UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS Jussara Christina Reis “A GENTE É NASCIDO E CRIADO AQUI.” MEMÓRIA E TERRITORIALIDADE NO BAIRRO BOA VISTA, BRAGANÇA PAULISTA - SP Marília/SP 2012 Jussara Christina Reis “A GENTE É NASCIDO E CRIADO AQUI.” MEMÓRIA E TERRITORIALIDADE NO BAIRRO BOA VISTA, BRAGANÇA PAULISTA - SP Marília/SP 2012 Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista, Campus de Marília, como requisito para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. Orientador: Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira Linha de pesquisa: Cultura, Identidade e Memória. Reis, Jussara Christina R375g “A gente é nascido e criado aqui.”: memória e territorialidade no bairro Boa Vista, Bragança Paulista - SP / Jussara Christina Reis. – Marília, 2012. 152 f. ; 30 cm. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Filosofia e Ciências, 2012. Bibliografia: f. 145-152 Orientador: Paulo Eduardo Teixeira. 1. Memória coletiva. 2. Imagem. 3. História oral. 4. Territorialidade. 5. Bairro rural. I. Autor. II. Título. CDD 301.2 Jussara Christina Reis “A GENTE É NASCIDO E CRIADO AQUI.” MEMÓRIA E TERRITORIALIDADE NO BAIRRO BOA VISTA, BRAGANÇA PAULISTA - SP Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista/UNESP – campus Marília-SP, para obtenção do título de Mestre em Ciências Sociais. BANCA EXAMINADORA: _________________________________________________________________ Orientador: Prof. Dr. Paulo Eduardo Teixeira Departamento de Ciências Políticas e Econômicas Universidade Estadual Paulista – UNESP __________________________________________________________________ Titular: Prof. Dr. João Luiz de Moraes Hoefel Núcleo de Estudos em Sustentabilidade Faculdades Atibaia – FAAT ________________________________________________________________ Titular: Prof. Dr. Antonio Mendes da Costa Braga Departamento de Sociologia e Antropologia Universidade Estadual Paulista – UNESP _________________________________________________________________ Suplente: Prof. Dr. Almerinda Antonia Barbosa Fadini Educação Básica, Superior e Tecnológica Instituto Federal de São Paulo – IFSP _________________________________________________________________ Suplente: Prof. Dr. Miriam Cláudia Lourenção Simonetti Departamento de Ciências Políticas e Econômicas Universidade Estadual Paulista – UNESP Marília, 09 de março de 2012. A meu pai, Artur Silveira Reis (in memoriam) AGRADECIMENTOS Gostaria de agradecer, primeiramente, aos moradores do bairro Boa Vista dos Silva, em especial Seu Idalmiro, Dona Azélia, Dona Benedicta, Eunice e Alice, pela confiança em compartilharem suas histórias de vida, pelo carinho e amizade. Guardo com saudades as prosas e andanças regadas com muita sabedoria, alegria, poesia e cheiro de mato. Ao professor Paulo Eduardo Teixeira pela orientação, aprendizado, incentivo e, sobretudo pela confiança depositada em mim e em meu trabalho. Ao professor Andreas Hofbauer pela leitura crítica e cuidadosa de meu projeto e trabalho, sugestões e reflexões; e, especialmente pela disposição e generosidade em colaborar com o amadurecimento desta pesquisa. À professora Miriam Cláudia Lourenção Simonetti, pelas contribuições, sugestões e interesse pelas Histórias do Mato. Ao professor Antonio Mendes da Costa Braga pelo interesse, contribuições, sugestões e disposição em participar de minha banca de defesa. Aos funcionários da Seção de Pós-Graduação e da Biblioteca (UNESP/Marília) pelo atendimento, sempre de forma muito atenciosa, às diversas solicitações realizadas ao longo do curso. Ao engenheiro agrônomo da CATI – Bragança Paulista Fernando Frias pelas importantes informações sobre o contexto geral em que encontra-se a produção rural no bairro Boa Vista. Ao Edivaldo Capodeferro e à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Bragança Paulista, pelas informações de delimitações de bairro. À Capes pelo financiamento parcial desta pesquisa. Aos meninos Frederico, Daniel, André, Guilherme e Marcos, colegas de curso e companheiros de disciplinas, de momentos de descontração e de reflexão. À Jaqueline pela companhia, conversas, sugestões e torcida. À Adriana, pela amizade logo no início do curso, e pelo compartilhamento de idéias, desejos, angústias e conquistas. À Jéssica, pessoa extremamente gentil e querida, pelas conversas, livros, textos, caronas... Agradeço pela acolhida que deixou minhas idas à Marília mais confortáveis e tranquilas. A todos que apoiaram o projeto Histórias do Mato, fruto deste estudo, em especial à amiga querida Lia. Melhor companhia de agbê não há! Aos pesquisadores com os quais compartilhei a experiência de trabalhar no Centro de Estudos Ambientais Sociedades e Naturezas da Universidade São Francisco (CEA/USF), pela construção de conhecimento, reflexões, ajuda mútua, aprendizado e momentos de muitas risadas. Destes, agradeço especialmente às amigas, e companheiras de muitas histórias, Micheli, Giovana e Leila, cada uma com seu jeito especial de ser, de cativar e de cuidar. Obrigada por ouvirem e compartilharem, obrigada por torcerem! Ao João Luiz Hoeffel e Almerinda Fadini, coordenadores do CEA/USF, pelo exemplo de parceria e companheirismo, que ao ultrapassarem os interesses estritamente acadêmicos, construíram um espaço de saber, de amizade, de experimentações, e, sobretudo de formação profissional e humana. Almê marca, porque é mulher, porque acredita, porque é afetuosa, porque é sensível, e porque ensina. João marca, porque acolhe, porque compartilha, porque é espirituoso, e porque ensina. A vocês, minha gratidão, respeito e amizade. Admiração. Aos meus amigos que chegaram, aos que ficaram e aos que virão. À minha família Reis, meu chão. Aos meus pais Eunice Reis e Artur Silveira Reis, pelo esforço e dedicação, exemplos de integridade humana e de força, por me guiarem até aqui. Iara, Regina e Guaraci, meus irmãos de sangue e de coração, obrigada por serem quem são. Maria José Mathias Bueno de Lima e José Ribeiro de Lima, agradeço o acolhimento, carinho e cuidado. Ao Fábio, meu companheiro, parceiro desta vida, de todas as horas: dos campos, de espacialização de informações, dos insights, das crises... Ao seu olhar sábio e amoroso que conquista, cativa e afaga. A Deus. Toda vez que dou um passo, o mundo sai do lugar. Ciranda de Siba e a Fuloresta (2007) RESUMO O município de Bragança Paulista/SP encontra-se em um contexto regional marcado por significativas transformações socioambientais decorrentes de períodos econômicos caracterizados por momentos sucessivos de crescimento e estagnação, destacando-se: a frustrada expectativa de riqueza através do ouro, o efêmero dinamismo do café, a tardia e atual industrialização que se contrapõe ao perfil ambiental regional, os impactos provocados pelas Rodovias Fernão Dias e Dom Pedro I, a problemática ambiental causada pela construção do Sistema Cantareira, a criação e a não regulamentação de suas unidades de conservação e o turismo desordenado. Tais transformações interferem diretamente na vida cotidiana da população, especialmente dos moradores das áreas rurais, configurando novas dinâmicas culturais. Neste sentido, o presente estudo busca investigar, por meio da história oral e da imagem, como as memórias e territorialidades dos moradores do bairro rural Boa Vista são reconstruídas mediante esse contexto de mudanças. Palavras-chave: Memória Coletiva. Imagem. História Oral. Territorialidade. Bairro Rural. ABSTRACT The municipality of Bragança Paulista/SP is located in a regional context marked by significant social and environmental changes that result from economic periods characterized by successive stages of growth and stagnation, including: the frustrated expectations of wealth through gold, the ephemeral dynamics of coffee , the late and current industrialization that is opposed to the regional environmental profile, the impacts caused by the Highways Fernão Dias and Dom Pedro I, the environmental problems caused by the construction of the Cantareira Reservoir Water System , the creation, and still unregulated protected areas and unplanned tourism. These changes directly affect the daily life of the population, especially the residents of rural areas, setting up new cultural dynamics. In this sense, this study investigates, through oral history and image methodologies, how the memories and territoriality from the residents of the Boa Vista Rural District are reconstructed inside this change context. Keywords: Collective Memory. Image. Oral History. Territoriality. Rural District. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Localização da Região Bragantina..........................................................................16 Figura 2 - Empreendimentos na Região Bragantina.................................................................18 Figura 3 – Delimitação do Bairro Boa Vista e Região denominada como Boa Vista dos Silva..........................................................................................................................................19 Figura 4 – Rodovia Fernão Dias...............................................................................................57 Figura 5 – Rodovia Dom Pedro I.............................................................................................57 Figura 6 – Abairramento de Bragança Paulista........................................................................64 Figura 7 – Usos agrícolas no Boa Vista dos Silva....................................................................65 Figura 8 – Segunda residência no Boa Vista dos Silva.............................................................66 Quadro 1 – Aspectos gerais das entrevistas realizadas.............................................................27 LISTA DE ABREVIATURA E SIGLAS SABESP – Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo APA – Área de Proteção Ambiental RMSP – Região Metropolitana de São Paulo CATI - Coordenadoria de Assistência Técnica Integral SEBRAE – Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo ISA – Instituto Socioambiental SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................................................13 CAPÍTULO 1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS REGIONAIS.............................42 1.1 Os bairros rurais paulistas: a construção de um modo de vida.......................................42 1.2 Região Bragantina: do bolsão de cultura caipira às unidades de conservação...............47 1.3 Boa Vista dos Silva: um bairro rural paulista em transformação...................................60 CAPÍTULO 2 MEMÓRIAS E TERRITORIALIDADES EM MOVIMENTO.....................68 2.1 Os narradores..................................................................................................................70 2.1.1 Benedicta Apparecida Magiolli...............................................................................70 2.1.2 Idalmiro Nunes de Macedo......................................................................................74 2.1.3 Azélia Gomes de Macedo........................................................................................77 2.1.4 Arranjos Visuais da Memória..................................................................................82 2.2 Histórias vividas no Boa Vista dos Silva........................................................................91 2.2.1 Que mais nóis trabaiamo..........................................................................................91 2.2.2 Eu fui nascida e criada nesta casa............................................................................96 2.2.3 Tem uma igreja lá em cima no morro....................................................................101 CAPÍTULO 3 MUDANÇAS E PERMANÊNCIAS NO BOA VISTA DOS SILVA............108 3.1 Natureza, terra e trabalho..............................................................................................108 3.2 Família, terra e