UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO MESQUITA FILHO” INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: ZOOLOGIA TESE DE DOUTORADO COMPOSIÇÃO, DISTRIBUIÇÃO BATIMÉTRICA E ESTRUTURA DA ASSEMBLEIA DE ERMITÕES (CRUSTACEA, ANOMURA) EM UMA ÁREA DO LITORAL SUDESTE BRASILEIRO INFLUÊNCIADA PELO FENÔMENO DA RESSURGÊNCIA Israel Fernandes Frameschi de Lima Orientador: Profo. Dr. Adilson Fransozo Botucatu – SP 2015 COMPOSIÇÃO, DISTRIBUIÇÃO BATIMÉTRICA E ESTRUTURA DA ASSEMBLEIA DE ERMITÕES (CRUSTACEA, ANOMURA) EM UMA ÁREA DO LITORAL SUDESTE BRASILEIRO INFLUÊNCIADA PELO FENÔMENO DA RESSURGÊNCIA Israel Fernandes Frameschi de Lima Orientador: Profo. Dr. Adilson Fransozo Tese apresentada ao curso de pós- graduação em Ciências Biológicas: Zoologia, do Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista (UNESP), campus de Botucatu, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em Ciências Biológicas – Área de Concentração: Zoologia. Botucatu - SP 2015 FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA SEÇÃO TÉC. AQUIS. TRATAMENTO DA INFORM. DIVISÃO TÉCNICA DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO - CÂMPUS DE BOTUCATU - UNESP BIBLIOTECÁRIA RESPONSÁVEL: ROSEMEIRE APARECIDA VICENTE-CRB 8/5651 Frameschi, Israel Fernandes de Lima. Composição, distribuição batimétrica e estrutura da assembleia de ermitões (Crustacea, Anomura) em uma área do litoral sudeste brasileiro influenciada pelo fenômeno da ressurgência / Israel Fernandes de Lima Frameschi. - Botucatu, 2015 Tese (doutorado) - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", Instituto de Biociências de Botucatu Orientador: Adilson Fransozo Capes: 20406002 1. Crustáceo - Distribuição geográfica. 2. Ressurgência (Oceanografia). 3. Diversidade genética. 4. Macaé, Rio, Bacia(RJ). Palavras-chave: Distribuição; Ermitões; Macaé; Porcelanídeos ; Ressurgência. Agradecimentos À Deus, que me deu forças, saúde e proteção, me confortando nos momentos difíceis. Ao Prof. Dr. Adilson Fransozo, pela amizade, confiança, e por ter aberto as portas do seu laboratório e se dispor em ser meu orientador. Por ter me dado a oportunidade de conhecer e ter contato com animais fantásticos como os ermitões e me ensinado sobre eles. Por ter tido paciência ao longo de todo período de convivência. À Profa. Dra. Maria Lucia Negreiros Fransozo, pelo exemplo de profissionalismo e por todo conhecimento transmitido. Ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), pela bolsa concedida durante todo meu doutorado. Ao Núcleo de Estudos em Biologia, Ecologia e Cultivo de Crustáceos (NEBECC), por toda infraestrutura de laboratórios e materiais utilizados ao longo da identificação dos animais. À FINEP, Financiadora de estudos e Projetos, à FAPERJ, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, ao Prof. Dr. Rogério Caetano da Costa e Prof. Dr. Adilson Fransozo, pelo financiamento das coletas. Ao amigo e companheiro de pesquisa Dr. Gustavo S. Sancinetti, e todos envolvidos, pelo esforço nas coletas dos animais em Macaé – RJ. A todos integrantes do NEBECC e funcionários envolvidos, que de alguma forma contribuíram para a execução do projeto. Aos amigos que estão ou passaram pelo NEBECC desde a minha chegada. À minha mãe, que sempre me apoiou, incentivou e orou por mim. Ao meu irmão Raony, que me apoia e sempre me ajuda a tomar decisões. À minha avó Mafalda, que sempre ajudou na minha educação e me incentivou a estudar. À minha esposa Prof. Dr. Luciana Segura de Andrade, por estar ao meu lado, e me suportar, discutindo comigo sobre minhas ideias. Ao Rayan e à Laís de Andrade e Andrade, por compartilharem comigo seus momentos de alegria. Índice CONSIDERAÇÕES INICIAIS .................................................................... 01 Referências ........................................................................................... 06 CAPÍTULO I: “Espécies de Anomura (Crustacea, Decapoda) provenientes do sublitoral não consolidado de uma região do sudeste brasileiro influenciada pelo fenômeno da ressurgência” Resumo ….…….................................................................................... 09 Introdução ……..................................................................................... 10 Material e Métodos …….………............................................................ 12 Resultados …….................................................................................... 14 Discussão ……...................................................................................... 21 Referências …….................................................................................... 25 CAPÍTULO II: “Estrutura da assembleia de ermitões Paguroidea em uma região influenciada pela ressurgência no sudeste do brasileiro” Resumo ................................................................................................. 31 Introdução ......….................................................................................... 32 Material e Métodos ..………………........................................................ 34 Resultados ............................................................................................ 40 Discussão .............................................................................................. 55 Referências ............................................................................................ 61 CAPÍTULO III: “Dinâmica populacional do ermitão endêmico do Atlântico Sul Pagurus exilis (Decapoda, Anomura) em uma região do litoral do Rio de Janeiro influenciada pelo fenômeno da ressurgência” Resumo .................................................................................................. 69 Introdução ............................................................................................... 70 Material e Métodos ................................................................................. 72 Resultados .............................................................................................. 77 Discussão ............................................................................................... 86 Referências ............................................................................................. 90 CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................96 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 2 A ordem Decapoda é uma das mais ricas entre os Crustacea, reunindo mais de 17.650 espécies conhecidas, das quais mais de 14.650 fazem parte da fauna atual e cerca de 3.000 espécies com apenas registro fóssil (De Grave et al. 2009). Os crustáceos decápodos se encontram divididos em duas grandes subordens, os Dendrobranquiata, representados pelos camarões Peneoidea e Sergestoidea, e a subordem Pleocyemata, que reúne os animais das infraordens Achelata, Anomura, Astacidea, Axiidea, Brachyura, Caridea, Gebiidea, Glypheidea, Polychelida e Stenopodidea (De Grave et al. 2009). Os Anomura MacLeay, 1838 representam um grupo altamente significativo entre os crustáceos marinhos, com cerca de 2.451 espécies conhecidas, subdivididas em sete superfamílias (De Grave et al. 2009). Juntas, as superfamílias Galatheoidea Samouelle, 1819 e Paguroidea Latreille, 1802 representam 89% das espécies de Anomura registradas em todo mundo (De grave et al. 2009; Mclaughlin et al. 2010), sendo que para o litoral brasileiro há registro de aproximadamente 80 espécies descritas para estas superfamílias (Melo, 1999; Nucci & Melo, 2003), as quais apresentam uma ampla distribuição ecológica, explorando regiões do sublitoral consolidado, não consolidado, e regiões intertidais do litoral Brasileiro (Mantelatto & Garcia 2002; Nucci & Melo, 2007; Fransozo et al. 2011; Alves et al. 2013). Os representantes da superfamília Paguroidea são distinguidos dos demais Anomura pela presença do abdome nu, não segmentado e usualmente curvado, tipicamente protegido por uma concha de Gastropoda vazia e espiralada para a direita, uma vez que a maioria das conchas são dextrógiras (Hazlett, 1981). Cerca de 1100 espécies de ermitões são encontradas no mundo 3 todo, distribuídos em 120 gêneros (McLaughlin et al. 2010). No litoral brasileiro há registro de aproximadamente 50 espécies descritas (Nucci & Melo, 2003). O sudeste/sul do Brasil costa é uma área de transição hidrológica e faunística, com uma combinação de características físicas, biológicas e de espécies oriundas das regiões tropicais, subtropicais e subantárticas (Sumida & Pires-Vanin, 1997; Boschi, 2000). Estudos relativos à composição e distribuição de crustáceos foram conduzidos no sudeste do Brasil (De Léo & Pires-Vanin, 2006; Bertini et al. 2010; Fransozo et al. 2008), especialmente sobre litoral de São Paulo. No entanto, este tipo de estudos são escassos na costa do Rio de Janeiro, uma região com características peculiares devido à dinâmica das massas de água e evento de ressurgência que proporciona um aumento da concentração de nutrientes na água e, portanto, aumenta