unesp UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” Faculdade de Ciências e Letras Campus de Araraquara - SP AMÁLIA VISIONI CASETO JJJOOOSSSÉÉÉ FFFEEELLLIIICCCIIIAAANNNOOO DDDEEE CCCAAASSSTTTIIILLLHHHOOO EEE AAA TTTRRRAAADDDIIIÇÇÇÃÃÃOOO CCCLLLÁÁÁSSSSSSIIICCCAAA NNNOOO SSSÉÉÉCCC... XXXIIIXXX::: os adágios de Publílio Siro ARARAQUARA – S.P. 2015 AMÁLIA VISIONI CASETO José Feliciano de Castilho e a Tradição Clássica no Séc. XIX: os adágios de Publílio Siro Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado ao Conselho de Curso de Letras, da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Letras. Orientador: Prof. Dr. Brunno Vinícius Gonçalves Vieira Bolsa: CNPq/PIBIC ARARAQUARA – S.P. 2015 AMÁLIA VISIONI CASETO JJJOOOSSSÉÉÉ FFFEEELLLIIICCCIIIAAANNNOOO DDDEEE CCCAAASSSTTTIIILLLHHHOOO EEE AAA TTTRRRAAADDDIIIÇÇÇÃÃÃOOO CCCLLLÁÁÁSSSSSSIIICCCAAA NNNOOO SSSÉÉÉCCC... XXXIIIXXX::: os adágios de Publílio Siro Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) apresentado ao Conselho de Curso de Letras, da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Letras. Orientador: Prof. Dr. Brunno Vinícius Gonçalves Vieira Bolsa: CNPq/PIBIC Data da defesa/entrega: ___/___/____ MEMBROS COMPONENTES DA BANCA EXAMINADORA: Presidente e Orientador: Nome e título Universidade. Membro Titular: Nome e título Universidade. Membro Titular: Nome e título Universidade. Local: Universidade Estadual Paulista Faculdade de Ciências e Letras UNESP – Campus de Araraquara AGRADECIMENTOS Agradeço, em primeiro lugar, aos meus pais pelo carinho e por estarem sempre presentes. Ao meu orientador, Prof. Dr. Brunno V. G. Vieira, pela confiança em mim depositada, pelos conhecimentos transmitidos, pela paciência e dedicação. Ao meu irmão, por ser sempre um exemplo. A todas da casa amarela, Giovanna, Giuliana, Licia e Marília, por me aguentarem por tanto tempo! A Eduarda, Alice e Sérgio, pela amizade e companheirismo, e também à Júlia, mesmo estando longe. Aos diletos colegas latinistas, Ewerton e Jéssica, por nunca me deixarem sozinha nas aulas! Ao meu namorado Flávio, pelo amor e pela paciência. A Grace, por gentilmente revisar o meu resumo em inglês. E também a CNPq, por financiar minha pesquisa. ―Quem não conhece a arte, não na-estima‖. José Feliciano de Castilho (1862, p.202) RESUMO Este trabalho procura dar continuidade ao inventário, estudo e divulgação da obra tradutória de José Feliciano de Castilho, distinto luso-brasileiro que conta com vasta obra de filólogo, latinista e tradutor de latim. Neste caso, o foco foi a transcrição e análise da tradução da primeira metade dos adágios de Publílio Siro, presentes na Grinalda da Arte de Amar (OVÍDIO, 1862, p. 202-12). A fim de elaborar um estudo empírico de caráter analítico desses adágios, primeiramente foi feita uma tradução de serviço dos adágios em latim, também presentes na Grinalda da Arte de Amar. Na etapa seguinte, elaborou-se a escansão e levantamento das figuras de linguagem da tradução castilhiana. A partir da seleção de textos acerca de adágios, sobretudo Os provérbios e os ditados de Greimas (1975), finalmente, foi feita a análise da tradução. As figuras estilísticas encontradas, como a rima interna, assonância, aliteração e paralelismos, entre outras, em conformidade com a estrutura rítmica binária dos adágios (oposição de duas orações ou de palavras dentro de uma oração) de que fala Greimas, juntamente com os metros utilizados, todos regulares ao português, de acordo com o Tractado de Metrificação Portugueza de António Feliciano de Castilho (1851), permitiu a constatação de que não se observa por parte de tradutor uma preocupação com uma fidelidade filológica. Tendo em vista a caracterização greimasiana estrutural dos adágios (1975), pode-se perceber que a tradução reproduz a estrutura própria a textos desse tipo. Foi possível, dessa forma, verificar que se tratava de uma tradução poética, empenhada em reproduzir os expedientes linguísticos presentes no adágio e que para a versão portuguesa desses textos, o tradutor tomou como base adágios que eram correntes no seu contexto cultural e linguístico e que se aproximavam ao sentido dos originais latinos. Palavras – chave: Adágios. Publílio Siro. José Feliciano de Castilho. Tradução. Latim. ABSTRACT This monograph aims to continue the research, study and publication of translations and studies on classical themes by José Feliciano de Castilho, a distinguished Portuguese- Brazilian author, who produced a great work as a philologist, a latinist and a translator. This paper focuses on the transcription and analysis of the first half of proverbs by Publius Syrus, as they are found inside the Grinalda da Arte de Amar (OVÍDIO, 1862, p. 202-12). The elaboration of the analitical study consists, first, on the verbal translation of the latin proverbs, also found in the Grinalda da Arte de Amar. Next, the metric escansion and listing of stylistic figures content on the proverbs was provided. From the selection of texts on proverbs, specially Os provérbios e os ditados de Greimas (1975), at last, the analysis was built. All the stylistic figures found, such as internal rhymes, assonance, alliteration, parallelism, among others, all in accordance to the binary rhythmic structure (the opposition of two clauses or two words inside a clause) as pointed by Greimas, along with the metric patterns, all according to the Portuguese metric tradition, as appointed in the Tractado de Metrificação Portugueza de António Feliciano de Castilho (1851), allowed the observation that the translator did not seek philological accuracy. In view of Greimas‘ reflections on the proverbs‘ structure (1975), it was possible to recognize that the translation reflected the estructure of such texts. Thus, it could be verified that this was a poetic translation, in which the translator tried to reproduce some linguistic devices common to the proverbs, and for that, he considered Portuguese proverbs which were current to his cultural and linguistic environment and which deal with the meaning of the Latin source. Keywords: Proverbs. Publilius Syrus. José Feliciano de Castilho. Translation. Latin. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 9 1.1 Metodologia 10 2. AUTORIA E HISTÓRIA DO TEXTO 12 3. PAREMIOLOGIA 13 3.1 Greimas 13 3.2 Texto Proverbial Português 14 3.3 António Manuel Lopes Andrade 16 3.4 O Religandum 17 4. QUESTÕES DE TRADUÇÃO 18 4.1 Tradução de provérbios 5. Adágios de Publílio Siro, na tradução de José Feliciano de Castilho (edição diplomática) 19 5.1 Escansão e levantamento de figuras estilísticas do córpus 5.2 Tradução de serviço 5.3 Breves considerações conjunturais sobre a tradução 28 CONSIDERAÇÕES FINAIS 46 REFERÊNCIAS 47 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 48 1. INTRODUÇÃO Buscando contribuir com a pesquisa de traduções lusófonas dos clássicos greco- romanos e com a recepção desses textos em nossas letras, o projeto José Feliciano de Castilho e a tradição clássica no séc. XIX procura inventariar, estudar e divulgar a obra tradutória e os estudos sobre temas clássicos de José Feliciano de Castilho1. Trata-se de um distinto luso-brasileiro – como bem definiu o seu biógrafo Hélio Vianna (1950, p. 482) – que viveu no Rio de Janeiro de 1847 até sua morte em 1879. Ele possui uma obra vastíssima de filólogo, latinista e tradutor de latim como bem testemunham as edições comentadas dos quinhentistas Fernão Mendes Pinto e João de Lucena, os estudos sobre a obra de Camões e Bocage, os comentários a Virgílio e Ovídio, além das traduções de excertos de Propércio, Virgílio, Marcial, Lucano, Sêneca e Publílio Siro. Em 1858 vem a lume sua obra mais notável no campo dos estudos greco-romanos, trata-se da monumental edição dos Amores de Ovídio composta pela tradução – ou paráfrase, como os autores preferem chamá-la – de Antônio Feliciano de Castilho em 3 volumes e pela ―Grinalda Ovidiana‖ redigida por Castilho José, um compêndio de notas, comentários e referências intertextuais de Ovídio que perfaz um total de 8 volumes, 785 páginas. A Grinalda Ovidiana recebeu elogios do romancista Joaquim Manuel de Macedo no necrológio que dedica a Castilho José, seu confrade no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, resenha com entusiasmo essa obra de latinista: Na Grinalda Ovidiana, apêndice à paráfrase dos Amores, José Feliciano revelou-se latinista de profundo conhecimento da língua de Cícero, de Horácio, de Virgílio e de Plutarco (sic); foi feliz demais na mestria com que reproduziu completas, vivas, no português, as frias belezas de Ovídio, que, desterrado no Ponto, oferecia ao ótimo e ilustrado tradutor o maravilhoso tesouro das mais enlevadoras e sublimes melancolias e saudades do poeta no seu livro das tristezas, os Tristes” (MACEDO, 1879, p. 312). Depois dessa obra publicou-se em 1862 a edição da Arte de Amar também traduzida por Antônio Feliciano de Castilho (Tomo I) e anotada por Castilho José (Tomo II e III). Nesses comentários intitulados Grinalda da Arte de Amar encontram-se outras tantas traduções espalhadas pelas anotações ao texto de Ovídio, como