WELDER FRANZINI AMARAL CALLERA Estudos de mecanismos redox enzimáticos por eletroquímica e modelagem computacional Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Biotecnologia, do Instituto de Química, da UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, como parte dos requisitos para obtenção do Título de Doutor em Biotecnologia. Orientador: Prof. Dr. Paulo Roberto Bueno Co-orientador: Prof. Dr. Gustavo Troiano Feliciano Araraquara 2017 WELDER FRANZINI AMARAL CALLERA Curriculum Vitae Dados pessoais Nome em citações bibliográficas CALLERA, W. F. A.; CALLERA, WELDER F.A. Sexo Masculino Cor ou Raça Branca Filiação Antonio Carlos Amaral Callera e Maria Célia Franzini Callera Nascimento 18/06/1982 - Araraquara/SP - Brasil Endereço residencial Rua Amazonas, 551 Jardim Silvania, Araraquara, SP – Brasil CEP: 14811-066 Endereço profissional Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Instituto de Química de Araraquara R. Prof. Francisco Degni, nº 55 Quitandinha - Araraquara, SP - Brasil CEP: 14800-900 URL da home page: www.iq.unesp.br Endereço eletrônico weldercallera@hotmail.com Formação acadêmica/titulação 2013 Doutorado em Biotecnologia. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, São Paulo, Brasil Título: Estudos de mecanismos redox enzimáticos por Eletroquímica e Modelagem Computacional. Orientador: Prof. Dr. Paulo Roberto Bueno Co-orientador: Prof. Dr. Gustavo Troiano Feliciano Bolsista da: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) 2011 - 2013 Mestrado em Biotecnologia. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, São Paulo, Brasil Título: Estudo de processos redox enzimáticos confinados em eletrodos pelo concomitante monitoramento da variação de massa e da corrente: O caso da penicilinase como modelo., Ano de obtenção: 2013 Orientador: Prof. Dr. Paulo Roberto Bueno Bolsista da: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) 2005 - 2010 Graduação em Farmácia. Universidade Estadual de Londrina, UEL, Londrina, Brasil Título: Utilização de ensaio imunoenzimático de captura para determinação do nível de gp43 na urina de camundongos experimentalmente infectados com Paracoccidioides brasiliensis Orientador: Profª Drª Eiko Nakagawa Itano Atuação profissional 1. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP Vínculo institucional 2015 - 2015 Vínculo: Estágio docência, Enquadramento funcional: Estagiário, Carga horária: 4, Regime: Parcial Outras informações: Disciplina: Biotecnologia Farmacêutica. Ministrada ao 5° ano do curso de Farmácia. Supervisora: Prof.ª Dr.ª Rosemeire Pietro. 2014 - 2014 Vínculo: Estágio docência, Enquadramento funcional: Estagiário, Carga horária: 4, Regime: Parcial Outras informações: Disciplina: Biotecnologia. Ministrada ao 4° ano do curso de Farmácia. Supervisora: Prof.ª Dr.ª Rosemeire Pietro. 2013 - Atual Vínculo: Bolsista, Enquadramento funcional: Doutorando, Carga horária: 40, Regime: Dedicação exclusiva Outras informações: Biotecnologia de Enzimas. Biossensores: desenvolvimento e alicações. 2011 - 2013 Vínculo: Bolsista, Enquadramento funcional: Mestrando, Regime: Dedicação exclusiva Atividades 08/2013 - Atual Pesquisa e Desenvolvimento, Instituto de Química de Araraquara Linhas de pesquisa: Biotecnologia de enzimas. 2. Universidade Estadual de Londrina - UEL Vínculo institucional 2006 - 2010 Vínculo: Colaborador, Enquadramento funcional: Estagiário, Carga horária: 20, Regime: Dedicação exclusiva Atividades 2006 - 2010 Estágio, Centro de Ciências Biológicas Estágio: Laboratório de Imunologia - PAT 04/2006 - 02/2007 Extensão Universitária, Centro de Ciências Biológicas Especificação: Diagnóstico da Paracoccidioidomicose por Ensaio Imunoenzimático Linhas de pesquisa 1. Biotecnologia de enzimas. Objetivos: Biossensores: Desenvolvimento e Aplicações. Biossensores são dispositivos analíticos no qual o material de origem biológica, tal como enzimas, anticorpos, entre outros, é imobilizado junto a um transdutor. Os objetivos dos estudos residem em definir metodologias que apresentem alta seletividade e sensibilidade de análise. Idiomas Inglês Avançado Espanhol Avançado Produção Produção bibliográfica Artigos completos publicados em periódicos 1. GONÇALVES, LUÍS MOREIRA; CALLERA, WELDER F.A.; SOTOMAYOR, MARIA D.P.T.; BUENO, PAULO R. Penicillinase-based amperometric biosensor for penicillin G. Electrochemistry Communications, v.38, p.131-133, 2014. Palavras-chave: cysteine, metallo-β-lactamase, Self-assembled monolayer (SAM), β- lactam antibiotic, Lineweaver–Burk plot Referências adicionais: Inglês. Trabalhos publicados em anais de eventos (resumo expandido) 1. CALLERA, W. F. A.; ITANO, E. N.; MASSUDA, T. Y. C. Utilização de anticorpos monoclonais a gp380 e análise de gp380 solúvel na paracoccidioidomicose experimental em urina de camundongos In: XVII EAIC - Encontro anual de iniciação científica - PIBIC/CNPq, 2008, Foz do Iguaçu - PR. Encontro Anual de Iniciação Científica - XVII EAIC - PIBIC/CNPq. , 2008. Áreas do conhecimento: Imunologia,Imunologia Aplicada Referências adicionais: Brasil/Português. Meio de divulgação: Meio magnético Apresentação de trabalho e palestra 1. CALLERA, W. F. A.; RIECHI, S.C.; GUIMARÂES, P.M.; ANDRADE, L.A.; VOGLER, I.H.; SIMAO, A.N.C. Estudo de prevalência de marcadores sorológicos para doenças infecto- contagiosas em doadores do Banco de Sangue do Hospital Universitário de Londrina, 2010. (Congresso, Apresentação de Trabalho) Áreas do conhecimento: Farmácia, Hematologia, Imunologia Referências adicionais: Brasil/Português. Meio de divulgação: Vários; Cidade: Londrina; Evento: 2° Congresso Sul Brasileiro de Análises Clínicas; Inst.promotora/financiadora: Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC) Produção técnica Trabalhos técnicos 1. CALLERA, W. F. A. Programa de educação pelo trabalho para a saúde - PET - Saúde - Portaria Interministerial MS/MEC n°1802/2008, 2009 Referências adicionais: Brasil/Português. Meio de divulgação: Meio digital Redes sociais, websites, blogs 1. CALLERA, W. F. A. A criação da Biotecnologia, 2014 Referências adicionais: Brasil/Português. Home page: Participação em eventos 1. Apresentação de Poster/Painel no 2° Congresso Sul Brasileiro de Análises Clínicas, 2010. (Congresso) Estudo de prevalência de marcadores sorológicos para doenças infecto-contagiosas em doadores do Banco de Sangue do Hospital Universitário de Londrina. 2. Apresentação (Outras Formas) no I Fórum de Farmácia, 2007. (Outra) Adequações no currículo vigente. 3. Apresentação de Poster/Painel no I Workshop de tópicos atuais em Imunologia do curso de Farmácia, 2006. (Outra) Imunologia do transplante. 4. Apresentação de Poster/Painel na VIII Jornada de Farmácia e Análises Clínicas de Londrina e II Encontro de Farmácia Industrial, 2005. (Outra) Atuação dos Estudantes de Farmácia da UEL junto aos agentes comunitários na campanha da Tuberculose em uma Unidade Básica de Saúde no município de Londrina. “Eu não tenho ídolos. Tenho admiração por trabalho, dedicação e competência. (Ayrton Senna) A Deus por, simplesmente, tudo; Aos meus pais Antonio Carlos Amaral Callera e Maria Célia Franzini Callera; Meu irmão Welber Franzini Amaral Callera; E minha noiva, Aline Viana de Souza, Que desde sempre acreditaram, me guiaram e me incentivaram, Serviram-me de amor e companheirismo pelo trajeto percorrido, Principalmente, nos momentos difíceis..., Muitíssimo obrigado! A todos familiares e amigos que me incentivaram e apoiaram... AGRADECIMENTOS Quero expressar minha gratidão e apreço por todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para que este trabalho se tornasse uma realidade. Pois o final de mais esta etapa é um momento em que a realização pessoal e o crescimento profissional superam qualquer obstáculo que tenha aparecido durante a sua execução. Ao meu orientador e amigo, Prof. Dr. Paulo Roberto Bueno, que acreditou e apostou na minha capacidade, não mediu esforços em colaborar, sugestionar e apoiar minhas decisões. Ao meu co-orientador e amigo, Prof. Dr. Gustavo Troiano Feliciano, que veio agregar em conhecimento, em amizade, me apoiou, ensinou e incentivou como um mestre e sem negar esforços. Aos meus amigos e companheiros de laboratório: Willian Ribeiro, Adriano dos Santos, Flávio Bedatty, Márcio Góes, Juliana Cecchetto, Tiago Benites, Fernanda Carvalho, Rute Lopes, Mellany I. G. Nicholson e Luis Paulo M. Freitas pelas discussões e contribuições geradas. À Rose Portasio, pela sua prontidão em auxiliar. A todos os funcionários do Instituto de Química, da UNESP, campus Araraquara – SP. Aos professores do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia. Às funcionárias da seção de pós-graduação e ao pessoal da biblioteca por sempre estarem receptivos e prontos a auxiliar. A todos meus familiares e amigos, meus sinceros agradecimentos, por me aturarem, pelos desabafos, pelas alegrias e tristezas compartilhadas, e principalmente, por fazerem parte da minha vida. À CAPES pela bolsa concedida... Muitíssimo obrigado. RESUMO Esta tese de doutoramento apresentou o entendimento de processos redox enzimáticos, detalhando o mecanismo envolvido na troca eletrônica, a qual resulta na formação de um produto, por catálise enzimática. Observou-se a influência de um eletrodo sob a ação de um potencial estacionário aplicado ( 𝐸 ) na reação enzima/substrato. Realizou-se eletroanálises, como: Voltametria Cíclica (VC) e Espectroscopia de Impedância Eletroquímica (EIE), para a penicilinase. Os resultados obtidos dão indícios de que a reação enzimática se beneficia de determinados potenciais, pois o parâmetro utilizado, 𝑅𝑐𝑡, resistência à transferência de cargas, sugere que ocorre maior troca eletrônica em alguns potenciais ótimos (faixa de -0,3 a -0,5 V). A Simulação Molecular serviu para estudar o comportamento atomístico por métodos clássicos (Dinâmica Molecular – DM) para as condições impostas experimentalmente, esclarecendo o mecanismo de reação enzimática por métodos quânticos (DFT – Teoria do Funcional de Densidade) e híbridos (QM/MM), cabendo salientar que a penicilinase não pertence à classe das enzimas oxirredutivas. Palavras-chave: Enzimas redox. Voltametria Cíclica (VC). Espectroscopia de Impedância Eletroquímca (EIE). Dinâmica Molecular (DM). Teoria do Funcional de Densidade (DFT). Métodos Híbridos (QM/MM). Penicilinase. ABSTRACT This doctoral thesis presented the understanding of enzymatic redox processes, detailing the mechanism involved in the electronic exchange, which results in the formation of a product by enzymatic catalysis. The influence of an electrode under the action of an applied stationary potential (𝐸) on the enzyme/substrate reaction was observed. Electroanalysis was performed, such as: Cyclic Voltammetry (VC) and Electrochemical Impedance Spectroscopy (EIS), for the penicilinase. The results obtained indicate that the enzymatic reaction benefits from certain potentials, since the parameter used, 𝑅𝑐𝑡, resistance to the transfer of charges, suggests that there is greater electronic exchange in some optimal potentials (range the -0.3 to -0.5 V). The Molecular Simulation was used to study the atomistic behavior by classical methods (Molecular Dynamics - DM) for experimentally imposed conditions, clarifying the mechanism of enzymatic reaction by quantum methods (DFT) and hybrids (QM/MM). That penicillinase does not belong to the class of oxidoreductive enzymes. Keywords: Redox enzymes. Cyclic Voltammetry (CV). Electrochemical Impedance Spectroscopy (EIS). Molecular Dynamics (DM). Density Functional Theory (DFT). Hybrid Methods (QM/MM). Penicillinase. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Estrutura cristalográfica de uma penicilinase de Bacillus cereus, com zinco. Coordenadas obtidas de 1BMC.pdb. A esfera cinza representa o átomo de zinco em seu sítio catalítico. ................................ 