a produtividade primária (De Léo & Pires-Vanin, 2006). Recentemente alguns estudos foram realizados, focando diretamente a assembleia de crustáceos decápodos bentônicos como dos caranguejos Portunoidea, realizado por Andrade et al. (2015), e também para os camarões Penaeoidea e Caridea, realizado por Silva et al. (2014) e Pantaleão et al. (2015); no entanto, até o momento ainda não há registro de estudos sobre os Anomura habitantes da região. Este tipo de estudo fornece uma base para a compreensão dos processos que afetam o equilíbrio destas comunidades, bem como os ecossistemas (Bertini et al. 2004), e na região de Macaé, revelar o real impacto da ressurgência na distribuição das espécies no ambiente raso costeiro (Sancinetti et al. 2014; Andrade et al. 2014). Tais estudos auxiliam de forma direta ou indireta na identificação de padrões que são modificados por 4 estratégias que visam obtenção do “fitness” populacional em regiões que são constantemente alteradas. Uma dessas alterações do ambiente pode ser decorrente da pesca camaroeira, a qual promove alterações no sedimento que perturbam a comunidade bentônica, afetando principalmente os crustáceos, elasmobrânquios e cefalópodes (Wassenberg & Hill, 1989). Além das modificações causadas pelo aumento da pesca de arrasto no sudeste do brasileiro (Costa et al. 2000), deve-se ressaltar que as zonas costeiras dessa região são ambientes dinâmicos, sujeitos às influências continentais, atmosféricas e oceânicas, sendo classificada por Boschi (2000) como uma área de transição hidrológica e faunística, a qual abriga uma mistura de faunas provenientes de regiões tropicais, subtropicais e subantárticas (Sumida & Pires- Vanin, 1997). Essa instabilidade também age sobre a comunidade bentônica determinando padrões de densidade e distribuição, além de direcionar relações tróficas entre as espécies (Santos & Pires-Vanin, 2004). Considerando as particularidades existentes nesta região do Brasil, uma área de transição, bem como as ocasionadas pelo fenômeno da ressurgência de Cabo Frio, como a alta na concentração de nutrientes da água e a diminuição na temperatura da água que influenciam a região de Macaé, foi realizado um estudo que apresentasse as espécies da infra ordem dos Anomura existentes na região, e as possíveis influencias que este ambiente distinto na região sudeste sobre este grupo. Para tanto, abordamos no primeiro capítulo a composição dos Anomura capturados nesta região. No segundo capítulo foi realizada a estruturação da assembleia de ermitões em relação à distribuição espaço temporal, os padrões de diversidade, e também a influência de fatores 5 ambientais sobre as espécies encontradas. No terceiro capítulo, a espécie mais representativa, Pagurus exilis, foi analisada quanto aos seus aspectos populacionais, incluindo sua estrutura populacional, proporção sexual, a variação espaço-temporal na abundância e a relação entre as variáveis ambientais e a distribuição dos grupos de interesse. 6 REFERÊNCIAS Alves, D.F., Barros-Alves, S.P., Lima, D.J., Cobo, V.J., & Negreiros-Fransozo, M.L. 2013. Brachyuran and anomuran crabs associated with Schizoporella unicornis (Ectoprocta, Cheilostomata) from southeastern Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 85(1), 245-256. Andrade, L. S., Frameschi, I. F., Castilho, A. L., Costa, R. C., & Fransozo, A. 2014. Can the pattern of juvenile recruitment and population structure of the speckled swimming crab Arenaeus cribrarius (Decapoda: Brachyura) be determined by geographical variations? Marine Ecology. DOI: 10.1111/maec.12188 Andrade, LS; Frameschi, IF; Costa, RC; Castilho, AL & Fransozo, A. 2015. 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Santos, M.F.L.D. & Pires-Vanin, A.M.S. 2004. Structure and dynamics of the macrobenthic communities of Ubatuba Bay, southeastern Brazilian coast. Brazilian Journal of Oceanography, 52(1): 59-73. Silva, E. R. D., Sancinetti, G. S., Fransozo, A., Azevedo, A., & Costa, R. C. D. 2014. Biodiversity, distribution and abundance of shrimps Penaeoidea and Caridea communities in a region the vicinity of upwelling in Southeastern of Brazil. Nauplius, 22(1): 1-11. Sumida, P.Y.G. & Pires-Vanin, A.M.S. 1997. Benthic associations of the shelf break and upper slope off Ubatuba-SP, south-eastern Brazil. Estuar. Coast. Shelf Sci., 44: 779– 784. Sumida, PYG. & Pires-Vanin, AMS. 1997. Benthic associations of the shelf break and upper slope off Ubatuba-SP, south-eastern Brazil. Estuar. Coast. Shelf Sci., 44: 779– 784. Wassenberg, T.J. & Hill, B.J. 1989. The effect of trawling and subsequent handling on the survival rates of the by-catch of prawn trawlers in Moreton Bay, Australia. Fisheries Research, 7(1): 99-110. CAPÍTULO I Espécies de Anomura (Crustacea, Decapoda) provenientes do sublitoral não consolidado de uma região do sudeste brasileiro influenciada pelo fenômeno da ressurgência 9 RESUMO Neste artigo são registradas espécies de crustáceos anomuros que habitam as águas rasas do sublitoral não consolidado na região de Macaé, Rio de Janeiro, uma área do litoral sudeste brasileiro influenciada pelo fenômeno da ressurgência. A área de estudo foi examinada mensalmente de julho/2008 a junho/2009, em profundidades de 5, 10, 15, 25, 35 e 45 metros. Foram realizados 72 arrastos que totalizaram na captura de 610 indivíduos, pertencentes a 5 espécies, 5 gêneros, 3 famílias e duas superfamílias. Nenhuma das espécies encontradas representa um novo registro para o fauna do estado, no entanto, trata do primeiro registro na região de Macaé. Dentre as espécies registradas, as duas mais abundantes, são endêmicas do Atlântico Sul Pagurus exilis e Loxopagurus loxochelis. Podemos inferir que esta região, apesar de apresentar características muito distintas do restante do litoral sudeste, oferece condições bióticas e abióticas favoráveis para o assentamento e a manutenção de espécies de anomuros já registrados. 10 INTRODUÇÃO Informações sobre a composição de espécies são a base para a compreensão dos processos que afetam o equilíbrio das comunidades ou ecossistemas. Neste sentido, a identificação prévia de assembleias de espécies muitas vezes é crucial para uma interpretação adequada de eventos de perturbação antrópica ou natural (Bertini et al. 2004). Estudos em pequenas áreas costeiras, como baías e estuários geram conhecimentos básicos sobre fenômenos naturais ou sobre a influência do ser humano nestas regiões. Tais áreas oferecem excelentes condições para o estabelecimento de espécies com interesse comercial ou ecológico (Bertini and Fransozo 1999). Os Anomura MacLeay, 1838 representam um grupo altamente significativo entre os crustáceos marinhos, com cerca de 2451 espécies conhecidas, subdivididas em sete superfamílias (De Grave et al. 2009). Juntas, as superfamílias Galatheoidea Samouelle, 1819 e Paguroidea Latreille, 1802 representam 89% das espécies de Anomura registradas em todo mundo (De grave et al. 2009; Mclaughlin et al. 2010). No litoral brasileiro há registro de aproximadamente 80 espécies descritas para estas superfamílias (Melo, 1999; Nucci & Melo 2003), apresentando uma ampla distribuição ecológica, as quais exploram regiões do sublitoral consolidado, não consolidado, e regiões intertidais (Mantelatto and Garcia 2002; Nucci and Melo 2007; Fransozo et al. 2011; Alves et al. 2013). De acordo com Fransozo et al. (1998), estes organismos representam um importante papel na cadeia trófica marinha, caracterizando o melhor exemplo de “detritívoros” nesses ambientes, sendo que a grande amplitude do comportamento alimentar parece ter contribuído como um fator 11 essencial no sucesso adaptativo do grupo (Schembri 1982; Achituv and Pedrotti 1999). A zona de ressurgência do litoral norte do estado do Rio de Janeiro (o que inclui Macaé é considerada uma importante área para pesquisa dos organismo bentônicos (De léo and Pires-Vanin 2006; Andrade et al. 2014, 2015), principalmente os crustáceos, uma vez que é considerada uma região de transição faunística, com espécies características da região tropical, sub-tropical e oriundas das regiões subantárticas (Boschi 2000). As informações disponíveis sobre a riqueza e a composição de decápodes marinhos no ambiente consolidado tem aumentado consideravelmente (Mantelatto and Garcia 2002; Alves Coelho et al. 2007; Alves et al. 2012), todavia poucos estudos que abrangem as regiões rasas de substrato não consolidado no Brasil são encontrados, com destaque para, Pires (1992), Bertini et al. (2004), Braga et al. (2005), Fransozo et al. (2008; 2011) e Boos et al. (2012). Apesar de seu interesse comercial e zoogeográfico, estudos que abrangem a fauna dos fundos rasos das regiões influenciadas pela ressurgência são escassos. As características ambientais distintas, ocasionadas pela intrusão da ACAS, encontrada na região de Cabo Frio e, possivelmente, em áreas adjacentes como Macaé podem proporcionar modificações na composição de espécies. Esforços anteriores para quantificar a diversidade de