promover a adoção de princípios e estratégias para o conhecimento, a proteção e a recuperação do meio ambiente, bem como pelo uso sustentável dos recursos naturais. Foi criada, na estrutura do MMA, a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH/MMA), com a incumbência de gerenciar os recursos hídricos e coordenar o Plano Nacional de Recursos Hídricos (MAGRINI, 2001, p. 105). Com a Lei nº 9.433/97, que estabeleceu a Política Nacional de Recursos Hídricos, essas modificações institucionais e legais se consolidaram13. A Política Nacional de Recursos Hídricos baseia-se nos seguintes fundamentos (BRASIL, 1997): a) a água é um bem de domínio público; b) a água é um recurso natural limitado, dotado de valor econômico; c) em situações de escassez, o uso prioritário dos recursos hídricos é o consumo humano e a dessedentação de animais; d) a gestão dos recursos hídricos deve sempre proporcionar o uso múltiplo das águas; e) a bacia hidrográfica é a unidade territorial para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos e atuação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos; f) a gestão dos recursos hídricos deve ser descentralizada e contar com a participação do Poder Público, dos usuários e das comunidades. Os fundamentos da Política Nacional de Recursos Hídricos retomam a ideia já abordada pelo Código das Águas de que a água é um bem público e a prioridade de seu uso é para o consumo humano. Entretanto, traz novas referências para o planejamento dos recursos hídricos, sendo que um deles é a 13 Segundo Magrini (2001) até a promulgação da lei, a gestão ambiental no país calcava-se numa estrutura institucional e legal que priorizava a atuação centralizada dos órgãos de governo, em particular federais e estaduais, e a aplicação de convencionais instrumentos normativos de comando e controle. 51 percepção de que a água é elemento natural limitado14, dotado de valor econômico. Nesse sentido, a Lei introduziu o instrumento de Cobrança pelo uso da água para definir essas questões, rompendo com a tradicional abordagem baseada em instrumentos de controle e comando, como multas. Também trouxe a delimitação da bacia hidrográfica como unidade territorial para implementação do PNRH, rompendo com o conceito de gestão vigente calcada na divisão político-administrativa do território, pois até então a política ambiental era definida e implementada seguindo as divisões administrativo-territorial como unidade de planejamento. Para Lanna (1995, p.63), a unidade de intervenção bacia hidrográfica apresenta algumas vantagens e desvantagens. A vantagem é que a rede de drenagem de uma bacia consiste num dos caminhos preferenciais de boa parte das relações causa-efeito, particularmente aquelas que envolvem o meio hídrico. Em relação às desvantagens, Lanna salienta que nem sempre os limites municipais e estaduais coincidem com os limites de bacia e isso interfere em algumas relações de caráter econômico e político. Outra desvantagem é a questão do tamanho da bacia hidrográfica que pode gerar uma unidade demasiadamente grande para a negociação social, necessitando serem criadas subdivisões. No caso da BP3, em relação ao apresentado por Lanna, é possível observar que várias atividades sofrem influência da rede de drenagem ou interferem na organização e na qualidade ambiental, como, por exemplo, a agricultura, a pecuária, a questão dos resíduos dos municípios, a distribuição das áreas urbanas. Em relação às desvantagens que Lanna apresenta em relação ao tamanho da Bacia Hidrográfica, essa dificuldade se faz notar no Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Paraná, onde, pelas dimensões territoriais das 16 bacias paranaenses, foi necessário redefinir os espaços criando as Áreas Estratégicas de Gestão. Para que a questão política dos municípios não vire um empecilho para a atuação conjunta de dois municípios ou mais, é necessária a atuação forte dos órgãos públicos estaduais para poderem articular o interesse socioambiental da Bacia e não os interesses políticos de cada município em particular; novamente situando-se na 14 Ao abordar a água como elemento natural limitado refere-se a disponibilidade do recursos com qualidade para o uso e não apenas da disponibilidade quantitativa. 52 área de estudo, percebe-se que há um trabalho intenso nesse sentido na busca de articular os interesses coletivos acima dos interesses individuais. Outro ponto de destaque é a descentralização da gestão dos recursos hídricos e a chamada para que o Poder Público, os usuários e as comunidades tornem-se co-responsáveis. Cabe destacar, nesse ponto, o papel da Educação Ambiental concernente aos recursos hídricos, incentivando a participação democrática dos cidadãos em relação ao uso múltiplo da água e à proteção do meio ambiente. Para Lanna (1995, p.62), a negociação social é a articulação e compatibilização de diversos pontos da sociedade, que pode se dar de forma direta, através da negociação com a participação dos interessados, ou de forma indireta, com a interveniência dos representantes políticos. Em relação às diretrizes gerais de ação para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, o documento cita: a) a gestão sistemática dos recursos hídricos, sem dissociação dos aspectos de quantidade e qualidade; b) a adequação da gestão de recursos hídricos às diversidades