Rev. Bras. Frutic., Jaboticabal - SP, v. 37, n. 3, p. 600-609, Setembro 2015 600 DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DO BICHO-FURÃO, Gymnandrosoma aurantiana (LImA, 1927) (LEPIDOPTERA: TORTRICIDAE), Em CITROS UTILIZANDO GEOESTATÍSTICA1 João HenRique Silva CaRvalHo2, JoSé CaRloS BaRBoSa3, PedRo Takao YamamoTo4, izaBela Bezzon BiCalHo5 RESUmO – o bicho-furão, Gymnandrosoma aurantiana (lima, 1927), é uma das principais pragas da citricultura brasileira, pois os frutos atacados pelas lagartas tornam-se inviáveis para o consumo in natura e processamento industrial. objetivou-se estudar a distribuição espacial dos danos causados por G. aurantiana utilizando geoestatística. Para tanto, foi conduzido um experimento em um pomar de laranjeira-doce da variedade ‘valência’, enxertado sobre limoeiro ‘Cravo’, localizado em Taquaritinga-SP, Brasil. a área foi dividida em 88 parcelas, sendo cada parcela formada por 30 plantas dispostas em três linhas de 10 plantas, e em seguida foi obtido o número de frutos atacados para os anos de 2007 e 2008. a distribuição dos frutos atacados pela praga foi agregada ao longo das avaliações, com variância maior que a média para todas as amostragens. os dados apresentaram ajuste adequado segundo o modelo esférico, e o alcance da dependência espacial (a) variou entre 40,66 e 135,40 m. a estimativa de frutos atacados nas áreas não amostradas foi obtida pela krigagem, e os principais focos da praga foram observados nas parcelas próximas aos limites da área experimental. Termos para indexação: krigagem, mariposa, reboleira, semivariograma. SPATIAL DISTRIBUTION OF CITRUS FRUIT BORER, Gymnandrosoma aurantiana (LImA, 1927) (LEPIDOPTERA: TORTRICIDAE), ON CITRUS By USING GEOSTATISTICS ABSTRACT – The citrus fruit borer, Gymnandrosoma aurantiana (lima, 1927), is one of the most important pests of citrus in Brazil, mainly because the larvae render the fruit useless for both fresh consumption and industrial processing. it was aimed to study the spatial distribution of fruits attacked by G. aurantiana using geostatistics. Thus, an experiment was carried out in a ‘valencia’ sweet orange orchard, located in the municipality of Taquaritinga, state of São Paulo, Brazil. The experimental area was divided into 88 sampling units, consisting of 30 plants (three rows x ten plants), and then it was recorded the number of fruits attacked by G. aurantiana in 2007 and 2008. The spatial distribution of attacked fruits was aggregated for both sampling periods, and the variance was greater than the mean for all samplings. The data showed proper adjustment to the spherical model, and the range of spatial dependence (a) varied from 40.66 to 135.40 m. kriging was used in order to estimate the attacked fruits at not sampled sites, and it was shown that the damage was mainly done at the sampling units that were near the border of the experimental field. Index terms: clumped pattern, kriging, moth, semivariogram. http://dx.doi.org/10.1590/0100-2945-114/14 1(Trabalho 114-14). Recebido em: 28-03-2014. aceito para publicação em : 14-04-2014. 2uneSP/FCav - mestrando - Produção vegetal. joaohenriquecarvalhoo@gmail.com 3uneSP/FCav - docente do depto. de Ciências exatas. Bolsista de produtividade em pesquisa do CnPq. jcbarbosa@fcav.unesp.br 4uSP/eSalq - docente do depto. de entomologia e acarologia. pedro.yamamoto@usp.br 5uneSP/FCav - engenheira agrônoma. izabbicalho@yahoo.com.br 601 Rev. Bras. Frutic., Jaboticabal - SP, v. 37, n. 3, p. 600-609, Setembro 2015 J. H. S. CarvalHo et al. INTRODUÇÃO apesar da grave crise do setor citrícola nos últimos anos, o Brasil continua sendo um dos principais produtores mundiais de laranja [Citrus sinensis (l.) osbeck]. dentre os fatores relacionados às perdas de produção e produtividade dos pomares nacionais, destacam-se os problemas fitossanitários, que representam entre 20 e 50% do custo de produção de citros. a necessidade de controlar quimicamente as diversas pragas que atacam a cultura dos citros impulsionou o uso desmedido de produtos fitossanitários, ocasionando desequilíbrios na entomofauna dos agroecossistemas e dando espaço para o surgimento de novas pragas, como o bicho- furão, no final dos anos de 1980 (PARRA et al., 2004). o bicho-furão, Gymnandrosoma aurantiana (lima, 1927), tornou-se uma das principais pragas da citricultura, e nas últimas décadas constataram-se perdas na ordem de 50 milhões de dólares por ano (FundeCiTRuS, 2000), e/ou superiores a 50% da produção (PRaTeS, 1992), dependendo do grau de infestação da praga no campo. as lagartas recém-eclodidas penetram nos frutos, verdes ou maduros, e formam galerias internas ao se alimentarem da polpa. devido aos danos internos e à senescência prematura dos frutos, eles tornam-se inviáveis tanto para o consumo in natura quanto para o processamento industrial (PaRRa et al., 2004). Seu ataque pode ser identificado pela presença de excrementos ao redor do orifício de penetração das lagartas, e dessa forma pode-se diferenciá-lo dos sintomas causados