1 Universidade Estadual Paulista Faculdade de Ciências e Letras Departamento de Economia GEEIN – Grupo de Estudos em Economia Industrial Rodovia Araraquara/Jaú km 1 - CEP: 14.800-901 Araraquara-SP Fone/Fax: (16) 3301-6272 E-mail: geein@fclar.unesp.br http://geein.fclar.unesp.br MONOGRAFIA Curso de Ciências Econômicas A Biotecnologia no Setor Agroindustrial Brasileiro: O Papel de Empresas, Instituições e Governo no desenvolvimento da Indústria de Transgênicos e Defensivos Agrícolas Estudante: Camila Cardoso Ribeiro Orientador: Prof. Dr. Eduardo Strachman Banca Examinadora: Prof. Dr. Rogério Gomes ARARAQUARA, 2011 mailto:geein@fclar.unesp.br http://geein.fclar.unesp.br/ 2 FACULDADE DE CIÊNCIAS E LETRAS – CAMPUS DE ARARAQUARA DEPARTAMENTO DE ECONOMIA CAMILA CARDOSO RIBEIRO A BIOTECNOLOGIA NO SETOR AGROINDUSTRIAL BRASILEIRO: O PAPEL DE EMPRESAS, INSTITUIÇÕES E GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA DE TRANSGÊNICOS E DEFENSIVOS AGRÍCOLAS Monografia entregue ao Departamento de Economia da Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Ciências Econômicas, sob a orientação do Prof. Dr. Eduardo Strachman. ARARAQUARA, 2011 3 AGRADECIMENTOS Primeiramente gostaria de agradecer a Deus, por sempre ter estado presente em minha vida. À minha mãe, Itacira Cardoso, que sempre me apoiou e me deu força nos momentos mais difíceis da minha vida, que sempre acreditou em mim e que é certamente responsável pelo o que sou hoje. Minha base, minha família, meu suporte. Não tenho palavras que carreguem o real significado da importância dela em minha vida. Agradeço por seu amor incondicional que contribuiu e muito para que eu acreditasse na existência de pessoas maravilhosas e encantadoras no mundo, que muitas vezes abdicam de muitas coisas para ver as pessoas que amam felizes. Por seu carinho e dedicação durante todos esses anos, pelas várias (e não poucas) ligações para saber simplesmente se estava tudo bem, ou para confortar e até mesmo para dar alguns “puxões de orelha por telefone”, que por vezes foram necessários para o meu crescimento. Ao meu pai, José Aparecido Ribeiro, que mesmo distante contribuiu para a minha formação e que tenho certeza que sempre tentou ajudar da melhor maneira possível. Às minhas amigas, Amanda La Porta, Laís Pires, Jordana Chaves, Luiza Zeron, Ana Carolina , Vitória Bertuzzi, Débora Cattai e Danielle Castro, das quais tive que me ausentar mais durante esses 4 anos que estudo em Araraquara, mas que mesmo longe, sempre tiveram uma palavra carinhosa, uma conversa divertida e boas risadas nos reencontros que tivemos. Aos meus amigos e colegas de faculdade, em especial à Jacqueline Boriam de Oliveira, pelas conversas, pelas risadas inoportunas, pelas madrugadas de trabalho as quais passávamos mais tempo rindo do que qualquer outra coisa, pelos desabafos, enfim, por sempre ter sido minha amiga e que tenho certeza de que carregarei esta amizade para o resto da minha vida. Aos meus colegas de grupo de estudos, em especial à Mariane Françoso, Luís Gustavo Baricelo e Mariana Luciano que contribuíram para as minhas superações enquanto membro do grupo, sempre me ajudando, seja com críticas construtivas ou com palavras de apoio e elogios. Mais em especial ainda, agradeço ao Celso Neris Jr., que se não fosse ele, com certeza minha vida seria mais difícil. Agradeço pela ajuda na elaboração 4 do projeto que envolveu o tema da presente monografia, e as horas que se dispôs a ajudar em minhas dificuldades, nas quais sua ironia constante e piadas sem graça renderam-me boas risadas. Ao Tiago Fiorentino, pela paciência em meus momentos de “stress” no últimos meses de faculdade, e pelo carinho e amor que tem me dedicado durante todo este tempo que estivemos juntos. Pelo apoio, pelas ajudas na formatação da presente monografia e pelas boas risadas que me tranquilizaram e fizeram aliviar os momentos de pressão. Agradeço também pelos conselhos, pelas palavras confortantes nos momentos difíceis, e por trazer muitas alegrias para a minha vida. Meu agradecimento aos professores da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho em Araraquara, em especial ao Prof. Dr. Rogério Gomes e ao meu orientador Prof. Dr. Eduardo Strachman que sempre acreditaram em meu potencial e me incentivaram nas pesquisas de temas que deram início a elaboração de uma iniciação científica, que culminou na presente monografia. Ao Prof. Dr. André Luiz Correa, Prof. José Ricardo Fucidji e Prof. Dr. Cláudio Paiva, os quais tenho muita admiração e respeito, e que contribuíram significativamente para a minha formação. Por fim, meu agradecimento ao CNPq pelo auxílio financeiro que possibilitou a execução deste trabalho. 5 RESUMO Nos últimos 40 anos, a biotecnologia tem evoluído significativamente, gerando uma série de repercussões e possibilidades para diversos setores. Embora os avanços tenham impactos muito amplos, um dos setores que mais se beneficiam do desenvolvimento da biotecnologia é a agricultura. Em meio a um contexto favorável para o desenvolvimento da biotecnologia no Brasil, buscaremos analisar o papel do setor público, de instituições de pesquisa e ensino e de empresas nacionais e transnacionais, bem como o estímulo à cooperação entre universidades e empresas do setor de defensivos agrícolas e sementes. PALAVRAS-CHAVE: Biotecnologia; Agroindústria; Interações Tecnológicas. 6 Sumário CAPÍTULO I............................................................................................... ........................................10 1 A DINÂMICA DA BIOTECNOLOGIA E O SETOR NO BRASIL ..................................... 10 1.1 A abordagem de Sistemas de Inovação e sua aplicação ao setor de ................................ 10 Biotecnologia ........................................................................................................................... 10 1.1.1 Sistema setorial de inovação.................................................................................. 13 1.2 Aspectos Técnicos da Biotecnologia ............................................................................. 15 1.3 Panorama Mundial e o setor no Brasil ........................................................................... 17 1.4 A Biotecnologia Aplicada na Agricultura ...................................................................... 26 CAPÍTULO II...................................................................................................................................... 32 2 AS CAPACITAÇÕES DAS EMPRESAS DE BIOTECNOLOGIA COM ATUAÇÃO NO AGRONEGÓCIO E A DINÂMICA TECNOLÓGICA DO SETOR ............................................. 30 2.1 A importância das diferenças substantivas entre as empresas ......................................... 30 2.2 Uma análise das capacitações das empresas de biotecnologia com atuação no agronegócio e da dinâmica tecnológica do setor........................................................................ 34 2.2.1 Definição de empresa de biotecnologia e as tecnologias utilizadas na agricultura ... 34 2.2.2 Dow AgroSciences................................................................................................ 36 2.2.3 Syngenta ............................................................................................................... 47 2.2.4 Monsanto .............................................................................................................. 58 CAPÍTULO III......................................................................................................................................67 3 UMA ANÁLISE DE INSTITUIÇÕES DE PESQUISA EM BIOTECNOLOGIA E O PAPEL DO GOVERNO NO DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA DE TRANSGÊNICOS E DEFENSIVOS AGRÍCOLAS ...................................................................................................... 