119 I SSN 1809-5208 ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO DO TRABALHO DE ALUNOS DO MEIO RURAL ATRAVÉS DO USO DE MÍDIAS VIRTUAIS STUDY OF REPRESENTATIONS OF THE WORLD OF WORK OF STUDENTS IN RURAL AREAS THROUGH THE USE OF VIRTUAL MEDIA Fábio Fernandes Villela 1 (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho) p. 119-132 Vol.8 nº 15 jan./jun. 2013 Revista de Educação 1 Doutorado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas. Professor Titular da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. RESUMO : Este texto tem por objetivo apresentar as representações do mundo do trabalho dos alunos do Ensino Médio, da Escola Estadual Prof. Dr. João Deoclécio da Silva Ramos, Distrito de Talhado, São José do Rio Preto (SP), através do uso de mídias virtuais, especificamente o Blog de Aula - Mutirão de Sociologia (www.mutiraodesociologia.com.br). Compreender as representações de mundo trabalho possibilita aos alunos pensar em uma profissão a qual se identifiquem, além de estimular a reflexão enquanto futuros profissionais. As mídias virtuais, especialmente os blogs, possibilitam aos alunos expressar seus modos de viver e pensar o mundo do trabalho. No contexto da cidade de Rio Preto, é especialmente relevante aquelas representações do mundo do trabalho rural, de modo que este projeto vem a colaborar na elaboração de pesquisas interessadas na descrição e compreensão de processos que envolvem relações entre trabalho, educação e mundo rural. PALAVRAS-CHAVE: Mundo do Trabalho; Sociologia da Educação; Educação do Campo; Novas Tecnologias; Mídias Virtuais. ABSTRACT: This paper aims to present the representations of the working world of high school students, the State School Prof. Dr. João Deoclécio da Silva Ramos, Distrito de Talhado, São José do Rio Preto (SP), through the use of virtual media, specifically the Blog de Aula – Mutirão de Sociologia (www.mutiraodesociologia.com.br). Understanding the representations of the world work enables students to think of a profession which identify themselves, and stimulate reflection as future professionals. The virtual media, especially blogs, allow students to express their ways of living and thinking the world of work. In the context of the city of Rio Preto, is especially relevant I SSN 1809-5208 120 INTRODUÇÃO Este trabalho nasceu da necessidade de compreender as crianças e adolescentes das escolas do meio rural e visa estudar as representações do trabalho desses alunos através do uso de mídias virtuais. Esses alunos de escolas rurais vivem o dilema da “rurbanização”: existe cada vez mais uma falta de diferenciação entre o que se aprende nas instituições de ensino do campo e da cidade, para Fiod (2000), A vida no campo não constitui mais fruto de uma especificidade denominada espaço rural. Portanto, o que a criança aprende na escola do campo não difere essencialmente daquilo que aprendem as crianças urbanas, pois o que lhe dá vida e a faz emergir no Brasil é o trabalho coletivo, seu princípio educativo. Nenhuma sociedade pode prescindir desse atributo social, dessa condição que a diferencia de sociedades e de outras épocas. (FIOD, 2000, p. 43). Diante da busca por reencontrar uma identidade, se faz necessário dar aos alunos uma oportunidade de refazerem seus conceitos. No caso desse trabalho, busca-se identificar quais as representações do mundo do trabalho para as crianças do campo, já que o trabalho sempre teve vital importância no contexto rural, pois era uma atividade exercida entre familiares: a chamada agricultura familiar. Já na escola rural, há alguns problemas que são típicos de instituições campesinas, um deles são os graves problemas financeiros causados pelo isolamento do poder central, é que “ainda que sob uma retórica de preocupação com as questões sociais e culturais, são os factores administrativos e financeiros” (SILVA, 2000, p. 41) que mais preocupam os administradores dessas instituições. Grande parte desse abandono das escolas do meio rural se deve ao “isolamento geográfico, social e cultural das zonas rurais, as perdas demográficas, a ausência de perspectivas de emprego [...]” (SILVA, 2000, p. 39). Tudo colabora para a “periferização do meio rural” que “não é um problema de fácil resolução, pois não se trata de um simples problema