LICENCIATURA PLENA EM PEDAGOGIA MAIARA FERNANDA DA SILVA O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS NA ADULTIZAÇÃO DA INFÂNCIA MAIARA FERNANDA DA SILVA O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS NA ADULTIZAÇÃO DA INFÂNCIA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Biociências – Câmpus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, para obtenção do grau de Licenciada em Pedagogia.                                                Orientador(a): Prof. Dr. Rinaldo Correr                                                Coorientador(a): M.a. Giovanna Souza Picolo                                              Rio Claro - SP 2025 S586i Silva, Maiara Fernanda O impacto das redes sociais na adultização da infância / Maiara Fernanda Silva. -- Rio Claro, 2025 41 p. + 1 CD-ROM Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura - Pedagogia) - Universidade Estadual Paulista (UNESP), Instituto de Biociências, Rio Claro Orientadora: Prof. Dr. Rinaldo Correr Coorientadora: M.a. Giovanna Souza Picolo 1. Infância. 2. Adultização. 3. Redes sociais. I. Título. Sistema de geração automática de fichas catalográficas da Unesp. Dados fornecidos pelo autor(a). 2 MAIARA FERNANDA DA SILVA O IMPACTO DAS REDES SOCIAIS NA ADULTIZAÇÃO DA INFÂNCIA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto de Biociências, Câmpus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, para obtenção do grau de Licenciada em Pedagogia. BANCA EXAMINADORA: Prof. Dr. Rinaldo Correr Prof. Dr. César Donizetti Pereira Leite Prof. Dr. Fábio Caires Correia Aprovado em: 04 de dezembro de 2025 Assinatura do discente Assinatura do(a) orientador(a) Assinatura do(a) coorientador(a) 3 Dedico este trabalho aos meus pais Terezinha e José. Com todo meu carinho. 4 AGRADECIMENTOS Aos meus pais, Terezinha Rosalina e José Aparecido, por todo apoio fornecido nos últimos quatro anos e em toda minha vida. Não sou completa sem vocês. Às minhas avós Maria José e Rosália, que não estão mais presentes em vida, mas olham por mim todos os dias. Vocês iriam adorar a pessoa que estou me tornando. Ao meu irmão Luan Henrique, que não entende o amor à licenciatura mas que entende a vida universitária. Somos tão diferentes e iguais ao mesmo tempo. A minha amiga Ranna Mel, por todo o apoio e amor nos últimos quatro anos. Não existe ninguém que me entenda melhor que você. A minha amiga Isabela Segredo, que entende todos os dilemas da vida acadêmica e que é muito vocal sobre o orgulho que sente por mim. Também sinto muito orgulho de você. Aos meus amigos, Guilherme, Jaqueline, Vitória, Isabel e Jackie, que vibram com qualquer conquista possível. Aos meus colegas de classe. Espero que tenha valido a pena todo o esforço. A minha co-orientadora Giovana Souza Picolo, pela paciência e compreensão durante o processo de elaboração deste trabalho. Você é um exemplo para mim. Ao meu orientador Rinaldo Correr, por incentivar e acreditar na minha proposta de trabalho. O seu incentivo foi o que me motivou. Aos professores do curso de Licenciatura em Pedagogia da UNESP de Rio Claro, pelos ensinamentos e pelas aulas desenvolvidas. E a Universidade Estadual Paulista (UNESP - Câmpus de Rio Claro) pela oportunidade de aprender, crescer e evoluir. De coração, obrigada! 5 “Lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo pra ela.” Orson Welles 6 RESUMO O objetivo deste projeto é explorar conceitos como redes sociais, infância e adultização, demonstrando como o acesso e a exposição precoce e sem limites de crianças a redes sociais podem trazer consequências, influenciando a sua imagem e na reprodução de comportamentos adultizados, caracterizando a forma como acessam as redes e quais as consequências dessa exposição. Esta pesquisa é de natureza qualitativa e exploratória, na qual foi utilizado o método de análise de conteúdo proposto por Bardin (2011). Os resultados foram obtidos a partir da análise de pequenas filmagens veiculadas nas redes sociais denominadas “short form videos”. Para assegurar a validade da coleta de dados, foram utilizados os termos de pesquisa “exposição de corpos infantis”, “estética, moda e beleza” e “comportamentos infantis adultizados”, identificando vídeos relevantes que apresentam experiências infantis sobre o impacto das redes sociais. Palavras-chave: infância, adultização, redes sociais. 7 ABSTRACT The aim of this project is to explore concepts such as social media, childhood, and adultification, demonstrating how early and unlimited access and exposure of children to social networks can lead to consequences that influence their self-image and the reproduction of adult-like behaviors. This characterizes the way they access these platforms and the consequences of such exposure. This research is qualitative and exploratory in nature, using the content analysis method proposed by Bardin (2011). The results were obtained from the analysis of short-form videos shared on social media. To ensure the validity of data collection, search terms such as "child body exposure," "aesthetics, fashion and beauty," and "adult-like child behaviors" were used in order to identify relevant videos that portray children’s experiences regarding the impact of social media. Keywords: childhood, adultification, social media. Title in english: The impact of social media on the adultization of childhood. 8 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Quadro Madonna di San Giorgio alla Costa……………………………… 16 Figura 2 – Os cinco filhos mais velhos de Carlos I.……………………………………17 9 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Vídeos Selecionados do aplicativo Tik Tok...............................................30 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................................ 11 1.1 Objetivo geral......................................................................................................13 1.2 Objetivos específicos.........................................................................................13 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA.............................................................................. 14 2.1.1 Concepções de infância histórica..............................................................................14 2.2 Marcos do desenvolvimento infantil.............................................................................18 2.3 Adultização da Infância.................................................................................................. 19 2.4 Tecnologia e Redes Sociais na Infância....................................................................... 20 2.5 Educação e Mídia............................................................................................................25 3 MATERIAIS E MÉTODOS...................................................................................... 28 4 RESULTADOS........................................................................................................ 31 4.1 Categoria: Estética, moda e beleza...............................................................................31 4.2 Categoria: Exposição do corpo infantil........................................................................ 