25 Figura 2 - Placa de Petri, recoberta com ágar Sabouraud, inoculada com Staphylococcus sp. e Penicillium notatum, simulando a contaminação no experimento de Fleming, demonstrando a inibição do crescimento bacteriano onde se difundiu a penicilina no ágar, halo de restrição. ...................................................................................... 29 Figura 3 - Colônia fúngica característica de Penicillium notatum em ágar Sabouraud. ............................................................................................... 29 Figura 4 - Mecanismo de ação da penicilinase, abertura do anel β-lactâmico na presença de água. O anel beta lactâmico é colapsado (1 e 2), a ligação amida é quebrada, o nitrogênio é reduzido a N- (3) e retira-se o hidrogênio da água (4). ......................................................................... 34 Figura 5 - Estrutura da metalo-β-lactamase (2M5C.pdb) de Bacillus cereus, em tampão fosfato (PBS), pH 7, com dois íons zinco em seu sítio ativo........ 35 Figura 6 - Circuito elétrico equivalente, do tipo Randles (a), com diagrama de Nyquist (b). Onde Rs é resistência de solução, Cdl é capacitância da dupla camada elétrica, Rct é resistência a transferência de cargas, Zw é Impedância de Warburg, -Z” é impedância imaginária e Z’ é a impedância real. O diagrama (1) apresenta menor Rct que o (2). ............ 45 Figura 7 - Voltamograma cíclico obtido da limpeza eletroquímica. ........................... 47 Figura 8 - Estrutura cristalográfica obtida por difratometria de raios-X da metalo-β-lactamase (coordenadas obtidas de 2M5C.pdb) de Bacillus cereus, em tampão fosfato (PBS), ph 7, com dois íons zinco em seu sítio ativo. ................................................................................................. 62 Figura 9 - VC´s características de diferentes eletrodos: o de Au puro, o de Au/SAM, o de Au/SAM/Penicilinase e o de Au/SAM/Penicilinase na presença de substrato. Realizadas em solução de ferri/ferro, 1 mmol L-1, em KNO3, 0,5 mol L-1. O substrato é a penicilina G a 0,65 mmol L-1. Em destaque, ampliação na região onde ocorreu bloqueio de corrente (-0,5 a 0,5 µA cm-2) devido à formação de filme na superfície metálica. ................................................................................... 65 Figura 10 - Perfis voltamétricos de uma apoenzima e uma holoenzima, imobilizadas em eletrodo de Au. Realizado em PBS 0,1 mol L-1, pH 7,4 a 25°C. Velocidade de varredura de 100 mV s-1. Penicilina G a 0,65 mmol L-1. O íon Zn2+, a 25 mmol L-1, foi utilizado como cofator. Região hachurada indica um “laço de nucleação”. ................................... 66 Figura 11 - Voltametrias cíclicas da reação enzimática da penicilinase com cofator. Realizado em PBS 0,1 mol L-1, pH 7,4 a 25°C. Velocidade de varredura de 100 mV s-1. Penicilina G a 0,65 mmol L-1. Utilizou-se 0,01 mol L-1 e 0,2 mol L-1 de zinco como cofator. Ambas apresentaram densidades de corrente próximas e com “laço de nucleação”. A VC do zinco apresenta um ponto de reversão da enzima em -0,6 V. .................................................................................... 68 Figura 12 - Espectro de impedância (construídos em intervalo de frequências de 1 mHz a 1 MHz) para onze diferentes potenciais aplicados entre - 0,6 V a 0,4 V. Estes espectros foram obtidos em PBS 0,1 mol L-1, pH 7,4 a 25°C. Penicilina G (substrato) em concentrações de 0,65 mmol L-1. Utilizou-se 1 mmol L-1 de cofator, Zn. Em destaque, regiões de baixa impedância real (Z’). ....................................................................... 70 Figura 13 - Em (a) tem-se o circuito elétrico equivalente correspondente ao sistema, onde Cm corresponde à capacitância da monocamada sem contribuição iônica, Rt e Ct , resistência e capacitância, respectivamente, não compensadas, Rs é resistência de solução, Cdl é capacitância da dupla camada elétrica, Rct é resistência a transferência de cargas, Zw é Impedância de Warburg. Em (b), tem- se diagramas de Nyquist realizados em solução de PBS 0,1 mol L-1, pH 7,4, a 25°C, contendo 1 mmol L-1 de cofator e penicilina G a 0,65 mmol L-1. Foram obtidas as correntes para os potenciais -0,3V, 0 V e 0,3 V para frequências de 1 mHz a 1 MHz, com cofator, zinco. Destacou-se em (c) e (d), as respectivas curvas de ajuste para cada potencial aplicado, de acordo com o circuito elétrico equivalente correspondente à interação eletrodo funcionalizado e seu substrato. Onde, -Z” é impedância imaginária e Z’ é a impedância real. ................... 71 Figura 14 - Gráfico da resistência à transferência de carga (Rct) vs. E (V). Mostra em a) a variação da Rct na ausência e na presença de cofatores da reação enzimática na presença do substrato, Penicilina G em concentrações de 0,65 mmol L-1, utilizou-se 1 mmol L-1 de cofator, Zn ou Co, em b) o comportamento de Rct na presença e na ausência de substrato tendo Zn, como cofator. O aumento da atividade da metaloenzima é inversamente proporcional ao Rct. A área hachurada corresponde aos potenciais que favorecem a reação. ..................................................................................................... 73 Figura 15 - Penicilinase (2M5C.pdb) obtida por difratometria de raios-X, em pH 7. A priori, os íons inorgânicos foram retirados da estrutura. ................... 76 Figura 16 - Função de distribuição radial (RDF) entre átomos, de oxigênio e nitrogênio, da proteína e os átomos de zinco. As trajetórias de Dinâmica Molecular foram obtidas para as concentrações de 0,01 e 0,2 mol L-1 de zinco, respectivamente. ..................................................... 78 Figura 17 - Distribuição de potencial eletrostático relacionado à carga parcial clássica da penicilinase, em volts. Região destacada pelo círculo corresponde ao sítio ativo, quando a enzima está inativa. ....................... 79 Figura 18 - Representação em fita da penicilinase junto com os resíduos carregados positivos (azul) e negativos (vermelho). ................................ 80 Figura 19 - Distribuição de potencial eletrostático relacionado à carga parcial clássica da penicilinase, em volts. Região destacada pelo círculo corresponde ao sítio ativo, quando a enzima está ativada pelo cofator. ..................................................................................................... 81 Figura 20 - Representação atomística do modelo complexo enzima-substrato mais eletrodo, utilizado nos cálculos quânticos de estrutura eletrônica, com carbono (ciano), nitrogênio (azul), oxigênio (vermelho), hidrogênio (branco), enxofre (laranja), zinco (cinza) e ouro (amarelo). ......................................................................................... 82 Figura 21 - Densidade de estados eletrônicos (DOS) quando adicionado água ao sistema, com e sem a influência do eletrodo de ouro. ES corresponde ao sistema modelo da enzima/substrato, ESH2O contém uma molécula de água explícita e AUESH2O, o sistema com uma molécula de água sob influência do eletrodo de ouro. ..................... 84 LISTA DE ABREVIATURAS E SÍMBOLOS 𝐾𝑚 – Constante de Michaelis-Menten °C – Celsius µ – Micro A – Ampère Å – Angstron Aativa – Área ativa AMCG – Auto-monitorização da glicemia capilar C – Coulomb CG – Glicemia capilar d – Deci DFT – Density Functional Theory DNA – Ácido desorribonucleico e- – Elétron ECE – Espectroscopia de Capacitância Eletroquímica EDC – Etilo (dimetilaminopropil) carbodiimida EIE – Espectroscopia de impedância eletroquímica f – Femto Fr - Fator de rugosidade GAD – Ácido glutâmico GGA – Generalizated gradient approximation GROMACS – Groningen Machine for Chemical Simulations H – Hamiltoniano. HLA – Antígeno leucocitário humano Hz – Hertz IA2 – Antitirosina fosfatase IUPAC – International Union of Pure and Applied Chemistry j – Densidade de corrente K – Kelvin kDa – Kilodalton LDA – Local density approximation LSCF – Local Self Density Field MM - Mecânica Molecular MβL – Metalo-β-lactamase NAD – Nicotinamida adenina dinucleotídeo NHS – N-hidroxi-succinimida PBS – Solução tampão fosfato de sódio PDB – Protein Data Bank QM – Mecânica Quântica SAM – Monocamada auto-organizada (self assembled monolayer) SIESTA – Spanish Initiative for Electronic Simulations with Thousands of Atoms SPLAM – Método do átomo ligado com posição escalada US$ - Dólar americano UV – Ultra violeta. V – Volts VC – Voltametria cíclica Znt – Anti-transportador de zinco Ψ – Função de onda 𝐶 – Capacitância 𝐸 – Potencial aplicado 𝑅 – Resistência 𝑍 – Impedância 𝑓 – Frequência 𝑖 – Corrente elétrica SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 22 1.1 Penicilinase .................................................................................................................... 24 1.1.1 Fleming e a penicilina ................................................................................................. 27 1.1.2 Antibioticoterapia e sepse ........................................................................................... 30 1.1.3 Resistência bacteriana e inibidores de β-lactamases .................................................. 32 1.1.4 Penicilinase de Bacillus cereus .................................................................................. 33 1.2 Métodos eletroquímicos ................................................................................................. 35 1.3 Simulação molecular ...................................................................................................... 36 2 OBJETIVOS ................................................................................................................. 38 3 MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................................ 39 3.1 Parte experimental ........................................................................................................ 39 3.1.1 Análises Eletroquímicas......................................................................................... 41 3.1.1.1 Voltametria cíclica (VC) ......................................................................................... 42 3.1.1.2 Espectroscopia de Impedância Eletroquímica (EIE) ................................................. 43 3.1.2 Protocolo de limpeza da superfície de ouro ................................................................ 45 3.1.3 Funcionalização do eletrodo ....................................................................................... 47 3.2 Parte teórica ................................................................................................................. 48 3.2.1 Modelagem clássica ................................................................................................... 48 3.2.1.1 Mecânica Molecular (MM) ou Campos de Força ...................................................... 48 3.2.1.2 Dinâmica Molecular.................................................................................................. 51 3.2.2 Modelagem quântica ................................................................................................... 54 3.2.2.1 Mecânica Quântica (QM) ......................................................................................... 54 3.2.2.2 Equação de Schrödinger .......................................................................................... 55 3.2.2.3 Teoria do funcional de densidade (DFT) .................................................................. 57 3.2.2.4 Metodologia Híbrida - QM/MM ................................................................................. 58 3.2.3 Protocolo de cálculos .................................................................................................. 