econômico ou de um simples problema pedagógico, mas sim da existência de agrupamentos humanos que tanto podem chamar-se aldeias ou bairros periféricos de uma cidade” (SILVA, 2000, p. 41). O resultado de todos esses problemas supracitados cria alunos de meio rural sem expectativas para seu futuro, não há oportunidade de continuar seus estudos em sua região, nem opções de emprego para se manter estabelecidos junto à família. Essa falta de expectativas faz com que os alunos sequer cogitem ir a uma faculdade ou a um curso these representations of the world’s rural work, so this project is to collaborate in the development of research concerned with the description and understanding of processes that involve relationships between work, education and rural. KEYWORDS: World of Work, Sociology of Education, Rural Education, New Technologies, Virtual Media. Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO... 121 I SSN 1809-5208 técnico. Discutir as representações de trabalho com esses alunos é fazê-los pensar em uma profissão em que se identifiquem criando uma alternativa para levá-los à reflexão sobre sua situação enquanto aluno de escola rural. Para interagir com os alunos e recolher o corpus da pesquisa, este projeto utiliza a metodologia de blog, um web site freqüentemente atualizado, por meio do qual os conteúdos aparecem em ordem cronológica inversa. Podem conter textos, imagens, áudios, vídeos e animações. Esta metodologia possibilita a disseminação do conhecimento produzido pela universidade na internet. A comunidade se relaciona através dos conteúdos possibilitando a transmissão de informação, fazendo da web um espaço de leitura, escrita, participação e reflexão. Através do blog utilizado (Mutirão de Sociologia: www.mutiraodesociologia.com.br), os alunos da escola pública Prof. Dr. João Deoclésio da Silva Ramos, situada no distrito de Talhado, em São José do Rio Preto (SP), doravante Rio Preto, são convidados a exporem suas opiniões sobre tudo que estiver relacionado com a aula: o trabalho, a disciplina, o professor, a escola, seus interesses, suas expectativas em relação à escola e ao seu mundo. Isso é feito depois de ser realizada uma exposição da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias, especificamente no que diz respeito à articulação com o mundo do trabalho rural no distrito de Talhado, conforme a “Proposta São Paulo faz Escola” (SEE-SP, 2011). A escola onde o projeto se desenvolve foi a instituição escolhida para ser o universo de pesquisa, pois trata-se de uma escola isolada de seu centro administrativo, sendo um distrito não é nem uma cidade e, portanto, não tem independência, nem um bairro, pois é dependente administrativamente, mas está distante do seu centro. Os comentários dos alunos postados no referido blog constituem o corpus da pesquisa e serão submetidos à análise qualitativa. Esta análise visa identificar os comentários acerca das expectativas e dos modelos das crianças do meio rural sobre as profissões, ou seja, qual a representação do trabalho para esse tipo de aluno. 1. Problematização Histórico-Teórica do Tema: a Educação do Campo Historicamente, a ideia de educação do campo foi estabelecida como precária, atrasada, com pouca qualidade e poucos recursos. O universo em questão, o espaço rural, era visto como inferior e arcaico. Não existia uma pedagogia diferenciada e os planos para os alunos do campo foram pensados e elaborados sem seus sujeitos, sem sua participação, mas como ideias prontas para eles. Segundo Baptista (2003), A educação rural nunca foi alvo de interesse dos governantes, ficando sempre relegada ao segundo ou terceiro plano, ‘apêndice’ da educação urbana. Foi e é uma educação que se limita à transmissão dos conhecimentos já elaborados e levados aos alunos da zona rural com a mesma metodologia usada nas escolas da cidade. (BAPTISTA, 2003, 20-21). Dessa forma, podemos afirmar que o único objetivo da educação rural era criar mão-de-obra barata para os latifundiários, conforme relatado das Diretrizes Operacionais para Educação Básica das Escolas do Campo, segundo Soares (2002): Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L Fábio Fernandes Villela I SSN 1809-5208 122 A perspectiva salvacionista dos patronatos prestava-se muito bem ao controle que as elites