trabalho.................................................................................................116 3.3 Religiosidade, capelas e sociabilidade.........................................................................127 CONSIDERAÇÕES FINAIS..................................................................................................139 REFERÊNCIAS......................................................................................................................145 13 INTRODUÇÃO Os moradores do Bairro Boa Vista, localizado em Bragança Paulista/SP, estabeleceram desde a sua formação um modo de vida considerado como próprio do interior paulista, que passou a ser denominado como caipira. O termo caipira está diretamente associado ao de cultura rústica, o qual refere-se à cultura tradicional do homem do campo. O caipira1 pertence a um grupo social que se constituiu a partir da miscigenação entre portugueses e indígenas, e, posteriormente, negros, quando do emprego de seu trabalho na lavoura sob o regime da escravatura. Este grupo ocupou primeiramente a região sudeste, especialmente o atual estado de São Paulo, e posteriormente Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso (CANDIDO, 2001; RIBEIRO, 1995). Diferentemente daquelas concepções que atribuem diversos aspectos pejorativos ao caipira, a exemplo do clássico personagem Jeca Tatu2 de Monteiro Lobato – muito presente no imaginário popular até os dias atuais -, os autores, Antônio Candido e Darcy Ribeiro em suas respectivas obras: Os Parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e a transformação de seus meios de vida, publicada originalmente em 19643, e O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, lançado em 19954, abordam o caipira como pertencente a um grupo social historicamente marginalizado, defendendo a reforma agrária como forma de inclusão do caipira num mundo que se moderniza. Esse processo de exclusão social pode ser contextualizado a partir das monoculturas das grandes fazendas em meados do século XVIII, onde as terras que abrigavam as sociedades caipiras, antes consideradas sem valor, tornam-se áreas de interesse para os latifundiários, 1 Para Candido (2001) o termo caipira tem a vantagem de não ser ambíguo, exprimindo desde sempre um modo de ser, um tipo de vida, nunca um tipo racial. 2 Jeca Tatu é um personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra Urupês (1918). Sobre este personagem, Darcy Ribeiro realizou a seguinte observação: “as páginas de Monteiro Lobato que revelaram às camadas cultas do país a figura do Jeca Tatu, apesar de sua riqueza de observações, divulgam uma imagem verdadeira do caipira dentro de uma interpretação falsa. Nos primeiros retratos, Lobato o vê como um piolho da terra, espécie de praga incendiária que atiçava fogo à mata, destruindo enormes riquezas florestais para plantar seus pobres roçados. A caricatura só ressalta a preguiça, a verminose e o desalento que o faziam responder com um ‘não paga a pena’ a qualquer proposta de trabalho. Descreve-o em sua postura característica, acocorado desajeitadamente sobre os calcanhares, a puxar fumaça do pito atirando cusparadas para os lados [...]. O que Lobato não viu, então, foi o traumatismo cultural em que vivia o caipira marginalizado pelo despojo de suas terras, resistente ao engajamento no colonato e ao abandono compulsório de seu modo tradicional de vida. É certo que, mais tarde Lobato compreendeu que o caipira era o produto residual natural e necessário do latifúndio agroexportador. Já então propugnando, ele também, uma reforma agrária”. (RIBEIRO, 1995, p. 390). 3 Utilizarei nesta dissertação a 9ª edição de 2001. 4 Esta obra foi concluída em 30 anos. 14 pois as grandes lavouras de monocultura de algodão, tabaco e, sobretudo, de açúcar e café, passam a prometer um enriquecimento através do comércio de exportação (RIBEIRO, 1995). Sob este contexto, o caipira, que estabeleceu seu modo de vida de forma autárquica baseada na cultura de subsistência e de cooperação vicinal5, vivia à margem da grande economia exportadora colonial, mais tarde capitalista (RIBEIRO, 1995). Setubal ao analisar a vida caipira do século XVIII a meados do século XX aborda também essa problemática em torno da ocupação e posse de terra: [...] como não tinham documentos de posse, e na falta de habilidade física e política para preservar e proteger suas terras, acabavam sendo expulsos, o que propiciava um constante movimento para novas fronteiras. A família era, para os lavradores, a condição básica para o estabelecimento de unidades domésticas de produção. Eram pequenos lares nucleares de casais com filhos em que se trabalhava desde pequeno. A cooperação entre pais, irmãos, mulher e vizinhos mostrava-se essencial à sobrevivência (SETUBAL, 2005, p. 21-2). Para Ribeiro (1995), a proscrição legal (Lei de Terras de 1850) do acesso à propriedade da terra pela simples ocupação e cultivo, através da obrigatoriedade da compra ou de formas de legitimação cartorial da posse, que eram inacessíveis ao caipira, implicou em profundas mudanças socioculturais e econômicas. Impôs-se a partir desse período uma reorganização social e econômica pautada no restabelecimento do sistema mercantil e com ele a valorização das propriedades. Neste sentido: Desencadeia-se a disputa pelas terras de melhor qualidade, próximas a redes de transporte, utilizáveis para as lavouras comerciais, cada vez mais amplas, de algodão e de tabaco e para as novas lavouras de café, que começam a difundir-se. Nesse processo os cartórios se ativam para avalizar títulos de velhas sesmarias, verdadeiros ou falsificados, promovendo o desalojamento de antigos posseiros. (RIBEIRO, 1995, p. 387). Cabe destacar que esse processo de expropriação desejado pelos grandes fazendeiros não foi assistido pelos pequenos proprietários de forma passiva, havendo resistências, inclusive por meios legais, tal como nos evidencia os processos de Ação Força Nova6 (TEIXEIRA, 2004). 5 As camadas sociais que mais se identificaram com a economia caipira de subsistência foram os sitiantes, posseiros e agregados, enquanto que os fazendeiros - cujos antepassados comumente partilhavam do mesmo tipo de vida - com a reorganização da economia canavieira e cafeeira, composta pela mão-de-obra escrava e depois imigrante, foram marcando sua diferença em relação aos agregados e sitiantes, abandonando o sistema de ajuda mútua entre vizinhos e as culturas de subsistência. (SETUBAL, 2005). 6 Ações cíveis movidas na tentativa de recuperar, segundo os seus autores, as terras e os danos causados por esbulho, com violência ou não, de terceiros (JUSTI, 2008). 15 Contudo, grande parte desses processos tendia a privilegiar os interesses dos grandes proprietários de terra, como nos elucida Teixeira (2004) ao analisar o processo de 1821 (Campinas) movido por uma mulher viúva contra um reverendo - senhor de engenho e deputado da Província de São Paulo -, a qual requeria uma indenização de um terreno que fora tomado de forma violenta, porém não obteve êxito. Sobre esta situação Teixeira (2004) observa que: Este episódio ilustra os vários processos de ‘Ação Força Nova’, movidos por diversas pessoas que, em disputa por terras e divisas, iam à justiça requerer seus direitos. Entretanto, quando se opunham adversários com forças desiguais, os resultados podiam ser funestos para os mais fracos, para aqueles que não tinham o apoio da Câmara, ou mesmo daqueles que não cultivavam uma ‘amizade politica’. Mulheres sós, viúvas que não tinham um nome reconhecido [...], fatalmente seriam forçadas a abdicar do campo, deixar a agricultura, e tentar a vida em outros lugares (TEIXEIRA, 2004, p. 209). Setubal (2005) coloca que desde o século XVIII, e, em especial a partir do século XIX, a produção das fazendas vai progressivamente entrando no sistema de mercado caracterizado pelas relações comerciais e fabris, que vão substituir o artesanato e a vida auto-suficiente do bairro rural, território implícito à cultura caipira, que constituía-se a partir de “grupos de convívio unificados pela base territorial em que se assentam, pelo sentimento de localidade que os identifica e os opõe a outros bairros, e pela participação em formas coletivas de trabalho e de lazer” (RIBEIRO, 1995, p. 384). Ademais, com a difusão desse novo sistema, observa-se uma tendência à substituição das formas de solidariedade vicinal e de compadrio pelas relações comerciais (RIBEIRO, 1995). Assim, com o avanço das monoculturas do açúcar e café e o monopólio da terra, no século XIX, o caipira é obrigado a engajar-se no colonato, como assalariado rural; refugiar-se em terras distantes tornando-se parceiro dos grandes proprietários; ou, emigrar para os centros urbanos em crescimento. Este cenário foi agravado com a ampliação da criação de gado para o mercado urbano, devido à viabilidade da exploração das áreas mais remotas e de terras pobres ou ricas para esta atividade (RIBEIRO, 1995). No que diz respeito ao contexto regional da área de estudo, é também com o advento (1830) e expansão do café (1854), que a economia deixa de ter suas bases na subsistência, provocando os primeiros abalos nas estruturas dos bairros rurais. Esse processo de mudanças no cenário sócio-econômico da Região Bragantina7 (figura 1) torna-se ainda mais intenso por 7 O contexto histórico da Região Bragantina retratado neste estudo relaciona-se aos atuais municípios: Bragança Paulista, Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Vargem, Joanópolis, Piracaia, Nazaré Paulista, Pedra Bela, Pinhalzinho e Tuiuti. 16 volta de 1950 com o desenvolvimento de novas atividades rurais e com o início da industrialização e do comércio. A partir de 1961, com a construção e posterior duplicação das rodovias interestaduais Fernão Dias e Dom Pedro I, e com a construção dos reservatórios que compõem o Sistema Cantareira8, intensificaram-se os conflitos socioambientais9, devido aos diferentes usos e interesses sobre os recursos hídricos regionais e à consolidação das atividades turística e imobiliária, culminando em uma expansão urbana acelerada (HOEFEL; VIANNA, 1996; BRAGANÇA PAULISTA, 1998). Figura 1 – Localização da Região Bragantina Elaboração: Fábio Bueno de Lima (2012) Este cenário de desenvolvimento regional baseou-se muito mais nos princípios econômicos do que sociais e ambientais, principalmente devido ao fato de estar incorporado, 8 O Sistema Cantareira foi construído visando suprir uma demanda crescente e solucionar o problema de abastecimento hídrico da RMSP, situado ao norte do município de São Paulo, transpondo o maciço da Serra da Cantareira, cuja tecnologia empregada foi considerada um marco na história do saneamento na região e no Brasil. O Sistema Cantareira constitui-se em um conjunto de obras hidráulicas de grande porte sendo composto por quatro reservatórios de regularização de vazões: Jaguary e Jacareí; Cachoeira; Atibainha e Juquery e abrange em sua totalidade cinco municípios da Região Bragantina: Bragança Paulista, Vargem, Piracaia, Joanópolis e Nazaré Paulista, e o município de Mairiporã (SABESP, 1989). 9 O termo socioambiental utilizado aqui focaliza “o relacionamento dinâmico e interdependente entre o mundo biofísico e o mundo social.” (LITTLE, 2004, p. 01). 