61 4 PENICILINASE: abordagem eletroquímica e modelagem computacional .............. 64 4.1 Abordagem Eletroquímica .............................................................................................. 64 4.2 Análise computacional da interação penicilinase/Zn2+. ................................................... 75 5 CONCLUSÕES ............................................................................................................ 86 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 88 22 1 INTRODUÇÃO Há muitos anos, a ficção científica e ciência se fundem, pois o que era apenas um fruto do imaginário poético ou fictício vem se tornando real por meio de muito estudo e avanço técnico-científico, principalmente no campo das Biotecnologias, área de conhecimento com caráter multidisciplinar, que tem por objetivo o desenvolvimento e/ou melhoria de processos de uso específico utilizando de organismos vivos ou parte deles (PLEIN, 1991). Mary Shelley, em 1818, ao publicar sua obra “Frankenstein”, choca a sociedade da época ao relatar a criação de um homem gigantesco por meio da ciência, utilizando uma descarga elétrica como ignição da vida. Nos dias atuais, é considerado possível o desenvolvimento de vida em laboratório, devido às tecnologias de ponta desenvolvidas, como a técnica de clonagem, conhecida mundialmente por causa da famosa ovelha Dolly, nascida a 7 de julho de 1996, no Instituto Roslin, na Escócia, sendo o primeiro mamífero a ser clonado com sucesso a partir de uma célula adulta, e as modernas técnicas de embriogênese in vitro (MARCUS, 2002). A ficção científica dividiu-se em vários subgêneros, sendo que no fim do século XX, destacou-se o Biopunk, o qual relata histórias em que indivíduos são manipulados geneticamente, como visto em “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley (1932), onde as pessoas eram condicionadas biologicamente e divididas por castas de acordo com características genéticas previamente estabelecidas. Entretanto, nesta época já se conhecia o conceito de eugenia, o “bem nascido”, criada em 1883, por Galton, definida como "o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente", seguido pela genética, estudo da variação de características herdadas, criada em 1908, por Bateson, sendo temas delicados e perigosos, se usados de maneira errônea e antiética, como no caso da “eugenia nazista”, na Alemanha governada por Adolf Hitler, de 1943-1945, que criou a Lei de 23 Nuremberg, a qual, resumindo, proibia relacionamento de alemães com judeus, por julgar serem inferiores, culminando no Holocausto, por isto o mundo precisa de cautela com os avanços tecnológicos (GALTON, 1883; HUXLEY, 1932; VAN OVERWALLE et al., 2006; DAWIDOWICZ, 2010). A inovação biológica salta dos livros e vai além da Biotecnologia. É sobre cada manipulação humana de sistemas vivos em busca de quantidade e qualidade de vida, resumindo, mais saúde e maior tempo de perspectiva de vida, como pode ser observado pela criação de novas vacinas, alimentos transgênicos, entre outros avanços (VAN OVERWALLE et al., 2006). A alimentação é um ponto estratégico, principalmente num mundo onde ainda 800 milhões de pessoas são cronicamente desnutridas, mesmo que uma boa parte destes seja de obesos que ingerem alimentos de baixo valor nutritivo, superando o números de pessoas com doença infecciosa grave, sendo a maior causa de problemas de saúde e morte prematura (COUSIN, 2014). Nas atuais condições, é inaceitável desperdiçar capital humano e intelectual. Sendo que, a partir da combinação de novas ferramentas de informática, comunicação e compreensão biológica se tem cada vez mais inovações. É desejável que estas sejam de fácil acesso às populações de menores condições, sem que o potencial da ciência e tecnologia sejam perdidos (COUSIN, 2014). A necessidade de melhores condições da população mundial serve como combustível para a chama da ciência, pois a cada dia que passa novos pesquisadores surgem e com eles a vontade de proporcionar melhor qualidade de vida à sociedade. Desta ânsia, surgem inovações em diversas áreas. Focando na área da saúde, investe-se em desenvolvimento de novos métodos de diagnóstico para que se detectem doenças antes que esta se manifeste clinicamente ou num novo fármaco com maior eficácia (COUSIN, 2014). O desenvolvimento de dipositivos mais acurados abre espaço para o estudo dos fundamentos da fisiologia associados à corrente elétrica envolvida nas reações do corpo humano, por exemplo, os impulsos elétricos do sistema nervoso, sendo este um dos campos da bioeletrônica, ciência que propõe explorar a biologia 24 sinergicamente com a eletrônica, estando relacionada a processos bioeletroquímicos, os quais envolvem reações de oxirredução (MILLER, 1977). Os processos redox definem-se como reações em que um dos reagentes, no caso o oxidante (ou redutor), aceita (doa) elétrons do (ao) reagente redutor (oxidante). Diversas reações que ocorrem nos organismos são oxirredutivas, como a respiração celular, que consiste na oxidação da glicose na presença de oxigênio (O2) formando gás carbônico (CO2), água e energia na forma de ATP (adenosina trifosfato). No entanto, esta reação não ocorre diretamente, sendo necessárias diversas etapas mediadas por enzimas da classe das oxirredutases, ou seja, a glicose vai cedendo elétrons, de 2 em 2, e formando intermediários mais oxidados (GNAIGER et al., 1995). 1.1 Penicilinase Muitas oxirredutases são metaloproteínas com função catalítica ou, simplificadamente, metaloenzimas. As metaloenzimas são proteínas que possuem um ou mais íons metálicos ligados covalentemente à sua cadeia polipeptídica. A função da metaloenzima é conferida por um átomo metálico que estabilizará a forma terciária ou quaternária da molécula, sendo este necessário para a atividade catalítica e que contribuirá para o efeito eletrônico comum das reações de oxirredução, como observado na penicilinase de Bacillus cereus, Figura 1 (ROSALES et al., 1986; GÓMEZ-ARIZA et al., 2004; SZPUNAR, 2005; MOUNICOU et al., 2009; SHI ; CHANCE, 2011). 25 Figura 1 - Estrutura cristalográfica de uma penicilinase de Bacillus cereus, com zinco. Coordenadas obtidas de 1BMC.pdb. A esfera cinza representa o átomo de zinco em seu sítio catalítico. Fonte: adaptado de Carfi et al. (1995). Os metais de transição, como ferro (Fe), cobre (Cu), zinco (Zn), manganês (Mn), molibdênio (Mo) e cobalto (Co), devido às suas propriedades (pequeno raio atômico e interação via eletromagnética e forças eletrostáticas), estão ligados à maioria das metaloenzimas com a função de cofator metálico incorporado por meio de ligações específicas, caracterizando-se pela alta afinidade da interação metal- proteína e é responsável pela transferência de elétrons entre a enzima e o substrato (enzima redox) (SILVA, 2009). As β-lactamases (EC 3.2.5.6) são hidrolases, porém apresentam “características” redox, que hidrolisam a ligação amida do anel β-lactâmico do antibiótico, fazendo com que este perca sua função de inibir a síntese da parede celular bacteriana. São divididas em quatro classes de acordo com a sua estrutura 26 primária e podem também ser classificadas dentro de dois grupos com base no seu mecanismo catalítico, isto é, serina-β-lactamases (classes A, C e D) e metalo-β- lactamases (classe B), de acordo com a classificação de Ambler (BERTONCHELI E HÖRNER, 2008). Katchalski, na década de 60, introduziu os primeiros suportes inertes úteis na preparação das enzimas imobilizadas, visto que sua recuperação era difícil quando elas estavam livres em solução. Desta forma, possibilitou que as enzimas fossem imobilizadas no eletrodo de trabalho mediante ligações químicas covalentes dos grupos primários aminas e o anel fenólico dos aminoácidos constituintes da enzima com os grupos reativos do suporte (-COOH; dentre outros) (GOLDMAN et al., 1968; MOSBACH, 1980; KATCHALSKI et al., 2006). Vários métodos surgiram para ancoragem de substânias em superfícies, dentre eles, as monocamadas automontadas (SAMs), como dito pelo próprio nome, são uma única camada molecular que se adsorve espontaneamente sobre uma superfície metálica para funcionalização, no caso o eletrodo de trabalho de ouro, e torna-o susceptível a uma variedade de aplicações, inclusive a de estudo da cinética enzimática quando se tem uma enzima redox acoplada/imobilizada a SAM (GONÇALVES et al., 2014; LUZ et al., 2014). Com a possibibilidade de imobilizar as enzimas vieram vários estudos relacionados com a cinética enzimática e desenvolvimento de biossensores, por exemplo, o sensor de penicilina, desenvolvido e estudado no grupo Nanobionics, o qual resultou no trabalho Penicilinase-based amperometric biosensor for penicillin G, de Gonçalves et al. (2014), fornecendo sinais analíticos referentes à abertura do anel β-lactâmico da penicilina pela metaloenzima, sendo esta responsável pela alta sensibilidade e seletividade do sensor, o que trouxe novos questionamentos relacionados ao mecanismo enzimático envolvido na reação (GONÇALVES et al., 2014). Para que o desenvolvimento e análise da superfície adsorvida fosse possível, experimentalmente, optou-se pelo uso de ferramentas eletroquímicas para 27 compreender os mecanismos envolvidos na reação enzimática, no caso a Voltametria Cíclica (VC) e a Espectroscopia de Impedância Eletroquímica (EIE). 1.1.1 Fleming e a penicilina O século XX foi marcado por uma das maiores descobertas da humanidade, a Penicilina, por Sir Alexander Fleming, em 1928, advento que trouxe inúmeros benefícios à sociedade civil, sendo um marco na história da farmacologia, que passou a ser contada do antes e depois do uso da antibioticoterapia (FLEMING, 1946; LUDOVICI, 1952). Lembrando-se, que a supressão da atividade e crescimento bacteriano e o tratamento de doenças infecciosas constitui uma preocupação da comunidade científica, desde a escola francesa liderada por Pasteur à escola alemã tutelada por Koch é continuada até hoje, devido ao uso indiscriminatório dos antibióticos e o surgimento de cepas bacterianas resistentes às drogas conhecidas (FLEMING, 1946; PEREIRA; PITA, 2005; ANUSHA et al., 2015). Alexander Fleming nasceu em 6 de Agosto de 1881, na Escócia. Em 1895, inicia uma nova fase com a sua ida para Londres, a capital, onde alguns dos seus irmãos já residiam. Em 1900, Fleming e outro irmão, John, alistaram-se no London Scottish Regiment estando em guerra com os Boers. Entretanto, nunca esteve na frente de combate. Ao receber uma herança de seu tio, pode abandonar o emprego e preparar-se aos estudos enveredando-se pelas áreas médicas (FLEMING, 1946; LUDOVICI, 1952; ROWLAND, 1957). Em 1901, Fleming inicia seus estudos de medicina em Londres, na Escola Médica aspirando ao Hospital de St. Mary (ROWLAND, 1957; PEREIRA E PITA, 2005). Ao formar-se em 1906, começou a trabalhar com Almroth Wright, conceituado bacteriologista e patologista, no Serviço de Inoculação, no “Inoculation Department”, fundado em 1902 (ROWLAND, 1957; HUGHES, 1974). 28 Em 1909, Fleming passa a ser habilitado a realizar cirurgias, porém o apego pelo trabalho de investigação laboratorial, e, em particular, pela bacteriologia, levou- o a continuar suas pesquisas cujos resultados veio a publicar ao longo da sua vida na forma de livro e em revistas como Practitionner, The Lancet, British Medical Journal, British Journal of Experimental Pathology, St Mary’s Hospital Gazette, American Journal of Clinical Pathology, Gazette des Hôpitaux, Annales de l’Institut Pasteur, The Biochemical Journal, entre outros. Alguns dos trabalhos de Fleming foram realizados em colaboração, destacando-se as publicações conjuntas com L. Colebrook, S.R. Douglas, A.E. Wright, A.B. Porteous, F.J. Clemenger, V.D. Allison, Ian H. Maclean, K.B. Rogers, C. Smith, J.R. May, A. Voureka, I.R.H. Kramer e W.H. Hughes (PEREIRA; PITA, 2005; ANUSHA et al., 2015). Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Almroth Wright propôs ao governo britânico que o seu Serviço de Inoculação preparasse vacinas contra a febre tifoide e cuidasse das feridas dos guerrilheiros feridos em combate, no intuito de evitar processos infecciosos. Assim, Fleming e outros pesquisadores foram enviados para Boulogne-sur-Mer, onde instalaram um laboratório, no qual estudaram um amplo número de microrganismos, permitindo que tratamentos eficazes aos ferimentos de guerra fossem estabelecidos, tornando-se a maior autoridade mundial em matéria de feridas de guerra, resultando em inúmeras publicações científicas, onde avaliou o poder antibacteriano dos leucócitos contidos nos exsudatos de feridas (PEREIRA; PITA, 2005). Em 1922, no pós Guerra, ele descobre o poder da Lisozima, enzima presente no exsudato de feridas com extraordinário poder lítico sobre algumas bactérias e que veio a ser mencionado no discurso proferido ao recebimento do seu Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1945. Fleming estudava os estafilococos, bactérias Gram-positivas, adquirindo cor arroxeada, devido à sua membrana simples e parede de peptideoglicano (atividade endotóxica, desencadeador de febre e processo inflamatório) grossa, anaeróbios facultativos, com 1 µm de diâmetro e que se agrupam como cachos de uvas, em parceria com Professor Bigger, resultando na descoberta da Penicilina (MAUROIS, 1959; FLEMING et al., 2007). 29 Certo dia, uma placa de Petri inoculada com estafilococos apresenta uma contaminação por fungo e constatou-se que até certa distância da colônia fúngica não havia proliferação bacteriana, como visto na Figura 2 (HUGHES, 1974). Figura 2 - Placa de Petri, recoberta com ágar Sabouraud, inoculada com Staphylococcus sp. e Penicillium notatum, simulando a contaminação no experimento de Fleming, demonstrando a inibição do crescimento bacteriano onde se difundiu a penicilina no ágar, halo de restrição. Fonte: Cummings (2017). Mais tarde, caracterizou-se o fungo e constatou se tratar do Penicillium notatum, Figura 3, e que este inibia o crescimento de outras bactérias patogênicas. “Fleming reconhecia o papel do acaso na descoberta científica e, por outro lado, implicitamente sublinhava que a observação genial do investigador marcava a diferença entre descobrir e não descobrir”. (HUGHES, 1974). Figura 3 - Colônia fúngica característica de Penicillium notatum em ágar Sabouraud. 30 Fonte: Calver (2016). Apesar da descoberta, a Penicilina passou por uma fase de esquecimento, mesmo tendo aparecido em algumas publicações do Fleming, até passar a ser estudada com mais afinco pelo doutor Chain e Sir Howard Florey, coparticipantes do Prêmio Nobel recebido (ABRAHAM; CHAIN, 1940; FLEMING, 1946; RANDO, 1975; PEREIRA; PITA, 2005). 1.1.2 Antibioticoterapia e sepse O surgimento dos antibióticos revolucionou a Medicina ao diminuir o número de mortes de pessoas infectadas por microrganismos, sendo os processos infecciosos os responsáveis por grande número de doenças (ABRAHAM; CHAIN, 1940; SKLYARENKO et al., 2015). Após a descoberta da penicilina, acreditou-se que a humanidade estaria salva de infecções bacterianas, até que em 1940, se descobriu a penicilinase. E começaram-se os estudos referentes à resistência bacteriana (BACTERIAL, 1979). https://www.google.com.br/url?sa=i&rct=j&q=&esrc=s&source=images&cd=&cad=rja&uact=8&ved=&url=http://www.ox.ac.uk/news/science-blog/75-years-penicillin-people&bvm=bv.146786187,d.Y2I&psig=AFQjCNE-PBvtru95ztmAjmyDwahzqUbd_w&ust=1487181314663903 31 Na mesma proporção que surgem novos antibióticos no mercado também surgem cepas bacterianas multirresistentes, o que dificulta a introdução de uma antibioticoterapia eficaz, pois o fator resistência está ligado ao material genético da bactéria, o qual não está livre de possíveis mutações gênicas, o que pode torná-la uma superbactéria, com resistência a todos os fármacos disponíveis, sendo este um dos maiores problemas de saúde pública (CITRI; ZYK, 1965; VERKHOVTSEVA et al., 1972). Um paciente infectado por bactéria pode evoluir a sepse, uma condição em que o organismo começa a danificar seus próprios órgãos e tecidos, em virtude à resposta inflamatória exacerbada própria do corpo, ou seja, passa-se a ter uma resposta inflamatória sistêmica (GAYNES, 2011). A sepse é a causa mortis que mais acomete pacientes infectados por bactérias no mundo, mesmo a Biotecnologia desenvolvendo novas vacinas, soros e fármacos constantemente (GAYNES, 2011). Um paciente entra em choque séptico quando há um alto índice de infecção, consequentemente, a pressão arterial cai, há desidratação, comprometendo a oxigenação e a distribuição adequada de suplementos aos tecidos do organismo, comprometendo o funcionamento de órgãos como rins, coração, pulmões e cérebro, cruciais à manutenção da vida (GAYNES, 2011). Para uma antibioticoterapia ser eficaz e adequada pode ser feita uma cultura de material infectado para que se identifique o agente patogênico e eliminá-lo sem correr o risco de induzir o desenvolvimento de cepas resistentes (GOLEMI-KOTRA et al., 2004; KNECHT et al., 2014). No tratamento com antibióticos utiliza-se, a priori, um antibiótico de amplo espectro e depois se adequa com antibiótico específico para a bactéria identificada na cultura celular, na intenção de que o microrganismo não se torne resistente aos fármacos de maior potência disponíveis no momento (FLEMING, 1946; BEARD et al., 1992; KNOX et al., 1996). 32 1.1.3 Resistência bacteriana e inibidores de β-lactamases A resistência evoluiu com naturalidade como em qualquer outro ser vivo. O antibiótico torna-se ineficaz no tratamento de doenças pelo simples fato da bactéria ser insistentemente exposta a estes fármacos (VU; NIKAIDO, 1985; LEWIS et al., 1997; FISHER; MOBASHERY, 2009). A resistência pode ser intrínseca, sendo característica de toda uma espécie, ou adquirida, caracterizando-se pelas mutações ocorridas ou pela inclusão de material genético exógeno, proveniente de plasmídeos, sendo um fator de extrema preocupação, devido à possibilidade de transmissão do DNA (ácido desoxirribonucleico) a toda uma cepa bacteriana (LEWIS et al., 1997). Há mecanismos de resistência que mudam a conformação do sítio alvo da bactéria, fazendo com que o antibiótico não consiga acessá-lo (LAMOTTE- BRASSEUR et al., 1994). Tem-se também, alterações de permeabilidade da membrana externa da bactéria, fazendo com que substâncias hidrofílicas sejam impossibilitadas de entrar na bactéria, muito comum em bactérias Gram negativo, ou seja, a membrana “composta por uma dupla camada assimétrica de fosfolipídios, polissacáridos e proteínas é uma excelente barreira, e é a primeira linha de defesa à entrada de agentes antimicrobianos. As porinas são proteínas que permitem a passagem de agentes hidrofílicos, tais como os antibióticos β-lactâmicos, e a perda de porinas funcionais poderão levar à resistência” (BEARD et al., 1992). Existe o mecanismo de bombas de efluxo, os quais são proteínas transmembranares com função de expelir para fora da bactéria substâncias tóxicas a ela, também, a inativação do antibiótico pela produção de proteínas (enzimas) que o degradam por hidrólise, como no caso da penicilinase, alvo de estudo deste trabalho, degradando o anel β-lactâmico da penicilina e de outros da sua classe de fármacos como os antimicrobianos (VU; NIKAIDO, 1985; KNOX et al., 1996; DAVIES; DAVIES, 2010). 33 Os inibidores da β-lactamases como o ácido clavulânico, tazobactam ou sulbactam são utilizados para ampliar o espectro das penicilinas, antimicrobiano com ação na síntese de peptideoglicanos da parede celular bacteriana, na ação de destruição dos microrganismos produtores de β-lactamase (BAPTISTA, 2013). Os inibidores possuem uma estrutura idêntica à penicilina, modificando apenas a cadeia lateral. Desta forma as β-lactamases atuam nos inibidores, deixando disponível o antibiótico para atuar na infecção. Dois exemplos comuns são a combinação da amoxicilina com o ácido clavulânico, utilizado no combate a infecções do trato respiratório e a piperacilina com tazobactam administrada em infecções do trato respiratório inferior e vias urinárias. A piperacilina com tazobactam são administrados em pacientes imunocomprometidos, sempre em associação com os aminoglicosídeos, para a profilaxia de infecções por estirpes de Pseudomona aeruginosa (BAPTISTA, 2013). 1.1.4 Penicilinase de Bacillus cereus A penicilinase é uma subclasse das β-lactamases, pois atua principalmente na penicilina. β-lactamases são uma das maiores preocupações médico- farmacêuticas nos dias atuais, sendo uma das grandes responsáveis pela resistência bacteriana aos antibióticos. O uso indiscriminado de antibiótico é responsável pela seleção de cepas bacterianas resistentes, ou seja, produtoras da enzima (BERTONCHELI; HÖRNER, 2008). As cefamicinas, carbapenêmicos e penicilina são antibióticos que apresentam em sua estrutura o anel β-lactâmico e são sensíveis às β-lactamases, sendo que apenas as cefalosporinas apresentam resistência relativa. A hidrólise do anel β- lactâmico, como visto na Figura 4, leva à inativação do antibiótico, sendo que o ataque ocorre na ligação amida e é dependente de 1 ou 2 íons de zinco, os quais coordenam moléculas de água para servirem de nucleófilos. O mecanismo de hidrólise é complexo e como não está completamente esclarecido serviu de incentivo para este trabalho (BERTONCHELI; HÖRNER, 2008). 34 Figura 4 - Mecanismo de ação da penicilinase, abertura do anel β-lactâmico na presença de água. O anel beta lactâmico é colapsado (1 e 2), a ligação amida é quebrada, o nitrogênio é reduzido a N - (3) e retira-se o hidrogênio da água (4). N SR 1 O O OH CH3 CH3 enzima+Zn+H-OH NH SR 1 O O OH CH3 CH3 OH enzima+Zn Fonte: Adaptado de Bertoncheli e Hörner (2008) e Prado (2012). A penicilinase de Bacillus cereus, utilizada neste trabalho de doutoramento, é uma metalo-β-lactamase (MβL), Figura 5, que possui um ou dois íons de zinco no sítio ativo, uma constante de Michaelis-Menten (𝐾𝑚) de aproximadamente 60 µmol L-1 (para enzima imobilizada e analisada por espectrofometria modificada (KLEMES; CITRI, 1979) e um peso molecular de 28 kDa (PLACZEK, 2017). + H-OH 1 2 3 4 35 Figura 5 - Estrutura da metalo-β-lactamase (2M5C.pdb) de Bacillus cereus, em tampão fosfato (PBS), pH 7, com dois íons zinco em seu sítio ativo. Fonte: adaptado de Karsisiotis et al. (2013). 1.2 Métodos eletroquímicos Luigi Galvani, um médico, físico, pesquisador e filósofo italiano foi professor de anatomia na Universidade de Bolonha, no séc. XVIII. Foi o primeiro estudioso da bioeletricidade e eletroquímica, baseado nos padrões elétricos do sistema nervoso, um enigma para a pesquisa científica até os dias de hoje (CAFIERO, 1959). Sua pesquisa não conseguiu desvincular a biologia da física, mas serviu de incentivo para outros, como Alessandro Volta, que usou os achados científicos de 36 Galvani para construir a primeira bateria elétrica, ou pilha voltáica (BERETTA ; GRANDIN, 2001). A Eletroquímica é uma área da físico-química que estuda as reações que envolvem transferência de elétrons e seus fenômenos associados por meio de um dispositivo chamado célula eletroquímica pelo qual ocorrem reações de oxirredução para produzir interconversão de energia química em elétrica. É uma ferramenta poderosa para desenvolvimento de métodos de diagnóstico mais acurados (BERETTA; GRANDIN, 2001; PARENT, 2004). A Eletroquímica serviu para estudar a transferência de cargas envolvidas na reação da penicilinase, uma hidrolase, que apresentou caráter redox, servindo de incentivo para este trabalho de doutorado, para saber de onde ocorre a transferência de elétrons envolvidos na reação catalítica da enzima com seu substrato. 