UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA “JÚLIO DE MESQUITA FILHO” FACULDADE DE ENGENHARIA CÂMPUS DE ILHA SOLTEIRA MARCIO ROBERTO DE MORI MACHADO ANÁLISE DE PERDAS DE ÁGUA EM REGIÕES SOCIALMENTE VULNERÁVEIS DA CIDADE DE SÃO PAULO Ilha Solteira 2025 Campus de Ilha Solteira PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO E REGULAÇÃO DE RECURSOS HÍDRICOS - PROFÁGUA MARCIO ROBERTO DE MORI MACHADO ANÁLISE DE PERDAS DE ÁGUA EM REGIÕES SOCIALMENTE VULNERÁVEIS DA CIDADE DE SÃO PAULO Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional e Gestão e Regulação de Recursos Hídricos – ProfÁgua, por meio da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP – Câmpus de São Paulo) como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre. Prof. Dr. Maurício Augusto Leite Orientador Profª. Drª. Liliane Lazzari Albertin Coorientadora Ilha Solteira 2025 DEDICATÓRIA Ao longo desta jornada de pesquisa e aprendizado, fui abençoado com o apoio e encorajamento de tantas pessoas especiais. Dedico este trabalho à minha família, cujo amor incondicional e apoio constante foram minha rocha durante os momentos desafiadores. Agradeço aos meus amigos e colegas pelo incentivo e inspiração. Ao meu orientador, Prof. Dr. Maurício Augusto Leite e minha coorientadora Prof.ª. Drª. Liliane Lazzari Albertin, expresso minha profunda gratidão pela orientação sábia, paciência e apoio ao longo deste processo. Este trabalho é uma homenagem ao esforço coletivo de todos aqueles que contribuíram para o meu crescimento acadêmico e pessoal. Que ele possa servir como um testemunho do nosso compromisso com a excelência e a busca do conhecimento. Muito obrigado a todos que tornaram este momento possível. AGRADECIMENTOS O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) através do Convênio CAPES/UNESP Nº. 951420/2023. Agradeço ao Programa de Mestrado Profissional em Rede Nacional em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos - ProfÁgua apoio técnico científico aportado até o momento. RESUMO As perdas de água em sistemas de abastecimento estão se tornando um assunto cada vez mais importante para a sociedade, organizações e poder público. Essa é uma tarefa ainda mais complexa para as empresas que gerenciam o abastecimento de água principalmente quando se trata de áreas de alta vulnerabilidade social e reflete a urgência de ações eficazes para garantir a disponibilidade desse recurso. A partir desses aspectos esse trabalho tem como objetivo avaliar a relação entre perda de água e regiões de vulnerabilidade social. Os materiais e métodos utilizados foram o IPVS (Índice Paulista de Vulnerabilidade Social) e o IPDT (Índice de Perdas de Água na Distribuição) em 14 bairros do município de São Paulo. Os resultados deste trabalho mostraram a que há uma relação significativa entre a vulnerabilidade social e as perdas de água no sistema de abastecimento da cidade de São Paulo. A partir da utilização do IPVS para a classificação dos setores censitários, foi possível identificar zonas com diferentes graus de vulnerabilidade, que vão desde nenhuma até muito alta, com maior concentração nas regiões periféricas da cidade. Conclui-se que a gestão eficiente dos sistemas de abastecimento de água deve considerar as especificidades socioeconômicas das regiões atendidas, especialmente aquelas com altos índices de vulnerabilidade social. Palavras-chave: uso racional da água; gestão sustentável da água; escassez hídrica. ABSTRACT Water losses in supply systems are becoming an increasingly important issue for society, organizations, and public authorities. This task is even more complex for companies managing water supply, especially when it involves areas of high social vulnerability, reflecting the urgency of effective actions to ensure the availability of this resource. Based on these aspects, this study aims to evaluate the relationship between water loss and regions of social vulnerability. The materials and methods used were the IPVS (São Paulo Social Vulnerability Index) and the IPDT (Water Distribution Loss Index) in 14 neighborhoods of the city of São Paulo. The results of this study showed that there is a significant relationship between social vulnerability and water losses in the water supply system of São Paulo. By using the IPVS to classify census sectors, it was possible to identify zones with different levels of vulnerability, ranging from none to very high, with a higher concentration in the peripheral regions of the city. Given the results obtained, it is clear that efficient management of water supply systems must consider the socioeconomic specificities of the regions served, especially those with high social vulnerability indices. Keywords: rational use of water; sustainable water management; water scarcity. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Histograma de índice de Perdas por Ligações.............................. 22 Figura 2 - Bairros/Setores de Abastecimento da amostra.............................. 42 Figura 3 - Mapa do IPVS da cidade de São Paulo......................................... 47 Figura 4 - IPDT dos bairros/setores de abastecimento.................................. 59 Figura 5 - Relação entre Vulnerabilidade Social e Perdas de Água............... 62 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Áreas de Investimento em Saneamento ANA até 2035.................. 20 Tabela 2 - Causas mais comuns em relação as perdas aparentes de água.... 23 Tabela 3 - Comparação entre Perdas Reais e Aparentes.............................. 24 Tabela 4 - Indicadores utilizados pelo IBGE para classificar níveis sociais.... 29 Tabela 5 - Classificação de áreas de vulnerabilidade social.......................... 30 Tabela 6 - Classificação de áreas de vulnerabilidade social (IPVS) no Estado de São Paulo..................................................................... 32 Tabela 7 - Descrição das fontes para cálculo do IPDT................................... 50 Tabela 8 - Número de setores censitários de Média, Alta e Muito Alta Vulnerabilidade Social segundo IPVS. Cidade de São Paulo............................................................................................. 57 Tabela 9 - IPDT - Índice de Perdas de Água na Distribuição (Litros/Ramal x dia) dos 14 bairros........................................................................ 60 Tabela 10 - IPDT x Classificação da Vulnerabilidade Social.......................... 67 LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas ANA Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico CCO Centros de Controle Operacional DMC Distritos de Medição e Controle IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPDT Índice de Perdas Totais na Distribuição IPVS Índice Paulista de Vulnerabilidade Social IWA International Water Association ODS Objetivo de Desenvolvimento Sustentável SABESP Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo SNIS Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento STBD Serviço Técnico de Biblioteca e Documentação Unesp Universidade Estadual Paulista LISTA DE SÍMBOLOS E FÓRMULAS Equação 1 - Cálculo do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS)....... 45 Equação 2 - Quantidade de Ligações de Água (NLA)..................................... 53 Equação 3 - Cálculo do IPDT- Índice de Perdas de Água na Distribuição....... 54 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 12 2 OBJETIVOS ...................................................................................................................... 16 2.1 Objetivo Geral .............................................................................................. 16 2.2 Objetivos Específicos ................................................................................... 16 3 REVISÃO DE LITERATURA ....................................................................................... 17 3.1 Perdas de Água em Sistemas de Abastecimento e Distribuição .................. 17 3.1.2 Classificação e Características Perdas de Água ..................................... 22 3.2 Perdas de Água em Áreas de Alta Vulnerabilidade Social ........................... 26 3.2.1 Classificação de áreas de Vulnerabilidade Social ................................... 28 3.2.2 Relação de Perdas de Água com áreas de alta Vulnerabilidade Social 34 3.2.3 Metas de Redução de Perdas em Áreas Vulneráveis .............................. 36 4 MATERIAIS E MÉTODOS ............................................................................................ 40 4.1 Caracterização da Área de Estudo do Trabalho ........................................... 40 4.2 Pesquisa para Classificação do IPVS .......................................................... 43 4.3 Identificação dos fatores que contribuem para as perdas de água .............. 48 4.3.1 Coleta dos dados volumétricos ................................................................ 49 4.4 Cálculo dos índices de Perdas na Distribuição (IPDT) bairros de São Paulo 54 5 RESULTADOS ................................................................................................................ 56 5.1 Índice Paulista de Vulnerabilidade Social .................................................... 56 5.2 Índices de Perdas na Distribuição ............................................................... 58 5.3 Relação entre IPVS e IPDT ......................................................................... 61 5.4 Discussões .................................................................................................. 67 6 CONCLUSÕES ............................................................................................................... 72 REFERÊNCIAS ........................................................................................... 73 APÊNDICE A – Cálculo do IPDT Setores de Abastecimento ...................... 78 12 1 INTRODUÇÃO Reduzir as perdas de água e promover o desenvolvimento em áreas socialmente vulneráveis de São Paulo são estratégias importantes para garantir a sustentabilidade e o abastecimento urbano de água. Essas áreas enfrentam desafios complexos, como infraestrutura precária, alta vulnerabilidade social e dificuldade de acesso à água, exigindo ações abrangentes e eficazes. As estratégias para reduzir perdas incluem a atualização e manutenção da rede de distribuição de água, o controle e a redução da pressão da água, o uso de tecnologia avançada para detectar vazamentos, a gestão eficiente por meio de um escritório de projetos e o envolvimento da comunidade por meio da educação ambiental. O Novo Marco Legal do Saneamento estabeleceu metas para universalizar o acesso à água potável e ao tratamento de esgoto até 2033, o que inclui a redução das perdas de água como parte essencial para a eficiência dos serviços. A lei e suas regulamentações recentes (Lei nº 14.026/2020) incentivam a regionalização dos serviços e a ampliação da participação privada, o que tende a aumentar investimentos em infraestrutura e tecnologia para controle e redução de perdas físicas e comerciais na rede de abastecimento. Segundo o Instituto Trata Brasil (2023) a obrigatoriedade de metas de qualidade e eficiência na prestação dos serviços, previstos no Marco Legal, estimula as prestadoras a adotarem práticas mais rigorosas de monitoramento e manutenção, reduzindo desperdícios e perdas. A maior transparência e regulação tarifária também contribuem para que as perdas sejam minimizadas, garantindo sustentabilidade econômica e ambiental do setor. Portanto, a relação do Novo Marco Legal com a redução de perdas está no estímulo a investimentos, na exigência de metas de eficiência e na promoção da gestão regionalizada e profissionalizada dos serviços, que juntos favorecem a diminuição das perdas de água e melhoram a sustentabilidade do saneamento básico no Brasil. A gestão dos recursos hídricos no Brasil enfrenta desafios significativos, especialmente em regiões socialmente vulneráveis, onde a escassez de água e a ineficiência na gestão dos recursos hídricos são comuns. O Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico 13 (ANA) destaca a importância de entender os padrões de consumo de água no país, revelando que o uso consuntivo da água está aumentando em diferentes setores, como agricultura e abastecimento urbano. (ANA, 2024). As perdas de água representam um problema crítico especialmente em áreas socialmente vulneráveis da cidade de São Paulo. A infraestrutura precária e a falta de manutenção regular resultam em perdas significativas, que não apenas desperdiçam um recurso valioso, mas também aumentam os custos operacionais e reduzem a eficiência dos sistemas de distribuição. Desenvolver estratégias por meio de um manual subsidiará a tomada de decisões para minimizar essas perdas. Com base nas informações apresentadas em relação aos impactos que as perdas têm em áreas de alta vulnerabilidade social em relação à preservação dos recursos hídricos, além dos impactos financeiros e ambientais, verificamos que a situação em relação às perdas de água no Brasil é extremamente preocupante. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022) divulgou dados importantes sobre o acesso à água no Brasil, revelando que, em 2022, cerca de 27 milhões de brasileiros (13,4% da população) não tinham abastecimento de água por rede geral em seus domicílios. Por outro lado, 82,9% da população possuía ligação com a rede geral de abastecimento, enquanto 3,7% tinham ligação, mas utilizavam outras fontes principais de água devido a problemas na rede. No que diz respeito à segurança alimentar, o IBGE apontou que, 72,4% dos domicílios brasileiros estavam em situação de segurança alimentar, ou seja, tinham acesso permanente a alimentação adequada. Ainda assim, 27,6% dos domicílios enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, sendo 4,1% em situação grave, o que corresponde a cerca de 3,2 milhões de domicílios. Esses dados indicam uma melhora em relação a pesquisas anteriores, mas evidenciam que a insegurança alimentar ainda afeta uma parcela significativa da população. Além disso, o IBGE, em parceria com a Agência Nacional de Águas (ANA) e o Ministério do Meio Ambiente, tem desenvolvido as Contas Ambientais da Água, que mostram a relação entre a disponibilidade e a demanda hídrica dos setores econômicos. Essas contas indicam que a agricultura, especialmente a de sequeiro, enfrenta déficit hídrico médio de 37%, o que impacta diretamente a produção e o valor agregado do setor na economia brasileira. (IBGE 2023). Esses dados do IBGE evidenciam os desafios sociais e econômicos relacionados ao acesso à água e à crise hídrica no Brasil, com impactos diretos na 14 segurança alimentar e na produção agrícola, setores fundamentais para o desenvolvimento do país. De acordo com o estudo “Perdas de Água 2023” do Instituto Trata Brasil, elaborado a partir de dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) com ano base 2021, o Brasil enfrenta um grave problema de perdas no sistema de distribuição de água potável, com índices que ultrapassam 40%. Isso significa que mais de 40% da água tratada é desperdiçada antes de chegar às residências, devido a vazamentos — que especificamente como perdas físicas —, erros de medição e consumos não autorizados. O volume total de água não faturada em 2021 foi estimado em cerca de 7,3 bilhões de metros cúbicos, o equivalente a quase oito mil piscinas olímpicas de água tratada desperdiçadas diariamente, ou mais de sete vezes o volume do Sistema Cantareira, o maior conjunto de reservatórios do Estado de São Paulo. (Instituto Trata Brasil, 2023) Os indicadores de sustentabilidade urbana desempenham um papel crucial nesse processo, fornecendo informações valiosas para o monitoramento e a avaliação da eficácia das ações de gestão. Ao identificar os pontos críticos e as áreas de melhoria, esses indicadores auxiliam na tomada de decisões e na formulação de políticas públicas que promovam a redução de perdas e o desenvolvimento urbano de forma integrada. A escassez de água é uma preocupação crescente que afeta muitas regiões do Brasil, especialmente as populações mais vulneráveis, e reflete profundas desigualdades sociais e ambientais. Conforme destaca a Habitat Brasil (2024), embora o país detenha uma parcela significativa da água doce mundial, sua distribuição desigual e os impactos combinados de fatores naturais e ações humanas agravaram a crise hídrica. A urbanização desordenada, o uso ineficiente dos recursos, a poluição, além da precariedade da infraestrutura de abastecimento e saneamento, dificulta o acesso regular à água potável em muitas comunidades. Esta realidade evidencia que a escassez não se limita à falta física do recurso, mas incluem dimensões de qualidade, acesso e justiça social, que devem ser encaradas de forma integrada para garantir a sustentabilidade e o direito universal à água. Nesse sentido, os índices compostos de sustentabilidade emergem como ferramentas valiosas para sintetizar informações complexas e fornecer uma visão integrada do estado das bacias hidrográficas. Ao combinar diferentes indicadores ambientais, sociais e econômicos, esses índices permitem identificar os pontos fortes 15 e fracos da gestão hídrica, orientando a tomada de decisões e a formulação de políticas públicas (Branchi, 2022). Investimentos em infraestrutura, estímulo ao reuso de água, campanhas de conscientização e aprimoramento da gestão operacional e comercial das companhias de saneamento são algumas das soluções necessárias. Antes do novo Marco Legal, o setor de saneamento básico no Brasil enfrentava diversos desafios, como as altas taxas de perdas de água, chegando a 38,5% em 2019, uma das maiores do mundo, cobertura insuficiente de coleta e tratamento de esgoto, com apenas 53% da população atendida e a falta de investimentos e dificuldades na universalização dos serviços (Granziera, 2023). Este trabalho tem como objetivo relacionar as perdas de água em regiões socialmente vulneráveis e analisar as estratégias para diminuição dessas perdas de água e promover o desenvolvimento nessas regiões. 16 2 OBJETIVOS Como proposta para ampliar o impacto do trabalho, sugere-se o desenvolvimento de um manual técnico-operacional que integre informações socioeconômicas e técnicas dos índices IPVS e IPDT, auxiliando gestores na priorização de investimentos e ações de redução de perdas em áreas vulneráveis. Esse manual contemplaria metodologias para diagnóstico, monitoramento periódico para promover uma gestão participativa e eficiente dos recursos hídricos urbanos 2.1 Objetivo Geral Avaliar a relação entre as perdas de água no sistema de abastecimento e os níveis de vulnerabilidade social em diferentes bairros do município de São Paulo, com o intuito de subsidiar a formulação de estratégias que promovam a redução dessas perdas e a melhoria do abastecimento. 2.2 Objetivos Específicos Aplicar o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) para classificar os setores censitários dos bairros selecionados quanto aos seus níveis de vulnerabilidade social. Identificar as áreas críticas onde a combinação de alta vulnerabilidade social e elevados índices de perdas é mais evidente. Utilização do Índice de Perdas de Água na Distribuição (IPDT) para quantificar e comparar as perdas de água físicas em 14 bairros do município de São Paulo. A seleção dos 14 bairros para análise destes critérios fundamentais de representatividade das diversas realidades socioeconômicas e infraestruturas presentes no município de São Paulo. Essa amostra permite contemplar uma ampla gama de vulnerabilidades sociais, refletidas no IPVS, e diferentes condições operacionais da rede de distribuição avaliadas pelo IPDT, garantindo o equilíbrio entre variabilidade e previsões técnicas para o estudo. 17 3 REVISÃO DE LITERATURA 3.1 Perdas de Água em Sistemas de Abastecimento e Distribuição O Novo Marco Legal do Saneamento Básico, instituído pela Lei 14.026 de 2020, representa uma das reformas mais significativas no setor de saneamento no Brasil. Seu objetivo principal é a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033, estipulando metas ambiciosas, como 99% da população com acesso à água tratada e 90% à coleta e tratamento de esgoto. A lei também busca reduzir as perdas na distribuição de água de 40% para 25% nesse período. Essa reforma introduziu mudanças estruturais e regulatórias que visam modernizar o setor, atrair investimentos privados e melhorar a eficiência dos serviços prestados (Brasil, 2020) O Relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2023, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, oferece uma visão abrangente sobre a situação atual dos recursos hídricos no país. Este relatório é essencial para entender os desafios e oportunidades na gestão dos recursos hídricos brasileiros, fornecendo dados sobre disponibilidade hídrica, qualidade da água, usos do recurso e impactos da mudança climática (ANA, 2023) No Brasil, a gestão eficiente dos recursos hídricos enfrenta desafios atuais, especialmente devido ao elevado índice de perdas de água na distribuição. Conforme o estudo “Perdas de Água 2023” do Instituto Trata Brasil, realizado em parceria com a GO Associados e baseado em dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2021, aproximadamente 7,3 bilhões de metros cúbicos de água tratados não foram faturados naquele ano. Para se ter uma ideia da dimensão desse volume, ele equivale a quase oito mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente. Esse desperdício representaria o suficiente para abastecer durante um ano e meio todas as pessoas que vivem em favelas no país, cerca de 17,9 milhões de habitantes. Esses números evidenciam a urgência em adotar medidas efetivas para minimizar as perdas e ampliar a disponibilidade hídrica, sobretudo para população em maior situação de vulnerabilidade (Instituto Trata Brasil, 2023). O índice nacional de perdas na distribuição de água foi de 40,25% em 2021, mostrando uma leve deterioração em relação ao ano anterior. A Região Norte apresentou o pior desempenho, com 51,16% de perdas na distribuição. Esses dados destacam a necessidade urgente de políticas públicas e investimentos para melhorar 18 a eficiência dos sistemas de distribuição de água. A redução dessas perdas é essencial para alcançar a universalização do saneamento básico no Brasil, conforme estabelecido pelo Novo Marco Legal do Saneamento. A literatura sobre perdas de água no Brasil sugere que a combinação de políticas públicas eficazes com investimentos em infraestrutura pode ser uma estratégia eficaz para minimizar essas perdas. Além disso, a conscientização sobre a importância da gestão eficiente dos recursos hídricos é fundamental para garantir a segurança hídrica no país. O estudo do Instituto Trata Brasil serve como um alerta sobre a necessidade de ações coordenadas para enfrentar os desafios na gestão dos recursos hídricos, especialmente em um contexto de crescente demanda por água e mudanças climáticas. Nos últimos anos, a sociedade tem enfrentado desafios significativos devido à intensificação da crise hídrica, ressaltando a fundamental importância de combater as perdas de água para mitigar essas consequências. É evidente que, embora tenha havido investimentos sistemáticos na expansão das redes de água no Brasil, a manutenção e a eficiência desses sistemas não receberam a atenção e a estratégia necessárias para evitar o aumento das perdas hídricas. (Santos et al., 2023). O "Estudo de Perdas de Água do Instituto Trata Brasil de 2023 – SNIS (2021): Desafios para Disponibilidade Hídrica e Avanço da Eficiência do Saneamento Básico no Brasil" apresenta uma análise abrangente das perdas de água nos sistemas de abastecimento do país, utilizando dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). O estudo destaca a importância da redução de perdas como um fator chave para a eficiência dos operadores de saneamento e para a garantia da disponibilidade hídrica, especialmente em um cenário de crescente escassez em diversas regiões do Brasil. O estudo define perdas de água como os desperdícios que ocorrem no processo de abastecimento, incluindo vazamentos, erros de medição e consumos não autorizados. A metodologia utilizada segue o padrão da International Water Association (IWA), que divide as perdas em "reais" (físicas, como vazamentos) e "aparentes" (não físicas, como fraudes e erros de medição). O estudo avalia os índices de perdas em nível mundial, nacional, regional e estadual, além de analisar os 100 maiores municípios brasileiros. O estudo também quantifica os impactos econômicos e sociais das perdas de água, estimando o custo total das perdas e os ganhos potenciais com a sua redução. 