66 3.1 A importância das Instituições no processo inovativo, a partir da abordagem de Sistemas de Inovação .............................................................................................................................. 66 3.2 As instituições públicas e privadas com atuação em Biotecnologia ................................ 69 3.2.1 Embrapa ............................................................................................................... 69 3.2.2 Instituto Agronômico de Campinas (IAC) ............................................................. 72 3.3 O papel do governo no desenvolvimento da biotecnologia no Brasil .............................. 74 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................................................82 BIBLIOGRAFIA...................................................................................................................................89 7 ÍNDICE DE FIGURAS, GRÁFICOS E TABELAS FIGURAS Figura 1- Melhoramento de Plantas nos modelos tradicional e com Biotecnologia........................................ 17 MAPAS Mapa 1 – Localização das empresas de biotecnologia com foco na agricultura no Brasil.............................. 30 TABELAS Tabela 1 – Evolução da Biotecnologia nos Estados Unidos, Canadá, Ásia e Europa...................................... 19 Tabela 2 - Produção Científica por área de Fronteira........................................................................................27 Tabela 3 – Distribuição dos Grupos de Pesquisa em Biotecnologia................................................................ 78 Tabela 4 – Resumo joint-ventures, fusões, aquisições, parcerias e acordos de licenciamento.........................85 Tabela 5 – Tecnologias-Chave das empresas da amostra..................................................................................86 GRÁFICOS Gráfico 1 – Número de Empresas de Biotecnologia por país........................................................................... 20 Gráfico 2 - Empresas de biotecnologia por estado brasileiro........................................................................... 22 Gráfico 3 - Empresas de biotecnologia por área de atuação..............................................................................23 Gráfico 4 - Objetivos da Parceria..................................................................................................................... 25 Gráfico 5 - Empresas que utilizam financiamento público por instituição.......................................................26 Gráfico 6 - Volume de vendas Dow AgroSciences.......................................................................................... 38 Gráfico 7 – Rendimento bruto Dow AgroSciences.......................................................................................... 39 Gráfico 8 – Volume de vendas Syngenta......................................................................................................... 50 Gráfico 9 – Rendimento bruto Syngenta.................................................................................................... ...... 51 Gráfico 10 – Volume de vendas Monsanto...................................................................................................... 62 Gráfico 11 – Rendimento bruto Monsanto....................................................................................................... 63 Gráfico 12 – Volume de vendas das empresas da amostra............................................................................... 82 Gráfico 13 – Rendimento bruto das empresas da amostra............................................................................... 82 8 INTRODUÇÃO Nos últimos 40 anos, a biotecnologia tem evoluído significativamente, gerando uma série de repercussões e possibilidades para diversos setores. A revolução biotecnológica da década de 70 resultou de descobertas no campo da engenharia genética, na qual o desenvolvimento das técnicas de DNA recombinante e de fusão celular possibilitaram a manipulação de genes entre organismos, propiciando um grande potencial para a produção de novos produtos e serviços, os quais estão num patamar de conteúdo científico mais elevado. Sua importância se deve, ainda, à obtenção de maior conhecimento dos processos biológicos, da escala molecular até a evolutiva, podendo gerar diversas aplicações, como no caso de diagnósticos e terapias de doenças em humanos, animais e plantas. O setor de biotecnologia pode ser considerado como um dos de maior potencialidade, no Brasil e no mundo. A necessidade de conciliar desenvolvimento econômico e aproveitamento de maneira sustentável dos recursos naturais, com a rica biodiversidade encontrada no Brasil e o avanço de pesquisas brasileiras na área de engenharia genética nos últimos anos, são fatores que contribuem para uma melhor inserção do país na economia mundial. Embora os avanços na biotecnologia tenham impactos muito amplos, um dos setores que mais se beneficiam do desenvolvimento destas tecnologias é a agricultura. As maiores firmas do mundo do setor químico com atividades na área agroindustrial são a Dow, Syngenta e Monsanto, como revela a revista Exame. Estima-se que, apenas no período de 1997-1998, a Monsanto tenha investido, mundialmente, cerca de US$6 bilhões, no campo da biotecnologia, em pesquisas e em aquisições de empresas. A Syngenta, uma empresa suíça que é considerada a maior no mundo no campo farmacêutico e da biotecnologia, investe globalmente, em média, US$ 1 bilhão por ano em pesquisa cientifica e tecnológica. Dado que a agricultura é a atividade de maior crescimento no país, nos últimos anos, quando se consideram setores amplamente, questões como a necessidade de aprimoramentos técnicos que elevem a produtividade deste setor, no país, em vista da crescente demanda mundial por alimentos, ganham uma importante dimensão estratégica e passam a ser o destino de políticas governamentais, tanto em nível federal como estadual. O foco desta pesquisa estará, portanto, no desenvolvimento da biotecnologia para o setor de defensivos agrícolas e sementes. Segundo Silveira et al. (2006), há uma tendência de que a evolução agrícola atual dependa menos de inovações mecânicas e química e se baseie mais no uso intensivo do conhecimento cientifico e de técnicas moleculares e celulares, que podem aumentar a produtividade, reduzir custos, melhorar a qualidade de alimentos e outros produtos, além de permitir praticas agrícolas mais ecológicas. Em meio a um contexto favorável para o desenvolvimento da biotecnologia no Brasil, buscaremos analisar o papel do setor público, de instituições de pesquisa e ensino e de empresas 9 nacionais e transnacionais, bem como o estímulo ao desenvolvimento do setor de defensivos agrícolas e sementes no Brasil O capítulo 1 contemplará a revisão bibliográfica referente a sistemas de inovação, ao panorama geral do setor no mundo; características gerais das atividades de biotecnologia, com foco na agricultura no Brasil e no mundo. No capítulo 2 será feita uma amostra de empresas da indústria(como definir uma empresa de biotecnologia OCDE) de transgênicos e defensivos agrícolas, examinar-se-á os desenvolvimentos tecnológicos, aplicações e desenvolvimento de produtos com essa tecnologia na agricultura; fusões e aquisições feitas pelas empresas da amostra no Brasil; parcerias tecnológicas, joint ventures e acordos que envolvam a pesquisa ou o desenvolvimento de produtos no Brasil e no mundo. Terão destaque as argumentações da importância das cooperações tecnológicas e as relações empresas-instituições para o desenvolvimento da pesquisa no campo da biotecnologia. Por fim, o capítulo 3 contemplará uma análise de instituições selecionadas, o desenvolvimento de seus produtos, as áreas de atuação, bem como as parcerias com as empresas da amostra. Será ainda realizado um levantamento dos principais programas de fomento às atividades de biotecnologia, com foco na agricultura, no Brasil; as implicações de políticas para a biotecnologia no Brasil, destacando as Políticas Científicas e Tecnológicas para o setor e o consequente papel de empresas, instituições e governo no desenvolvimento da indústria de transgênicos e defensivos agrícolas. 