1.3 Simulação molecular A modelagem molecular é uma técnica computacional, interdisciplinar, devido o foco da abordagem a ser pesquisada, que mimetiza o comportamento de moléculas. Segundo definição da IUPAC, a modelagem molecular “é a investigação das estruturas e das propriedades moleculares pelo uso de química computacional e técnicas de visualização gráfica, visando fornecer uma representação tridimensional, sob um dado conjunto de circunstâncias”, auxiliando na compreensão de processos químicos, físicos e biológicos. Uma ferramenta atuante na construção da nanotecnologia, pois propicia o desenvolvimento de máquinas completas a nível atômico-molecular (CARVALHO et al., 2003). Buscou-se um modelo baseado nas leis da mecânica clássica (conhecido por Mecânica Molecular (MM) ou campos de força), no intuito de observar quão estável é a interação que ocorre entre a enzima e seu cofator metálico. Para isto, foram criados modelos simplificados, que fornecem uma descrição razoável do sistema, pois não há quebra/formação de ligações químicas, sendo adequado ao processo de interação da enzima com o cofator, permitindo a compreensão e predição de uma variedade de fenômenos, por exemplo, localização espacial do cofator na enzima, a 37 estabilidade desta interação, se de alguma forma há modificação na estrutura da enzima e como ocorre a reação com o substrato no sítio ativo (JONES et al., 1997). Entretanto, a mecânica molecular (MM), é dependente de parâmetros, escolha de campo de força adequado, porém pode ser realizada para modelos moleculares maiores, pois trabalha com reducionismo, assumindo os átomos, como pontos carregados, necessitando de parametrização das interações e forças envolvidas entre os pontos, ou seja, campos de força. Para se ter conhecimento da estrutura eletrônica se faz necessário o uso da mecânica quântica (QM) (JONES et al., 1997; SERWAY; JEWETT, 2007). A QM, como a MM, é um ramo de física, porém que assume os átomos como prótons e elétrons interagentes, assumindo a energia envolvida como ondas eletromagnéticas distribuídas em pacotes, remetendo a necessidade de descrição eletrônica do sistema, em fenômenos ocorridos na ordem de femtosegundos (10-15 segundos) (SERWAY; JEWETT, 2007). A modelagem molecular traz à luz do conhecimento propriedades microscópicas do sistema estudado, o que experimentalmente não é possível. Sendo uma excelente ferramenta na rotina de grupos de pesquisa atuantes no desenvolvimento e inovação tecnológica, i.e. na pesquisa de novos fármacos, desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico mais acurados, entre outros (COVENEY; FOWLER, 2005). 38 2 OBJETIVOS O objetivo principal deste trabalho foi o entendimento dos processos enzimáticos sob a influência do meio e de um potencial aplicado, ou seja, reações enzimáticas assistidas por densidade eletrônica de um eletrodo. A impedância eletroquímica (EIE) e a voltametria cíclica (VC) foram as técnicas eletroquímicas usadas para estudar a influência das variáveis (cofator, potencial aplicado, entre outras) no sinal obtido e entendimento do mecanismo de reação. A enzima estudada, necessariamente, precisava apresentar caráter redox. Entretanto, optou-se por uma hidrolase, a penicilinase, a qual apresentou características oxirredutivas. Os mecanismos de operação e detecção foram estudados a nível atômico/molecular por modelagem computacional, ou seja, mecânica quântica (QM) e mecânica molecular (MM) para esclarecer os resultados obtidos experimentalmente. 39 3 MATERIAIS E MÉTODOS 3.1 Parte experimental Tabela 1 - Reagentes utilizados, fornecedores e sua aplicação neste trabalho. Produto Procedência Finalidade Aluminas (diâmetros de 1; 0,3; 0,05 µm) Buehler Polimento mecânico dos eletrodos de ouro da METROHM Etanol ultrapuro Sigma Limpeza do eletrodo Ácido Sulfúrico concentrado (95-98%) Quemis Solução aquosa 0,5 M para limpeza eletroquímica dos eletrodos N-hidroxisuccinimida (NHS) 1-Etil-3-(3-dimetilaminopropil)- carbodiimida (EDC) Sigma Fluka Ativação da superfície carboxílica da SAM (obtenção de éster) para ancoragem da espécie receptora Hidróxido de sódio (NaOH) Sigma Solução aquosa 0,5 M para dessorção eletroquímica para limpeza do eletrodo de ouro Cloreto de sódio (NaCl) Nitrato de sódio (NaNO3) Cloreto de potássio (KCl) Monohidrogenofosfato de sódio dodecahidratado (Na2HPO4.12H2O) Dihidrogenofosfato de potássio (KH2PO4) Sigma Sigma J. T. Baker Sigma Sigma Tampão fostato salino (PBS), 0,1 M, pH 7,4 Penicillinase de Bacillus cereus Sigma Tornar o eletrodo sensível à penicilina G Penicilina G Sigma Substrato para reação com a penicilinase 40 Cloreto de zinco (ZnCl2) Cloreto de cobalto (CoCl2) Sigma Sigma Cofator enzimático L-cisteína Sigma Formação da SAM Ferricianeto de potássio Ferrocianeto de potássio tri- hidratado Nitrato de potássio (KNO3) Sigma Sigma Sigma Solução de ferri/ferro Todos solutos apresentados na Tabela 1 apresentam grau analítico. As soluções aquosas foram preparadas com água ultra pura obtida com resistividade não menor que 18 MΩ cm-2 a 25°C utilizando um sistema Milli-Q® Millipore Simplicity. O tampão fosfato salino (PBS), pH 7,4, utilizado possui a composição a seguir: NaCl, 137 mmol L-1, KCl, 2,7 mmol L-1; Na2HPO4.12H2O, 10 mmol L-1; KH2PO4, 2 mmol L-1. O mesmo foi conservado em geladeira. A penicilinase classe B de Bacillus cereus utilizada, também fornecida pela Sigma-Aldrich®, é composta de uma mistura de β-lactamase I e β-lactamase II. As medidas de pH foram realizadas utilizando o peagâmetro da ION modelo pHB500, que era calibrado imediatamente antes do uso. As medidas eletroquímicas foram conduzidas no potenciostato da AUTOLAB (PGSTAT302N), controlado pelo software NOVA. O sistema de medidas se baseou na configuração de três eletrodos, sendo o eletrodo de ouro (2,0 mm de diâmetro e área de 0,03142 cm2) obtido da METROHM, uma placa de platina como contra- eletrodo e eletrodo de Ag/AgCl (KCl saturado) como eletrodo de referência. Todos os potenciais descritos neste texto são relativos ao eletrodo Ag/AgCl (KCl saturado). A penicilinase comprada da empresa Sigma-Aldrich, vem do fabricante sem cofator na sua estrutura, fazendo com que o mesmo fosse colocado por dopagem do 41 eletrodo com solução contendo certa concentração de cofator, o que gerou a problemática para certificação de que o cofator iria se acoplar/alojar na região correta para ativação da apoenzima e qual concentração seria apropriada para garantir a saturação da enzima, o que trouxe a necessidade de cálculos de modelagem computacional para investigação da estrutura e comportamento da enzima frente ao cofator. (CARVALHO et al., 2003). 3.1.1 Análises Eletroquímicas Utilizou-se solução de tampão fosfato salino, a 0,1 mol L-1, pH 7,4 como eletrólito suporte da reação, para garantir a não denaturação da proteína adsorvida na superfície do eletrodo e reproduzir as condições de um meio biológico. Como dito pelo próprio nome, as monocamadas automontadas (SAMs) consistem numa única camada molecular que se adsorve espontaneamente sobre uma superfície metálica, no caso o eletrodo de ouro, e torna-o susceptível a uma variedade de aplicações, inclusive a de estudo do mecanismo de reação enzimática quando se tem uma enzima redox acoplada/imobilizada a SAM (GONÇALVES et al., 2014). Uma técnica eletroquímica importante utilizada na caracterização das SAMs é a voltametria cíclica (VC), pois se obtêm, rapidamente, informações qualitativas sobre as reações que estão a ocorrer no eletrodo funcionalizado. Muito utilizada para caracterização dos sistemas eletroquímicos, a VC consiste em observar a corrente que flui pelo eletrodo de interesse enquanto se aplica um potencial, variado linearmente em relação ao eletrodo de referência, sendo que o gráfico obtido é dependente da concentração de eletrólito na solução e da velocidade de varredura (SPATARU et al., 1996). Medidas de Espectroscopia de Impedância Eletroquímica (EIE) foram realizadas para observar as variações na catálise enzimática sob influência de potencial aplicado, e relacionar a uma possível eletrocatálise. 42 Todas as medidas apresentadas neste trabalho são médias de, no mínimo, triplicatas. 3.1.1.1 Voltametria cíclica (VC) A VC é uma técnica eletroquímica importante utilizada na caracterização da superfície funcionalizada, pois se obtêm, rapidamente, informações sobre os processos redox, da cinética de reações heterogêneas de transferência de elétrons e sobre reações químicas acopladas a processos adsortivos (WANG et al., 2000). A técnica consiste em observar a corrente que flui pelo eletrodo de interesse enquanto se aplica um potencial, variado linearmente em relação ao eletrodo de referência, sendo que o gráfico obtido é dependente da concentração de eletrólito na solução e da velocidade de varredura (VAN BENSCHOTEN et al., 1983; SPATARU et al., 1996). Duas componentes são fundamentais para determinar as reações que estão acontecendo no eletrodo, a difusão de massa do analito em solução para superfície do eletrodo e a transferência heterogênea de carga entre o analito e o eletrodo, podendo haver reações químicas acopladas a um destes processos, podendo ser resumido a equação de Nernst, quando a reação é reversível, apenas a transferência de massa ditará a corrente do pico, em amperes, conforme Equação 1: 𝑖𝑝𝑐 = (2,69 105) 𝑛 2 3 𝐴𝐷0 1 2 𝑣 1 2 𝐶0 (Eq.1) onde, 𝑛 é o número de elétrons envolvidos no processo, 𝐴 é a área do eletrodo (cm2), 𝐷0 é o coeficiente de difusão (cm2 s-1), 𝐶0 é a concentração da espécie em solução (mol cm-3) e 𝑣 é a velocidade de varredura (V s-1) (PACHECO et al., 2013). 43 3.1.1.2 Espectroscopia de Impedância Eletroquímica (EIE) A EIE é uma técnica muito difundida no meio de pesquisa para estudos fundamentais e também para o desenvolvimento de novas técnicas para diagnóstico clínico baseado em análises por transferência de elétrons entre eletrodo e o meio (amostra clínica, por exemplo) (CARVALHO et al., 2006). A EIE baseia-se na razão entre um potencial alternado (de pequena dimensão – apenas perturbativo) aplicado e a medida da corrente de resposta a este potencial. As medidas são realizadas em uma faixa de frequências (método espectroscópico), de forma que diferentes processos físicos e químicos possam ser separados por suas constantes de tempo ou pelo seu tempo próprio de resposta permitindo obter parâmetros como a resistência da solução ( 𝑅𝑠 ), a resistência transferência de elétrons do eletrodo para a solução (𝑅𝑐𝑡) e a capacitância da dupla camada elétrica (𝐶𝑑𝑙), por exemplo. A impedância obtida é uma função complexa definida a partir das suas componentes real, 𝑍’ , e imaginária, −𝑍” (LASIA, 1995; CARVALHO et al., 2006). De forma geral, a EIE é usada para se obter informações sobre as propriedades da reatividade de interfaces (proteínas/substrato) como é o caso de proteínas adsorvidas na superfície de eletrodos. A EIE utiliza sinais muito pequenos de perturbação que não comprometem as propriedades da superfície funcionalizada pela metaloenzima (ensaio não destrutivo), tornando possível estudar as reações de oxirredução de forma consistente e em função de mudanças periódicas do campo externo (LASIA, 1995; CARVALHO et al., 2006; FERNANDES et al., 2014; FERNANDES et al., 2015). Define-se a Impedância Eletroquímica (𝑍 ), como a razão obtida entre o potencial alternado aplicado (𝐸 (𝑡)) e a corrente obtida em função desta perturbação (𝑖 (𝑡)), Equação 2. 