19 São apresentados cenários de redução de perdas e seus respectivos benefícios em termos de aumento da disponibilidade hídrica, redução de custos e melhoria da qualidade dos serviços de saneamento. O estudo conclui que a redução de perdas de água é fundamental para o avanço da eficiência do saneamento básico no Brasil e para a garantia do acesso à água para todos. (Instituto Trata Brasil, 2023). A escassez hídrica é um desafio global importante para a saúde pública, segurança e o meio ambiente, exigindo uma gestão integrada dos recursos hídricos para garantir água potável em quantidade e qualidade adequada. Lima Neto, Silva, Souza Filho e Lopes destacam que esta abordagem é essencial para a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6, que enfatiza o acesso universal à água e ao saneamento, além da proteção dos ecossistemas e da participação social (Lima Neto et al., 2025). As perdas de água em sistemas de abastecimento representam um problema crítico que compromete a eficiência e a sustentabilidade desses sistemas. Segundo Lima Neto et al. (2025), as perdas físicas e aparentes podem atingir de 30% a 40% do volume produzido, cenário agravado no Brasil, onde os índices nacionais ultrapassam os recomendados pela International Water Association. O estado do Ceará, foco do estudo, destaca-se por perdas que chegam a 45%, especialmente em contextos de seca prolongada, como relatado pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) (Lima Neto et al., 2025). Indicadores como o Índice de Perdas no Faturamento (IPF), Índice de Perdas na Distribuição (IPD), Índice de Perdas por Ligação (Iplig) e Índice de Perdas Lineares (Iplin) são instrumentos utilizados para a avaliação do desempenho dos sistemas. O artigo de Lima Neto et al. (2025) enfatizou a importância desses índices para o planejamento e para definição de metas de redução de perdas em diferentes contextos populacionais e operacionais. O estudo realizado por Lima Neto et al. (2025) também contribui com modelos econômicos que incorporam o nível de redução das perdas, uma fração de retorno do investimento e o porte populacional para prever os benefícios financeiros da redução de perdas. Os resultados indicam que os benefícios líquidos anuais podem alcançar 49 milhões de reais, distribuídos proporcionalmente entre sistemas urbanos de pequeno e grande porte, ressaltando a importância do investimento nessa área para a sustentabilidade dos recursos hídricos. 20 Além disso, Lima Neto et al. (2025) destacam que suas correlações podem ser aplicadas em sistemas com dados financeiros limitados, auxiliando a gestão integrada e a otimização dos sistemas sob responsabilidade de uma mesma operação, auxiliando o avanço rumo à segurança hídrica. Considerando apenas as perdas físicas (vazamentos), o volume desperdiçado (3,8 bilhões de metros cúbicos) seria suficiente para abastecer aproximadamente 67 milhões de brasileiros por um ano, o que representa mais do que o dobro da população que vive sem acesso a água tratada, estimada em cerca de 33 milhões de pessoas. Além disso, essa quantidade de água poderia abastecer os 17,9 milhões de brasileiros que vivem em favelas por um ano e meio. O estudo destaca que a universalização do saneamento básico no país depende diretamente da eficiência no controle e redução dessas perdas, sendo imprescindível o aumento dos investimentos e a implementação de políticas públicas para alcançar a meta de redução de perdas para 25% até 2034, conforme previsto na Portaria 490/2021 do Ministério do Desenvolvimento Regional. (Instituto Trata Brasil, 2023). Tabela 1 – Áreas de Investimento em Saneamento ANA até 2035 Área de Investimento Descrição Infraestrutura de Produção e Distribuição de Água Construção de novas estruturas e reposição das existentes para garantir o acesso à água. Redução de Perdas de Água Ações para melhorar a gestão dos sistemas e reduzir o desperdício de água. Segurança Hídrica Medidas para garantir a segurança hídrica nas cidades, especialmente em áreas vulneráveis. Captação de Água Melhoria nas fontes de captação, considerando a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. Sistemas de Abastecimento Investimentos em sistemas que garantam um fornecimento contínuo e eficiente de água tratada. 21 Revitalização de Bacias Hidrográficas Projetos voltados para a recuperação e preservação das bacias hidrográficas. Fonte: Atlas Águas – Segurança Hídrica do Abastecimento Urbano Roubo e ligações ilegais que ocorrem em algumas comunidades, a falta de acesso regular à água potável leva os moradores a recorrer a ligações ilegais ou roubo de água, o que contribui para perdas nos sistemas de abastecimento. A baixa capacidade de pagamento em áreas de vulnerabilidade social, pelo fato de muitas famílias enfrentam dificuldades financeiras e não serem capazes de pagar pelos serviços regulares de água. Isto pode levar à redução do abastecimento de água e à consequente perda de recursos hídricos. A falta de manutenção e investimento em manutenção preventiva e reparação de redes de distribuição de água agrava o problema de vazamentos em áreas de vulnerabilidade social. Sem manutenção adequada, as fugas e as falhas na infraestrutura continuam por longos períodos de tempo, levando à perda de água. As perdas de água nestas áreas não só afetam a eficiência dos sistemas de abastecimento, mas também têm graves consequências sociais e económicas. O acesso insustentável à água potável pode prejudicar a saúde das comunidades, aumentar o risco de doenças transmitidas pela água e impedir a higiene pessoal e doméstica (ONU, 2023). Além disso, as perdas de água representam um desperdício de recursos naturais preciosos e contribuem para a escassez de água numa região já afetada pela pressão sobre os recursos hídricos (ANA, 2023). Para resolver eficazmente este problema, são necessárias medidas para melhorar as infraestruturas de abastecimento de água nestas áreas, promover a igualdade de acesso à água potável, combater as ligações ilegais e o roubo de água, e também implementar programas de sensibilização e educação sobre o uso responsável da água. Estas medidas devem ser acompanhadas de políticas públicas que visem abordar as causas subjacentes à vulnerabilidade social e garantir o acesso universal à água como um direito fundamental (ONU, 2023). O indicador médio de perdas segundo o Instituto Trata Brasil é de 448,97 L/ligação/dia em 2022, valor inferior aos 461,96 L/ligação/dia computados em 2021, mas mais do que o dobro do patamar considerado ótimo de 216 L/ligação/dia. O menor valor observado pertence ao município de Goiânia (GO) com 99,41 L/ligação/dia. E o maior é apresentado por Porto Velho (RO) com 1.537,70 L/ligação/dia. A (Figura 1) 22 traz o histograma deste indicador, e mostra a frequência dos municípios, por faixas de 200 L/ligação/dia. Figura 1 – Histograma de índice de Perdas por Ligações nas cidades do Brasil Fonte: SINIS (2022). Elaboração GO Associados. 3.1.2 Classificação e Características Perdas de Água A definição de perdas de água comercial ou aparente é definida por todo o volume de água consumido pelos usuários e não registrado ou medido em hidrômetros. Esse tipo de perdas é ocasionado porque o volume de água consumido não é devidamente registrado nas unidades de consumo, não ocorrendo assim a devida cobrança pelo consumo efetivo dos clientes que a utilizam. Dependendo da situação do setor de abastecimento, este tipo de perdas pode ser maior que as perdas reais, principalmente quando se trata do fator econômico. As principais causas de Perdas Aparentes são referentes a irregularidades nas ligações de água (fraude), ligações não cadastradas, submedição dos equipamentos de hidrômetros e utilização de água em áreas não regularizadas, muitas vezes causadas por deficiência econômica das famílias que ocupam loteamentos clandestinos (Tabela 2). 23 Tabela 2 – Causas mais comuns em relação as perdas aparentes de água. P E R D A S N Ã O F ÍS IC A S ORIGEM Ligações Clandestinas / Irregulares Ligações sem hidrômetros Hidrômetros Parados ou danificados Hidrômetros com submedição Ligações Inativas religadas Erro de Leitura Cadastro incorreto Fonte: Elaboração do próprio autor. Quando se aborda irregularidades em ligações de água ou hidrômetros, define- se que essas irregularidades são intervenções feitas com o objetivo de medir apenas uma porcentagem do consumo do cliente, gerando com isso diminuição da tarifa a ser paga. Os casos mais comuns são:  Retirada do lacre e inversão do hidrômetro;  Execução de ligação de "by pass" no ramal de abastecimento (desvio de água antes de chegar ao hidrômetro);  Violação do hidrômetro (furo na cúpula e colocação de arame ou objeto para impossibilitar o funcionamento dos dispositivos internos do hidrômetro);  Utilização de imã com objetivo de impedir a rotação da turbina do hidrômetro. A crise hídrica que o Brasil tem enfrentado nos últimos anos destaca a importância de compreender a relação entre as perdas reais e aparentes nos sistemas de abastecimento de água. A definição de perdas reais e aparentes podem ser classificadas em duas categorias: 1. Perdas Físicas ou Reais: Referem-se ao volume de água disponibilizado no sistema de distribuição que é desperdiçado devido a vazamentos 2. Perdas Comerciais ou Aparentes: Correspondem ao volume de água consumido pelos usuários, mas não devidamente registrado ou medido pelos hidrômetros, geralmente devido a fraudes, ligações clandestinas ou submedição As perdas físicas e as perdas aparentes diferem tanto em sua origem quanto em seus impactos no sistema de abastecimento de água, conforme detalhado na Tabela 3 – Comparação entre Perdas Reais e Aparentes. As perdas físicas, também chamadas de perdas reais, são caracterizadas pela água efetivamente perdida no 24 sistema, decorrente de vazamentos, rompimentos e extravasamentos nas tubulações e reservatórios, representando um desperdício direto do recurso hídrico e aumentando os custos operacionais e de expansão do sistema. Já as perdas aparentes correspondem à água consumida que não é devidamente faturada, resultando de fraudes, ligações clandestinas, submedição dos hidrômetros e falhas no cadastro comercial, impactando principalmente a receita das concessionárias sem representar perda real do volume de água. Enquanto as perdas físicas demandam investimentos em manutenção e reparo da infraestrutura para reduzir o desperdício, as perdas aparentes exigem ações focadas em controle comercial, combate à fraude e melhoria na medição e cadastro dos consumidores. A Tabela 3 evidencia essas diferenças, mostrando que o controle eficiente de ambos os tipos de perdas é essencial para a sustentabilidade financeira e operacional dos sistemas de abastecimento. Tabela 3 – Comparação entre Perdas Reais e Aparentes. Característica Perdas Reais Perdas Aparentes Causa Principal Vazamentos e extravasamentos Erros de medição e fraudes Custos Associados Custos de produção e distribuição Custos de venda e coleta de esgotos Impacto Ambiental Desperdício