10 CAPÍTULO I 1 A DINÂMICA DA BIOTECNOLOGIA E O SETOR NO BRASIL 1.1 A abordagem de Sistemas de Inovação e sua aplicação ao setor de Biotecnologia Desde o final do século XIX e início do XX, um número considerável de empresas têm passado por fortes processos de expansão de suas atividades, tanto em níveis nacionais como mundiais. Em vista deste contexto de crescimento das firmas e obtenção de poder que adquiriam nos mercados, autores como Schumpeter passam a questionar os pressupostos estáticos da teoria da firma convencional, a qual defendia basicamente a existência de um número elevado de pequenas empresas que possuíam porções ínfimas de mercado, não havendo, portanto, nenhum tipo de autonomia na elaboração de preços e de estratégias de crescimento, já que a economia convergiria ao Equilíbrio Geral. Schumpeter defende então o papel crucial de novas tecnologias e das inovações no processo de conservação e expansão das firmas em um ambiente competitivo. A definição do autor para o termo inovação é extremamente ampla, e parte de idéia de uma função de produção. Essa função descreve a forma na qual as quantidades de produto variam se as quantidades de fatores se alteram. Se, em vez de quantidades de fatores, ocorre uma variação na forma da função, tem-se uma inovação. Para Schumpeter (1939), uma inovação é uma nova função de produção. Isso inclui os casos de novas commodities, bem como uma nova forma de organização como uma fusão, na abertura de novos mercados. Nelson e Rosenberg (1993) também interpretam a inovação de forma um tanto ampla, para abranger os processos nos quais firmas dominam e passam a ter prática no designing de produtos e processos de fabricação que são novos para elas, sendo elas novas ou não no universo ou até mesmo no país. Dessa forma, o conceito de inovação inclui não apenas a primeira introdução de uma tecnologia, mas também sua difusão. Eles apontam uma diferença entre o seu conceito de inovação e o de Schumpeter, observando que o inovador estritamente schumpeteriano, a primeira firma a levar um produto novo ao mercado, não é frequentemente a firma que captura ultimamente a maior das rendas econômicas associadas a inovação. 11 Lundvall (1992) complementa o assunto, mencionando novas formas de organização e inovações institucionais, em adição aos processos tecnológicos e inovações de produto. A necessidade de se compreender o processo inovativo, de se fornecer um panorama do estado da C,T&I capazes de identificar os nexos causais entre ciência, tecnologia, economia e sociedade, culminou na elaboração de modelos de inovação. A utilização de modelos para a análise da C&T remonta ao período de institucionalização da ciência no pós-guerra, período no qual a abordagem denominada de “modelo linear de inovação” passou a dominar as discussões a cerca do processo inovativo. “Nessa concepção linear, a mudança técnica era compreendida como uma sequência de estágios, em que novos conhecimentos advindos da pesquisa científica levariam a processos de invenção que seriam seguidos por atividades de pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico resultando, ao final da cadeia, em introdução de produtos e processos comercializáveis”. (Conde e Araújo-Horge, 2003). Entretanto essa concepção revela-se limitada, como defendem Kline e Rosenberg (1986) em “An Overview of Innovation”. Argumentam que a abordagem linear não considera o dinamismo presente no processo inovativo, caracterizado pela existência de etapas que nem sempre seguem uma lógica linear e muitas vezes estão intimamente relacionadas a mecanismos de feedback e às interações usuário-produtor. Partindo da limitação presente no sistema linear, a abordagem de sistemas de inovação, como um instrumento compreendedor, vem contribuir significativamente para o entendimento completo do processo inovativo, destacando a essencialidade das interações e da interdependência entre os elementos dentro dos sistemas. Estes podem ser definidos como complexos de elementos ou componentes, que condicionam e coagem mutuamente uns com os outros. A característica sistemática da abordagem de sistema de inovação implica que esta possua um potencial de transcender a visão linear de mudança tecnológica, que coloca a P&D (desenvolvimento tecnológico) no começo da corrente causal, terminando no aumento de produtividade, mediado pela inovação e difusão. Lundvall (1992) coloca que é natural considerar a inovação como um processo interativo que leva a abordagem de sistema de inovação. 12 Nesse sentido, a inovação e o aprendizado estão no centro das abordagens de sistemas de inovação. A inovação tecnológica está ligada a novos conhecimentos ou a novas formas de combinação de conhecimentos existentes – e a sua transformação em produtos e processos economicamente significantes. O aprendizado, por sua vez, está ligado à forma de educação formal e à busca através de P&D, que por sua vez, estão por trás de muitas inovações. Entretanto, em muitos casos, a inovação é uma consequência de vários tipos de processos de aprendizagem incorporados em diversas atividades econômicas. Muitos atores e agentes diferentes no sistema de inovação estão envolvidos nestes processos de aprendizagem; as experiências cotidianas e as atividades de engenharia, representações de vendas e outros empregos significam muito. As atividades inovativas envolvem learnig-by-doing, que aumentam a eficiência de operações de produção (Arrow, 1962), learnig-by-using que aumentam a eficiência do uso de sistemas complexos (Rosenberg,1982), e learning-by-interacting, envolvendo usuários e produtores em uma interação que resulta em inovações de produto (Lundvall, 1988), (Lundvall, 1992). Lundvall argumenta que o conhecimento é o recurso mais fundamental na economia moderna e, portanto, o mais importante processo é o de aprendizagem. (1992). Isso significa que é vital, do ponto de vista de incentivo ao crescimento econômico e ao emprego, analisar o conhecimento e os aspectos de aprendizagem dos sistemas de inovação, bem como o processo de aprendizagem incorporado nas atividades econômicas de rotina. Não apenas a criação de conhecimento é crucial, mas também o seu acesso (sua distribuição e utilização dentro dos sistemas de inovação). A abordagem de sistema de inovação permite a inclusão não apenas de fatores econômicos influenciando a inovação, mas também fatores institucionais, organizacionais, sociais e políticos. Nesse sentido, trata-se de uma abordagem interdisciplinar. Os elementos dos sistemas de inovação- como empresas e outros atores de nível micro – se comportam e desempenham muito diferentemente em relação às atividades inovativas em diferentes contextos, incluindo o nacional. Por exemplo, empresas antigas e estabelecidas no Japão e na Coreia do Sul se diversificaram na produção de novos produtos intensivos em P&D em uma extensão muito maior que as empresas americanas ou suecas. Isso ocorreu provavelmente devido às diferenças estruturais do ambiente das firmas. Para entender estes fenômenos é importante ter um conceito estrutural. “A abordagem de sistemas de inovação pode servir para tal, porque pode combinar uma abordagem estrutural e uma orientada para atores.” (Edquist, 1997) 13 A abordagem de sistemas de inovação deve ser examinada como um todo, porque muitos de seus elementos são relacionados uns com os outros. Mas algumas vezes também é necessário tratar apenas com partes do sistema. Por isso, pode ser algumas vezes necessário restringir a análise para vários subsistemas de um sistema de inovação. Estudar apenas um subsistema pode também contribuir para a criação de uma linguagem cientifica mais coerente apropriada para o tratamento de elementos como desenvolvimento tecnológico, difusão de tecnologia, a emergência e difusão de formas organizacionais, educação e treinamento, assim como mudanças institucionais relacionadas a estas esferas. 