Maria Lúcia de Souza Avaliação da incidência de Helicobacter spp em cães oriundos do Biotério Central da Unesp – Campus de Botucatu Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Cirurgia, Área de Concentração em Bases Gerais da Cirurgia da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP, para obtenção do título de Mestre. Orientador: Prof. Dr. Luiz Eduardo Naresse Co-orientador: Dr. Rogério Saad Hossne Universidade Estadual Paulista Botucatu - SP 2003 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................ OBJETIVOS ................................................................................................ MATERIAIS E MÉTODOS........................................................................... 1. Animais ....................................................................................... 2. Preparo do animal ................ ..................................................... 3. Seqüência das etapas experimentais......................................... 4. Técnicas utilizadas ..................................................................... 4.1. Anestesia ............................................................................. 4.2. Coleta de sangue ................................................................. 4.3. Coleta das amostras gástricas e duodenal .......................... 4.4. Processamento do material. ................................................ 4.5. Análise estatística ................................................................ RESULTADOS ........................................................................................... DISCUSSÃO ............................................................................................... 1. Quanto à metodologia ........................................................... 2. Quanto aos resultados .......................................................... CONCLUSÕES ........................................................................................... RESUMO .................................................................................................... ABSTRACT ................................................................................................. REFERÊNCIAS........................................................................................... ANEXO ....................................................................................................... 07 11 12 12 13 13 14 14 14 15 20 26 27 32 32 38 45 46 48 50 61 Agradecimentos Ao Dr. Luiz Eduardo Naresse, meu orientador, por sua imensa paciência e ajuda na elaboração da dissertação e, principalmente, por ter concordado com a troca do projeto inicial, para garantir que os animais que participassem do estudo não fossem eutanasiados. Ao Dr. Renê Gamberini Prado, grande incentivador, a quem fui pedir um estágio em endoscopia e me motivou a iniciar o Mestrado. Ao Dr. Rogério Saad Hossne, por me ensinar a realizar endoscopias e ainda hoje me ajudar com meus pacientes. À Maria Clara F. Chaguri e à Luzia F. Gouveia, da Cirurgia Experimental, por me auxiliarem na coleta e elaboração das lâminas, e também à Maria Helena S. de Lima e Irene Spago. À Dra. Noeme Sousa Rocha e à Dra. Maria Aparecida M. Rodrigues, que me ajudaram a esclarecer a leitura das lâminas. À Simone Barroso Corvino, Marinede Ribeiro Jorge e ao Carlos Eduardo Borgatto, do Departamento de Cirurgia, por ajudarem na digitação da dissertação e na aula de Qualificação. Ao Dr. Carlos Roberto Padovani e Dr. Alcides de Amorin Ramos, pelas estatísticas. À Dra. Lucy Marie Ribeiro Muniz e ao Dr. Shoiti Kobayasi, pela aprovação na Banca Examinadora de Qualificação. À Dra.Vera Lúcia Pimentel, pelos animais do Biotério cedidos para coletas e exames. A todos que colaboraram na elaboração desta Dissertação, meu mais sincero obrigado. E aos animais que "voluntariamente" participaram de meu estudo. O TESTAMENTO DE UM CÃO Minhas posses materiais são poucas e eu deixo tudo para você... Uma