do recurso hídrico Embora tenha um impacto direto menor, isso afeta a receita, pois também consome água, mas esse consumo não é registrado Estratégias de Controle Requer investimentos em infraestrutura Melhoria na gestão e micromedição Fonte: Elaboração do próprio autor. O acesso à água potável é um desafio global que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Segundo os dados disponíveis no Relatório Anual do Banco Mundial 2024, a falta de acesso à água potável afeta uma porcentagem significativa da população mundial. A ONU alerta que cerca de 25% da população mundial não tem acesso a água potável, o que equivale a aproximadamente 2 bilhões de pessoas. No Brasil, cerca de 33 milhões de pessoas vivem sem acesso à água potável. Esses números destacam a magnitude do desafio global em garantir acesso a água potável para todos. (Banco Mundial, 2024). A gestão eficaz dos recursos hídricos e a provisão de serviços de água e saneamento são fundamentais para o desenvolvimento sustentável e a redução da pobreza em todo o mundo. O Relatório Anual de 2024 do Banco Mundial destaca a 25 importância de expandir o acesso a esses serviços, especialmente em áreas rurais e em comunidades marginalizadas. Onde são exigidos esforços para melhorar a infraestrutura de abastecimento de água e saneamento, visando sistemas mais resilientes às mudanças climáticas. Os investimentos em água e saneamento têm impactos significativos na saúde pública e no bem-estar social. A International Finance Corporation, por exemplo, tem como meta dar acesso a água, saneamento e higiene para 15 milhões de pessoas. Esses investimentos não apenas melhoram a qualidade de vida das populações atendidas, mas também contribuem para a redução da pobreza e a promoção do desenvolvimento econômico local. Além disso, a melhoria dos serviços de saneamento ajuda a reduzir a carga de doenças relacionadas à água, melhorando assim a saúde pública e a produtividade econômica. (International Finance Corporation, 2024) O Relatório Anual 2024 do Banco Mundial (Banco Mundial, 2024) destaca que, para o futuro, é fundamental integrar a gestão dos recursos hídricos com estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Isso envolve a construção de infraestruturas resilientes e a adoção de políticas que incentivem a conservação e o uso eficiente da água. Além disso, a cooperação internacional e a troca de conhecimentos entre nações são indispensáveis para superar os desafios globais relacionados à água e ao saneamento. Por meio de uma abordagem integrada e colaborativa, torna-se possível ampliar o acesso a serviços de água e saneamento de qualidade, promovendo um futuro mais sustentável e justo. As mudanças climáticas, juntamente com a rápida urbanização, configuram os principais desafios da crise hídrica, intensificando a insegurança no abastecimento de água, provocando antecipadamente no quantitativamente e impactando diretamente as comunidades (IPCC, 2022). Pode-se afirmar que ações integradas contribuem significativamente para a redução das perdas reais e aparentes, aumentando a eficiência e a sustentabilidade dos sistemas de abastecimento de água. Segundo Santos (2023), em seu artigo intitulado "Proposição de Políticas Compensatórias para Redução de Perdas em Sistemas de Abastecimento de Água", apresenta uma análise detalhada e propositiva para mitigar as elevadas perdas em sistemas de abastecimento de água no Brasil. O estudo foca na região do Comitê de Bacia Hidrográfica dos rios Turvo e Grande (CBH-TG), explorando dados do Sistema 26 Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS) e informações de vazões outorgadas de 66 municípios. Além disso, a pesquisa envolveu visitas técnicas a prestadores de serviços de saneamento em três municípios da região e uma revisão abrangente da literatura nacional e internacional. A dissertação contribui significativamente para o campo da gestão de recursos hídricos e do saneamento básico, oferecendo um conjunto de propostas concretas e aplicáveis para a redução de perdas em sistemas de abastecimento de água. A abordagem integrada e participativa, que envolve diferentes atores e instrumentos de gestão, representa um avanço em relação às abordagens tradicionais, que muitas vezes se concentram apenas em aspectos técnicos e operacionais. (SANTOS, 2023) Tecnológico para Redução de Perdas em Sistemas de Abastecimento de Água de Pequeno e Médio Porte 3.2 Perdas de Água em Áreas de Alta Vulnerabilidade Social Oliveira (2019), aborda o intraempreendedorismo como estratégia de gestão para combater perdas de água em empresas públicas de saneamento. O autor destaca que a prática do intraempreendedorismo estimula a autonomia e a criatividade dos colaboradores, promovendo a inovação e a implementação de soluções eficientes para a redução das perdas hídricas. O estudo ressalta, porém, que barreiras como a burocracia e a rigidez institucional dificultam a efetividade dessas iniciativas. Para superar esses desafios, o autor propõe o redesenho de processos e o fortalecimento da cultura de inovação dentro das organizações, evidenciando o intraempreendedorismo como uma ferramenta estratégica para a gestão sustentável dos recursos hídricos no setor público. O crescimento populacional desordenado, associado à falta de planejamento urbano, tem gerado uma série de desafios para os municípios, especialmente no que tange à oferta de serviços básicos como saneamento. Essa situação acarreta o surgimento de áreas de vulnerabilidade socioambiental, caracterizadas pela coexistência de pobreza e degradação ambiental. Diante desse cenário, (Santos, 2023) propõe o desenvolvimento de um Manual Técnico Operacional (MTO) para ações de saneamento básico, visando apoiar a instalação e manutenção de serviços públicos nessas áreas. O MTO proposto por Santos (2023) tem como objetivo principal estabelecer parcerias eficazes entre a sociedade civil e o setor de saneamento, promovendo a 27 participação da população na busca por um estilo de vida sustentável. O manual visa, ainda, promover valores sociais, educação, incentivar a economia circular e a geração de renda para a população envolvida. Ao atender a indicadores de sustentabilidade da Agenda 2030, o MTO se alinha com as preocupações globais em relação à destinação de resíduos, poluição da água e do solo, qualidade de vida e equidade social. O relatório "Ranking do Saneamento" do Instituto Trata Brasil, publicado anualmente desde 2009, analisa os indicadores de saneamento básico dos 100 maiores municípios brasileiros, com foco em acesso à água tratada, coleta e tratamento de esgoto, utilizando dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). O estudo evidencia desafios históricos no país, como a falta de acesso à água potável para quase 32 milhões de pessoas e a ausência de coleta de esgoto para cerca de 90 milhões, o que impacta diretamente a saúde pública e a qualidade de vida. O relatório ainda destaca municípios que obtiveram avanços significativos, como São José do Rio Preto (SP), que alcançou nota máxima em todas as dimensões avaliadas, mostrando que é possível alinhar os serviços básicos às metas do Marco Legal do Saneamento. O relatório também aponta melhorias em cidades que antes estavam entre as piores colocadas, evidenciando progressos graduais no setor. Em suma, o Ranking do Saneamento do Instituto Trata Brasil é uma ferramenta fundamental para monitorar o desempenho dos municípios brasileiros no setor, sensibilizar gestores públicos e a sociedade civil, e orientar políticas públicas para a melhoria contínua do saneamento básico no país. (Instituto Trata Brasil, 2024) A gestão eficiente dos sistemas de abastecimento de água, especialmente em áreas vulneráveis, é fundamental para alcançar a meta 6.1 de acesso universal à água potável. Além disso, a redução de perdas de água, como evidenciado pela crise hídrica em São Paulo, contribui para a meta 6.4 de aumentar a eficiência do uso da água e assegurar o abastecimento sustentável, especialmente em regiões com infraestrutura precária e população de baixa renda. (Frota et al., 2023). Portanto, a abordagem deste texto em relação aos desafios de gestão eficiente dos sistemas de abastecimento de água em áreas vulneráveis está diretamente alinhada com os objetivos e metas do ODS 6 da ONU. 28 3.2.1 Classificação de áreas de Vulnerabilidade Social Noschang e Scheleder (2018) iniciam sua discussão ressaltando a essencialidade da água como um recurso natural finito que garante a vida humana na Terra. A má utilização das águas, tanto superficiais quanto subterrâneas, somada aos efeitos das mudanças climáticas, tem gerado crises hídricas em diversas regiões do mundo. Nesse contexto, os autores argumentam que os Estados devem garantir o acesso à água de qualidade para sua população, reconhecendo-o como um direito humano fundamental. As autoras destacam que o reconhecimento da água como um direito humano é relativamente recente, não estando explicitamente previsto nos principais documentos relacionados à proteção dos direitos humanos, como a Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 e os Pactos Internacionais de 1966. A inclusão da água como garantia de sobrevivência humana ocorreu somente em 2002, com o General Comments n. 15 do Comitê de Direitos Econômicos Sociais e Culturais. Noschang e Scheleder (2018) enfatizam a importância do Comentário Geral n. 15, que determina que a água é um pré-requisito para a realização de outros direitos humanos e um bem público fundamental para a vida e a saúde. Quase dez anos depois, em 2010, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução histórica reconhecendo o direito humano à água limpa e potável e ao saneamento como essenciais para o pleno gozo do direito à vida, fortalecendo o arcabouço legal e o reconhecimento da importância do acesso à água potável. As autoras concluem que a crise hídrica é uma questão séria e crescente, com consequências potencialmente graves em diversas regiões do mundo. Diante desse cenário, defendem que os Estados têm a obrigação de garantir a água à sua população, bem como de promover a gestão adequada e o consumo sustentável desse recurso natural, assegurando sua disponibilidade para as futuras gerações. (Noschang et al., 2018). A identificação e classificação das áreas de vulnerabilidade social constituem um passo importante para o desenvolvimento de políticas públicas que visam a redução das desigualdades. Diversos estudos têm investigado metodologias e indicadores capazes de mapear e caracterizar regiões com maior fragilidade socioeconômica, utilizando um conjunto de variáveis que refletem as condições de vida da população. O IBGE, por exemplo, utiliza uma série de indicadores para 29 classificar os níveis sociais, abrangendo aspectos como estrutura econômica, mercado de trabalho, padrão de vida, educação e saúde, conforme detalhado na Tabela 4. Pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) utilizam indicadores demográficos, de renda, educação e saneamento básico para classificar os níveis de vulnerabilidade social em diferentes escalas geográficas (IBGE, 2024). Tabela 4 – Indicadores utilizados pelo IBGE para classificar níveis sociais. Categoria Indicador Descrição Aspectos Demográficos Distribuição da população Dados sobre sexo, idade, cor ou raça. Fecundidade e mortalidade Taxas de natalidade e mortalidade na população. Educação Taxa de analfabetismo Percentual da população que não sabe ler e escrever. Média de anos de estudo Média de anos de escolaridade da população. Taxa de frequência escolar Percentual de crianças e adolescentes que frequentam a escola por faixa etária. Taxa de conclusão do ensino médio Percentual de jovens que completam o ensino médio. Trabalho e Rendimento Rendimento mensal per capita Renda média recebida por pessoa em um determinado período. Taxa de desemprego Percentual da força de trabalho que está desempregada. Proporção