pela mosca-das- frutas (Gallo et al., 2002). os adultos do bicho-furão possuem coloração escura com manchas esbranquiçadas e podem atingir 18 mm de envergadura. Possuem hábitos noturnos e, durante o dia, são dificilmente observados, pois mimetizam-se com os ramos. a oviposição é feita na superfície dos frutos, e a eclosão das lagartas ocorre após um intervalo de três a cinco dias (GaRCia et al., 1998; GaRCia; PaRRa, 1999). as lagartas passam por quatro instares durante um período de aproximadamente 25 dias, e então deslocam-se para o solo, onde se transformam em pupas; dessa maneira, o ciclo de vida da praga varia entre 32 e 60 dias (nakano; SoaReS, 1995; GaRCia et al., 1998). antes do desenvolvimento do feromônio sexual, o controle do bicho-furão era realizado pela observação dos primeiros frutos atacados nos pomares, porém não apresentava eficácia, pois as lagartas não podem ser controladas após penetrarem nos frutos (PaRRa et al., 2004). após o desenvolvimento do feromônio sexual, o controle passou a ser realizado de forma mais eficaz e no momento correto. Estudos relacionados ao comportamento da praga são necessários, pois podem fornecer informações importantes para o desenvolvimento de métodos racionais de controle. a geoestatística possibilita a análise dos parâmetros da dependência espacial, e desse modo define os padrões de distribuição da praga no campo. objetivou-se estudar a distribuição espacial de frutos atacados pelo bicho-furão por meio da geoestatística, para que as informações obtidas sobre seu comportamento possam ser somadas àquelas relacionadas ao controle racional desta praga. mATERIAL E méTODOS Levantamento dos dados - o experimento foi conduzido no município de Taquaritinga, estado de São Paulo, Brasil (48º29’W, 21º24’S), em um pomar de laranjeira- doce [Citrus sinensis (l.) osbeck], variedade ‘valência’, enxertada sobre limoeiro ‘Cravo’. o pomar experimental era formado por plantas de 10 anos de idade, com espaçamento de 6,5 m entre linhas e 3 m entre plantas, totalizando 2.640 plantas. durante a condução do experimento, as plantas do talhão receberam tratos culturais, como adubação, controle de plantas daninhas, e aplicação de produtos fitossanitários recomendados à cultura. Para o estudo da distribuição da praga, a área experimental foi dividida em 88 unidades experimentais (parcelas) contendo 30 plantas cada (três linhas x dez plantas). as amostragens, realizadas mensalmente, consistiram na contagem de frutos atacados pelo bicho-furão nas seis plantas centrais da linha central de cada unidade experimental. o estudo foi realizado nos anos agrícolas de 2006/2007, entre junho e outubro, e 2007/2008, entre maio e setembro, sendo que o início das avaliações se deu com a mudança de cor dos frutos e finalizou na colheita da safra. a dependência espacial da variável em estudo foi modelada por meio da geoestatística, considerando o centroide da parcela como coordenada para o número de frutos atacados. a partir destes modelos, foram realizadas interpolações para a obtenção de mapas de krigagem, que forneceram informações referentes aos pontos não amostrados na área em estudo. Análise geoestatística - a geoestatística baseia-se na teoria das variáveis regionalizadas (maTHeRon, 1963), ou seja, uma determinada variável distribuída no espaço apresenta correlação Rev. Bras. Frutic., Jaboticabal - SP, v. 37, n. 3, p. 600-609, Setembro 2015 602 DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DO BICHO-FURÃO, Gymnandrosoma aurantiana (LIMA, 1927)... espacial de modo que amostras próximas tendem a ser mais semelhantes se comparadas àquelas mais distantes. a variabilidade espacial de uma variável regionalizada pode ser obtida pela análise do semivariograma. a variância é estimada em intervalos de distância crescentes e em diversas direções, de acordo com a seguinte fórmula: , em que: z(xi) é o valor da variável z no ponto xi, e n(h) é o número de pares de pontos amostrados z(xi), z(xi+h), separados pela distância representada pelo vetor h (JouRnel; HuiJBReGTS, 1978). quando a distância h tende a zero, a semivariância γ(h) aproxima-se de um valor não negativo, chamado efeito pepita, simbolizado por C0. este valor representa a descontinuidade do semivariograma para distâncias inferiores à menor distância entre as unidades amostrais. Conforme a distância de separação h aumenta, a semivariância γ (h) também aumenta até atingir um valor máximo no qual ela se estabiliza. este valor representa a variância dos dados na ausência de dependência espacial e é denominado patamar, simbolizado por C1. a distância na qual a semivariância γ(h) atinge o patamar é chamada de alcance (a), sendo a distância limite da dependência espacial, ou seja, o raio de agregação da variável analisada; medições realizadas a distâncias superiores ao alcance apresentarão distribuição aleatória, sendo independentes entre si. neste trabalho, foram testados os ajustes aos seguintes modelos matemáticos: modelo linear a relação C1/a é o coeficiente angular para 0