32 4.3 Categoria: Comportamentos infantis adultizados.......................................................33 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................35 REFERÊNCIAS..........................................................................................................37 11 1​ INTRODUÇÃO As redes sociais deixaram de ser apenas uma ferramenta de comunicação há alguns anos. Conforme sua evolução, novas funções foram sendo atribuídas, impactando diariamente a vida de seus usuários. Além de uma rede que proporciona a comunicação entre familiares e amigos, passou a ter papel fundamental no marketing pessoal e profissional, transformando pessoas comuns em grandes personalidades e contribuindo para o aumento massivo de usuários. O aumento de usuários não segue uma faixa etária específica, mas aquela que chama atenção é bem jovem. Ao observar comportamentos de crianças da família e das escolas por onde passei em estágios, pude observar que as crianças possuíam um humor semelhante ao meu e do meu ciclo social, certos comportamentos exibidos refletiam os meus, principalmente o comportamento das meninas e por muitas vezes essas crianças apareciam na escola usando produtos que faziam parte do meu desejo pessoal de adulta. Tudo isso trouxe a reflexão sobre como esses comportamentos e produtos chegam a estas crianças. O acesso a redes sociais acontece por diferentes indivíduos, grupos e corporações que buscam interagir, se comunicar e construir novos relacionamentos. Por meio destas redes é possível acessar os mais diversos tipos de conteúdos, normalmente públicos e sem limites para acessos e interações. Dessa forma, é preciso compreender como este acesso pode afetar a infância. Momento da vida que se inicia no nascimento e se estende até os 12 anos. As experiências vividas neste momento de desenvolvimento são capazes de impactar a criança em diferentes aspectos, físicos, emocionais, psicológicos e sociais. Para fins sociais, o tema é capaz de trazer compreensão acerca dos aspectos das redes sociais que são desconhecidos, percebendo como a exposição das crianças e o acesso sem restrições podem ser perigosos. Como as redes sociais fazem parte do desenvolvimento das crianças, é importante que os professores entendam como trabalhar com esse público em sala de aula, uma vez que, as influências deste fenômeno transbordam para a vida fora das redes sociais. 12 O presente trabalho tem como objetivo analisar o desenvolvimento da criança em seus aspectos sociais, físicos e psicológicos, percebendo como a introdução às redes sociais é capaz de moldá-lo, bem como os impactos que podem ser causados. Questiona-se como o acesso e exposição às redes sociais influenciam no processo de adultização da infância. Por meio da análise de conteúdos de vídeos da rede social Tik Tok, serão observados quais tipos de conteúdos envolvendo crianças são mais acessados e contém mais engajamento, mostrando de que forma os dados obtidos são relevantes para o contexto educacional. Para tanto, este trabalho será dividido em três partes: em primeiro momento serão abordados os conceitos de infância e desenvolvimento infantil, redes sociais e algoritmos, conceito de adultização da infância e crianças como produtoras de conteúdo. No segundo momento, será feita uma análise a partir da seleção de conteúdos, a partir de vídeos da rede social Tik Tok com critérios pré definidos. Em último momento, será feita a descrição dos conteúdos selecionados, assim como a análise destes, buscando mostrar a relevância dos dados para o contexto social e educacional. 13 1.1​ Objetivo geral Identificar como a exposição precoce de crianças as redes sociais influencia na adultização da infância, analisando quais tipos de conteúdo acessam e como os mesmos interferem no processo de desenvolvimento e manifestação dos comportamentos. 1.2​ Objetivos específicos a)​ Analisar a influência no processo de desenvolvimento e comportamentos infantis pelo acesso às redes sociais; b)​ Analisar quais tipos de conteúdo postados por crianças costumam ter mais engajamento, por meio de análise de dados do Tik Tok. 14 2​ FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Infância e Desenvolvimento Infantil 2.1.1 Concepções de infância histórica Durante a Idade Média, o que conhecemos atualmente como infância era inexistente. Em períodos da história, como o Feudalismo, as crianças eram tidas como uma espécie de “mini adultos”, o “sentimento de infância” descrito por Ariès (2006),não era presente, as crianças começavam a ser consideradas parte do meio adulto a partir do momento que não dependiam mais da mãe para suas necessidades e passavam a agir sem solicitude das mesmas. Segundo Veyne (1989), na Roma antiga eram normalizadas praticas como o aborto, o abandono de crianças recém nascidas e morte de crianças. A criança que o pai não levantar será exposta diante da casa ou num monturo publico; quem quiser que a recolha. Igualmente será enjeitada se o pai estiver ausente, o tive ordenado à mulher grávida [...] Enjeitavam ou afogavam crianças malformadas (nisso não havia raiva, e sim razão, diz Sêneca: É preciso separar o que é bom do que não pode servir para nada), ou ainda os filhos de sua filha que “cometeu uma falta”. Entretanto, o abandono dos filhos legítimos tinha como causa principal a miséria de uns e a política patrimonial de outros. [...] Contudo mesmo os mais ricos podiam enjeitar um filho indesejado cujo nascimento pudesse perturbar disposições testamentárias já estabelecidas (Veyene, 1989 p.24). A partir do século XVII, com a chegada da modernidade e o desenvolvimento do capitalismo, se tornou possível caracterizar um modelo de infância a partir da reflexão sobre a educação das mesmas por meio das escolas, na sociedade burguesa. É possível observar estas mudanças sob a luz de um estudo iconográfico realizado por Ariès (2006, p. 18), que analisa obras de arte desde a Idade Média. Constatando que neste período as crianças eram retratadas nas pinturas como mini adultos, tendo sua imagem distorcida, pequenas e com corpos fortes, caracterizadas pelo sagrado e pelo divino, possuindo implicação religiosa. “[...] as pinturas coerentemente retratavam as crianças como adultos em miniatura, pois logo que as 15 crianças deixavam de usar cueiros, vestiam-se exatamente como outros homens e mulheres de sua classe social”, (Postman, 1999 p. 32). Figura 1 – Quadro Madonna di San Giorgio alla Costa (1295), de Giotto di Bondone (1267-1337) Fonte: https://www.firenzeyesplease.com/en/post/un-capolavoro-di-giotto/ Apenas no século XVII as crianças começam a aparecer sozinhas ou em grupos nas obras de arte, sendo representadas como são e não como mini adultos. Isso ocorreu, segundo Ariès(2006), devido à evolução que os temas relacionados à primeira infância tiveram neste período. Destacando a idade dos brinquedos, onde as crianças brincam e depois a idade da escola, onde os meninos aprendem a ler e as meninas aprendem a fiar. https://www.firenzeyesplease.com/en/post/un-capolavoro-di-giotto/ 16 Figura 2 – Os cinco filhos mais velhos de Carlos I (1637), de Antoon van Dick (1599- 1641) Fonte: https://www.historiadasartes.com/anton-van-dyck/ O conceito de infância é consolidado de fato a partir do século XIX, período em