coleira mastigada em uma das extremidades, faltando dois botões, uma desajeitada cama de cachorro e uma vasilha de água que se encontra rachada na borda. Deixo para você a metade de uma bola de borracha, uma boneca rasgada que você vai encontrar debaixo da geladeira, um ratinho de borracha sem apito que está debaixo do fogão da cozinha e uma porção de ossos enterrados no canteiro de rosas ou sob o assoalho da minha casinha. Além disso, eu deixo para você as memórias, que, aliás, são muitas. Deixo para você a memória de dois enormes e meigos olhos marrons, de uma caudinha curta e espetada, de um nariz sempre molhado e das choradeiras atrás da porta. Deixo para você uma mancha no tapete da sala de estar junto à janela, quando nas tardes de inverno eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu, e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco de sol. (Mas não manchava de propósito.) Deixo para você um tapete esfarrapado em frente de sua cadeira preferida, o qual. nunca foi consertado com o tipo de linha certo.... isso é verdade. Eu o mastiguei todinho, quando ainda tinha cinco meses de idade, lembra-se? Deixo para você um esconderijo que fiz no jardim debaixo dos arbustos perto da varanda da frente, onde eu encontrava asilo durante aqueles dias de forte verão. Ele deve estar cheio de folhas agora e por isso tal.vez você tenha dificuldades em encontrá-lo. Sinto muito! Deixo também, só para você, o barulho que eu fazia ao sair correndo sobre as folhas de outono, quando passeávamos pelo bosque. Deixo ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs, quando saíamos junto pela margem do riacho e você me dava aqueles biscoitos de baunilha. Recordo-me das suas risadas debochadas, porque eu não consegui alcançar aquele coelho impertinente. Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não iam bem, meus latidos quando você levantava a voz aborrecido... e minha frustração por você ter ralhado comigo. Eu nunca fui à igreja e nunca escutei um sermão. No entanto, mesmo sem haver falado sequer uma palavra em toda a minha vida, deixo para você o exemplo de paciência, amor e compreensão. Talvez, (modéstia à parte) sua vida tenha sido um pouco mais alegre, porque eu estive ao seu lado! Agora, já velhinho, quando tenho que me despedir definitivamente, desejo, sinceramente, que encontre um substituto à minha altura. Eu lhe deixei alguns herdeiros, dos quais você teve que se desfazer por falta de condições de cuidar de mais de um. Pode ser que consiga algum deles de volta, ou, pelo menos, uma terceira geração. Eu garanto que provêm "de boa família". Mas, se sua dor for tanta a ponto de não poder agüentar outra separação semelhante, eu compreenderei, saberei que não considerou "um alívio livrar-se de mim". Com a esperança de que você tenha podido me entender, olhando-me nos olhos, enquanto me acompanha nesses meus últimos momentos, apesar de estar com os seus olhos completamente molhados, embora os meus não estejam, porque os cães sofrem mas não derramam lágrimas, peço-lhe desculpas por tudo que possa ter feito que o tenha aborrecido, e por não conseguir mais força para continuar a seu lado. ADEUS, meu maior amigo! ( autor desconhecido) Introdução 7 INTRODUÇÃO A descoberta de uma associação entre a infecção pelo Helicobacter pylori (Hp) e a doença péptica por Marshall & Warren em 1983, foi um marco na compreensão das doenças do trato digestivo alto (Dooley, 1993). A importância dessa bactéria tem sido detectada na patogenia da gastrite, da úlcera gástrica e duodenal (Blaser, 1990; Cover & Blaser, 1995; Queiroz et al., 1998) e mais recentemente como agente indutor do carcinoma gástrico no ser humano (Morgner et al., 2000b, Castro et al., 2003). Vários estudos têm demonstrado correlação entre a presença de Hp no homem e outras doenças, como trombocitopenia auto-imune, nefropatia membranosa, polineuropatias imunes agudas, doença cardíaca isquêmica (Gasbarrini & Franceschi, 1999), carcinoma hepático (Avenaud et al.., 2000), colangite esclerosante primária e cirrose biliar primária (Nilsson et al., 2000), e também em doença coronariana (Danesh et al., 1999). Algumas espécies de Helicobacter foram isoladas do sangue de pacientes aidéticos (Weir et al., 1999). É estimado que metade da população mundial. esteja colonizada por este patógeno e que a maioria dela foi colonizada ainda na idade escolar (Asaka et al., 1992; Megraud,1993). A infecção pela bactéria tem correlação inversa com o padrão socioeconômico (Graham et al., 1991). Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, a colonização do estômago humano pelo H. pylori é disseminada (Valle e Bizinelli, 1993; Coelho et al., 1996; Souto et al., 1998). Muitos indivíduos colonizados permanecem assintomáticos. Introdução 8 O estômago constitui reservatório habitual da bactéria, e suas características permitem que ela habite o muco que recobre o epitélio gástrico, levando danos à mucosa gástrica. Sua sobrevivência na mucosa gástrica provavelmente resulta de sua forma e de sua natureza microaerófila. A forma espiralada ou helicoidal possibilita sua movimentação no ambiente mucoso e permite mover-se para longe do ambiente ácido. O dano é decorrente da adesão da bactéria à mucosa gástrica, constituindo importante fator de virulência. A adesividade é essencial à colonização e à indução de resposta inflamatória. A adesão impede que a bactéria seja eliminada durante o “turnover” celular, secreção de muco ou pela motilidade gástrica, permitindo ao Helicobacter direcionar suas toxinas diretamente às células epiteliais do hospedeiro. A sobrevida da bactéria nesse ambiente por décadas é devido à capacidade da mesma em não ser identificada pela resposta imunológica do hospedeiro. A forma exata pela qual ocorre a transmissão desta helicobacteriose é desconhecida. O isolamento de Hp em saliva, placa dentária e nas fezes reforça a hipótese de transmissão oro-oral ou oro-fecal. Alguns relatos mostram disseminação da bactéria por meio de equipamentos gastrointestinais contaminados (Langenberg et al., 1990; Williams, 1999). Experimentalmente conseguiu-se a transmissão do H. pylori em cães gnotobióticos para cães não infectados (Radin et al., 1990). Outras espécies de Helicobacter foram identificadas no ser humano. O Helicobacter heilmannii (Hh) foi associado à gastrite (Rodrigues et al., 1996; Honsova et al., 1999; Mention et al., 1999; Yamamoto et al., 1999; Cales et al., 2000; Svec et al., 2000) e ao linfoma MALT gástrico primário (Morgner et al., Introdução 9 2000a; Foschini et al., 1999). Nessa associação, a erradicação da bactéria resultou no desaparecimento do linfoma gástrico (Morgner et al., 2000a). A infecção por Hh em seres humanos é bem menos freqüente do que a verificada com o Hp, sendo possível a concomitância de infecção por ambas as espécies de bactérias (Rodrigues et al., 1996, Foschini et al., 1999). A contaminação do ser humano pelo Hh provavelmente deve-se ao contacto deste com o cão. Esse fato foi observado, tendo em vista a maior ocorrência desta espécie em helicobacterioses no homem que vive em zonas rurais em relação aos que habitam em centros urbanos, pelo fato de o cão ter contacto mais prolongado e duradouro com o homem da zona rural (Meining et al., 1998). A presença de organismos espiralados na mucosa gástrica do cão foi primeiramente reportada em 1881 (Rappin apud Hermanns, 1995). Em 1896, foram descritas três bactérias espiraladas nessa espécie, morfologicamente distintas (Salomon apud Happonnen et al., 1998). Atualmente, pelo menos 11 espécies foram isoladas em estômagos ou intestinos de mamíferos, incluindo o cão (Cover & Blaser, 1995; Jalava et al.,1997; Jalava et al., 2001). Por outro lado, não se conseguiram evidências de correlação entre a presença da bactéria na mucosa gástrica de cães e os sintomas digestivos apresentados por esses animais. Estudos de prevalência e incidência do Helicobacter em cães têm sido descritos em diversos países, revelando, em sua