“NÃO É SÓ A TORCIDA ORGANIZADA” O QUE OS TORCEDORES ORGANIZADOS TÊM A DIZER SOBRE A VIOLÊNCIA NO FUTEBOL? Marcelo Fadori SoareS PalhareS GiSele Maria Schwartz “Não é só a torcida orgaNizada” Conselho Editorial Acadêmico Responsáveis pela publicação desta obra Samuel de Souza Neto – Unesp/Rio Claro Roberto Tadeu Iaochite – Unesp/Rio Claro José Luis Riani Costa – Unesp/Rio Claro Lilian Teresa Bucken Gobbi – Unesp/Rio Claro Henrique Monteiro – Unesp/Bauru Ismael Fortes Junior – Unesp/Presidente Prudente Marcelo Fadori SoareS PalhareS GiSele Maria Schwartz “Não é só a torcida orgaNizada” o que os torcedores orgaNizados têm a dizer sobre a violêNcia No futebol? © 2015 Editora UNESP Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 www.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br CIP – Brasil. Catalogação na publicação Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ P188n Palhares, Marcelo Fadori Soares Não é só a torcida organizada [recurso eletrônico] : o que os torcedores organizados têm a dizer sobre a violência no futebol? / Marcelo Fadori Soares Palhares, Gisele Maria Schwartz. – 1. ed. – São Paulo : Ed. da Unesp, 2015. recurso digital Formato: ePDF Requisitos do sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-7983-742-5 (recurso eletrônico) 1. Futebol – Torcedores – Brasil. 2. Livros eletrônicos. I. Schwartz, Gisele Maria. II. Título. 16-31306 CDD: 796.3340981 CDU: 796.332(81) Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós- -Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Sumário introdução 7 1. a violência 11 Sobre a violência: considerações e esclarecimentos 11 Violência e paz: o quadro teórico de Johan Galtung 14 O conceito de paz 15 O conceito de violência 15 Tipologia da violência 16 o triângulo da violência de Galtung 21 Potencialidades do quadro teórico de Galtung no estudo da violência no futebol 22 2. a violência na visão dos torcedores organizados 27 considerações teórico-metodológicas 27 Análise das entrevistas 28 os quatro principais discursos 30 6 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz A produção de diferentes sentidos de violência 31 A utilização de diferentes enunciados na produção de sentidos da violência 33 discussão dos quatro principais discursos 36 D(1) – agressão 36 D(2) – o discurso da precariedade de infraestrutura física e dos serviços dentro dos estádios 61 D(3) – o discurso da má gestão e organização futebolística 69 D(4) – o discurso da ineficiência de serviços públicos 82 3. Violência e paz nas torcidas organizadas 91 torcidas organizadas e o referencial galtuniano de violência 95 Protagonismo em relação à violência direta 95 Legitimação e autoafirmação por meio da violência direta 98 Intolerância e distanciamento de grupos rivais 100 torcidas organizadas e o referencial galtuniano de paz 102 Protagonismo na oposição à violência estrutural 103 Promoção e participação em campanhas de prevenção à violência 105 Realização de ações sociais 109 considerações finais 111 referências bibliográficas 121 Sobre os autores 129 Introdução a violência envolvendo espectadores de futebol é uma questão preocupante, além de um grande desafio para as políticas públicas relacionadas ao esporte e ao lazer no Brasil. É muito reproduzida e noticiada nos meios de comunicação e, ao ameaçar os direitos so- ciais, a cidadania e a liberdade, gera não apenas inquietação na socie dade em geral, mas também uma série de questões instigantes que po dem ser contempladas por estudos acadêmicos. isso nos serviu de motivação para escrever este livro, com a finalidade de refletir sobre a problemática da violência entre torcedores de fu- tebol (especialmente os organizados) – um imenso e prazeroso de- safio que envolve interesses pessoais. em 2012, os autores deram início ao desenvolvimento de um projeto científico-acadêmico sobre futebol e violência, contando com o auxílio financeiro da coordenação de aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (capes). assim que começaram o levan- tamento de informações, ambos puderam perceber que a violência entre espectadores de futebol, além de ser um fenômeno complexo, tem diferentes causas ou motivações. investigada e debatida nos trabalhos acadêmicos, seja em âm- bito nacional ou internacional, a violência envolvendo torcedores de futebol revela-se um fenômeno de ocorrência mundial. há estu- 8 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz dos acadêmicos sobre o tema provenientes de países com distintas condições socioeconômicas, entre os quais inglaterra, espa nha, Suécia, itália, holanda, argentina e Brasil. episódios violentos envolvendo torcedores de futebol ga- nharam notoriedade mundial na década de 1960, com os hooligans ingleses. esses violentos confrontos entre torcedores e forças poli- ciais despertaram a atenção da sociedade, dos políticos e da mídia para a questão. No cenário brasileiro, as torcidas organizadas nor- malmente são as únicas responsabilizadas pelas brigas (reis, 2006), e o discurso veiculado pela mídia para tratar da questão muitas vezes cria um estereótipo desse torcedor ao classificá-lo de “vân- dalo” e “marginal”, com uma conotação sensacionalista e carregada de preconcepções (lopes, 2012). almejando contribuir para o debate, propusemo-nos inves- tigar, neste trabalho, o que os torcedores organizados teriam a dizer sobre a violência no futebol brasileiro, para posteriormente inter- pretar seus discursos à luz do referencial teórico elaborado pelo soció logo norueguês Johan Galtung (1930-). esse recurso nos for- neceu uma perspectiva ampla do fenômeno da violência, permi- tindo, inclusive, problematizar aspectos tidos como “naturais”, ou como “coisas do futebol”, e considerá-los episódios de violência. em outras palavras, foi somente com a utilização dos “óculos” da teoria galtungiana que pudemos enxergar alguns aspectos especí- ficos do tema. além disso, as teorias de Galtung nos ajudaram a obter uma potencialidade analítica, ou seja, problematizar e/ou repensar a violência no futebol por meio de questionamentos como: o que é ser violento? o que é a violência no futebol? Quem são os violentos no contexto futebolístico nacional? Fugimos de generalizações (“todo torcedor organizado é violento”), da reprodução de dis- cursos dominantes (“não são torcedores, são vândalos travestidos de torcedores”) e de reduções e/ou simplificações de um problema complexo (“é fácil acabar com a violência no futebol”). o capítulo 1 é dedicado à fundamentação teórica, explicitando considerações sobre o fenômeno da violência e o referencial teórico “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 9 de Johan Galtung. o capítulo 2 apresenta os dados produzidos nas entrevistas com torcedores organizados. Já o terceiro capítulo traz a interpretação galtungiana dos resultados e a aproximação de al- gumas práticas e representações das torcidas organizadas com os conceitos de paz e violência. Por fim, apresentamos as considerações finais, salientando que não são definitivas, já que nosso objeto de estudo tem natureza complexa e multifatorial. tentar simplificá-lo ou reduzi-lo leva a diagnósticos equivocados, além de dificultar a tarefa de pensar po- líticas públicas para a questão. o planejamento e a execução efi- cazes de políticas públicas voltadas para a violência no futebol devem passar, necessariamente, pela compreensão e pelo diagnós- tico adequado da realidade. com essa premissa, optamos pelo viés da compreensão em lugar da visão estigmatizante e preconceituosa sobre o tema. Para tanto, adotamos dois importantes pressupostos teóricos, que nos fizeram acreditar na necessidade de ampliar e apurar o debate sobre a violência no futebol brasileiro: 1) existem diferentes formas de violência no futebol (violências) e 2) tal problemática não pode ser meramente reduzida ao comportamento das torcidas organizadas. 1 A violênciA Sobre a violência: considerações e esclarecimentos Primeiramente, é necessário destacar a grande amplitude do fenômeno da violência. ele se faz presente (ainda que em diferentes níveis) entre os ricos e entre os pobres, nas grandes e pequenas ci- dades, em casa, na escola, no trabalho, no lazer, nos programas tele visivos, no trânsito e em tantos outros locais, situações e con- textos. Mas é sobretudo nos grandes centros urbanos que as ativi- dades relacionadas a lazer acabam sofrendo as graves consequências desse fenômeno. atividades como visitar parques, museus, shop- ping center, casa de amigos e familiares e tantas outras não raro estão sujeitas a restrições de espaço e tempo em decorrência disso. comportando extensa agenda social e política, a violência constitui uma importante problemática no campo desportivo. tal questão acentua-se particularmente no futebol, modalidade espor- tiva de grande impacto social e midiático frequentemente associada a episódios de violência envolvendo atletas e/ou torcedores. No caso específico de confrontos entre torcedores de futebol, cabe mencionar a chamada “Batalha do Pacaembu”, entre torcedores do São Paulo Futebol clube e da Sociedade esportiva Palmeiras em 1995, no estádio paulistano do Pacaembu. ocorrido há mais de 12 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz vinte anos, esse episódio de violência entre torcedores, que resultou em 101 feridos e na morte do torcedor Márcio Gasparin da Silva, de 16 anos, teve grande repercussão midiática e contribuiu para am- pliar a discussão e a produção acadêmica sobre o assunto. trabalhar com o tema da violência exige necessariamente o conhe cimento dos tipos de avaliação moral dos indivíduos envol- vidos nesse fenômeno,1 além de cuidados teórico-metodológicos. Flores (1995), ao refletir sobre o estudo acadêmico relacionado à violência, menciona a existência de alguns perigos quando se tra- balha com o tema, dentre os quais destaca dois: o caráter con sensual da palavra “violência” e seu processo de coisificação. o primeiro perigo – o caráter consensual – é representado pela falsa obviedade e unanimidade quando se discute violência. consensualmente, exis tiria um conceito tácito de violência que dispensaria a neces- sidade de defini-la, afinal todos sabem do que se trata. todavia, embora tão conhecida, é muito difícil de ser verbalizada, expressa, conceituada. Já a coisificação da violência é a associação de determinado comportamento à palavra “violência”. Sendo assim, une-se a pa- lavra “violência” à coisa “violência” como se fosse um corpo único. o processo de coisificação prossegue até a escolha de uma única definição, que passa a ser vista não mais como uma definição entre outras possíveis, mas como a única. a violência seria isso e somente isso. Por esse raciocínio, ela teria uma única forma de expressão, e, consequentemente, seria possível criar uma falácia: a desconsi- deração da existência de outras possíveis formas de expressão de violência. além desses perigos mencionados por Flores (1995), deve-se acrescentar mais um elemento importante a ser levado em conta no 1. É fundamental compreender tais avaliações, porque, como elucida riches (1988), o conceito de violência é, de certa forma, relativo. como será visto adiante, o fenômeno da violência implica sempre uma avaliação, um julga- mento. logo, o que pode ser considerado violência para determinado sujeito ou grupo pode não sê-lo para outro. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 13 estudo da violência, que pode passar despercebido ou mesmo per- manecer escamoteado nas análises: a disputa por sua definição legítima. há uma disputa social, uma luta simbólica, para impor uma definição, um sentido ou significado legítimo de violência. essa disputa ocorre em um espaço assimétrico de posições, em que al- guns grupos têm, sistematicamente, mais chances de fazer valer sua própria definição de violência (Bourdieu, 2010), coisificando-a. tal imposição visa atender aos interesses do próprio grupo social que a promoveu.2 No cenário do futebol, essa coisificação ocorreria pela associa- ção da palavra “violência” a determinada ação (brigar, lutar, envol- ver-se em confronto físico), gerando um conceito restrito de violên- cia, que deixa de considerar outras graves formas de violência, tais como: tratamento dado ao torcedor nos estádios, horário impróprio de partidas, alto preço de ingressos, corrupção, má gestão e desor- ganização do futebol, manifestações de racismo, preconceito etc. a disputa pelos sentidos e significados legítimos (válidos, cor- retos) de violência contempla uma tríade: vítima(s), executor(es) e testemunha(s). consequentemente, essa disputa também estabe- lece sentidos e significados ilegítimos (inválidos, incorretos) da uti- lização de violência, sobretudo a violência física. em um confronto violento, a vítima, o executor e a(s) testemunha(s) podem divergir quanto ao julgamento social acerca da situação. ou seja, eles podem concordar ou discordar acerca da validade e legitimidade da utili- zação de violência naquela determinada situação. Um exemplo ilustrativo e recente é o debate ocorrido durante o primeiro se- mestre de 2014 sobre a legitimidade do uso de violência física contra assaltantes.3 2. conforme será visto mais adiante, na visão galtungiana, é possível afirmar a existência de violência estrutural na própria luta pela definição do conceito de violência. 