que as sociedades começaram a ter melhor qualidade de vida, advindas de mudanças nas condições demográficas. Neste período, as práticas de higiene se tornaram comuns e ocorreu o surgimento das vacinas, contribuindo para a diminuição da mortalidade infantil. As reformas na educação também forneceram importante contribuição para a distinção entre infância e fase adulta. No mundo medieval, segundo Postman (1999), a infância durava até os 7 anos, que era quando as crianças dominavam a oralidade, podendo compreender o que os adultos falam, não havendo necessidade para os aprendizados de leitura e escrita, visto que, os escribas da igreja católica detinham o poder de ler e escrever. Com o invento da prensa tipográfica, por volta de 1439, a leitura se tornou essencial, além da oralidade, não se era mais necessário acompanhar a leitura feita por uma única pessoa, o processo de leitura era individual e antissocial. Desta forma, para se tornarem adultos, os jovens necessitavam aprender a ler, precisavam de educação, resultando na reinvenção das escolas, que transformou a infância em uma necessidade social. “este senso exacerbado do eu foi a semente que levou por fim ao florescimento da infância”. (Postman, 1999, p. 42). Nos séculos XVI e XVII, a evolução da instituição das igrejas protestantes como a religião dos livros, explorava recursos da tipografia. Assim, a educação https://www.historiadasartes.com/anton-van-dyck/ 17 começou a passar por uma reformulação, e a escola se estabilizou como parte importante da infância, período em que a criança se formaria integralmente, aprendendo a ler, escrever e compreender conteúdos matemáticos, além da oralidade. Essa divisão do que é infância e o mundo da criança, do mundo do adulto gerou nas crianças um sentimento de vergonha, explicado pelo fato de que, ao dividirem o que é infância, os adultos começam a esconder das crianças assuntos que acreditam que elas não devem saber. [...] quando o conceito de infância se desenvolveu, a sociedade começou a colecionar um rico acervo de segredos a serem ocultados dos jovens, segredos sobre relações sexuais, mas também sobre dinheiro, sobre violência, sobre doença, sobre morte, sobre relações sociais (Postman, 1999, p. 63). Importante salientar que esta concepção de infância pode ser feita em um recorte de classes, já que, em períodos como a Revolução Industrial, era comum que crianças mais pobres trabalhassem nas fábricas e indústrias, enquanto as crianças pertencentes à burguesia permaneciam no ambiente escolar, mostrando ser impossível discutir infância e educação sem fazer um recorte político de épocas. 2.1.2 Concepção de Infância na contemporaneidade Nas discussões acerca da infância na contemporaneidade, autores como Postman (1999), nos apresentam o que acreditam ser o desaparecimento da infância, fundamentado na ideia de que, as grandes comunicações de massa são responsáveis pelas informações instantâneas, borrando a linha que divide o mundo das crianças do mundo dos adultos. Postman aponta que, o surgimento do telégrafo eletrônico, inventado por Samuel Finley Breese Morse, deu início a este processo de desaparecimento da infância, fazendo com que o processo de informação se tornasse incontrolável. Assim como o surgimento do telégrafo, o surgimento das televisões também é citado pelo autor. “A televisão é o primeiro verdadeiro teatro de massas, não só pelo vasto número de pessoas que alcança, mas também porque quase tudo na televisão toma a forma de uma narrativa, não de uma argumentação ou de uma sequência de ideias" (Postman, 1999, p. 128). Desta forma argumenta-se que as mídias solicitam nossas emoções para que apenas sintamos as imagens expostas, não que pensemos, transformando ideias e 18 imagens, as mídias eletrônicas vinham como um movimento contrário a linguagem e a leitura. A discussão sobre o desaparecimento da infância a partir do surgimento das mídias eletrônicas ocorre, tendo em vista que, o mundo dos adultos fica exposto ao alcance das crianças, sem restrições e ao não ser possível distinguir o que é o adulto, as linhas que dividem os dois grupos se dissolvem. As crianças ficam passíveis a ver conteúdos relacionados a crimes, violência, homossexualidade, propagandas etc. Além de verem crianças que não representam a infância em si e são representadas como mini adultos, através de suas roupas, cabelo e comportamentos. 2.2 Marcos do desenvolvimento infantil. Segundo o Viver bem Unimed BH (2021), os marcos do desenvolvimento infantil, apresentam as etapas da infância e de que forma as crianças se desenvolvem em cada uma delas. Os marcos não precisam ser vistos como uma regra oficial e imutável acerca do desenvolvimento das crianças, já que, é preciso prezar pela individualidade de cada uma, mas, são importantes para que profissionais consigam perceber quando há algo de errado, para que seja possível a promoção de um desenvolvimento sem muitas conturbações. Por exemplo, é esperado que aos dois meses a criança vire a cabeça na direção dos sons emitidos. Durante a infância, a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de se adaptar e se organizar, tem maior potencial, sendo importante para o desenvolvimento da criança. Desta forma, a promoção de espaços positivos se faz importante para que as crianças possam se desenvolver. Ambientes negativos e estímulos negativos vão impactar diretamente na forma como as crianças se desenvolvem. Estímulos negativos são tipicamente estudados como causadores de estresse excessivo. Pode-se definir estresse como um “estado de prontidão” fundamentado em reações fisiológicas que deixam o organismo alerta e preparado para se adaptar e enfrentar situações ameaçadoras ao seu equilíbrio, com elevação da frequência cardíaca, da pressão arterial e liberação de certos hormônios na corrente sanguínea. (Núcleo ciência pela infância, 2014, p. 5). As crianças começam a se desenvolver de maneira social, principalmente, por meio da escola, onde passam a maior parte do tempo e se desenvolvem 19 inteiramente, este desenvolvimento também ocorre, pelo contato com adultos e cultura local. Dessa maneira, a construção dos circuitos cerebrais é altamente influenciada pelas experiências no início da vida, diretamente mediadas pela qualidade das relações socioafetivas, principalmente pelas interações da criança com seus cuidadores. A aquisição de competências mais complexas no futuro depende de circuitos mais fundamentais que surgem nos primeiros meses e anos de vida. Isso é válido para as diferentes dimensões ligadas às funções cerebrais, sejam elas perceptuais, cognitivas ou emocionais. (Núcleo ciência pela infância, 2014, p. 5). No que se diz respeito ao desenvolvimento da linguagem, é importante o papel dos adultos e da escola de proporcionarem atividades lúdicas capazes de desenvolver modificações nos aspectos cognitivos, linguagem verbal, motora, proporcionando o desenvolvimento global da criança, possibilitam mudanças nos aspectos cognitivos, afetivos e sociais da criança, aumentando a capacidade de trabalhar representações que atribuem significados à realidade. a aceleração do alcance do pensamento neste estágio do desenvolvimento, é atribuída, em grande parte, às possibilidades de contatos interindividuais fornecidos pela linguagem, e é aqui o papel fundamental da escola com a inserção de atividades lúdicas no contexto escolar, ampliando o leque de possibilidades do desenvolvimento global do indivíduo. (Tancredi et al, 2022, p. 6). Desta forma, se faz importante o papel dos adultos no cotidiano da criança, promoverem ambientes positivos para o seu processo de desenvolvimento integral. 