17 desde o seu processo de formação, aos planos nacionais de exploração, tanto da população local, como de seus recursos naturais (LEITE, 1974; FADINI, 2005). Embora os períodos econômicos bragantinos tenham sido mais tardios do que em outras regiões paulistas e mineiras, os mesmos reproduziram o papel brasileiro de fornecedores de produtos primários para fora de seus limites regionais através da submissão e exploração de sua mão-de-obra. É notável também que, em sua história socioambiental, a paisagem bragantina foi gradativamente transformada para viabilizar os usos e cultivos considerados mais viáveis economicamente, enquanto que a maioria da população foi distanciada dos processos decisórios. Para Fadini (2005) estes acontecimentos ressaltam que a Região Bragantina esteve historicamente em sintonia com o projeto nacional que fundamentava-se no mito do desenvolvimento econômico10. Os períodos econômicos desta região foram marcados por momentos sucessivos de crescimento e estagnação, como a frustrada expectativa de riqueza através do ouro, o efêmero dinamismo do café, a tardia e atual industrialização que se contrapõe ao perfil ambiental regional, os impactos provocados pelas rodovias em busca de acessibilidade, a problemática socioambiental causada na construção do Sistema Cantareira, a criação e a não regulamentação da Área de Proteção Ambiental (APA) Sistema Cantareira11 e das unidades de conservação que compõem o Sistema de Áreas Protegidas do Contínuo da Cantareira12 (figura 2), e o turismo que não considera as necessidades das populações locais (FADINI, 2005). Atualmente, estes eventos intensificaram as mudanças dos aspectos naturais e culturais da região, interferindo diretamente no modo de vida dos moradores locais, em especial daqueles que ainda vivem nas áreas rurais (FADINI, 2005). 10 Para Furtado (1974) a idéia do desenvolvimento como um mito, consubstancia-se na fantasia, como algo inalcançável no arcabouço de um sistema que destrói recursos naturais, agrava disparidades de renda e tende ainda a produzir uma homogeneização cultural, além da tentativa de reproduzir por uma minoria privilegiada dos países periféricos um consumo similar aos dos países ricos gerando intenso desperdício. 11 A APA do Sistema Cantareira foi criada em 1998 visando à manutenção e melhoria da qualidade da água, principalmente nos municípios do entorno dos reservatórios do Sistema Cantareira, que abastecem a RMSP (SÃO PAULO, 2000) e regulam o fluxo de água para a Região Metropolitana de Campinas. Em 2009 iniciou-se o processo de criação do Conselho Gestor da APA visando à sua regulamentação. 12 Trata-se de um mosaico de unidades de conservação, em sua maioria de proteção integral, que abrange parcialmente municípios da Região Bragantina, criado em 2010 pelo governo do Estado de São Paulo através da Fundação para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo – Fundação Florestal. 18 Figura 2 – Empreendimentos na Região Bragantina Elaboração: Fábio Bueno de Lima (2012) 19 Sob este contexto encontra-se o Bairro Boa Vista, escolhido como área de estudo por apresentar diferentes graus de transformações sócio-culturais e ambientais decorrentes da expansão urbana, intensificada, especialmente com a duplicação da rodovia interestadual Fernão Dias iniciada em 1993. O Bairro Boa Vista (figura 3) possui uma área territorial de 9,16 km2, com uma população estimada em 500 habitantes (IBGE, censo de 2010), e constitui-se como uma importante área de produção agropecuária do ponto de vista municipal, mesmo mediante o aumento de usos residencial, turístico e de lazer. A produção no bairro é realizada, principalmente, sob o âmbito familiar, não sendo rara, porém, a adoção do regime de parceria ou meação entre famílias vizinhas. As atividades produtivas são bastante diversificadas havendo criação de gado, silvicultura de eucalipto, floricultura, granjas de frango, cultivos de hortaliças e frutas diversas. No que diz respeito ao tamanho das propriedades, há uma predominância de pequeno porte, não ultrapassando 10 hectares13. Figura 3 – Delimitação do Bairro Boa Vista e Região denominada como Boa Vista dos Silva Fonte: Google Earth (2009) 13 Informações obtidas junto ao técnico da CATI – Bragança Paulista/SP (2012). 20 Cabe destacar que o Bairro Boa Vista apresenta delimitações simbólicas atribuídas pelos próprios moradores locais: Boa Vista dos Silva (figura 3), Boa Vista dos César, Boa Vista dos Rosa, Boa Vista dos Buoso e Centro Rural. Estas subdivisões relacionam-se ao predomínio das famílias pioneiras, sendo a maior parte delas descendentes de italianos, os quais, por sua vez, adaptaram o seu modo de vida à cultura caipira, e que contribuíram para a formação do bairro por meio de seu trabalho na terra. Como um recorte da área de estudo optei em pesquisar o Boa Vista dos Silva devido à sua dinâmica cultural acentuada por um significativo fluxo migratório, impulsionado pela expectativa de melhores condições de trabalho e de moradia, bem como pela busca de tranquilidade e maior contato com a natureza. Sobre este último aspecto ressalta-se que trata- se de indivíduos vindos dos grandes centros urbanos - sobretudo da capital paulista - que escolheram o bairro como local de descanso, instalando suas chácaras de lazer, das quais muitas acabaram transformando-se em local de residência. Outro fator relevante na escolha deste bairro como área de estudo, é o seu dinamismo econômico, onde além da produção rural, cabe destacar o crescente turismo de segunda residência. É importante salientar que estes fatores citados acima encontram-se diretamente atrelados à duplicação da Rodovia Fernão Dias. Esse dinamismo estimulado por fatores externos resultou em alterações na economia local, como a expansão da produção agrícola para comercialização, utilização de fertilizantes químicos e especulação imobiliária voltada ao turismo de segunda residência e construção de condomínios residenciais; bem como alterações nos hábitos alimentares, no vestuário, nas formas de sociabilidade, nas práticas religiosas, dentre outros. Nesse sentido, é notável o seu distanciamento daquilo que autores como Candido (2001) e Ribeiro (1995) conceberam como bairro rural, onde já não é mais possível reconhecer no Boa Vista dos Silva aqueles elementos apontados como fundamentais para a constituição desses territórios, como os escassos recursos financeiros, a economia agrária de subsistência e os mutirões. Isso ocorre, pois o próprio meio rural encontra-se em transformação, onde os valores urbanos tornaram-se mais presentes na organização social local. Diante desse contexto, poderíamos nos questionar se estaríamos frente ao processo de desaparecimento dos bairros rurais, e, até mesmo, do ambiente rural. Os estudos da antropóloga Maria José Carneiro sobre a questão rural (1998, 2008) apontam para uma necessidade de repensarmos essa categoria mediante as mudanças em curso nas dinâmicas sociais, econômicas e culturais do meio rural, e considerá-la como um 21 “processo dinâmico em constante reestruturação dos elementos da cultura local, mediante a incorporação de novos valores, hábitos e técnicas” (CARNEIRO, 2008, p. 35). A autora em seu trabalho intitulado Ruralidade: novas identidades em construção, publicado em 1998, já apontava que o fenômeno rural era visto como inteiramente dependente da atividade produtiva que o dominava e que a industrialização ao estender suas consequências ao conjunto de territórios resultaria na dissolução do agrário, e na tendência à transformação uniformizadora das condições de vida no campo. Carneiro (1998) ressalta que esta concepção era típica das décadas de 1960 e 1970 em que o desenvolvimento capitalista apontava para esse caminho de forma exclusiva e inexorável. Contudo, a partir de 1980, os próprios limites do modelo produtivista no campo e da expansão industrial nas cidades, possibilitou o surgimento de formas alternativas de reprodução social tanto no campo quanto nas cidades, sugerindo aos pesquisadores a relativização do tom generalizador das interpretações anteriores, reconsiderando a relação entre tradições culturais e o processo de modernização na agricultura. Neste sentido, tornou-se possível repensar a questão rural, da qual a cultura caipira encontra-se inserida, e atentar-se aos diferentes processos de adaptação, como o próprio Candido (2001) já havia sinalizado em seu estudo junto aos parceiros de Bofete (1947-1954) ao buscar evidenciar os aspectos que indicam permanência de padrões tradicionais e aqueles que apontam para a alteração. Carneiro (1998), apoiada nas idéias de Chamborredon e Rambaud, reforça então a necessidade de superar a distinção entre o rural e o urbano tanto de forma dicotômica quanto a de um continuum dominado pela cena urbana, enfatizando para uma [...] necessidade de proceder a análises mais específicas do rural, centradas nas relações sociais que se desenvolvem a partir de processos de integração das aldeias à economia global. Nesta visão, esse processo, ao invés de diluir as diferenças, pode propiciar o reforço de identidades apoiadas no pertencimento a uma localidade. Essa âncora territorial seria a base sobre a qual a cultura realizaria a interação entre o rural e o urbano de um modo determinado, ou seja, mantendo uma lógica própria que lhe garantiria a manutenção de uma identidade (CARNEIRO, 1998, s/p). Esta concepção nos ajuda a perceber, no momento atual, como torna-se cada vez mais difícil delimitar fronteiras claras entre as cidades e os ambientes rurais a partir de uma classificação sustentada apenas em atividades econômicas ou mesmo em hábitos culturais. E, por outro lado, nos indica caminhos na busca pela compreensão de como o sentimento de localidade, a atribuição de um valor moral sobre à terra e a sociabilidade pautada na religiosidade e solidariedade, são aspectos permanentes na área de estudo. 22 Carneiro (1998), ainda sugere pensar o ‘rural’ e o ‘urbano’ a partir do ponto de vista dos agentes sociais que realizam essa interação, a fim de buscar romper com a dualidade inerente a essas categorias. Neste sentido a noção de localidade, enquanto referência espacial como qualificadora de um universo de relações sociais específico - que para Carneiro (1998) não define a natureza rural ou urbana do grupo ou das práticas e relações sociais que ele desenvolve - mostra-se relevante para compreender em que contexto se constrói e reconstrói a identidade territorial. [...] o sentido de localidade não estará presente em todo e qualquer espaço, ele será tão mais forte quanto mais consolidada for a identidade do grupo, ou seja, quanto mais forte for o sentimento de pertencimento a uma dada localidade. Para tal, supõe- se que a lógica de existência do grupo se sustente em um conjunto de valores tidos como identitários e que serve para distingui-los dos demais. É na possibilidade de se estabelecerem relações de alteridade com os ‘de fora’ que reside a capacidade do grupo de definir a sua identidade sustentada no pertencimento a uma localidade. (CARNEIRO, 1998, s/p). Para a autora, a identificação do reconhecimento de um determinado espaço como próprio ao indivíduo, à família e ao grupo mais amplo, pode ser revelado pela memória coletiva herdada de gerações anteriores, em que os marcos ou pontos de apoio dessa memória podem ser os próprios componentes naturais da paisagem, que persistem mesmo que transformados pela ação antrópica. Neste sentido, a memória coletiva, segundo Halbwachs (1990)14, ao encontrar a sua força e duração no fato de ser sustentada por um conjunto de indivíduos cuja lembrança do passado é referida a condição de membros do grupo, informa também as mudanças adaptativas do grupo ao sugerir respostas aos novos estímulos ou obstáculos, através do movimento de resgate de determinadas práticas do passado podendo oferecer saídas alternativas às possíveis dificuldades enfrentadas pelo grupo (CARNEIRO, 1998). Diante deste contexto algumas questões se mostraram relevantes para o direcionamento do presente estudo: (i) os fatores sócio-culturais externos implicam em que mudanças para os moradores do Boa Vista dos Silva?; (ii) como os moradores mais antigos percebem estas mudanças e as representam?; (iii) como se dá o processo de apropriação e re- apropriação do território? Na tentativa de responder estas questões delineei como objetivo da pesquisa: investigar como as memórias e territorialidades dos moradores do bairro Boa Vista dos Silva 14 Sobre o autor e obra referida ver página 24 e nota 17. 