1.1.1 Sistema setorial de inovação Um sistema setorial de inovação é composto por firmas que são ativas nas atividades inovativas de um setor. Mais precisamente, um sistema setorial de inovação pode ser definido como um sistema (grupo) de empresas ativas no desenvolvimento, na produção de produtos e na geração e utilização de tecnologias de um setor. Este sistema de firmas é relacionando em duas maneiras diferentes: através de processos de interação e cooperação no desenvolvimento do artefato tecnológico e através de processos de competição e seleção nas atividades inovativas e de mercado. Os atores centrais do Sistema Setorial de Inovação são as empresas. Isto não significa negligenciar o papel fundamental desempenhado por outros agentes e organizações nas atividades inovativas e no conjunto de regras de competição, mas simplesmente aceitar o fato de que os processos de competição e seleção envolvem empresas com diferentes capacidades e desempenhos inovativos. Dentro da concepção de sistema setorial, está a abordagem de sistemas tecnológicos que podem ser compreendidos como “uma rede de agentes interagindo em uma área especifica econômica/industrial sobre uma infraestrutura institucional particular ou conjunto de infraestruturas e envolvida na geração, difusão e utilização da tecnologia”. (Carlsson e Stankiewicz, 1995). Segundo Breschi e Malerba (1997), há inter-relações entre os SSI e os regimes tecnológicos, que podem ser definido a partir de uma combinação particular de cinco fatores fundamentais: i) condições de oportunidade; ii) condições de apropriabilidade; iii) 14 cumulatividade do conhecimento; iv) natureza da base de conhecimento relevante; e v) a média de transmissão e comunicação de conhecimento. As condições de oportunidade refletem a probabilidade de inovação para qualquer quantidade dada de dinheiro investido em pesquisa. Já as condições de apropriabilidade resumem as possibilidades de proteger inovações de imitação e de obter lucros de atividades inovativas. Cumulatividade pode ser definida, em termos mais gerais, como um ambiente econômico caracterizado por continuidades relevantes em atividades inovativas. Os setores podem ainda se diferenciar em termos de propriedades de conhecimento sobre as quais as atividades inovativas de uma empresa são baseadas. Uma análise que começa no âmbito das empresas deve levar em conta os ambientes nos quais elas se acham inseridas, ou seja, deve-se entender como as instituições estão organizadas e como as empresas se relacionam com elas. Chandler (1990) e Porter (1990) ressaltam explicitamente que as variáveis nacionais ou ambientais influenciam fortemente as estratégias e estruturas das empresas, enfatizando, ao mesmo tempo, que essas empresas dispõem de um considerável leque de escolhas entre essas variáveis, no que diz respeito a onde e como elas vão tirar proveito das oportunidades que o ambiente lhes oferece. Em vista da crescente importância dos Sistemas de Inovação no processo de geração de conhecimento e avanço tecnológico, é imprescindível sua existência de forma (razoavelmente) robusta principalmente em setores situados na fronteira tecnológica, como é o caso da Biotecnologia. Dada a complexidade, a incerteza e risco inerentes ao processo inovativo (já que novas biotecnologias podem não chegar a se desenvolver, difundir ou a apresentar taxas positivas de retorno), bem como as restrições financeiras de determinadas empresas para investimentos em P&D, a aproximação com a fronteira do conhecimento científico, por meio da inserção em Sistemas de Inovação robustos, mostra-se essencial para a sobrevivência das empresas do setor. Um fator atrelado à necessidade de cooperação dessas instituições e centros de pesquisa às empresas é justamente a o desenvolvimento de tecnologias e o aproveitamento de conhecimentos que muitas vezes estão fora do ambiente das empresas. 15 1.2 Aspectos Técnicos da Biotecnologia Biotecnologia pode ser genericamente definida como qualquer técnica que utiliza organismos vivos (ou partes deles) para obter ou modificar produtos, melhorar plantas e animais, ou desenvolver microrganismos para usos específicos. De acordo com a Biotechnology Industry Organization (BIO), o novo termo empregado para biotecnologia (usado a partir de 1919), refere-se ao uso de células e biomoléculas para resolução de problemas ou transformação em produtos. É uma ciência cujos conhecimentos são empregados em diversos segmentos e setores da economia, desde os mais tradicionais e amplamente difundidos entre as pessoas, até aqueles mais recentes, surgido a partir de inovações radicais. Há uma diferenciação entre o modelo de biotecnologia tradicional e o modelo moderno. O primeiro constitui um conjunto de técnicas que utilizam seres vivos encontrados na natureza e/ou melhorados pelo homem para exercer determinada função produtiva. As técnicas de maior destaque são as de isolamento, seleção e cruzamentos entre espécies sexualmente compatíveis (Carvalho, 1996). As principais aplicações na agricultura são: cultura de tecidos in vitro; fixação biológica de nitrogênio; controle biológico de plantas; e a produção industrial de sementes através de técnicas convencionais de melhoramento genético. Na indústria, os bioprocessos são a principal aplicação. A tecnologia envolvida é relativamente simples, amplamente difundida e utilizada desde a antiguidade para a produção de alimentos e bebidas. Já a biotecnologia moderna surgiu no inicio dos anos 70, como resultado de descobertas científicas no campo da engenharia genética. Apresenta quatro características principais: a) tecnologia fortemente baseada na ciência básica; b) multidisciplinaridade e complexidade; c) oportunidade tecnológica e amplas aplicações; e d) incerteza. A base científica foi resultado do desenvolvimento da genética durante o século XX, sendo o objetivo das técnicas que compõem a engenharia genética, o de transferir genes de um organismo para o outro. A introdução de segmentos de DNA de um organismo A em um organismo B é chamada de transformação gênica e o individuo B passa a ser chamado de transgênico ou organismo geneticamente modificado, que apresenta novos atributos biológicos. Figura 1- Melhoramento de Plantas nos modelos tradicional e com Biotecnologia 16 Fonte: Monsanto A figura acima ilustra a diferenciação entre o melhoramento tradicional de plantas e o melhoramento através de biotecnologia. A complexidade da biotecnologia reflete a idéia de que ela constitui um paradigma técnico-científico que se caracteriza por ser multidisciplinar, possuir diferentes níveis tecnológicos e ter aplicações comerciais em diversos setores da economia (Carvalho, 1996; Silveira, 2002). É, portanto, caracterizada por um conjunto de tecnologias utilizadas em várias indústrias, não podendo ser delimitada como se faz nos moldes de indústrias tradicionais, como a automobilística ou eletrônica. Assim, não é definida pelos seus produtos, mas pelas tecnologias utilizadas para produzir tais produtos (Paugh e Lafrance, 1997). As oportunidades tecnológicas baseiam-se na disposição de técnicas como a engenharia genética, as quais oferecem um grande potencial para a produção de novos produtos e serviços, que estão num patamar de conteúdo cientifico mais