2.3 Adultização da Infância A adultização da infância pode ser caracterizada como um fenômeno em que as crianças consomem conteúdos e produtos voltados para os adultos, se expressando como se fizessem parte deste grupo através de falas, comportamentos e consumismo. Esta definição de adultização se apoia no movimento conhecido como desaparecimento da infância, apresentado por Postman (1999). Postman (1999) apresenta o conceito de perda da infância, que surge, através da inovação dos diferentes tipos de mídias tecnológicas. Segundo o autor, esta distinção entre o mundo dos adultos e das crianças começou a perder força após a criação do telégrafo elétrico, afirmando que a informação sem filtro e 20 instantânea aproxima a criança do mundo adulto, que anteriormente era escondido dela. Após isso, outras invenções tecnológicas como a televisão surgiram, abrindo oportunidades para a inovação dos diferentes tipos de mídias. Capazes de reproduzir informações aos seus consumidores, que podem ser o público infantil, muitas vezes incapaz de observar a mídia com criticidade e a consumindo apenas da forma que lhe é apresentada. Em um contexto mais atual, podemos perceber a internet, os smartphones e as redes sociais, como principais fatores responsáveis pelo processo de adultização, visto que, as crianças consomem aquilo que está à sua vista, sem diferenciar a realidade fora das redes do que vê nelas. O que pode ser um fator crucial para entender a adultização, quando o mundo dos adultos é revelado para as crianças, elas começam a se espelhar nesta forma de comportamento, o que pode afetar negativamente o seu desenvolvimento. Comportamentos adultos negativos, como o uso de palavrões e piadas obscenas podem ser reproduzidos, além de, discursos negativos sobre si mesmos que as pessoas compartilham na internet, Elkind (2004) explica que crianças adultizadas apresentam adultez relacionada a problemas psicológicos e comportamentos autodestrutivos, em uma espécie de adoecimento mental. No mundo contemporâneo, onde o processo de adultização é visível, é possível perceber a formação de uma infância com desejos de adultos, guiada pela compra e pelo consumo, a partir do marketing das mídias, fazendo das crianças parte do mercado consumidor. Segundo Ferreira (2005), os adultos se encontram em movimento de performance de competitividade e sucesso, gerando em alguns deles sentimentos negativos de incapacidade e incompetência. As crianças aprendem a partir disso que devem superar todos os obstáculos e se não fizerem fracas e incompetentes, alimentando a cultura da performance que influencia um modelo de vida voltado para a produtividade tóxica. 2.4 Tecnologia e Redes Sociais na Infância Na sociedade atual, as tecnologias estão presentes no cotidiano das crianças das mais variadas formas. Além do uso para estudos, trabalhos de escola e comunicação - muitas vezes com os pais que trabalham fora e precisam se 21 comunicar com os filhos - as tecnologias estão majoritariamente presentes como fonte de entretenimento. As diferentes tecnologias possuem pontos positivos socialmente e pedagogicamente, capazes de promover nas crianças a sensação de pertencimento, de autonomia e contribuem para a aquisição de novos conhecimentos. Mas, podem ser extremamente nocivas ao serem usadas sem limites, sem o monitoramento de conteúdo e sem a capacidade do pensamento crítico acerca de conteúdos acessados, principalmente nas redes sociais. Segundo Santos (2015), muitos pais justificam que é importante para as crianças saberem utilizar as tecnologias desde cedo, e as deixam livres para usar os equipamentos sem monitoramento, o que pode gerar consequências negativas em diversos casos. A proibição, no entanto, não é recomendada e pode ser negativa, considerando que as crianças fazem parte da era digital e a forma como os adultos também são afetados pelas possibilidades das tecnologias e redes sociais. O uso sem limites das redes pode influenciar as crianças a preferirem o mundo virtual e relações virtuais as que poderiam ter no mundo real. Neves et al. (2015), apontam que, pode prejudicar no desenvolvimento como um todo, podendo desenvolver dificuldade de aprendizagem e de afinidade com outras pessoas, o que faz estas crianças serem mais propensas a se tornarem jovens violentos e em alguns casos hipersexualizados. Esta infância, rodeada de tecnologias, é conhecida como cyber-infância (Dornelles, 2005), neste fenômeno, é possível perceber como as crianças se relacionam com as redes sociais e com o consumismo resultante destas redes. Os cyber brinquedos, conhecidos por suas características tecnológicas, são objeto de desejo do público consumidor infantil, como por exemplo, os videogames. Depois de tão alto grau de aperfeiçoamento, o objeto-brinquedo acaba por brincar sozinho; com efeito, ele se torna protagonista de uma brincadeira solitária que é auto-suficiente, não sendo necessário que a criança brinque. Para que ela iria brincar, se o brinquedo brinca sozinho? A criança é privada do prazer de brincar inventando, de criar encenando ao acaso, ficando então fixa, imóvel, estática, enquanto o objeto é que se movimenta, age, fala, canta brinca e faz por ela (Levin, 2007, p. 25). Este novo modelo de infância possui uma relação com o marketing e consumo de brinquedos considerados cada vez mais descartáveis, a cada século 22 que passa a infância brinca menos as que a antecedem, os brinquedos se tornam objetos valor, sendo importantes para as crianças apenas no momento de posse. Tocantins e Wiggers (2021), realizaram uma pesquisa com crianças e adolescentes de uma escola para descobrirem a relação dos alunos com as redes sociais no seu cotidiano. Em resultados diversos da pesquisa foi possível perceber que, a relação que as crianças estabelecem com as tecnologias fazem parte da maior parte de seus dias, em sua maioria o uso é para entretenimento, sem supervisão parental. Em relatos feitos por crianças, pontuam que, não vem o tempo passar quando estão no celular e o utilizam antes de dormir e assim que acordam. As mídias digitais estão presentes no cotidiano das crianças e já são parte de sua identidade como um todo. O acesso às redes é fácil de ser feito e divulgado, colaborando com sua popularidade. Cabe aos adultos responsáveis entenderem como lidar com este fenômeno. As redes sociais passam por diferentes fases de popularidade, estão sempre sendo atualizadas para chamar a atenção de seus usuários e agradar suas exigências, para que não sejam trocadas por outras mais populares. É possível perceber ao longo dos anos os picos de popularidade entre as redes sociais, que se mantém durante o período de lançamento e precisam sustentar esta popularidade com o passar dos anos. Desde 2018, a rede social que vem crescendo e chamando a atenção do público é o Tik Tok, com seus vídeos de curta duração e fácil customização de algoritmos. O Tik Tok surgiu em 2018 com a fusão dos aplicativos Douyin e Musical.ly, quando a empresa chinesa ByteDance, responsável pelo Douiyn comprou os direitos do aplicativo Musical.ly em 2017. A fusão dos aplicativos é fator responsável pela popularidade do TikTok, por serem aplicativos que contavam com muitos usuários. A rede social Tik Tok, é uma plataforma de criação e consumo de vídeos curtos, funciona a partir de algoritmo próprio, conhecido como, algoritmo de recomendação. Tem esse nome pois recomenda conteúdos para a sua for you page (tela principal do aplicativo), baseado nas suas interações com diferentes conteúdos. A recomendação ocorre levando em consideração conteúdos que o usuário curtiu, comentou, compartilhou e favoritou, empurrando estes conteúdos para a tela inicial, construindo assim um feed de rolagem praticamente infinita, apenas com conteúdos que o usuário gostaria de ver, além de propagandas que possam interessá-lo (Taylor & Brisini, 2024). 