3. esse debate foi motivado pelos constantes delitos na cidade do rio de Janeiro, que levaram a população a “fazer justiça com as próprias mãos”, passando a utilizar a violência física contra assaltantes: um suspeito foi amarrado a um 14 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz assim, importa considerar que há uma avaliação, um julga- mento social sobre a violência. em outras palavras, cada um dos integrantes da tríade (vítima, executor e testemunha) deve validá-la ou rechaçá-la. esse elemento é decisivo nos confrontos entre tor- cidas organizadas, já que a vítima (torcida organizada 1) e o exe- cutor (torcida organizada 2) costumam destoar da(s) teste munha(s) quanto ao julgamento do ocorrido. observe-se que as torcidas orga nizadas não concebem a violência física como algo estri tamente ilegítimo, inválido, negativo ou incorreto. Por vezes, ela é tida como válida ou até mesmo desejada. Já as testemunhas tendem a ver esses enfrentamentos como algo incorreto, sem razão de ser, sem sentido. (tal questão será retomada no capítulo 2.) considerando os perigos relacionados ao estudo da violência, este livro buscou lançar um olhar ampliado sobre o fenômeno, tendo como referencial teórico o quadro sobre violência e paz esta- belecido por Johan Galtung, explicitado a seguir. de início são apresentados os conceitos de paz e violência, para posteriormente abordarmos sua tipologia. Violência e paz: o quadro teórico de Johan Galtung Johan Galtung, sociólogo norueguês, é reconhecido mundial- mente por sua produção acadêmica sobre violência e paz, bem como pela criação do campo denominado “Peace Studies” (“es- tudos para a paz”). essa vertente tem como objetivo contribuir para a diminuição dos três tipos de violência, estabelecidos pelo autor: direta, estrutural e cultural (Galtung, 1985; Vorobej, 2008). poste, outros foram espancados, humilhados ou até mesmo executados. Nessas situações havia divergência (principalmente, entre as testemunhas) sobre a vali dade dessas reações, que chegavam, inclusive, a interferir no trabalho da Polícia Militar. tais eventos ficaram conhecidos como “a onda dos justiceiros”. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 15 O conceito de paz inicialmente, é preciso ressaltar que, no quadro teórico galtu- niano, os conceitos de paz e violência são claramente opostos. a ausência de violência constitui a paz.4 a partir desse conceito, Gal- tung constrói uma tipologia da paz, dividindo-a em paz negativa e paz positiva. a paz negativa consiste na ausência de violência direta, porém com a manutenção de um cenário de violência estrutural. a deno- minação “negativa” evidencia que a erradicação da violência direta não é uma condição estritamente positiva. Já a paz positiva corres- ponde à ausência das violências direta e estrutural, em um cenário de distribuição igualitária de poder e recursos, sendo, portanto, uma condição positiva. Uma potencialidade dessa conceituação de paz é permitir pensar não apenas na diminuição e/ou controle do abuso da vio- lência, mas também em um desenvolvimento vertical de sujeitos, grupos e sociedades. além disso, como se verá adiante, o pensa- mento galtuniano rejeita a ideia de violência como ausência de confli tos, uma vez que essa visão não considera as importantes co- nexões entre os tipos de violência nem seus efeitos sobre a saúde de uma sociedade (Galtung, 1969, 1985, 1990, 1994). O conceito de violência Quanto ao conceito de violência, Galtung (1969, p.168) vê esse fenômeno como “a causa da diferença entre o potencial e o real, entre o que poderia ter sido e o que é”. com base nessa definição, o autor reconhece a existência de condições objetivas que impedem 4. a definição de paz aqui utilizada é a primeira elaborada pelo autor. com o avançar dos estudos, Galtung (1996) passa a empregar outro conceito de paz, que pode ser expresso como estado de coisas que torna possível a transfor- mação não violenta e criativa do conflito. 16 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz ou impediram alguém de alcançar seu máximo potencial, já que a violência está na origem da diferença entre a situação, a condição real e a condição potencial. da mesma forma, tudo aquilo que impede a diminuição da distân cia entre real e potencial também pode ser considerado vio- lência. assim, para o autor, a violência pode consistir em […] insultos evitáveis para as necessidades humanas básicas e mais amplamente para a vida, fazendo que o nível real desça abaixo de níveis de satisfação do potencial possível. ameaças de violência também são violência. (Galtung, 1990, p.292) Segundo Galtung, a violência também ocorre quando o real é evitável ou poderia ter sido evitado de alguma forma. Já quando tal situação é inevitável, isto é, quando todas as ações e esforços hu- manos são incapazes de impedir a ocorrência de um fato, então não há violência. tal raciocínio se mantém ainda que a situação real de uma pessoa esteja em um nível muito abaixo de seu nível potencial. o autor ilustra a questão com o caso da tuberculose no século XViii. Nessa época, a morte de uma pessoa por tuberculose não seria considerada violência, pois a cura dessa doença não era conhe- cida. logo, a morte por tuberculose era algo inevitável. entretanto, se alguém morre de tuberculose nos dias de hoje, quando sua cura é mundialmente reconhecida, então a violência se constitui, já que a morte por tuberculose é evitável. outro caso é a morte decorrente de terremotos, situação ainda hoje inevitável. Porém, se no futuro ela for evitável e alguém morrer por causa de terremoto, então a violência aí estará presente. Tipologia da violência Galtung considera a existência de três tipos de violência – di- reta, estrutural e cultural – explanados a seguir. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 17 Violência direta a violência direta possui a relação sujeito-ação-objeto, sendo um fenômeno observável e fácil de ser expresso por meio da lin- guagem. Para exemplificar o que seria a violência direta, basta pensar em um assalto ou em uma briga. tanto o assalto quanto a briga têm todas as características da violência direta, ou seja, são situações concretas, observáveis, visíveis, que comportam a re- lação sujeito-ação-objeto e podem ser facilmente expressas pela linguagem. a relação geralmente envolve ao menos dois participantes: o emissor e a vítima da violência. o sujeito (emissor) realiza determi- nada ação que recai sobre outra pessoa, que é o objeto da violência, o ser prejudicado ou ferido (vítima). o dano ou ferimento resul- tante da violência direta pode ser de natureza física ou psicológica, como os ferimentos corporais ou o medo e a insegurança decor- rentes do fato de ser vítima de um assalto. tais características le- varam Galtung (1969) a afirmar que a violência direta é facilmente identificável, além de ser muito semelhante ao conceito de agressão física. Violência estrutural a violência estrutural é aquela que se estabelece sobre a estru- tura social. Pode ser traduzida em diversas situações que envolvem a distribuição desigual de recursos ou serviços, aos quais as pes- soas, em razão dessa desigualdade, têm acesso limitado ou difi- cultado. renda, educação, alfabetização e assistência médica são exemplos de recursos e serviços cuja distribuição costuma ser defi- ciente ou fortemente enviesada (Galtung, 1969). os elementos distribuídos de forma desigual têm estreita cor- relação no interior da estrutura social. Por exemplo, as pessoas de baixa renda em geral também apresentam baixo nível de ins- trução, alimentação insuficiente e, consequentemente, pouca saúde (Galtung, 1969). 18 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz Sobre a correlação dos recursos, Galtung menciona como exemplo a distinção entre pobreza e miséria: a primeira significa possuir pouco (poucos recursos), enquanto a última implica pos- suir tão pouco a ponto de ferir e prejudicar. a miséria estaria corre- lacionada com a doença (ou a falta de saúde) e produziria um círculo vicioso, porque o sujeito vive em um ambiente no qual seus re- cursos são sempre insuficientes em termos de emprego, moradia, alimentação, conforto etc. dessa forma, a miséria também acaba comprometendo o bem-estar social e a saúde, uma vez que o indi- víduo, sendo continuamente afetado por sua condição de penúria, permanece em constante estado de doença, a qual tende a se tornar múltipla e crônica a ponto de impedi-lo definitivamente de al- cançar um estado saudável (Galtung, 1994). os recursos disponíveis às pessoas que vivem na miséria são tão escassos que sua condição é capaz de feri-las e deixá-las doentes a vida toda. trata-se de mais um caso de correlação entre os fatores sociais que cercam a violência estrutural, e cuja distribuição é envie sada ou desigual. Na realidade brasileira, por exemplo, edu- cação formal e assistência médica de qualidade são recursos distri- buídos de maneira desigual ou enviesada. Por essa razão, as classes mais altas optam por serviços médicos e educacionais privados, que em geral têm mais qualidade. o problema, na violência estrutural, não está no fato de as pes- soas possuírem poucos recursos, mas no poder dos ricos para in- clinar o uso de recursos do mundo em seu benefício. hoje, em tempos de abundância de alimentos, há pessoas que morrem de fome nos países subdesenvolvidos, ao passo que, nas nações ricas, indivíduos morrem de tumores malignos e doenças que refletem abundância de alimentos. o cenário assim descrito é violento, já que a fome seria evitável por meio de uma adequação econômica mais eficaz. No entanto, o que acontece atualmente é o crescimento econômico desenfreado das nações. Por essa razão, a análise da violência estrutural con- templa fatores econômicos, políticos e sociais. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 19 Segundo Galtung, a violência estrutural age independente- mente da existência de um autor específico e claramente identifi- cável. Por isso, o autor a designa como um fenômeno invisível (Galtung, 1969, 1990, 1994). cabe aqui observar que a denomi- nação “invisível” é empregada por Galtung tanto para a violência “estrutural” quanto para a violência “cultural”. em nossa leitura, contudo, ambas não deveriam ser consideradas formas “invisí- veis”, mas formas “menos visíveis” de violência, razão pela qual optamos por utilizar a denominação “menos visível”5 para nos refe rirmos às violências estrutural e cultural. a essa altura, é interessante indicar brevemente a diferença entre violência direta e violência estrutural. em linhas gerais, pode- -se dizer que a primeira é dinâmica, enquanto a última é estática. Sobre essa diferenciação, Galtung faz o seguinte paralelo: a violência pessoal representa mudança e dinamismo, não são ondu lações dentro de ondas, mas ondas dentro de águas tran- quilas. a violência estrutural é silenciosa, não se mostra – é essen- cialmente estática, assim como águas tranquilas. (Galtung, 1969, p.173, tradução nossa) apesar de seu caráter silencioso, estático e consolidado, a vio- lência estrutural não deve ser vista como mero resultado de um aciden te ou como fruto de uma força maior. Na verdade, é conse- quência direta ou indireta da ação humana sobre estruturas que re- fletem a distribuição desigual de poder. tais estruturas abrigam, por exemplo, racismo, sexismo e violência política (hoo, 2007). 