é o caso da cena final do 1Castilho José, como era conhecido no meio jornalístico e literário (nome que adotaremos doravante), era irmão do poeta Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875), figura central do Romantismo em Portugal. A proximidade dos nomes já levou ao equívoco críticos renomados como Alfredo Bosi (cf. 1997, p. 149). Tiestes de Sêneca (p. 161-6) e dos adágios de Publílio Siro (OVÍDIO, 1862, p. 202-12) e que se encontram na Grinalda da Arte de Amar. Afora as empreitadas tradutórias no terreno da poesia lírica, didática2 e das tragédias senequianas, Castilho José entregou-se também à tradução da Pharsalia, de Lucano, da qual se encontra notícia da publicação de excertos esparsos em periódicos e resta incerto se não caiu no esquecimento uma versão integral. Além do Livro VII da Pharsalia que aparece no Archivo Pittoresco de 1864 e da metade do Livro X que consta em um número da Revista contemporanea de Portugal e Brazil de 1862, temos conhecimento da publicação em jornais brasileiros do Livro I e do livro VI, que saíram respectivamente no Diario Official do Império do Brasil e no Diário do Rio de Janeiro no final de 1864. Terá sido neste último veículo que Machado de Assis tomou conhecimento dos versos do Livro VI, transcritos em um de seus contos3, e é sobre essas traduções que Joaquim Manuel de Macedo asseverou: ―Na versão da Farsália, de Lucano, o conselheiro José Feliciano, julgado pelas obsequiosas leituras que fez em reuniões de amigos capazes de apreciá- lo, firmou muito mais sua autoridade como latinista, fez reviver Lucano em português puríssimo com a mesma inspiração, o mesmo sentimento, a mesma beleza e a mesma energia dos versos daquele poeta‖ (MACEDO, 1879, p. 313). Este trabalho se volta à transcrição e análise de metade dos 170 adágios de Publílio Siro traduzidos por Castilho José, presentes na Grinalda da Arte de Amar. 1.1 Metodologia O córpus dos adágios, encontrado entre as páginas 202 e 212 dentro da Grinalda da Arte de Amar (OVÍDIO, 1862), abarca um total de 170 adágios em latim e suas respectivas traduções portuguesas. Neste estudo, trabalhamos com 85 desses adágios. 2 Convém acrescentar no campo da poesia didática uma tradução, com larga introdução e notas, do Moretum poema atribuído a Virgílio, hoje considerado apócrifo e incluído no Appendix Vergiliana cf. CASTILHO, 1860, 349-64. 3 No conto ―A decadência de dois grandes homens‖ lê-se: ―o gato saltou à mesa e avançou para ele [Marco Bruto]. Fitaram-se alguns instantes, o que me trouxe à memória aqueles versos de Lucano, que o Sr. Castilho José nos deu magistralmente assim: Nos altos, frente a frente, os dois caudilhos,/ sôfregos de ir-se às mãos, já se acamparam‖ (ASSIS, 1966, p. 28). Realizou-se a transcrição dos adágios em latim e das traduções dos mesmos (Item 5). Em seguida, foi realizada a tradução de serviço dos adágios em latim (ANEXO 2). Entende- se por tradução de serviço: a que, considerada a enorme distância em que o tradutor moderno se encontra da vida quotidiana e coloquial do idioma do qual deve traduzir, o obriga ao trabalho, frase a frase, em que, por isso mesmo, o resultado da tarefa de traduzir não se distingue muito da análise ou descrição do sistema gramatical. […] As exigências quanto a esse tipo de tradução não vão além dos conhecimentos subministrados pelos gramáticos e gramáticas da tradição e pelas outras obras de referência, no que concerne ao léxico, ou antes, às definições léxicas ali consagradas (LIMA, 2003, p.14). Como suporte para a análise, fizemos a escansão dos versos da tradução castilhiana e marcamos algumas figuras de linguagem encontradas na tradução poética (Item 5.1). Por fim, tomando por base o texto de Greimas sobre provérbios e ditados (1975), traçamos algumas considerações acerca da estrutura dos adágios e da tradução em questão (Item 5.3). 2. AUTORIA E HISTÓRIA DO TEXTO Desde a sua época, Publílio Siro4 divide opiniões. Suas peças (mimos5) não serviam de agrado ao gosto de um crítico como Cícero (Fam. 12.18.1), no entanto, faziam sucesso entre o povo romano, cansado da comédia comum (DUFF, 1954, p.3). Se seus mimos perderam a popularidade, os provérbios neles presentes perduraram. O caráter didático das suas sentenças foi aproveitado desde a escola romana até a Idade Média e o Renascimento (ANDRADE, 2005, p.23). A qualidade de tais textos rendeu-lhe elogios de não menos que Sêneca, o Retor, e seu filho Sêneca e os mesmos chegaram a ser citados por Aulo Gélio e Petrônio. As Sententiae são uma coletânea de cerca de 700 sentenças monósticas, a maioria delas em senários iâmbicos6. Essa coletânea é tradicionalmente atribuída a Publílio Siro, porém não se sabe ao certo se foi ele quem reuniu as sentenças e nem mesmo se todas as sententiae foram recolhidas dos mimos do autor ou ainda se aparecem na coletânea da mesma forma como nos mimos. De todo modo, como arremata António Manuel Lopes Andrade (2005): Apesar de toda a problemática inerente à autoria e gênese desta coletânea de versos de tipo sentencioso, é indiscutível que desde muito cedo várias vozes prestigiadas da cultura romana, como a seguir se verá, elogiaram o uso verdadeiramente notável que Publílio fazia das sententiae nos seus mimos, não deixando mesmo de reproduzir nas suas obras os próprios enunciados atribuíveis ao mimógrafo. (ANDRADE, 2005, p.194) Os 170 adágios transcritos e traduzidos aparecem em um comentário a um adágio presente na Arte de Amar. A transcrição do comentário, em edição diplomática encontra-se no Anexo 1. 4 Publílio Siro era um escravo liberto originário da Síria, como sugere o seu nome. Conta-se que por volta de 45 a.C., Publílio, tendo chegado em Roma para as festas pelo triunfo de César, teria proposto um desafio dramático em que os autores deveriam desempenhar pessoalmente no palco um tema proposto por ele. César, descontente com a mordacidade de outro grande mimógrafo de seu tempo, Labério, teria imposto que ele aceitasse o desafio e depois, humilhado-o aclamando o rival, Publílio. 5 O mimo era um gênero narrativo presente na Grécia e em Roma. Tratava-se de um espetáculo cênico em que se representavam peças que refletiam tipos e costumes da vida diária através de uma linguagem realista, ridicularizando a vida social em tons de gozação; mitologia e política eram assuntos que também faziam parte desse gênero (DUFF, 1954). 6ANDRADE, 2005, p.193. Senários iâmbicos são versos compostos, geralmente, por 6 jambos (uma sílaba breve seguida de uma longa); têm ritmo ascendente. A título de exemplo, encontramos dois versos que seguem essa classificação: Grǎuǐō|rǎ quāe|dām sūnt| rěmědǐǎ| pěrī|cūlīs e Tǎcē|rě nēs|cǐt ī|dēm || quī| nēscīt| lǒquī. 3. PAREMIOLOGIA Para construir um embasamento teórico para o estudo dos adágios, elegemos alguns textos sobre paremiologia. Pudemos descobrir que autores famosos pela sua contribuição aos estudos das letras dedicaram-se ao estudo dos provérbios, sua estrutura e suas características imanentes, como é o caso de Algirdas Julius Greimas. A seguir, expomos a nossa leitura desses textos. 3.1 Greimas Em Os Provérbios e os Ditados (1975), Greimas postula a existência de um domínio semântico independente dos provérbios e ditados, afirmando o ―estatuto formal autônomo de elementos semiológicos‖ dos mesmos. A fim de assegurar tal afirmação, o autor propõe o estudo dos provérbios e ditados como [...] a descrição de um sistema de significação fechado. Bastará considerá-los a todos como significantes e postular para os mesmos um significado global: a descrição esquemática estrutural do plano do significante dará conta das configurações de seu significado (GREIMAS, 1975, p.288). Isto posto, ele sugere a classificação desses sistemas de acordo 1) com as dimensões das unidades sintáticas em que se realizam – oração simples, complexa ou oração sem verbo, e 2) entre elementos conotados e os não conotados – provérbios (conotados) e ditados (não conotados). Na continuação dessa classificação, o autor aponta 3) o caráter arcaico da construção gramatical dos provérbios e ditados – pela ausência do artigo, de antecedente, pela não observância da ordem convencional das palavras e pela presença de alguns caracteres arcaizantes, 4) os tempos e modos utilizados recorrentemente – o presente do indicativo, o imperativo e o imperativo tematizado no presente do indicativo, 5) a estrutura rítmica binária de provérbios e ditados, que se manifesta na oposição de duas orações, na oposição de duas orações sem verbo ou na oposição de dois grupos de palavras no interior da oração (configurando espécies de oposições no plano lexical), e reforçada pela repetição de palavras e confrontação linguística de pares oposicionais de palavras (ex.: ―Em longa caminhada, pequeno fardo pesa‖). Para articular a classificação de ditados e provérbios, Greimas faz, na sequência, a interpretação dos dados obtidos pela mesma. Ele observa que, quanto ao item 3: A formulação arcaizante dos provérbios e ditados intercalados na cadeia do discurso atual vai, ao que parece, remetê-los a um passado não determinado, além de conferir uma espécie de autoridade que provêm da ―sabedoria dos antigos‖. O caráter arcaico dos provérbios, portanto, constitui uma colocação fora do tempo das significações que eles contêm; é um procedimento comparável ao ―era uma vez‖ dos contos e das lendas, destinado a situar no tempo ―dos deuses e dos heróis‖ as verdades reveladas na narrativa. (GREIMAS, 1975, p.294) Quanto ao item 4, o tempo presente utilizado nos provérbios e ditados permite enunciar ―verdades eternas‖ sob formas de simples constatações; já o imperativo assegura uma ―ordem moral‖. Quanto às estruturas binárias (item 5), ―[...] parece sugestivo que a frase, concebida sob a forma binária da modulação pergunta vs. resposta, se apresente como uma estrutura simultaneamente clara e fechada‖ (GREIMAS, 1975, p.294); a repetição da mesma palavra nas duas partes da estrutura proverbial ou de ditados permite que se façam correlações entre as duas sequências articuladas, o que parece contribuir para a ―ordenação do mundo moral que se supõe reger uma sociedade‖; os pares oposicionais chamam a atenção para relações de causalidade, de dependência, assim, eles parecem participar da natureza das coisas e não apenas de comportamentos individualizados. 