físicas, bióticas, demográficas, econômicas, sociais e culturais das diversas regiões do País; c) a integração da gestão de recursos hídricos com a gestão ambiental; d) a articulação do planejamento de recursos hídricos com o dos setores usuários e com os planejamentos regional, estadual e nacional; e) a articulação da gestão de recursos hídricos com a do uso do solo; f) a integração da gestão das bacias hidrográficas com a dos sistemas estuarinos e zonas costeiras. Ao abordar as diretrizes da Política Nacional de Recursos Hídricos e sua implementação, cabe relembrar o que a WCDE (LANNA, 1995, p.62) fala de conhecimentos científicos e tecnológicos, visto que o conhecimento das diversas disciplinas deve fundamentar o Gerenciamento de Bacia Hidrográfica na compreensão e projeção da dinâmica ambiental em toda a sua complexidade, a qual, além do caráter multidisciplinar, há a exigência da 53 interdisciplinaridade para a compreensão da dinâmica ambiental. Segundo a Lei nº 9.433/97 (BRASIL, 1997), os instrumentos para possibilitar a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos são: a) Planos de Recursos Hídricos: Plano Nacional de Recursos Hídricos, Planos Estaduais de Recursos Hídricos e os Planos de Recursos Hídricos por bacia hidrográfica. Os dois primeiros são planos estratégicos que estabelecem diretrizes gerais sobre os recursos hídricos do País ou do Estado. O Plano de Recursos Hídricos por bacia hidrográfica é o instrumento de planejamento local, onde se define como conservar, recuperar e utilizar os recursos hídricos daquela bacia. b) Enquadramento dos corpos d’água: em classes, segundo usos preponderantes, com o objetivo de assegurar à água qualidade compatível com os usos mais exigentes a que forem destinadas, e diminuir os custos de combate à poluição das águas, mediante ações preventivas permanentes. c) Outorga dos direitos de uso: o instrumento pelo qual o Poder Público autoriza o usuário a utilizar as águas de seu domínio, por tempo determinado e em condições preestabelecidas. Tem como objetivo assegurar o controle quantitativo e qualitativo dos usos da água superficial ou subterrânea, e o efetivo exercício do direito de acesso à água. Os critérios de outorga, utilizados pelo Poder Público, são definidos pelos Conselhos de Recursos Hídricos e Comitês de Bacia Hidrográfica. d) Cobrança pelo uso da água: é um mecanismo educador que reconhece a água como bem econômico e dá ao usuário uma indicação de seu real valor, incentivando a racionalização do uso da água e obtendo recursos para o financiamento de programas e intervenções contemplados nos planos de recursos hídricos. Os critérios gerais da cobrança são definidos pelos Conselhos de Recursos Hídricos. Os Comitês de Bacia Hidrográfica definem os valores a serem cobrados. e) Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos: é um sistema de coleta, tratamento, armazenamento, recuperação e difusão de informações relevantes sobre recursos hídricos e fatores relacionados à sua gestão. 54 Observa-se que com a definição de instrumentos para implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos, o Governo Federal buscou atender a todas as demandas que se faziam necessárias, para que as ações previstas acontecessem e fossem permanentes. Um exemplo que pode ser citado é a inter-relação da Outorga com a Cobrança, visto que, com um estudo mais adequado, busca-se fazer o uso adequado da água e a cobrança faz com que os maiores usuários passem a perceber o impacto de suas atividades num bem de uso público. Também em relação à cobrança, percebe-se que os recursos advindos dessa ação serão revertidos para a conservação e a manutenção da qualidade da água. Outro ponto de destaque é o Sistema de Informação, pois é através desse elemento que a sociedade passa a entender o impacto da ação individual e coletiva no uso do recurso, bem como tem à sua disposição ferramentas para questionar e exigir o cumprimento da legislação e dos planejamentos realizados. Grosso modo, pode-se dizer que os instrumentos propostos conseguem identificar e apresentar proposta para necessidades em diferentes âmbitos na gestão dos recursos hídricos. Outro ponto de importância também previsto pela Lei nº 9.433/97, é o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), que constitui-se como um conjunto de mecanismos jurídico-administrativos, como leis, instituições ou instrumentos de gestão, com a finalidade de colocar em prática a Política Nacional, dando suporte técnico e institucional para o gerenciamento de recursos hídricos no País. Nesse sentido, o SINGREH é formado por um organismo colegiado, consultivo, normativo e deliberativo composto por representantes dos setores usuários de água, governo e sociedade civil organizada. Esse órgão tem como principais competências promover a articulação do planejamento de recursos hídricos com os planejamentos nacional, regionais, estaduais e dos setores usuários; arbitrar os conflitos existentes entre Conselhos Estaduais de Recursos Hídricos; estabelecer critérios gerais para a outorga de direito de uso de recursos hídricos; analisar propostas de alteração da legislação pertinente a recursos hídricos; estabelecer diretrizes complementares para a implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos. De acordo com Brasil (2002 b), no período entre 1997 a 2002, que configuram os cinco primeiros anos de vigência da Lei nº 9.433/97, o maior 55 obstáculo encontrado para a implantação do PNRH foi a questão da cobrança pelo uso dos recursos hídricos e a criação das Agências de Bacia Hidrográfica, que são elementos novos na administração das águas no Brasil. Também a negociação com cursos d’água que estão sob o domínio de municípios e estados, ou estados e união, que implica em delicadas negociações políticas entre gestores da União, dos Estados e dos municípios, e entre usuários e sociedade civil para conseguir operacionalizar essa política, constitui-se um desafio. 