5. com base nas considerações de lopes (2013b) e na tentativa de obter uma lei- tura minuciosa da obra de Galtung, acreditamos que a denominação utilizada pelo autor poderia ser aprimorada. Nossa argumentação baseia-se no fato de que a pobreza (violência estrutural) e o preconceito (violência cultural) não são “tipos invisíveis” de violência. tais fenômenos podem ser observados, perce- bidos, visualizados e combatidos. Nesse sentido, por exemplo, movimentos sociais são uma tentativa de combater e diminuir a violência estrutural pre- sente em uma sociedade. 20 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz Violência cultural após vinte anos da conceituação dos dois primeiros tipos de violência, Galtung propõe, em seu artigo “cultural Violence” (1990), um terceiro tipo: a violência cultural. os aspectos da cultura que tornam legítimas ou válidas as ou- tras duas formas de violência (direta e estrutural) formam a violên- cia cultural. estrelas, cruzes, bandeiras, hinos e paradas militares, retrato onipresente do líder, discursos inflamados e pôsteres estão entre os inúmeros exemplos de aspectos da cultura que podem legi- timar ou justificar a violência (Galtung, 1990). existe a necessidade de se falar sobre aspectos da cultura justi- fica-se diante da grande dificuldade de categorizar uma cultura como totalmente violenta. o uso da palavra “aspecto” mostra-se como um cuidado teórico do autor, a fim de diminuir, ou até mesmo evitar, a possibilidade da criação de estereótipos culturais. elementos como educação, meios de comunicação, arte, ciência, religião e ideologia fazem parte da formação, construção ou re- construção de valores, ideias e normas de uma sociedade. dessa forma, são capazes de influenciar, direcionar e moldar a construção da realidade social, seja em âmbito pessoal ou coletivo. tais elementos também podem contribuir para a internali- zação e aceitação da violência cultural. diante disso, o estudo da violência cultural demonstra de que forma o ato da violência direta e o fato da violência estrutural são legitimados e considerados acei- táveis pela sociedade (Jiménez-Bautista, 2012). a cultura pode es- conder, mascarar e condicionar as pessoas a não ver determinadas situações sociais, como a repressão ou a exploração (que muitas vezes é vista, porém não combatida). Um exemplo são as condições exploratórias ainda hoje encontradas no mercado de trabalho de diver sas profissões. em resumo, se a violência cultural faz que as formas de vio- lência direta e estrutural pareçam certas ou, pelo menos, não sejam vistas como erradas, seu estudo ajuda a desmascará-las e desnatu- “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 21 ralizá-las. tal raciocínio será importante na reflexão proposta no capítulo 3, sobre violência e paz no futebol brasileiro. com o conceito de violência cultural, Galtung completa seu quadro teórico, que culmina na elaboração do chamado “triângulo da violência”, explicado a seguir. O triângulo da violência de Galtung Para elucidar sua tipologia, expondo as formas de violência e os fenômenos visíveis e “menos visíveis”, Galtung (1990) recorre a um modelo gráfico em forma de triângulo. essa representação, mostrada na imagem 1, a seguir, é a que melhor evidencia as re- lações entre os tipos de violência, o que não seria possível em um modelo em camadas, por exemplo. imagem 1 – triângulo da violência de Johan Galtung o triângulo da violência dá sustentação ao argumento do autor de que existem ligações e fluxos causais entre os tipos de violência. Pode-se começar a leitura por qualquer ponta do triângulo, porém optou-se aqui pela violência direta, que é mais facilmente identificável. Para ilustrar brevemente como esse modelo funciona na aná- lise de um fenômeno, recorreu-se ao fato histórico da escravidão, especialmente no Brasil colonial. a escravidão tirou a liberdade de 22 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz muitos negros africanos, que viajaram forçadamente até a américa para “trabalhar”. além do trabalho pesado e sem qualquer remu- neração, enfrentaram condições muito adversas, que acabaram le- vando muitos deles à morte. essa massiva violência direta – em que a violência foi elevada ao máximo grau ao retirar a vida de alguém – infiltra-se na estrutura social e a segmenta, constituindo-se, assim, em uma manifestação de violência estrutural. como resul- tado da escravidão (violência direta), os negros acabaram relegados a posições sociais inferiores, principalmente no mercado de tra- balho (violência estrutural). Por fim, a massiva violência direta pode gerar violência cul- tural por meio de ideias racistas (violência cultural), veiculadas em enunciados como: “negros não têm alma”, “negros são objetos” ou “negros são uma raça inferior”. em razão da falsa ideia de que os negros eram “objetos”, o uso de violência direta contra eles se justi- ficava e/ou legitimava (Galtung, 1990), afinal os senhores de es- cravos tinham o direito de fazer o que bem entendessem com seus próprios “objetos”. Quanto aos fenômenos visíveis ou “menos visíveis”, cabe res- saltar que os efeitos desses últimos, apesar de silenciosos e sutis, não podem ser considerados menos prejudiciais do que os impactos da violência direta. em uma guerra, podem-se contar os mortos e os prejuízos materiais; no entanto, os efeitos da violência estrutural e cultural podem ser mais devastadores e cruéis, como, por exemplo, cenários de alienação e dominação intencionais. Potencialidades do quadro teórico de Galtung no estudo da violência no futebol o quadro teórico de Galtung, descrito anteriormente, pode oferecer elementos para a análise da violência no futebol brasileiro. em linhas gerais, indicamos, a seguir, cinco grandes contribuições e/ou potencialidades analíticas desse referencial teórico utilizadas na abordagem de nosso objeto de estudo: “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 23 1) reconhecer a existência de violências no futebol brasileiro; 2) Não direcionar a violência para determinado sujeito ou grupo; 3) Perceber que torcedores de futebol também são vítimas de violência; 4) desnaturalizar certas formas de violência no mundo fute- bolístico; 5) relacionar o universo futebolístico com os conceitos de paz e violência. Para uma exposição mais elucidativa, é interessante enfocar cada uma dessas contribuições em separado. a primeira potencialidade analítica pressupõe a existência de violências no futebol brasileiro. assim, o fenômeno da violência no futebol não é aqui tratado como composto apenas de conflitos fí- sicos; considera-se, também, a existência de outros elementos que em geral ficam em segundo plano, ofuscados pela violência direta (fenômeno visível). dessa forma, nosso intuito é trabalhar contra a hierarquização de violências. Viu-se anteriormente que o processo de coisificação da vio- lência – ou seja, restringi-la apenas a brigas e confrontos físicos – atende aos interesses de determinados grupos sociais. e, no contexto futebolístico nacional, esse processo de coisificação favo- rece os interesses dos protagonistas da violência estrutural (fede- rações, emissoras de televisão, dirigentes, clubes, polícia etc.). São eles os responsáveis por condições prejudiciais ao futebol e a seus espec tadores: corrupção, má gestão e organização do futebol, pre- cariedade de infraestrutura física e serviços dos estádios, horário impróprio das partidas, abuso de poder, alto valor do ingresso, re- curso ao “tapetão” e tantos outros fatores. Não se deve combater somente a violência direta (brigas) e conformar-se com as violên- cias estruturais (corrupção, manipulação de resultados, abuso de poder etc.) e culturais (discursos machistas e homofóbicos etc.). Neste estudo, o que buscamos ao trabalhar a partir do viés galtu- niano é explicitar a possibilidade de criação de um cenário de paz 24 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz positiva no futebol brasileiro. isso significa a diminuição de todos os tipos de violência – direta, estrutural e cultural. a segunda potencialidade desse referencial recai sobre o não direcionamento da violência a determinado sujeito ou grupo. Galtung (1990) não atribui a violência a grupos nem a sujeitos, tampouco explica a sua ocorrência como resultado de fatores so- cioeconômicos apenas. relacionar a violência às condições socio- econômicas de seus protagonistas é um dos maiores equívocos quando se pensa na violência no futebol. existem discursos que, ao associar o fenômeno (sobretudo a violência direta) à classe social (classes mais baixas, em termos socio econômicos), defendem que o aumento do preço dos ingressos poderia não apenas resolver o problema da violência, mas também afastar “os bandidos travestidos de torcedores”. Míopes em relação à questão, tais discursos, além de desconsiderar diversos fatores, refletem uma visão reducionista do fenômeno da violência. em primeiro lugar, esses discursos são altamente preconcei- tuosos, além de restringir a violência às classes sociais mais baixas. exemplo disso é o grito proferido pela torcida corintiana, “ooooô, bicha!”,6 que teve início nas cadeiras numeradas, setor que costuma abrigar pessoas de alto nível socioeconômico. outro exemplo são os constantes desentendimentos, e até mesmo agressões, nas ca- deiras cativas do estádio do Morumbi, principalmente em jogos com grande público.7 em segundo lugar, tais discursos não levam em conta (ou ocultam intencionalmente) que a violência também envolve a participação de pessoas das classes sociais mais altas. Subes timam o fato de que a violência compõe todo o tecido social (Pimenta, 1997); basta ver os dois exemplos citados, nos quais os 6. inicialmente destinado ao goleiro do São Paulo Futebol clube, rogério ceni, esse grito passou a ser dirigido a outros jogadores de outras equipes, e profe- rido por outras torcidas (lance, 2014). Na presente análise, ele é encarado como manifestação de intolerância e preconceito de cunho sexual. 7. alguns torcedores desejam assistir à partida em pé, ao passo que outros tentam impedi-los, o que acaba gerando um impasse, sobretudo nos minutos iniciais da partida. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 25 episódios violentos ocorreram em setores do estádio frequentados por um público de alto poder socioeconômico e considerado “pacífico”. logo, tais discursos míopes atribuem a violência única e exclu- sivamente a um setor do estádio e a determinado ator do futebol: a arquibancada e o torcedor organizado. dessa maneira, a elevação abusiva do preço dos ingressos, como defendida nesses discursos, não tem outra serventia além da exclusão de muitos torcedores dos estádios. do mesmo modo, os dois episódios anteriores reforçam a ideia de que a violência não está necessariamente ligada a fatores socioeconômicos. a terceira potencialidade do referencial teórico de Galtung permite evidenciar os torcedores (especialmente os organizados) como vítimas de violência, e não apenas como protagonistas. a manipulação de resultados, a péssima infraestrutura dos estádios, o horário impróprio das partidas, o aumento excessivo do preço dos ingressos, o abuso de poder policial, o processo de elitização do fu- tebol, além de interesses econômicos de dirigentes potencialmente prejudiciais a um clube, são situações nas quais os torcedores podem ser vítimas de violência. demonstrar que os torcedores também são vítimas desmascara o pressuposto de que são naturalmente violentos e os únicos prota- gonistas da violência no futebol. tal raciocínio é importante, sobre- tudo na discussão acerca das torcidas organizadas, muito embora os casos de violência contra o torcedor sejam pouco debatidos e problematizados. Na maioria das vezes, as formas de violência contra o torcedor não se constituem em fenômenos explícitos, evi- dentes, observáveis, uma vez que se encontram na estrutura do fu- tebol. trata-se, portanto, de formas estruturais, sutis, de violência: permanecem escondidas ou são até mesmo naturalizadas (lopes, 2012), já perpetradas por atores ou instituições que detêm o poder e o controle da estrutura do futebol brasileiro. desnaturalizar formas graves de violência é outra potencia- lidade do referencial galtuniano. Segundo outras perspectivas mais restritas de violência, essas formas podem ser consideradas “natu- 26 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz rais”. de acordo com essas visões, por exemplo, o abuso policial cometido contra um torcedor (comum ou organizado) dentro do estádio poderia ser minimizado, justificado ou até mesmo legiti- mado. outro exemplo seria enxergar as manifestações racistas nos estádios como algo “do futebol” e, portanto, perfeitamente “natu- rais” nesse ambiente. Por fim, o referencial galtuniano possibilita a análise de prá- ticas e representações de diversos atores do cenário futebolístico, de modo a aproximá-las, quer do conceito de paz, quer do conceito de violência. essa potencialidade analítica permite rechaçar, por exemplo, a culpabilização única e exclusiva das torcidas organi- zadas como produtoras de violência no futebol brasileiro, já que algumas de suas práticas as aproximam do conceito de paz (como será visto no capítulo 3). Por outro lado, pode-se considerar que outros atores do universo futebolístico – jornalistas, torcedores co- muns, policiais, dirigentes –, comumente não culpabilizados como geradores de violência, têm práticas e representações violentas (Garriga zucal, 2013). 