3.2 Texto Proverbial Português Em sua tese de doutoramento, Ana Cristina Macário Lopes procura entender o ―estatuto híbrido do provérbio‖, texto simultaneamente fechado e aberto: fechado, na medida em que transporta consigo uma interpretação-padrão estável no seio da comunidade; aberto, na medida em que faculta uma multiplicidade de leituras, condicionadas pelas situações em que é invocado (LOPES, 1992 p. 2). Para tanto, em sua tese, a autora descreve as propriedades semânticas e o funcionamento pragmático desses textos. A autora lembra que as maiores fontes de provérbios são os autores célebres de épocas remotas e a Bíblia. Sobre a origem dos provérbios, a autora indica que um provérbio nasce, não no acto da sua invenção, mas no processo da sua absorção pela comunidade, que se concretiza em reutilizações permanentes. Pertença colectiva, o provérbio é, pois, um texto anónimo quando encarado numa perspectiva sincrónica; de um ponto de vista diacrónico, talvez seja mais correcto falar em termos de 'anonimização', na medida em que há sempre uma fonte remota individual responsável pela produção do enunciado (LOPES, 1992, p.1-2). Destaca-se a autonomia semântica desse tipo de texto, o que o diferencia de locuções idiomáticas, e a sua ―expressividade lapidar‖ – texto breve e de conteúdo condensado em que se perpetuam verdades e valores. A função mnemônica desses enunciados, lembra Lopes, se assenta em certas particularidades no plano fónico, nomeadamente rima interna, aliterações, assonâncias ou padrões rítmicos recorrentes. Como assinala Rodegem (1984), os paralelismos fónicos, frequentemente secundados por uma estruturação sintáctica peculiar (nomeadamente frases elípticas, inversão da ordem padronizada dos constituintes de frase e construções paralelísticas), asseguram de algum modo a pervivência deste tipo de texto: as simetrias formais, ao incrementarem a memorização do material significante, contrariam o carácter precário e fugaz do texto oral, que tem tendência a exaurir-se no momento em que é enunciado (LOPES, 1992, p. 12). A parte da tese que nos interessa é a que trata do provérbio como unidade fraseológica – expressões fixas, pré-construídas (não são formadas livremente no ato de fala) que o falante constituem a competência linguística do falante – mais especificamente a parte sobre as contribuições de Greimas em seu artigo Idiotismes, proverbes, dictons (1960). O item 1.1 se destina à leitura da tradução desse artigo para o português. 3.3 António Manuel Lopes Andrade O professor António Manuel Lopes de Andrade dedica um capítulo de sua tese de doutoramento em literatura (―O Cato Minor de Diogo Pires e a poesia didáctica do século XVI‖) a um breve estudo das origens e importância das Sententiae de Publílio Siro e aos Disticha Catonis. Acerca das Sententiae, ―[...] cerca de setecentas sentenças monósticas, a grande maioria das quais em senários iâmbicos e, menos frequentemente, em septenários trocaicos‖. (ANDRADE, 2005, p. 193), Andrade diz que não se sabe se todas elas são de autoria de Publílio Siro e nem mesmo se foram recolhidas dos mimos desse autor, como comumente se diz. A despeito das dúvidas relativas à autoria da coletânea de adágios, o autor assegura o reconhecimento do uso que Publílio fazia dos adágios em seus mimos por parte de autores prestigiados como Sêneca, o Retor, e seu filho Sêneca: A verdade é que Publílio Siro é reconhecido por Sêneca como um poeta exímio capaz de criar sentenças morais de grande valia literária e filosófica, que nem mesmo a sua utilização num tipo de representação tão vulgar como o mimo conseguia ofuscar. Julga-se que as Sententiae de Públilio Siro devem inclusivamente ao mimo uma predileção particular pelas personagens tipificadas próprias da representação teatral como, por exemplo, o avarento ou o embriagado. De outro modo, a própria presença de sentenças antitéticas na coletânea também é, por vezes, justificada como uma reminiscência do contexto da representação em que distintas personagens trocariam sentenças de sentido contrário. (ANDRADE, 2005, p.196) O autor salienta, também, o uso das Sententiae como instrumento didático-pedagógico na educação greco-romana, inclusive a coletânea de adágios pode ter sido criada como um manual de uso escolar. Andrade faz alusão à pesquisa de Cristina Pimentel, que propõe uma análise de temas das Sententiae baseada no confronto de antônimos que interagem entre si: bem x mal que mostram as qualidades morais que o homem deve procurar e/ou critica o que o homem deve rejeitar. Essa visão maniqueísta favorece a memorização desse tipo de enunciado. E como conclusão, Andrade diz: As Sententiae de Publílio Siro caracterizam-se pela sua concisão e por um subtil rigor da estrutura, cuja força central reside frequentemente neste jogo de oposições, marcado com frequência pelo recurso a um leque alargado de figuras de retórica, que fazem do autor um dos mais inspirados cultores de sententiae latinas (ANDRADE, 2005, p.201). 3.4 O Religandum Na busca de mais material de estudo sobre Publilio Siro, encontramos o Religandum, um curso de iniciação ao latim da autoria da Dra. Cristina de Sousa Pimentel, especialista em literatura latina e em história e cultura latina da Universidade de Lisboa. Diante da tradição de ensino de latim a partir de textos canônicos, Pimentel explica a sua escolha de montar um curso de latim tendo como base as Sententiae de Publílio Siro, um autor pouco conhecido: Publílio Siro oferece-nos a possibilidade de organizar um curso de iniciação ao latim diferente de todos os que se têm utilizado até hoje em Portugal. Escolhendo um autor muito pouco conhecido, ignorado até de antologias, programas, manuais de literatura, é possível partir do mais simples para o mais complexo, apresentar e documentar quase tudo que é essencial em morfossintaxe, semântica, lexicologia, cultura (PIMENTEL, 1989, 3). A autora defende o gênero dramático de onde eram retiradas as sentenças: [...] um gênero teatral que ganhara enorme adesão popular em detrimento das ―enfadonhas‖ tragédias e comédias, graças ao apelo que fazia a gestos, linguagens e situações ridículas, quando não obscenas, ou a uma realidade social, quotidiana e até política que interessava mais vivamente o público do século I a.C. O mimo, embora a curto prazo tenha sido preterido na adesão popular em favor da pantomima, evoluiu também no sentido do apelo aos instintos mais primários e agressivos do homem. Pimentel lamenta a desvalorização do ensino de latim na contemporaneidade, em parte, por acharem o aprendizado de uma ―língua morta‖ inútil, em parte por acreditarem ser de difícil aprendizagem, noção herdada dos próprios professores e alunos de latim que querem-no ―elitista‖. Em detrimento desse fato, Pimentel propõe com o Religandum um ensino mais estimulante, tanto para quem ensina, quanto para os que aprendem. Para isso, ela propõe o abandono das velhas práticas como a memorização de exceções e regras para dar lugar a um método que inclui tópicos sobre a evolução do latim ao português e sobre o latim que ainda falamos e que interliga fonética, lexicologia, semântica e cultura. 