elevado, tais como vacinas de DNA e RNA viral, transformação de plantas para melhorias no cultivo, e clonagem de embriões. Os estudos genômicos e proteônicos também são grandes possibilidades para a biotecnologia. De um lado, tem-se o seqüenciamento genético, o qual permite um maior conhecimento dos processos biológicos da escala molecular até a evolutiva podendo gerar diversas aplicações como no caso de diagnósticos e terapias de doenças no homem, em animais e em plantas; e de outro, tem-se a necessidade de compreender melhor o funcionamento celular de um determinado organismo, a partir do estudo das proteínas. Para Di Ciero (1988), a “análise ao nível de proteína é necessária, pois o estudo dos genes não pode adequadamente prever a estrutura dinâmica das 17 proteínas, dos processos celulares de doenças inicialmente e onde muitas das drogas medicinais atuam”. No caso das atividades inovativas, a incerteza está relacionada à impossibilidade total de certas pesquisas serem internalizadas por empresas na forma de novos produtos e processos comercializáveis. Há ainda na biotecnologia o fator biossegurança. Segundo Chuce (2000), “a biossegurança visa precisamente ao estabelecimento de mecanismos de proteção para o uso de biotecnologia moderna, tanto no que tange a experimentos laboratoriais como em testes de campo que possam implicar risco biológico, provocando impactos ambientais indesejáveis ou consequências negativas para a saúde humana”. Ou seja, as modificações genéticas precisam ser aprovadas por um conjunto de normas de proteção antes de poderem ser comercializadas e até mesmo internalizadas pelas empresas, o que revela a incerteza presente nas atividades inovativas em biotecnologia. 1.3 Panorama Mundial e o setor no Brasil Nos últimos 40 anos, a biotecnologia tem evoluído significativamente, gerando uma série de repercussões e possibilidades para diversos setores. Segundo uma estimativa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), a bioeconomia 1 movimenta, no mundo, US$ 27 trilhões em negócios. A natureza interdisciplinar da biotecnologia, assim como a fronteira de conhecimento cientifico são fatores que têm estimulado a formação de arranjos cooperativos de pesquisa, tais como redes, clusters, e sistemas locais de inovação (Valle, 2005). A existência desses arranjos possibilita o acesso facilitado a recursos humanos qualificados, recursos financeiros, máquinas, equipamentos e a uma maior articulação entre vários agentes: universidades, empresas, institutos de pesquisa e agentes financeiros. Essas aglomerações têm sido presentes em diversos países, o que tem contribuído para a dinamização e crescimento da biotecnologia, que pode ser verificada na tabela abaixo, referente aos anos de 1998 e 2003: 1 A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE, 2006) define bioeconomia como “aquela parte das atividades econômicas que capturam valor a partir de processos biológicos e biorrecursos para produzir saúde, crescimento e desenvolvimento sustentável” 18 Tabela 1 – Evolução da Biotecnologia nos Estados Unidos, Canadá, Ásia e Europa Evolução da Biotecnologia entre 1988 e 2003 nos Estados Estados Unidos, Canadá, Ásia e União Européia 1998 2003 Taxa de crescimento (%) Estados Unidos União Européia Canadá Ásia Estados Unidos União Européia Canadá Ásia Estados Unidos União Européia Canadá Ásia Receita (US$ milhão) 16.647 875 500 ND* 35.854 7.465 1.729 1.505 115 754 246 - Investimento em P&D (US$ milhão) 6.737 646 191 ND 13.567 4.233 620 217 101 556 224 - Empresas de Capital Aberto 316 68 62 ND 314 96 81 120 (-1) 41 31 - Empresas Privadas 995 1110 100 ND 1159 1.765 389 547 16 59 289 - Total de empresas 1311 1178 162 ND 1473 1.861 470 667 12 58 190 - ND: Não disponível Fonte: Elaboração própria, a partir Ernest & Young (2004) Como se pode observar, a União Européia apresentou, em apenas cinco anos, um espantoso crescimento de receita (754%) e de investimento em P&D (556%), mesmo se comparado com o elevado avanço da biotecnologia neste mesmo período, nos EUA (com 115% e 101%, respectivamente). Este fato pode ser justificado não apenas pela potencialidade que a biotecnologia possui, mas também como uma tentativa de reduzir os hiatos técnicos, competitivos e econômicos que distinguem a biotecnologia européia da dos EUA (Tunon, 2003). Destaca-se um robusto processo de F&As ocorrido nos EUA, o que culminou em empresas mais sólidas e de porte mais elevado, quando comparadas às de outros países. Os EUA lideram na geração de receita, a partir da biotecnologia, e a União Européia concentra o maior número de empresas, as quais são caracterizadas como de pequeno porte. Segundo o levantamento elaborado pela Agência Brasileira de desenvolvimento Industrial (ABDI) e pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), o mercado global de biotecnologia cresceu no período 2002-2006 a uma taxa composta de crescimento anual de 13,4% e gerou receitas de US$ 153,7 bilhões no ano de 2006, para uma base de U$ 92,9 bilhões em 2002. 19 “As Américas lideram o mercado global de biotecnologia, respondendo por 58,3% das receitas geradas em 2006. Em segundo lugar, situa-se a região da Ásia e Pacífico que gerou 23,9% das receitas globais no ano de 2006. Atualmente existem 139 setores distintos que utilizam a biotecnologia em seus produtos ou serviços. Em 2006, o setor de medicina e saúde humana foi o que mais se destacou, gerando receitas de US$96,2 bilhões, equivalentes a 62,5% do valor do mercado global de biotecnologia. Os setores de agricultura e alimentos contribuíram com receitas de US$ 17,7 bilhões nesse mesmo ano, correspondendo a uma participação de 11,5% do mercado de biotecnologia.” (ABDI, 2008) O gráfico abaixo apresenta o posicionamento de 35 países em termos do número de suas empresas, públicas ou privadas, que atuam em biotecnologia e biociências, não considerando EUA e Argentina. Gráfico 1 – Número de Empresas de Biotecnologia por país *total de empresas do Medical Valey que incluem empresas da Dinamarca e Suécia Fonte: GLOBAL BIOECONOMY CONSULTING LLC (2006). Pode-se constar que a Índia é o país que apresenta o maior número de empresas em biotecnologia. Em seguida, encontra-se a Coréia, o Canadá, a Alemanha e a China. O Brasil aparece em 11º lugar. Dentre os aspectos mais relevantes que contribuem para o posicionamento favorável da Índia, destaca-se a oferta de mão-de-obra altamente qualificada. “A Índia possui mais de 300 instituições educacionais de alto nível que oferecem cursos em biotecnologia, bioinformática e ciências biológicas, formando cerca de 500.000 estudantes por ano. Possui ainda, mais de 100 universidades de medicina, que formam cerca de 17.000 profissionais por ano. Mais de 300.000 pós-graduandos e PhDs são qualificados anualmente nas áreas de biociências e engenharia. A 20 participação do governo em incentivos para esse setor é muito determinante. O Estado contribui para a qualificação da mão-de-obra, provê infraestrutura laboratorial apropriada para o desenvolvimento de pesquisa na área, incentiva a criação de ambientes propícios à inovação (incubadoras de empresas e parques tecnológicos) e cria mecanismos (marcos regulatórios) que viabilizam a consolidação da biotecnologia em diversas áreas.” (ABDI, 2008). No Brasil, até 2001, foram identificadas 304 empresas de biotecnologia no país, segundo dados da Fundação Biominas. Em 2007, a mesma instituição identificou 181 empresas de ciência da vida 2 e 71 empresas de Biotecnologia. Em outro estudo da Fundação Biominas, foram estimadas 253 empresas de ciência da vida e 109 empresas de biotecnologia até o ano de 2009. Recentemente, a Associação Brasileira de Biotecnologia (BrBiotec) 3 , a qual elaborou uma mapa da biotecnologia no Brasil, apontou 237 empresas de biotecnologia em 2011. Ainda segundo este estudo, cerca de 63% destas empresas são consideradas jovens: 60% foram fundadas depois de 2000 (40% após 2005). O setor como um todo – incluindo as diferentes áreas de atuação que a biotecnologia é aplicada – é caracterizado pela existência majoritária de micro e pequenas empresas, pois das 237 empresas identificadas pelo estudo da BrBiotec, 56% têm rendimento anual não mais que R$2,4 milhões, 20% não possuem rendimento e 85% possuem menos de 50 empregados. Essas pequenas empresas contam, no entanto, com profissionais altamente qualificados: 40% dos funcionários das empresas que possuem até 10 empregados são doutores e aproximadamente 20% são mestres. O gráfico abaixo ilustra a dispersão destas 237 empresas pelo território brasileiro: 2 O setor de Ciências da Vida compreende empresas que oferecem tecnologias na forma de hardware, software e reagentes para estudos de células e moléculas ligadas aos processos biológicos, além de serviços de capacitação de pesquisadores no uso dest as tecnologias. 