pretendiam exercer sobre os trabalhadores diante de suas ameaças: quebra da harmonia e da ordem nas cidades e baixa produtividade no campo. De fato, a tarefa educativa destas instituições unia interesses nem sempre aliados, particularmente os setores agrário e industrial, na tarefa educativa de salvar e regenerar os trabalhadores, eliminando, à luz do modelo de cidadão sintonizado com a manutenção da ordem vigente, os vícios que poluíam suas almas. Esse entendimento, como se vê, associava educação e trabalho, e encarava este como purificação e disciplina, superando a idéia original que o considerava uma atividade degradante. (SOARES, 2002, p. 54). A escola rural não oferece a seus alunos um ensino em que eles se reconheçam como cidadãos do campo; é fora da realidade imaginar que todas as instituições de ensino devem ter as mesmas disciplinas, mesma carga horária e mesma visão de mundo. A realidade das crianças do campo é diferente da criança do meio urbano e é dever da escola saber quais são suas necessidades mais específicas. Em um estudo sobre a educação rural, Calazans (1993) afirma que “é essencial destacar que as classes dominantes brasileiras, especialmente, as que vivem do campo, sempre demonstraram desconsiderar o papel fundamental da educação para a classe trabalhadora”. 2. Problematização do Tema: as Representações do Mundo do Trabalho Rural O trabalho educativo, segundo Almeida (2001), potencializa transformações nas representações sociais dos alunos possibilitando-lhe alcançar outro patamar do saber mediato. Potencializar significa relativizar a ação educativa escolar, entendendo-a articulada a outras ações educativas que compõem o mundo natural e humano social, implicando a transformação de um pensamento linear. As representações sociais dos alunos em relação a determinado saber são o ponto de partida (saber imediato) e as sínteses cognitivas, elaboradas pelos alunos, o ponto de chegada (saber mediato). Para Almeida (2001), as contradições desses termos provocam tensões nas representações do aluno (saber imediato), que podem gerar a superação do imediato no mediato pretendido, possibilitando, assim, a elaboração de sínteses, a aprendizagem. Novas relações pedagógicas têm como ponto de partida as representações sociais imediatas dos alunos em relação a determinado saber e, como ponto de chegada, a superação do imediato no mediato. O conceito de representações sociais, segundo Almeida (2001, p. 151), está assentado numa visão ontológica, onde as representações se prestam à manutenção das relações sociais vigentes e são tanto mais eficientes no desempenho desta atribuição quanto maior for a sua aparente criticidade. As representações são, na verdade, ideologia dominante, apresentam ideias que não expressam o real e, sim, a aparência social, uma imagem das coisas, dos homens. O autor trabalha o conceito de representação como uma distorção da realidade. Outro autor que trabalha o conceito de representação é Vala (1986). Para o autor, uma representação social compreende, Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO... 123 I SSN 1809-5208 [...] um sistema de valores, de noções e de práticas relativas a objetos sociais, permitindo a estabilização do quadro de vida dos grupos, constituindo um instrumento de orientação da percepção e de elaboração das respostas, e contribuindo para a comunicação dos membros de um grupo ou de uma comunidade. (VALA, 1986, p. 5). Retomando Silva (2006, p. 55), o autor afirma que “[...] as representações sociais incidem sobre objetos sociais relevantes e contribuem para a integração dos indivíduos na sociedade ao concorrerem para a compreensão da realidade”. Discutir as representações de trabalho nos alunos é fazê-los pensar em uma profissão em que se identifiquem, criando uma alternativa para combater, ou pelo menos levá-los à reflexão sobre sua situação enquanto futuros profissionais. Para que compreendam a realidade, é necessário que falem da realidade: da realidade em que vivem e da que gostariam de viver. Na realidade, pensar sobre as profissões, para um adolescente, é refletir sobre o que gostaria de ser quando adulto, talvez oportunidade única para que possa fazer isso. As representações são sociais, segundo Silva (2006) “estão ancoradas, a montante, nos valores