espécies na região de ressurgência, como o estudo de De Léo and Pires-Vanin (2006), avaliaram a composição da megafauna bentônica na região de Cabo Frio, porém a captura ocorreu a partir dos 100 m de profundidade, demonstrando que esta região necessita de estudos contínuos que auxiliem as políticas de conservação mais eficazes para a região. Assim, este presente estudo descreve a composição 12 e abundância dos crustáceos anomuros de fundos rasos não consolidado na região de Macaé, litoral norte do estado do Rio de Janeiro. MATERIAL & MÉTODOS No município de Macaé, localizado no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, está situada a APA do Arquipélago de Santana, composta pelas Ilhas de Santana, do Francês, Ponta das Cavalas, Ilhote Sul e demais rochedos e lajes. A origem da região remonta ao Cretáceo, sendo formada por rochas gnaisses, granitoides e podendo estar cobertas por depósitos de diversas fases de sedimentação do Pleistoceno (Projeto RADAM 1983). O vento de Nordeste (NE) é dominante durante o verão, e dada à orientação particular do litoral fluminense, o mesmo afasta a Água Costeira em direção ao alto mar favorecendo a aproximação e afloramento da Água Central do Atlântico Sul (ACAS), uma massa de água fria e rica em nutrientes, que se origina do giro subtropical, fluindo para o sul da costa brasileira, alcançando a península conhecida como Cabo de São Tomé (22o S) durante o verão e primavera (Stramma and England 1999; Silveira et al. 2000). Durante o inverno, os ventos de Sudoeste dominam e as águas costeiras assumem sua posição usual por sobre a plataforma continental (Gonzalez-Rodrigues et al. 1992). As coletas foram realizadas mensalmente no período de julho/2008 a junho/2009, em profundidades de 5, 10, 15, 25, 35 e 45 metros (Figura 1). Tais transectos estão localizados paralelamente à linha da costa, entre a Praia da Barra (41º37’ W e 22º17’ S) e a Praia Campista (41º40’ W e 22º27’ S). As amostragens foram efetuadas com uma embarcação de pesca camaroeira, equipada com uma rede de arrasto de fundo do tipo “otter-trawl”, com abertura 13 de 4.5 m, 20 mm entre-nós na panagem e 15 mm no ensacador. Os arrastos foram realizados por um período de 15 min/transecto com o barco em velocidade constante de 2.1 milhas/náuticas por cerca de 1 km de extensão. Na embarcação, os indivíduos de interesse foram mantidos em sacos plásticos, devidamente marcados, e acondicionados com gelo picado. Em laboratório, os ermitões (Paguroidea) foram removidos de suas conchas, e o comprimento do escudo cefalotorácico (CEC) foi medido com um paquímetro (0.01 mm). Para os anomuros Galatheoidea, a largura da carapaça foi medida (CC). Todas as superfamílias, famílias e espécies capturadas em cada profundidades na área de estudo, com as respectivas faixas de tamanho e distribuições geográficas foram baseadas em Young (1998) e Melo (1999). Exemplares dos anomuros coletados foram depositados na coleção científica do Núcleo de Estudos em Biologia, Ecologia e Cultivo de Crustáceos (NEBECC), Departamento de Zoologia, Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista, campus Botucatu. Inicialmente, os pressupostos de homocedasticidade (Levene, 1960) e normalidade (Shapiro & Wilk, 1965) foram testados. A riqueza (S'), foi representada pelo número de espécies presentes na amostra (Krebs, 1989). A diversidade (H’) dos ermitões foi estimada através do índice de Shannon-Wiener (Pielou, 1966), expresso pela fórmula: H'. = ΣSi = 1 (Pi) (ln.Pi), tendo em conta a riqueza e abundância relativa das espécies, onde Pi é o resultado do número de indivíduos de espécies "i" na amostra, dividido pelo número total de indivíduos. A equitabilidade foi estimada pela equação: J '= H' / log2s indicados por Pielou (1975). A análise de variância (ANOVA one way) foi realizada para verificar a 14 diferença na abundância espaço-temporal das espécies, complementada por um teste de Tukey (Zar, 1996). RESULTADOS Durante o período de amostragem de um ano, foram realizados 72 arrastos, sendo coletado um total de 610 indivíduos pertencentes a 5 espécies, 5 gêneros, 3 famílias e duas superfamílias (Tab. 1). Na ocorrência ao longo do ano, os números mais elevados de abundância ocorreram nas estações do verão e inverno, com 366 indivíduos (Tab. 1; Fig. 2a), porém o número de indivíduos capturados não diferiu significativamente na composição temporal (ANOVA, gl. = 3, F = 0.635; p = 0.613). No total, a abundância das espécies oscilou entre os transectos (Tab. 2; Fig. 2b). A maior abundância foi registrada nos transectos de maiores profundidades (ANOVA, gl. = 5, F = 4.281; p = 0.004), com 88.83% dos indivíduos capturados, sendo da espécie Pagurus exilis, a mais abundante, durante todo o período (ANOVA, gl. = 5, F = 6.163; p = 0.001) (Fig. 2b). Nos transectos mais rasos (5, 10 e 15 m) a espécie mais capturada foi Loxopagurus loxochelis, e representou 81.84% dos indivíduos coletados nestes transectos (Fig. 2b). Em relação a diversidade e equitabilidade, os maiores valores foram encontrados na estação da primavera, porém os maiores valores de riqueza foram observados no verão (Fig. 3a). Estes índices também foram maiores qual na profundidade de 15 m, e a maior riqueza foi encontrada no transecto de 45 m (Fig. 3b). Este último resultado ocorreu devido ao alto número de indivíduos de P. exilis em relação às demais espécies, especificamente nestes pontos onde os índices foram mais elevados. 15 Superfamília PAGUROIDEA Latreille, 1803 Família DIOGENIDAE Ortmann, 1892 Gênero Dardanus Paulson, 1875 Dardanus insignis (Saussure, 1858) Descrição: Saussure, 1858: 453; Williams, 1984: 197. Sinonímia: Hebling & Rieger, 1986: 73. Faixa de tamanho (CEC): Machos = 4.1 – 18.7 mm; Fêmeas = 4.0 – 10.5 mm. Profundidade de ocorrência no presente estudo: 15, 25, 35 e 45 m Distribuição geográfica: Atlântico Ocidental: Leste dos Estados Unidos, Golfo do México, Antilhas, Brasil (do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul), Uruguai e Argentina. Gênero Loxopagurus Forest, 1964 Loxopagurus loxochelis (Moreira, 1901) Descrição: Moreira 1901: 24; Forest 1964: 281; Hebling & Rieger 1986: 72. Faixa de tamanho (CEC): Machos = 3.1 – 8.2 mm; Fêmeas = 3.0 – 5.8 mm. Profundidade de ocorrência no presente estudo: 5, 10, 15, 25 e 35 m Distribuição geográfica: Atlântico Ocidental: Brasil (da Bahia ao Rio Grande do Sul), Uruguai e Argentina. Gênero Petrochirus Stimpson, 1858 Petrochirus diogenes (Linnaeus, 1758) Descrição: Linnaeus 1758: 631; Williams 1984: 198. Faixa de tamanho (CEC): Macho = 5.7 mm. 16 Profundidade de ocorrência no presente estudo: 45 m Distribuição geográfica: Atlântico Ocidental: Carolina do Norte (Estados Unidos) ao Golfo do México, Brasil (da Bahia ao Rio Grande do Sul), Uruguai e Argentina. Família PAGURIDAE Latreille, 1803 Gênero Pagurus Fabricius, 1775 Pagurus exilis (Benedict, 1892) Descrição: Benedict 1892: 6; Barattini & Ureta 1960: 53; Forest & de Saint Laurent 1967: 135; Boschi 1979: 138. Sinonímia: Benedict 1892: 6; Barattini & Ureta 1960: 53. Faixa de tamanho (CEC): Machos = 1.7 – 6.5 mm; Fêmeas = 2.6 – 6.0 mm. Profundidade de ocorrência no presente estudo: 5, 15, 25, 35 e 45 m Distribuição geográfica: — Atlântico Ocidental: Brasil (do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul), Uruguai e Argentina. Superfamília GALATHEOIDEA Samouelle, 1819 Família PORCELLANIDAE Haworth, 1825 Gênero Porcellana Lamarck, 1801 Porcellana sayana (Leach, 1820) (Fig. 3e) Descrição: Silva et al. 1989: 139; Williams, 1984: 182 Sinonímia: Haig, 1966: 354; Veloso, 1993: 245. Faixa de tamanho (CC): Machos = 2.0 –7.0 mm. Profundidade de ocorrência no presente estudo: 15, 25, 35 e 45 m. 17 Distribuição geográfica: — Atlântico Ocidental: Carolina do Norte e Sul, Geórgia, Flórida, Bahamas, Golfo do México, Antilhas, América Central, Colômbia, Venezuela, Guianas, Brasil (do Amapá ao Rio Grande do Sul), e Uruguai. Tabela 1. Composição e abundância de espécies de Anomura em cada estação do ano do sublitoral não consolidado na região de Macaé, litoral Sudeste do Brasil (julho de 2008 a junho de 2009). Tabela 2. Composição e abundância de espécies de Anomura em cada transecto do sublitoral não consolidado na região de Macaé, litoral Sudeste do Brasil (julho de 2008 a junho de 2009). Familía/Espécies Estações Total Inv. Pri. Ver. Out. DIOGENIDAE Ortmann, 1892 Dardanus insignis (Saussure, 1858) 27 7 13 2 49 Loxopagurus loxochelis (Moreira, 1901) 12 32 4 33 81 Petrochirus diogenes (Linnaeus, 1758) - - 1 - 1 PAGURIDAE Latreille, 1803 Pagurus exilis (Benedict, 1892) 134 58 172 96 460 PORCELLANIDAE Haworth, 1825 Porcellana sayana (Leach, 1820) 5 - 9 5 19 Família / Espécies Transectos Total 5m 10m 15m 25m 35m 45m DIOGENIDAE Ortmann, 1892 Dardanus insignis (Saussure, 1858) - - 2 13 8 26 49 Loxopagurus loxochelis (Moreira, 1901) 14 28 13 9 17 - 81 Petrochirus diogenes (Linnaeus, 1758) - - - - - 1 1 PAGURIDAE Latreille, 1803 Pagurus exilis (Benedict, 1892) 3 - 6 148 187 116 460 PORCELLANIDAE Haworth, 1825 Porcellana sayana (Leach, 1820) - - - 5 4 10 19 18 Figura 1. Região de Macaé, litoral norte do estado do Rio de Janeiro, indicando as profundidades amostradas. 