maioria, taxas de 95-100% (Weber et al., 1958; Lee et al.,1992; Lecoindre et al., 1995; Hermanns et al., 1995; Eaton et al., 1996; Happonen et al., 1996b; Happonen et al., 1998; Happonen et al., 2000; Peyrol et al.,1998; Mendes et al. 1999; Cattoli et al., 1999; Simpson et al., 2000; Hwang et al., 2002). Esses Introdução 10 estudos sugerem que o Helicobacter deve ser um dos componentes normais da flora gástrica do canino (Hermanns et al., 1995; Cattoli et al., 1999). A avaliação histológica do estômago de cães mostrou que o corpo e fundo, principalmente, são os locais de encontro da bactéria, sendo apontada no muco, nas criptas gástricas, nas glândulas gástricas e nas células parietais. O diagnóstico de gastrite leve a moderada é achado freqüente em cães sadios e naqueles com sintomas de doença gástrica, independente, do grau de colonização gástrica pela bactéria (Hermanns et al., 1995; Haziroglu at al., 1995; Cattoli et al., 1996; Eaton at al., 1996; Happonen et al., 1998; Peyrol et al., 1998; Cattoli et al., 1999; Simpson et al., 1999a). Do mesmo modo, a função secretória gástrica foi igual nos dois grupos de cães (Simpson et al., 1999b). A grande maioria da pesquisa sobre Helicobacter em cães foi realizada com animais sadios ou com doença digestiva, pertencentes a proprietários definidos ou de criadores de animais para laboratório, sendo que cães naturalmente infectados por Helicobacter pylori nunca foram documentados. A necessidade de treinamento técnico em animais de laboratório por grande parte de pesquisadores é uma realidade em nossos dias, tanto para novos procedimentos cirúrgicos quanto para a destreza a ser utilizada na prática clínica. Os cães, devido ao seu porte, são amplamente utilizados nas pesquisas experimentais. Os cães do Biotério Central do Campus de Botucatu são animais errantes, cuja alimentação e hábitos são desconhecidos pelos pesquisadores. Introdução 11 Levando-se em consideração esses aspectos, o presente estudo foi delineado no sentido de investigar se esses animais são naturalmente infectados por Helicobacter pylori........ Objetivos 12 OBJETIVOS O presente trabalho foi desenvolvido para investigar, em cães do Biotério Central do Campus de Botucatu, a freqüência de infecção por Helicobacter e a incidência da espécie H. pylori na mucosa gástrica e duodenal utilizando-se os seguintes métodos: 1. Teste rápido de urease 2. Teste imunocromotográfico 3. Análise histológica com método histoquímico. Materiais e Métodos 13 MATERIAIS E MÉTODOS 1. Animais Foram utilizados 109 cães sem raça definida, sendo 49 machos e 60 fêmeas, pesando em média 13 quilos, provenientes do Biotério Central do Campus de Botucatu da Universidade Estadual Paulista. Os animais foram capturados em várias cidades do Estado de São Paulo, e encaminhados ao Biotério Central da UNESP. Entre o 2º e o 10º dia da chegada ao Biotério, foram imunizados com vacina tríplice (cinomose, hepatite e leptospirose), vermifugados com solução injetável de ivermectina (0,004 μg/Kg) via subcutânea e Praziquantel oral (5mg/kg), sendo feito aplicação de Deltametrina pour on (dose total de 2mL/animal ), no dorso para controle de ectoparasitas. A partir do 11º dia da chegada ao Biotério, foram imunizados contra raiva sendo, a liberação para pesquisa após 25 dias da imunização anti-rábica. Os boxes utilizados no Biotério para o abrigo de animais são de alvenaria em toda a sua extensão, sendo lavados diariamente com água pressurizada, dão acesso ao solário e possuem um estrado de madeira, na parte destinada ao dormitório. A alimentação dos animais foi constituída de ração de manutenção para cães®. ® Nutriara Materiais e Métodos 14 2. Preparo do animal Na véspera do procedimento, os animais foram levados ao Laboratório de Cirurgia Experimental do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da FMB-UNESP, onde foram acondicionados em boxes individuais, recebendo alimentação até 14 horas e água até 3 horas anteriormente ao exame. 