sociais que lhes dão sentido”, em suma, “as representações sociais formam- se na e para a interação social” e “são influenciadas pela dispersão da informação necessária à sua constituição, pela focalização dos indivíduos e dos grupos em determinados aspectos do meio e pela pressão para a interferência ou, dito de outra forma, para a sua aplicabilidade” (2006, p. 56 - 57). É através da interação intergrupal que o adolescente vai formar um conceito sobre determinada profissão ou trabalho, o sentido do trabalho, segundo Silva (2006), é puramente social. Como um ser social, o adolescente vai atribuir determinado valor a uma profissão pelas pessoas que conhece e que exercem aquela profissão ou que realizam certo trabalho. Seja o trabalho de seus pais, amigos ou de pessoas da qual tem admiração. Dessa forma, é possível ajudar ao adolescente, dizendo como ela deve proceder, se quiser realmente ter a profissão escolhida, motivando-a e elevando sua autoestima. 3. Metodologia de Pesquisa e Estratégias de Desenvolvimento da Investigação A pesquisa em questão, contou com o apoio da chefia do Departamento de Educação, bem como da Direção da UNESP de Rio Preto, onde se desenvolveu a pesquisa. No que diz respeito aos aspectos de infraestrutura, recebeu verba do programa “Primeiros Projetos” da PROPE – Pró-Reitoria de Pesquisa da Unesp, através do projeto intitulado: “A Formação de Intelectuais e a Organização do Trabalho Pedagógico nas Escolas do Campo” (2010-2011), e também da PROEX – Pró-Reitoria de Extensão da Unesp, através do projeto “Blog de Aula – Mutirão de Sociologia” (2011). Este projeto utilizou: (1) O Laboratório de Informática da Escola Estadual Prof. Dr. João Deoclécio da Silva Ramos, Distrito de Talhado, de Rio Preto – SP (Programa “Acessa São Paulo” do Governo do Estado de São Paulo) e; (2) O Blog de Aula - Mutirão de Sociologia (www.mutiraodesociologia.com.br), do orientador deste projeto, onde os alunos inserem comentários pertinentes ao um conteúdo exposto em uma oficina. O Blog Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L Fábio Fernandes Villela I SSN 1809-5208 124 de Aula - Mutirão de Sociologia foi elaborando a partir de diversas questões desenvolvidas em: Villela (2003), Villela (2008) e Villela (2009), tais como as relações entre as Novas Tecnologias, a Inteligência Coletiva e a Educação. O Mutirão de Sociologia foi criado em 2010 como recurso didático e ferramenta no ensino e pesquisa de sociologia para formação dos alunos do curso de pedagogia da Unesp de Rio Preto, e estendido, posteriormente, para escolas estaduais que manifestaram interesse em desenvolver tópicos da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias (Cf. Villela, 2011). Esse projeto utiliza a metodologia de blog, conforme exposto de início, que é um website frequentemente atualizado, por meio do qual os conteúdos aparecem em ordem cronológica inversa. Podem conter textos, imagens, áudios, vídeos e animações. Essa metodologia possibilita a disseminação do conhecimento produzido pela universidade na internet. A comunidade se relaciona através dos conteúdos possibilitando o ensino, a pesquisa e a transmissão de informação, fazendo da web um espaço de leitura, escrita, participação, pesquisa e reflexão. Este trabalho utilizou métodos qualitativos do tipo “análise de conteúdo”, conforme Babbie (2005, p. 70), como estratégia de desenvolvimento da investigação. O material para “análise de conteúdo” foi desenvolvido através da realização de oficinas de tópicos da área de Ciências Humanas e suas Tecnologias especificamente no que diz respeito à articulação com o mundo do trabalho rural, conforme proposta curricular “São Paulo faz Escola” (SEE-SP, 2011). Depois da referida oficina, os alunos foram convidados a postar suas opiniões sobre tudo que estivesse relacionado com a aula: o trabalho, a disciplina, o professor, a escola, seus interesses, suas expectativas em relação à escola e ao seu mundo no Blog de Aula – Mutirão de Sociologia. Estes comentários constituem o corpus da pesquisa e foi submetido à investigação qualitativa do tipo “análise de conteúdo”. Essa análise visa a identificar os comentários acerca das expectativas e dos modelos dos adolescentes sobre as profissões, ou seja, qual a representação do trabalho para esse tipo