19 Figura 2. Número de indivíduos coletados por estação (a), e por transectos (b), do sublitoral não consolidado na região de Macaé, litoral Sudeste do Brasil (julho de 2008 a junho de 2009), e os resultados do teste de ANOVA, em que letras diferentes diferem significativamente (Tukey, p < 0.05). P. exi = Pagurus exilis; L. lox = Loxopagurus loxochelis; D. ins = Dardanus insignis; P. say = Porcelana sayana; P. dio = Petrochirus diogenes. 20 Figura 3. Oscilação da diversidade (H‘), equitabilidade (J’) e riqueza (S’) por estação (a), e por transectos (b), durante o período de estudo no sublitoral não consolidado na região de Macaé, litoral Sudeste do Brasil (julho de 2008 a junho de 2009). 21 DISCUSSÃO Este trabalho representa o primeiro levantamento de espécies de anomuros na região de Macaé, uma região particularmente distinta de outras partes do litoral brasileiro devido à influência do fenômeno da ressurgência (Odebrecht & Castello, 2001; Stech & Lorenzzetti, 1992; De Léo & Pires Vanin, 2006). As superfamílias Paguroidea e Galathoidea têm registradas 16 espécies para o sublitoral não consolidado no estado do Rio de Janeiro (Melo 1999), distribuindo-se desde a região entre marés, às regiões mais profundas do talude continental. Entretanto, apenas cinco foram registradas neste estudo, sendo duas endêmicas do Atlântico Sul. A literatura sobre decápodes do litoral brasileiro é muitas vezes limitada a áreas restritas, não trazendo informações sobre as espécies que ocorrem ao longo de toda a costa brasileira. Tais informações são necessárias para entender a ocorrência e ecologia da comunidade bentônica (Hendrickx & Harvey 1999). A maior riqueza e abundância de anomuros ocorreu nos transectos de maiores profundidades, que oferece boas condições para assentamento e sobrevivência dos ermitões. Isto porque nessas profundidades há um maior acumulo de matéria orgânica, em ralação aos transectos mais rasos (Sancinetti et al. 2014). O alto número de indivíduos coletados na região mais profunda, deve-se à alta abundância do ermitão endêmico do Atlântico Sul Pagurus exilis, espécie característica de águas frias (Meireles et al. 2006; Terossi et al. 2010), que encontra em Macaé um habitat ideal, devido às baixas temperaturas que predominam na região influenciada pelo fenômeno da ressurgência. Em regiões mais ao sul, onde não há características que descrevem o fenômeno da ressurgência, esta espécie é pouco capturada, ou nem mesmo registrada, 22 ocorrendo somente durante a predominância da massa de água fria, proveniente de águas sub-antárticas (Palacio, 1982; Spivak, 1997) como descrito nos estudos de Meireles et al. (2006) e Terossi et al. (2010). Estas características ambientais na região de Macaé também possibilitam a presença de outra espécie endêmica do Atlântico Sul, L. loxochelis, que tem preferência por águas mais frias, apresentando ocorrência restrita até os 30 metros, e exibindo uma afinidade por sedimentos constituídos principalmente por areia, não sendo capturado no lodo (Bertini et al. 2004). Tal espécie foi capturada em maior abundância principalmente nos transectos de 5, 10 e 15 metros. De acordo com Mantelatto et al. (2004), L. loxochelis tem seu limite de distribuição norte até o estado de São Paulo, no entanto nossos resultados que demonstram a ocorrência desta espécie com considerável abundância, no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, e que corrobora com a distribuição apontada por Melo (1999), onde a espécie foi registrada até o litoral do estado da Bahia. Os ermitões D. insignis e P. diogenes apresentaram uma distribuição geográfica mais ampla em comparação às outras duas espécies endêmicas, com registros ao longo de todo litoral do Atlântico Ocidental (Willians, 1984); e possuem características de espécies tropicais, como a reprodução nos meses mais quentes do ano (Spivak, 1997; Bertini & Fransozo, 2002; Frameschi et al. 2015). O número pouco expressivo destes espécimes ao longo do período de estudo pode ser justificado pelas baixas temperaturas encontradas em Macaé, devido à influência do fenômeno da ressurgência, quando comparado com regiões onde estas espécies são registradas com maior abundância (Pires, 1992; De Léo & Pires-Vanin, 2006; Melo, 1999). 23 Já o porcelanídeo P. sayana, é uma das poucas espécies da família Porcellanidae encontradas no sublitoral não consolidado (Fransozo et al. 2011), tendo em vista que a grande maioria dos porcelanídeos registrados no litoral brasileiro estão restritos a ambientes rochosos (Alves et al. 2011; 2013). Esta espécie de porcelanídeo desenvolve associações simbióticas (De Bary, 1879) com várias espécies de ermitões (Gore & Abele, 1982), sendo que no Brasil, seus registros estão associados principalmente às espécies de ermitões que são características do substrato não-consolidado, como D. insignis e P. diogenes (Meireles & Mantelatto, 2008; Baeza et al. 2013). Todos os P. sayana capturados neste estudo estavam associados ao ermitão D. insignis, fato que justifica sua ampla distribuição geográfica e batimétrica, sendo capturado desde a região entre marés até os 100 m de profundidade (Willians, 1984; Melo, 1999). As espécies L. loxochelis, P. exilis, D. insignis e P.sayana foram representadas por um número de indivíduos considerável. De acordo com Negreiros-Fransozo et al. (1997) e Fransozo et al. (1998), a frequente presença de espécies abundantes sugere que eles realizam todos ou a maioria do seu ciclo de vida na área de estudo, que no caso dos ermitões está diretamente relacionado à disponibilidade e ocupação de conchas de gastrópodos (Hazlett, 1981). De acordo com Floeter & Soares-Gomes (1999), que definiram os padrões de distribuição biogeográfica de Gastropoda ao longo de toda costa Atlântico Sul Ocidental, a província paulista (desde o sul do Espírito Santo e norte do Rio de Janeiro, até o limite sul do Rio Grande do Sul e Uruguai) é apontada como a mais rica em relação à abundância e número de espécies de gastrópodos, justificando a constante ocorrência e o número de ermitões na 24 região de Macaé, sendo que a maior variedade de espécies de conchas de gastrópodos determina diretamente a presença de ermitões (Hazlett, 1981). A grande riqueza de espécies de gastrópodos também é apontada como principal razão da presença dos anomuros, no litoral norte do Estado de São Paulo por diversos estudos, como de Hebling et al. (1994) na ilha de Anchieta, de Negreiros-Fransozo et al. (1997) na Enseada de Fortaleza, de Fransozo et al. (1998) e (2011) na Enseada de Ubatuba, e por Frameschi et al. (2014) nas ilhas das Couves e do Mar Virado. Listas regionais sobre a composição de espécies apresentam relevante importância para o conhecimento da biodiversidade marinha e províncias zoogeográficas em habitat específicos. A região de Macaé é apontada como uma localidade importante para a colonização, assentamento e sobrevivência de muitas espécies de crustáceos como camarões (Silva et al. 2014), caranguejos (Andrade et al. 2015) e também para as espécies de anomuros. O presente estudo oferece informações básicas para o monitoramento dos anomuros da região, de modo que contribui na definição de meios de manutenção e conservação da biodiversidade costeira do estado do Rio de Janeiro. 25 REFERÊNCIAS Achituv, Y. & Pedrotti, M.L. 1999. Costs and gains of porcelain crab suspension feeding in different flow conditions. Marine Ecology Progress Series, 184: 161-169. Alves, D.F., Barros-Alves, S.P., Lima, D.J., Cobo, V.J., & Negreiros-Fransozo, M.L. 2013. 