4. QUESTÕES DE TRADUÇÃO A fim de entendermos melhor as traduções dos adágios feita por Castilho José, além dos textos supracitados, fizemos uma leitura do texto sobre tradução de textos metafóricos, como não raro é o caso dos adágios, da autoria do tradutor e estudioso de tradução, José Paulo Paes. Em Mertáfora e Memória, José Paulo Paes louva o difícil trabalho do tradutor e lamenta as traduções resultantes de equívocos, que não cumprem o papel de equivalência: Cortar caminho, em tradução, significa quase sempre privar o leitor de alguns dos maiores encantos da travessia do texto. Isso acontece sobretudo quando, por não encontrar na língua equivalente adequado para alguma expressão figurada do texto-fonte, o tradutor se contenta em verter-lhe apenas o significado, sem fazer justiça ao torneio verbal. Em tal pecado incorreria, por exemplo, quem, diante de um idiomatismo tão saboroso quanto o nosso ―descascar o abacaxi‖, se contentasse em prosaicamente traduzi-lo por ―to solve a rough problem‖, deslembrado ou ignorante de que existe em inglês idiomatismo equivalente, não menos saboroso, qual seja ‗‗to handle a hot potato‘‘ (PAES, 1990, p. 51). O autor lembra da função poética delineada por Jakobson para explicitar o caráter que uma tradução de provérbios e expressões metafóricas, manifestações populares dessa função, deve ter, uma vez que o modo por que se diz algo torna-se tão importante quanto aquilo que é dito. Daí o provérbio e a expressão metafórica se perpetuarem na memória coletiva como modos de dizer tradicionais, cristalizados, tanto mais quanto a memorabilidade, a tendência ―a reproduzir-se em sua própria forma‖ é, segundo Valéry, o caráter essencial da linguagem poética (PAES, 1990, p. 52). O autor diferencia provérbio – abstrato e generalizante, que invoca a sabedoria, uma espécie de conclusão proveniente da experiência – da locução proverbial – experiência concreta resumida numa fórmula metafórica (imagética) simétrica, diferentemente do provérbio, a locução proverbial não contém um conselho. Paes lembra as ideias de Giambattista Vico que [...] considerava as ―dicções tipicamente populares‖ como ―os testemunhos mais autênticos dos antigos costumes dos povos, celebrados ao tempo em que esses povos se forjavam as próprias línguas‖. Aquilo que ele chamava de ―sabedoria vulgar‖ porque ao alcance dos vulgos, em contraposição à ―sabedoria recôndita‖ dos filósofos, só acessível aos doutos— se comprazia em falar mediante ―fabulazinhas minúsculas‖ ou metáforas, reputadas por Vico o procedimento linguístico fundamental [...] (PAES, 1990, p. 52). Por fim, Paulo Paes enaltece a importância desses estudos mediante o apagamento da memória coletiva pelas criações mais novas ―ainda que menos expressivas ou saborosas, visto na hierarquia de valores do consumismo, o mau de hoje ser sempre preferível ao bom de ontem simplesmente porque é novo‖ (PAES, 1990, p.54). 4.1 Tradução de provérbios Haja vista a grande quantidade de adágios de teor metafórico – ―elementos conotados‖, como os chama Greimas7 – a tradução poética dos mesmos deve levar em conta a transposição cultural da metáfora, que carrega em si aspectos da cultura de que provém. Sobre essa transposição cultural, fala o especialista em tradução e tradutor João Azenha Júnior (2010): É consenso que, no discurso literário, a dimensão criativa da linguagem é considerada eixo de sustentação de um ponto de vista a partir do qual o mundo é lido, reconstruído discursivamente e os personagens são criados. Nesse processo, o emprego peculiar, por vezes inusitado, de recursos linguísticos e não-linguísticos assume um duplo papel: ele não apenas empresta corpo e voz a personagens e situações, como também remete a um ponto de vista, a um olhar que observa e analisa o mundo de um ângulo personalíssimo. Ao fazê-lo, ele sela vínculos com seu entorno e com a cultura que lhe serve de moldura, e é a partir desse compromisso que a própria noção de transferência cultural em textos literários se redimensiona: se reconhecível e aceita para categorias privilegiadas como a dos substantivos, o conceito de marca (ou marcador) cultural em textos literários tende facilmente a se volatizar e a se dispersar, por assim dizer, por toda a tessitura discursiva. Como decorrência disso, a questão da leitura, da recepção por parte daquele que se ocupa do texto literário com os óculos da tradução se desdobra do mero entretenimento, da mera fruição, para a identificação e análise desses usos linguísticos significativos que sustentam uma visão de mundo, uma ideologia, entendida esta última em seu sentido lato (AZENHA JÚNIOR, 2010, p.54). A fim de preservar não só o sentido, mas também o estilo próprio ao provérbio, é interessante que se mantenha a estrutura do mesmo, notadamente: frases pequenas, sucintas, formadas por figuras de linguagem que facilitam a memorização como o paralelismo, a rima, entre outras. Dessa forma, a melhor tradução (poética) de um provérbio é um outro provérbio, próprio à cultura (contexto histórico-cultural, léxico) ao qual é transposto, mas que conserve o 7 ―Entendemos por conotação a transferência de significado de um lugar semântico (onde ele se estabeleceria a partir do significante) para outro‖ (GREIMAS, 1975, p.290). significado ou mesmo a lição que o adágio transmite, respeitando a reprodução na mesma forma de que fala Paulo Paes, conforme supracitado. 5. ADÁGIOS DE PUBLÍLIO SIRO NA TRADUÇÃO DE JOSÉ FELICIANO DE CASTILHO (EDIÇÃO DIPLOMÁTICA) Expomos aqui a edição diplomática do comentário em que se encontram os 170 adágios atribuídos a Publílio Siro, traduzidos por Castilho José. Esta edição abrange a primeira metade dos adágios, que corresponde ao córpus deste estudo. § 120 I. 454 Adágios. O original diz: Hoc opus, hic labor est, primo sine munere jungi. Este hoc opus, hic labor est, que em toda parte se-usa ainda hoje proverbialmente, já do tempo de Ovídio deverá ter-se tornado proverbial, e applicavel, em sentido sério e faceto, ao nó das dificuldades; pois a expressão é originária da Eneida: Hoc opus, hic labor est paucis, quos equos amavit Jupiter, ant ardens avexit ad ethera, virtus. O chiste d‘este universal provérbio não poderia completamente transvazar-se em portuguez, a não ser como o anexim: Aqui torce... Verdade seja que se conserva a tradição do examinando de latim, que imbaraçado com a frase in diebus illis, visto ler-se o in die no fim da linha e o bus illis no comêço da seguinte, respondeu ao mestre que in die era India, mas que com o bus illis é que não podia atinar, d‘onde a língua adoptou o busílis como expressão de árdua dificuldade; mas a palavra não adquiriu foros de polida. A língua portugueza não tem talvez anexim correspondente ao latino, apezar de tão rica ser nesse ramo, o que induziu o Padre Manoel Bernardes a escrever o seguinte (Nov. Flor. III 383): – ―O adágio Dava-lhe o vento no chapeirão, etc, explica bem o desprêzo que o humilde faz de si mesmo, e procura que os outros façam d‘elle, deixando-se ir sem arte para onde o-deitam. Uma das muitas excellências da língua portugueza é a cópia de similhantes adágios, tão claros, breves e sentenciosos, que podem ser uns como cânones ou regras da vida económica, éthica e política, insinadas pela experiência. Ajuncto alguns poucos que me ocorrem: - Cale o que deu; fale o que recebeu. - Em tempo e logar, o perder é ganhar. - Mais val um toma, que dous te-darei. - Por dar esmola não míngua a bolsa. - O marido barca, a mulher arca. - De tal acha, tal racha. - Amor de menino, água em cestinho. - Todos os tombos da anguia são para a água. - Viuva rica, com um olho dobra, com outro repica. - Azeite, vinho e amigo, o mais antigo. - Velho amador, hynverno com flor. - Não dá quem tem, se não quem quer bem. - Quem com cães se-deita, com pulgas se-levanta. - Onde irá o boi, que não lavre? e outros milhares, com que comparação nenhuma têm os dos gregos e latinos, nem no pêso da doctrina, nem na energia da significação, como se-póde ver no seo compilador Paulo Manúcio‖. Assim se-exprime Bernardes. É, porém, certo que innumeraveis anexins, sabedoria das nações, nos-são comuns com outras muitas. Do próprio grego e latim sacámos quantidade d‘elles; e outros, eguaes no pensamento, pouco diferem na fórma. Da Prosódia de Bento Pereira se-colhem numerosas provas d‘essa communidade. Esse lexicógrafo sábio fez corresponder muitos adágios forçadamente, mas aqui aponctaremos grão número, ou indicados por esse auctor, ou que nos autores latinos incontrámos nós mesmos, e que dão exatamente o mesmo sentido e com egual expressão nos dous idiomas. Facil fôra accrescentar largamente este trabalho, que aliás não deixaria de offerecer mérito de curiosidade. Assim, quando Aulo Gellio (Cecilio. Chrysio VIII. 17) diz: Audibis male, si male dixis mihi, ha grande differença do anexim: É manha do açougue; quem fala mal, mal ouve? Quando Petrônio diz (Satyr. LVIII): Qualis dominus, talis et servus, exprime-se como nós: Tal amo, tal creado. Quando o mesmo diz (XLIV): Serva-me, servabo te, aproxima-se do: Uma mão lava a outra: e ainda mais a phrase do Apokolokintose de Séneca (IX): Si quid volueris invicem faciam: manus manum lavat. Ver no ôlho do outro argueiro e no seo não ver o cavalleiro, alembra Pérsio (IV. 23): Ut nemo in sese tentat descendere, nemo; sed praecedenti spectatur mantica tergo! Capita aut nauim de Macróbio é o nosso: Cruzes ou cunhos (porque o dinheiro romano representava a cabeça de Juno de um lado e a prôa de uma galera do outro). Não ter pés nem cabeça, era provérbio já citado por Cícero: nec caput nec pedes. Conheço-te por dentro e por fora, é o ego te intus et in cute novi, de Pérsio (III. 30). Navio com duas âncoras não garra, é o verso de Propercio (II. XXII): Nam melius duo deferunt retinacula navem; e Syro: Bonum est, duabus ancoris niti ratem. Tanto dá a água na pedra, até