3 A Associação Brasileira de Biotecnologia reúne empresas e instituições integradas no desenvolvimento de Pesquisas em energia, saúde humana e animal, agricultura e meio ambiente, como o Cietec, no campus da USP, e o Polo Bio-Rio, na UFRJ. 21 Dos 27 estados brasileiros apenas 11 possuem empresas de biotecnologia. Observa- se que a maioria das empresas de biotecnologia encontra-se na região sudeste, sendo que cerca de 78% do total estão situadas em apenas três estados: SP, MG e RJ. Constata-se também que o Estado de São Paulo é o que mais abriga as empresas de biotecnologia no país, onde situam-se cerca de 40% do total de empresas. Entre as regiões Norte e Nordeste, o estado de Pernambuco é o que mais se destaca com 4,2% das empresas de biotecnologia. As principais áreas de atuação das empresas de biotecnologia no Brasil, segundo o estudo realizado pela BrBiotec/Cebrap, são Agricultura, Saúde Animal, Bioenergia, Meio Ambiente, Saúde Humana, Reagentes e outras áreas tais como testes diagnósticos moleculares e Bioinformática. Estas podem ser caracterizadas como: (1) Agricultura: Controle Biológico de pragas, biofertilizantes, sementes e plantas transgênicas, melhoramento genético e clonagem; (2) Saúde Animal: Melhoramento genético e clonagem, medicamentos e vacinas, desenvolvimento de novas tecnologias na reprodução animal; (3) Bioenergia: desenvolvimento de novas tecnologias para biocombustíveis; (4) Meio-ambiente: bioremediação, gestão de resíduos e recuperação de áreas degradadas; (5) Saúde humana: desenvolvimento de medicamentos, vacinas, terapia celular, investigação em células estaminais, desenvolvimento de novos vetores e formulações, diagnóstico, proteínas recombinantes; 22 (6) Reagentes: Enzimas, reagentes para kits diagnósticos, moléculas bioativas, antibióticos. (7) Outras áreas: Incluem empresas dedicadas ao desenvolvimento de testes diagnósticos moleculares para diferentes áreas, empresas de bioinformática, consultorias especializadas e CROs. O gráfico abaixo ilustra a divisão das empresas realizada neste estudo: Observa-se que a maioria das empresas de Biotecnologia no país possuem atividade no segmento de Saúde Humana (39,7%) e cerca de 9,7% das empresas possuem foco na agricultura. Em 2009, a FINEP criou o programa “PRIME” cujo objetivo é fornecer condições para novos negócios com elevado valor agregado para enfrentar os desafios em sua fase inicial e obter sucesso no mercado, fornecendo assim um forte apoios às “start-ups” do setor. Em relação ao comércio internacional, 25% das empresas brasileiras de biotecnologia exportam e cerca de 50% tem planos estratégicos para exportar. Por outro lado, 86% delas importam, especialmente reagentes e equipamentos para a produção e o desenvolvimento de tecnologia, o que indica a alta dependência ao mercado externo em termos de importações. 23 O estudo ainda apontou que 95% das empresas de biotecnologia que atuam no país possuem um relacionamento contínuo com as instituições de pesquisa e muitas delas têm estabelecido parcerias formais para o desenvolvimento de produtos e processos, para a utilização de sua infraestrutura, contratação de serviços e treinamento de pessoal. Fonte: Elaboração própria a partir de BrBiotec Brasil/Cebrap, “Brazil Biotech Map 2011” Quando se faz uma análise a respeito do financiamento disponível para o desenvolvimento do setor, observa-se que 78% das empresas utilizam o financiamento público, o que revela a importância de Políticas Científicas, Tecnológicas e de inovação no Brasil. Mais da metade das empresas tem se beneficiado de recursos da FINEP e quase metade tem ou tiveram financiamento de outra instituição federal (CNPq). Quase metade delas também tiveram vantagens de financiamentos estatais para P&D, como a FAPESO e a FAPEMIG. Por outro lado, o investimento de capital de risco ainda é pequeno: apenas 14% das empresas possuem este tipo de investimento. Gráfico 4 – Objetivos da Parceria 24 Fonte: Elaboração própria a partir de BrBiotec Brasil/Cebrap, “Brazil Biotech Map 2011” Em termos de propriedade intelectual, o sucesso das patentes tecnológicas é significativo: 40% das empresas patentearam aplicações ou possuem pedido de patente. Considerando a produção científica em diferentes programas relacionados à biotecnologia, o número de faculdades associadas e estudantes graduado (mestres e doutores) é muito significante no país. Nos campos da agronomia, medicina veterinária, e Bioquímica, Ciências Farmacêuticas e Farmacologia, foram encontrados, no estudo coordenado pela BrBiotec, aproximadamente 8000, 3300 e 5100 pesquisadores, respectivamente. Em outras áreas como a genética, doenças infecciosas e imunologia/microbiologia foram estimados 2000, 1600 e 1500 pesquisadores, respectivamente. A tabela abaixo apresenta um resumo da produção científica por área de fronteira, com a posição do Brasil e das universidades brasileiras que foram identificadas entre as “top 25” de cada área. 4 4 Tabela retirada do estudo “Panorama da Biotecnologia no Mundo e no Brasil” coordenado pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial – ABDI e o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos – CGEE 25 Tabela 2 - Produção Científica por área de Fronteira Fonte: Panorama da Biotecnologia no Mundo e no Brasil (2008) Segundo o estudo elaborado pela Agência Brasileira de desenvolvimento Industrial (ABDI) e pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) realizado por meio do levantamento direto em duas bases de dados internacionais de referência para estudos bibliométricos – A Web of Science e a Derwent Innovations Index – As áreas de nanobiotecnologia, organismos geneticamente modificados e transgênicos, terapia gênica, clonagem e função heteróloga de proteínas, células tronco, e controle biológico em agricultura são as que apresentam maior quantidade de patentes. Pode-se constatar, por meio da tabela acima, que a produção científica brasileira em reprodução animal e vegetal, controle biológico em agricultura, conversão de biomassa e biodiversidade e bioprospecção é importante (do 8º ao 15º lugares), embora a posição brasileira no ranking ainda seja secundária em muitas das outras áreas avaliadas, como células-tronco e nanobiotecnologia. Em relação à propriedade intelectual, o estudo da ABDI(2008) localizou 11.896 patentes em organismos geneticamente modificados e 2.129 em Controle Biológico em Agricultura no período de 1998-2007. Ao se analisar o mesmo conjunto de patentes em 26 organismos genticamente modificados em relação a seus depositantes, observou-se que a empresa líder é a Du Pont de Nemours & Co., com 115 patentes, seguida da Deltagen Inc., da Pioneer Hi-Bred Int Inc. e da Monsanto Technology LLC com 95 90 e 79 patentes, respectivamente, em um total de 4.713 depositantes. Outras empresas depositantes que se encontram entre as 25 melhores colocada são: Basf GMBH.; Syngenta Participations AG.; Agrinomics Llc.; Basf AG.; Dekalb Genetics Corp.; Dokuritsu Gyosei Hojin Nogyo Seibutsu SH.; Monsanto Co.; Korea Kumho Petrochemical Co Ltd.; Novartis AG.; Kagaku Gijutsu Shinko Jigyodan; Ceres Inc.; Sungene GMBH & Co KGAA; e Cornell Res Found Inc. Já em relação às patentes em Controle Biológico na agricultura, o estudo apontou que a empresa líder é a Olympus Optical Co Ltd., com 23 patentes, seguida da Matsushita Denki Sangyo KK. e da Rohm & Haas Co., com 21 e 19 patentes, respectivamente, em um total de 3.017 depositantes. 