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Foram capturados 591 ermitões, pertencentes a quatro espécies: Pagurus exilis (Benedict, 1892), Loxopagurus loxochelis (Moreira, 1901), Dardanus insignis (Saussure, 1858) e Petrochirus diogenes (Linnaeus, 1758). A maior riqueza foi registrada na profundidade de 45 m. Todos os fatores ambientais mensurados foram reduzidos em dois eixos principais, explicando 71.4% da variabilidade total, e foi evidenciado pela ordenação a distinção ambiental espacial entre as profundidades amostradas, em duas áreas, “interna” e “externa. Os índices ecológicos foram diretamente influenciados pela grande dominância da espécie P. exilis. Segundo a análise de redundância, há uma forte relação entre as espécies de ermitões e temperatura de fundo, teor de matéria orgânica e as frações mais finas do sedimento. O baixo número de espécies encontradas na região de Macaé, quando comparado com outras regiões do Brasil, deve-se principalmente as características ambientais, que são influenciadas pela ressurgência de Cabo Frio. 32 INTRODUÇÃO As características tropicais e subtropicais dominam todo o litoral brasileiro, embora fenômenos regionais definam as condições físicas e biológicas, deixando impressões distintas sobre a biodiversidade (Amaral & Jablonski, 2005). Tal biodiversidade desempenha um papel fundamental na função dos ecossistemas marinhos, mesmo quando são críticos para a sobrevivência humana e bem-estar (Palumbi et al. 2001). Dentro desses ecossistemas, a coexistência entre as comunidades depende de um zoneamento faunístico, que é encontrado principalmente nos habitats marinhos de substrato não-consolidado, e sempre está relacionado com alterações nos fatores ambientais, que alteram suas características tanto no tempo quanto no espaço (Schaff et al. 1992). Os efeitos dos distúrbios ambientais na biodiversidade marinha chama atenção para a necessidade de examinar os potenciais impactos sobre a distribuição das espécies (Parmesan et al., 2005), especialmente quando as mudanças são causados pela pesca predatória, liberação de produtos químicos tóxicos, destruição de habitat físico, eutrofização, e transporte de espécies exóticas (Norse, 1993). A pesca predatória de camarões na região sudeste e sul do Brasil é apontada como o principal agente perturbador do ambiente bentônico (Keunecke et al.2007), devido à grande quantidade de organismos capturados como fauna acompanhante (Voultsiadou et al. 2011). Os representantes da superfamília Paguroidea são distinguidos dos demais Anomura pela necessidade de se proteger ocupando uma concha de gastrópodo vazia (Hazlett, 1981; Lancaster, 1988). Cerca de 1100 espécies de ermitões são encontradas no mundo todo, distribuídos em 120 gêneros 33 (McLaughlin et al. 2010). No litoral brasileiro há registro de aproximadamente 50 espécies descritas (Nucci & Melo, 2007; 2015), com uma ampla distribuição ecológica, explorando regiões do sublitoral consolidado e não consolidado, desde região do entre-marés até grandes profundidades (Melo, 1999; Fransozo et al. 2008; Frameschi et al. 2014a). A costa da região sul/sudeste do Brasil é uma área de transição hidrológica e faunística, com uma combinação de características físicas, biológicas e de espécies oriundas das regiões tropicais, subtropicais e subantárticas (Sumida & Pires-Vanin, 1997; Boschi, 2000). Diversos estudos relativos à composição e à distribuição de crustáceos foram conduzidos no sudeste do Brasil (De Léo & Pires-Vanin, 2006; Bertini et al. 2010; Fransozo et al. 2008, 2012; Frameschi et al. 2014a), especialmente sobre litoral de São Paulo. No entanto, esses estudos são escassos na costa do Rio de Janeiro, uma região com características peculiares devido à dinâmica das massas de água e evento de ressurgência que proporcionam um aumento da concentração de nutrientes na água e, portanto, aumenta a produtividade primária (De Léo & Pires-Vanin, 2006). Recentemente alguns estudos foram realizados, focando diretamente a assembleia de crustáceos decápodos bentônicos como dos caranguejos Portunoidea, realizado por Andrade et al. (2015), e também para os camarões Penaeoidea e Caridea realizado por (Silva et al. 2014). No entanto, até o momento ainda não há registro de estudos sobre os ermitões habitantes da região. Este tipo de estudo fornece uma base para a compreensão da processos que afetam o equilíbrio destas comunidades, bem como dos ecossistemas (Bertini et al. 2004b), e, realizado na região de Macaé, pode revelar o real 34 impacto da ressurgência na distribuição das espécies no ambiente raso costeiro (Sancinetti et al. 2014; Andrade et al. 2014). Considerando as particularidades ocasionadas pelo fenômeno da ressurgência de Cabo Frio, como a elevada concentração de nutrientes da água e a diminuição na temperatura de fundo em certos períodos do ano, este estudo objetivou estruturar a assembleia de ermitões em relação à distribuição espacial e temporal, bem como os índices ecológicos e a influência de fatores ambientais sobre as populações de Paguroidea. MATERIAL & MÉTODOS Área de estudo A cidade de Macaé, localizada no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, é conhecida como “capital nacional do Petroléo”, e devido à sua proximidade com a Bacia de Campos, concentra as principais atividades de exploração e produção, sendo que nesta está localizada a base da Petrobrás (praia de Imbetiba). A Bacia de Campos é a maior província petrolífera do Brasil, responsável por mais de 80% da produção nacional de petróleo, além de possuir as maiores reservas provadas já identificadas e classificadas no Brasil. Essas características, além de impactar diretamente a vida marinha, causam um drástico aumento na população em um curto período, acarretando sérias consequências para o ambiente costeiro. A formação de favelas na região litorânea também pode gerar uma constante poluição decorrente do enriquecimento orgânico oriundo do despejo de resíduos humanos sem tratamento. No município de Macaé também está situada a área de proteção ambiental (APA) do Arquipélago de Santana, composta pelas Ilhas de Santana, 35 Ilha do Francês, Ponta das Cavalas, Ilhote Sul e demais rochedos e lajes. A origem da região remonta ao Cretáceo, sendo formada por rochas gnaisses, granitoides e podendo estar cobertas por depósitos de diversas fases de sedimentação do Pleistoceno (Projeto RADAM, 1983). O vento de Nordeste (NE) é dominante durante o verão, e em decorrência da orientação particular do litoral fluminense, o mesmo afasta a Água Costeira em direção a alto mar, favorecendo a aproximação e afloramento da Água Central do Atlântico Sul (ACAS), uma massa de água fria e rica em nutrientes, que se origina do giro subtropical fluindo para o sul da costa brasileira e alcançando a península conhecida como Cabo de São Tomé (22o S). Tal fenômeno é denominado ressurgência costeira e ocorre durante o verão e primavera (Stramma & England, 1999; Silveira et al. 2000). Durante o inverno, os ventos de Sudoeste dominam e as águas costeiras assumem sua posição usual sobre a plataforma continental (Gonzalez-Rodrigues et al. 1992). Amostragem biológica As coletas foram realizadas mensalmente no período de julho/2008 a junho/2009, em profundidades de 5, 10 e 15 metros de profundidade (denominado neste trabalho como região “inside”), e 25, 35 e 45 metros de profundidade (região “outside”) (Figura 1). Tais transectos estão localizados paralelamente à linha da costa de Macaé, entre a Praia da Barra (41º 37’ W e 22º 17’ S) e a Praia Campista (41º 40’ W e 22º 27’ S). As amostragens foram efetuadas com uma embarcação de pesca camaroeira, equipada com rede de arrasto de fundo do tipo “otter-trawl”, com abertura de 4.5 m, 20 mm entre-nós na panagem e 15 mm no ensacador. Os arrastos foram realizados por um 36 período de 15 min/transecto com o barco em velocidade constante de 2.1 milhas/náuticas por cerca de 1 km de extensão. Depois de cada arrasto, todo o material coletado foi triado, congelado, e transportado para o laboratório, onde foram mantidos até a análise. Os ermitões foram identificados de acordo com Melo (1999). Todos os indivíduos foram contados, removidos manualmente de suas conchas e mensurados quanto ao comprimento do escudo cefalotorácico (CEC) com um paquímetro (0.10 mm). Amostragem dos fatores ambientais No início de cada transecto foram coletadas amostras de água de superfície e de fundo utilizando-se uma garrafa de Van Dorn. A temperatura (oC) foi medida com um termômetro simples de mercúrio e a salinidade por meio de um refratômetro óptico. A profundidade foi determinada por meio de uma corda graduada em metros, presa à garrafa de Van Dorn. Também foram coletadas amostras de sedimento utilizando um pegador do tipo Van Veen (0,05m2), em cada ponto de coleta e em todas as estações do ano. Cada amostra foi devidamente etiquetada e congelada até o momento das análises. No laboratório calculou-se para cada transecto amostrado o teor de matéria orgânica e a textura do sedimento. Para determinar o teor de matéria orgânica, cada amostra obtida de sedimento inicialmente foi descongelada e submetida posteriormente na estufa por 72 horas para secagem. Após este período retirou-se 10g de cada amostra para a análise do teor de matéria orgânica. Cada amostra foi acondicionada em cadinho de porcelana e incinerada a uma temperatura de 500 ºC em uma mufla por 3 horas. A quantidade de matéria orgânica presente em cada amostra correspondeu à diferença entre os 37 pesos inicial e final. Os valores de matéria orgânica foram expressos em porcentagem (Mantelatto & Fransozo, 1999). Para avaliação da textura do sedimento, cada amostra foi descongelada e submetida a uma estufa à 70ºC por 72 horas. Após este período, retirou-se três sub amostras de 100g nas quais se adicionou 250ml de uma solução de NaOH 0,2N por cerca de uma hora a fim de que o silte e a argila se separassem do restante dos grãos. Posteriormente, o sedimento foi lavado em uma peneira de malha 0,063mm, eliminando os dois componentes. Depois de retirar essa porção de sedimento, cada amostra foi levada novamente à estufa onde permaneceu por mais 24 horas à 60ºC para a evaporação total da água existente. Posteriormente, as amostras foram submetidas à técnica do peneiramento