23 O algoritmo de recomendação de vídeos especialmente curados para o usuários, combinado com o formato de vídeos de curta duração, geram no usuário uma sensação de não satisfação, o fazendo consumir cada vez mais. Desta forma o conteúdo é apenas consumido, o usuário não possui consciência de si, dos outros e de suas ações, segundo Baudrillard (1991). Este algoritmo de recomendação funciona da mesma forma para crianças que acessam o aplicativo, gerando o interesse por vídeos sobre jogos, desenhos e brinquedos, ou aqueles voltados para o público mais adulto, como vídeos de danças com músicas explícitas, moda, maquiagem, vídeos de rotina e os mais diferentes tipos de conteúdo, que podem influenciar no comportamento direto da criança e no consumo de produtos. O público infantil pode se interessar também pela oportunidade de criar vídeos da mesma forma. Para as crianças que se colocam à frente das câmeras como criadoras de conteúdo, existe a oportunidade de se apresentarem como ser e se constituem socialmente, (Jiménez, García, Ayala, 2016). Essa criação pode oferecer às crianças a oportunidade de se desenvolverem e serem reconhecidas antes mesmo de finalizarem a escola, oferecendo a elas a possibilidade de ocuparem espaços comumente ocupados por adultos, estarem no meio de famosos e celebridades e, assim, virarem referência. Esta narrativa de produção de conteúdo e reconhecimento se torna empreendedora, no momento em que, marcas começam a estabelecer contato com as crianças, enviando os seus produtos para que façam vídeos de “unboxing”, ou, testando produtos e serviços, (Jiménez, García, Ayala, 2016). Essa relação entre marca e criança criadora de conteúdo gera em outras crianças o desejo de possuir o mesmo. Aumentando o consumismo infantil e o marketing voltado para essa faixa etária que não consegue discernir o que é realmente necessário. Os conteúdos produzidos por crianças são de naturezas diversas, como vídeos mostrando seu cotidiano em casa, na escola, com a família e amigos, mostrando sua casa, seus arredores, uniformes escolares e demais aspectos de suas vidas pessoais que acabam sendo expostos. E, engajando nos diferentes tipos de tendências que se popularizaram nas redes, seja uma dança, desafio, pegadinhas ou trends de moda e beleza. Essas trends são normalmente produzidas pelos usuários devido a popularidade e alcance que possuem. 24 O reconhecimento a partir da criação de conteúdos para as redes sociais também pode ser problemático, a criança está sujeita a diferentes tipos de exposição, que podem acabar acarretando na perda de sua privacidade, exploração comercial, vigilância, danos a reputação e perda do direito ao esquecimento, bullying e assédio sexual (Tomaz, 2023, p. 5). Além de, estarem sujeitas a receber o mesmo tipo de tratamento e constrangimentos que os adultos normalmente recebem. (Bluebond-Langner e Korbin, 2007, p. 242). Esse processo de criação de conteúdo infantil, impacta negativamente a vida da criança quando começa a privação de viver sua infância, estando sempre com a agenda cheia de gravações, eventos e compromissos, não tendo tempo para brincadeiras e atividades que contribuem para o seu desenvolvimento, como estudar, fazer um esporte etc. Com conteúdos cada vez mais roteirizados que tiram a espontaneidade das crianças, às fazendo agir como mini adultos. Nesse cenário, os algoritmos das plataformas digitais determinam a visibilidade e o alcance desses conteúdos infantis. O funcionamento dos algoritmos, voltado para o engajamento e o consumo de mais e mais mídias, reforça as práticas que estimulam a adultização precoce e estimulam os comportamentos exibidos pelas crianças, conectando a produção de conteúdo aos mecanismos de tecnologia que constroem o ambiente virtual. Medina e Fertig (2005), definem os algoritmos como conjunto de regras e procedimentos lógicos, definidos para levarem a solução de um problema em um número finito de etapas, a partir da definição dos matemáticos Alonzo Church e Alan Turing, em 1936. Para as redes sociais, os algoritmos funcionam a partir da coleta de dados dos usuários, que alimentam este algoritmo, fazendo com que o mesmo seja capaz de prever o que o usuário gostaria de ver, o que o usuário está necessitando comprar no momento, sendo capaz de fazer com que o usuário fique na sua bolha de consumo, como se aquela fosse a única realidade, o privando de uma criticidade. Vieira Pinto (2005), afirma que, as tecnologias possuem interesses mais ou menos explícitos de grupos mais ou menos visíveis e por esses interesses são criadas e mantidas. O intuito dos algoritmos é aumentar o engajamento nas redes sociais, fazendo com que os usuários passem a maior parte do tempo no aplicativo, o que 25 gera benefícios lucrativos às plataformas, que fornecem dados de seus usuários a diversos anunciantes, segundo Lanier (2018). Utilizando de exemplo uma pessoa que precisa comprar um tênis de corrida, essa pessoa irá realizar uma pesquisa acerca do tênis que precisa, quais são as melhores marcas, fazendo com que começem a ser sugeridos para essa pessoa anúncios de meia e de roupas para praticar atividade física, mas a pessoa nunca pesquisou estes itens ativamente, pesquisou apenas o tênis. Os dados são usados desta forma pelos anunciantes, pois é mais fácil anunciar estes produtos para esse público específico, do que fazer anúncios gerais que podem ou não chegar a eles. É função dos algoritmos tentar acertar qual conteúdo ou interação deixa o indivíduo mais grudado à tela. Outro ponto a se pensar a partir dos algoritmos, segundo Sumpter (2019), é a forma como as pessoas se relacionam com notícias boas e notícias ruins. Normalmente notícias tidas como negativas possuem maior engajamento nas redes, possuem debates mais ativos, com pessoas expondo suas opiniões sobre o assunto e gerando discussões, já notícias que poderiam gerar um debate positivo não alcançam o mesmo engajamento, o que faz com que o algoritmo entenda este comportamento e faça chegar nos usuários notícias negativas. Os algoritmos desta forma, não se importam com a qualidade do conteúdo que chega ao usuário, apenas se importam em fazer com que o que gera mais engajamento seja acessado. 