de trabalhadores informais Percentual de trabalhadores que não têm carteira assinada ou contrato formal. Condições de Vida Acesso a serviços básicos Percentual da população com acesso a água potável, esgoto e energia elétrica. Condições habitacionais Dados sobre o tipo de moradia e o número de pessoas por cômodo. Desigualdade Racial e de Gênero Análise das desigualdades sociais Comparação dos dados de renda, emprego e educação entre diferentes grupos raciais e de gênero. Fonte: Síntese de Indicadores Sociais do IBGE Esses índices e classificações têm sido amplamente utilizados por gestores públicos para direcionar investimentos e ações em áreas mais vulneráveis, como programas de urbanização, saneamento e assistência social. No entanto, a mensuração da vulnerabilidade social enfrenta desafios, como a disponibilidade e atualização dos dados, a definição de pesos e critérios para os indicadores, e a representatividade das escalas geográficas adotadas. A classificação de áreas de vulnerabilidade social é fundamental para orientar políticas públicas voltadas à redução das desigualdades. Apesar dos avanços 30 metodológicos, ainda há oportunidades de aprimoramento dos indicadores e processos de mensuração, de modo a refletir com maior precisão a realidade socioeconômica das populações. A Tabela 5 apresenta a classificação de áreas de vulnerabilidade social utilizando indicadores demográficos, de renda, educação e saneamento básico, com base em estudos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Fundação Seade. Tabela 5 – Classificação de áreas de vulnerabilidade social Indicador Baixa Vulnerabilidade Média Vulnerabilidade Alta Vulnerabilidade Demográfico - Baixa densidade populacional - Baixa proporção de crianças e idosos - Densidade populacional média - Proporção média de crianças e idosos - Alta densidade populacional - Alta proporção de crianças e idosos Renda - Renda média domiciliar alta - Baixa proporção de domicílios com renda per capita até 1/2 salário mínimo - Renda média domiciliar intermediária - Proporção intermediária de domicílios com renda per capita até 1/2 salário mínimo - Renda média domiciliar baixa - Alta proporção de domicílios com renda per capita até 1/2 salário mínimo Educação - Alta proporção de pessoas com ensino superior completo - Baixa proporção de pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto - Proporção intermediária de pessoas com ensino superior completo e sem instrução/fundamental incompleto - Baixa proporção de pessoas com ensino superior completo - Alta proporção de pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto Saneamento Básico - Alta cobertura de abastecimento de água e esgotamento sanitário - Baixa proporção de domicílios com coleta inadequada de lixo - Cobertura intermediária de abastecimento de água e esgotamento sanitário - Proporção intermediária de domicílios com coleta inadequada de lixo - Baixa cobertura de abastecimento de água e esgotamento sanitário - Alta proporção de domicílios com coleta inadequada de lixo Fonte: Adaptado de IBGE e Fundação Seade. O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social destaca-se como uma ferramenta essencial para analisar as condições socioeconômicas no Estado de São Paulo. Mais do que medir a vulnerabilidade social, o índice orienta a criação e execução de políticas públicas eficazes. Esta dissertação tem como objetivo investigar a metodologia de elaboração do IPVS, suas categorias classificatórias e suas 31 aplicações práticas, além de abordar sua importância no âmbito das políticas sociais, conforme ilustrado na Tabela 6. A classificação da vulnerabilidade social por meio do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social representa uma contribuição significativa para o entendimento das desigualdades no Estado de São Paulo. Sua metodologia robusta, que combina dimensões demográficas e socioeconômicas, permite identificar com precisão os diferentes graus de vulnerabilidade presentes nos setores censitários, desde áreas de baixíssima vulnerabilidade até aquelas com vulnerabilidade muito alta, como os aglomerados subnormais urbanas. Essa abordagem detalhada não apenas facilita a identificação das áreas mais necessitadas, mas também promove um diálogo crítico sobre as políticas sociais vigentes, oferecendo parâmetros essenciais para a formulação de ações públicas mais eficazes. Assim, o IPVS se estabelece como um instrumento essencial na luta por equidade e justiça social, destacando-se como um modelo que pode ser replicado em outras regiões do Brasil e do mundo. 32 Tabela 6 – Classificação de áreas de vulnerabilidade social (IPVS) no Estado de São Paulo Fonte: Fundação SEADE GRUPO Grupo 1: Grupo 2: Grupo 3: Grupo 4: Grupo 5: Grupo 6: Grupo 7: Indicador Baixíssima Vulnerabilidade Muito Baixa Vulnerabilidade Baixa Vulnerabilidade Média Vulnerabilidade Alta Vulnerabilidade (Urbano) Muito Alta Vulnerabilidade (Aglomerados Subnormais) Alta Vulnerabilid ade (Rural) População 2,5 milhões 16,3 milhões 7,3 milhões 7,8 milhões 4,5 milhões 1,8 milhão 400 mil Rendimento Médio dos Domicílios R$ 8.459 R$ 2.964 R$ 2.133 R$ 1.627 R$ 1.401 R$ 1.201 R$ 1.054 Idade Média dos Responsáveis pelo Domicílio 48 anos 50 anos 42 anos 47 anos 42 anos 40 anos 48 anos Responsáveis pelo Domicílio com Menos de 30 Anos 12,60% 9,60% 21,00% 12,10% 20,30% 22,60% 13,10% Mulheres Jovens Responsáveis pelo Domicílio 14,00% 8,80% 22,40% 9,70% 20,60% 22,70% 13,70% Crianças de 0 a 5 Anos no Total da População 5,90% 6,30% 9,00% 12,00% 24,00% 28,00% 14,00% 33 O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) é uma ferramenta que classifica a vulnerabilidade social em diferentes níveis, abrangendo não apenas municípios, mas também bairros e setores censitários da cidade de São Paulo. A metodologia do IPVS, desenvolvida pela Fundação SEADE, utiliza dados do Censo Demográfico e considera várias dimensões, como renda, escolaridade e condições habitacionais, para identificar áreas que necessitam de intervenção social. Ficarelli (2019) abordou o papel fundamental das informações geográficas no planejamento, operação e gestão dos serviços de água e esgoto, destacando sua relevância para a universalização desses serviços conforme o 6º Objetivo do Desenvolvimento Sustentável da ONU. Ele ressalta que o uso de dados georreferenciados permite identificar disparidades no atendimento, otimizar recursos e apoiar a tomada de decisão, especialmente em contextos metropolitanos complexos. O trabalho enfatiza que a integração de tecnologias de informação geográfica (TIG) é ainda limitada em muitas companhias de saneamento, devido a barreiras técnicas, financeiras e organizacionais. O autor realizou um estudo comparativo entre companhias de água e esgoto em três metrópoles de continentes distintos (Fortaleza, Nairóbi e Budapeste), evidenciando grandes diferenças no uso e gestão das informações geográficas. Essas disparidades refletem não apenas as condições socioeconômicas locais, mas também o grau de capacitação técnica e a estrutura organizacional das instituições. O autor propõe um método para avaliar o grau de atendimento a requisitos relacionados ao uso de informações geográficas, visando orientar melhorias e promover a sustentabilidade dos serviços em diferentes contextos globais. O trabalho destaca a relação intrínseca entre saneamento básico e saúde pública, reforçando que a falta ou ineficiência dos serviços de água e esgoto está associada a riscos elevados de doenças infecciosas. Nesse sentido, a gestão eficiente baseada em informações geográficas contribui para a mitigação desses riscos, ao permitir melhor monitoramento e planejamento das redes de abastecimento e coleta de esgoto. O estudo de Ficarelli (2019) também discute a importância da capacitação técnica e da transparência na divulgação digital das informações para fortalecer a governança e o engajamento social no setor. Esses pontos demonstram que a incorporação das informações geográficas sobre áreas de vulnerabilidade social nos serviços de água e esgoto é uma estratégia essencial para enfrentar desafios 34 técnicos, sociais e ambientais, promovendo a equidade no acesso e a melhoria contínua da qualidade dos serviços. 3.2.2 Relação de Perdas de Água com áreas de alta Vulnerabilidade Social O artigo "A crise hídrica na Região Metropolitana de São Paulo (2014-2015)" analisa a crise de abastecimento de água enfrentada pela região entre 2014 e 2015, contextualizando-a como uma fase recente de uma crise histórica decorrente da frágil gestão e planejamento públicos. Custódio (2022) desta que as medidas adotadas, tanto estruturais quanto não estruturais, tiveram caráter emergencial e não foram suficientes para evitar o agravamento da escassez hídrica, evidenciando a necessidade de ações mais integradas e planejadas para o abastecimento urbano. O estudo detalha o impacto da estiagem prolongada sobre os principais sistemas de abastecimento, especialmente o Sistema Cantareira, que abastece grande parte da população da metrópole. A redução dos níveis dos reservatórios levou a racionamentos e dificuldades no fornecimento, afetando principalmente as áreas periféricas e vulneráveis. A análise aponta também para a insuficiência dos investimentos e para a falta de um plano de contingência eficaz, além de destacar a importância da comunicação pública na gestão da crise. Além disso, o artigo discute os aspectos políticos e institucionais envolvidos na crise, incluindo críticas ao planejamento estadual e à atuação da Sabesp. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo identificou falhas na antecipação e no manejo da crise, ressaltando a necessidade de maior transparência, governança e participação social para evitar futuras crises hídricas na Região Metropolitana de São Paulo Intervenções voltadas à regularização de ligações e recuperação de clientes em áreas vulneráveis contribuíram para a redução das perdas aparentes e o aumento da eficiência operacional da companhia de saneamento. Esse tipo de ação é fundamental para equilibrar os volumes macro e micro medidos, melhorando os índices de perdas de faturamento (IPF) e perdas totais (IPDt). A relação entre as perdas de água e a vulnerabilidade social evidencia a necessidade de abordar a questão do acesso equitativo à água e ao saneamento básico, conforme previsto na meta 6.1 do ODS 6. Essa carência de serviços adequados impacta negativamente outros direitos sociais, como educação, saúde e 35 mobilidade, aprofundando as desigualdades, em alinhamento com a meta 10.2 do ODS 10. (Frota et al., 2023). Portanto, a compreensão dessa relação entre perdas de água e vulnerabilidade social é fundamental para subsidiar políticas públicas que promovam a universalização do acesso à água e ao saneamento, especialmente em regiões mais fragilizadas, contribuindo assim para a redução das desigualdades sociais. (Santos et al, 2023). Ações voltadas à regularização de ligações e recuperação de clientes em áreas vulneráveis demonstraram resultados positivos na redução das perdas aparentes e no aumento da eficiência operacional das companhias de saneamento. No entanto, é fundamental compreender o impacto da carência de saneamento básico em outros direitos sociais, de modo a subsidiar políticas públicas que promovam a universalização do acesso à água e ao esgotamento sanitário, especialmente em regiões mais vulneráveis. O livro Realização dos Direitos Humanos à Água e ao Saneamento: influências da remuneração e da cobrança pela prestação dos serviços de saneamento reúne reflexões e análises sobre os desafios e contradições presentes na efetivação do direito humano à água e ao saneamento no Brasil, com ênfase nas consequências dos modelos de remuneração e cobrança dos serviços. A obra, organizada pelo Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), destaca que o acesso universal à água e ao saneamento é frequentemente tensionado por lógicas financeiras que priorizam a sustentabilidade econômica das operadoras, muitas vezes em detrimento da função social e da promoção da saúde pública (Montenegro et al., 2021). Os autores evidenciam que a estrutura tarifária vigente, baseada no volume consumido, pode desestimular práticas como a gestão da demanda e o tratamento de esgotos, já que tais ações tendem a reduzir receitas ou aumentar custos sem necessariamente gerar retorno financeiro proporcional. Os autores apontam que, sob esse modelo, áreas periféricas, rurais e assentamentos informais — onde o saneamento não é considerado “bom negócio” — permanecem desassistidas, agravando desigualdades regionais e sociais. 