que a-quebra, é o princípio do verso de Ovídio (Pont. IV. X. 5): Guta cavat lapidem. Públio Syro tem muita sentenças similhantes às nossas; por exemplo: Ab alio exspectes, alteri quod feceris (Não faças aos outros o que não queres te façam). Ad duo festinans neutrum bene peregeris (Quem muito abraça, pouco abarca). Beneficium egenti bis dat, qui dat celeriter (Quem dá depressa, dá duas vezes). Contingere est molestum quae cuiquam dolent (Quem tem masela, tudo lhe-dá nela). Ferrum, dum in igni candet, cudendum est tibi (Malhar em ferro frio). Fortuna uitrea est; tum, quum splendet, frangitur (A fortuna é como o vidro, tanto brilha como quebra). Graviora quaedam sunt remedia periculis (Peior é a emenda que o soneto). Intensus arcus nimium, facile rumpitur (Arco muito atesado, é arco quebrado). Malus ipse fiet qui convivet cum malis (Dize-me com quem lidas, dir-te-ei as manhas que tens, ou, lé com lé, cré com cré). Musco lapis uolutus haud obducitur (Pedra movediça não cria bolor; ou pedra que rola não apanha limo). Nemo esse judex in sua causa potest (Ninguém é juiz em causa própria). Nisi ignorantes ars osorem non habet (Quem não conhece a arte, não na-estima). Nunquam, ubi diu fuit ignis, deficit vapor (Não há fumaça sem fogo). Patria tua est, ubicumque vixeris bene (Onde me-vai bem, ahi é a minha terra). Probae materiae probus est adlubendus faber (Para bom obreiro, não há má ferramenta). Stultum est incerta si pro certis habueris (Deixar o certo pelo duvidoso). Stultus tacebit? pro sapiente habebitur (O parvo calado, por docto é reputado). Qui se ipsum laudat, cito derisorem invenit (Louvor em boca própria é vitupério). Tacere nescit idem, qui nescit loqui (Bom saber é o calar, té ser tempo de falar). Prae laetitia mihi non consto (Não caibo em mim de prazer). Et satis et super est verbum sapientibus unum (A bom intendedor uma palavra basta). Antiquus pullum scandere novit eques (A cavallo novo cavalleiro velho). Mores amici noveris, non oderis (Falta de amigo ha de se conhecer, e não de abhorrecer). Nendo et texendo victum sibi faemina quaerit (A fiar e a tecer, ganha a mulher de comer). Optimum condimentum fames (Não ha melhor mostarda que a fome). Vilis aqua et panis, potus et esca canis (Agua e pão, comida de cão). Ossa decent fortes grandia quaeque canes (A grande cão, grande osso). Principium bello caenaeque incendia praestat (A guerra e a ceia, começando se-ateia). Consilium a quocumque senex etiam accipe prudens (Ainda que sejas prudente e velho, não desprezes o conselho). Cui lingua est grandis, parvula dextra jacet (Língua longa, mão curta). Res est soliciti plena timoris amor (Alma namorada de pouco é assombrada). Nemo infelicitati propinquior quam nimis felix (Quanta maior ventura, tanto menos segura). Qui servit communi, servit nulli (Amigo de todos, e de nenhum, tudo é um). Tam procul ex oculis, quam procul ex corde (Longe da vista, longe do coração). Annosa vulpes non capitur laqueo (Macaco velho não mette mão em combuca). Quantum deperdit se concinnando puella, tantum siccando pocula perdit anus (Moça em se- infeitar, velha em beber, gastam todo seo haver). Et vitrum et mulier sunt in discrimine semper (A mulher e o vidro sempre estão em perigo). Amor amore compensatur (Amor com amor se-paga). Nil muliebris amor durat, risusve caninus; ni pascat pingui munera plena manus (Amor de mulher e festa de cão só attentam para a mão). Amor et potestas impatiens consortis (Amor e reino não quer parceiro). Non bene conveniunt, nec in una sede morantur, majestas et amor (Amor e senhoria não quer companhia). Plurima praestat amor, sed sacra pecunia cuncta (Amor faz muito, dinheiro tudo). Mula senex fulvis ornatur saepe lupatis (À mula velha cabeçadas novas). Ferrum tuum in igne est (O teo negócio anda na forja). Ab equis ad asinos (Passar de cavalo a burro). Annulus aureus in nare suilla (Annel de ouro em focinho de porco). Abbati, medico, patronoque intima pande (A médico, lettrado e abbade, a verdade). Omnia pugnaci jura sub ense cadunt (Onde fôrça há, direito se-perde). Auro loquente, nil pollet quaevis oratio (Onde ouro fala, tudo cala). Quinta dies lunae reliqui tibi nuncia mensis (Ao 5º dia verás que mez terás). Ubi amici, ibi opes (Aquelles são ricos, que tem amigos). Responsio mollis frangit iram (Resposta branda ira quebranta). Cornix aquilam provocat (As folosas querem dar nos grous) Custodes regni censentur amorque, timorque (Guardas do reino são amor e mel). Si vidua est locuples, lacrymoso lumine ridet (Viuva rica, com um ôlho chora, com outro repica). Cum satur est venter, cantat quicumque libenter (Bem canta Martha, depois de farta). Jejunat satis is, qui paucis vescitur escis (Bem jejua quem mal come). Cum satur est felis, se totum lambere gaudet (Bem se-lambe o gato depois de farto). Aedibus in nostris ego regem gessero sane (Cada um em sua casa é rei). Omnibus inque pedes animus mox decidit imos (Caiu-lhe o coração aos pés). Incidit in foveam quam fecit (Caiu no laço que armou). Si deficit equus, lassus conscendit asellum (Caminhante cansado sobe em asno se não tem cavalo). Lambens assidue eliciet canis ore cruorem (Cão que muito lambe, tira sangue). Carnem hesternam, panem hodiernum, annotina vina, sume libens dicto tempore, sanus eris (Carne de ontem, peixe de hoje, vinho de outro verão, fazem o homem são). Sufficiat caro, vinum desit, panis abundet (Carne que baste, vinho que falte, pão que sobeje). Semel artifex, millies artifex esse potest (Cesteiro que faz um cesto faz um cento). In nare bilis (Chegar a mostarda ao nariz). Jus bibe, sublimisque habita, calidusque frequenter; incede, ut possis longaevam ducere vitam (Come caldo, vive em alto, anda quente, viverás longamente). Edendum tibi est, ut vivas, et non vivendum ut edas (Come para viver, pois não vives para comer). Cum pane et vino conficietur iter (Com pão e vinho se-anda caminho). Credat caeca virum lumina caecus amor (Cuidam os namorados que todos têm olhos quebrados). Sapientis non est dicere: non putabam (Nunca louvarei o capitão que diga ―não cuidei!‖). Multa cadunt inter calicem supremaque labra (Da mão para a boca se-perde a sopa). Quod peto da, Caii; non peto consilium (Dá-me dinheiro, não me-dês conselho). Propositum capiunt Tartara, facta Polus (De bons propósitos está o inferno cheio, e o céo de boas obras). E domo felis discedit mus impransus (De casa de gato não vai o rato farto). Insanus lapides verbaque dura jacit (De doudo, pedrada ou má palavra). Pusillum pusillo si addas, fiet ingens acervus (De pequenos grãos, se ajuncta grandes montes). Mus miser est, antro qui solo clauditur uno (Asinha se-apanha o rato, que só sabe um buraco). Non vili e panno splendida vestis erit (De ruim pano nunca bom saio). Paulatim deambulando longum conficitur iter (Devagar se vai ao longe). In pretio pretium nunc est (Quanto tens e quanto vale). Lupus non curat numerum (Do contado come o lobo). E duobus malis minus est eligendum (Do mal o menos). Confestim fletus amissae conjugis arent (Dor de mulher morta, dura até a porta). Mons cum monte non miscetur (Duro com duro não faz bom muro). 5.1 Escansão e levantamento de figuras estilísticas No quadro que se segue, apresentamos a tradução dos adágios de Castilho José escandida, seguida pelo número se sílabas e pelas figuras estilísticas encontradas em cada verso. Não/ fa/ças/ aos/ ou/tros//5 o/ que/ não/ que/res/ te/ fa/çam.7 7,5 aliteração (/s/); paralelismo sintático; * Quem/ mui/to a/bra/ça/, pou/co a/bar/ca. 8 paralelismo fônico e sintático; quiasmo Quem/ dá/ de/pre/ssa/, dá/ duas/ ve/zes. 8 paralelismo sintático Quem/ tem/ ma/se/la/, tu/do/ lhe/-dá/ ne/la. 10 rima interna (masela/nela); Ma/lhar/ em/ fe/rro/ fri/o. 6 aliteração (/f/); A/ for/tu/na é/ co/mo o/ vi/dro//7, tan/to/ bri/lha/ co/mo/ que/bra.7 7,7 paralelismo sintático, aliteração (/r/); assonância (/i/); Pei/or/ é a/ e/men/da// que o/ so/ne/to. 8 inversão; zeugma; Ar/co/ mui/to a/te/sa/do/6/, _é ar/co/ que/bra/do. 5 11 paralelismo sintático e fônico; sinalefa do _é; Di/ze/-me/ com/ quem/ li/das// 6, dir/-te-ei as/ ma/nhas/ que/ tens. 7 6,7 paralelismo sintático; Pe/dra/ mo/ve/di/ça//5 não/ cria/ bo/lor. 11 rima interna (movediça/cria); Nin/guém/ é/ ju/iz// em/ cau/sa/ pró/pria. 9 Quem/ não/ co/nhe/ce a/ ar/te//, não/ na- es/ti/ma. 10 Não/ há/ fu/ma/ça//4 sem/ fo/go. 7 On/de/ me/-vai/ bem//5, a/hi/ é a/ mi/nha/ te/rra. 11 aliteração (/m/); Pa/ra/ bom/ o/brei/ro//5, não há/ má/ fe/rra/men/ta. 11 Dei/xar/ o/ cer/to//4 pe/lo/ du/vi/do/so. 10 O/ par/vo/ ca/la/do//5, por/ doc/to é/ re/pu/ta/do. 6 5,6 inversão; Lou/vor/ em/ bo/ca/ pró/pria é /vi/tu/pé/rio. 10 Bom/ sa/ber/ é o/ ca/lar//, té/ ser/ tem/po/ de/ fa/lar. 6,7 rima interna (calar/falar); (saber/ser); Não/ cai/bo em/ mim//4 de/ pra/zer. 7 A/ bom/ in/ten/de/dor//6 u/ma/ pa/la/vra/ bas/ta. 12 assonância (/a/); A/ ca/va/llo/ no/vo//5 ca/va/llei/ro/ ve/lho. 11 paralelismo fônico; elipse verbal; Fal/ta/ de a/mi/go há/ de/ se/ co/nhe/cer//10, e/ não/ de a/bho/rre/cer. 6 10 (4+5),6 rima interna (conhecer/aborrecer); A/ fi/ar/ e a/ te/cer//6, ga/nha a/ mu/lher/ de/ co/mer. 7 11 ou 6,7 aliteração (/r/); inversão; * Não/ há/ me/lhor/ mos/tar/da/ que a/ fo/me. 9(6,9) A/gua e/ pão//3, co/mi/da/ de/ cão. 8 ou 3,5 rima interna (pão/cão); verbo elíptico; A/ gran/de/ cão//, gran/de o/sso. 7 verbo elíptico; A/ gue/rra e a/ ce/ia//4, co/me/çan/do/ se- a/te/ia. 4,6 rima (ceia/ ateia); A/in/da/ que/ se/jas/ pru/den/te e/ ve/lho//10, não/ des/pre/zes/ o/ con/se/lho. 7 10,7 rima (velho/conselho); Lín/gua/ lon/ga/, mão/ cur/ta. 6 verbo elíptico; Al/ma/ na/mo/ra/da/ de/ pou/co é 11 rima interna a/ssom/bra/da. (namorada/assombrada); Quan/ta/ mai/or/ ven/tu/ra//6, tan/to/ me/nos/ se/gu/ra. 6,6 rima (ventura/segura); verbo elíptico; * A/mi/go/ de/ to/dos//, e/ de/ ne/nhum/, tu/do é/ um.7 5,7 ou 10,3 rima (um/nenhum); Lon/ge/ da/ vis/ta//4, lon/ge/ do/ co/ra/ção. 11 ou 4,6 paralelismo sintático; elipse verbal; Ma/ca/co/ ve/lho//4 não/ me/tte/ mão/ em/ com/bu/ca. 12 ou 4,7 aliteração (/m/); Mo/ça em/ se-in/fei/tar/, ve/lha em/ be/ber//9, gas/tam/ to/do/ seo/ ha/ver.7 9,7 aliteração (/m/) e (/s/); rima (beber/haver); A/ mu/lher/ e o/ vi/dro//5 sem/pre es/tão/ em/ pe/ri/go. 5,6 rima (vidro/perigo); A/mor/ com/ a/mor/ se/-pa/ga. 7 repetição; A/mor/ de/ mu/lher//5 e/ fes/ta/ de/ cão//5 só a/tten/tam/ pa/ra a/ mão.7 5,5,7 rima (cão/mão); aliteração (/m/); paralelismo; A/mor/ e/ rei/no//4 não/ quer/ par/cei/ro.4 4,4 aliteração (/r/); rima (reino/parceiro); A/mor/ e/ se/nho/ri/a/ não/ quer/ com/pa/nhia. 12 rima interna (senhoria/companhia); aliteração (/r/); A/mor/ faz/ mui/to//4, di/nhei/ro/ tu/do.4 4,4 zeugma; paralelismo sintático; rima toante (só coincidem as vogais tônicas) (muito/tudo); À/ mu/la/ ve/lha/ ca/be/ça/das/ no/vas. 10 verbo elíptico; aliteração (/v/); O/ teo/ ne/gó/cio an/da/ na/ for/ja. 8 assonância (/o/); aliteração (/n/); Pa/ssar/ de/ ca/va/lo a/ bu/rro. 7 A/nnel/ de ou/ro//3 em/ fo/ci/nho//3 de/ por/co.3 9 elipse do verbo; rima interna (ouro/porco); A/ mé/di/co/, le/ttra/do e/ a/bba/de, a/ ver/da/de. 12 rima interna toante (abade/verdade); verbo elíptico; On/de/ fôr/ça/ há//5, di/rei/to/ se/-per/de.5 5,5 inversão; On/de ou/ro/ fa/la/, tu/do/ ca/la. 8 rima interna (fala/ cala); Ao/ quin/to/ di/a/ ve/rás//7 que/ mez/ te/rás.4 7,4 rima (verás/terás); A/que/lles/ são/ ri/cos//5, que/ tem/ a/mi/gos.4 5,4 rima toante (ricos/amigos); inversão; Res/pos/ta/ bran/da i/ra/ que/bran/ta. 8 rima interna toante(branda/quebranta); As/ fo/lo/sas/ que/rem/ dar/ nos/ grous. 9 aliteração (/s/); Guar/das/ do/ rei/no/ são a/mor/ e/ mel. 10 aliteração (/m/); Vi/u/va/ ri/ca/, com/ um/ ô/lho/ cho/ra//10, com/ ou/tro/ re/pi/ca.5 10,5 rima (rica/repica); Bem/ can/ta/ Mar/tha//4, de/pois/ de/ far/ta.4 4,4 rima (Martha/farta); Bem/ je/ju/a/ quem/ mal/ co/me. 7 paralelismo sintático; antítese; Bem/ se/-lam/be o/ ga/to//5 de/pois/ de/ far/to.4 5,4 rima (gato/farto); Ca/da/ um/ em/ su/a//5 ca/sa é/ rei. 9 assonância (/a/), (/u/); Ca/iu/-lhe o/ co/ra/ção/ aos/ pés. 8 aliteração (/c/); Ca/iu/ no/ la/ço/ que ar/mou. 7 Ca/mi/nhan/te/ can/sa/do/ so/be em/ as/no//10 se/ não/ tem/ ca/va/lo. 5 10,5 aliteração (/n/); rima toante (cansado/cavalo); Cão/ que/ mui/to/ lam/be/, ti/ra/ san/gue. 9 rima interna toante (lambe/sangue); Car/ne/ de on/tem/, pei/xe/ de ho/je//7, vi/nho/ de ou/tro/ ve/rão/, fa/zem/ o/ ho/mem/ são. 12 7,12 rima (verão/são); paralelismo sintático; aliteração (/v/); Car/ne/ que/ bas/te/, vi/nho/ que/ fal/te//8, pão/ que/ so/be/je. 4 8,4 rima interna toante (carne/baste/falte); paralelismo sintático; Ces/tei/ro/ que/ faz/ um/ ces/to/ faz/ um/ cen/to. 11 rima interna toante (cesteiro/cesto/cento); Che/gar/ a/ mos/tar/da/ ao/ na/riz. 8 Co/me/ cal/do/, vi/ve em/ al/to/, an/da/ quen/te//11, vi/ve/rás/ lon/ga/men/te.6 11,6 aliteração (/l/ e /m/); paralelismo sintático; rima (quente/longamente); rima interna toante (caldo/alto); Co/me/ pa/ra/ vi/ver//6, po/is/ não/ vi/ves/ pa/ra/ co/mer. 8 6,8 paralelismo sintático e fônico; quiasmo (disposição cruzada da ordem das partes simétricas de duas frases); Com/ pão/ e/ vi/nho//4 se-an/da/ ca/mi/nho. 4 4,4 rima interna (vinho/caminho); Cui/dam/ os/ na/mo/ra/dos//6 que/ to/dos/ têm/ o/lhos/ que/bra/dos. 8 6,8 rima (namorados/quebrados); Nun/ca/ lou/va/rei//5 o/ ca/pi/tão/ que/ di/ga/ “não/ cui/dei!”. 10 5,10 rima interna (louvarei/cuidei e capitão/não); Da/ mão/ pa/ra a/ bo/ca//5 se/-per/de a/ so/pa. 4 5,4 rima interna (boca/sopa); Dá/-me/ di/nhei/ro/, não/ me/-dês/ com/se/lho. 10 rima interna toante (dinheiro/conselho); paralelismo sintático; De/ bons/ pro/pó/si/tos/ es/tá o in/fer/no/ chei/o//12, e o/ céo/ de/ bo/as/ o/bras.6 12,6 zeugma; assonância (/o/); De/ ca/sa/ de/ ga/to//5 não/ vai o/ ra/to/ far/to.6 5,6 rima toante(gato/rato/farto); De/ dou/do/, pe/dra/da ou/ má/ pa/la/vra. 9 verbo elíptico; rima interna (pedrada/palavra); De/ pe/que/nos/ grãos/, se a/junc/ta/ gran/des/ mon/tes. 11 aliteração (/s/); A/si/nha/ se-a/pa/nha/ o/ ra/to//7, que/ só/ sa/be um/ bu/ra/co.6 7,6 rima toante (rato/buraco); De/ ruim/ pa/no// nun/ca/ bom/ sa/io. 8 inversão; elipse do verbo; De/va/gar/ se/ vai ao/ lon/ge. 6 Quan/to/ tens/ e/ quan/to/ va/le. 7 Do/ con/ta/do/ co/me o/ lo/bo. 7 inversão; Do/ mal/ o/ me/nos. 4 5.2 Tradução de serviço Com a tradução de serviço (LIMA, 2003, p.14) de 85 dos 170 adágios de Publílio Siro como encontrados na Grinalda da Arte de Amar (OVÍDIO, 1862, p. 202-12), de caráter literal, termo a termo, pudemos estabelecer uma comparação com a tradução de Castilho José que dirigiu-nos à conclusão apresentada no final desta monografia. A seguir, expomos essa tradução: Ab alio expectes, alteri quod feceris (Não faças aos outros o que não queres te façam). ―Espera de uma pessoa o que tiveres feito à outra‖. Ad duo festinans neutrum bene peregeris (Quem muito abraça, pouco abarca). ―Quem se apressa em direção a dois, bem terá acabado sem nenhum dos dois‖. Beneficium egenti bis dat, qui dat celeriter (Quem dá depressa, dá duas vezes). ―Dá duas vezes um benefício para um necessitado, aquele que dá com pressa‖. Contingere est molestum quae cuiquam dolent (Quem tem masela, tudo lhe-dá nela). ―Molesto é apropriar-se daquelas coisas que ferem a alguém‖. Ferrum, dum in igni candet, cudendum est tibi (Malhar em ferro frio). ―O ferro, enquanto brilha no fogo, deve ser malhado por ti‖. Fortuna uitrea est; tum, quum splendet, frangitur (A fortuna é como o vidro, tanto brilha como quebra). ―A fortuna é vítrea; tanto brilha quanto é quebrada‖. Graviora quaedam sunt remedia periculis (Peior é a emenda que o soneto). ―Os remédios são mais prejudiciais que os perigos‖. (É melhor prevenir que remediar) Intensus arcus nimium, facile rumpitur (Arco muito atesado, é arco quebrado). ―O arco distendido excessivamente rompe-se facilmente‖. Malus ipse fiet qui convivet cum malis (Dize-me com quem lidas, dir-te-ei as manhas que tens, ou, lé com lé, cré com cré). ―Quem conviver com os perversos, tornar-se-á ele próprio um perverso‖. Musco lapis uolutus haud obducitur (Pedra movediça não cria bolor; ou pedra que rola não apanha limo). ―A pedra que se move não é coberta por musgo‖. Nemo esse judex in sua causa potest (Ninguém é juiz em causa própria). ―Ninguém pode ser juiz em sua própria causa‖. Nisi ignorantes ars osorem non habet (Quem não conhece a arte, não na-estima). ―Com exceção dos ignorantes, a arte não considera alguém odioso‖. Nunquam, ubi diu fuit ignis, deficit vapor (Não há fumaça sem fogo). ―Nunca, onde houve fogo por um longo período, falta vapor‖. Patria tua est, ubicumque vixeris bene (Onde me-vai bem, ahi é a minha terra). ―É a tua pátria, onde quer que tenhas vivido bem‖. Probae materiae probus est adlubendus faber (Para bom obreiro, não há má ferramenta). ―O bom obreiro deve ser agradável ao bom material‖. Stultum est incerta si pro certis habueris (Deixar o certo pelo duvidoso). ―É tolice se tiveres as coisas incertas pelas certas‖. Stultus tacebit? pro sapiente habebitur (O parvo calado, por docto é reputado). ―O tolo silenciará? Será tido como sábio‖. Qui se ipsum laudat, cito derisorem invenit (Louvor em boca própria é vitupério). ―Aquele que louva a si mesmo, encontra prontamente um zombador‖. Tacere nescit idem, qui nescit loqui (Bom saber é o calar, té ser tempo de falar). ―Aquele que não sabe falar, não sabe silenciar‖. Prae laetitia mihi non consto (Não caibo em mim de prazer). ―Diante da alegria eu fico fora de mim‖. Et satis et super est verbum sapientibus unum (A bom intendedor uma palavra basta). ―Uma única palavra é tão suficiente para os sábios, quanto é mais que suficiente‖. Antiquus pullum scandere novit eques (A cavallo novo cavalleiro velho). ―Cavaleiro velho soube trepar um burrico‖. Mores amici noveris, non oderis (Falta de amigo ha de se conhecer, e não de abhorrecer). ―Deverias conhecer os costumes do amigo, não odiá-los‖. Nendo et texendo victum sibi faemina quaerit (A fiar e a tecer, ganha a mulher de comer). ―É tecendo e fiando que a mulher obtém para si o alimento‖. Optimum condimentum fames (Não ha melhor mostarda que a fome). ―A fome é o melhor tempero‖. Vilis aqua et panis, potus et esca canis (Agua e pão, comida de cão). ―Água e pão barato, comida e bebida de cão‖. (Água e pão de pobre, comida