2 A violênciA nA visão dos torcedores orgAnizAdos Neste capítulo, expõe-se a opinião de torcedores organizados sobre o que seria violência no futebol brasileiro, ou seja, como eles concebem seus pensamentos sobre a violência e quais são os ele- mentos que sustentam essa visão. antes, porém, é necessário eluci- dar alguns aspectos teórico-metodológicos. Considerações teórico-metodológicas inicialmente, nossa intenção ao entrevistar os torcedores orga- nizados foi problematizar o debate sobre a violência no futebol. ao ouvir os sujeitos que constantemente são responsabilizados pela violência no futebol, seria possível contrapor-se ao “discurso ofi- cial” sobre o assunto, evidenciando pontos contraditórios e/ou pouco discutidos. dessa maneira, entrevistamos pessoas oficial- mente filiadas às torcidas organizadas do São Paulo Futebol clube,1 verificando quais eram os sentidos de violência mais frequentes em suas falas. 1. trata-se das torcidas tricolor independente, dragões da real e Falange tricolor. 28 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz a abordagem das entrevistas foi norteada pelos preceitos da análise de discurso de linha francesa.2 as entrevistas forneceram um material bruto linguístico, cuja análise buscou identificar regu- laridades nas diversas falas, culminando na tipificação dos discur- sos acerca da violência (Pêcheux, 1969, 1975; orlandi, 2006, 2007; charaudeau, 2009). a segunda consideração a fazer diz respeito à existência de re- lações de força e sentido nos discursos. há discursos com maior peso e validade no universo do futebol. Partindo desse pressuposto, acreditamos que atualmente os discursos dos torcedores organi- zados têm menor peso e validade no debate sobre violência no fu- tebol do que os discursos de jornalistas, policiais, federações e estudiosos. do ponto de vista da validade, os discursos jornalísticos, em- bora muito opinativos e especulativos (carecendo, por consequên cia, de base empírica e investigativa), acabam sendo centrais no debate sobre o assunto, em razão de sua grande audiência. essa centrali- dade relega a um plano secundário os demais discursos, entre eles os científicos (alabarces, 2013), contribuindo não só para a manu- tenção do status quo, mas também para um debate que, além de enviesado, revela pouca compreensão sobre a violência. Análise das entrevistas realizadas as entrevistas com os torcedores organizados, pro- cedeu-se à sua transcrição na íntegra, procurando reproduzir até mesmo os “erros” comumente encontrados na linguagem informal. em uma primeira leitura das transcrições, buscou-se as paráfrases3 2. a análise de discurso é tanto um procedimento analítico quanto um postulado teórico, que dispõe de rede conceitual específica. Para mais detalhes, ver or- landi (2007). 3. com base em um pressuposto polissêmico – isto é, a multiplicidade de sen- tidos que uma palavra pode conter –, a paráfrase é o conceito da análise de discurso cuja função é restringir o significado de determinada palavra. dito “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 29 dos discursos, por meio das quais foi possível verificar que a pa- lavra “violência” tem diferentes referências, aproximações, substi- tuições, que determinam o sentido que cada entrevistado atribui ao termo. durante a entrevista, cada participante substituía, relacionava ou aproximava o termo “violência” de outras palavras ou frases contidas em uma lista. ao responder à questão “o que é vio- lência?”, o entrevistado escolhia a opção que ele próprio consi- derava mais próxima do verdadeiro, do real sentido da palavra “violência”. a seguir, a imagem 2 mostra a quais outras onze pala- vras ou frases um entrevistado relacionou, substituiu ou aproximou o termo “violência”. imagem 2 – Modelo de identificação das paráfrases de um participante do estudo com base na busca por paráfrases, pôde-se verificar quais eram os sentidos de violência mais frequentes nos discursos dos torcedores organizados. No total, foram encontrados 156 sentidos de violência em todas as entrevistas realizadas. obviamente que al- guns desses sentidos se repetiriam ao longo das entrevistas. de outro modo, ela serve para fechar o sentido da palavra. No contexto desta investigação, a paráfrase determina o que seria a violência. Por exemplo, em enunciados como “violência é matar”, “roubar também é violência” e “cor- rupção é violência”, os enunciadores restringiram o sentido de violência a matar, roubar e corrupção. 30 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz Os quatro principais discursos após essa primeira etapa analítica, os 156 sentidos de violência foram aglutinados a fim de estabelecer os discursos. como resul- tado dessa aglutinação, foi possível chegar a quatro principais dis- cursos sobre a violência na opinião dos torcedores organizados. logo, todos os 156 sentidos produzidos pelos torcedores entrevis- tados podem ser sintetizados nesses quatro discursos. esquematicamente, pode-se afirmar que, para o torcedor, a violência no futebol é composta basicamente de quatro tipos de discurso – d(1), d(2), d(3) e d(4) –, conforme ilustra a imagem 3 a seguir. imagem 3 – Sentidos de violência produzidos pelos torcedores orga nizados esses discursos têm relação entre si e elementos internos que justificam sua existência. antes de explicitá-los, é preciso men- cionar dois mecanismos linguísticos que apareceram com muita frequência nas entrevistas e que ajudam a compreender a visão dos torcedores organizados, expressa pelas quatro formas de violência no futebol brasileiro. em linhas gerais, o primeiro mecanismo linguístico consiste na produção de mais de um sentido de violência (durante a entrevista, o participante produziu mais de um sentido de violência). Já o se- gundo mecanismo corresponde à utilização de diferentes tipos de enunciado (os entrevistados, para produzir diferentes sentidos de violência, recorriam a diferentes tipos de enunciado). “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 31 A produção de diferentes sentidos de violência o primeiro mecanismo linguístico permite compreender que os quatro discursos sobre a violência estão interconectados, visto que, no decorrer da entrevista, os participantes não expressavam somente um discurso (um sentido de violência) de modo absoluto, mas transitavam entre os diferentes discursos. isso significa que, durante as entrevistas, os torcedores organizados privilegiavam determinado(s) sentido(s) de violência, dependendo de diversos fatores.4 Por exemplo, Fabrício,5 um de nossos entrevistados, quando questionado sobre o que seria violência no futebol, responde o seguinte: “Violência no futebol… ingresso abusivo é uma violência. Pra mim é uma violência polícia despreparada. No rio de Janeiro tem o Gepe, que é a polícia que cuida das torcida organizada, os cara escolta, você vai lá, o cara revista, o cara num é malandrão… os polícia, aqui, trabalha mal-humorado, trabalha na folga, cansado. o cara qué descontá tudo no torcedor. o campeonato começa, você num sabe se o time caiu, se tá rebaixado, se vai subir, o que que vai acontecê, desorganização no futebol, pra mim, é uma violência.” analisando esta resposta, percebe-se que o entrevistado atribui três sentidos à violência que podem ser caracterizados como: a) in- gresso abusivo; b) polícia despreparada; c) desorganização no fute bol. esses sentidos de violência (a, b, c) apontados pelo entre- 4. com base nos conceitos da análise de discurso de linha francesa, como imagem, formação discursiva, memória discursiva, esquecimentos e silêncio, reconhe- cemos que vários fatores podem interferir na produção dos discursos: mo- mento e local da entrevista, proximidade entre entrevistado e entrevistador, concepções dos envolvidos sobre o assunto etc. Para mais detalhes, ver or- landi (2007). 5. Por motivos éticos, o nome dos entrevistados é fictício. 32 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz vistado seriam enquadrados, respectivamente, nos discursos 3, 4 e 3, ou d(3), d(4) e d(3) (ver imagem 3). No decorrer da entrevista, o mesmo entrevistado, ao ser ques- tionado sobre como e por que (desencadeamento e causas) ocorre a violência, dá a seguinte resposta: “Por que acontece a violência no futebol? É um bando de babaca, cara. deveria ser pela rivalidade e tal, mas se você for pensar mesmo, analisar… eu já briguei muito, mas por quê, cara? Por que eu tô fazendo isso? Você mata um cara, o cara tem uma mãe, você vai dar uma pedrada na cabeça do cara, o cara fica internado, perde o emprego… aí eu num sei, cara, o porquê… como… como acontece é fácil, né, meu? Basta você vê, encontrar o rival, aí acontece… agora, o porquê? Num tem um porquê, não.” Neste fragmento o entrevistado responde que a causa da vio- lência (por que ocorre?) seria “sem razão”.6 Sobre o desencadea- mento da violência (como ocorre?), ele afirma que a violência acontece ao “encontrar o rival”.7 entretanto, quando analisamos conjuntamente as respostas do entrevistado sobre as três perguntas (que é, como e por que ocorre a violência), revela-se a produção de diferentes sentidos de violência. ou seja, os sentidos de violência produzidos em cada uma das questões são diferentes. Na pergunta sobre o que é violência, o entrevistado produziu sentidos pertencentes aos discursos 3 e 4 (má gestão/organização do futebol e ineficiência de serviços públicos). Porém, ao ser ques- tionado sobre como e por que a violência ocorre, o entrevistado produziu um sentido pertencente ao discurso 1 (agressão). 6. essa consideração fica evidente no trecho: “[…] agora, o porquê? Num tem um porquê, não”. 7. essa consideração traduz-se no seguinte trecho de sua fala: “como… como acontece é fácil, né, meu? Basta você ver, encontrar o rival, aí acontece”. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 33 esquematicamente, a imagem 4, a seguir, mostra o que é a vio- lência para esse entrevistado. imagem 4 – análise dos sentidos de violência produzidos por um entre- vistado esse exemplo comprova que os entrevistados atribuíam dife- rentes sentidos ao fenômeno da violência ao longo de suas entre- vistas. essa situação, ocorrida em todas as entrevistas realizadas, demonstra que em determinados momentos o entrevistado privile- giava um sentido de violência em detrimento de outros. A utilização de diferentes enunciados na produção de sentidos da violência o segundo mecanismo linguístico consiste na utilização de dife rentes tipos de enunciados para produzir diferentes sentidos. existem três tipos de enunciado: elocutivo, alocutivo ou delocu- tivo. Para melhor elucidá-los, devemos considerar as entidades envol vidas em um processo discursivo: aquele que fala (entrevis- tado), aquele a quem se fala (entrevistador) e aquilo ou aquele de quem se fala (referente, assunto da entrevista). Um enunciado elocutivo enfocará aquele que fala como ator principal, parte integrante da ação. ou seja, nesse tipo de enun- ciado, é o entrevistado que se evidencia na própria construção lin- guística (por exemplo, “eu sou”, “nós somos”, “eu fiz”, “nós fizemos”, “a gente fez”). Já o segundo tipo, o enunciado alocutivo, tem seu foco naquele a quem se fala (por exemplo, “pense você”, 34 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz “imagine você a situação”). Por fim, o enunciado delocutivo está voltado para aquilo ou aquele de quem se fala. esse tipo de enun- ciado implica certo afastamento ou distância do enunciador em re- lação ao que ele fala (por exemplo, “eles vieram”, “ela chegou”, “o homem saiu”, “isso é bom”). No contexto dos discursos sobre a violência, surge uma questão: como um entrevistado fala sobre má gestão e de brigas no futebol, tratando ambas as manifestações como formas de vio- lência? isso se torna possível justamente pela mudança linguística de enunciados. Para falar sobre a violência nos sentidos X (ineficiência de ser- viços públicos, má gestão do futebol e precariedade de infraestru- tura física e serviços dentro do estádio) e Y (agressão), o enunciador realiza a mudança de enunciado. Nos sentidos X de violência, ele é vítima, não é responsável. Portanto, o entrevistado pode falar sobre essas formas de violência, denunciá-las. o enunciador fala e ao mesmo tempo marca seu próprio distanciamento da questão, já que não é responsável por ela. Por essa razão, nos enunciados delocutivos produzidos pelos torcedores aparecem palavras ou expressões que designam os possí- veis responsáveis por situações que fogem da responsabilidade e do alcance da torcida organizada, como “ela” (referindo-se à gestão do futebol, polícia, cBF, FPF, mídia) ou “eles” (referindo-se a car- tolas, policiais, jornalistas). Pode-se observar tal situação nas falas a seguir: “aqui é ao contrário, eles usam um cassetete e abre aquele clarão, fica correndo todo mundo, certo?” (Nílson) “Porque aqui eles proíbem a festa. aqui é proibido os mastros de bandeira.” (daniel) “talvez seja justamente isso que eu sinto, é o que eles querem que eu sinta, até de parar de ir para a organizada, pelo fato de como a “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 35 gente é tratado, né? Nos estádios, é tratado como bicho, né? Não só o torcedor organizado.” (ricardo) “eles não tão nem aí, eles quer saber é de dinheiro. Ultimamente, o futebol tá isso, eles quer saber é de dinheiro, entendeu?” (robson) Nesses trechos, nota-se que os torcedores organizados atri- buem a culpa por algumas situações a outros atores do futebol (po- lícia, federações, emissoras de televisão etc.). os entrevistados denunciavam esses sentidos de violência e ao mesmo tempo res- ponsabilizavam outros atores (“eles”, “os caras”, “a sociedade”), eximindo as torcidas organizadas de culpa nessas situações. Já nos sentidos Y de violência (agressão), os entrevistados utili- zavam, majoritariamente, enunciados elocutivos, colocando-se no centro do processo discursivo. ou seja, o entrevistado se apresen- tava como protagonista da ação ou do fato, utilizando vocábulos, como “eu”, “nós” e “a gente”. essa escolha linguística demarca o pertencimento, a filiação do sujeito a esse sentido de violência, como exemplificam os fragmentos a seguir. “[…] na hora do tumulto daquele lá, eu levei elas lá pra cima, mi- nhas duas filha e minha esposa, deixei lá em cima e desci pra briga também.” (Fabrício) “lá, a gente sempre foi soberano sobre eles, nunca… Nós lá era briga de torcida, era nós e a Gaviões, e até hoje é.” (Fabrício) “[…] aí você ia sentando sem camisa e ia juntando, o bonde ia crescendo, e aí, quando via, nós invadia. aí nós pegava os caras, pô, aquilo era legal, aí invadia a torcida dos cara […] Nós agora que tá mais tiozinho, a gente vai mais tranquilo, antigamente, não, antigamente, nós ia pro racha, ia pro pau.” (Bernardo) 36 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz “Uma vez, quando um membro entrou do lado errado da torcida do SPFc… aí eu agredi também.” (lucas) “a gente não ia só pra conversar… depois do susto que eles deram na gente.” (Francisco) “[…] e eu também não vou falar que nós somos anjinho, não, que a gente também não somos anjinho, entendeu? Se vim pra cima também, o bicho pega.” (robson) Nesses enunciados, nota-se a predominância da primeira pessoa do singular ou do plural (“eu” e “nós”), o que reforça a reivin dicação do protagonismo da ação por parte desses enuncia- dores, uma vez que se consideram os principais agentes desses atos. Discussão dos quatro principais discursos Neste tópico, discutiremos especificamente cada um dos quatro principais discursos sobre a violência – d(1), d(2), d(3) e d(4) – produzidos pelos membros de torcidas organizadas do São Paulo Futebol clube. D(1) – agressão o primeiro discurso sobre a violência no futebol, ou d(1), con- templa a agressão e subdivide-se em dois tipos: agressão física e agressão simbólica. reiteramos que o termo “violência” não é aqui empregado para denominar o d(1), pois consideramos que o fenô- meno da violência não pode se restringir a confrontos físicos, agres- sões. tal decisão baseia-se na necessidade de ampliação do conceito de violência para além da agressão, conforme propõe o referencial teórico galtuniano. a seguir, a imagem 5, mostra esquematica- mente os tipos de agressão pertencentes ao d(1). “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 37 imagem 5 – tipos de agressão provenientes da análise das paráfrases per- tencentes ao d(1) esse discurso produziu 106 paráfrases, das quais 93 foram ge- radas pela agressão física e 13 pela agressão simbólica. ressalte-se que d(1) foi o discurso que apresentou a maior produção de pará- frases. a seguir, apresentamos algumas paráfrases produzidas pela agressão física: • “agredir” e seus derivados (“agredida”, “agredi”, “agre- dido”, “agressão”) • “briga” e seus derivados (“brigou”, “brigaiada”, “bri- gador”, “briguenta”) • “matar” e seus derivados (“morte”, “morrer”, “matou”, “se matem”, “matança”) • “pegar”, “ir pra cima”, “tacar uma bomba” • “apanhar”, “soco na cara”, “pau quebrar” • “dar pedrada”, “dar tiro”, “dar um tapa” • “luta”, “sair no pau”, “chute”, “porrada” • “emboscada”, “fazer um esquema” (ou “fazer um es que­ minha”)8 • “assalto”, “roubo” essas paráfrases consideram que a violência no futebol poderia ser representada pela agressão física, abrangendo tanto ações (“agre- dir”, “brigar”) quanto fatos ocorridos (“agredida”, “pau quebrou”). 8. termo nativo utilizado pelos torcedores organizados para designar a realização de uma emboscada para a torcida adversária. “Fazer um esquema” consiste em especular o horário de encontro dos torcedores rivais, para depois surpreendê- -los naquele local com um maior número de pessoas. 38 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz Já as paráfrases produzidas no caso da agressão simbólica re- presentam ações realizadas por indivíduo identificável ou não. a seguir, estão algumas das treze paráfrases produzidas pela agressão simbólica: • “provocar” • “xingar” e seus derivados (“xingando”, “xingamentos”) • “mexer com outra pessoa” • “zoar alguém”, “ser zoado” • “tacar fogo na bandeira” Julgamos que a análise do discurso da agressão pode contribuir em muito para o estudo e o debate sobre a violência no futebol, dada a relevância do tema. conforme será explicitado mais adiante, os torcedores organizados têm visão diferenciada acerca da agressão. todavia, para facilitar a compreensão de como se constitui essa vi- são específica do torcedor organizado, é preciso relacionar os dize- res por eles produzidos com outros discursos. Para tanto, recorreu- -se ao conceito de formação discursiva (Fd),9 proveniente da análise de discurso de linha francesa. de maneira geral, pode-se definir formações discursivas como formulações mais genéricas, das quais os discursos irão aproximar- -se, filiar-se. Para que esse conceito fique mais claro, propomos uma análise do enunciado “sou a favor da igualdade”, proferido por dois enunciadores distintos (a e B) em um contexto de discussão sobre a efetividade ou não de cotas estudantis. a função dessa aná- lise é descobrir quais são os sentidos da palavra “igualdade” para os dois enunciadores. 9. Brandão (1995, p.39) define formação discursiva como “um espaço em que enunciados são retomados e reformulados num esforço constante de fecha- mento de suas fronteiras em busca da preservação de sua identidade”. Sendo assim, no interior (dentro) de uma formação discursiva ocorrem as paráfrases (mecanismo de fechamento do sentido). Por essa razão, em determinada con- juntura, a formação discursiva determina “o que pode e o que deve ser dito” (Pêcheux, 1995, p.160). “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 39 Segundo os preceitos da análise de discurso de linha francesa, a paráfrase irá conduzir a busca pelo sentido da palavra “igualdade”, já que não sabemos de antemão o seu significado para ambos os enunciadores. Por meio da análise das paráfrases ao longo de todo o processo discursivo, descobrimos que o sentido de “igualdade” atribuído pelo enunciador a é: “sou contra as cotas”. Já, para o enunciador B, é: “sou a favor das cotas”. este exemplo confirma que os dois enunciadores, embora te- nham dito a mesma frase (“sou a favor da igualdade”), têm opi- niões e pressupostos diferentes sobre a questão das cotas. logo, os discursos que produzem os dizeres de a e B também são distintos, uma vez que a e B se filiam, se aproximam de diferentes formações discursivas.10 No contexto de discussão deste livro, as opiniões expressas pelos torcedores organizados sobre a violência no futebol concor- dariam com a formação discursiva à qual se filiam. No que diz respei to à agressão, estabelecemos que a formação discursiva de- fendida pelos torcedores organizados pode ser expressa da seguinte maneira: Fd(1): a agressão é justificável/aceitável a Fd(1) é a formação discursiva defendida pelos torcedores organizados, e se opõe fundamentalmente a outra formação discur- siva – a Fd adversária, que será denominada Fd(2). a Fd(2) tem ampla circulação, sobretudo no campo discursivo da mídia, sendo transmitida, em grande medida, pelos meios de comunicação. Pode ser expressa como: Fd(2): a agressão é injustificável/inaceitável 10. em nossa análise, diríamos que o enunciador a aproxima-se de uma formação discursiva caracterizada como “conservadora”, enquanto B aproxima-se de uma formação discursiva “progressista”. 40 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz Oposição fundamental de discursos – FD(1) × FD(2) como se afirmou anteriormente, as duas formações discur- sivas aqui expressas são diametralmente opostas. isso significa que as opiniões filiadas a uma Fd serão automaticamente rechaçadas pela outra. a imagem 6, a seguir, mostra o esquema dessa oposição entre Fd(1) e Fd(2). imagem 6 – Formações discursivas identificadas no d(1): agressão assim como ocorreu com o termo “igualdade” no exemplo an- terior, tal oposição de discursos também perpassa todo o processo de atribuição de significado de alguns termos que são utilizados tanto na formação discursiva dos torcedores organizados, ou Fd(1), quanto na formação discursiva adversária, ou Fd(2). cabe agora detalhar cada formação discursiva, a começar pela Fd(1), a defendida pelos torcedores organizados. FD(1): a agressão é justificável/aceitável essa formação discursiva contém em si três discursos – d(1), d(2), d(3) – que alicerçam sua existência. dito de outro modo, a formação discursiva dos torcedores organizados acerca das causas da agressão – Fd(2) – pode ser sintetizada em três discursos, os quais apresentam as razões, explicam por que alguns torcedores or- ganizados consideram a agressão justificável ou aceitável. os dis- cursos que fundamentam a Fd(1) podem ser expressos como: “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 41 d(1): historicidade dos confrontos envolvendo torcidas orga nizadas d(2): forma de defesa a um ataque anterior d(3): a violência11 é da sociedade É preciso salientar que o d(1), discurso fundamentador da for- mação discursiva defendida pelos torcedores organizados, tem uma justificativa para a atribuição de significado à agressão. Segundo esses torcedores, rivalidade e/ou vingança são as causas dos con- frontos entre torcidas organizadas. dessa maneira, rivalidade e/ou vingança explicariam a existência de um histórico de confrontos envolvendo torcedores organizados. a seguir, a imagem 7 apresenta um esquema geral da Fd(1), indicando os discursos que fundamentam essa formação discursiva. imagem 7 – discursos fundamentadores da Fd(1) Para a compreensão cabal da Fd(1), cumpre reiterar a necessi- dade indispensável de entender que os três discursos que lhe dão sustentação constituem os argumentos que, na visão dos torcedores organizados, tornam a agressão justificável ou aceitável. ou seja, na opinião dos torcedores organizados, esses três elementos dão sentido, tornam válida a agressão. São, portanto, elementos racio- nalizadores da violência. 