3. Seqüência das etapas experimentais 3.1. Anestesia 3.2. Coleta sanguínea 3.3. Coleta das amostras gástricas e duodenal. 3.4. Processamento do material. 3.5. Análise estatística Materiais e Métodos 15 4. Técnicas utilizadas 4.1. Anestesia O sistema venoso do cão foi acessado por punção da veia cefálica do membro dianteiro, com introdução de abocath nº 20, sendo mantida a perfusão com solução de cloreto de sódio 0,9% na velocidade de 20 gotas/minuto. A anestesia consistiu de injeção endovenosa de pentobarbital sódico 3% na dosagem de 30mg/kg. Após atingir o plano anestésico, caracterizado por movimentos respiratórios regulares e ausência de reflexos motores, foi iniciada a endoscopia ou a técnica cirúrgica programada. A manutenção da anestesia foi realizada com dose suplementar do anestésico, quando necessário. 4.2. Coleta de sangue Após a indução anestésica, foram retirados 10mL de sangue venoso do animal, por meio de punção da veia jugular, colocados em tubo de vidro sem anticoagulante, com a finalidade de analisar quantitativamente os anticorpos anti-Helicobacter pylori, por meio do teste sorológico H. pylori-One Step Teste. Materiais e Métodos 16 4.3. Coleta das amostras gástricas e duodenal Em 61 animais, as amostras gástricas foram coletadas por endoscopia e em 48 animais por meio da técnica aberta. As amostras, quando obtidas por via endoscópica, foram retiradas por aparelho de endoscopia Olympus, modelo GIF-XQ, com canal de biopsia de 2.0mm (Fig. 1). Com o auxílio da pinça de biopsia fenestrada oval (1,8mm)®, retiravam-se duas amostras na pequena curvatura do antro gástrico (A), duas na grande curvatura do fundo gástrico (B), duas na pequena curvatura do corpo gástrico (C) e duas no duodeno (D), as quais eram colocadas em papel de filtro com a serosa voltada para cima e imersas em solução tamponada de formaldeído a 10%. Era também retirada uma terceira amostra, no fundo gástrico (B), a qual era imediatamente colocada em solução- padrão de uréia a 10% e vermelho fenol. Após a retirada das amostras, os animais foram conduzidos para a sala de recuperação até completa reversão da anestesia, sendo recolocados nos boxes individuais do Laboratório de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental, para serem posteriormente utilizados em técnica cirúrgica com graduandos ou residentes do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP. As amostras gástricas coletadas pela técnica aberta foram obtidas de caninos utilizados em técnica cirúrgica, nos quais o trato digestivo não tivesse ® GIP Materiais e Métodos 17 sido utilizado e os animais permanecessem vivos ao término da técnica cirúrgica. Através desta técnica, o animal foi colocado em goteiras, em decúbito dorsal, e o estômago foi acessado por laparotomia mediana ampla, imediatamente após a eutanásia com superdosagem de anestésico. Procedia- se então à abertura do mesmo pela grande curvatura, com análise de toda a mucosa gástrica, sendo as amostras retiradas dos mesmos locais quando da utilização da via endoscópica (Fig. 2) Em ambas as técnicas de retirada das amostras gástricas e duodenal, todo o procedimento foi realizado com equipamentos de proteção individual como aventais, luvas e máscaras, para todos os membros da equipe (Fig. 3). A cada realização do procedimento, em ambas as técnicas, todo o material ficava imerso em solução de glutaraldeído a 10% por 30 minutos após limpeza. Materiais e Métodos 18 Figura 1., Equipamentos utilizados para realização da endoscopia: Endoscópio (En), fonte de luz (Fl) e pinça de biopsia (Pç) En Pç Fl Materiais e Métodos 19 Figura 2. Estômago aberto pela grande curvatura. Técnica de retirada das amostras, pela via aberta, utilizando-se o punch, tesoura e pinça anatômica, dos locais identificados: A – Amostras do antro; B – Amostras do fundo gástrico; C – Amostras do corpo gástrico, na pequena curvatura; D – Amostras do duodeno. A B B C D B A B B C D B Materiais e Métodos 20 Figura 3. . Método de coleta das amostras gástrica e