de aluno “e também compreender a influencia dos diferentes contextos na sua construção, apreensão e produção”. (SILVA, 2006, p. 63). Conforme as considerações de Silva (2006), [...] a investigação com crianças não exige a utilização de métodos e/ou técnicas específicas, mas que os investigadores sejam inovadores nas suas metodologias e sensíveis aos quotidianos infantis, pois analisando as atividades desenvolvidas pelas crianças nos contextos em que interagem, os investigadores poderão traçar um perfil sociológico da infância enquanto grupo social a das crianças enquanto sujeitos. (Silva, 2006, p. 64). Este projeto utiliza-se como metodologia as novas tecnologias aplicadas à educação. A expressão “Novas Tecnologias”, segundo Holzmann da Silva (1997, p. 169), é um termo genérico que vem sendo utilizado para designar a automação de base microeletrônica introduzida na indústria, nos serviços e na educação. Alguns autores têm travado um intenso debate com relação às “Novas Tecnologias” e esse debate tem girado em torno desse processo de automação e de suas implicações sobre o ser humano (Cf. VILLELA, 2008). Um exemplo de “Novas Tecnologias” é o advento da internet, Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO... 125 I SSN 1809-5208 também chamado de “ciberespaço”, alterando profundamente as relações entre os sujeitos e possibilitando o surgimento de novos “Modos de Socialização” (Cf. Villela 2008). Com relação à educação, segundo Kenski (2007), o termo “tecnologias” tem sido muito empregado em educação, com os mais diversos sentidos e significados. A autora mostra que as relações sempre existiram entre esses dois campos do conhecimento: a “educação e as tecnologias”. Dessa forma, aponta as diversas possibilidades de se fazer educação mediada pelas mais novas tecnologias digitais. Kenski (2007) apresenta a longa história de relacionamentos e possibilidades entre os vários tempos da sociedade, os avanços tecnológicos sucessivos e os seus reflexos na educação. Dentre os diversos autores têm realizado teorizações em torno da questão da “Inteligência Coletiva” cabe destacar, por exemplo Lévy (2001, 1999 e 1998). Gostaríamos de ressaltar que a questão da “Inteligência Coletiva”, no sentido apontado por Cavalcanti e Nepomuceno (2007, p. 34), não é uma novidade, pois discussões e tomadas de decisão em grupo sempre estiveram presentes na sociedade humana, por exemplo, nas reuniões na ágora ateniense, nas assembleias de sindicatos, nas reuniões de negócio, etc., e nos dias de hoje na internet. Para Lévy (1998, p. 29), “Inteligência Coletiva” é “uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências, sendo sua base e objetivo o reconhecimento e o enriquecimento mútuos das pessoas”. Uma interessante retomada desse debate pode observada em Villela (2008). Levando em consideração essa perspectiva, qualquer proposta sobre sistemas de educação e de formação docente deve levar em consideração as relações entre as Novas Tecnologias e o Intelecto Coletivo. Nesse sentido, desenvolvemos o Blog de Aula - Mutirão de Sociologia. O blog de aula é um website, frequentemente atualizado, por meio do qual os conteúdos aparecem em ordem cronológica inversa. Podem conter textos, imagens, áudios, vídeos e animações. Os blogs são um fenômeno de grande difusão na internet, porque permitem, de maneira fácil e rápida, que qualquer pessoa publique em um espaço próprio suas ideias e as compartilhe com outras pessoas na rede. O fenômeno dos blogs tem influenciado usos e costumes dos internautas. O formato blog se generalizou como meio de micro publicação, espaço pessoal, profissional ou grupal. Os blogs fazem parte das “novas mídias sociais”. As “mídias sociais” precedem a internet e as ferramentas tecnológicas. Trata-se da produção de conteúdos de forma descentralizada e sem o controle de grandes grupos. As “ferramentas de mídias sociais” são sistemas online projetados para permitir a interação social a partir do compartilhamento e da criação colaborativa de informação nos mais diversos formatos. Eles possibilitaram a publicação de conteúdos por qualquer pessoa, sendo que antes essa atividade se restringia a grandes grupos econômicos. Elas abrangem diversas atividades que integram tecnologia, interação social, escrita, fotos, vídeos, áudios, etc. O