36 3.2.3 Metas de Redução de Perdas em Áreas Vulneráveis O artigo “Índice de vulnerabilidade às perdas de água (IVuPA): conceitualização e meios de avaliação” propõe um novo instrumento para mensurar e compreender a suscetibilidade dos sistemas de abastecimento de água à ocorrência de perdas, com foco em aspectos socioeconômicos e ambientais. O IVuPA é apresentado como um índice composto, que integra variáveis relacionadas à infraestrutura, operação, contexto social e ambiental, permitindo uma análise mais abrangente e estratégica das vulnerabilidades do sistema. (Carmo, 2023). A metodologia do IVuPA parte da identificação dos principais fatores que contribuem para as perdas de água, como idade e estado das redes, pressão de operação, frequência de manutenções, bem como fatores externos como densidade populacional, características socioeconômicas das áreas atendidas e condições ambientais locais. O artigo destaca a aplicação do modelo FPEIR (Forças, Pressão, Estado, Impacto e Resposta), que estrutura a análise em etapas, desde a identificação das pressões sobre o sistema até as respostas institucionais e operacionais implementadas para mitigação das perdas. A conceituação, do trabalho propõe meios de avaliação práticos, incluindo fluxogramas metodológicos e quadros de indicadores, que podem ser utilizados por gestores públicos e companhias de saneamento para monitorar o desempenho dos sistemas e priorizar intervenções. O IVuPA também é relacionado a outros indicadores de sustentabilidade hídrica, como os utilizados para o enquadramento de corpos d’água, reforçando a importância de uma abordagem integrada na gestão dos recursos hídricos e dos serviços de saneamento. Carmo (2023) ressalta que a adoção do IVuPA pode subsidiar políticas públicas mais eficazes, ao direcionar investimentos para áreas mais vulneráveis e apoiar o cumprimento de metas de redução de perdas, contribuindo para a universalização do acesso à água e a sustentabilidade dos sistemas de abastecimento. O IVuPA, por sua vez, propõe um modelo integrado que combina variáveis técnicas, socioeconômicas e ambientais, incluindo aspectos como a idade e o estado das redes, a pressão operacional, a densidade populacional, as condições socioeconômicas do entorno e os fatores ambientais locais. Assim, esta ferramenta permite não apenas identificar os principais pontos de perdas, mas também entender suas origens mais profundas, contribuindo para ações mais direcionadas e eficazes. 37 No contexto brasileiro, Silva et al. (2021) evidenciam que a infraestrutura precária e a falta de manutenção regular contribuem significativamente para os altos índices de perdas físicas, reforçando a necessidade de uma abordagem metodológica que considere os fatores contextuais e estruturais do sistema. Portanto, a integração do conceito do IVuPA com as práticas já existentes favorece uma estratégia de gestão mais consolidada, que prioriza intervenções com maior potencial de impacto social, econômico e ambiental. Assim, ambos os pontos convergem na ideia de que uma gestão eficiente de perdas deve ser uma ação multidimensional, equipada por estudos capazes de subsidiar decisões estratégicas sustentáveis e inclusivas. A questão da segurança hídrica em regiões vulneráveis tem ganhado destaque crescente na literatura recente, dada a sua importância para garantir o acesso equitativo e sustentável aos recursos hídricos. Yepez et al. (2020) abordam de forma abrangente os desafios da segurança hídrica ao longo do continuum rural-urbano em regiões áridas das Américas, destacando as diferenças e semelhanças nas dinâmicas de perdas e gestão entre áreas rurais e urbanas. O estudo evidencia que, em regiões com disponibilidade hídrica limitada, a eficiência no controle das perdas físicas — causadas por vazamentos e falhas na rede — e comerciais — decorrentes de irregularidades e implicações específicas — é essencial para a sustentabilidade dos sistemas de abastecimento. Essas considerações reverberam diretamente no estudo focalizado sobre bairros socialmente vulneráveis da cidade de São Paulo, conforme apresentado no anexo, onde identificam altos índices de perdas físicas em infraestrutura impactadas pela precariedade e falta de investimentos. A relação intensa entre vulnerabilidade social e perdas hídricas reforça a necessidade da adoção de políticas públicas e estratégias técnicas integradas que contemplam dimensões sociais, ambientais e operacionais, conforme também enfatizado por Yepez et al. (2020). Além disso, a literatura destaca que a complexidade dessas características exige o desenvolvimento e a implementação de tecnologias inovadoras, como a detecção remota de vazamentos, sistemas de monitoramento integrado e ações participativas da comunidade para o gerenciamento hídrico. Essas práticas, se aplicadas em ambientes urbanos vulneráveis, podem contribuir significativamente para a redução das perdas, mitigação dos riscos de deficiências e promoção da segurança hídrica. 38 Por fim, reforça-se que, embora o contexto e a escalada variem entre as regiões áridas das Américas e a metrópole de São Paulo, os princípios de controle eficiente das perdas e inclusão social no planejamento hídrico são transversalmente aplicáveis. Portanto, a integração do conhecimento internacional e local oferece uma base sólida para aprofundar pesquisas e formular soluções eficazes para a gestão sustentável da água, fundamentais para garantir a qualidade de vida e justiça ambiental para as populações mais vulneráveis. O controle das perdas de água tem sido um tema central nas discussões sobre gestão e sustentabilidade dos sistemas de abastecimento, especialmente em países em desenvolvimento, onde a deficiência hídrica e as limitações financeiras e técnicas tornam o desafio ainda mais complexo. Silva e outros. (2021), em artigo publicado na revista Ciência e Tecnologia da Água, realiza uma análise aprofundada das práticas adotadas pelas companhias de água no Brasil, estabelecendo paralelos com outras regiões em desenvolvimento, e evidenciam um quadro em que a heterogeneidade dos sistemas e a diversidade de desafios técnicos e operacionais fechados abordagens específicas para mitigar as perdas. Segundo os autores, o sucesso no controle de perdas está associado a uma combinação integrada de ações técnicas, gerenciais e sociais. Entre as estratégias destacadas estão a implementação de tecnologias de monitoramento e detecção de vazamentos, o desenvolvimento de sistemas de medição adequados, a realização de auditorias frequentes e o engajamento da comunidade para combater fraudes e irregularidades. Além disso, apontamos para a importância do planejamento e da capacitação técnica continuada das equipes operacionais, que refletem diretamente na eficiência dos programas de redução de perdas. No contexto brasileiro, Silva et al. (2021) ressaltam que, apesar dos avanços recentes, as companhias responsáveis pelo abastecimento enfrentam desafios como infraestrutura envelhecida, falta de investimentos suficientes e desigualdades regionais marcantes, o que influencia a persistência de elevados índices de perdas físicas e aparentes. Essas condições são agravadas em áreas de maior vulnerabilidade social, onde o acesso ao saneamento e a eficiência dos sistemas são historicamente deficitários, exigindo medidas específicas que levem em consideração as condições socioeconômicas locais. Este diagnóstico da realidade brasileira complementa e reforça os resultados encontrados no presente estudo sobre os bairros vulneráveis de São Paulo, 39 evidenciando a relevância de integrar as dimensões técnicas e sociais no processo de gestão hídrica. A adoção das melhores práticas exemplificadas por Silva et al. (2021), alinhadas a uma política pública consistente, pode favorecer avanços significativos na redução das perdas, contribuindo para o aumento da disponibilidade de água e para a melhoria das condições de vida das populações afetadas. Por fim, enfatiza-se que uma gestão eficiente das perdas de água em países em desenvolvimento não requer apenas a adoção de soluções tecnológicas, mas também a articulação de esforços institucionais e o envolvimento da sociedade civil, elementos chave para garantir a sustentabilidade, equidade e resiliência dos sistemas de abastecimento diante dos desafios crescentes impostos pelas mudanças climáticas e urbanização acelerada. 40 4 MATERIAIS E MÉTODOS Inicialmente, a pesquisa parte da identificação e caracterização das áreas de estudo a partir do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social, ferramenta desenvolvida pela Fundação SEADE que permite classificar os setores censitários da cidade de São Paulo segundo diferentes níveis de vulnerabilidade social, considerando múltiplas dimensões como renda, escolaridade, condições habitacionais e acesso a serviços públicos. Essa etapa é essencial para delimitar e comparar áreas com distintos perfis socioeconômicos, possibilitando uma análise contextualizada das desigualdades urbanas e suas repercussões no saneamento básico. Em seguida, a metodologia contempla a coleta e análise de dados primários referentes às perdas de água, utilizando bases da Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo (SABESP). A partir desses dados, calcula-se o Índice de Perdas de Água na Distribuição (IPDT), que quantifica as perdas de água no sistema. Essa abordagem técnica permite mensurar com precisão a eficiência do abastecimento e identificar padrões de perdas associados a diferentes níveis de vulnerabilidade social. Complementarmente, a pesquisa incorpora uma abordagem que relaciona com a identificação e classificação das áreas de vulnerabilidade social, considerando os fatores sociais que influenciam as elevadas taxas de perdas de água nessas regiões, onde foram evidenciadas pelos resultados da pesquisa, que demonstraram que tais perdas estão diretamente associadas a uma combinação desses fatores. 4.1 Caracterização da Área de Estudo do Trabalho Este trabalho tem como foco a análise de duas questões inter-relacionadas na cidade de São Paulo: a vulnerabilidade social e as perdas de água no sistema de abastecimento urbano. Ambas as temáticas são essenciais para compreender os desafios socioambientais e a sustentabilidade da metrópole. A cidade de São Paulo enfrenta desafios significativos relacionados às perdas de água em seu sistema de abastecimento, que impactam diretamente a eficiência do serviço e a sustentabilidade dos recursos hídricos. As perdas totais na distribuição de água na capital paulista atingem cerca de 27% a 30%, englobando tanto perdas físicas (vazamentos e extravasamentos) quanto perdas aparentes (fraudes, submedição e ligações clandestinas). 