11. a palavra “violência” foi mantida no d(3), porque se constitui em elemento gerador, fundador desse discurso. embora os entrevistados utilizassem a pa- lavra “violência”, suas paráfrases na verdade se referiam à agressão. ou seja, as palavras utilizadas eram pertencentes ao discurso da agressão, ou d(1), como “soco”, “briga”, “chute”, “luta”. dessa maneira, não seria possível a substi- tuição da palavra “violência” por outra (no caso, “agressão”). 42 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz Para elucidar tal raciocínio, é útil resgatar a analogia construída por Galtung (1990) sobre a validade de atos violentos. Nela, o autor utiliza as cores de um semáforo de trânsito para mostrar como ocorre o julgamento social da violência. Um ato considerado er- rado, proibido, inválido recebe a cor vermelha. a cor amarela desig na um ato aceitável, compreensível. Por fim, a cor verde repre senta um ato permitido, certo, correto. tendo em vista esse julgamento acerca da violência, na con- cepção dos torcedores entrevistados, os confrontos entre torcidas organizadas rivais receberiam a cor verde ou amarela na analogia galtungiana, isto é, seriam corretos ou aceitáveis/compreensíveis. o estudo de Garriga zucal (2010) também pode auxiliar na compreensão do assunto, ao destacar que as hinchadas12 argentinas veem os confrontos violentos como algo positivo. os membros de hinchadas atribuem cor verde às práticas violentas, pelo fato de que tais atos estão em conformidade com o horizonte moral comparti- lhado por esses grupos, o aguante.13 os membros das hinchadas não só querem brigar, como também precisam disso, porque, para eles, é somente por meio de confrontos físicos que se demonstra a posse do aguante (um bem simbólico). como esse é um código comparti- lhado entre hinchadas, não há denúncias à polícia sobre os con- frontos físicos envolvendo tais grupos, uma vez que ambas as partes em conflito assumem de antemão os possíveis resultados. denunciar um enfrentamento não apenas fere o código, como de- monstra falta de aguante (Garriga zucal, 2010). 12. Utilizou-se o termo “hinchadas” em vez de “barra brava”, basicamente por duas razões. Primeiro, é que hinchada (torcida) constitui uma categoria nativa, com a qual os próprios hinchas (torcedores) se identificam. Segundo, é que o termo “barra brava” contém viés estigmatizante (cabrera, 2012; lopes, 2012). 13. etimologicamente, “aguan tar” significa aguentar, suportar. Um hincha deve aguentar, resistir às diversas difi culdades enfrentadas (frio, chuva, sono, via- gens inclusive confrontos físicos). o conceito de aguante constitui uma identi- dade de gênero que conjuga corpo, práticas e experiências (alabarces; Garriga zucal, 2007). “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 43 em decorrência de seu julgamento social sobre o fenômeno da violência, as torcidas organizadas têm concepções distintas das opi- niões dos demais atores do futebol (mídia, polícia, torcedores comuns, jornalistas) no que se refere à agressão. ou seja, não enxer gam a agressão como algo estritamente ilegítimo, inválido, nega tivo, incorreto. em algumas situações, momentos, contextos, a agressão se torna válida, justificável e/ou aceitável, como nas si- tuações que se enquadram no d(2) – forma de defesa a um ataque anterior. considerando que o julgamento social da violência difere de uma torcida organizada para outra, pode-se compreender melhor algumas lógicas dessas torcidas. exemplo disso é um enunciado que surge com frequência quando se fala de violência com os mem- bros dessas instituições: “a torcida não age, reage”. ou seja, em situa ções em que a torcida é atacada, responder com violência torna-se legítimo, válido, aceitável, compreensível, justificável. a partir da compreensão desse ponto, pode-se começar a es- miuçar os elementos internos dos discursos que tornam a agressão justificável ou aceitável. inicialmente, é preciso ressaltar que os d(1) e d(2) – respectiva- mente, historicidade dos confrontos e forma de defesa – justificam a agressão, tentando lhe atribuir sentido (que é negado pela for- mação discursiva adversária). Já o d(3) – a violência é da sociedade – pretende minimizar e relativizar os casos de agressão física e sim- bólica entre torcidas, situando-os em um cenário de violência mais amplo, caracterizado como endêmico e global. Para dar início à abordagem dos discursos que justificam a violência,14 mencionemos o trecho de uma entrevista em que o d(1) – historicidade dos confrontos entre torcidas organizadas – surge de forma inequívoca. o torcedor Nílson, quando questionado sobre a causa dos confrontos entre torcidas organizadas, responde que eles ocorrem: 14. isto é, d(1) – historicidade dos confrontos – e d(2) – forma de defesa a um ataque anterior. 44 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz “Porque ali já tem alguma história, eles já brigaram alguma outra vez, já pegaram alguém na rua… às vezes pega um amigo em uns trinta, aí os caras vão lá para vingar os caras, e é assim que acontece.” este trecho ilustra bem o fato de que as torcidas organizadas estabeleceram, ao longo de sua história, alianças ou confrontos com outras torcidas. cada torcida organizada tem história própria, que é ligada, mas não dependente da história do clube ao qual dá seu apoio. esse é um fator importante que, no entanto, não costuma ser abordado nas discussões envolvendo confrontos físicos entre tor- cidas organizadas. a respeito disso, é interessante destacar um caso que ganhou grande repercussão nacional: a briga entre torcedores do Vasco da Gama e do atlético Paranaense dentro do estádio, em partida vá- lida pela última rodada do campeonato Brasileiro de 2013. Na época do confronto, algumas análises e opiniões revelaram espanto com o fato, pois argumentavam que Vasco e atlético Paranaense não tinham histórico de rivalidade entre si (não são clubes do mesmo estado, tampouco jogaram partidas decisivas ao longo de sua história) que justificasse aquele confronto. embora tais análises tenham apresentado argumentos plausí- veis, elas partiram de um pressuposto equivocado, já que os con- frontos entre torcidas organizadas não ocorrem somente por causa da paixão clubística. Partindo de um diagnóstico equivocado, essas análises não foram capazes de compreender as reais causas daquele enfrentamento, porque não levaram em conta a história das tor- cidas organizadas. É preciso considerar que cada torcida orga- nizada mantém suas próprias rivalidades e alianças, que não obedecem exclusivamente à lógica do clube. a definição de rivalidade entre torcidas organizadas envolve fatores correlacionados, pertencentes aos âmbitos esportivo e ins- titucional. o primeiro está ligado ao clube que a torcida apoia, ao passo que o segundo se refere à história da própria torcida organizada. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 45 No âmbito esportivo, o aumento do número de jogos entre duas equipes, a disputa por títulos ou jogos decisivos e até mesmo a contratação de jogadores são elementos que colaboram para essa rivalidade. Um exemplo recente é a rivalidade entre SPFc e corin- thians.15 No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, foram cons- tantes as disputas de partidas decisivas entre os dois clubes, tanto em campeonatos regionais quanto nacionais, fato que contribuiu para o acirramento da rivalidade entre eles. essa rivalidade cresceu tanto que torcedores corintianos afir- mam com certa frequência que o maior rival de sua equipe deixou de ser o Palmeiras e passou a ser o São Paulo Futebol clube. essa afirmativa também pode ser percebida no discurso dos torcedores organizados do SPFc, a exemplo de elias, que, ao ser questionado sobre quem era o maior rival de sua equipe, responde: “É… o… o corinthians, pelo tamanho da torcida e pelos últimos vinte anos. há uma disputa muito grande em campeonatos, então acaba tendo essa rivalidade que não era assim. até os anos 70, 80, era diferente. em relação à torcida, quanto maior você vai ficando, mais vai incomodando, então acaba criando sempre esse atrito. isso aí é uma coisa que acaba acontecendo naturalmente.” No âmbito da rivalidade institucional, os torcedores organi- zados afirmam que só o fato de determinada torcida ser rival é jus- tificativa para a ocorrência de confrontos físicos. ou seja, a agressão contra torcedores organizados de time rival é aceitável ou justifi- cável, afinal são vistos como inimigos apenas porque são membros de uma torcida adversária. dessa maneira, quando os entrevistados eram inquiridos sobre as causas dos confrontos entre torcidas orga- nizadas, eles respondiam que: 15. historicamente, o principal rival do corinthians é o Palmeiras. essa rivalidade tem raízes na própria fundação dos clubes. entretanto, ao longo dos anos 2000 e 2010, alguns torcedores já apontavam o SPFc como sendo o principal rival do corinthians. Para mais detalhes, veja Napoleão (2001). 46 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz “ahhh, entre torcidas, brigas normais, confrontos que aconte- ceram. Não precisa ter um porquê, um motivo, o porquê já foi es- crito na história, lá… no início das torcidas, quem começou com esta briga não fui eu, não foi ele. Foi os caras lá atrás em 84, quando fundou a dragões.” (Filipe) “Não pode ver um outro grupo rival… quando eles veem, eles partem para cima. então, quando vê um grupo do Palmeiras ou do corinthians, eles vão pra cima.” (Nílson) “[…] quando é seu rival, é seu rival, e você acaba não… não… não tendo simpatia. Você quer o melhor para o seu clube e o pior para o outro. isso é um fator natural. e com as torcidas, no quadro das torcidas, acaba sendo isso mesmo”. (lucas) em alguns casos, a rivalidade entre torcidas organizadas é de tal forma acirrada que, para certas partidas, há um trabalho espe- cífico da torcida organizada para recrutar pessoas que estejam prontas, aptas para o confronto físico, caso seja necessário. a res- peito do assunto, Fabrício afirma: “[…] vamos supor… vai jogar SPFc e Vasco em Brasília, a torcida já faz um trabalho... que é pra levar os cara grande, forte, os cara que têm o conceito dentro da torcida, levar o maior número de pessoas, porque os cara é rival nosso.” a rivalidade entre torcidas organizadas também está ligada à manutenção da reputação coletiva (Spaaij, 2008). as torcidas orga- nizadas estariam envolvidas em um processo de gerenciamento de seu próprio nome, reputação e status no ambiente agremiativo. Sendo assim, alguns membros de torcidas organizadas tentam ser bem-sucedidos nas disputas simbólicas, discursivas e físicas pre- sentes no cotidiano das torcidas. as disputas simbólicas implicam a luta pela obtenção de um bem simbólico, como o status, a reputação da torcida. as “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 47 dispu tas discursivas se manifestam pela constante afirmação e reafir mação discursiva dos próprios sucessos, bem como dos fra- cassos alheios (tradicionalmente, as músicas das torcidas organi- zadas retratam essa batalha discursiva, como será visto adiante). Por fim, as disputas físicas têm em vista o sucesso de uma torcida nos confrontos físicos violentos. Sobre as disputas físicas, seu sucesso provém de não correr, de não fugir de tais confrontos. Fugir é um ato que determina o fim de um enfrentamento físico e o reconhecimento da própria desvan- tagem. Por essa lógica, o ato de correr representaria dano à repu- tação coletiva da torcida organizada, pois implica reconhecer a superioridade da torcida rival. consequentemente, correr ou fugir influencia a reputação da torcida adversária. esse jogo de gerenciamento da reputação de uma torcida orga- nizada verificou-se em um trecho de entrevista em que um tor- cedor menciona a existência de piadas, sátiras e insultos dirigidos às torcidas que correm de um confronto violento: “ahhhh, existe provocação, sim… ainda mais agora com a