trabalho docente não fica à margem da influência dos blogs como ferramenta de ensino e pesquisa. Sua flexibilidade os faz adaptáveis a qualquer matéria, disciplina e nível educativo. Suas relações com outros formatos e aplicações na rede, o faz parte integrante do que se denomina “ecossistema da rede”. Os professores se encontram hoje Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L Fábio Fernandes Villela I SSN 1809-5208 126 diante de uma nova geração que nasceu e cresceu com a internet, e mesmo para alunos de escola rural, e que requer novos enfoques educativos (Cf. EDUCASTUR, 2010). O Mutirão de Sociologia tem possibilitado desenvolver uma metodologia que permite integrar as ferramentas das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), por meio do uso do blog de aula como parte das atividades de ensino-aprendizagem, conforme as sugestões do estudo “O uso do computador e da internet na escola pública” do Laboratório de Sistemas Integráveis da USP (LSI-TEC, 2009) e do projeto “A informática e o ensino de matemática” desenvolvido na Unesp – SJRP-SP (Cf. FANTI, 2009). Além de sistematizar os principais problemas dos adolescentes que foram identificados através dos hipertextos dos alunos, possibilita vislumbrar meios de aprimoramento das atividades de formação de professores, a partir do diálogo a ser feito com os professores e alunos participantes do projeto. Enquanto recurso didático e ferramenta no ensino e pesquisa de sociologia, o blog possibilita a troca de ideias, definida pela participação e aportes dos usuários mediante comentários aos distintos artigos e conteúdos, fomentando o debate, a discussão e o uso responsável da web. A vertente interativa é uma das mais atrativas do ponto de vista educativo, sobretudo, pela visão mediadora da aprendizagem. Incentiva o trabalho cooperativo, através da gestão compartilhada do blog de aula. Isso unido à possibilidade de acesso de qualquer lugar, e a qualquer hora, abre grandes possibilidades de trabalho cooperativo. Qualquer pessoa em qualquer momento e lugar pode colaborar postando textos no blog. O Blog de Aula Mutirão de Sociologia tem articulado diversas propostas já desenvolvidas no Departamento de Educação do Ibilce-Unesp, especialmente a intitulada “Cidade Educadora” (Cf. GADOTTI et al., 2004), por meio do qual desenvolvemos a ideia da cidade como espaço de cultura educando, promovendo e desenvolvendo o protagonismo de todos. Com isso, podemos vislumbrar soluções para as demandas sociais e as ações de políticas públicas mais eficientes e eficazes, para o Ensino Médio. 4. Resultados Em geral, somente algumas postagens se referiam às representações do mundo do trabalho rural. Todo o material pertinente ou não às representações do mundo do trabalho rural foi armazenado em CD-ROM e analisado posteriormente. A seguir, destacamos algumas postagens. Pelas postagens coletadas das crianças, podemos notar que o dia a dia do campo está presente nas suas representações do trabalho. Apesar dos muitos erros gramaticais de seus textos, podemos compreender algumas questões sobre a visão que essas crianças possuem do mundo do trabalho que as cerca. Elas têm a exata noção das mudanças que ocorreram no trabalho do campo em outras épocas comparado com os dias de hoje. Conferir a postagem no Quadro 1. Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO... 127 I SSN 1809-5208 Em outras postagens, por exemplo, a estudante “T” diz que (transcrição da postagem sem correção da grafia): “naquele tempo usava -se animais para trabalhar e hoje que nos percebemos o quanto mudou naquele tempo [...], como era difícil devido as condições e até crianças e adolescentes trabalhando para sustentar suas famílias. E hoje nos temos a tecnologias os automóveis as pessoas tem mais conforto com a moradia e vários outros”. Nota-se que o trabalho infantil é visto como uma necessidade inerente ao período em que a tecnologia modernizou o trabalho rural, dando mais conforto e qualidade ao trabalhador e à sua família. Já para o aluno “D”, a questão está na urbanização, que teve como consequência a imigração de mão-de-obra para as áreas urbanas ocorrendo uma deteriorização dos costumes da zona rural: “A história conta que Talhado antigamente era muito diferente de hoje, não tinha asfalto nas ruas, na época tinha o 3º CARTÓRIO. Na década de 70 as pessoas iam na igreja SÃO SEBASTIÃO nos bailes da vila TALHADO……Co o passar do tempo as coisas foram mudando ……chegaram novas pessoas aqui em Talhado e com isso os costumes foram se apagando na vida das pessoas. E com isso costumes novos foram chegando, as pessoas não trabalhava mais nas roças e iam paras grandes cidades …….Com a chegada das pessoas novas foram entrando as DROGA”. As drogas tornaram-se uma realidade para alguns adolescentes da cidade que, sem opções de trabalho, tornaram-se pequenos traficantes. Confira o Quadro 2 com a postagem completa abaixo. Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L Fábio Fernandes Villela I SSN 1809-5208 128 O trabalho do chamado “peão” ou “boiadeiro” é certamente, no imaginário das crianças, a profissão que mais simboliza o trabalho no campo, sendo até uma meta que alguns alunos almejam para seu futuro, por isso diversas crianças citaram o “boiadeiro” como uma espécie de “mito” do antigo mundo rural, pois foi substituído por meios de transporte mais modernos que carregam toda a boiada. É visto como o símbolo da liberdade do homem do campo, já que seu serviço consistia exatamente em realizar longas jornadas entre as cidades, carregando a boiada entre uma fazenda e outra. Confira as postagens completas no Quadro 3 abaixo. Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L ESTUDO DAS REPRESENTAÇÕES DO MUNDO... 129 I SSN 1809-5208 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como conclusão, podemos afirmar que, no imaginário da criança do campo, o trabalho está intimamente ligado com as práticas do cotidiano e com a vida familiar, conforme diz Corsaro e Molinari (2005), “[...] as representações sociais das crianças não surgem do pensamento simples sobre a vida social, mas sim através das suas actividades colectivas práticas com outros”. É no cotidiano familiar e social que o aluno tece suas considerações sobre o mundo do trabalho, influenciada pelos familiares e demais conhecidos, seu conceito sobre trabalho baseia-se na visão da realidade que o cerca. Ela consegue comparar as diferentes condições de trabalho da mesma profissão, ao observar filmes ou documentários, consegue perceber a deteriorização não apenas do trabalho, mas das condições de vida que lhe foram impostas. Enfim, acreditamos que uma das questões centrais das práticas educativas, conforme apresentada por Zabala (1999 e 1998), está sendo reelaborada neste trabalho, qual seja, a formação de novos valores e atitudes em âmbito individual e coletivo e da valorização da escola como espaço privilegiado (embora não o único), de formação de crianças e jovens. Formação do homem concebido como ser natural e objetivo, que se autocria e se forma no decorrer da história mediante a atividade de objetivação- apropriação, mecanismo que assegura a “mediação” entre o indivíduo e a história da humanidade, e que “humaniza os sentidos do homem, forma a subjetividade histórica e social”. (Cf. DUARTE, 1993). A tentativa deste trabalho é consolidar uma escola diferenciada e de qualidade, protagonizada e gerida pelos próprios sujeitos, a partir da formação de professores especializados e do estabelecimento de um currículo diferenciado. Os alunos universitários participantes do projeto, ao longo do período de sua formação em Pedagogia, na UNESP de Rio Preto, têm a oportunidade de receber uma formação específica, mantendo um diálogo constante com as “Escolas do Campo” e capacitando-se para desenvolver uma relação de ensino-aprendizagem em uma perspectiva diferenciada. Esses alunos universitários participantes do projeto fazem estágio na escola pública, ajudando na formação escolar básica das crianças e adolescentes, através de uma visão crítica da sociedade envolvente, procurando contribuir com subsídios para que exerçam seus direitos de cidadania. Este trabalho de formação de professores visa formar educadores para trabalhar nas escolas rurais e aumentar o tempo de escolaridade das pessoas que Vol. 8 nº 15 Jan/jun 2013. p. 119-132 U N I O E S T E C A M P U S D E CAS C AVE L Fábio Fernandes Villela I SSN 1809-5208 130 vivem no campo. REFERÊNCIAS ALMEIDA, J.L.V. de. Tá na rua: representações dos educadores de rua . 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