2.5 Educação e Mídia Siemens (2004) aponta que, o processo de educação pode ser auxiliado e pode acontecer por meio de processos não humanos, dotados de inteligência artificial, visto a realidade da era da tecnologia em que estamos inseridos. As tecnologias e redes sociais, promovem a facilidade no acesso de informações, de ferramentas para pesquisa, além de ser um ambiente repleto de tutoriais que auxiliam as crianças no momento de fazer algo novo. Quando utilizadas de forma para otimizar o processo de educação, essas novas tecnologias podem ser fundamentais. Mas, é preciso que os professores e a escola, auxiliem as crianças no exercício da criticidade acerca dos conteúdos acessados, segundo Lanier (2018), as pessoas não se preocupam em fazer mais de uma checagem nas informações que 26 obtiveram. Por isso, no momento de realizar pesquisas, é preciso orientar os alunos para que não se contentem com o resultado da primeira busca sem investigar mais a fundo, este movimento se mostra importante para que a criança não seja vítima de fake news ou teorias das conspiração. Desta forma, é importante que os professores se atualizem sobre os avanços tecnológicos, aumentando seu repertório de aprendizagens para conseguir auxiliar os alunos no momento de utilizar ferramentas tecnológicas no processo de aprendizagem, visto que, muitas escolas implantam as plataformas educativas, para que os alunos pratiquem os conhecimentos online através de tarefas, desafios e jogos. O papel da escola e do professor frente ao uso das mídias, pode partir de um lugar de orientar os alunos, segundo Garcia e Czeszak (2019), o professor é o elo curador entre o aluno e informações confiáveis, auxiliando o aluno a filtrar informações relevantes para o aprendizado. Visto que, as mídias são parte do cotidiano e se infiltram cada vez mais nos processos educativos, desta forma, se faz importante a atualização de conhecimentos por parte dos professores e das escolas sobre as novas formas de mídia. Observando de que forma os alunos as utilizam no cotidiano escolar. A escola também pode perceber de que forma as mídias sociais podem afetar as crianças negativamente, percebendo quando o desempenho dos alunos começa a cair, ou quando, o aluno começa a ter problemas para se concentrar durante as aulas. A escola, principalmente o professor, pode observar mudanças de comportamento e de linguagem vindas dos alunos que passam grande parte do seu tempo frente às mídias. “A superexposição da criança a celulares, internet, iPad e televisão está relacionada ao déficit de atenção, atrasos cognitivos, dificuldades de aprendizagem, impulsividade e problemas em lidar com sentimentos como a raiva” (Santos, 2015, p.1). Aos pais das crianças, fica a responsabilidade de mediar e monitorar as informações às quais os filhos têm acesso diariamente, através das mídias, assim como buscarem a melhor forma de se comunicarem com eles sobre a situação. As possíveis formas de mediação podem ser divididas em, Mediação Ativa (MA), Mediação Restritiva (MR) e Mediação “Uso Acompanhado”, definidas por Valkenberg, Krcmar, Peeters e Marseille (1999). 27 A mediação ativa, mostra maior resultado no monitoramento realizado pelos pais, já que, estão em contato com a criança, mantendo diálogo aberto e alertando possíveis riscos sobre as atividades feitas online. A mediação restritiva, restringe o tempo de uso, local de uso e o que pode ser acessado, deixando de lado o diálogo com os filhos acerca das regras. A mediação de “uso acompanhado”, segundo Livingstone e Helsper (2008), se caracteriza pelo fato de que o acesso às mídias pela criança é acompanhado por um dos responsáveis no momento em que está acontecendo, sem dialogar sobre os conteúdos acessados. Segundo Maidel e Vieira (2015), é possível que as mediações possam ser mistas e usadas ao mesmo tempo. Segundo Len-Ríos, Hughes, McKee, & Young (2015), a mediação dos pais não deve ficar voltada apenas para como diminuir o tempo de tela das crianças, precisa proporcionar ampliação de atividades importantes para o desenvolvimento, como prática de esporte e leitura. ​ É possível que os pais encontrem dificuldades em monitorar o que os filhos acessam na internet por se tratar de uma atividade mais individualizada, em uma tela menor, mas é importante estar atento ao conteúdo consumido pelas crianças, as orientando e mantendo comunicação efetiva. 28 3​ MATERIAIS E MÉTODOS A presente pesquisa objetivou analisar os impactos das mídias sociais no processo de adultização da infância, por meio de um estudo qualitativo exploratório. Buscou compreender como as mídias sociais influenciam a adultização, considerando a exposição de crianças. O planejamento da pesquisa foi flexível, para permitir a consideração de diferentes aspectos relacionados ao fenômeno em análise (Gil, 2002, p. 41). O estudo analisou dados da rede social Tik Tok, com o intuito de observar quais tipos de conteúdos envolvendo crianças são mais acessados e contêm mais engajamento. A escolha desta rede social foi justificada por sua popularidade e organização, que se apoia em vídeos de curta duração e um algoritmo feito especialmente para o indivíduo, além de mostrar dados como, curtidas, comentários e o número de vezes em que vídeos foram salvos e compartilhados. Através do acesso a essa rede foi possível perceber também quais tipos de conteúdos, trends e propagandas são voltadas para as crianças. Os vídeos foram selecionados com base em critérios específicos que permitem uma análise qualitativa. Os vídeos possuem duração máxima de até seis minutos, garantindo que o conteúdo fosse suficientemente denso para uma análise detalhada, mas não excessivamente longo, uma vez que foram feitas descrições e transcrições do conteúdo. Os vídeos selecionados são os que exibiam crianças com idades entre 4 e 10 anos. Durante a primeira semana de julho, foram feitas pesquisas na barra de buscas do aplicativo Tik Tok a fim de analisar três temas principais: a) estética, moda e beleza; b) exposição do corpo infantil; c) comportamentos infantis adultizados. Para cada temática foram escolhidos os 3 vídeos com maior engajamento e que se adequassem aos critérios citados acima, totalizando 9 vídeos. Os vídeos selecionados foram analisados por meio da técnica de análise de conteúdo qualitativa (Bardin, 2011). O processo de análise de conteúdo envolveu três etapas: (1) Pré-análise: seleção dos documentos que serviram de base para a formulação de hipóteses e objetivos, com a identificação de indicadores que orientaram a interpretação; (2) Exploração do material: etapa em que o material selecionado foi analisado de acordo com os critérios previamente definidos; e (3) Tratamento dos resultados: transformação dos dados coletados em informações 29 claras e relevantes para a análise, com o objetivo de atribuir significado aos resultados obtidos e fazer inferências relacionadas aos objetivos da pesquisa e a novas descobertas potenciais (Bardin, 2011). É possível observar na tabela abaixo o engajamento online dos vídeos selecionados, seguindo os critérios pré definidos. O título dos vídeos ou o nome dos usuários responsáveis pelos vídeos não foram divulgados por fins éticos da pesquisa. Tabela 1 - Vídeos selecionados do aplicativo Tik Tok Fonte: Autora, 2025. Em relação