𝑍 = 𝐸(𝑡) 𝑖(𝑡) (Eq. 2) 44 À medida que se varia a frequência (𝑓) em que se aplica o 𝐸 (𝑡) , são revelados os mecanismos eletroquímicos (pois se revela a escala de tempo de diferentes processos) que podem ser modelados por elementos de circuito (como resistores e capacitores). Os resultados obtidos podem ser plotados em gráficos do tipo Nyquist, os quais relacionam cartesianamente a componente da impedância real (𝑍′) com a componente da impedância imaginária (−𝑍") (BARD et al., 1980; BUENO et al., 2013) É comum utilizar um circuito elétrico equivalente, com elementos de circuito para se modelar a resposta dos espectros de impedância construídos a partir das variáveis complexas 𝑍’ e −𝑍”. A representação mais comum do espectro é o de Nyquist e o circuito equivalente normalmente mais utilizado em eletroquímica é chamado de circuito de Randles, onde para sistemas mais simples (interface metal- eletrólito) o elemento com “característica” redox fica livre em solução e em contato direto com a superfície metálica com a qual troca elétrons. Este circuito é composto de elementos como 𝑅𝑠 (resistência da solução eletrolítica), 𝑅𝑐𝑡 (resistência à transferência de cargas, indicando reação de oxirredução), 𝐶𝑑𝑙 (capacitância da dupla camada) e 𝑍𝑤 (impedância de Warburg) para descrever as características físicas da interface eletroquímica. O modelo de circuito de Randles é mostrado na Figura 6 (a). O sistema de interface eletroquímica com monocamada dielétrica (SAM) é um sistema mais complexo, e as propriedades dielétricas da SAM são importantes uma vez que impedem o contato direto do par redox em solução com o eletrodo metálico. Além disso, no caso específico deste trabalho tem-se a enzima e o seu cofator adsorvidos na superfície do eletrodo, ambos suportados em uma SAM que bloqueia o contato direto (existindo então uma transferência de elétrons não- adiabática) (CARVALHO et al., 2006; BUENO et al., 2013). 45 Figura 6 - Circuito elétrico equivalente, do tipo Randles (a), com diagrama de Nyquist (b). Onde 𝑹𝒔 é resistência de solução, 𝑪𝒅𝒍 é capacitância da dupla camada elétrica, 𝑹𝒄𝒕 é resistência a transferência de cargas, 𝒁𝒘 é Impedância de Warburg, −𝒁” é impedância imaginária e 𝒁’ é a impedância real. O diagrama (1) apresenta menor 𝑹𝒄𝒕 que o (2). Rs Rct -Z ’’ ( )  frequência (Hz) diminui Z’ ( ) (1) (2) ZW R s Rct C dl Fonte: Adaptado de Carvalho et al. (2006). A adição de elementos ao circuito elétrico equivalente tem que ser criteriosa para que os resultados sejam compatíveis com os fenômenos físicos e químicos que acontecem na interface eletrodo/solução. 3.1.2 Protocolo de limpeza da superfície de ouro O eletrodo de trabalho foi composto de ouro (Au) e antes de ser funcionalizado necessita de um pré-tratamento, sendo que o protocolo utilizado no 46 grupo Nanobionics, consistiu no polimento mecânico com pasta de alumina de diferentes granulometrias (1 μm, 0,3 μm e 0,05 μm, respectivamente nesta ordem). No intervalo de cada polimento, o eletrodo era exaustivamente lavado com água e sonicado em água ultrapura por 5 min para retirar partículas adsorvidas. Em seguida, fez-se uma dessorção eletroquímica com 1 mmol L-1 de NaOH (preparado em água ultra pura MilliQ®), por voltametria cíclica (VC), -0,7 V a -1,7 V versus Ag/AgCl KCl saturado, com velocidade de varredura de 0,1 V s-1, 100 ciclos. Posteriormente, o eletrodo foi sonicado em etanol ultrapuro por 15 min e tratado eletroquimicamente, também chamada de limpeza eletroquímica. Este tratamento consiste em realizar VC em solução de ácido sulfúrico (H2SO4) 0,1 mol L1, com varredura de -0,2 V a 1,5 V versus Ag/AgCl KCl saturado, 25 ciclos a uma velocidade de varredura de 0,1 V s-1, Figura 10. Neste trabalho, definiu-se um intervalo de fator de rugosidade (Fr) entre 1 e 1,3 para que a área ativa (Aativa) do eletrodo esteja o mais próximo da área geométrica, ou seja, quanto mais próximo de 1, o fator de rugosidade, mais lisa a superfície. Para obter o valor do Fr, integra-se o pico da corrente catódica, obtido na VC, destacado na Figura 7, para obtenção da área ativa do eletrodo, sendo de conhecimento que esta área é proporcional a quantidade total de carga, pode-se dividi-la pela constante de 400 μC cm-2, resultando na área ativa de 0,0395 cm2. A relação área ativa pela área geométrica nos remete ao fator de rugosidade, que no caso foi de 1,25 (SPATARU et al., 1996; TKAC; DAVIS, 2008). 47 Figura 7 - Voltamograma cíclico obtido da limpeza eletroquímica. -0,5 0,0 0,5 1,0 1,5 -20 -10 0 10 i (   E (V) 3.1.3 Funcionalização do eletrodo A superfície do eletrodo de ouro começa a ser funcionalizada com a adsorção da L-cisteína (10 mmol L-1), aplicando-se uma solução do aminoácido em PBS, pH 7,4, sobre a superfície por 12 h formando uma SAM (monocamada automontada). Após lavagem em PBS e em seguida em água ultra pura, foi seco e mergulhado numa solução aquosa de EDC (10 mmol L-1) e NHS (20 mmol L-1), por 2 h, utilizada para ativar o grupamento carboxílico da L-cisteína. O eletrodo foi lavado com água ultra pura e imerso em solução contendo a enzima que o funcionalizará em concentração de 0,15 mg mL-1, em PBS, por 2 h. 48 No caso da penicilinase, após as 2 h, retira-se o eletrodo, que foi lavado como no passo anterior e na sequência imerso em uma solução que contém o cofator para ativação da enzima. Cada processo de acoplamento foi avaliado por voltametria cíclica com o seu respectivo analito para garantir que a reação não ocorresse de outra forma que não fosse pela atividade enzimática. 3.2 Parte teórica Com a finalidade de esclarecer o comportamento mecanístico da enzima penicilinase e confrontar com dados obtidos experimentalmente, optou-se pelo uso de ferramentas de bioinformática amparadas pelos resultados eletroquímicos obtidos neste estudo. A modelagem subdivide-se em modelagem clássica e modelagem quântica. 3.2.1 Modelagem clássica 3.2.1.1 Mecânica Molecular (MM) ou Campos de Força Modelos simplificados podem fornecer uma descrição razoável do sistema e permitem obter muitas informações de interesse. Modelos baseados nas leis da mecânica clássica (conhecidos por Mecânica Molecular ou Campos de Força) permitem simulações de sistemas compostos por alguns milhares de átomos eficientemente, e são particularmente adequados em processos onde não há quebra/formação de ligações químicas ou excitações eletrônicas, ou seja, não requerem descrição quântica do sistema. Por estas razões, estes têm sido o método de escolha na comunidade científica para estudar diversos sistemas biomoleculares (SMITH et al., 2012). 49 A descrição dos campos de força ignora a dinâmica eletrônica e calcula a energia do sistema apenas como uma função das coordenadas nucleares. Portanto, a aplicabilidade dos campos de força tem base em algumas suposições. A principal é a validade da aproximação de Born-Oppenheimer, que permite definir a energia potencial do sistema em função das coordenadas nucleares (a superfície de energia potencial). Geralmente, a forma da função energia potencial, em função das posições dos N átomos no sistema, é dada pela Equação 3: U = ∑ klig (r − r0) 2 lig + ∑ kang (θ − θ0) 2 ang − ∑ Vn torções [1 + cos(nτ − φ)] + ∑ ∑ ( Aij rij 12 − Bij rij 6 + qiqj rij ji ) (Eq. 3) caracterizada pelos seguintes termos, respectivamente: 1) Estiramento e deformação angular de ligação: A energia potencial é representada pela lei de Hooke, como uma expansão da verdadeira energia potencial em torno de uma posição de equilíbrio da mesma, onde a primeira contribuição é quadrática. Na equação acima, 𝑟0 é a distância de equilíbrio da particular ligação considerada e 𝑘𝑙𝑖𝑔 representa a constante de força do oscilador, assim como a contribuição de cada ângulo é caracterizada por um valor de referência 𝜃0 e uma constante de força 𝑘𝑎𝑛𝑔. As constantes de força são derivadas principalmente de dados espectroscópicos e de cálculos ab-initio em sistemas- modelo. Como foi dito, o verdadeiro potencial não é harmônico (somente para pequenos deslocamentos em torno da posição de equilíbrio) e, portanto, não permite a modelagem de processos envolvendo rearranjo de ligações químicas, como já mencionado (HU et al., 2013; PRATT et al., 2015). 2) Torção de ligações: O terceiro termo corresponde à energia de torção dos ângulos diedrais (definidos por ligações entre 4 átomos), onde 𝑉𝑛 é usualmente a altura da barreira de rotação, da mesma maneira que se faz em estudos de análise conformacional de alcanos. Contudo, há outros termos que contribuem para a barreira, como será visto a seguir. 𝑛 é a multiplicidade e seu valor dá o número de 50 pontos de mínimo de energia em função do ângulo diedro, variado entre 0 e 360° e 𝜑 é a fase angular (HU et al., 2013; PRATT et al., 2015). 3) Interações de VDW e eletrostática: Moléculas e átomos independentes interagem através de forças não-ligadas, as quais não dependem de nenhuma relação específica entre átomos. Estas constituem interações dependentes da posição, inversamente proporcionais a certa potência da distância. Usualmente são divididos em dois grandes grupos: interações eletrostática e de van der Waals (VDW). A interação eletrostática é modelada da seguinte maneira: a cada um dos átomos é atribuída uma carga, normalmente retirada de ajustes, por análise populacional em cálculos ab-initio, de modo a reproduzir o potencial eletrostático do cálculo com o mínimo de erro, e utiliza-se a lei de Coulomb para o cálculo da energia eletrostática do sistema de cargas pontuais. É claro que a eletrostática não leva em conta todas as interações não-ligadas. Sabe-se que num simples sistema composto por um par de dipolos oscilantes, a teoria de perturbação de segunda ordem resulta numa energia de interação inversamente proporcional à sexta potência da distância, que é a interação de van der Waals. Tal interação é modelada via a função 6-12 de Lennard-Jones (um potencial atrativo na sexta potência do inverso da distância e repulsivo a 12ª potência, que é a repulsão a curta distância entre os átomos). Os parâmetros ajustáveis são tabelados para cada átomo, a saber, a distância entre os átomos 𝑖 e 𝑗 no qual a energia de VDW é mínima, 𝑅𝑖𝑗 ∗ , e a energia mínima 휀𝑖𝑗 , e são usados nos coeficientes do termo de VDW: 𝑅𝑖𝑗 ∗ = (𝑅𝑖 ∗ + 𝑅𝑗 ∗) e 휀𝑖𝑗 = √휀𝑖휀𝑗 , e 𝐴𝑖𝑗 = 휀𝑖𝑗(𝑅𝑖𝑗 ∗ )12 e 𝐵𝑖𝑗 = 2휀𝑖𝑗(𝑅𝑖𝑗 ∗ )6 . Os potenciais de Lennard-Jones permitem, portanto, a descrição de interações repulsivas de curto alcance e atrativas dispersivas de longo alcance (HU et al., 2013; PRATT et al., 2015). Os parâmetros obtidos a partir dos modelos, possibilitaram a criação de vários campos de força que permitem a descrição de diversos fenômenos. Neste trabalho, utilizou-se do AMBER99SB, conjunto de parâmetros utilizados para proteínas, para compreensão dos fenômenos estudados (SMITH et al., 2015; SOMAVARAPU; KEPP, 2015). Simplificações ainda são possíveis para diminuir o custo de cálculo. Sendo que o maior esforço está no cálculo da energia de interação entre átomos não- 51 ligados, visto que estes escalam em 𝑁2, quando comparados a termos ligados, que escalam linearmente com o número 𝑁 de átomos do sistema. Ou seja, é possível que se calcule a interação num raio de corte entre átomos, apenas se recomenda que o raio não seja menor que 10Å. Mas, ainda assim, é necessário calcular a distância entre todos pares de átomos para saber se estão ou não na região de corte, o que custa tanto quanto calcular a energia. Para esse fim é criada uma lista de vizinhos, que armazena, para cada átomo, todos os átomos vizinhos dentro da distância de corte e os átomos ligeiramente fora da região. Os vizinhos são então fixados e atualizados a intervalos regulares durante a simulação, tipicamente, a cada 20 femtosegundos (HU et al., 2013; PRATT et al., 2015). 