moda da internet aí. No orkut aí, você entrava lá nas comunidade, os cara: ‘a independente correu na zona Norte’, ‘a independente apanhou num sei onde…’. os cara às vezes até ligava, os que tinha Nextel ligava marcando briga, falando que correu, que deu w.o.” (Fabrício) a disputa pela manutenção da reputação coletiva (Spaaij, 2008) também gera, por vezes, a apropriação da agressão como “constitutiva”, como “marca da torcida”. as músicas entoadas pelas torcidas organizadas desempenham essa função. além de rei- vindicarem a agressão como parte da identidade, algo constitutivo da torcida, suas letras também servem para evidenciar ocorrências de confrontos físicos nos quais a torcida obteve sucesso. isso pode ser observado nas seguintes letras: 48 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz “Vou acabar… com a porcomania É a ordem do dia, porque ser palmeirense nunca foi fama de ser mau… Se não der na mão, eu brigo até de pau… Pode vir todo mundo, que eu não temo ninguém, sou independente, mato um, mato cem. Não se preocupem, amigos, que a paz vai voltar. com a galinhada, eu prometo acabar.” “Vou passar mais uma vez, e a porrada vai rolar e a independente, mais uma vez, vai predominar no palco nacional dos galinhões. Nunca mais vou me esquecer, sacudimos estes cuzões. Foi nessa estrada maravilhosa que a Jovem cu correu. Vou jogar bombas, amor, vou de peixeira, vou dar porrada na torcida do Palmeiras.” “ei, alô, porcada, alô, torcida de cuzão, pra encarar a independente, tem que ter disposição. Vem a Mancha cu, os galinha são corredor. eu sou da independente, a mais temida, o terror. ei, porcooô, deixa de caô, eu sou da independente, a mais temida, o terror. ei, porcooô, deixa de caô, eu sou da independente, a mais temida, o terror. Não somos gari, mas varremos geral. independente, o bonde do mal.” “Não dá pra esconder. eu persigo só você, gambá. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 49 Não dá, não dá, não dá, não dá. Não dá pra esconder. eu persigo só você, gambá. Não dá, não dá, não dá. Só sei que os porco estremece. a Jovem desaparece, inconscientemente, a gente espanca, as mãozinha já não se balança, os bambu já não existe mais. Só sei que a independente é ruim demais. eô, eô, sou da independente, o seu terror.” “Ô Força! Força, fala pra mim, fala por que você correu de mim (então diga) diga, porque será, ponha suas mãozinhas para o ar. Sumiu bambu e também sua faixinha!” “eu sou, eu sou dragões real, torcida de loucão que dá porrada em gavião!” essas letras demonstram a reivindicação da agressão como algo “constitutivo” da torcida, evidenciada sobretudo pela utilização de enunciados elocutivos.16 as letras também revelam práticas das torcidas organizadas relacionadas com a violência, como a utili- zação de armas nos confrontos físicos (“vou jogar bombas, amor, vou de peixeira”), o roubo de materiais de outras torcidas (“sumiu bambu e também sua faixinha”) e a fuga de um confronto (“fala por que você correu de mim”, “a Jovem desaparece”). além disso, 16. o uso constante de palavras “eu” e “nós” (primeira pessoa do singular e do plural), bem como possíveis variações (por exemplo, “a gente”), denota a in- serção do indivíduo nesse cenário de agressão. desse modo, a presença das pa- lavras “eu” (“eu persigo só você, gambá”), “nós” (“varremos geral”) e “a gente” (“a gente espanca”) nas letras das músicas ressalta o protagonismo da torcida quando se trata da agressão. 50 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz nas letras das músicas estão presentes elementos que foram men- cionados nas entrevistas, como rivalidades e denominação pejora- tiva de torcedores e organizadas rivais,17 assim como o status de uma torcida organizada (“torcida de cuzão”, “fama de ser mau” e “a mais temida, o terror”). Pelos elementos apresentados nessas letras, é possível concluir que as músicas das torcidas organizadas são frequentemente utili- zadas para a reivindicação da agressão, na medida em que exaltam os feitos de determinada torcida e, ao mesmo tempo, rebaixam, minimizam ou menosprezam as ações de sua rival. dessa maneira, pode-se sustentar que essas músicas fazem parte das disputas simbó licas, discursivas e físicas desempenhadas pelas torcidas organizadas. tais disputas entre torcidas também podem gerar confrontos físicos que acirram a rivalidade e motivam outros confrontos, ali- mentados pelo desejo de vingança. assim, por exemplo, se mem- bros de uma torcida organizada se envolvem em uma briga com os da torcida rival e acabam apanhando, eles, como parte agredida, buscarão vingança no próximo encontro. ou seja, quem “levou a pior” tentará “dar o troco”, estabelecendo um círculo vicioso em que a vingança se torna um elemento válido. a esse respeito, Fran- cisco, ao recordar um episódio de confronto entre torcidas no qual seu amigo teve os dentes quebrados, disse o seguinte: “aí é que tá, é aí que começa. aí quebraram os dentes dele… ‘ahhh, vamos vingar’… vamos pegar alguém e quebrar os dentes do cara também. 17. Para os torcedores comuns do corinthians, utilizam-se os termos “gambá”, “galinha”, “gaivota”. Para os palmeirenses, são usados “porco”, “porcada”, “porcaiada”, e, para os santistas, “lambari” e “sardinha”. Quanto às orga- nizadas rivais, pode-se observar referência à torcida Jovem do Santos (“a Jovem desaparece”) e também à Força Jovem do Vasco (“a Força Jovem é pequenininha”). “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 51 Sendo assim, em decorrência dos confrontos anteriores, per- sistem os enfrentamentos atuais entre torcidas organizadas, pau- tadas pela busca de vingança. Nesse contexto de violenta rivalidade, a vingança seria uma forma de recuperar a honra perdida (ala- barces; Garriga zucal; Moreira, 2008). os entrevistados relatam casos motivados por vingança: “então… quando um cara pega um em grupo muito grande na rua, eles querem se vingar dos caras… aí vão voltar pra vingar o cara, vingar o amigo.” (Nílson) “Geralmente, quando acontece alguma coisa é porque deve ter acontecido alguma briga antes, por questão de bandeira, porque uma pegou a bandeira da outra, ou deixou perto, puxou e rasgou, geralmente é por causa disso.” (ricardo) “ohh… a vingança, ela vem conforme a natureza vem, né, meu? Se você arrancar a vida de um companheiro hoje, amanhã você pode esperar que pode ser que a sua ou de algum outro compa- nheiro seu, então isso daí a natureza cobra mesmo.” (ademar) Para evidenciar, com base em dados empíricos, a historicidade dos confrontos entre torcidas organizadas, bem como os elementos de rivalidade e vingança, é interessante citar o confronto físico entre palmeirenses e corintianos, ocorrido na avenida inajar de Souza, capital paulista, em 2012. o episódio teria sido uma res- posta a outro anterior, ocorrido em 2011, que resultou na morte de um torcedor corintiano.18 Uma análise mais aprofundada desses dois enfrentamentos envolvendo palmeirenses e corintianos indica a possibilidade de que alguns dos participantes do conflito da inajar de Souza (2012) desejavam vingança. isso porque um dos 18. esse torcedor teria sido morto por torcedores palmeirenses, e seu corpo foi jo- gado no rio tietê (Globo, 2011). 52 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz palmeirenses mortos nesse confronto era irmão de outro torcedor, que fora baleado na perna esquerda no conflito anterior, de 2011. os episódios de vingança são recorrentes, e os próprios torce- dores organizados têm consciência disso. Fabrício, por exemplo, declarou que sabia que a vingança viria após a morte do torcedor santista atacado por um grupo de são-paulinos armados com barras de ferro, na estação da luz, em São Paulo, tanto é que chegou a mudar um hábito para se precaver: “aí pegaram o menino na estação da luz, deram vinte barrada na cabeça dele […] quando aconteceu isso, eu mesmo num usei a ca- misa na semana, você sabia que os cara ia cobrar, tanto é que pe- garam o menino lá.” diante do exposto, pode-se afirmar que, na visão dos torce- dores, a historicidade dos confrontos físicos entre torcidas e a riva- lidade e/ou vingança são elementos que justificam o quadro de violência entre torcidas organizadas. Por fim, resta mencionar o discurso dos torcedores organi- zados que tenta relativizar e/ou minimizar a ocorrência de agres- sões entre torcidas: d(3) – a violência é da sociedade. entre os entrevistados, essa argumentação apresentou compa- rações, relações e contraposições com outras situações sociais, evi- denciando um cenário amplo e genérico de violência, dado que, se “a sociedade é violenta”, por extensão lógica, o futebol também é. Segundo os torcedores organizados, a violência no futebol seria re- flexo de um cotidiano social por eles caracterizado como “proble- mático”, “violento”, “agressivo”. os torcedores entrevistados presumiam que os episódios de violência envolvendo agressão fí- sica e/ou simbólica também aconteceriam em outros ambientes ou situações (por exemplo, trânsito, família, escolas e festas noturnas); logo, não seriam exclusivos do futebol. essa consideração pode ser evidenciada na fala de Filipe: “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 53 “Por exemplo, em porta de balada se briga, se morre, e ninguém fala nada, sabe por quê? Futebol tem muito mais repercussão, passa na tV, e não sei o quê. Gera muito mais notícia, é… vou falar de novo destas manifestações, deu este pau todo quebrando, vandalismo, teve um monte de coisa, e aí? Nada. Não tem lei espe- cífica pra isso, então isso é uma fatia da sociedade.” Para os entrevistados, outro fator que colabora para a ocor- rência desses confrontos seria a própria composição das torcidas organizadas, as quais agregam todos os “tipos” de pessoa. Na con- cepção dos torcedores, as instituições têm uma composição social diversificada, que inclui tanto os elementos positivos, quanto os negativos de uma sociedade. essa visão transparece nas falas dos entrevistados: “[…] a torcida organizada tem membros da sociedade, tem o pobre, tem o burro, tem o estudante, tem o desempregado, tem o preto, tem o branco. então a gente tem uma fatia de tudo que é bom, e o que é ruim da sociedade. […]” (Filipe) “hoje eu acho que é o único lugar que você reúne classes sociais, diferente de outros segmentos. eu vejo diferencial isso na torcida também. Porque eu acho que tipo se fosse numa balada, numa festa é meio que homogêneo.” (augusto) “a torcida é um reflexo da sociedade. tem bandido, tem vaga- bundo, mas tem muito cara bom. tem muito cara bom que tá lá pra torcer, que tá lá pra cantar pro time dele. É o reflexo da socie- dade.” (Francisco) em suma, a argumentação presente no d(3) tenta relativizar e/ ou minimizar os episódios de violência física e simbólica entre tor- cidas organizadas, inserindo-os em um contexto amplo e genérico: a sociedade. Para sustentar tal alegação, boa parte dos torcedores 54 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz entrevistados recorria a comparações, relações e contraposições com outras situações sociais. após essas considerações sobre a Fd(1) – a formação discur- siva defendida pelos torcedores organizados –, é preciso salientar que a concepção das torcidas organizadas sobre agressão física e simbólica distingue-se da opinião dos demais atores do futebol. elas expressam um julgamento social por meio de discursos – d(1), d(2), d(3) – que procuram racionalizar a ocorrência da agressão, ao passo que a formação discursiva adversária – Fd(2) – defende po- sições opostas, como veremos no próximo tópico. FD(2): a agressão é injustificável/inaceitável ao contrário da Fd(1), analisada anteriormente, a formação discursiva adversária – Fd(2) – contém argumentos que condenam a agressão, sustentando que não se deve “fazer justiça com as pró- prias mãos”, ou seja, não se deve “responder à violência com vio- lência”. dada sua ampla circulação em diversos campos discursivos, em especial nos meios de comunicação, o discurso proveniente da Fd(2) está disseminado no cotidiano social, condenando, repri- mindo e repelindo, incondicionalmente,19 os atos de agressão (sobre tudo a agressão física). Para citar um exemplo de julgamento incondicional, no ano de 2014, a população do rio de Janeiro passou a “fazer justiça com as próprias mãos” e, após o caso do jovem menor de idade que foi acorrentado nu a um poste por três cidadãos, o debate sobre a “onda dos justiceiros” ganhou repercussão nacional. Uma das testemu- nhas desse episódio divulgou na internet um relato de sua indig- nação diante do fato, condenando expressamente o ato de “fazer justiça com as próprias mãos”: 19. Pode-se perceber aqui uma diferença entre Fd(1) e Fd(2) quanto à avaliação, ao julgamento dos atos de agressão: na Fd(2), a agressão é sempre (incondicio- nalmente) avaliada como algo negativo, inaceitável, errado. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 55 “eu não quero saber se ele é bandidinho ou bandidão, você não pode amarrar uma pessoa da rua. aquela área do Flamengo teve um aumento muito grande de violência e roubos recentemente. como as coisas não melhoram, um bando de garotões se juntam e começam a fazer justiça com as próprias mãos. Sei que tem muita marginalidade e a polícia é ineficaz, mas você não pode juntar um grupo e começar a executar pessoas.” o discurso de que a agressão é condenável, inaceitável e injus- tificável passou a ser mais evidente e reproduzido após outro caso de grande repercussão. em 2014, uma mulher de 33 anos foi lin- chada por diversos vizinhos na cidade de Guarujá (SP), após ser acusada, injustamente, de sequestrar crianças para a realização de trabalhos de magia negra (record, 2014). No contexto futebolístico, a presença do discurso contra a agressão física resta evidente, por exemplo, em um título do pro- grama Bate-Bola do canal eSPN, exibido no dia 25 de agosto de 2014: “[Paulo] calçade não gosta do ambiente do Flu. apesar da vitória, a violência da torcida é injustificável”. a consideração de que a violência é injustificável revela a afiliação desse discurso à Fd(2). há incontáveis exemplos de discursos de jornalistas, radia- listas, comentaristas, apresentadores de programas esportivos etc. condenando casos de agressão entre torcidas organizadas com base no entendimento de que tais confrontos são “desprovidos de razão”, “sem sentido”, “injustificáveis”. Muitos dos discursos filiados à Fd(2) recorrem às mesmas deno minações pejorativas e estigmatizantes para caracterizar as tor cidas organizadas e seus membros (“vândalos”, “vagabundos”, “marginais” etc.). trata-se de preconcepções que estabelecem um prejulgamento sobre o torcedor organizado. tais concepções po- dem, inclusive, finalizar debates jornalísticos sobre a questão da violência no futebol, pois as altercações prosseguem até “alguém soltar a frase-chavão preferida neste tipo de discussão: eles não são torcedores – ‘são vândalos travestidos de torcedores’. Uma frase 56 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz definitiva que propaga o silêncio na mesa” (rossi; Mendes Júnior, 2014, p.242). de maneira geral, a Fd(2) opõe-se e/ou desqualifica os dis- cursos que fundamentam a Fd(1), ao desconsiderar os elementos discursivos utilizados pelos torcedores organizados para raciona- lizar e justificar a agressão, quais sejam, a historicidade dos con- frontos entre torcidas – d(1) –, a agressão como forma de revide a um ataque anterior – d(2) – e a caracterização da sociedade como violenta – d(3). logo, os discursos que se filiam à Fd(2) trazem em geral as seguintes características: 1) apontam as torcidas organizadas como as únicas respon- sáveis pela violência no futebol. 2) estigmatizam os torcedores com diversas adjetivações nega- tivas (“delinquentes”, “bandidos”, “vândalos”). 3) ressaltam o comportamento das torcidas organizadas como algo prejudicial ao clube de futebol. 4) concebem a agressão entre torcedores como sem sentido, desprovida de razão, gratuita. Para demonstrar tais características, citamos, a seguir, alguns trechos de discursos que responsabilizam, estigmatizam, atribuem culpa às torcidas e concebem como “absurdas” as agressões entre torcedores organizados. trata-se de fragmentos produzidos por jornalistas, comentaristas e apresentadores de programas espor- tivos e, até mesmo, por um jogador de futebol. “e aí uns imbecis, uns babacas, uns caras sem controle, pessoas que não têm respeito pelos outros, que estão comemorando, que estão vivendo verdadeiramente a festa cruzeirense, vão lá e fazem este tipo de espetáculo. É da mesma torcida, não dá pra entender, não tem explicação.” (renata Fan) “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 57 “talvez assim estes trogloditas sintam a gravidade do que fi- zeram, porque uma vida parece valer pouco para este tipo de gente.” (andré rizek) “É uma ignorância que eu num sei por quê. Vê se alguém quebrou a vitalícia do corinthians? Veja se alguém quebra a vitalícia do Palmeiras, a vitalícia do Morumbi, ninguém quebra. o cara quebra onde fica a organizada, é lá que tem o quebra-quebra. Quebra-quebra de banheiro, quebraram o banheiro do corin- thians também, não foi só cadeira.” (luiz ceará) “Bom, isso na verdade, isso é um baita de um absurdo, coisa que num tem… num tem… num tem sentido, né? […] agora, palmei- rense bater em palmeirense é demais, né? Num dá pra entender um negócio desse.” (osmar de oliveira) “Não bastasse a tragédia de oruro, não é que organizados corin- tianos e vascaínos fizeram seus clubes perderem quatro mandos de campo por aquela briga em Brasília? […] e ‘organizados’ do Palmeiras não poderiam ferir o clube mais profundamente, desde o ano passado, quando decidiram, na base da violência, mostrar que eram os salvadores da pátria. Por culpa desses ‘torcedores’, o Palmeiras teve de começar a Série B mandando seus quatro pri- meiros jogos fora da cidade de São Paulo.” (roberto avallone) “as bandeiras brancas que antes tremulavam nas arquibancadas hoje se transformaram em armas brancas nas mãos desses ban- didos. resumidamente, na minha opinião, os integrantes de tor- cidas organizadas não têm direito sequer de reclamar quando o time perde – tendo em vista que nem ingresso eles pagam – quanto mais agredir ou intimidar jogadores.” (Fred) “Se nenhuma atitude for tomada imediatamente […] e esses co- vardes invadirem as laranjeiras querendo agredir jogador, eu, como capitão do time, vou reunir o grupo, e o Fluminense não en- 58 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz trará em campo no próximo domingo para enfrentar o Sport. eles usam as armas que têm, e nós usaremos as nossas. a diferença é que somos trabalhadores honestos, já eles são a escória da socie- dade. lugar de bandido é na cadeia.” (Fred) esses fragmentos expressam a concepção contida nos discursos pertencentes à Fd(2) de que a agressão entre torcedores organi- zados seria um retorno à selvageria, uma submissão aos instintos primitivos do ser humano. Por essa razão, diferem totalmente da caracterização realizada pelos próprios torcedores organizados, contida nos discursos fundamentadores da Fd(2). levando em conta essa oposição fundamental de discursos, o próximo tópico irá tratar, em linhas gerais, das oposições discur- sivas entre Fd(1) e Fd(2), apresentando as diferenças na atri- buição de significado de alguns termos, bem como os enunciados na negativa. Oposições na atribuição de significados – FD(1) × FD(2) No que se refere à oposição de significação entre as formações discursivas – Fd(1) e Fd(2) –, primeiramente é preciso abordar a expressão “torcida organizada”. Para a Fd(1), esse termo estaria mais vinculado a significados positivos, uma vez que a torcida orga nizada seria responsável por “apoiar o time incondicional- mente” e “fazer a festa nos estádios”. Já na Fd(2), a expressão es- taria mais ligada a significados negativos, dado que a torcida organizada seria capaz de “prejudicar o time” ou “pressionar de- mais o clube”. essa diferença de significação também pode perpassar posicio- namentos sobre a manutenção ou extinção dessas instituições. Não raro, os discursos vinculados à Fd(2) defendem a extinção das tor- cidas organizadas como solução para o problema da agressão entre torcedores organizados. Por outro lado, os discursos pertencentes à Fd(1) assumem que o banimento das torcidas organizadas não inter fere no cenário de agressão física. “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 59 No que diz respeito à significação de uma palavra ou expressão, cabe ressaltar que a principal diferença entre formações discursivas reside no termo “agressão física”. assim, comparando as duas for- mações discursivas, conclui-se que: Para a Fd(1), agressão física é racional, motivada. Para a Fd(2), agressão física é irracionalidade, imbecilidade, imotivada. Para a Fd(1), agressão física é histórica e contemporânea (faz parte da história do ser humano e da sociedade). Para a Fd(2), agressão física é retorno à selvageria (está ligada ao passado, alheia à civilização). Para a Fd(1), agressão física é necessária em algumas situações. Para a Fd(2), agressão física é desejada e gratuita em todas as situações. No processo de diferenciação de atribuição de significados em ambas as formações discursivas, surgem enunciados que chamam a atenção. trata-se dos chamados “enunciados na negativa”, dos quais um exemplo clássico, traduzido para o mundo do futebol, seria: “torcida organizada não tem só bandido”. os enunciados na negativa demonstram dois fatores correla- cionados: o combate da Fd(1) aos discursos produzidos no âmbito da Fd(2), e a incorporação, por parte dos torcedores organizados, de alguns enunciados e/ou significações da formação discursiva adversária. ou seja, para se definirem, os próprios torcedores orga- nizados por vezes recorrem à negação de características que lhes são atribuídas pela Fd(2). entre os enunciados na negativa que surgi- ram no discurso dos torcedores entrevistados, pode-se mencionar: “Num é igual ao Flávio Prado, que só fala ‘é tudo vagabundo, tudo bandido, tem que prender todo mundo’. ele num sabe.” (Francisco) 60 Marcelo Fadori SoareS PalhareS • GiSele Maria Schwartz “a torcida não é este bicho-papão todo [que] a mídia tem o prazer de mostrar.” (daniel) “ahhh… as torcida organizada num é bem-vista, né, cara? os cara acha que só tem bandido lá. a polícia acha que só tem ban- dido, polícia acha que na organizada só tem bandido […] eu mesmo pensava que aqui só tinha maloqueiro aqui, que só tinha bandido… num é assim não, cara.” (Fabrício) cabe notar que a explicitação do embate de dizeres e signifi- cados entre distintas formações discursivas – Fd(1) × Fd(2) – que acabamos de realizar teve como objetivo elucidar como os torce- dores organizados interpretam a agressão entre torcidas de futebol. os três discursos produzidos pelos torcedores – d(1), d(2) e d(3) – não apenas fundamentam a agressão na história das próprias torci das organizadas, e possuiria novos episódios decorrentes da riva idade e/ou vingança. entre esses elementos, ressalte-se a exis- tência de disputas simbólicas, discursivas e físicas entre torcidas organizadas, visando à manutenção da reputação cole tiva de seus grupos. Por fim, com base nos discursos de torcedores organizados, pudemos compreender um pouco mais sobre as formas de interpre- tação da agressão física e simbólica por parte desses grupos. reto- mando a tríade da violência, agora é possível entender por que o julgamento social acerca da violência difere de acordo com a torcida. os membros de torcidas organizadas envolvidos em um con- fronto físico conhecem, compreendem e aceitam as lógicas ali en- volvidas, ao contrário das testemunhas, que as desconhecem e/ou interpretam o confronto como um retorno à selvageria, como algo sem sentido, sem razão de ser. Nessa situação, os envolvidos no conflito geralmente irão se filiar à Fd(1), ao passo que as teste- munhas irão aderir à Fd(2). “NÃo É SÓ a torcida orGaNizada” 61 D(2) – o discurso da precariedade de infraestrutura física e dos serviços dentro dos estádios o segundo discurso – d(2) – considera a precariedade ou ausên cia de infraestrutura física e serviços nos estádios como uma forma de violência. Segundo os entrevistados, essa forma de vio- lência seria uma “falta de respeito ao torcedor”, e poderia causar mais violência, sobretudo violência física. No âmbito do d(2) foram produzidas as seguintes paráfrases: • “Estádio caindo aos pedaços” • “Estádio descoberto” • “Tomar chuva” • “Banheiro porcaria” • “Banheiro quebrado” • “Entradas pequenas” • “Comida ruim” • “Lanche ruim” • “Água cara” os torcedores entrevistados avaliaram que as instalações e ser- viços dos estádios