aos cuidados éticos, o material foi utilizado de forma anônima, respeitando a privacidade das crianças e evitando a divulgação dos perfis, evitando efeitos adversos como a exposição pública indesejada mesmo que os vídeos sejam de domínio público. Respeitando as normas exigidas para trabalhos desta natureza, os dados analisados são de publicações de um sistema aberto ou semi público, o que implica na possibilidade de trabalhar e divulgar estes dados sem a necessidade de Vídeo Tema Visualizações Curtidas Comentários Salvos/ compartilhamentos 1 Estética, moda e beleza 554,200 85,1 mil 666 1,224 / 355 2 Estética, moda e beleza 13,000 325 34 135 / 127 3 Estética, moda e beleza 3,5 milhões 452,000 8,438 28,000l /17,300 4 Exposição do corpo infantil 2,1 milhões 180,300 4,880 5,196 / 2,076 5 Exposição do corpo infantil 279,400 7,075 436 570 / 331 6 Exposição do corpo infantil 58,600 9,099 469 217 / 99 7 Comportamentos infantis adultizados 8,4 milhões 814,600 15,900 39,400 / 74,800 8 Comportamentos infantis adultizados 72,900 2,036 49 233 / 62 9 Comportamentos infantis adultizados 4,6 milhões 209,000 6,411 15,200 / 31,600 30 autorização das pessoas que os criaram, ou das pessoas as quais as publicações dizem respeito. Esta perspectiva vem sendo comumente adotada no Brasil (Bousso et al., 2014). Seguindo a metodologia adotada e a Análise de Conteúdo de Bardin (2011), foi feita a interpretação dos dados obtidos a partir dos vídeos selecionados. O método possibilitou uma exploração detalhada dos conteúdos selecionados. 31 4​ RESULTADOS Os vídeos analisados se mostram semelhantes em muitos aspectos, mesmo que estejam enquadrados em três diferentes categorias. Todos os vídeos apresentam crianças do gênero feminino. Ainda que este não foi um dos critérios de seleção, aconteceu de forma natural que os vídeos mais acessados fossem de meninas menores ou até sete anos, explorando seu corpo, suas roupas e seus comportamentos. 4.1 Categoria: Estética, moda e beleza ​ Os vídeos selecionados apresentam crianças do sexo feminino, utilizando roupas que inadequadas para a idade, que imitam roupas de mulheres adultas. Além da utilização de produtos cosméticos não apropriados para a idade delas, como produtos de cuidados com a pele do rosto. ​ Em um dos vídeos, uma garota em transição dos sete para os oito anos apresenta uma marca de cuidados com a pele que gosta muito de usar, o vídeo em questão é patrocinado pela própria marca, que garante a segurança do uso dos produtos pelas crianças. Os comentários são repletos de perfis de crianças falando sobre como adoraram o vídeo, o quanto querem testar os produtos e pedindo dicas de como usá-los. O vídeo além de apresentar o comportamento adultizado de uma criança, reflete em seus comentários a influência sobre outras crianças. ​ Em um dos vídeos relacionado ao vestuário, aparece uma menina em uma montagem de vários clipes dela usando diferentes roupas, a legenda colocada no vídeo pela mãe da criança diz, “os looks bem blogueirinha da minha filha”. O vídeo apresenta uma menina muito nova, utilizando saias curtas, roupas justas, tops e acessórios, normalmente visados para o público adulto. O vídeo atrai muitos comentários que reprovam a forma que a mãe veste a menina, alertando sobre como certas roupas são inapropriadas para a idade dela e como pode ser perigosa a exposição dela desta forma, uma minoria de comentários defende a atitude da mãe. ​ Em contrapartida, o segundo vídeo analisado sobre vestuário apresenta uma menina que se veste de forma apropriada para a sua idade, com roupas que a própria criança escolhe e que a mãe aprova se a criança pode ou não usar. Neste vídeo em específico a mãe está respondendo o comentário de um internauta que 32 disse que a filha dela parece ser mais nova do que realmente é, que meninas da idade dele (7 anos) já se vestem de uma forma mais madura. A mãe fala no vídeo sobre a insatisfação que sente ao receber comentários falando sobre a filha parecer mais nova do que é, e normalmente recebe comentários que criticam a forma como a criança se veste e sugerindo roupas que a fazem parecer ser mais velha. Neste vídeo os internautas respondem de forma positiva, apoiando o posicionamento da mãe, uma minoria acredita que a mãe não deveria deixar a criança escolher as próprias roupas e que a mãe deveria convencer a criança a se vestir de maneira mais adultizada. Apesar destes casos serem opostos no conteúdo, é similar a maneira como as crianças são expostas nas redes pelas mães, as filmando em momentos pessoais e as fazendo posar para vídeos com as roupas, além de receberem comentários e imposições sobre como deveriam se vestir e se comportar. Bluebond-Langner e Korbin (2007) afirmam que, o constrangimento que as crianças podem sofrer por parte de comentários em redes sociais, não difere do constrangimento enfrentado pelos adultos, desta forma, os comentários não são diferentes independente da pessoa exposta no vídeo, as opiniões, imposições e críticas serão feitas da mesma forma. Contribuindo para o desenvolvimento de traumas psicológicos capazes de refletir na vida adulta da criança. 4.2 Categoria: Exposição do corpo infantil O primeiro vídeo é uma resposta a um comentário que critica a atitude da mãe de vestir sua filha em roupas da moda atual, fazendo com que ela pareça com uma mini adulta, no vídeo a menina aparece usando uma saia curta e uma blusa de tule transparente, com um top por baixo, além da maquiagem forte e acessórios. No vídeo a criança aparece dançando e chupando um pirulito, trilha sonora consiste em uma música sertaneja que fala sobre “balançar o popozão”. O segundo vídeo segue um caminho similar, é uma resposta a comentários negativos. Neste vídeo a criança é filmada em uma praça com diferentes roupas, enquanto a mãe narra o vídeo, falando sobre como a filha dela é linda e resolveu investir na carreira de modelo dela desde pequena, colocando ela em roupas bonitas e gravando vídeos e tirando fotos. O problema destacado pelos internautas é a idade da criança, as roupas inadequadas e a forma como foi imposto para ela 33 gravar conteúdos e fazer o trabalho de modelos. A mãe enfatiza o sucesso que a filha está fazendo, principalmente por ter patrocínios com marcas de roupas e agências de modelos mirins. O último vídeo é de uma mãe fazendo um ensaio fotográfico de sua filha de quatro anos, ela narra no vídeo sobre como decidiu expor a filha na internet por ela ser muito linda, sabendo que, ela chamaria a atenção e seria uma ótima modelo, garantindo dessa forma um futuro promissor para ela. O vídeo também é uma resposta a comentários de internautas, o posicionamento da mãe neste vídeo trouxe mais comentários negativos a forma como a mãe expõe a filha na internet, além de criticarem as roupas que são colocadas na criança. Esta categoria apresenta três vídeos similares em conteúdo e na forma como este conteúdo é apresentado ao público. Os vídeos são em resposta a comentários negativos deixados em vídeos anteriores, mostrando a forma como as mães das crianças agem em relação a críticas ao “trabalho” das filhas. Para Coutinho (2019) Ao tratar as mídias sociais como o trabalho da criança, os pais interferem na sua liberdade, explorando a sua imagem e ferindo a sua dignidade. Indo contra o Art. 227 da Emenda Constitucional nº 65, de 2010 “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” (BRASIL, 1988, Art.227). Segundo a autora: A partilha de momentos vividos numa rede social, e a consequente espera de likes, ainda que por um grupo restrito de pessoas, satisfaz apenas o desejo daquele que publica, neste caso, um desejo de aprovação dos pais que, muitas vezes, se diverge do superior interesse da criança (COUTINHO, 2019, p. 28). 