41 Essas perdas estão associadas à infraestrutura envelhecida e à eficiência operacional do sistema, que inclui a rede de distribuição e as ligações domiciliares (ramais). Para mensurar as perdas, o indicador mais adequado é o volume perdido por ramal por dia, que relaciona o volume de água desperdiçado ao número de ligações, refletindo melhor as condições da infraestrutura urbana densa da cidade. Além do impacto operacional, as perdas de água na cidade influenciam o consumo per capita, que é elevado (167 litros por habitante por dia), e o desperdício dentro das residências, especialmente em áreas periféricas com menor pressão e maior incidência de vazamentos. A complexidade do problema exige uma abordagem integrada, combinando investimentos em infraestrutura, tecnologia, gestão eficiente e conscientização da população para o uso racional da água. Para a análise, são utilizados dados secundários oficiais, como os do IPVS e os indicadores de perdas da Sabesp, além de técnicas estatísticas para avaliar a evolução dos índices sociais e o volume de água perdido por ramal. A combinação dessas dimensões permite compreender como a vulnerabilidade social pode influenciar o consumo e desperdício de água, bem como a gestão dos recursos hídricos pode impactar a qualidade de vida e a equidade social na metrópole. Para compor a amostra da pesquisa foram selecionados 14 bairros com os seus respectivos setores de abastecimento (Figura 2). A seleção desses bairros deu- se pela necessidade de representar de maneira equilibrada e abrangente a diversidade socioeconômica e territorial do município. A seleção baseou-se no Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), o que garantiu a inclusão de áreas com distintos níveis de vulnerabilidade social, desde as mais favorecidas até as mais vulneráveis. Essa abordagem possibilitou uma análise comparativa robusta, permitindo relacionar as perdas de água a diferentes contextos urbanos e identificar padrões e fatores específicos que influenciam o problema em realidades diversas. Além disso, a escolha considerou a disponibilidade e qualidade dos dados fornecidos pela SABESP, assegurando a confiabilidade das informações utilizadas. Assim, a amostra reflete adequadamente a complexidade das desigualdades socioambientais presentes na cidade, fortalecendo a relevância e a aplicabilidade dos resultados obtidos na pesquisa. 42 Figura 2 – Bairros/Setores de Abastecimento da amostra no município de São Paulo Fonte: Elaboração do próprio autor. O estudo entre janeiro de 2024 e março de 2025 justifica-se pela necessidade de abranger um ciclo completo que permita captar as variações sazonais e conjunturais que influenciam o consumo e as perdas de água na cidade de São Paulo. O período de 15 meses, entre janeiro de 2024 e março de 2025, é considerado suficiente para analisar um ciclo completo de perdas de água em um setor de abastecimento, pois abrange variações sazonais e operacionais que influenciam diretamente o sistema. Esse intervalo permitiu observar os efeitos das diferentes condições climáticas, como períodos de chuva e seca, que impactam o consumo, a pressão nas redes e a ocorrência de vazamentos, fatores essenciais para uma avaliação precisa das perdas reais e aparentes. Além disso, medidas de gestão, como a implantação de setorização e controle de pressão, apresentam resultados 43 mensuráveis em ciclos de um a dois anos, o que torna o período adequado para captar os efeitos dessas intervenções. 4.2 Pesquisa para Classificação do IPVS O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) foi utilizado para classificar a vulnerabilidade na cidade de São Paulo, adotando sua metodologia desenvolvida pela Fundação Seade em parceria com a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. O IPVS permite identificar e mapear espacialmente os diferentes graus de vulnerabilidade social nos setores censitários do município, considerando múltiplas dimensões como renda domiciliar per capita, escolaridade, situação de aglomerados subnormais (favelas) e outros indicadores socioeconômicos relevantes. Essa classificação possibilita uma análise detalhada das desigualdades internas da cidade, destacando bolsões de pobreza e áreas com maiores desafios sociais. O uso do IPVS em minha pesquisa forneceu uma base sólida para compreender a distribuição territorial da vulnerabilidade social em São Paulo, permitindo relacionar esses dados com outros indicadores urbanos, como as perdas de água, e assim avaliar as interações entre condições sociais e infraestrutura urbana O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) é uma ferramenta que classifica a vulnerabilidade social em diferentes níveis, abrangendo não apenas municípios, mas também bairros e setores censitários da cidade de São Paulo. A metodologia do IPVS, desenvolvida pela Fundação SEADE, utiliza dados do Censo Demográfico e considera várias dimensões, como renda, escolaridade e condições habitacionais, para identificar áreas que necessitam de intervenção social. Essa categorização é fundamental para a formulação de políticas públicas direcionadas, pois permite que a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) identifique onde estão as populações mais vulneráveis e quais são suas necessidades específicas. Cerca de 13% da população da cidade de São Paulo reside em setores censitários classificados com níveis 5 a 7, indicando alta vulnerabilidade social. Esses setores geralmente estão localizados nas periferias da cidade, onde há menor acesso a serviços públicos e oportunidades de emprego. O IPVS não apenas quantifica a vulnerabilidade, mas também fornece um perfil demográfico das populações afetadas, permitindo uma compreensão mais profunda das dinâmicas sociais em cada bairro. 44 Para aplicar o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) de forma eficaz, é fundamental seguir uma metodologia estruturada que permita a análise detalhada das condições socioeconômicas da população em níveis territoriais específicos. A seguir, apresenta-se um passo a passo detalhado que orienta desde a coleta dos dados até a interpretação dos resultados, garantindo uma aplicação precisa e consistente do índice para subsidiar políticas públicas e ações direcionadas às áreas mais vulneráveis. 1. Coleta dos dados censitários: Foram obtidos os dados do Censo Demográfico do IBGE, precisamente os setores censitários do município ou região de interesse. O IPVS utiliza informações detalhadas por setor censitário, que agregam os domicílios de cada bairro ou quadra do município de São Paulo. 2. Seleção dos indicadores: Foram escolhidos os indicadores sociais que compõem o IPVS, que incluem: - Renda domiciliar per capita - Escolaridade do chefe da família - Situação de aglomerado subnormal (favela) - Localização urbana ou rural do setor censitário - Ciclo de vida familiar (composição etária) Esses indicadores refletem múltiplas dimensões da vulnerabilidade social, além da renda. 3. Tratamento e organização dos dados: Os dados foram organizados em planilhas ou banco de dados, garantindo que cada setor censitário tenha os valores correspondentes para todos os indicadores selecionados. 4. Cálculo dos componentes do índice: Aplique as fórmulas do IPVS para combinar os indicadores em um único valor para cada setor censitário. O cálculo do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) foi realizado a partir da combinação ponderada de indicadores socioeconômicos e demográficos obtidos por setor censitário, segundo a metodologia da Fundação Seade. Cada indicador recebe um coeficiente específico (peso) que reflete sua importância relativa na composição do índice. Esses coeficientes são aplicados aos valores normalizados dos indicadores para gerar escores parciais em duas dimensões principais: socioeconômica e demográfica. A soma desses escores resulta no escore final do IPVS para cada setor censitário. 45 De forma simplificada, a fórmula pode ser representada como: Equação 1 – Cálculo do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) IPVSi = ∑ n j=1 wj×xij Onde: A imagem contém uma lista com quatro pontos em português, que são: * i é o setor censitário, * j é o indicador considerado, * Wj é o peso (coeficiente) atribuído ao indicador j. * Xij é o valor normalizado do indicador j no setor censitário i. Os principais indicadores utilizados incluem renda domiciliar per capita, escolaridade do responsável pelo domicílio, percentual de domicílios em aglomerados subnormais, idade e composição familiar, entre outros. Após o cálculo dos escores, os setores censitários são classificados em grupos de vulnerabilidade social que vão de 1 (nenhuma vulnerabilidade) a 7 (vulnerabilidade muito alta), conforme faixas definidas pela metodologia oficial. 5. Classificação dos setores censitários: Classificar os setores censitários em categorias de vulnerabilidade social, que variam de 1 a 7, conforme o grau e o perfil da vulnerabilidade: - 1: Nenhuma vulnerabilidade - 2: Vulnerabilidade muito baixa - 3: Vulnerabilidade baixa - 4: Vulnerabilidade média (urbana) - 5: Vulnerabilidade alta (famílias jovens em setores urbanos) - 6: Vulnerabilidade alta (famílias idosas, adultas e jovens em setores rurais) - 7: Vulnerabilidade muito alta (famílias jovens em aglomerados subnormais) 46 6. Análise e interpretação dos resultados: Analisar os padrões espaciais e sociais indicados pelo IPVS, identificando bolsões de pobreza e áreas com necessidades específicas. Investimentos sociais direcionados. 7.Atualização e monitoramento: Repetir o processo com dados atualizados do Censo Demográfico para monitorar a evolução da vulnerabilidade social ao longo do tempo, ajustando estratégias conforme as mudanças observadas. Esse passo a passo segue a metodologia oficial do IPVS, conforme detalhado pela Fundação Seade e Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, e permite uma avaliação precisa e detalhada da vulnerabilidade social em níveis territoriais finos, essencial para planejamento e gestão pública eficazes. O número de setores censitários classificados como de Média, Alta e Muito Alta Vulnerabilidade Social segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) no município de São Paulo reflete a distribuição espacial das desigualdades socioeconômicas na cidade. Essa classificação, baseada em múltiplos indicadores como renda, escolaridade, condições habitacionais e acesso a serviços, permite identificar as áreas mais vulneráveis dentro do território urbano, destacando a concentração significativa de setores com níveis elevados de vulnerabilidade social. Esse cálculo é fundamental para a pesquisa porque evidencia a relação direta entre os níveis de vulnerabilidade social, medidos pelo IPVS, e as perdas de água nas áreas estudadas, permitindo uma compreensão aprofundada das desigualdades socioeconômicas que influenciam a eficiência do saneamento básico. Essa conexão é essencial para identificar os fatores que agravam as perdas, como a precariedade das infraestruturas e a falta de conscientização, aspectos que impactam diretamente a qualidade de vida das populações mais vulneráveis" Figura 3. 