1.4 A Biotecnologia Aplicada na Agricultura Dado que o enfoque deste presente trabalho é a biotecnologia aplicada na agricultura, faremos nesta seção um panorama desta atividade bem como a explicitação de sua relevância no desenvolvimento técnico e científico voltado para agricultura. Embora os avanços na biotecnologia tenham impactos muito amplos, um dos setores que mais se beneficiam do desenvolvimento desta tecnologia é, como vimos, a agricultura. Segundo Borém e Santos (2003), há, aproximadamente, 40.000 espécies de microorganismos que causam doenças nas plantas e 30.000 espécies de plantas daninhas. Tal fato tem elevado a importância da utilização de defensivos agrícolas e sementes geneticamente modificadas, capazes de gerar plantas mais resistentes e produtivas. A utilização de bioinseticidas está cada vez mais presente nas lavouras e os fatores que mais contribuíram para essa valorização foram os desastres ambientais; a demanda crescente de alimentos e produtos de primeira necessidade, em função do crescimento populacional mundial; a expansão dos mercados consumidores nos países desenvolvidos; o aumento de pragas; além da necessidade de desenvolvimento de uma agricultura sustentável via redução da contaminação por pesticidas químicos. Entre as aplicações no setor agrícola que vêm ganhando importância nos últimos anos, destacam-se o controle biológico de pragas, a fixação biológica de nitrogênio e a 27 manipulação genética das plantas a fim de gerar maior produtividade através de espécies mais resistentes e com novas propriedades. O controle biológico de pragas possui fortes alicerces na pesquisa genômica. O desvendamento do código genético dos insetos ajuda a desvendar os mecanismos de resistência destes animais a seus inimigos naturais. Nesse sentido, os avanços da engenharia genética e da imunologia têm resultado em maior compreensão do funcionamento do sistema imunológicos dos insetos, o que tende a facilitar a utilização dos entomopatógenos (vírus, bactérias e fungos inimigos naturais de insetos-pragas) para combatê-los (Silva, 2002). Em relação à fixação de nitrogênio no solo – uma quantidade adequada de N2 é fundamental para o crescimento das plantas – destaca-se o seu baixo custo de implementação, em comparação com tecnologias substitutas. No Brasil, com este objetivo a EMBRAPA foi responsável pelo desenvolvimento de tecnologias de identificação no solo e seleção das estirpes das bactérias mais eficazes, tornando possível tratar as sementes com as linhagens corretas para cada tipo de solo. Usando a semente inoculada, a economia com adubação química é de R$460 por hectare, resultando em reduções de gasto de R$5 bilhões por ano, no país. (Oliveira 2003). Por fim, a evolução da melhoria vegetal através de sementes geneticamente modificada – a aplicação da biotecnologia na agricultura que mais tem gerado Pesquisa e Desenvolvimento por parte das empresas do setor agro-químico – trará impactos em outros setores produtivos, como na indústria química e farmacêutica, com a possibilidade de produzir fitoterápicos ou ainda desenvolver vegetais biorreatores. A relevância das sementes geneticamente modificadas na produção agrícola pode ser constatada a partir de dados divulgados, em fevereiro de 2011, pelo relatório do Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Biotecnológicas Agrícolas (ISAAA), os quais indicam que, ao todo, 25 países plantaram 134 milhões de hectares de transgênicos, o que corresponde a nove milhões de hectares a mais do que em 2008. Foram 14 milhões de grandes e pequenos agricultores no mundo, que adotaram cultivos transgênicos em suas lavouras. Ainda de acordo com o ISAAA, os oito principais países no ranking de maiores produtores foram: Estados Unidos (64 milhões ha.), Brasil (21,4 milhões ha.), Argentina (21,3 milhões ha.), Índia (8EH,4 milhões ha.), Canadá (8,2 milhões ha.), China (3,7 milhões ha.), Paraguai (2,2 milhões ha.) e África do Sul (2,1 milhões ha.). A biotecnologia tem se destacado não apenas em países desenvolvidos, mas um indicativo da crescente importância da biotecnologia, no Brasil, por exemplo, pode ser dado pelo fato de que 2010 foi um ano muito positivo para o país em relação aos javascript:openWindow2('http://www.isaaa.org'); javascript:openWindow2('http://www.isaaa.org'); 28 organismos geneticamente modificados (GM), cujas aprovações comerciais tiveram avanço significativo. Foram oito liberações de cultivos comerciais, para soja, milho e algodão, naquele ano, além de outras três referentes a vacinas e uma a levedura. Com essas aprovações, o país já tem à disposição 27 variedades GM liberadas. Em 2009, a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) liberou para plantio dois tipos de milho geneticamente modificado produzidos pela Syngenta, o MIR 162, resistente à lagarta-do-cartucho, a principal praga do milho hoje no Brasil; e o milho Bt11GA21, que reúne as características de ser tolerante a herbicida e resistente a insetos. O mapa abaixo ilustra a localização por cidade das empresas de biotecnologia com foco na agricultura no Brasil: Mapa 1 – Localização das empresas de biotecnologia com foco na agricultura no Brasil Fonte: BrBiotec Brasil/Cebrap, "Brazil Biotech Map 2011 Observa-se que quando as empresas com foco na agricultura, a grande maioria está aglomerada nos estados de SP e MG, correspondendo a 70% do total. No caso das empresas selecionadas para a amostra da presente pesquisa, destaca-se que a Monsanto, por exemplo, tem 42 unidades de pesquisa, processamento de sementes, produção, vendas, distribuição e escritórios administrativos no Distrito Federal e em 11 estados brasileiros - Alagoas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Tocantins. 29 A Dow Chemical possui 17 unidades fabris no Brasil, cinco centros de pesquisa e a Diamond Tower, nova sede da Companhia na América Latina, localizada na cidade de São Paulo (SP). As principais unidades de produção e pesquisa da Dow no Brasil estão localizadas nos Estados da Bahia (Aratu, Camaçari e Vera Cruz) e São Paulo (Guarujá, Jacareí, Pindamonhangaba, Franco da Rocha, Jundiaí, Mogi Mirim e São Paulo). Já a Dow AgroSciences, uma subsidiária da Dow Chemical com atuação no agronegócio, está localizada apenas no Estado de São Paulo, nas cidades de Jardinópolis, Mogi-Mirim, Cravinhos, Franco da Rocha, Jacareí e na capital, São Paulo. A Syngenta possui unidades de produção e comercialização, laboratórios de pesquisas, estações experimentais, viveiros e campos de testes em várias partes do País, tais como São Paulo, Minas gerais, Goiás, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Ceará. http://www.dow.com/brasil/la/bra/pt/about/locations.htm http://www.dow.com/brasil/la/bra/pt/about/locations.htm 30 CAPÍTULO II 2 AS CAPACITAÇÕES DAS EMPRESAS DE BIOTECNOLOGIA COM ATUAÇÃO NO AGRONEGÓCIO E A DINÂMICA TECNOLÓGICA DO SETOR 2.1 A importância das diferenças substantivas entre as empresas A literatura revela, que os preceitos da Teoria Econômica dominante apontam para a desconsideração da importância ou até mesmo da existência das diferenças entre as empresas como uma variável importante que afeta a performance econômica. Nelson (1991) aponta que isso reflete em