56 3 EDUCAÇÃO AMBIENTAL 3.1 Momentos históricos que marcam o início da educação ambiental Segundo Guimarães (2003, p.13), a separação entre ser humano e natureza resultou em uma postura antropocêntrica, em que o ser humano colocou-se como centro, e todas as outras partes que compõem o ambiente estão ao seu dispor, sem se aperceber das relações de interdependência entre os elementos existentes no meio ambiente. Nos escritos de Reigota (2009, p.16), o autor retrata essa preocupação que se faz notar a partir da década de 1960: O ser humano contemporâneo vive profundas dicotomias. Dificilmente se considera um elemento da natureza, mas como um ser à parte, como um observador e/ou explorador dela. Esse distanciamento da humanidade em relação à natureza fundamenta as ações humanas tidas como racionais, mas cujas graves consequências exigem, nesse início de século, respostas pedagógicas e políticas concretas para acabar com o predomínio do antropocentrismo. (REIGOTA, 2009, p.16) Buscando referência em Orellana, a autora destaca que “ya es sabido que la crisis ambiental es antes que nada, una crisis social” (ORELLANA, 2005, p.2). Nessa mesma linha de pensamento, Henrique Leff lembra que: A visão mecanicista da razão cartesiana converteu-se no princípio constitutivo de uma teoria econômica que predominou sobre os paradigmas organicistas dos processos da vida, legitimando uma falsa ideia de progresso da civilização moderna. Desta forma, a racionalidade econômica baniu a natureza da esfera da produção, gerando processos de destruição ecológica e degradação ambiental. (LEFF, 2008, p. 15) Para Boff (2010): o ser humano tornou-se uma força geofísica destruidora. Inaugurou o antropoceno, palavra criada por outro prêmio Nobel de Química, Paul Creutzen, em 2000, para designar a nova era marcada pela intensiva e sistemática agressão do ser humano contra a natureza. Outrora eram os meteoros rasantes que ameaçavam a Terra, hoje o meteoro rasante devastador chama-se ser humano. (BOFF, 2010) A década de 1960 é uma data marco para as questões ambientais, pois é a partir desse período que começam a ser explicitadas novas correntes de 57 pensamento e novos questionamentos sobre a relação do ser humano com os demais elementos do meio ambiente. Um ponto importante de ser resgatado é o fato de pesquisadores retomarem a ideia de Thomas Malthus15, do início do século XIX, pois a problemática ambiental surgia, nesse período, acoplada à discussão sobre o crescimento demográfico e suas mazelas (NOBRE, 2002, p.27). Um dos grandes questionamentos é que utilização dos recursos naturais pelos seres humanos não conduziria apenas à utopia liberal do crescimento da riqueza nacional, mas também à catástrofe sem volta da destruição do planeta. A ocorrência de alguns acidentes alertou a humanidade para a magnitude das agressões à natureza e suas representações sobre a vida. Embalado por publicações, como o livro Silent Spring ou Primavera Silenciosa, da bióloga Rachel Carson, que trabalhava para o governo americano, vale ressaltar que na obra a autora procura apresentar “como seria uma primavera sem o canto dos pássaros exterminados pelo uso do DDT16” (MOURA, 1998, p. 2), começou a surgir uma série de movimentos nos Estados Unidos da América (EUA) e Europa, tais como reivindicações junto a empresas questionando-se os efeitos da poluição e processo de descontaminação do Rio Tâmisa. De acordo com Dias (1999, p.107), em março de 1965, na Conferência de Educação da Universidade de Keele, da Inglaterra, colocou-se pela primeira vez a expressão Educação Ambiental, com a recomendação de que ela deveria se tornar uma parte essencial da educação de todos os cidadãos. No evento, os participantes definiam educação ambiental como ação de conservação ou ecologia aplicada, e o veículo seria a biologia. A década de 1970 traz transformações no ambientalismo: por meio dos diálogos estimulados pelo Clube de Roma17 foi publicado, em 1972, os Limites do Crescimento. Segundo os autores chefiados por Dana Meadows, o livro 15 Teoria de Malthus: publicada em 1798 alertando a importância do controle da natalidade, afirmando que o bem estar populacional estaria intimamente relacionado com crescimento demográfico do planeta. Malthus alertava que o crescimento desordenado acarretaria na falta de recursos alimentícios para a população gerando como consequência a fome. 16 DDT: sigla de Dicloro-Difenil-Tricloroetano, o primeiro pesticida moderno, largamente usado após a Segunda Guerra Mundial para combate aos mosquitos causadores da malária e do tifo. 17 O Clube de Roma, fundado em 1968 pelo industrial italiano Aurelio Pecei e pelo cientista escocês Alexander King, reunia cientistas e pesquisadores de países desenvolvidos que se reuniam, a partir de 1968, para debater problemas cruciais pa