e bebida de cão). Ossa decent fortes grandia quaeque canes (A grande cão, grande osso). ―Certos ossos grandes convém a cães fortes‖. (Ossos grandes adornam cadelas fortes) Principium bello caenaeque incendia praestat (A guerra e a ceia, começando se-ateia). ―Para a guerra e para o jantar, o início gera arroubos‖. (O início provoca incêndios) Consilium a quocumque senex etiam accipe prudens (Ainda que sejas prudente e velho, não desprezes o conselho). ―Aceita, prudente, o conselho de quem quer que seja também velho‖. Cui lingua est grandis, parvula dextra jacet (Língua longa, mão curta). ―A quem tem uma língua grande, estende uma mão pequenina‖. Res est soliciti plena timoris amor (Alma namorada de pouco é assombrada). ―A plenitude do aflito é o amor ao medo‖. Nemo infelicitati propinquior quam nimis felix (Quanta maior ventura, tanto menos segura). ―Ninguém está mais próximo da infelicidade que o excessivamente feliz‖. Qui servit communi, servit nulli (Amigo de todos, e de nenhum, tudo é um). ―Aquele que serve a todos, não serve ninguém‖. Tam procul ex oculis, quam procul ex corde (Longe da vista, longe do coração). ―Tão distante dos olhos, quanto do coração‖. Annosa vulpes non capitur laqueo (Macaco velho não mette mão em combuca). ―Raposa velha não é pega por armadilha‖. Quantum deperdit se concinnando puella, tantum siccando pocula perdit anus (Moça em se- infeitar, velha em beber, gastam todo seo haver). ―Tanto a moça se perde se maquiando, quanto a velha enxugando copos‖. Et vitrum et mulier sunt in discrimine semper (A mulher e o vidro sempre estão em perigo). ―Tanto a mulher quanto o vidro estão sempre no limite/em perigo‖. Amor amore compensatur (Amor com amor se-paga). ―O amor com amor é compensado‖. Nil muliebris amor durat, risusve caninus; ni pascat pingui munera plena manus (Amor de mulher e festa de cão só attentam para a mão). ―O amor feminino ou o riso canino não duram nada; nem uma mão cheia alimenta de benefícios o gordo‖. Amor et potestas impatiens consortis (Amor e reino não quer parceiro). ―O amor e o poder não toleram parceiros‖. Non bene conveniunt, nec in una sede morantur, majestas et amor (Amor e senhoria não quer companhia). ―Amor e autoridade nem bem concordam, nem moram em uma única casa‖. Plurima praestat amor, sed sacra pecunia cuncta (Amor faz muito, dinheiro tudo). ―O amor fornece muitas coisas, mas o maldito dinheiro fornece tudo‖. Mula senex fulvis ornatur saepe lupatis (À mula velha cabeçadas novas). ―Mula velha muitas vezes é equipada com freios amarelos‖. Ferrum tuum in igne est (O teo negócio anda na forja). ―Teu ferro está queimando‖ (―Sua batata está assando‖). Ab equis ad asinos (Passar de cavalo a burro). ―De corcéis a burros‖. Annulus aureus in nare suilla (Annel de ouro em focinho de porco). ―Anel de ouro em nariz suíno‖ (―Dar pérolas aos porcos‖). Abbati, medico, patronoque intima pande (A médico, lettrado e abbade, a verdade). ―A abade, médico e patrono, revele os segredos‖. Omnia pugnaci jura sub ense cadunt (Onde fôrça há, direito se-perde). ―Ao belicoso, todas as leis caem pela espada‖. Auro loquente, nil pollet quaevis oratio (Onde ouro fala, tudo cala). ―Quando o ouro fala (mais alto), qualquer discurso não influencia em nada‖. Quinta dies lunae reliqui tibi nuncia mensis (Ao 5º dia verás que mez terás). ―O quinto dia da lua é anunciador do mês que resta‖. Ubi amici, ibi opes (Aquelles são ricos, que tem amigos). ―Onde há amigos, nesse lugar há riquezas‖. Responsio mollis frangit iram (Resposta branda ira quebranta). ―Uma resposta gentil abranda a ira‖. Cornix aquilam provocat (As folosas querem dar nos grous) ―A gralha provoca a águia‖. Custodes regni censentur amorque, timorque (Guardas do reino são amor e mel). ―Tanto o amor quanto o temor são considerados guardas do reino‖. Si vidua est locuples, lacrymoso lumine ridet (Viuva rica, com um ôlho chora, com outro repica). ―Se a viúva é rica, ri com o olho cheio de lágrima‖. Cum satur est venter, cantat quicumque libenter (Bem canta Martha, depois de farta). ―Quando a barriga está cheia, quem quer que seja canta com prazer‖. Jejunat satis is, qui paucis vescitur escis (Bem jejua quem mal come). ―Jejua bastante aquele que se alimenta de poucos víveres‖. Cum satur est felis, se totum lambere gaudet (Bem se-lambe o gato depois de farto). ―Quando o gato está satisfeito, compraz-se em lamber-se todo‖. Aedibus in nostris ego regem gessero sane (Cada um em sua casa é rei). ―Em nossa casa, eu certamente procederia como um rei‖. Omnibus inque pedes animus mox decidit imos (Caiu-lhe o coração aos pés). ―O coração logo cai na parte mais baixa dos pés para todos‖ Incidit in foveam quam fecit (Caiu no laço que armou). ―Caiu dentro da cova que fez‖. Si deficit equus, lassus conscendit asellum (Caminhante cansado sobe em asno se não tem cavalo). ―Se o cavalo falta, o (homem) cansado monta em asno‖ (―Quem não tem cão caça com gato‖). Lambens assidue eliciet canis ore cruorem (Cão que muito lambe, tira sangue). ―Cão que lambe constantemente fará sair sangue com a boca‖. Carnem hesternam, panem hodiernum, annotina vina, sume libens dicto tempore, sanus eris (Carne de ontem, peixe de hoje, vinho de outro verão, fazem o homem são). ―A carne de ontem, o pão de hoje, o vinho do ano passado, consuma com prazer em tempo oportuno, [e] serás são‖. Sufficiat caro, vinum desit, panis abundet (Carne que baste, vinho que falte, pão que sobeje). ―Que a carne seja bastante, que falte vinho e que o pão seja abundante‖. Semel artifex, millies artifex esse potest (Cesteiro que faz um cesto faz um cento). ―Uma vez criador, pode ser mil vezes criador‖. In nare bilis (Chegar a mostarda ao nariz). ―(Estar com) o fel pelo nariz‖. Jus bibe, sublimisque habita, calidusque frequenter; incede, ut possis longaevam ducere vitam (Come caldo, vive em alto, anda quente, viverás longamente). ―Toma caldo, mora no alto, (esteja) frequentemente quente, avança, para que possas conduzir uma longeva vida‖ Edendum tibi est, ut vivas, et non vivendum ut edas (Come para viver, pois não vives para comer). ―Deves comer para que vivas, e não se deve viver para que comas‖. Cum pane et vino conficietur iter (Com pão e vinho se-anda caminho). ―Com pão e com vinho será completado o itinerário‖. Credat caeca virum lumina caecus amor (Cuidam os namorados que todos têm olhos quebrados). ―Que o cego amor creia nos cegos olhos dos homens‖. Sapientis non est dicere: non putabam (Nunca louvarei o capitão que diga ―não cuidei!‖). ―Não é (hábito) do sábio dizer: ―não havia pensado‖‖. Multa cadunt inter calicem supremaque labra (Da mão para a boca se-perde a sopa). ―Muitas coisas acontecem entre o cálice e os lábios superiores‖. Quod peto da, Caii; non peto consilium (Dá-me dinheiro, não me-dês conselho). ―Dá o que peço, Caio, conselho não peço‖. Propositum capiunt Tartara, facta Polus (De bons propósitos está o inferno cheio, e o céo de boas obras). ―O Tártaro alcança a intenção, o céu, as ações‖ (―Os Tártaros colhem o propósito, o Céu, os feitos‖). E domo felis discedit mus impransus (De casa de gato não vai o rato farto). ―O rato sai da casa do gato sem refeição‖. Insanus lapides verbaque dura jacit (De doudo, pedrada ou má palavra). ―O louco atira pedras e duras palavras‖. Pusillum pusillo si addas, fiet ingens acervus (De pequenos grãos, se ajuncta grandes montes). ―Um enorme monte será feito se acrescentes (acrescentares) pouco a pouco‖. Mus miser est, antro qui solo clauditur uno (Asinha se-apanha o rato, que só sabe um buraco). ―O rato pobre é aquele que é enclausurado em um só esconderijo‖. Non vili e panno splendida vestis erit (De ruim pano nunca bom saio). ―Não existe veste esplêndida de pano barato‖. Paulatim deambulando longum conficitur iter (Devagar se vai ao longe). ―Caminhando pouco a pouco, é feito o caminho‖. In pretio pretium nunc est (Quanto tens e quanto vale). ―No tempo presente, o valor está no preço‖. Lupus non curat numerum (Do contado come o lobo). ―O lobo não olha o número‖. E duobus malis minus est eligendum (Do mal o menos). ―De dois males é o menor que deve ser escolhido‖. Confestim fletus amissae conjugis arent (Dor de mulher morta, dura até a porta). ―As lágrimas para a esposa perdida se secam rapidamente‖. Mons cum monte non miscetur (Duro com duro não faz bom muro). ―Montanha não é misturada (se mistura) com montanha‖. 