23 são reconstruídas mediante um contexto de mudanças. Como objetivos específicos encontram-se: - Verificar as principais transformações dos aspectos socioeconômicos, ambientais e culturais regionais que interferem direta e indiretamente no Bairro Boa Vista dos Silva; - Identificar as formas de territorialidades locais; - Identificar como o passado é representado pelos moradores mais antigos no tempo presente; - Analisar as mudanças e permanências no bairro Boa Vista dos Silva. Esta dissertação encontra-se estruturada em três capítulos: Capítulo 1. Aspectos históricos e culturais regionais, Capítulo 2. Memórias e territorialidades em movimento e Capítulo 3. Mudanças e permanências no Boa Vista dos Silva. No primeiro capítulo analiso o processo de constituição dos bairros rurais paulistas, assim como as principais transformações sócio-econômicas e ambientais da área de estudo e suas implicações no modo de vida das populações locais, partindo de uma perspectiva histórica regional para a local. No segundo capítulo apresento os moradores nascidos e criados no bairro de estudo que participaram desta pesquisa, bem como as suas formas de expressão do sentimento de pertencimento ao lugar, além das suas representações sobre o passado e presente, e territorialidades. No terceiro e último capítulo, analiso como os principais aspectos tidos como tradicionais são reelaborados frente às transformações do bairro. Busco, neste sentido, verificar como se dá o processo de re-organização deste grupo, constituído hoje por diversos atores sociais. Para representar esta situação de mudança, apresento as narrativas de uma das primeiras mulheres migrantes que também estreitou laços afetivos para com o Boa Vista dos Silva. Metodologia Para alcançar os objetivos estabelecidos, optei em basear esta pesquisa na memória daqueles que vivenciam este processo de mudança, privilegiando as narrativas orais enquanto principal fonte. O conceito de memória adotado para este trabalho é o de memória coletiva proposto pelo sociólogo francês Maurice Halbwachs, construído sobre as bases da sociologia durkheimiana. Em seu livro póstumo A memória coletiva, publicado em 195015, memória 15 Neste trabalho utilizarei a edição de 1990. 24 coletiva, diferentemente da memória nacional, oficial, não é concebida como uma imposição, mas sim como uma forma de reforçar os vínculos sociais por meio da adesão afetiva ao grupo (HALBWACHS, 1990); o que contribui também para compreendermos como essa memória coletiva interfere no processo de construção e reconstrução de territorialidades no Bairro Boa Vista dos Silva. Neste sentido, a história oral se mostrou como importante instrumento para recolher as narrativas, por privilegiar “a realização de entrevistas com pessoas que participam de, ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, visões de mundo como forma de se aproximar do objeto de estudo” (ALBERTI, 1990, p. 1-2). Além disso, ao trabalhar com experiências de vida, a história oral atuou também como uma forma de aproximação entre mim e os moradores do bairro, revelando não ser apenas uma técnica metodológica de coleta de material. Com relação à definição de história oral, esta é compreendida por Queiroz (1991) como: termo amplo que recobre uma quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documentação, ou cuja documentação se quer completar. Colhida por meio de entrevistas de variada forma, ela registra a experiência de um só indivíduo ou de diversos indivíduos de uma mesma coletividade. Neste último caso, busca-se uma convergência de relatos sobre um mesmo acontecimento ou sobre um período do tempo. (QUEIROZ, 1991, p. 5). Os sujeitos ao reportarem às suas vidas relembram eventos sócio-culturais, nos quais, para além do perfil pessoal, há um conjunto de representações do meio e da época, que podem colaborar na identificação de problemáticas e reconstrução de um universo social a partir da construção da identidade do sujeito. Esta será realizada à medida que o depoente narra suas memórias e desenvolve a consciência do ‘eu’ através da interação de sua própria vivência com o grupo social (SCHÖRNER, 2006). É notável a significativa contribuição da história oral para estudos de identidade, os quais para Meihy (2005) devem estar atentos com a diversidade e não apenas com as semelhanças e afinidades internas do grupo estudado. O autor ainda ressalta que esta metodologia se mostra como um mecanismo interessante para estudos voltados à análise dos processos de reorganização de identidades ou identificação em face às mudanças culturais por permitir a intimidade e a particularização dos processos de aceitação ou recusa dos valores ‘novos’. Como esta pesquisa também trilhará percursos identitários, correlacionados à memória e à territorialidade, em meio ao contexto de mudanças, fui à busca dos moradores mais 25 antigos do bairro16, visando identificar as suas percepções e representações no presente sobre uma época vivida. Bosi (1994) acredita que ao se trabalhar com a memória de pessoas mais velhas, cujos saberes muitas vezes são marginalizados, um universo social que possui uma riqueza e uma diversidade que não conhecemos pode chegar-nos pelas suas memórias. “Momentos desse mundo perdido podem ser compreendidos por quem não os viveu e até humanizar o presente” (BOSI, 1994, p. 82). E, ainda, suas memórias podem ser trabalhadas como um “mediador entre a nossa geração e as testemunhas do passado” (BOSI, 2004, p. 16). Para Gusmão (2011), o velho - ou idoso - ao portar uma maturidade pautada nas experiências de vida individuais e coletivas a serem comunicadas e compreendidas pela sociedade, exercendo um papel mediador nas tramas da vida social, aponta para a necessidade de pensarmos os diversos tempos e espaços em que o ‘outro’ se faz igualmente sujeito. Sendo assim, ele não constitui uma folha apagada pelo tempo ou a caminho disso. A cultura de que é portador resulta da vida em acontecimento, de sua rotina e das rupturas que lhe são próprias. Desse modo, a cultura que lhe é própria e por meio da qual decodifica a vida à sua volta representa a experiência vital de seu tempo e espaço em termos de si mesmo e como sujeito coletivo que é. É do interior da cultura que emerge um patrimônio cultural e social a um só tempo particular e universal. Da mesma forma, é no âmbito mais singular e mais geral da cultura que o debate da autonomia e dos direitos se coloca para aqueles que envelhecem. Nessa perspectiva, a velhice constitui um ‘tempo estratégico’ da vida em sociedade, no qual, simbolicamente, está em jogo a finitude de tudo que nos constitui como humanos, ou seja, a nossa identidade, a nossa alteridade. O problema desse ‘outro’, portanto, não está no velho ou na velhice por aquilo que é, senão pelo que representa. O que representa está em nós e na imagem que construímos de nós mesmos como padrão do que é ser de modo completo e pleno. (GUSMÃO, 2011, s/p, grifos do autor). Gusmão e Alcântara (2008), ainda observam que a velhice e o envelhecimento são geralmente percebidos na modernidade como um “problema social” (GUSMÃO; ALCÂNTARA, 2008, p. 156), implicando numa necessidade de realizar investimentos em programas sociais, como uma forma de assegurar a proteção “contra os próprios medos impostos pela fragilidade da condição humana” (GUSMÃO, 2011, s/p). Gusmão (2011) ainda problematiza esta questão ao afirmar que a velhice do outro nos espelha e nos obriga a pensar e repensar as imposições, os limites e as possibilidades da cultura para, então, resgatarmos a integridade de ser e restabelecer o nós em novas bases. Neste sentido, “espera-se expulsar de dentro de cada um o outro, natural e decrépito, para buscar referências positivas no campo da cultura e do social” (GUSMÃO, 2011, s/p). No entanto, a autora questiona como é possível fazê-lo, se a modernidade nega ao velho a condição de sujeito, produto e produtor de cultura. 16 Esta forma de identificação partiu dos próprios moradores, tanto dos mais jovens que reconheciam os mais velhos como tal, quanto dos mais velhos que se reconheciam como os mais antigos do bairro. 26 E conclui que o que está em jogo, é a natureza do social em que os velhos, de modo geral, constroem seu mundo (GUSMÃO, 2011). Sob esta perspectiva há que se considerar também que não existe um único modo de ser velho e de viver a idade madura, já que existe uma interação entre o indivíduo e seu contexto, os quais encontram-se, por sua vez, em constante transformação (GUSMÃO; ALCÂNTARA, 2008). No que diz respeito ao mundo rural, nota-se que não somente a paisagem muda, mas também as relações dos sujeitos com a terra, com outros sujeitos e com seu mundo, onde espaços e valores urbanos são mais presentes em sua vida cotidiana. Torna-se então, um desafio atual obter respostas plausíveis sobre como estas mudanças implicam em valores e atitudes que revelem estarem os mais velhos presos ou não ao mundo do ‘antigamente’ ou se estão mais flexíveis à modernização (GUSMÃO; ALCÂNTARA, 2008). Gusmão e Alcântara (2008) alertam ainda para o fato de que: Não se pode esquecer de que velhos e velhice se constituem em meios culturais, físicos, sociais e econômicos específicos, todos relacionais, seja na família, seja fora dela. Assim, as transformações que ocorrem na sociedade, como um todo [...] afetam a dimensão local de vida e afetam diretamente a todos que aí estão em termos de seu desenvolvimento, educação, saúde, bem-estar, competências sociais e ritmos inerentes às práticas cotidianas, representações que possuem de si e do seu mundo (GUSMÃO; ALCÂNTARA, 2008, p. 169). Considerando estas questões, busquei reconhecer os participantes desta pesquisa não somente como “guardiões de memórias de um lugar”, mas, sobretudo como sujeitos sociais que vivenciaram e vivenciam as transformações em seus lugares de vida, cujas memórias são dotadas não somente por lembranças, mas também por visões de mundo e posicionamentos perante a sociedade. Com relação à identificação dos sujeitos da pesquisa esta ocorreu mediante um levantamento prévio sobre a área de estudo, a fim de situar-me sobre o contexto histórico- social em que estes moradores encontram-se inseridos, como propõe Bosi (2004). Foi sob esta perspectiva que decidi utilizar fontes documentais para caracterizar este contexto sob o âmbito local e regional. Neste sentido, realizei consultas a documentos, relatórios técnicos e acervos históricos em diversos órgãos governamentais e não governamentais como: Prefeitura Municipal, Secretarias de Meio Ambiente, Coordenadoria de Assistência Técnica Integral da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento, universidades, associações da sociedade civil, assim como os estudos regionais realizados por pesquisadores do Centro de Estudos Ambientais Sociedades e Naturezas da Universidade São Francisco. 27 Contudo, ressalto que este levantamento não reflete o interesse em reconstruir historicamente o Bairro Boa Vista através de uma memória oficial, tampouco confirmar a veracidade das informações obtidas junto aos sujeitos participantes da pesquisa, mas sim levantar dados que contribuam para a compreensão do contexto geral em que encontra-se a área de estudo, conforme já havia mencionado. Além do levantamento de fontes documentais, realizei trabalhos de campo17, entre 2007 e 2008, nos quais foram realizadas observações diretas, registros fotográficos e conversas informais com os moradores locais, o que contribuiu, também, para a formação de uma rede de relações sociais. A partir de 2008 foram iniciadas as pré-entrevistas, que serviram como um estudo exploratório (THOMPSON, 2002), que contribuíram no estreitamento dos laços que já havia estabelecido com determinados moradores e familiarizar-me com a prática da história oral, especialmente no uso do gravador, na postura e no processo de transcrição, possibilitando a continuidade aos demais encontros. O quadro abaixo permite visualizar o envolvimento dos moradores na pesquisa: Quadro 1 – Aspectos gerais das entrevistas realizadas Nome Idade Profissão Declarada Origem Nº de Encontros Seu Idalmiro 81 anos Lavrador Boa Vista dos Silva 05 Dona Azélia 76 anos Do Lar Boa Vista dos Silva 05 Dona Benedicta 70 anos Aposentada Boa Vista dos Silva 05 Eunice* 45 anos Lavradora Boa Vista dos Silva 01 Alice* 51 anos Lavradora Adamantina 02 S.T.