47 Figura 3 – Mapa do IPVS da cidade de São Paulo. Fonte: Prefeitura de São Paulo – Ano 2014 - https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/servicos/Mapa_IPVS_por_Prefeituras_Regi onais.jpg 48 4.3 Identificação dos fatores que contribuem para as perdas de água O Novo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) impõe metas claras para a redução das perdas de água nos sistemas de abastecimento, tornando essa redução uma condição para que municípios recebam recursos federais, conforme a Portaria nº 490/2021. Essa portaria estabelece que os municípios devem alcançar uma média máxima de 25% de perdas até 2033/2034. A legislação exige que os contratos de prestação de serviços de saneamento contenham metas específicas para a redução e controle das perdas, o que incentiva a modernização da infraestrutura, como substituição de tubulações antigas, controle de vazamentos e gestão eficiente da pressão no sistema. A redução das perdas é fundamental para a sustentabilidade financeira das operadoras, pois evita desperdício de água tratada, que atualmente chega a cerca de 40% em média de perdas, podendo chegar a 60% em algumas regiões. Estima-se que uma redução de 20% nas perdas ao longo de 20 anos poderia gerar uma economia de R$ 31 bilhões. Moraes (2023) destaca a redução das perdas de água como uma meta prioritária no Brasil, inserida no Novo Marco do Saneamento. O boletim enfatiza que alcançar o índice máximo de perdas de 25% até 2033/2034 é fundamental para garantir o uso racional dos recursos hídricos, além de mitigar impactos econômicos e ambientais negativos. Moraes reforça que a racionalização das perdas, associada à eficiência energética, é uma medida estruturante necessária para a sustentabilidade dos serviços de saneamento. O IPDT como um indicador que mede a eficiência dos sistemas de abastecimento de água e reflete as perdas totais de água tratadas ao longo da rede de distribuição está relacionado principalmente ao Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Esse indicador é amplamente utilizado pelo SNIS para avaliar o desempenho das companhias de saneamento, sendo o IN049 um dos principais índices para quantificar as perdas na distribuição em termos percentuais do volume de água produzida. O cálculo do Índice de Perdas de Água na Distribuição é uma etapa fundamental para avaliar a eficiência dos sistemas de abastecimento e identificar oportunidades de redução do desperdício hídrico. Este índice quantifica o volume de água perdido em relação ao total disponível para distribuição, considerando tanto 49 perdas físicas, como vazamentos, quanto perdas aparentes, como fraudes e erros de medição. A aplicação de um procedimento sistemático e padronizado, baseado em dados volumétricos precisos e indicadores técnicos reconhecidos nacional e internacionalmente, permite não apenas diagnosticar o desempenho atual do sistema, mas também subsidiar o planejamento de ações corretivas e o monitoramento contínuo da gestão dos recursos hídricos urbanos. A seguir, apresenta-se um passo a passo detalhado para o cálculo e análise do Índice de Perdas de Água na Distribuição. 4.3.1 Coleta dos dados volumétricos Para a obtenção de dados precisos e atualizados sobre volumes, consumo e perdas no saneamento básico, é fundamental recorrer a diferentes fontes de informação operacionais e cadastrais das concessionárias. As concessionárias de saneamento possuem sistemas de controle e monitoramento, como os Centros de Controle Operacional (CCO), que registram em tempo real ou periodicamente dados de produção, consumo, perdas e ligações. Esses dados podem ser solicitados formalmente para obtenção dos volumes e quantidades necessárias. Muitas empresas utilizam sistemas automatizados que geram relatórios detalhados sobre volumes medidos em macromedidores e hidrômetros, facilitando a extração de dados precisos. As empresas mantêm cadastros atualizados das ligações de água, que podem ser fornecidos para cálculo da média anual de ligações (NLA med.). Secretarias e departamentos municipais de saneamento: Podem fornecer dados consolidados das operações municipais, especialmente quando o serviço é prestado diretamente pela prefeitura ou por autarquias. Instituto Trata Brasil e Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS): Esses órgãos reúnem dados oficiais de saneamento que podem ser consultados para estudos e análises, incluindo volumes e ligações. Contratos de concessão e programas de operação podem fornecer documentos que formalizam a prestação dos serviços geralmente incluem cláusulas para o fornecimento de dados operacionais e financeiros, que podem ser utilizados para obtenção das informações necessárias. Empresas e municípios costumam 50 elaborar esses documentos, que contêm dados consolidados sobre volumes produzidos, consumidos e perdas. Leitura de hidrômetros e macromedidores para obtenção de dados de consumo medido e volume disponibilizado, a leitura periódica dos equipamentos instalados nas redes é a fonte primária, podendo ser feita manualmente ou via sistemas automatizados. Para volumes não medidos diretamente, as empresas utilizam critérios técnicos e históricos para estimar consumos e volumes autorizados não faturados. A Tabela 7 apresenta um resumo com as fontes e descrição dos principais meios para obtenção desses dados. Tabela 7 – Descrição das fontes para cálculo do IPDT Fonte / Método Descrição Concessionárias / Operadoras Fornecimento de relatórios do CCO, dados de telemetria, cadastros de ligações e consumo Órgãos Públicos e Reguladores Dados consolidados do SNIS, secretarias municipais, órgãos reguladores e de defesa Documentação Contratual Contratos, planos de sustentabilidade e relatórios de gestão que incluem dados operacionais Leitura e Medição Direta Hidrômetros e macromedidores, leitura manual ou automática Estimativas Técnicas Para volumes não medidos, baseadas em históricos e critérios técnicos Fonte: Elaboração do próprio autor. A partir dos dados coletados das diferentes fontes operacionais e cadastrais das concessionárias, conforme anexo nos Apêndice A, como volumes produzidos, consumidos, perdas registradas e quantidade média de ligações ativas, é possível calcular as variáveis do Índice de Perdas Totais por Ligação na Distribuição (IPDT). Esse índice, expresso em litros por ligação por dia, mensura de forma precisa o volume diário de perdas totais, considerando o volume disponibilizado à distribuição, o consumo medido e os usos autorizados não comercializados, além do número de ligações ativas. Assim, a integração desses dados permite uma avaliação detalhada 51 da eficiência do sistema de distribuição de água, fundamental para o planejamento e a regulação do saneamento básico. Os dados são frequentemente coletados e atualizados mensalmente pelas concessionárias de água, que também elaboram planos de ação para controle e redução das perdas, incluindo substituição de hidrômetros, controle de pressão e reparo de vazamentos. O uso de metodologias estatísticas e de controle estatístico de processo (CEP) auxilia no monitoramento contínuo e na avaliação da eficiência das ações implementadas, permitindo ajustes e melhorias constantes na gestão das perdas de água. Os dados dos indicadores a seguir estão disponibilizados em anexo no apêndice A. VD: Volume Disponibilizado à Distribuição (m³/mês): Água produzida no sistema é o volume de água que o sistema produz e entrega para distribuição, antes das perdas que ocorrem na rede até chegar ao consumidor final. É um indicador fundamental para o gerenciamento dos sistemas de abastecimento de água, pois representa a base para o cálculo de perdas, faturamento e consumo. Medição macrométrica: O volume disponibilizado é obtido a partir dos dados dos medidores de vazão (macromedidores) instalados na entrada da rede de distribuição ou na saída das estações de tratamento. Esses medidores registram o volume total de água que o sistema produz e libera para a rede, normalmente em metros cúbicos por mês (m³/mês). Divisão em Distritos de Medição e Controle (DMC’s): Para facilitar o controle e a gestão das perdas, a rede de distribuição é segmentada em áreas menores chamadas DMC’s, onde são instalados macromedidores que permitem medir o volume disponibilizado em cada distrito. Isso possibilita identificar áreas com maiores perdas e atuar de forma mais eficiente. Registro periódico: O volume disponibilizado é registrado periodicamente (normalmente mensalmente) para compor o balanço hídrico do sistema e calcular indicadores de perdas, como o índice percentual de perdas, que relaciona o volume perdido com o volume disponibilizado. VCM: Volume de Consumo Medido ou Estimado (m³/mês) Água consumida (faturada) Volume de serviço: (água usada para limpeza, testes e perdas operacionais reconhecidas) representa o volume de água consumida pelos usuários conectados ao 52 sistema de abastecimento, que pode ser tanto o volume efetivamente medido por hidrômetros quanto o volume estimado para ligações onde não há medição direta. Medição direta: A principal forma de medir o VCM é através da leitura periódica dos hidrômetros instalados em cada ligação de água. Essas leituras são feitas mensalmente ou em intervalos regulares pelas equipes da concessionária, que registram o volume consumido em metros cúbicos (m³). Estimativa para ligações sem hidrômetro: Para imóveis sem hidrômetro ou com hidrômetros com defeito, o consumo é estimado com base em médias históricas, padrões de consumo similares, ou critérios técnicos definidos pela concessionária. Essa estimativa é necessária para garantir que todo o consumo seja contabilizado e faturado, mesmo na ausência de medição direta. Registro e faturamento: O volume medido ou estimado é somado para compor o volume faturado, que é a base para a cobrança aos usuários. O consumo mínimo pode ser aplicado para volumes muito baixos, garantindo um faturamento mínimo por ligação VCANCd: Volume de consumo autorizado não comercializado na distribuição (relativo aos usos operacionais, emergenciais, públicos, próprios e sociais). É dado em (m³/mês) corresponde ao volume de água utilizado no sistema de abastecimento para usos autorizados, porém que não geram receita para a operadora, ou seja, não são comercializados. Esse volume é relativo a usos operacionais, emergenciais, públicos, próprios da companhia e sociais. O VCANCd inclui volumes de água destinados a usos operacionais: como desinfecção de adutoras e redes, testes hidráulicos, limpeza de redes e reservatórios, consumo em prédios próprios da operadora. Usos emergenciais de abastecimento via caminhão-pipa em situações de rompimento ou colapso do sistema, atendimento a populações afetadas por desastres naturais, consumo pelo corpo de bombeiros. Atividades sociais e públicas para abastecimento de comunidades carentes (favelas, chafarizes), lavagem de ruas, rega de espaços verdes públicos, fontes públicas, fornecimento para obras públicas. Esses volumes são autorizados pela operadora, considerados necessários para o funcionamento do sistema e para atendimento social, mas não são faturados, ou seja, não geram receita. 53 Preferencialmente, esses volumes devem ser medidos e controlados por meio de micromedidores instalados nos pontos de uso, como hidrômetros coletivos para usos sociais ou medidores específicos para usos operacionais. Quando a medição direta não é possível, o volume é estimado com base em registros operacionais, históricos de consumo, padrões técnicos ou critérios definidos pela concessionária. Os registros volumétricos são coletados nos controles operacionais da prestadora de serviços, podendo ser medidos ou estimados, e são usados para compor o balanço hídrico do sistema. NLA med.: Quantidade de Ligações de Água, média aritmética de 12 meses (unidades). Representa a média mensal do número total de ligações de água ativas em um sistema de abastecimento ao longo de um ano. A Quantidade de Ligações de Água (NLA) refere-se ao total de unidades consumidoras conectadas ao sistema de distribuição de água, incluindo residências, comércios, indústrias e prédios públicos. A média aritmética de 12 meses é calculada somando-se o número de ligações em cada mês do ano e dividindo-se por 12, para suavizar variações sazonais e obter um valor representativo do parque de ligações ao longo do período. Esse indicador é fundamental para o planejamento, operação e gestão do sistema de abastecimento, pois influencia diretamente no dimensionamento da rede, no cálculo do consumo total, no faturamento e na análise de perdas. O número de ligações é contabilizado mensalmente a partir dos registros da concessionária ou operadora do sistema, que mantém cadastro atualizado dos usuários ativos. A média aritmética anual é obtida pela fórmula: Equação 2 – Quantidade de Ligações de Água NLA med = ∑ 12 i=1 NLA i 12 Onde NLA é o número de ligações no mês i. Essa média ajuda a minimizar impactos de variações temporárias, como cortes, novas ligações ou desligamentos temporários. 54 4.4 Cálculo dos índices de Perdas na Distribuição (IPDT) bairros de São Paulo O IPDT é calculado a partir do volume de água que entra no sistema de distribuição e o volume de água que é efetivamente faturado. A fórmula básica para