diferencial que consiste na passagem do sedimento por uma sequência de seis peneiras. Os diâmetros das malhas das peneiras seguem a escala proposta por Wentworth (1922), onde o sedimento retido foi classificado como: fragmentos biodetríticos (>2mm); areia muito grossa (1[--2mm); areia grossa (0.5[--1mm); areia média (0.25[--0.5mm); areia fina (0.125[--0,25 mm); areia muito fina (0.0625[--0,125mm), e menores partículas classificadas como silte+argila (<0,0625mm). As porções retidas em cada peneira foram pesadas em balança analítica (0,0001g) determinando assim a porcentagem de cada fração granulométrica. A porcentagem total de silte e argila de cada sub-amostra foi a diferença entre o peso inicial (100 g) e o somatório das demais frações calculadas no peneiramento em cada amostra. Em seguida, para cada fração granulométrica calculou-se uma média referentes às 3 sub-amostras. Em seguida, a partir das porcentagens médias de cada ponto, calculou--se a medida de tendência central 38 do sedimento (phi), a qual determina a fração granulométrica mais frequente no sedimento (Suguio, 1973). Tais valores foram calculados com base nos dados extraídos graficamente de curvas acumulativas de distribuição de frequência das amostras do sedimento e, em seguida, aplicada à fórmula M= Φ16 + Φ 50 + Φ 84/3. As classes de tamanho do grão (Phi) são convertidas a partir das escalas de Wentworth (1922) aplicando-se -log2, obtendo deste modo as seguintes classes: areia muito grossa (-1 [-- 0); areia grossa (0 [-- 1); areia média (1 [-- 2); areia fina (2 [-- 3); areia muito fina (3 [-- 4) e silte + argila (> 4) (Tucker, 1988). Analises estatísticas Inicialmente a análise dos dados, os pressupostos de homocedasticidade (Levene, 1960) e normalidade (Shapiro & Wilk, 1965) foram testados. A riqueza (S') foi representada pelo número de espécies presentes na amostra (Krebs, 1989). A diversidade (H’) dos ermitões foi estimada através do índice de Shannon-Wiener (Pielou, 1966), expresso pela fórmula: H'. = ΣSi = 1 (Pi) (ln.Pi), tendo em conta a riqueza e abundância relativa das espécies, onde Pi é o resultado do número de indivíduos de espécies "i" na amostra, dividido pelo número total de indivíduos. Equitabilidade (J’) foi estimada pela equação: J' = H' / log2s indicados por Pielou (1975). A Dominância foi determinada pelo índice de Berger-Parker (Magurran, 1988). A abundância total de cada espécie, para os meses do ano e transectos, foi organizada em uma tabela de contingência de dois fatores, a fim de realizar uma análise de correspondência (CA). As associações observadas de ambas as variáveis (espécies de ermitões vs. distribuição temporal e espacial) foram resumidas pela frequência de cada célula da tabela e, em seguida, colocado em um espaço dimensional geométrico. A significância estatística dos valores e 39 proporção foi avaliada usando o teste do qui-quadrado (χ2), com p-valor (com base em 2000 permutações). A CA foi realizada através da rotina "CA” do pacote "CA" (Nenadic & Greenacre, 2007; Greenacre, 2010). O teste de permutação baseada na análise de variância multivariada (PerMANOVA; Anderson, 2001) testou as diferenças na abundância entre os meses do ano (análise temporal) e entre os transectos (análise espacial), utilizando 2000 permutações dos dados. A análise de variância (ANOVA) foi utilizada para comparar o tamanho médio (CEC) entre as espécies de ermitões, seguido por um teste a posteriori de Tukey (Zar, 1996). Uma Análise de Componentes Principais (PCA) foi utilizada para extrair os padrões subjacentes das variáveis ambientais para cada transecto, utilizando uma matriz de correlação com base nos valores médios dos dados. Para determinar quais os componentes principais seriam utilizados, foi usada a hipótese de aleatoriedade obtida a partir do modelo de Broken Stick (Peres-Neto et al. 2005). As variáveis ambientais com componente de carga ≥ 0.5 foram retidas na descrição dos componentes principais (McCune & Grace, 2002; Maliao et al. 2008). A Análise de Redundância (RDA) foi utilizada para detectar possíveis relações entre as variações na abundância dos grupos demográficos e as variáveis ambientais mensuradas. A RDA produz escores finais de coordenação que resumem a relação linear entre as variáveis explicativas e de resposta (Jongman et al. 1995). O teste de permutação (teste de Monte Carlo, 2000 permutações), forneceu os valores de p, verificando a validade dos eixos na PCA, e para verificar a relação linear entre a resposta e matrizes explicativas, e associação entre os escores da primeira e segunda matriz na análise de ordenação RDA (McArdle & Anderson, 2001). Os valores de p dos testes de 40 permutação indicam o nível de confiança nas previsões (Peck, 2010). Para realização da PerMANOVA, PCA e RDA foi utilizado o pacote “vegan” (Oksanen et al. 2013). Todas as análises multivariadas foram feitas utilizando o software estatístico R (R Development Core Team, 2013). RESULTADOS Variáveis ambientais Todos os fatores ambientais mensurados foram reduzidos em dois eixos principais (PC´s), explicando 71.4% da variabilidade total dos dados, sendo que a ordenação evidenciou a distinção ambiental espacial entre as duas áreas amostradas na região: “interna” e “externa” (Fig. 2). O teste de permutação de Monte Carlo indicou que a variação capturada pelas regressões e eixos da PCA foi significativa (Tab. 1). O PC 1 capturou principalmente a variação espacial tendo correlacionando-se positivamente com a temperatura de fundo e as frações mais grosseiras do sedimento (AF, AM, AG, AMG e BDF), enquanto as frações mais finas (AMF e S+A), matéria orgânica e o tamanho médio do grão (Phi) correlacionaram-se negativamente com o mesmo eixo (Tab. 1). Em relação ao segundo eixo (PC 2), este relacionou-se positivamente somente com a temperatura de superfície, e negativamente com a salinidade de fundo e de superfície (Tab. 1). Analisando-se a ordenação gerada pela PCA (Fig. 2) é possível notar a formação de dois grupos, considerando um gradiente de profundidade. Em tal gradiente, os transectos mais profundos (área externa), apresentaram uma homogeneidade ambiental considerável em relação à área interna, apresentando valores estáveis de S+A, AMF, MO e Phi ao longo do 41 tempo e entre as profundidades (Fig. 3). Já área interna apresenta grandes oscilações temporais e espaciais, principalmente na temperatura de fundo e nas frações do sedimento mais grosseiras (areia fina, média, grossa, muito grossa e fragmentos biodetríticos) (Fig. 2), sendo as principais oscilações temporais registradas durante as estações do verão e outono (Fig. 2; Fig. 4). A distinção evidenciada na PCA, foi também capturada pela PerMANOVA, tendo em vista que todos os fatores ambientais diferiram entra as áreas (Tab. 2). Temperatura e salinidade de superfície diferiram em relação às estações do ano, enquanto Phi, MO, SF e as frações do sedimento diferiram em relação às profundidades. O único fator ambiental que foi diferente entre o tempo e a batimetria foi a temperatura de fundo (Tab. 2; Fig. 4). Relação entre a assembleia e variáveis ambientais O teste de permutação da RDA revelou que os autovalores observados para a análise foram significativos, o que nos permite rejeitar a hipótese nula da existência de nenhuma estrutura entre as matrizes, indicando que os padrões de associação foram identificados (Tab. 3). Os dois primeiros eixos de RDA representaram 52.6 % da variação das espécies da assembleia (Fig. 5). As correlações entre as variáveis ambientais e os eixos da ordenação mostram que a TF, MO e as frações do sedimento apresentaram maior relação com a distribuição das espécies e com o RDA 1. Em contrapartida, SS foi o único fator a se relacionar com o RDA 2 (Tab. 3). Na ordenação é possível observar preferencias distintas entre as espécies de ermitões que compõe a assembleia, mesmo com todas relacionando-se com o RDA 1 (Fig. 5), a espécie L. loxochelis demonstra uma relação direta com AF, e outra inversa ao S+A e AMF, enquanto 42 D. insignis apresenta uma maior relação com MO e AMG. Já a ocorrência do ermitão P. exilis respondeu principalmente as variações da TF (Fig. 5). Abundância: a variação espaço-temporal Após 72 arrastos, foram capturados 591 ermitões, pertencentes a quatro espécies: P. exilis (Benedict, 1892), L. loxochelis (Moreira, 1901), D. insignis (Saussure, 1858) e Petrochirus diogenes (Linnaeus, 1758) (Tab. 4). A espécie mais abundante foi P. exilis (PerMANOVA; df = 3; MS = 4355.4; F = 17.038; P = 0.001) seguido sem significância por L. loxochelis e D. insignis. Em relação a abundancia temporal não houve diferença entre os meses (df = 11; MS = 586.53; F = 0.56029: P = 0.677), porém em relação a distribuição batimétrica a abundancia diferiu entre as profundidades amostradas (df = 5; MS = 626.56; F = 3.8913; P = 0.004) (Tab. 4), corroborando com a diferença encontrada entre as áreas (df = 1; MS = 2926.1; F = 18.907; P = 0.001). Os índices ecológicos oscilaram de acordo com a espécie que foi mais dominante P. exilis, devido à sua abundância consideravelmente maior (Tab. 4). A análise de correspondência (CA) para a assembleia evidenciou a maior abundancia da espécie P. exilis em relação às demais. Todavia demonstrou também uma segregação espacial, onde P. exilis e D. insignis, ocorreram principalmente nos transectos de 25, 35, 45 m, que correspondem a área externa, enquanto L. loxochelis habitou principalmente os transectos mais rasos 5, 10, 15 m, ou seja, a parte interna da enseada (Fig. 6a). Em relação à análise temporal a CA mostrou uma maior ocorrência de P. exilis, principalmente nos meses do outono e verão, enquanto D. insignis foi mais capturado durante o inverno e L. loxochelis teve sua maior ocorrência ao longo da primavera (Fig. 6b). 