* - Lavrador Boa Vista dos Silva 02 S.J. * - Lavrador - 01 * Moradores que contribuíram com informações preciosas para a compreensão do atual contexto cultural do bairro relacionadas ao trabalho, religiosidade e à sociabilidade. Tais informações, sendo que nem todas foram gravadas, foram colhidas no decorrer da pesquisa por meio de conversas nas casas, nas festas religiosas e no próprio ambiente de trabalho. As entrevistas mais densas, que ocorreram com o grupo formado pelos moradores mais antigos do Boa Vista dos Silva, foram realizadas em suas casas, geralmente nas varandas, e não eram raros os cafezinhos, os sucos, os bolos de fubá, de laranja... gentilezas que, após a superação da desconfiança, eram sempre mantidas, tornando o ambiente ainda mais acolhedor, revelando que estes moradores estavam sempre “prontos à hospitalidade desde que não surgissem dúvidas” (CANDIDO, 2001, p. 52, grifos do autor). 17 Esta fase exploratória da pesquisa foi realizada no período em que estava elaborando a monografia "Histórias do Mato": lembranças, imagens e histórias do Bairro Boa Vista, em Bragança Paulista/SP (2009) para a conclusão do curso de especialização em arte-educação (FAAT - Atibaia). 28 Estas entrevistas, que eram agendadas previamente, foram gravadas e posteriormente arquivadas no computador através do programa Voice Editing, com informações relacionadas à data da realização da entrevista, tempo de duração e a autoria dos relatos, como sugerido por Thompson (2002). Propus-me a seguir a sugestão de Bosi (2004) e Thompson (2002) de conhecer os lugares do Boa Vista dos Silva registrados na memória dos moradores e que historicamente foram sendo transformados. Entretanto, de forma muito interessante, essa proposta partiu dos próprios moradores entrevistados que demonstraram uma necessidade de sair do interior de suas casas para visualizarem e mostrarem tanto aspectos naturais e culturais que compõem a paisagem local para darem continuidade ao seu processo de rememoração. Alguns desses momentos e elementos paisagísticos apontados pelos entrevistados foram fotografados por mim. A paisagem é então, conforme Holzer (2000), compreendida neste contexto como um receptáculo de memória, por ser uma expressão física da ação do ser humano sobre a natureza. Outro suporte visual que se mostrou relevante no processo de realização das entrevistas foram as fotografias, já que as entrevistas mais densas, relacionadas diretamente com histórias de vida, não foram guiadas por um roteiro de questões pré-estabelecido. Optei por este caminho por considerar mais interessante, do ponto de vista do trabalho de rememoração, que os entrevistados estabelecessem suas próprias trajetórias nesse processo, permitindo a identificação dos possíveis percursos estabelecidos por cada entrevistado em torno de uma temática comum: as transformações sócio-culturais ocorridas em seu bairro a partir do processo de urbanização. Assim, no momento em que as fotografias eram reveladas pelos moradores vinham à tona diversas lembranças, as quais, por sua vez, lhes traziam outras tantas. Neste sentido, as fotos ao saírem das caixas, dos álbuns, desempenharam não apenas um papel de desencadeador de memórias, mas de orientação desse processo de rememoração, reconstrução e veiculação de memória, como já sinalizara Simson (2005). A utilização metodológica da fotografia e relato oral é crescente em estudos na área de ciências humanas, dos quais podemos citar o trabalho de Bruno (2003) que em sua dissertação de mestrado Retratos da Velhice. Um duplo percurso: metodológico e cognitivo realizou uma reflexão metodológica em torno da memória de pessoas idosas, tendo como suportes a verbalidade e a visualidade; de Araújo e Mahfoud (2002) que no estudo intitulado Memória Coletiva e Imagem Fotográfica: Elaboração da Experiência em uma Tradicional 29 Comunidade Rural investigaram o trabalho de memória e seus significados na história individual e coletiva a partir da coleta de depoimentos sobre as impressões da população ao observar as fotos que estavam em exposição no bairro; e, de Simson (1991) que na sua tese de doutorado Brancos e Negros no Carnaval Popular Paulistano (1914-1988) utilizou a fotografia associada a outras fontes de dados para reconstrução da memória histórico- sociológica do carnaval paulistano. Sob esta perspectiva metodológica cabe citar a análise de Samain (1995, p. 32-3) sobre as clássicas obras de Bronislaw Malinowski sobre os trobriandeses: Os Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), A Vida Sexual dos Selvagens (1929) e Os Jardins de Coral e suas Mágicas (1935). Sob um olhar atento a “etnografia visual” de Malinowski, o autor realiza as seguintes observações sobre a referida obra em seu contexto visual e textual: Uso crescente que Malinowski faz da fotografia, onde o texto dos Argonautas do Pacífico Ocidental incorpora 75 fotografias; 92 na Vida Sexual dos Selvagens; e, 116 nos Jardins de Coral, totalizando 283 fotografias ao longo dessas três obras complementares. Esse número é considerado por Samain (1995) elevado, se considerarmos a época (1914-18), as condições precárias de preparação das placas sensíveis, o arsenal necessário à revelação das chapas e dos filmes e a própria inexperiência profissional de Malinowski; Acompanhamento de cada uma das pranchas com uma legenda extremamente precisa. Sendo este elemento o mais importante e significativo para Samain (1995). Este recurso apresenta a mesma estrutura: – Título global, curto, sintético, relativo à fotografia ou à prancha; – Seguido de um breve comentário, espécie de boletim exploratório da cena registrada onde se sente que o autor faz questão de nunca isolar a fotografia ou prancha de seu contexto etnográfico mais amplo. Isso fica corroborado pelo fato de que – na maioria dos casos – Malinowski, ao concluir sua legenda, remete seu leitor a páginas precisas de seu comentário escrito ou – mais geralmente – a um ‘capítulo’, a uma ‘divisão do capítulo’, a tal ‘parágrafo’; – A mesma situação apresenta-se, desta vez, no corpo de seu próprio texto. Malinowski escreve e, de repente, abre um ou mais parênteses para assinalar ao seu leitor: ‘Veja pranchas tais e tais…’, ‘Se você, leitor, quiser realmente entender o que relato, você deve necessariamente rever e olhar atentamente o que também mostro nas minhas pranchas’. 30 Samain (1995) conclui então que: [...] Existe, na utilização que Malinowski faz de suas fotografias, algo que ultrapassa – e de longe – a simples ilustração. Nesse vaivém entre as fotografias e as legendas remissivas ao seu próprio texto, o qual, por sua vez, reintroduz e reconduz o leitor na própria prancha visual que lhe corresponde, fica patente que, para Malinowski, o verbal e o pictórico (desenhos, esquemas e fotografias) são cúmplices necessários para a elaboração de uma antropologia descritiva aprofundada. Tal osmose é capital para ele. O texto não basta por si só. A fotografia, também não. Acoplados, inter- relacionados constantemente, então sim, ambos proporcionarão o sentido e a significação. (SAMAIN, 1995, p. 33-4). A fotografia enquanto instrumento metodológico também foi utilizada como uma forma de aproximação entre mim e os moradores do Boa Vista dos Silva na medida em que eu retornava ao bairro com as cópias das fotos que havia tirado sobre os diversos aspectos do local, e das próprias fotos dos acervos familiares. Elas eram muito bem recebidas e comentadas18. As minhas observações em campo foram traduzidas tanto em forma de texto, por meio de anotações, quanto em imagem, pelo ato fotográfico, dos traços culturais que se mostraram significativos para a compreensão do processo da construção da memória coletiva. Desta forma, as imagens19 aqui utilizadas não são apenas ilustrações para a escrita, mas sim o meio pela qual elaborou-se um processo de rememoração, bem como uma forma de representação. Para Martins (2008) a fotografia tornou-se praticamente um campo auxiliar das ciências sociais, já que é constituída por uma construção imaginária, expressão e momento do ato de conhecer a sociedade com recursos e horizontes próprios e peculiares, ou seja, um conhecimento construído, tornando-se cada vez mais documento e instrumento indispensáveis na leitura dos fenômenos sociais. Alegre (1998) aponta que o uso de imagens nas ciências sociais não é algo recente, sendo um recurso antigo e bastante frequente, sobretudo na antropologia. Entretanto, a autora reforça que até o início da década de 1990 a imagem apresentava, geralmente, um caráter apenas complementar ao texto, uma ilustração do relato e prova documental da presença do etnógrafo, como um meio convincente de dar credibilidade ao autor, ‘testemunha ocular’ e intérprete autorizado das situações e experiências relatadas. 18 Ao visualizar a sua fotografia junto ao seu violão, que estava com uma corda estourada, Seu Idalmiro, um dos moradores entrevistados, profere a frase: - Ô a maquininha dela é bicho feio hein? Agora não acaba mais! 19 As fotos recolhidas ou produzidas foram arquivadas no computador mediante ficha técnica, constando informações como: tipo de foto, autor, fonte, entre outros. 31 Somente no início da década de 1990 é que assistimos um movimento crescente de estudos voltados para a análise social da imagem e de seus aspectos cognitivos e que procuram avaliar a importância das imagens na vida dos indivíduos e dos grupos sociais, colocando a questão da imagem como eixo central do estudo (VORONINA 1989 apud ALEGRE, 1998). Cabe destacar que na história da antropologia visual, uma obra de significativa relevância é “Balinese Character (1942)” dos antropólogos Margaret Mead e Gregory Bateson, cujos trabalhos de campo foram realizados entre 1936 e 1938, em Bali e Nova Guiné. Achutti (1997) sustenta que embora não tenham sido os primeiros a utilizar a câmera para campo, foram talvez os primeiros a utilizar os recursos visuais como principal ferramenta no trabalho de levantamento de dados etnográficos, assumindo a imagem como eixo central do estudo. Para Tacca (2005) a partir do estudo da imagem podemos “aproximar a representação imagética da noção de mundo de determinada cultura, por conter valores inerentes nos aspectos de sua produção e de sua conseqüente significação” (TACCA, 2005, p.11-12). Este aspecto está diretamente relacionado à subjetividade, a qual configura-se numa questão central a ser enfrentada, pois [...] muitos materiais visuais, como desenho documental e a fotografia, costumam ser associados a um grau de ‘autenticidade’ da informação que, na verdade, não possuem. Apesar de todos os avanços da crítica teórica, penso que as ciências sociais, verbais por excelência, ainda tratam as imagens de forma positivista, como descrições da realidade e não como representações simbólicas, cuja leitura não apenas varia segundo o olhar do espectador como também é decorrente da própria natureza construída da imagem. (ALEGRE, 1998, p. 76-7). Martins (2008) compartilha da mesma visão que a autora, mas acredita que na medida em que se intensifica o uso das imagens nas ciências sociais, considerando-as não apenas enquanto documentos em si, mas também como registro, abre um amplo terreno de indagações, dúvidas e experimentos que tanto enriquecem o conhecimento produzido por essas ciências quanto alargam a consciência das limitações que têm as técnicas de investigação conhecidas e consagradas ou a consciência de sua importância relativa20. Outro aspecto metodológico a ser considerado nesta pesquisa, além do uso da imagem, é a transcrição de entrevistas. Embora exista uma orientação para que os relatos sejam transcritos na íntegra (THOMPSON, 2002), com mínima intervenção do pesquisador, optei 20 Martins (2008) ainda cita que Becker (1978) sistematizou dúvidas sobre a verdade da fotografia e sugere que as mesmas dúvidas se aplicam a outras formas de documentação utilizadas pelas ciências sociais, a começar pelo depoimento verbal, já que a fala também segue um roteiro, assim como a composição fotográfica segue uma intenção. 