3.2.1.2 Dinâmica Molecular Uma das técnicas mais usadas na simulação e compreensão de sistemas complexos moleculares e suas propriedades é a chamada dinâmica molecular. A dinâmica molecular calcula a dinâmica real do sistema, ou seja, calcula a evolução de determinado sistema no tempo, através de equações que traduzam leis de movimento, permitindo o cálculo de médias temporais, sobre a trajetória gerada, de propriedades físicas do sistema. No caso utiliza-se a segunda lei de Newton dada pelo conjunto de equações diferenciais, Equação 4: 𝑚𝑖 𝑑2𝑟𝑖⃑⃑⃑ (𝑡) 𝑑𝑡2 = −∇U[𝑟1⃑⃑⃑ (𝑡), 𝑟2⃑⃑ ⃑(𝑡),… 𝑟𝑛⃑⃑ ⃑(𝑡)] para i =0,1,2, ...N (Eq. 4) Pode-se notar que o potencial (seja ele clássico ou quântico) é função da posição de todas as partículas e as equações diferenciais são acopladas. Trata-se de um problema de muitos corpos extremamente difícil de resolver analiticamente. Na prática, a equação é resolvida pelo método do elemento finito, ou seja, o tempo é discretizado em intervalos ∆𝑡 finitos (consequentemente a trajetória também é discreta) e a equação é integrada numericamente. Dada uma posição inicial qualquer e as velocidades iniciais, calcula-se as forças que agem nos mesmos (e 52 portanto a aceleração) e calcula-se a próxima posição, como uma aproximação em série de Taylor, Equação 5: 𝑟 (𝑡 + 𝛿𝑡) = 𝑟 (𝑡) + 𝛿𝑡𝑣 (𝑡) + 1 2 𝛿𝑡2𝑎 (𝑡) + ⋯ (Eq. 5) onde pode-se truncar a expansão até a ordem desejada. Combinando-se estas equações, pode-se ainda eliminar a dependência de certas variáveis e até mesmo diminuir a ordem do erro cometido no truncamento da expansão. O algoritmo integrador de Verlet (VERLET, 1967; 1968) é um dos mais usados para este fim e consiste na obtenção das posições e novas acelerações sem uma dependência direta da velocidade, através da soma das duas expansões, Equações 6 e 7: 𝑟 (𝑡 + 𝛿𝑡) = 𝑟 (𝑡) + 𝛿𝑡𝑣 (𝑡) + 1 2 𝛿𝑡2𝑎 (𝑡) + 1 6 𝛿𝑡3�⃑� (𝑡) + 𝑂 (𝛿𝑡4) (Eq. 6) 𝑟 (𝑡 − 𝛿𝑡) = 𝑟 (𝑡) − 𝛿𝑡𝑣 (𝑡) + 1 2 𝛿𝑡2𝑎 (𝑡) − 1 6 𝛿𝑡3�⃑� (𝑡) + 𝑂 (𝛿𝑡4) (Eq. 7) resultando na Equação 8: 𝑟 (𝑡 + 𝛿𝑡) = 2𝑟 (𝑡) − 𝑟 (𝑡 − 𝛿𝑡) + 𝛿𝑡2𝑎 (𝑡) + 𝑂 (𝛿𝑡4) (Eq. 8) Existem outros algoritmos integradores como o algoritmo leap-frog (Verlet modificado, onde usa-se a metade do passo no tempo) ou até mesmo outros mais precisos, com esquemas de extrapolação, como os algoritmos Preditores-Corretores (VERLET, 1967; 1968). O passo de integração é algo a ser também discutido neste ponto. Usualmente, utiliza-se o que seria 1/10 do período de movimento mais curto de certo átomo, como a frequência de estiramento das ligações químicas (especialmente as que envolvem átomos de hidrogênio, que oscilam com período de 10 fs). Como as vezes essa é uma restrição muito severa (muitas vezes é necessária uma dinâmica mais longa), há outras estratégias, como o uso de 53 vínculos nestas ligações (há vários algoritmos para esse fim) ou usar átomos de deutério no lugar de hidrogênio. Muitas vezes deseja-se realizar as simulações levando em conta a contribuição do ambiente, onde o sistema se encontra à pressão ou temperatura constante, como no estudo de reações químicas, transição de fase, etc. A temperatura está diretamente relacionada com a energia cinética média do sistema. Certos algoritmos, chamados de termostatos, podem, portanto, simular o sistema a uma certa temperatura constante, re-escalando a velocidade das partículas, como o caso do termostato de Berendsen (SCHROËN et al., 2002). Neste, as velocidades são diretamente modificadas a cada passo, de tal maneira que, Equação 9: 𝑑𝑇(𝑡) 𝑑𝑡 = 1 𝜏 [𝑇𝑒𝑥𝑡 − 𝑇(𝑡)] (Eq. 9) 𝜏 é o parâmetro que determina o acoplamento entre o sistema e o banho térmico. O fator de escalonamento das velocidades é dado pela Equação 10: 𝜆 = 1 + 𝛿𝑡 𝜏 [ 𝑇𝑒𝑥𝑡 𝑇(𝑡) − 1] (Eq. 10) Embora seja simples de se implementar, garanta a conservação do momento total e a execução não seja muito dispendiosa, há o problema de que este não gera uma distribuição verdadeiramente canônica, ou mesmo às vezes, ergódica. Existem outros algoritmos que levam em conta o reservatório térmico, explicitamente, na equação de movimento, como um grau de liberdade adicional que evolui no tempo, como o algoritmo de Nosé-Hoover (NOSÉ, 1984; EVANS ; HOLIAN, 1985; BUSSI et al., 2009), onde as equações de movimento agora se escrevem, conforme Equações 11, 12 e 13: 𝑑𝑟(𝑡) 𝑑𝑡 = 𝑣(𝑡) (Eq. 11) 54 𝑑𝑣(𝑡) 𝑑𝑡 = 𝑓(𝑡) 𝑚 − 𝜒(𝑡)𝑣(𝑡) (Eq. 12) 𝑑𝜒(𝑡) 𝑑𝑡 = 1 𝜏𝑇 2 ( 𝑇 𝑇𝑒𝑥𝑡 − 1) (Eq. 13) onde 𝜏𝑇 é uma constante de tempo com o mesmo papel da constante no algoritmo de Berendsen, porém o parâmetro de fricção agora obedece a uma equação diferencial de primeira ordem no tempo, e pode-se mostrar que este algoritmo gera uma distribuição genuinamente canônica em tempos suficientemente longos. 3.2.2 Modelagem quântica 3.2.2.1 Mecânica Quântica (QM) A Mecânica Quântica estuda eventos que ocorrem a nível atômico e sub atômicos, ou seja, consiste em perscrutar um sistema em que há transferência de energia e/ou elétrons entre compostos. Neste trabalho, serviu para entendimento mecanístico da reação específica da enzima com substrato (TAYLOR, 1976). A Física Quântica teve seu início com os estudos de Max Planck, no fim do século XIX, o qual teorizou que cada átomo só poderia trocar pacotes discretos de energia (PLANCK, 1959). Planck teve sua teoria seguida por outros cientistas, como Albert Einstein, que foi o primeiro a utilizar o termo quantum para a constante de Planck, visto na equação de Bohr, Equação 14 (LANCZOS, 1974; KARLSSON, 2001), 𝐸 = ℎ𝑣 (Eq. 14) onde 𝐸 é a energia do fóton, ℎ é a constante de Planck (6,62x10-34 J.s) e 𝑣 é a frequência de radiação, em um estudo, de 1905, onde desenvolveu o conceito de fóton. O termo relaciona-se com quantização de energia, isto é, o elétron passa de 55 um nível a outro, mas sem passar por intermediários, ou seja, realiza saltos energéticos (MILLER, 1981). Em 1926, Werner Heisenberg, um físico alemão, criou a teoria do “Princípio da Incerteza”, a qual dizia que não se pode determinar simultaneamente, com absoluta exatidão, a velocidade e a posição de um elétron num átomo. Surgindo então o conceito de orbital, regiões ao redor do núcleo do átomo, nas quais a probabilidade de se encontrar um elétron é máxima. Assim, em 1927, o físico teórico austríaco Erwin Schrödinger, descreveu o movimento do elétron ao redor do núcleo atômico por intermédio de equações matemáticas que relacionam a natureza dual da partícula-onda, a carga, a energia, e a massa do elétron. Caracterizando a nuvem eletrônica ao relacionar a velocidade do elétron movimentando-se no espaço (orbital) (PLOTNITSKY, 2010). 3.2.2.2 Equação de Schrödinger Qualquer aproximação para estudar sistemas atômicos e moleculares a partir de primeiros princípios deve ser baseada na teoria que descreve o comportamento microscópico de partículas, ou seja, a mecânica quântica. Basicamente, isto consiste em resolver a equação de Schrödinger independente do tempo, Equação 15: Ĥ𝜓 = 𝐸𝜓 (Eq. 15) Esta é uma equação diferencial a autovalores, cuja resolução resulta na função de onda 𝜓(𝑟, 𝑡), que é a descrição matemática de um sistema de partículas quântico, sujeito a um determinado potencial externo. A função de onda contém todas as informações do sistema, o que nos permite obter qualquer propriedade do mesmo. O principal objetivo da química quântica é então resolver esta equação para o sistema contendo núcleos e elétrons, como uma molécula, por exemplo. No caso 56 de um sistema contendo N elétrons e M núcleos, o operador Hamiltoniano, em unidades atômicas, se escreve como na Equação 16: Ĥ = ∑ 1 2 𝑁 𝑖=1 ∇𝑖 2 − ∑ 1 2𝑀𝐴 𝑀 𝐴=1 ∇𝐴 2 − ∑ ∑ 𝑍𝐴 𝑟𝑖𝐴 𝑀 𝐴=1 𝑵 𝑖=1 + ∑∑ 1 𝑟𝑖𝑗 𝑁 𝑗>𝑖 𝑵 𝑖=1 + ∑ ∑ 𝑍𝐴𝑍𝐵 𝑅𝐴𝐵 𝑀 𝐵>𝐴 𝑴 𝐴=1 (Eq. 16) onde 𝑖 e 𝑗 são os índices eletrônicos e 𝐴 e 𝐵 os nucleares. Os primeiros dois termos correspondem à energia cinética eletrônica e nuclear e os outros três correspondem à interação coulombiana elétron-núcleo, elétron-elétron e núcleo-núcleo, respectivamente. Para esse tipo de sistema, uma solução exata não é possível, e soluções aproximadas devem ser procuradas. A primeira das aproximações consiste no desacoplamento dos graus de liberdade eletrônicos e nucleares seguido da resolução do problema eletrônico isoladamente, e é conhecida como aproximação de Born-Oppenheimer (BORN ; OPPENHEIMER, 1927). Nessa aproximação, supõe-se que os elétrons respondem instantaneamente ao movimento nuclear e foi motivada originalmente pela grande diferença entre a massa do núcleo e do elétron. Sob esta aproximação, o segundo termo da Equação 16 é desprezado e o último se torna uma constante. O restante é o chamado Hamiltoniano eletrônico, que possui uma dependência paramétrica das coordenadas nucleares. Se levar em conta o spin eletrônico, a função de onda deve também satisfazer o princípio da antissimetria, que dita que a função de onda correspondente a férmions deve ser antissimétrica com respeito à troca de coordenadas entre quaisquer dois elétrons. Como se pode ver a resolução desta equação é bastante complexa e possível apenas para elétrons livres ou átomos hidrogenóides. Desta forma, os últimos 90 anos foram dedicados a resolver a equação de forma simplificada. 57 3.2.2.3 Teoria do funcional de densidade (DFT) Em 1964, Kohn e Hohenberg, publicaram um artigo onde apresentavam uma reformulação da mecânica quântica baseada na densidade eletrônica e não mais na função de onda. Esta densidade, normalmente representada por 𝜌 (𝑟), envolvia a probabilidade de se encontrar o elétron em determinada coordenada. Kohn, auxiliado por Sham, determinaram como descobrir a 𝜌 (𝑟) para um sistema real e assim surgiu a DFT (Density Functional Theory) (HOHENBERG; KOHN, 1964; POPLE et al., 1992). A DFT permitiu o desenvolvimento de uma nova forma de estudar os complexos sistemas atômicos que compõe as moléculas e suas interações, de modo que computadores são usados para ajudar a compreender e a prever as propriedades (POPLE et al., 1992). Para conseguir descrever camadas eletrônicas, Kohn e Sham, construíram um sistema de elétrons “fictícios”, onde os “elétrons” não interagem uns com os outros, mas cuja densidade é igual à densidade do sistema original. Para isso, imergimos os nossos elétrons fictícios num potencial efetivo, o potencial de Kohn- Sham, escolhido de forma a que esta condição seja satisfeita. Como este é um sistema de elétrons independentes (não-interatuantes), eles obedecem a uma equação de Schrödinger, a equação de Kohn-Sham. Se pode também provar que este potencial de Kohn-Sham é, ele próprio, um funcional da densidade, escreve-se normalmente este funcional como a soma de três partes, conforme Equação 17: 𝑣𝐾𝑆[𝜌](𝑟 ) = 𝑣𝑒𝑥𝑡 (𝑟 ) + 𝑣𝐻𝑎𝑟𝑡𝑟𝑒𝑒 [𝜌](𝑟 ) + 𝑣𝑥𝑐 [𝜌](𝑟 ) (Eq. 17) O primeiro termo representa o potencial externo, que numa molécula ou num sólido é normalmente criado pelos núcleos atômicos. O segundo, o potencial de Hartree, já presente na teoria de Thomas-Fermi, leva em conta a interação eletrostática clássica entre os elétrons, isto é, a interação entre o elétron e a 58 densidade média de carga de todos os elétrons do sistema. O último termo, denominado potencial de troca e correlação, inclui todos os termos não triviais da interação. O problema é encontrar boas aproximações para este último termo, mas que pode ser substituída pela LDA, aproximação da densidade local, do inglês Local Density Approximation. Já foram propostas inúmeras outras aproximações para o potencial de troca e correlação. As mais populares para o estudo de sólidos são agora as chamadas aproximações generalizadas de gradientes (GGA, de Generalized Gradient Approximation), aproximações um pouco mais complexas do que a LDA (HOHENBERG; KOHN, 1964; VOSKO et al., 1980; POPLE et al., 1992; PERDEW et al., 1996). A DFT é aplicada para compreensão da transferência eletrônica envolvida na reação da enzima com substrato. 