43 Tamanho Em relação ao tamanho das espécies (Fig. 7), o maior indivíduo capturado foi representado pela espécie D. insignis (CEC = 18.9 mm), enquanto o menor foi da espécie P. exilis (CEC = 1.6 mm). Em relação ao tamanho médio das espécies, D. insignis foi maior, seguida por L. loxochelis e consequentemente a espécie P. exilis (Fig. 7). 44 Tabela 1. Resumo do resultado da Análise de Componentes Principais (PCA). Números em negrito indicam maior correlação. Componentes PC 1 PC 2 Resumo da Análise Porcentagem de variação explicada 57.49 13.91 Teste de Monte Carlo (p-value) 0.001 0.005 Variáveis ambientais Temperatura de fundo (BT) 0.689 -0.073 Temperatura de superfície (ST) 0.482 0.664 Salinidade de superfície (SS) -0.511 -0.725 Salinidade de fundo (BS) -0.374 -0.817 % de matéria orgânica (OM) -0.855 0.244 Phi -0.878 0.151 Fragmentos biodetríticos (BDF) 0.361 -0.091 Areia muito grossa (VCS) 0.856 -0.117 Areia grossa (CS) 0.948 -0.107 Areia média (MS) 0.933 -0.139 Areia fina (FS) 0.892 -0.077 Areia muito fina (VFS) -0.812 0.034 Silte e argila (S+C) -0.884 0.1633 45 Tabela 2. Resultados da análise MANOVA baseada no teste de permutação não paramétrico (PerMANOVA) das variáveis ambientais por ano, estações, área e transectos. Os números em negrito indicam que diferiram estatisticamente (p < 0.05). (d.f. = grau de liberdade; SS = soma dos quadrados; MS = média dos quadrados ; F = pseudo-F) Variação analisada d.f. SS MS F p d.f. SS MS F p Temperatura de superfície Temperatura de fundo Estação 3 5.23E-02 1.74E-02 20.084 0.001 3 1.71E-02 5.70E-03 3.4211 0.026 Transectos 5 1.08E-02 2.15E-03 1.4104 0.21 5 8.9905 1.7981 33.431 0.001 Area 1 8.58E-03 8.58E-03 5.8364 0.015 1 7.2221 7.2221 95.059 0.001 Salinidade de superfície Salinidade de fundo Estação 3 4.93E-02 1.64E-02 4.0215 0.01 3 8.23E-03 2.74E-03 1.972 0.123 Transectos 5 4.44E-02 8.87E-03 2.0725 0.068 5 71.773 14.355 3.4722 0.006 Area 1 3.91E-02 3.91E-02 9.523 0.004 1 6.66E-03 6.66E-03 4.8493 0.022 Tamanho médio do grão (Phi) Matéria orgânica Estação 3 0.22167 7.39E-02 0.7507 0.565 3 0.9422 0.31407 1.9584 0.093 Transectos 5 4.3131 0.86261 21.882 0.001 5 7.4023 1.4805 21.982 0.001 Area 1 3.7467 3.7467 82.784 0.001 1 6.7802 6.7802 93.665 0.001 Frações do sediment Estação 3 0.29306 9.77E-02 0.54238 0.736 Transectos 5 8.9905 1.7981 33.431 0.001 Area 1 7.2221 7.2221 95.059 0.001 46 Tabela 3. Resumo do resultado da Análise de Redundância (RDA) para cada espécie de ermitão. Valores dos eixos são as correlações entre as variáveis e o eixo de ordenação. Valores em negrito indicam alta correlação. Eixos p (Permutação de Monte-Carlo) RDA1 RDA2 Resumo dos resultados estatísticos dos eixos de ordenação Autovalor (inércia total = 0.524) 0.219 0.266 0.008 Variação explicada acumulativa (%) 41.8 52.6 Correlação entre espécies selecionadas 0.74 0.51 0.008 D. insignis 0.548 0.016 L. loxochelis -0.719 -0.657 P. exilis 1.081 -0.458 Temperatura de fundo (BT) -0.775 0.244 Salinidade de fundo (BS) -0.077 -0.274 % de matéria orgânica (OM) 0.832 0.137 Fragmentos biodetríticos (BDF) -0.166 0.091 Areia muito grossa (VCS) -0.835 0.118 Areia grossa (CS) -0.917 -0.061 Areia média (MS) -0.913 -0.253 Areia fina (FS) -0.844 -0.322 Areia muito fina (VFS) 0.591 0.467 SSilte e argila (S+C) 0.697 0.301 47 Tabela 4 – Valores mensais e batimétricos dos índices ecológicos e da abundância da assembleia de ermitões coletados durante o período de estudo (Julho/2008 a Julho/2009) na região de Macaé. Indices ecológicos Abundância de ermitões Meses Riqueza Diversdade Equitabilidade Dominância D. insignis L. loxochelis P. diogenes P. exilis Total 20 08 Julho 2 0.46 0.79 0.83 8 38 46 Agosto 2 0.30 0.68 0.91 4 40 44 Setembro 3 0.85 0.78 0.67 15 12 56 83 Outubro 3 0.85 0.78 0.54 2 22 17 41 Novembro 2 0.20 0.61 0.95 1 19 20 Dezembro 3 0.92 0.84 0.61 5 9 22 36 20 09 Janeiro 3 0.35 0.47 0.91 7 3 103 113 Fevereiro 2 0.39 0.74 0.87 3 20 23 Março 4 0.40 0.37 0.91 3 1 1 49 54 Abril 3 0.69 0.67 0.66 1 29 58 88 Maio 3 0.44 0.52 0.88 1 1 15 17 Junho 2 0.36 0.72 0.88 3 23 26 Total 4 0.68 0.50 0.78 49 81 1 460 591 Transectos In te rn a 5m 2 0.466 0.7968 0.8235 - 14 - 3 17 10m 1 0 1 1 - 28 - - 28 15m 3 0.8788 0.8026 0.619 2 13 - 6 21 E xt er na 25m 3 0.4728 0.5348 0.8706 13 9 - 148 170 35m 3 0.4367 0.5159 0.8821 8 17 - 187 212 45m 3 0.5144 0.5575 0.8112 26 - 1 116 143 Total 4 1.04 0.56 0.71 49 81 1 460 591 48 Figura 1. Área de estudo evidenciando a região de ressurgência e área de amostragem. Localização das estações (5 - 45 m de profundidade) e as principais correntes oceânicas do Atlântico Sul. ACC: Corrente Circumpolar Antártica, MC: Corrente das Malvinas, CSA: Corrente Atlântico Sul, SEC: Corrente Sul Equatorial, BC: Corrente brasileira (Modificado de Peterson & Stramma, 1991). 49 Figura 2. Análise de Componentes Principais relacionando os fatores ambientais de cada transecto e cada estação do ano. As cores dos símbolos indicam as estações (Preto = verão; Cinza escuro = outono; Cinza claro = inverno; Branco = Primavera). Tomar como referência a Tabela 1 para códigos de cada variável ambiental. 50 Figura 3. Caracterização dos transectos por estação do ano de acordo com as proporções das classes granulométricas (A, B, C), tamanho médio do grão (Phi), e media de teor de matéria orgânica (% OM). A = cascalho, areia muito grossa, grossa e média; B = areia fina e muito fina; C = silte + argila. 51 Figura 4. Valores mínimos, máximos, média e desvio padrão das temperaturas de fundo, superfície e salinidade mensais coletadas na região de Macaé. 52 Figura 5. Biplot da Análise de Redundância (RDA) das variações dos fatores ambientais (indicado por setas sólidas) e espécies de ermitões. Referir à Tabela 3 para códigos de cada espécie e variáveis ambientais. 53 Figura 6. Análise de Correspondência (CA) para a abundância (a) mensal e (b) batimétrica das espécies de ermitões capturados na região de Macaé. Os valores de χ2 encontrados em cada figura indicam o resultado da CA e a significância estatística das proporções. Win = inverno; Spr = primavera; Sum = verão; Aut = outono. D. ins = D. insignis; L. lox = L. loxochelis; P. exi = P. exilis; P. dio = P. diogenes. 54 Figura 7. Tamanho mínimo, máximo, média e desvio padrão dos indivíduos de cada espécie de ermitão capturados na região de Macaé. F = resultado do teste de anova. Letras diferentes indicam diferença significativa entre os tamanhos Segundo o teste à posteriori de Tukey (p < 0.01). D. ins = D. insignis; L. lox = L. loxochelis; P. exi = P. exilis; P. dio = P. diogenes. 55 DISCUSSÃO Vários autores apontam que variáveis ambientais como temperatura, salinidade e composição de substrato, desempenham um papel importante na estruturação ecológica de muitos crustáceos decápodes (Pires, 1992; Fransozo et al. 2002; Bertini & Fransozo, 2004; De Léo & Pires-Vanin, 2006; Fransozo et al. 2008; Muñoz et al. 2008). As variações temporais observadas na composição e abundância, bem como na distribuição batimétrica dos ermitões na região de Macaé, refletem um fenômeno ambiental regional, que afeta diferentemente cada espécie. Segundo Sumida & Pires-Vanin (1997), as mudanças na fauna bentônica ao longo de um gradiente latitudinal no sudeste do Brasil é devido a estabilidade dos sedimentos e das massas de água. Como observado, os dois eixos interpretados da PCA realizada por transectos e meses, explicaram mais do que 70% da variância dos fatores ambientais, e evidenciou as maiores variações ambientais durante as estações do verão e outono (veja Fig. 2), principalmente na temperatura da água e no aumento nos valores de matéria orgânica. A região de Macaé está exposta a ação constante dos ventos, fazendo com que as oscilações sazonais entre os fenômenos de ressurgência e subsidência, bem como os instáveis aportes de nutrientes inorgânicos (Purcell, 2005), influenciem a estrutura biológica da região. A temperatura de fundo é uma das influências mais fortes sobre essa estrutura porque se mantem abaixo de 20 °C durante parte do ano, a salinidade também apresenta valores acima de 36, chegando a 38 durante os meses de outono. De acordo com De Léo & Pires-Vanin (2006), estas características decorrem da elevação térmica, respondendo a entrada e saída de ACAS e de 56 distúrbios