32 pela transcriação, método proposto por Meihy (2005, p. 195). Esta forma de transcrição permite ao pesquisador interpretar o discurso do outro, porém sem distorcê-lo. Entretanto, é fundamental que o narrador se reconheça no texto, pois em história oral, de acordo com o autor, esse reconhecimento procedido pela conferência e pela autorização determina se o colaborador se identificou ou não com o resultado, o que lhes confere a qualidade do texto. Nesse sentido, Meihy compreende a história oral enquanto um método que possibilita a invenção de um discurso que se estabelece na interação entre pesquisador e narrador, enquanto sujeitos culturais e históricos, e que recria o passado a partir do presente, e não como uma forma de resgatar o passado e reconstruir a realidade social a partir do discurso fidedignamente transcrito do entrevistado (GALLIAN, 1991/1992). Esta concepção está relacionada a uma reflexão construída de forma interdisciplinar, a partir de trabalhos que abordam, sobretudo, a problemática da escrita como produto do trabalho de campo, realizados na área da antropologia, linguística e semiótica (MEHY, 1990). Para o autor os trabalhos que foram fundamentais para sua reflexão em torno desta questão foram, na área da antropologia, os trabalhos de Clifford Geertz, em especial, El antropólogo como autor (1989). Como reflexões atualizadoras de outras áreas, ele cita o conjunto de artigos sobre diferentes ângulos do problema da textualização reunidos por Josué V. Harari, Textual Strategies: perspectives in Post-Structuralist Criticism (1979). Meihy (1990, p. 17) coloca que também foram significativos os debates constantes do livro editado por Stuart Plattner, Text, play, an story: the construction and reconstruction of self and society (1984) e os demais constantes da obra editada por James Clifford e G. E. Marcus, Writing culture: the poetics and politics of ethnography (1986). O autor destaca, contudo, Roland Barthes como aquele que exerceu maior influência com as propostas de seu “teatro de linguagem”. Sobre a representatividade da visão de Barthes, Meihy (1990) observa que: Barthes insiste em mostrar a inevitável interferência do caráter transformador usado nas narrativas ‘científicas’. Considerando que todo resultado de estudos de pesquisas tem que se render à textualização, fase que medeia a pesquisa e os leitores, o autor mostrou que devido à imperiosidade da textualização, os escritores apelam para o inevitável ‘teatro de linguagem’, isto é, a soma dos recursos criativos (a invenção) como forma de ‘convencer’, ‘mostrar competência’ e ‘enfeitiçar’ os leitores. Esta observação é situada no debate promovido por Barthes sobre ‘autores e escritores’; a respeito do conceito de autoria, Barthes apresenta uma variação onde distingue ‘autores’ de ‘escritores’, ‘obra’ de ‘texto’.21 (MEIHY, 1990, p. 30). 21 Sobre este assunto Meihy (1990) recomenda a leitura de Rolands Barthes, Authors and Writers em Susan Sontag, A Barthes Readers, pp. 121-132. Considera também importante verificar as observações formuladas em artigo de Michel Foucault, What is an author? em Josué V. Harari, Textual strategies: pespectives in post- structuralist criticism, pp. 141-160. 33 Considerando tais questões e estudos Meihy (1990; 1991) propõe que no momento da produção do texto final, isto é, na passagem do estado de língua oral para a escrita, estas questões sejam consideradas, já que para o autor, o pesquisador não apenas interage na rememoração e na construção do discurso do narrador no momento da entrevista, mas também atua como recriador da entrevista através da transposição do discurso oral para o escrito. Neste sentido, ele deve se assumir como verdadeiro co-autor do documento, na medida em que a transposição não se limita apenas em transcrever a palavra dita. Na verdade, ela é um trabalho de reinvenção, de interpretação. Estas reflexões contribuem para verificarmos que assim como a imagem carrega em si subjetividades, o texto também, pois o mesmo foi realizado a partir de uma relação dialógica e não neutra. Gallian (1991/1992) ressalta que a produção de um texto que irá se instituir como documento, deve ser passível de interpretação, o que reforça a necessidade da explicitação e reconhecimento da intersubjetividade em todas as etapas do processo de criação do texto, pois permitem com que as conclusões e afirmações sobre o narrador, sua história e sua cultura sejam realizadas sob estas perspectivas. Neste sentido, é pertinente considerar as reflexões de Clifford (1998) sobre o que ele chamou de autoridade22 etnográfica, pois mesmo não se tratando de um estudo etnográfico, não se pode denegar que o processo de realização de entrevistas até a produção do texto final ocorreu a partir de relações intersubjetivas, o que pressupõe o envolvimento de, no mínimo, “dois sujeitos conscientes e politicamente significativos” (CLIFFORD, p. 1998, p.43). O que requer que a escrita seja construída enquanto uma negociação construtiva envolvendo estes sujeitos, de forma dialógica ou polifônica, que represente vozes e perspectivas diversas e que não seja construída monologicamente, como uma afirmação sobre, ou mesmo como uma interpretação de uma realidade, em que a interpretação ganha prioridade frente à experiência (CLIFFORD, 1998). O texto final foi elaborado partindo destas reflexões, sendo que num primeiro momento optei por fazer uma transcrição literal para somente depois partir para a 22 Como elucida José Reginaldo Santos Gonçalves (1998, p. 13) na apresentação da publicação de James Clifford A experiência etnográfica. Antropologia e literatura no século XX: “A noção de ‘autoridade’ é usada [...] no sentido de se pensarem as estratégias retóricas pelas quais o ‘autor’ (entendido não como um dado, mas como uma função) constrói a sua presença (ou ausência) no texto, assegurando em termos epistemológicos (mas também, ao mesmo tempo, assegurando em termos de poder) a legitimidade do seu discurso sobre aquele contexto social e cultural a ser representado. Desse modo, a ‘autoridade’ em questão não é apenas uma espécie de justificação para uma posição de superioridade do etnógrafo, mas na verdade é peça fundamental na própria constituição do texto e, simultaneamente, na articulação da experiência representada.” (grifos do autor). 34 transcriação, buscando também sinalizar os gestos, as pausas e os silêncios decorrentes das falas. Cabe ressaltar que as narrativas em seu formato aqui apresentadas, não representam de forma fiel o modo de falar dos moradores entrevistados, especialmente no que se refere à estrutura lingüística, pois demandaria um estudo aprofundado, o que não foi viável nesta pesquisa. Entretanto, procurei manter alguns elementos próprios da fala do morador rural da Região Bragantina, pois não podemos desconsiderá-la enquanto traço identitário individual e coletivo. Acredito ser importante destacar que os participantes desta pesquisa não são reconhecidos enquanto informantes apenas, mas sim, enquanto sujeitos (CLIFFORD, 1998, p. 43), conforme já apontado anteriormente. Esse reconhecimento se refletiu no cuidado da abordagem; na explicação e esclarecimentos sobre os motivos e finalidades da pesquisa; no uso autorizado do gravador; na divulgação do nome e demais informações pessoais somente quando autorizada – mediante contrato de licença de uso de imagem e depoimentos (THOMPSON, 2002); e nas conversas em ambientes externos e nas casas desses atores. No que diz respeito ao uso das fotografias sob o contexto metodológico apresentado, cabe aqui justificar que não elaborei legendas auto-explicativas pelo fato das imagens estarem incorporadas ao texto. Por esta razão é que adianto os créditos das fotografias recolhidas no contexto dos acervos familiares de Idalmiro Nunes de Macedo, Azélia Gomes de Macedo, Benedicta Apparecida Magiolli e Eunice Gomes de Moraes. Saliento que não foi objetivo deste estudo precisar as datas em que foram realizadas as fotos, as quais, por sua vez possuem autoria desconhecida. Com relação às fotografias de minha autoria informo que foram realizadas no período de 2007 a 2010. Territorialidade e memória coletiva Territorialidade Considerando as problemáticas ligadas às diferentes formas com que os grupos sociais se relacionam, se organizam e se apropriam dos espaços nos quais estabelecem a sua produção e reprodução cultural, o conceito de territorialidade contribui na busca para a compreensão dessa dinâmica presente no Boa Vista dos Silva. 35 Este conceito está diretamente relacionado ao de território, o qual, por sua vez, apresenta múltiplas perspectivas. Para este estudo serão priorizadas as concepções que consideram a dimensão simbólica enquanto um elemento constitutivo de um território. Raffestin (1993) ressalta que o território se forma a partir do espaço, no momento em que o ator social se apropria concreta ou abstratamente territorializando-o. Assim, o território pode ser concebido como um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, revela relações marcadas pelo poder. Sob este contexto é importante considerar a questão de domínio ou gestão de uma determinada área, a qual recebe uma função que estará diretamente relacionada à forma de apropriação que pode ocorrer tanto por grupos sociais quanto pelo poder público estatal e/ou poder das grandes empresas. Assim, ele assume um duplo sentido: “o controle de fato efetivo, legitimado pelo poder e por outro lado, vincula-se à dimensão afetiva e associa-se à identidade de grupos e à afetividade espacial” (FARIA, 2001, p. 115-6). Constitui-se, assim, um campo de forças, uma rede de relações sociais que, conscientes de sua complexidade interna, define, ao mesmo tempo, um limite, uma alteridade: a diferença entre ‘nós’, os membros da coletividade e os ‘outros’, os de fora, os estranhos. Esse dinamismo, consequentemente, apresenta um caráter flexível, podendo ser tanto permanente quanto periódico, cíclico (SOUZA, 1995). Desta forma, a continuidade e descontinuidade, a construção e desconstrução também passam a ser importantes elementos na concepção de território, no entanto, salienta-se que estes elementos não ocorrem de forma dicotômica, mas sim em constante interação. Não é possível, então, concebermos o território apenas em seus aspectos físicos, pois fica evidenciado como os aspectos culturais são determinantes para a sua constituição. Santos (2003) ainda cita que também não se trata apenas de uma superposição de um conjunto de sistemas naturais e de um conjunto de coisas criadas pelo homem, mas de algo mais complexo, pois, para o autor, o território é o chão somado à identidade, ao fato e ao sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. “O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ela influi” (SANTOS, 2003, p. 96). O território visto dentro da dimensão cultural pode então ser considerado como resultado de uma apropriação simbólica, da qual Haesbaert (2006, p. 93) destaca que “todo grupo se define essencialmente pelas ligações que estabelece no tempo, tecendo seus laços de 36 identidade na história e no espaço, apropriando-se de um território, concreta ou simbolicamente, onde se distribuem os marcos que orientam suas práticas sociais”. A essa dimensão simbólica do território, é que o conceito de territorialidade encontra- se diretamente ligado. Chávez (2002) define territorialidade como: a construção do espaço, a dotação de sentido ao lugar que se habita, ao qual se pertence através das práticas cotidianas. Práticas mediante as quais um determinado grupo social consegue reproduzir sua cultura. A territorialidade, então, poderia ser definida como o sentimento (caráter subjetivo) que emana da consciência de pertencer a um território (caráter objetivo). (CHÁVEZ, 2002, p.02). Pode