duodenal pela via endoscópica. Observar equipamentos de proteção individual da equipe Materiais e Métodos 21 4.4. Processamento do material Após retirada do sangue do animal, procedeu-se à centrifugação do mesmo a 4.000 rpm durante 10 minutos, obtendo-se soro que era transferido para um tubo esterelizado. O dispositivo utilizado para análise qualitativa de anticorpos anti H. pylori é denominado kit H. pylori One Step Teste® (Fig. 4). Este teste sorológico utiliza a técnica imunocromatográfica, detectando anticorpo anti- Helicobacter pylori de todos os isotipos (IgG, IgM, IgA). O dispositivo imunocromatográfico contém conjugado de cor, corante, e antígenos de H. pylori imobilizados. O kit contém 25 dispositivos imunocromatográficos lacrados para análise de anticorpos, sendo que à abertura do kit era necessária a verificação de sua validade, utilizando-se as soluções controle positiva e negativa que acompanham o kit. O teste sorológico nos animais era realizado nos 23 dispositivos restantes. Assim, duas a três gotas da solução controle positiva, que contém anticorpos anti-H.pylori conservado em soro inativado ou da solução controle negativa, isenta de anticorpos anti-H.pylori, eram colocadas na janela S do dispositivo imunocromatográfico por meio da micropipeta que acompanha o kit (Fig. 5). A seguir, adicionava-se a mesma quantidade da solução tampão de extração, sendo esta composta por fosfato de sódio 0.01M, cloreto de sódio 0.14M, BSA a 0.2% e azida sódica a 0.1% . ®Inlab Diagnóstica - Alamar Tecno Científica Ltda. Materiais e Métodos 22 A formação de um complexo antígeno-anticorpo-corante, quando da utilização da solução-controle positiva, era visibilizado pelo aparecimento de uma faixa rósea na área T (teste) do dispositivo imunocromatográfico e a não formação desse complexo, quando da utilização da solução controle negativa, não desencadearia a formação da faixa rósea na área T (teste) do dispositivo imunocromatográfico. Por outro lado, com o uso de ambas as soluções, deveria ocorrer o aparecimento de uma faixa rósea na área C (controle) do dispositivo imunocromatográfico, que independe da presença de anticorpos, ocorrendo por uma reação imunoquímica. Essa faixa rósea na área C indica a validade do dispositivo (Fig. 5). O kit, mantido sob refrigeração, era retirado do refrigerador 15 minutos antes de sua utilização. Para a análise dos anticorpos circulantes, colocavam-se duas ou três gotas do soro de cada animal e a mesma quantidade da solução tampão de extração na janela S do dispositivo imunocromatográfico, deixando-se o mesmo à temperatura ambiente. A leitura da reação era realizada 10 minutos após a colocação do soro na placa do dispositivo. As amostras gástricas e duodenal colocadas em formaldeído 10% tamponado, após sua fixação, foram processadas para obtenção de cortes histológicos de quatro micra de espessura. Os cortes foram corados pelo método de Giemsa modificado. O corante Giemsa é um dos derivados do corante de Romanowsky, sendo constituído de uma mistura de eosinatos de azul de metileno, eosinato Materiais e Métodos 23 de violeta e azul de metileno, usualmente dissolvido em álcool metílico para fixação. A diferença entre os derivados e o corante original de Romanowsky deve-se à proporção em que se emprega o azul de metileno e a eosina, ou ao método de tratamento do azul de metileno antes de sua combinação com a eosina. A amostra gástrica colocada em solução de uréia a 10% com vermelho fenol foi destinada ao teste rápido da urease. A leitura de reação foi realizada em até quatro horas da imersão da amostra na solução. Esse teste da urease baseia-se na capacidade da bactéria em degradar a uréia em amônia, por esta possuir alta concentração da enzima urease. Assim, o meio de inoculação da amostra gástrica, de coloração alaranjada (composto de tampão fosfato 0,001 M/ pH 6,5, 2g de uréia/100mL do tampão, 50mg de fenol/100mL do tampão e 20mg de azida de sódio/100mL do tampão em pH ajustado para 4.5), assumia-se uma tonalidade arroxeada quando da presença da bactéria, pela mudança do pH ácido da solução para pH alcalino (Fig. 6). Materiais e Métodos 24 Figura 4. Kit H. pylori One Step: A) Dispositivo imunocromatográfico lacrado; B) Solução controle negativa; C) Solução controle positiva; D) Solução tampão de extração; E) Micropipeta. B C D EAAB C D E BA C D Materiais e Métodos 25 Figura. 