mecânicos gerados por ondas de entrada e frentes frias. Além disso, a chegada dessa massa d’água eleva a produção primária, aumentando a biomassa bentônica. A heterogeneidade de habitats, que se alteram em escalas temporais e espaciais, determinam a complexidade e consequentemente a composição do sedimento, influenciando a formação dos micro-habitats, que sustentam uma alta diversidade nos organismos, principalmente quando exclusivamente bentônicos como alguns decápodos (Pires, 1992; Pires-Vanin & Sumida, 1997; Arasaki et al. 2004; De Léo & Pires-Vanin, 2006; Fransozo, et al. 2008; Frameschi et al. 2014a; Andrade et al. 2015). A falta de heterogeneidade num habitat e nos recursos nele encontrados limitam o número de nichos disponíveis, causando diminuição na composição e abundância dos organismos bentônicos (De Grave & Barnes, 2001; Leite et al. 1998; Turra & Leite, 2000). Da mesma maneira, restringem a ocupação de espécies a pequenas áreas que atendem suas exigências ecológicas. No presente estudo as espécies de ermitões ocuparam áreas distintas e bem definidas, diminuindo não só a competição por território, como principalmente a disputa intra e interespecífica por conchas de gastrópodos (Frameschi et al. 2013a; 2014). De acordo com Pardo et al. (2007) o dimorfismo no tamanho apresentado pelas espécies que compõe a assembleia aqui estudada auxilia na coexistência, fazendo com que a riqueza e a abundância seja estável na região, uma vez que a competição por conchas será mais intensa somente nas fazes inicias, diminuindo de acordo com o estágio de desenvolvimento ontogenético de cada espécie. A presença de 57 conchas vazias de gastrópodes é limitante para o estabelecimento e a coexistência entre estes organismos (Bertness, 1980; Hazlett, 1981) Por ser uma área de afloramento, as oscilações na composição do sedimento na região de Macaé são intensas, caracterizando uma alta taxa de sedimentação (Mahiques et al. 2002). Neste estudo foi observado a formação de duas áreas distintas (interna e externa), que mesmo estando próximas, apresentam uma composição de sedimento completamente distintas, tendo em vista a existência do Arquipélago de Sant’Anna no centro da enseada (veja Fig. 1), o qual impede a chegada da sedimentação e matéria orgânica proveniente de regiões profundas até a área interna da enseada. Além disso, as mudanças na topografia da costa e os ventos induzem a ressurgência e agem sobre a dinâmica das massas de água e, por isso, causam altas taxas de deposição de matéria orgânica e de sedimentos finos (Mahiques et al. 2002). Recentemente, Andrade et al. (2015) avaliaram a estrutura da assembleia de Portunídeos em três regiões do litoral brasileiro, afetadas por diferentes fenômenos ambientais, e encontraram mudanças abruptas na riqueza e abundância de espécies-chave das assembleias, especialmente na região de Macaé. Os referidos autores justificam tais mudanças às alterações na composição do sedimento, temperatura e salinidade, principalmente no verão e outono, como o registrado ao longo do período de estudo da assembleia de ermitões. Ainda de acordo com estes autores houve um aumento no número de espécies nessas estações em Macaé, devido principalmente a temperatura fria da água, causada pela entrada da ressurgência e da ACAS, no verão e outono. 58 Os estudos que quantificam e avaliam a estrutura da assembleia de ermitões são escassos, principalmente quando considerando o substrato não consolidado. De Grave & Barnes (2001) avaliaram a composição da assembleia de ermitões tropicais nas ilhas Quirimbas em Moçambique, no oceano índico, e registraram 10 espécies coexistentes. Estes autores atribuíram o alto número de espécies à segregação espacial e à disponibilidade de micro-habitats. Em consonância a este relato, estudo de Fransozo et al. (2008) registrou a presença de 13 espécies de ermitões no substrato não consolidado em Ubatuba, região subtropical do Brasil, sendo que estes autores também atribuíram a alta diversidade na região à proteção fornecida pelo baixo hidrodinamismo dentro das enseadas, à temperatura da água, e à proteção fornecida por costões rochosos, o que aumentao o número de refúgios e diminui a influência do mar aberto. O mesmo foi encontrado para braquiúrus e camarões Dendobranchiata, na mesma região, por Bertini et al. (2004b), Braga et al. (2005) e Costa et al. (2000). Segundo Barnes et al. (2007), regiões fora do âmbito tropical e subtropical sofrem com uma baixa diversidade, atribuindo este fator à temperatura. Ao avaliar os ermitões na costa ocidental de Spitsbergen (arquipélago de Svalbard) e noroeste da Noruega, os autores supracitados registraram apenas 3 espécies, sendo apenas Pagurus pubescens Krøyer, 1838 com ampla distribuição e grande abundância. Esta característica foi registrada para a assembleia estudada, onde uma única espécie, P. exilis, apresentou ocorrência constante e alta abundância. Para este caso é possível inferir que a temperatura altera as condições em Macaé, limitando a chegada e permanência de espécies de águas mais quentes, como D. insignis, 59 que é a espécie mais capturada no substrato não consolidado do sudeste e sul do litoral brasileiro (De Léo & Pires-Vanin, 2006; Fransozo et al. 1998; 2008; 2011; Frameschi et al. 2014). Este ermitão é a espécie mais abundante nos estudos de levantamento da fauna bentônica do sudeste brasileiro (Hebling et al. 1994; Negreiros-Fransozo et al. 1997; Ayres-Peres et al. 2008) e ocorre em quase todo o Atlântico ocidental, desde a Carolina do Norte (EUA) até a Argentina. No Brasil, ele é distribuído do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, ao longo de um gradiente de ampla profundidade, variando de 5 a 500m (Melo, 1999). Um único exemplar de P. diogenes foi capturado, esta espécie distribui-se no Atlântico Ocidental, desde a Carolina do Norte até o golfo do México, Antilhas, Venezuela, Suriname, Brasil (do Amapá até o Rio Grande do Sul) e Uruguai (Melo, 1999). As espécies mais abundantes e representativas nesta assembleia foram P. exilis e L. loxochelis, ambas são endêmicas do sudoeste do Atlântico, e ocorrem no Brasil (Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul), Uruguai e Mar Plata (Argentina). De acordo com Melo (1999) e Boschi (2000), menos de 6% dos crustáceos decápodos são endêmicos no Atlântico Sul. Estudos que avaliaram a distribuição ecológica de L. loxochelis (Mantelatto et al. 2004; Bertini et al. 2004) e P. exilis (Meireles et al. 2006; Terossi et al. 2010), apontaram o sedimento e a temperatura da água como fatores limitantes para sua ocorrência. A relação que observamos entre L. loxochelis e o sedimento (areia muito fina) pode ser explicada pelo comportamento de se enterrar, e também como um recurso alimentar, sendo que esta espécie é considera “filtradora”, ou seja, se alimenta de partículas suspensas na água (Fransozo et al., 1998; Mantelatto et al. 2004). A afinidade de P. exilis com a temperatura de fundo 60 também foi reportada por Scelzo & Boschi (1973), que registraram na costa Argentina a ocorrência de P. exilis entre 8 e 25o C de temperatura de fundo. De acordo com Terossi et al. (2010), populações desta espécie sofrem alterações quanto ao tamanho e estratégias reprodutivas devido alterações na temperatura. O número de espécies que constituem a assembleia de ermitões do substrato não consolidado, na região de Macaé, pode ser considera reduzida quando comparado a outras regiões tropicais e subtropicais. Entretanto, tal região apresenta características distintas devido a influência do fenômeno da ressurgência, principalmente na temperatura da água, sendo este um fator limitante na distribuição de muitas espécies. Levando em consideração que a região aqui estudada explora exclusivamente o ambiente marinho e possui grande importância para a economia regional e nacional, estudos de levantamento da fauna são primordiais para identificar a presença de espécies endêmicas. As informações aqui apresentadas, como a coexistência entre os ermitões, aliados a estudos já realizadas na região de Macaé, induzem a preservação da biodiversidade marinha, focando na conservação e criação de áreas de proteção. 61 REFERÊNCIAS Amaral, ACZ. & Jablonski, S. 2005. Conservation of Marine and Coastal Biodiversity in Brazil. Conservation Biology, 19(3): 625–631. Anderson, MJ. 2001. A new method for non-parametric multivariate analysis of variance. Aust. Ecol., 26, 32–46. Andrade, L. S., Frameschi, I. F., Castilho, A. L., Costa, R. C., & Fransozo, A. 2014. Can the pattern of juvenile recruitment and population structure of the speckled swimming crab Arenaeus cribrarius (Decapoda: Brachyura) be determined by geographical variations? Marine Ecology. DOI: 10.1111/maec.12188 Andrade, LS; Frameschi, IF; Costa, RC; Castilho, AL & Fransozo, A. 2015. The assemblage composition and structure of swimming crabs (Portunoidea) in continental shelf waters of southeastern Brazil. 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