ser, então, traduzida como um esforço coletivo de um determinado grupo social para ocupar, controlar e se identificar com uma parcela específica de seu ambiente biofísico, convertendo-a assim em seu território (LITTLE, 2002). A partir destas concepções, é notável a relevância do presente enquanto elemento definidor da territorialidade, entretanto, ao analisar o território de qualquer grupo torna-se também relevante uma abordagem do passado. Para Chávez (2002) a importância do tempo presente nesta perspectiva não elimina “o valor dos processos acontecidos no passado, a memória presente na corporalidade e nas paisagens, os acontecimentos que influenciaram nas capacidades perceptivas e cognitivas sobre o território” (CHÁVEZ, 2002, p.02), isto é, fatores que exercem influências na dotação de sentido ao lugar de vivência. A territorialidade, segundo Casimir (1992 apud LITTLE, 2002), é uma força que está subentendida em qualquer grupo, cuja manifestação explícita depende de contingências históricas. O autor ainda aponta que o fato do território surgir diretamente das condutas de territorialidade de um grupo social implica que qualquer território é um produto histórico de processos sociais e políticos. Esses processos são também marcados por disputas de poder, como colocado por Chávez (2002), que, sob o contexto do estado-nação, é possível notar ao longo da história a sucessão de processos de integração cujo objetivo era a supressão das identidades étnicas a partir da imposição de novas territorialidades, novas demarcações territoriais, novos regimes de propriedade e acesso aos recursos naturais e novas relações de produção. No entanto, no decorrer desse processo observaram-se respostas múltiplas sobre tais imposições. De um lado, verificaram a instauração de processos que iam desde um declínio até a extinção de sistemas culturais locais, bem como a alienação e perda do território. E, por outro lado, foram registrados processos de resistências, assim como a atribuição de novos 37 sentidos ao território, conseguindo-se manter determinados elos fundamentais (CHÁVEZ, 2002). Neste contexto, a noção de pertencimento ao lugar23 - também denominado como noção de lugar ou noção de localidade - que é resultante da experiência vivida no território, acaba por ser um elemento intrínseco à territorialidade. O elo afetivo existente entre o indivíduo ou um grupo e o lugar é definido por Tuan (1980) como topofilia, sendo que para o autor a consciência do passado é um elemento relevante nesta relação de valores com o lugar de vivência. Little (2002) alerta que essa noção não deve ser confundida com a noção de originariedade, ou seja, o fato de ser o primeiro grupo a ocupar uma área geográfica. Para o autor, a situação de pertencer a um lugar refere-se a grupos que se constituíram em um local específico, independentemente de serem os primeiros. A noção de pertencimento a um lugar agrupa tanto os povos indígenas de uma área imemorial quanto os grupos que surgiram historicamente numa área através de processos de etnogênese e, portanto, contam que esse lugar representa seu verdadeiro e único território. “Ser de um lugar não requer uma relação necessária com etnicidade ou com raça [...] mas sim uma relação com um espaço físico determinado” (LITTLE, 2002, p. 10), o qual, por sua vez, leva a marca do grupo que o ocupou a partir de sua produção e reprodução cultural. O autor acrescenta que nesse sentido a categoria de identidade pode se ampliar, à medida que a identidade de um grupo passa, entre outras coisas, pela relação com os territórios construídos com base no seu regime de propriedade, nos vínculos afetivos que mantém com seu território específico, na história da sua ocupação guardada na memória coletiva, no uso social que dá ao território e nas formas de defesa dele (LITTLE, 2002). Essa dinâmica territorial coloca a multiplicidade de expressões como um aspecto fundamental da territorialidade, resultando em inúmeras possibilidades de construção de diferentes tipos de territórios, em que cada um apresenta suas peculiaridades socioculturais (LITTLE, 2002). Por estas questões Chávez (2002) afirma que o território é uma categoria vital, porém não essencial, por justamente não ser definitiva. É uma categoria que é apreendida em cenários contíguos e alternos, adjacentes e separados, dependendo do tipo de interações 23 O lugar está implícito à territorialidade por não ser “apenas um quadro de vida, mas um espaço vivido, isto é, de experiência sempre renovada, o que permite, ao mesmo tempo, a reavaliação das heranças e a indagação sobre o presente e o futuro. A existência naquele espaço exerce um papel revelador sobre o mundo.” (SANTOS, 2003, p.114, grifo do autor). 38 estabelecidas com o ambiente e os repertórios culturais. “Territorialidades assim são essencialmente múltiplas, pois os agentes individuais têm percepções divergentes e admitem a co-presença de alteridades culturais” (CHÁVEZ, 2002, p. 3). Neste sentido, podemos compreender o território como dinâmico e passível de transformações, ou como nas palavras de Chávez (2002, p.10): “unidade descontínua e híbrida”, concepção que também contribui para uma melhor compreensão sobre os processos de construção identitária, onde a territorialidade e a memória, tanto individual quanto coletiva, apresentam-se como elementos fundamentais. Memória Coletiva Ao considerarmos que os indivíduos pertencem e vivem em sociedade, a construção de suas memórias individuais está intimamente ligada à memória de um determinado grupo social, ou seja, à memória coletiva, pois, conforme Halbwachs (1990), os seres humanos vivem numa estrutura social e por esta razão as lembranças são retomadas a partir dessa referência coletiva, a partir de um grupo com o qual compartilha-se uma visão de mundo, cuja permanência de um vínculo afetivo permite atualizar uma identificação com a comunidade de referência, esteja esta presente ou ausente, e compreender-se numa perspectiva histórico- social. Neste sentido, a memória deve ser compreendida como um fenômeno coletivo e social que reside no campo dos “acontecimentos” (POLLAK, 1992, p. 02) vividos, que carregam em si diversos significados, tanto individualmente quanto pela coletividade da qual o indivíduo se sente pertencer. Pollak (1992) cita que além dos acontecimentos, são também elementos constituintes da memória, as pessoas e os lugares, estes por sua vez, são, para o autor, aqueles que particularmente estão ligados a uma lembrança, que pode ser uma lembrança pessoal, mas também pode não ter apoio no tempo cronológico. Para Halbwachs (1990), as imagens espaciais também desempenham um papel na memória coletiva, pois quando um grupo ocupa um determinado espaço ele o transforma à sua imagem, às suas necessidades, mas também se submete e se adapta aos elementos físicos que a ele resistem. O autor sustenta que quando ocorre um acontecimento considerado grave, este sempre provoca uma mudança nas relações do grupo com o lugar, podendo tornar os vínculos que o ligavam ao lugar mais claros, ou, num outro extremo, abalados. 39 Este movimento imbuído na memória nos traz também o seu caráter seletivo, pois “a necessidade de se utilizar o conhecimento da memória, e de esquecer assim como recordar, força-nos a selecionar, destilar, distorcer e transformar o passado, acomodando as lembranças às necessidades do presente” (LOWENTHAL, 1998, p. 77). Para Pollak (1992) a memória também sofre mudanças no momento em que ela é articulada, em que ela está sendo expressa. Para o autor, as preocupações do momento, que podem ser pessoais ou políticas, constituem um elemento de organização da memória, nos revelando que a “memória é um fenômeno construído”, de forma consciente ou não, já que o fato das lembranças serem gravadas, excluídas, recalcadas, relembradas, é resultado de um trabalho de organização (POLLAK, 1992, p. 04). Bosi (2004) apresenta a memória oral como um instrumento precioso na constituição da crônica do quotidiano, embora alerte para o risco de cair numa “‘ideologização’ da história do quotidiano, como se esta fosse o avesso oculto da história política hegemônica” (BOSI, 2004, p. 15). Neste sentido, a autora alerta para o fato de que “uma história de vida, ou mil histórias de vida jamais substituirão um conceito ou uma teoria da História”, sendo que os depoimentos colhidos, por mais ricos que sejam, não podem tomar o lugar de uma teoria totalizante que elucide estruturas e transformações econômicas, ou que explique um processo social, uma revolução política (BOSI, 2004, p. 49). Aqui cabe salientar a diferença entre a memória e a história, onde, para Nora (1993), a memória é um fenômeno que ocorre no presente, e em diálogo com Halbwachs, emerge das experiências vivenciadas pelo grupo e se enraíza no espaço, no gesto, na imagem e no objeto. E da mesma forma que existem diversos grupos, também há múltiplas memórias, assim, ela é plural, coletiva e individualizada. Por outro lado, a história, nada mais é que uma representação do passado e apresenta uma vocação para o universal, já que ao mesmo tempo em que pertence a todos, não pertence a ninguém. E ainda, está atrelada apenas às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas (NORA 1993). Bosi (2004) ainda enfatiza que a história ensinada pelas instituições educacionais, não aborda o passado recente, podendo parecer aos olhos do indivíduo “uma sucessão unilinear de luta de classes ou de tomadas de poder por diferentes forças. Ela afasta, como se fossem de menor importância, os aspectos do quotidiano e os microcomportamentos” (BOSI, 2004, p. 13). Outro aspecto relevante da memória está na sua intrínseca relação com os processos de construção de identidades, por justamente trabalhar sobre um tempo experenciado, que passa 40 a ser reconstruído e revivenciado, possibilitando a ressignificação do sentido existencial, atualizando conteúdos experimentados. “A memória costura, tece o passado no presente, compondo tramas e enlaçando-se em novas possibilidades existenciais” (BARRETO, 2007, p. 164). Sobre esta relação entre memória e identidade Lowental (1998) nos traz também a questão da continuidade, ao afirmar que: Relembrar o passado é crucial para nosso sentido de identidade: saber o que fomos confirma o que somos. Nossa continuidade depende inteiramente da memória; recordar experiências passadas nos liga a nossos selves anteriores, por mais diferente que tenhamos nos tornado. (LOWENTAL, 1998, p. 83). Os sentidos existencial e de continuidade decorrentes da memória são também para Pollak (1992) determinantes no reconhecimento da memória enquanto elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual quanto coletiva. O autor aborda o sentimento de identidade associado ao sentido da imagem de si, para si e para os outros, ou seja, a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida de si mesmo e que ela constrói e apresenta aos outros e a si mesmo, para acreditar na sua própria representação, “mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros” (POLLAK, 1992, p. 05). Sob esta perspectiva o outro torna-se elemento decisivo nas construções de identidades e da própria memória, como nos sugere Pollak (1992): Ninguém pode construir uma auto-imagem isenta de mudança, de negociação, de transformação em função dos outros. A construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio da negociação direta com outros. Vale dizer que memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo. (POLLAK, 1992, p. 05). Pollak (1989) em referência à Halbwachs expressa que além da seletividade contida nos trabalhos de memória, há também que se considerar a existência de um processo de negociação para conciliar memória coletiva e memórias individuais: Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias e que haja suficientes pontos de contato entre ela e as outras para que a lembrança que os outros nos trazem possa ser reconstruída sobre uma base comum (POLLAK, 1989, p.1-2). E