5. Verificação da validade do Kit H. pylori One Step Teste: A) Negativa: presença da faixa rósea na região C do dispositivo. B) Positiva: presença das faixas róseas nas regiões C e T do dispositivo. - + A B S S Área C Janela S Área T Área C Janela S Área T Materiais e Métodos 26 Figura 6. Teste rápido de urease. Teste positivo no animal 89, observado pela mudança da coloração alaranjada do meio de inoculação para coloração arroxeada. 89 Materiais e Métodos 27 4.5. Análise Estatística O estudo do peso dos animais, considerando o total de caninos ou a distribuição por sexo, foi realizado por meio de medidas descritivas envolvendo posição e variabilidade. Para o teste rápido da urease e para o estudo histopatológico com a coloração Giemsa nas três regiões gástricas e no duodeno, utilizou-se o limite de 95% de significância. Os dados obtidos das reações sorológicas foram submetidos ao teste do Quiquadrado a 5% de probabilidade e teste exato de Fisher. A análise descritiva das regiões gástricas (antro, corpo e fundo) e duodeno em relação à presença da bactéria, é descrita pela freqüência absoluta e seu percentual, bem como pelo intervalo de confiança a 95% do porcentual de positividade (limite inferior e superior). Com relação à presença, concomitante ou não, de bactérias nas três regiões gástricas e duodeno, os resultados foram apresentados pela distribuição de freqüência das ocorrências em zero, um, dois, três e quatro regiões concomitantemente. Todos os procedimentos descritivos e de estimação utilizados no presente trabalho podem ser encontrados em Campana et al.(2001). Resultados 28 Resultados A tabela 1 mostra a distribuição dos caninos segundo o sexo. Na tabela 2, estão as medidas descritivas do peso dos cães. Tabela 1. Freqüência absoluta e relativa dos cães segundo sexo: Freqüência Sexo Absoluta Relativa (%) Macho 49 44,95 Fêmea 60 55,05 Total 109 100,00 Tabela 2. Medidas descritivas para o peso (kg) de cães estudados segundo o sexo: Descrição Macho Fêmea Total. Número Peso 49 60 109 Valor mínimo 6,0 6,0 6,0 Valor máximo 27,0 20,0 27,0 1º. Quartil 10,0 10,0 10,0 3º. Quartil 16,5 15,0 16,0 Mediana 12,0 13,0 13,0 Média e D.P. 13,3 ± 4,9 12,7 ± 3,9 13,0 ± 4,4 Estatística: p<0,05 Resultados 29 Nas tabelas 3 e 4, respectivamente, estão relacionados o número de animais, distribuídos pelo sexo, com resultado positivo para o teste rápido da urease e da detecção da bactéria pelo exame histopatológico, assim como a porcentagem correspondente ao número total dos animais utilizados. Tabela 3. Distribuição dos animais pelo sexo, com resultado positivo para o teste rápido da urease, com a porcentagem correspondente ao total de animais utilizados. Sexo Animais positivos Porcentagem Animais utilizados Macho 48 97,96 49 Fêmea 60 100,00 60 Total. geral 108 99,08 109 Tabela 4. Distribuição dos animais pelo sexo, com resultado positivo para a coloração pelo método Giemsa, com a porcentagem correspondente ao total de animais utilizados. Sexo Animais positivos Porcentagem Animais utilizados Macho 48 97,96 49 Fêmea 60 100,00 60 Total geral 108 99,08 109 Resultados 30 Na tabela 5 estão distribuídos os animais machos e fêmeas, com a porcentagem correspondente em cada sexo e em relação ao total de animais positivos para detecção do Helicobater pylori pelo teste imunocromatográfico. Tabela 5. Detecção do Helicobater pylori pelo teste imunocromatográfico em cães machos e fêmeas, com a porcentagem correspondente em cada sexo ao total de animais. Sexo H. pylori Porcentagem Animais utilizados Macho 42 85,71 49 Fêmea 44 73,33 60 Total geral. 86 78,89 109 χ2=2,48 ; 0,05