3.2.2.4 Metodologia Híbrida - QM/MM Esquemas híbridos mecânica quântica-mecânica molecular (QM/MM) são adequados para a investigação de propriedades de macromoléculas ou reações químicas em ambientes complexos e particularmente adequados para estudar sítios ativos de enzimas ou solutos em fase condensada. O método combina a descrição da estrutura eletrônica do soluto (subsistema QM) com o computacionalmente mais barato tratamento de mecânica molecular do ambiente (subsistema MM), sendo estes acoplados por um Hamiltoniano híbrido, 𝐻𝑄𝑀𝑀𝑀. Em geral, denota-se o Hamiltoniano total, 𝐻 𝑇𝑂𝑇, que opera sobre a função de onda de todo o sistema Ψ, conforme Equação 18: 𝐻 𝑇𝑂𝑇Ψ(r, R, τ) = 𝐸𝑇𝑂𝑇 (𝑅, 𝜏)Ψ(r, R, τ) (Eq. 18) 59 onde 𝜏 , 𝑅, e 𝑟 representam respectivamente as coordenadas dos átomos clássicos, dos núcleos dos átomos quânticos e dos elétrons dos átomos quânticos. Este Hamiltoniano envolve três termos: um Hamiltoniano quântico, um Hamiltoniano clássico e um termo de acoplamento, Equação 19: 𝐻𝑇𝑂𝑇 = 𝐻𝑄𝑀 + 𝐻𝑀𝑀 + 𝐻𝑄𝑀𝑀𝑀 (Eq. 19) o mesmo vale para energia total, visto na Equação 20: 𝐸𝑇𝑂𝑇 = 𝐸𝑄𝑀 + 𝐸𝑀𝑀 + 𝐸𝑄𝑀𝑀𝑀 (Eq. 20) Para o tratamento de ambientes macromoleculares biológicos, foi implementada a parametrização por campo de força de Wang e Shen (WANG; SHEN, 2013). Finalmente, o termo de acoplamento 𝐸𝑄𝑀𝑀𝑀− pode ser decomposto em três contribuições, Equação 21: 𝐸𝑄𝑀𝑀𝑀 = ∑ 𝑞𝑖 ∫ 𝜌(𝑟) |𝑟−𝜏𝑖| 𝑑𝑟 +∑ ∑ 𝑞𝑖𝑍𝛼 |𝑅𝛼−𝜏𝑖| 𝑄 𝛼=1 + 𝐸𝑄𝑀𝑀𝑀 𝐿𝐽𝐶 𝑖=1 𝐶 𝑖=1 (Eq. 21) onde 𝐶 é o número de átomos na região clássica, cujas cargas 𝑞𝑖 são determinadas pelo campo de força escolhido para modelar o ambiente e 𝛼 é o índice dos 𝑄 núcleos dentro do subsistema quântico com carga 𝑍𝛼 . O primeiro e o segundo termo representam respectivamente a interação eletrostática entre os elétrons e as cargas clássicas e entre núcleos no subsistema quântico e as cargas clássicas. Finalmente, 𝐸𝑄𝑀𝑀𝑀 𝐿𝐽 − modela a interação de van der Waals entre os átomos das regiões QM e MM através de um potencial de Lennard-Jones (WARSHEL; LEVITT, 1976B; MASSOVA; KOLLMAN, 2002; FERRER et al., 2012). Outra situação que merece atenção especial é o que acontece na fronteira entre os sistemas QM e MM se esta envolve a separação de uma ligação covalente, pois ao se “cortar” esta ligação, a parte QM ganha um elétron desemparelhado, enquanto que na parte MM, o elétron não é tratado e é, portanto, suprimido no processo. O sistema passa a não ser descrito corretamente. Os principais métodos são: 60 1. o procedimento "link-atom", em que orbitais "fantasmas" são colocados no átomo de fronteira MM para saturar a valência da parte QM. 2. o procedimento LSCF (Local Self Consistent Field), que "congela" o orbital que descreveria a ligação de fronteira, ou seja, o orbital que seria do elétron MM da fronteira é incluído no cálculo QM, mas não é otimizado no processo SCF. 3. o geração de um pseudopotencial no carbono de fronteira MM, que permite tratar todos os elétrons na parte QM (não-trivial) (WARSHEL; LEVITT, 1976B; MASSOVA; KOLLMAN, 2002; FERRER et al., 2012). Esta ligação entre as porções QM e MM pode ser tratada de várias maneiras diferentes. Normalmente o corte é feito nas ligações homopolares, como o caso de uma ligação carbono-carbono em uma proteína. O método adotado na particular implementação foi o método do “átomo ligado” com posição escalada, SPLAM (EICHINGER et al., 1999). Neste método, as ligações de fronteira (suposto C-C, mas não necessariamente) são substituídas por ligações carbono-hidrogênio. Este “hidrogênio de ligação” completa a valência do sistema QM, e sua posição é superimposta na ligação 𝐶𝑄𝑀 − 𝐶𝑀𝑀 . As forças exercidas neste hidrogênio são divididas em componentes perpendiculares e paralelas à ligação, sendo que a primeira é adicionada ao átomo de fronteira clássico, e a segunda é multiplicada por 0.1 e somada sobre os átomos de fronteira clássico e quântico, para evitar incluir um torque externo. Os outros termos clássicos de energia ligados envolvendo pelo menos um centro MM de fronteira são computados normalmente. Interações Lennard-Jones entre os átomos de fronteira e o hidrogênio de ligação são omitidos para pares de átomos separados por menos de três ligações. A carga do átomo de fronteira MM é dividida e somada sobre seus vizinhos para manter a carga total inalterada. Este método já foi utilizado com sucesso em cálculos anteriores com diferentes sistemas, incluindo biomoléculas (WARSHEL; LEVITT, 1976a; b). 61 3.2.3 Protocolo de cálculos Para a realização dos cálculos teóricos em modelagem computacional utilizou-se o código GROMACS e SIESTA, em servidores Supermicro de rack da VERSATUS, servidores altamente paralelos, desenvolvidos para uma grande gama de aplicações intensivas nos campos de Modelagem Química, Simulações Financeiras, Genômica e Física. Foi de particular interesse a utilização de esquemas de simulação baseados em Dinâmica Molecular, dando uma abordagem relacionada à minimização de energia, de forma a observar o comportamento do cofator frente a enzima inativa. Também se estudou a descrição mecânico-quântica do modelo escolhido para representar o sítio catalítico, e para este, elegeu a Teoria do Funcional de Densidade (DFT) (HOHENBERG; KOHN, 1964). Também foi utilizado o software AutoDock Vina, para simular o melhor posicionamento da penicilina frente ao sítio ativo da enzima (TROTT; OLSON, 2010). E para estudar a reação da enzima com seu substrato fez-se uso de método híbrido de mecânica quântica-mecânica molecular usando uma penicilinase de Bacillus cereus, uma metalo-β-lactamase (MβL), obtida por difração de raios-X e disponível no banco de dados PDB, Protein Data Bank, com a seguinte numeração, 2M5C.pdb, Figura 8, que possui dois íons de zinco (II) no sítio ativo, uma constante de Michaelis-Menten ( 𝐾𝑚 ) de aproximadamente 60 µmol L-1 (para enzima imobilizada e analisada por espectrofometria modificada e um peso molecular de 28 KDa (KLEMES; CITRI, 1979). 62 Figura 8 - Estrutura cristalográfica obtida por difratometria de raios-X da metalo-β-lactamase (coordenadas obtidas de 2M5C.pdb) de Bacillus cereus, em tampão fosfato (PBS), ph 7, com dois íons zinco em seu sítio ativo. Fonte: adaptado de Karsisiotis et al. (2013). A modelagem computacional esclarece, detalhadamente, a estrutura tridimensional da molécula enzimática e do antibiótico, penicilina G, pois a dinâmica molecular (MD) contribui para entendimento do comportamento atomístico dos átomos envolvidos, considerando o campo de força (AMBER99SB) utilizado para parametrizar as interações interatômicas e direcionar à compreensão da reação enzimática heterogênea assistida, ao estudar o comportamento eletrônico dos átomos envolvidos na catálise enzimática, por mecânica quântica (QM). Todos os cálculos e estudo por mecânica molecular foi feita utilizando-se o código GROMACS (PRONK et al., 2013). Para os estudos de simulação, a estrutura 63 da penicilinase, obtida por raios-X, era composta de aproximadamente 3560 átomos, os quais foram acomodados numa caixa ortogonal de 72 x 70 x 65 Å, visto que a menor distância entre as moléculas vizinhas era 12 Å. Em princípio os íons inorgânicos foram removidos daquela estrutura obtida por difração de raios-X. Os estados de protonação dos resíduos foram ajustados para coincidir com os correspondentes a um pH 7, obtendo-se uma proteína com carga negativa de -5e-, quando não ativada pelo cofator. A proteína foi em seguida relaxada pela otimização da geometria, minimizando o potencial para o mínimo mais próximo (JONES et al., 1997). O sistema foi solvatado por água explícita e quantidade suficiente de contra- íons para neutralizar o sistema de modo a se atingir a concentração desejada. O sal escolhido para gerar os contras íons foi o cloreto de zinco (ZnCl2) em duas concentrações (quanto ao número de íons): 0,01 mol L-1 e 0,2 mol L-1, que correspondem aos pontos extremos das concentrações usadas no experimento. Portanto, o número total de átomos do sistema solvatado, nesta situação, passou a ter cerca de 32.000 átomos. A geometria do sistema foi re-otimizada de modo que a força máxima fosse inferior a 500 kJ mol-1 nm-1. O sistema foi ainda termalizado por dinâmica molecular NVT-conjunto (MD) usando o campo de força empírico AMBER99SB para 1 ns e com um intervalo de tempo de 2 fs. O termostato Nosé- Hoover foi usado para controlar a temperatura em torno de 300 K (EVANS; HOLIAN, 1985; HORNAK et al., 2006) Numa segunda etapa, a pressão do sistema foi equilibrada usando o barostato Parrinello-Rahman, a 1 atm. Isso teve como objetivo equilibrar a densidade do sistema, por mais 1 ns. Finalmente um tipo de dinâmica computacional sustentada em cálculos NPT-MD em 300 K e 1 atm, para 100 ns. Toda a análise estrutural é então realizada dentro da trajetória correspondente (PARRINELLO; RAHMAN, 1981). 64 4 PENICILINASE: abordagem eletroquímica e modelagem computacional 4.1 Abordagem Eletroquímica Em cada etapa de funcionalização foram realizadas voltametrias cíclicas para garantir que uma adsorção completa e efetiva da superfície tenha ocorrido como visto na Figura 9. A solução de ferri/ferro utilizada na célula eletroquímica é composta de ferricianeto de potássio (1 mmol L-1), adicionalmente a ferrocianeto de potássio tri- hidratado (1 mmol L-1) e nitrato de potássio (0,5 mol L-1), a qual possibilita a troca eletrônica da interface com o meio, ou seja, há transferência de elétrons entre o eletrodo de trabalho e os íons de Fe, 𝐹𝑒+2  𝐹𝑒+3 + 𝑒− , ocorrendo reações de oxirredução. 65 Figura 9 – VC´s características de diferentes eletrodos: o de Au puro, o de Au/SAM, o de Au/SAM/Penicilinase e o de Au/SAM/Penicilinase na presença de substrato. Realizadas em solução de ferri/ferro, 1 mmol L -1 , em KNO3, 0,5 mol L -1 . O substrato é a penicilina G a 0,65 mmol L -1 . Em destaque, ampliação na região onde ocorreu bloqueio de corrente (-0,5 a 0,5 µA cm -2 ) devido à formação de filme na superfície metálica. Observou-se que houve um decréscimo nas densidades de corrente anódicas e catódicas, ou seja, a monocamada de L-cisteína impede a passagem de elétrons, responsáveis pela oxidação e redução, 𝐹𝑒+2  𝐹𝑒+3 + 𝑒− (associado ao par redox ferri/ferro), mas não totalmente, pois há transferência eletrônica, em quantidade diminuta, demonstrando que ocorreu efetivamente a formação da SAM. Para fins comparativos, destacou-se na imagem a região onde ocorreu a diminuição da corrente, possibilitando analisar que ao adsorver a MβL, houve um Au Au/SAM Au/SAM/Penicilinase Au/SAM/Penicilinase/Penicilina G -0,3 0,0 0,3 0,6 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 j ( A c m -2 ) E (V) vs Ag/AgCl 0,0 0,4 -0,3 0,0 0,3 j ( A c m -2 ) E (V) vs Ag/AgCl 66 novo impedimento e quando se coloca a penicilina G, sem íons metálicos, também ocorre, porém discreto. Visto que não há presença de cofator, não se observou atividade catalítica e, portanto, correntes associadas a uma reação desta enzima com o substrato não foram detectadas nestes voltamogramas. As enzimas possuem um centro ativo aonde o substrato irá se ligar e reagir formando o produto. No entanto, algumas enzimas precisam ser ativadas, ou seja, uma apoenzima (enzima inativada) liga-se a um grupo não proteico, denominado cofator (íon metálico) ou coenzima (pequenos grupos orgânicos), adquirindo as condições necessárias para a reação. A enzima quando ativada pelo cofator (neste caso específico foi utilizado o átomo|íon zinco) é denominada holoenzima. A Figura 10 mostra o perfil voltamétrico da enzima quando a mesma está ativa e inativa. Figura 10 - Perfis voltamétricos de uma apoenzima e uma holoenzima, imobilizadas em eletrodo de Au. Realizado em PBS 0,1 mol L -1 , pH 7,4 a 25°C. Velocidade de varredura de 100 mV s -1 . Penicilina G a 0,65 mmol L -1 . O íon Zn 2+ , a 25 mmol L -1 , foi utilizado como cofator. Região hachurada indica um “laço de nucleação”. -0,6 -0,3 0,0 0,3 0,6 -12 -9 -6 -3 0 3 j ( A c m -2 ) E(V) vs.