é sob este prisma que Pollak (1992) coloca o outro enquanto elemento fundamental para a compreensão dessa relação dinâmica entre memória e identidade e conclui que “se é possível o confronto entre a memória individual e a memória dos outros, isso mostra que a memória e a identidade são valores disputados em conflitos sociais e intergrupais” (POLLAK, 41 1992, p. 05), o que reforça a idéia de que o processo de construção de identidade se dá a partir das relações imersas na alteridade. Nesta perspectiva, o conceito de representação torna significativo na construção identitária. A representação, segundo Woodward (2000), inclui: as práticas de significação e os sistemas simbólicos por meio dos quais os significados são produzidos, posicionando-nos como sujeito. É por meio dos significados produzidos pelas representações que damos sentido a nossa experiência e àquilo que somos... Podemos inclusive sugerir que esses sistemas simbólicos tornam possível aquilo que somos e aquilo no qual podemos nos tornar. A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: quem eu sou? O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? Os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar. (WOODWARD, 2000, p. 17). Considerando estes elementos implícitos à memória coletiva, acreditamos que a “memória é um fio condutor para se entender a identidade e a territorialidade, sendo assim, a memória coletiva aparece como um discurso da alteridade, no qual a posse de uma história e de uma memória dão ao grupo sua identidade” (SANTOS, 2006, p. 44). Estes pressupostos teóricos evidenciam, assim, como que os conceitos territorialidade, memória coletiva e identidade articulam-se entre si e fornecem pistas de como um espaço físico passa a ser carregado de símbolos e sentidos plurais e, ao mesmo tempo, contínuos e descontínuos. 42 Capítulo 1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CULTURAIS REGIONAIS 1.1 Os bairros rurais paulistas: a construção de um modo de vida A história dos bairros rurais paulistas pode ser contextualizada a partir do primeiro século da colonização brasileira, em que a região do nordeste apresentava maior dinamismo socioeconômico devido ao comércio da cana de açúcar, ao contrário da região sudeste, onde os núcleos paulistas eram formados por arraiais de casebres, sem grandes áreas de monocultura, habitados por famílias de colonizadores e seus índios cativos, tendo a cultura indígena como principal influência na realização das atividades cotidianas como lavoura, caça e pesca (RIBEIRO, 1995). Segundo Ribeiro (1995), estas condições faziam com que os antigos paulistas se tornassem aventureiros, predispostos ao saqueio e sustentados por uma economia de subsistência de base tribal e tupi, que desbravaram o interior do Brasil em busca de ouro e de escravos para os engenhos nordestinos, nas aldeias indígenas, missões jesuítas e agrupamentos quilombolas. Estes aventureiros, conhecidos como bandeirantes, iniciaram a colonização do oeste paulista adentrando nos sertões formando cidades móveis, roçando, caçando e pescando para se alimentarem. Nessas andanças, muitos paulistas fixaram-se em regiões distintas fazendo-se criadores de gado ou lavradores, formando uma sociedade que, por ser mais pobre, era também mais igualitária (RIBEIRO, 1995). Ao final do século XVIII esta sociedade passou por grande transformação cultural, pois com o fim dos aluviões de ouro de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, vários ex- mineradores, vindos de diversas regiões do Brasil e de outros países, passaram a se fixar nas sociedades formadas pelos bandeirantes. Desta forma, influenciaram com seus aspectos culturais como artesanato, vestimentas rústicas e utensílios, onde antes predominavam características indígenas (RIBEIRO, 1995; CANDIDO, 2001). Após a abolição da escravidão, os ex-escravos, abandonados à própria sorte, seguiram rumos distintos, onde a grande maioria migrou para os centros urbanos, ocupando lugares e postos de trabalho periféricos. Entretanto, houve aqueles que conseguiram manter-se ligados à terra, seja trabalhando como camaradas assalariados nas fazendas, seja ocupando terras devolutas e praticando lavouras de subsistência (CAMARGO, 2004). Foi nesta última forma de trabalho, que esta parcela da população negra integrou-se aos núcleos rurais, ressiginificando-os a partir de seus traços culturais. 43 É a partir dessa inter-relação étnica que se constitui um modo de vida rural paulista, na qual a população encontra-se dispersa, buscando suprir apenas as suas necessidades básicas para sobrevivência, dando início a constituição dos bairros rurais paulistas. Contudo, é importante salientar que o processo da formação da cultura caipira, correlacionada à história do povoamento de São Paulo, foi marcado pela violência contra os índios, seguida pela luta para expulsão dos posseiros e, finalmente, pela adoção do sistema escravocrata (SETÚBAL, 2005). Dean (1977) verificou que as fronteiras agrárias do estado de São Paulo foram conquistadas de forma bastante violenta: O sistema social das grandes fazendas era de extrema violência. A expulsão dos posseiros, a defesa dos limites imprecisos das propriedades, a supervisão da força de trabalho escravizada, o controle social dos que não tinham terras, tudo exigia o emprego da força. Agregados eram recrutados como capangas, uma polícia particular que guardava as divisas e executava qualquer ato violento que o fazendeiro lhes ordenasse, até mesmo assassinatos (DEAN, 1977, p. 36). No entanto, conforme Brandão (1983), no interior dos bairros rurais, os caipiras dos sertões de São Paulo souberam desenvolver um modo de vida regido por códigos estreitos de trocas entre eles e com os outros. Para o autor, esses códigos de relações baseados no trabalho, no respeito mútuo, nos valores da fé religiosa do catolicismo camponês, na honra e na solidariedade mostravam-se extremamente criativos. A violência e o controle social da violência, segundo Brandão (1983), não destruíram os valores de honra e solidariedade, condição da identidade e da existência do camponês. Elas acabaram sendo parte da vida cotidiana, no trabalho, nos dias de festa, nas modas de viola, nos rituais devotos dos mundos do sertão. Atravessaram os domínios da vida de um grupo social que precisou aprender lições de ataque e defesa para sobreviver física, social e simbolicamente: a bravura, o desafio permanente, a honra manchada que ‘se lava com sangue’. Como apontado por Setubal (2005, p. 27), “a coragem pessoal é, no entanto, entremeada por uma humildade hospitaleira” expressa nas relações sociais, concretizadas no bairro rural, o lugar deste grupo. Candido (2001) definiu os bairros rurais como grupo de vizinhança de moradia dispersa, porém de contornos suficientemente consistentes para delimitar um bairro, tanto no espaço geográfico quanto no espaço social, proporcionando aos habitantes a noção de lhe pertencer, que os distinguiam dos demais bairros da área. 44 O morador rural ao conhecer e pertencer a seu bairro sentia-se diretamente a ele ligado, defendendo benefícios e vantagens em seu nome (CANDIDO, 2001; QUEIROZ, 1973), demonstrando, assim, um sentimento topofílico, isto é, um elo afetivo com o lugar (TUAN, 1980). Sobre a dinâmica entre bairros rurais e centros urbanos, Queiroz (1973) descreve: Cada bairro se compunha de famílias conjugais autônomas, autárquicas, lavrando independentemente suas roças quando e como queriam. Não podiam, porém prescindir do auxílio dos vizinhos sem grave diminuição dos seus recursos, pois suas técnicas eram as mais rudimentares. O mutirão, a troca de dias de serviço e outras formas de auxílio mútuo eram as soluções adotadas para resolver a escassez de mão de obra, por um lado, e, por outro lado, a escassez dos meios para obtê-la; pois cultivar a terra apenas com os braços da família não era muito produtivo, não havendo também dinheiro para comprar escravos e, mais tarde, para alugar assalariados. O trabalho rural em comum se tornava assim uma segunda maneira de congregar os habitantes do bairro, além das festas religiosas. (QUEIROZ, 1973, p.4). Essa descrição é complementada por Brandão (1983), o qual cita que no momento em que a lavoura passa de familiar à comunitária, o trabalho rural torna-se um ritual de troca e solidariedade através do mutirão, conforme também destacado por Queiroz (1973). Candido (2001) coloca que o mutirão: Consiste essencialmente na reunião de vizinhos, convocados por um deles, a fim de ajudá-lo a efetuar determinado trabalho: derrubada, roçada, plantio, limpa, colheita, malhação, construção de casa, fiação etc. Geralmente os vizinhos são convocados e o beneficiário lhes oferece alimento e uma festa, que encerra o trabalho. Mas não há remuneração direta de espécie alguma, a não ser a obrigação moral em que fica o beneficiário de corresponder aos chamados eventuais dos que o auxiliaram. Este chamado não falta, porque é praticamente impossível a um lavrador, que só dispõe de mão-de- obra doméstica, dar conta do ano agrícola sem cooperação vicinal. (CANDIDO, 2001, p. 88). Candido (2001, p. 94) aponta que a sociabilidade vicinal também é expressa pela vida lúdico-religiosa, que constituiria num “complexo de atividades que transcendem o âmbito familiar, encontrando no bairro a sua unidade básica de manifestação”. Desta forma, poderíamos definir o bairro como o agrupamento mais ou menos denso de vizinhança, cujos limites se definem pela participação dos moradores nos festejos religiosos locais. Quer os mais amplos e organizados, geralmente com apoio na capela consagrada a determinado santo; quer os menos formais, promovidos em caráter doméstico. Vemos assim, que o trabalho e a religião se associam para configurar o âmbito e o funcionamento do grupo de vizinhança, cujas moradias, constituem unidade, na medida em que participam no sistema destas atividades. (CANDIDO, 2001, p.94-95). Neste sentido, observava-se nestas comunidades um alto grau de organização social, voltada para a realização mínima de suas necessidades, através do trabalho em conjunto, 45 apresentando, desta maneira, certa independência do Estado para a busca de soluções próprias dos problemas. No entanto, Brandão (1983) ressalta que esse grupo não isolava-se totalmente, pois estes mantinham uma vida coletiva intensa com os sujeitos intermediários de suas trocas econômicas, pois, apesar de residirem em bairros distantes, encontravam-se sempre em movimento: periodicamente deslocavam-se para as áreas de comércio, outros bairros e outras cidades, por questões de trabalho, visita ou rituais. Com a expansão da economia capitalista, muitos dos aspectos que caracterizaram os bairros rurais - escassos recursos financeiros, economia agrária de subsistência e mutirões - passaram por um processo de transformação provocando reações diversas entre os grupos sociais pertencentes a estes territórios. Candido (2001) observou em suas pesquisas junto aos parceiros de Bofete/SP (1947- 1954), aspectos que identificavam mudanças e persistências dos traços implícitos à cultura caipira, como aceitação dos traços impostos e propostos, aceitação apenas dos traços impostos e rejeição de ambos. Observamos então um dinamismo cultural sobre o qual valores tidos como tradicionais - construídos historicamente - tornam-se passíveis de ressignificação nos levando a concebê- los como mutáveis e dinâmicos e não como perenes e imutáveis, como podemos verificar na definição de Hobsbawm (1984) sobre tradição inventada: O termo tradição inventada é utilizado num sentido amplo, mas nunca indefinido. Inclui tanto as tradições realmente inventadas, construídas e formalmente institucionalizadas, quanto as que surgiram de maneira mais difícil de localizar num período limitado e determinado de tempo – às vezes coisa de poucos anos apenas - e se estabeleceram com enorme rapidez. [...] Por tradição inventada entende-se um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. (HOBSBAWM,