5.3 Breves considerações conjunturais sobre a tradução Para o desenvolvimento da análise que se segue, tomamos por base a reflexão estrutural presente no texto Os provérbios e os ditados da autoria de Greimas (1975), conforme exposto no item 1 deste relatório e a tradução dos adágios de Publílio Siro de Castilho José. Greimas divide o que nós temos chamado até agora de adágios e/ou provérbios de acordo com a presença de elementos conotados ou não conotados. Assim, diferencia os provérbios, de teor metafórico – linguagem figurativa – dos ditados de linguagem literal. O primeiro tipo faz uso de uma figura de linguagem, o segundo não. Em ―malhar em ferro frio‖, nota-se o emprego da metáfora que nos remete a um trabalho árduo – uma vez que o ferro é um metal duro e que costuma ser aquecido antes de ser malhado a fim de que se torne mais maleável e permita que se molde em outras formas. É isso que nos leva à apreensão do significado desse provérbio, ou seja, ele designa um problema impossível de ser revertido. Já o conselho que contraindica o egoísmo pode ser entendido diretamente, prescindindo de reflexão para o entendimento: ―Não faças aos outros o que não queres te façam‖. A questão da metáfora é bastante interessante posto que ela pode, ao mesmo tempo, indicar a singularidade e a universalidade de elementos culturais. Se por um lado, a tradução da metáfora motiva uma ―equivalência aproximada‖ de expressões mais do que sua tradução literal, há, por outro lado, casos em que a tradução parece mostrar uma universalidade de determinado provérbio (cf. Anexo 1 os exemplos de Gélio, Petrônio, Sêneca, Pérsio e Macróbio). Sobre esse ponto particular, encontramos um estudo da área da linguística que tenta explicar a relação entre a metáfora e a cultura que achamos interessante. A seguir ilustramos de forma breve esse estudo. Zoltán Kövecses, que baseia-se na teoria de metáfora dos estudos da linguística cognitiva, acredita na hipótese da corporalidade da metáfora. Em seu livro Metaphor in Culture, ele explica esse conceito de corporalidade com o exemplo do calor: Você está fazendo esforço, digamos serrando ou cortando madeira, ou está fazendo um exercício vigoroso, como corrida ou atividade aeróbica, Depois de um tempo você começa a se aquecer, você se sente quente, e talvez comece a suar. Podemos dizer que a atividade corporal vigorosa produz um aumento na temperatura corpórea. Tipicamente, quando você se envolve em uma atividade corporal vigorosa, seu corpo responde dessa forma. Similarmente, quando você fica muito bravo, ou quando sente sentimentos sexuais fortes, ou quando está sob forte pressão psicológica, seu corpo também pode produzir um aumento na temperatura corpórea que se manifesta fisiologicamente de várias formas. Em todos esses casos, o aumento da intensidade de uma atividade ou estado acompanha um aumento da temperatura corpórea, e seu corpo responde dessa forma automaticamente. A correlação entre o aumento da intensidade da atividade ou estado, por um lado, e a produção de calor corporal, de outro é inevitável para o tipo de corpo que nós possuímos. Não podemos evitar a correlação entre intensidade (dessas atividades e estados) e calor corporal. Essa correlação forma a base da metáfora linguística e conceitual: INTENSIDADE É CALOR. Mas a correlação está no nível do corpo, e nesse sentido a metáfora está tanto no corpo como na linguagem ou no pensamento. O reconhecimento do tipo de correlação que existe no corpo entre intensidade (de ação ou estado) e calor deu origem à hipótese de personificação, que declara que o pensamento metafórico é baseado em tal experiência correlata (Lakoff, 1987) (KÖVECSES, 2005, p. 18, tradução nossa). Há muitos outros exemplos de metáforas que obedecem a essa hipótese como ―PROPÓSITOS SÃO DESTINOS‖, ―INTIMIDADE É PROXIMIDADE‖, entre outros e há ainda vários tipos de personificações metafóricas. Segundo Kövecses (2005), alguns estudos neurocientíficos apontaram que quando compreendemos conceitos abstratos metaforicamente, dois grupos de neurônios são ativados no nosso cérebro ao mesmo tempo, portanto, supostamente a metáfora ocorre também a nível cerebral. Essa ideia de que a metáfora se baseia no funcionamento do nosso corpo e cérebro sustenta a hipótese da universalidade da metáfora: como o corpo e o cérebro humano funcionam da mesma maneira para todos, então muitas metáforas (se não todas) devem ser similares. Kövecses sustenta que, de fato, podem haver muitas metáforas universais a nível conceitual, no entanto, as mesmas também podem variar em todos os níveis de existência, entre ou interculturalmente. Voltando à análise de Greimas, ele chama, ainda, a atenção para outros aspectos formais. Seguindo hipótese do caráter arcaico dos provérbios e ditados proposta pelo semioticista, encontramos, no córpus deste trabalho, alguns exemplos que correspondem aos aspectos desse arcaísmo, dentre eles: 1. A ausência de artigo, como em ―Água e pão, comida de cão‖ (no caso também ocorre elipse verbal) e em ―Macaco velho não mete mão em cumbuca‖ etc; 2. Inversão na ordem das palavras, como em ―Bem canta Martha, depois de farta‖, ―Da mão para a boca se perde a sopa‖ e outros; 3. Caracteres léxicos arcaizantes, como em ―Quem tem masela, tudo lhe-dá nela‖, ―Onde me-vai bem, ahi é a minha terra‖, ―O parvo calado por docto é reputado‖, ―Louvor em boca própria é vitupério‖. Nesses exemplos, além do léxico, o traço arcaizante também se pode notar na grafia dos termos. Todos esses traços sustentam o caráter de conselho dos adágios, que se configuram como frutos de uma sabedoria atemporal, que provém dos antigos e cujo tom se configura como o de um guia de conduta e, ademais, remetem à datação antiga dessas expressões8: O caráter arcaico dos provérbios, portanto, constitui uma colocação fora do tempo das significações que eles contêm; é um procedimento comparável ao ―era uma vez‖ dos contos e das lendas, destinado a situar no tempo ―dos deuses e dos heróis‖ as verdades reveladas na narrativa. (GREIMAS, 1975, p. 294) Some-se a isso a recorrente utilização de verbos no presente do indicativo (nos exemplos anteriores todos os verbos estão no tempo presente (―mete‖, ―canta‖, ―se perde (é perdida)‖, ―tem‖, ―é‖) e no imperativo (―Come caldo, vive em alto, anda quente, viverás longamente‖): O presente aí utilizado torna-se o tempo a-histórico por excelência que ajuda a enunciar verdades eternas, sob forma de simples constatações. O imperativo, por sua vez, instituindo uma regulamentação fora do tempo, assegura a permanência de uma ordem moral sem variações. A estrutura rítmica binária aparece com bastante frequência nos provérbios e ditados. Tal estrutura pode ser percebida no paralelismo sintático, que opõe duas orações, e no paralelismo fônico, que ocorre por meio de rimas e/ou assonâncias dentro do provérbio (Ex.: ―Onde ouro fala, tudo cala‖: rima interna (paralelismo fônico); ―Amor faz muito, dinheiro [faz] tudo‖: a oposição de duas orações (paralelismo sintático) (cf. Anexo 2). Essa estrutura pode ainda ser percebida pela repetição de palavras (Ex.: ―A grande cão, grande osso‖, ―Quem dá depressa, dá duas vezes‖) e na confrontação de pares oposicionais de palavras (Ex.: De bons propósitos está o inferno cheio, e o céo de boas obras‖). Greimas vê essa forma binária como uma ―estrutura simultaneamente clara e fechada‖ (1975, p.294). Essas categorizações propostas por Greimas, excetuando-se a primeira, de natureza descritiva, se complementam. O caráter arcaico, os verbos no presente do indicativo ou no imperativo e a estrutura rítmica binária, comprovados por vários traços dos provérbios e ditados, imbui um tom elevado à essas expressões, o que pode explicar a sobrevivência das 8 A constatação do caráter arcaizante desses adágios se dá pela quantidade de traços arcaicos encontrados nos mesmos, de acordo com a descrição de Greimas. O estudo da língua portuguesa na época, no entanto, que pudesse provar tais arcaísmos (em relação à língua corrente), não é abrangido por essa monografia. mesmas, considerando-se as mudanças (de uma cultura a outra, de um tempo a outro). Elas sustentam o postulado da ―existência de um domínio semântico independente, afirmando o estatuto formal autônomo de elementos semiológicos chamados tradicionalmente provérbios e ditados‖ (GREIMAS, 1975, p. 295). O fato da tradução dos provérbios para o português empreendida por Castilho José se encaixar nas categorias formais acima postas em relevo comprova a preocupação formal por parte do tradutor e o resultado positivo de tal iniciativa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pela comparação entre a tradução de serviço realizada na primeira etapa do projeto e a tradução castilhiana, pudemos constatar que não se observa, por parte do tradutor, preocupação com uma fidelidade filológica. Não se trata, portanto, de uma tradução literal, mas sim de uma tradução poética, que lança mão de expedientes, tais como assonância, aliteração, rima interna, paralelismo (sintático e fônico), além de seguir metros regulares ao português9. Verificamos, ainda, pela análise – que refletiu questões de estrutura de provérbios e ditados – que a tradução poética reproduz os expedientes linguísticos e estruturais próprios dos adágios. Tendo reconhecido os adágios em português, alguns deles ainda em uso atualmente, notamos que o tradutor se valeu, também, de seu repertório cultural para essa tradução. Dessa forma, acreditamos ter demonstrado a relevância do trabalho tradutório desse comentário, cujos esforços resultaram em uma peculiar e relevante prática tradutória na História da Tradução dos textos literários antigos. 9 Conforme constam no Tractado de Metrificação Portugueza de Antônio Feliciano de Castilho, que consultamos para a escansão dos versos em uma etapa do projeto. 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