4.3 Categoria: Comportamentos infantis adultizados Esta categoria apresenta três vídeos diferentes em conteúdos mas que mostram o mesmo fenômeno: meninas novas se comportando e se comunicando de 34 forma adultizada. Diferentes das categorias anteriores, os vídeos aqui são filmados pelas crianças, sem interferência ou com interferência mínima dos pais. O primeiro vídeo apresenta uma menina de sete anos que participa de concursos de miss, ela está usando um vestido curto, muita maquiagem e um penteado elaborado, no vídeo ela desfila, sorri e acena para a câmera, como uma miss deve fazer. No vídeo, a maquiagem é tão forte que a menina realmente parece uma adulta pequena. ​ Em seguida, um vídeo no estilo “get ready with me”(arrume-se comigo), onde a pessoa se filma se arrumando para algum lugar, é protagonizado por uma criança, ela faz penteados, maquiagem e mostra qual roupa vai usar. No vídeo a menina reproduz falas normalmente ditas por blogueiras mais velhas que fazem o mesmo tipo de conteúdo, isso acontece na forma de descrever as roupas, os produtos que vai usar e até sobre o que vai fazer, como dizer que vai ir para o shopping para gastar o dinheiro que não possui. Finalizando, o vídeo aqui descrito mostra uma criança com seus quatro anos de idade, fazendo um vídeo no estilo “get ready with me”, este vídeo mostra a criança fazendo uma maquiagem evidente em seu rosto, alegando estar corrigindo as imperfeições da pele. Neste vídeo uma música alta com conteúdo explícito toca em segundo plano e mostra outras mulheres adultas se arrumando no mesmo ambiente que a menina, a menina fala para a câmera sobre o evento que vai acontecer, canta a música e participa do assunto das adultas, chega a falar sobre qual estilo de homem é de sua preferência e sobre seu desejo por ele desde pequena. Os comentários do vídeo criticam a forma como a criança se comporta e criticam a forma como foi criada pelos pais, alguns comentários reconhecem a criança por suas aparições nos vídeos de um blogueiro famoso e justificam que a criança é dessa forma por isso, ela cresceu neste meio desde que nasceu e reflete o comportamento dos adultos à sua volta. Jiménez, García, Ayala (2016), afirmam que a criança como criadora de conteúdo, ao receber o reconhecimento pela internet, é capaz de frequentar lugares e estar exposta a situações normalmente destinadas a adultos, participando de eventos e convivendo com celebridades, por exemplo. Fator que pode influenciar no seu desenvolvimento e na construção de sua personalidade, não sendo possível diferenciar aquilo que é o mundo dos adultos e o que é da criança, influenciando o desaparecimento da infância, explicado por Postman (1999). 35 5​ CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho possibilitou entender de que forma a exposição precoce de crianças nas redes sociais pode influenciar para o processo de adultização da infância, além de compreender quais conteúdos acessam e criam para as mídias sociais, percebendo como os mesmos interferem no seu cotidiano, processo de desenvolvimento e manifestação dos comportamentos. Para se atingir maior compreensão do fenômeno adultização, foi analisada por meio de bibliografia a forma como as concepções de infância se alteraram até os dias de hoje, percebendo o sentimento do desaparecimento da infância através da não distinção do mundo dos adultos por parte das mídias. Os conteúdos advindos de redes sociais analisados, expõe principalmente meninas menores que 10 anos de idade, engajando em conteúdos de moda e beleza e demonstrando comportamentos adultizados, em sua maioria, possuem renda própria advinda do “trabalho” com as redes sociais, muitas vezes gerenciado pelos pais da criança, em sua maioria pelas mães. O trabalho com as redes sociais pode proporcionar às crianças fama e visibilidade, que as aproxima de um mundo de pessoas que vivem nos holofotes, como celebridades, as aproximando do mundo dos adultos. Além de sofrerem o mesmo tipo de exposição dos adultos, não estando isentas de receber comentários e imposições por pessoas anônimas na internet, aumentando a chance de serem atingidas pelos malefícios das redes sociais, que podem reverberar em consequências na sua vida adulta. É possível observar na bibliografia a forma como as tecnologias e as redes sociais estão presentes na vida das crianças desde muito cedo, influenciando o desenvolvimento da criança nos diferentes aspectos de sua vida, sejam pessoais ou educacionais, as afastando do mundo real e as aproximando cada vez do mundo online, sendo essencial o monitoramento por parte dos pais em relação ao tempo de tela e conteúdos acessados. A não exposição de crianças a conteúdos de redes sociais, ou a criação dos mesmos, se mostra cada vez mais escassa, a realidade da tecnologia de fácil acesso e a possibilidade de reconhecimento facilitado é presente e normalizada na sociedade moderna atual. Desta forma, a exposição de crianças a conteúdos de mídias sociais 36 influencia a forma como se comportam e possibilita a criação da imagem que a criança quer ter online, ou acaba tendo por influência direta dos pais. Através de roupas, comportamentos, participação em trends e exposição de suas rotinas. Se faz possível perceber a naturalidade com que as redes sociais são introduzidas na vida das pessoas, se tornando parte importante de seus cotidianos, fazendo com que as crianças já entendam as funcionalidades tecnológicas muito cedo, dificultando o não acesso às mesmas. Uma alternativa seria o monitoramento por parte dos pais, ou a não exposição dos filhos por parte dos mesmos. Tarefa difícil de ser concretizada devido a normalidade com que as redes são utilizadas. Desta forma, considera-se essencial que a temática apresentada e analisada seja aprofundada, que discussões sobre o assunto migrem para o espaço on-line, alertando os responsáveis e conscientizando mais pessoas que não entendem sobre como essa nova normalidade moderna pode prejudicar a infância, a fim de, proteger a dignidade e o desenvolvimento pleno das crianças. 37 REFERÊNCIAS ARIÈS, P. História social da criança e da família. Tradução de: L’enfant et la vie familiale sous I’ Ancien Regime. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006. BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011. BAUDRILLARD, J.; JOÃO, M. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’água, 1991. BLUEBOND-LANGNER, M.; KORBIN, J. E. Challenges and opportunities in the anthropology of childhoods: an introduction to “Children, Childhoods, and Childhood Studies”. American Anthropologist, v. 109, n. 2, p. 241-246, 2007. Disponível em: https://anthrosource.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1525/aa.2007.109.2.241. 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