parte o fato de os economistas estarem interessados não no comportamento e no desempenho das empresas individualmente, mas de preferência em agregados mais amplos. Essa tendência de ignorar as diferenças das empresas reflete também alguns pontos de vista teóricos fortemente sustentados pela maioria dos economistas da linha dominante quanto à natureza das atividades econômicas em geral e sobre o papel e a natureza das atividades econômicas das empresas. As atividades econômicas podem ser compreendidas, segundo esta visão, apenas como a destinação dos recursos da economia, considerando dadas as preferências e as tecnologias. Assim, o problema econômico central destes economistas está relacionado com a alocação ótima dos recursos de modo a maximizar a satisfação dos agentes, postulando que estes enfrentam conjuntos de escolhas conhecidas e dadas e não têm maiores dificuldades em escolher as ações prioritárias dentro daqueles conjuntos, dados seus objetivos. Essas perspectivas sobre o problema econômico geral e sobre a teoria do comportamento da empresa não induzem a maiores indagações sobre o que acontece dentro das empresas, o que implica uma visão bastante limitada sobre sua natureza e o seu funcionamento. Mesmo nos casos em que a teoria admite a diferenciação de produtos, firmas diferentes produzirão diversos produtos, mas, na literatura teórica, qualquer empresa pode escolher qualquer área de atuação, de modo que as vantagens oriundas da diferenciação entre elas, bem como a relevância do que elas fazem e do modo como se organizam no progresso econômico, acabam por serem ignoradas. Uma visão mais ampla da natureza e do comportamento destas empresas necessitaria romper com as limitações existentes na teoria neoclássica a cerca do desempenho destas. Segundo Nelson (1992), uma série de estudos empíricos revelam que 31 as firmas possuem diferentes aptidões, estas entendidas como habilidades, experiências e conhecimentos, que apontam para a existência de vantagens ou desvantagens de uma empresa em relação às outras de um mesmo ramo. Para compreender melhor como essas vantagens são criadas, faz-se necessário entender a tecnologia não como um fator dado, mas como inerente a um processo de constante modificação, entendendo o capitalismo como um processo evolucionário. Nesse sentido, apenas a produção de um conjunto de bens e serviços a partir de uma série de processos dados não capacitará uma empresa a sobreviver por muito tempo. Para ter sucesso durante um longo tempo uma empresa precisa inovar. A inovação, definida como a introdução de algo novo para a economia sob a forma de uma nova tecnologia ou de uma nova maneira de organizar uma empresa, passa a ter um papel central na análise econômica, segundo a teoria schumpeteriana e neo- schumpeteriana. Segundo esta teoria, as inovações estão cercadas por uma série de incertezas, relacionadas tanto ao sucesso no processo de desenvolvimento de uma nova tecnologia quanto à aceitação do mercado desta tecnologia. Nesse sentido, ao considerarmos fatores como a incerteza do processo inovativo e as diferentes aptidões entre as empresas que originam diferentes visões e percepções sobre os caminhos a serem trilhados e sobre que tipo de inovações seriam possíveis e desejáveis, acaba nos levando a idéia de que as pessoas e as organizações tomem diferentes decisões. Além disso, dada a incerteza existente no processo de inovação, os custos de investimento e os ricos envolvidos em fazer algo novo, bem como as dificuldades de modificar a organização das empresas, entendidas com as estruturas e as estratégias de cada empresa, fazem com que as empresas se diferenciem significativamente quanto ao rumo tomado e consequentemente ao seu desempenho. Nelson (1991) aponta também que as diferenças entre as empresas são resultados de diferentes estratégias usadas para orientar a tomada de decisões em vários níveis das empresas. No caso das atividades inovativas em biotecnologia, a incerteza está relacionada à impossibilidade total de certas pesquisas serem internalizadas por empresas na forma de novos produtos e processos comercializáveis. Há ainda na biotecnologia o fator biossegurança. Segundo Chuce (2000), “a biossegurança visa precisamente ao estabelecimento de mecanismos de proteção para o uso de biotecnologia moderna, tanto no que tange a experimentos laboratoriais como em testes de campo que possam implicar risco biológico, provocando impactos ambientais indesejáveis ou consequências negativas 32 para a saúde humana”. Ou seja, as modificações genéticas precisam ser aprovadas por um conjunto de normas de proteção antes de poderem ser comercializadas e até mesmo internalizadas pelas empresas, o que revela a incerteza presente nas atividades inovativas em biotecnologia. As estratégias podem ser compreendidas como um conjunto de compromissos assumidos por uma empresa para definir e racionalizar seus objetivos e os modos como pretende persegui-los, enquanto que a estrutura envolve a forma de organização e de governo da empresa e de como as decisões são efetivamente tomadas e levadas adiante, determinando assim o que ela faz de fato, dado a sua ampla estratégia. Nelson e Winter (1982) descrevem os bons desempenhos das firmas em termos de uma hierarquia de rotinas organizacionais praticadas que definem um nível inferior de habilidades organizacionais e como estas estão coordenadas, bem como dos procedimentos decisórios de alto nível para escolher o que deve ser feito nos escalões inferiores. A noção de hierarquia de rotinas organizacionais é o elemento chave para o conceito dos autores de aptidões organizacionais essenciais. As rotinas praticadas, construídas dentro de uma organização, definem um conjunto de ações que ela é capaz de fazer com segurança. “As aptidões de P&D podem ser as principais fontes na definição das aptidões dinâmicas de uma empresa. Contudo, numa firma bem sintonizada, sua produção, suas compras, comercialização e organizações legais devem ter incorporado as aptidões de apoiar e complementar as novas tecnologias de produtos e processos emanadas da P&D. Como argumenta Teece, as aptidões de uma empresa devem incluir o controle sobre ou o acesso aos ativos e atividades complementares necessárias para capacitá-la a obter lucros a partir da inovação. E num ambiente de concorrência schumpeteriana, isso envolve a capacidade de inovar e de tornar essa inovação lucrativa durante bastante tempo” (Nelson, 1991) Ao reconhecer a importância das aptidões de uma empresa na capacidade de inovar e tornar essa inovação lucrativa durante bastante tempo leva-se em consideração que para tirar vantagens de certos tipos de inovação e aprender o que é necessário para concretizá- las, é necessário que as empresas estabeleçam uma concentração ou pelo menos coerência com o que elas podem de fato fazer, mais do que esforços aleatórios, em outras palavras, o desenvolvimento de novas tecnologias deve estar intimamente relacionado as aptidões que cada empresa possui. “Para obter sucesso num mundo que requer que as empresas inovem e mudem, uma empresa deve ter uma estratégia coerente que a capacite a decidir que novos caminhos 33 trilhar e de quais será preferível manter-se afastadas. E ela precisa de uma estrutura, em termos de organização e governança, capaz de conduzir e apoiar a construção e o sustento das aptidões essenciais necessárias para levar adiante a estratégia de maneira eficaz.” (Nelson, 1991). Dada a constatação da existência de diferentes aptidões entre as empresas, é praticamente inevitável que as empresas escolham estratégias diferentes. E estas gerarão empresas com diferentes estruturas e aptidões essenciais, de tal modo que seguirão trajetórias diferentes umas das outras. Algumas serão lucrativas em relação ao que outras empresas estiverem fazendo e aos rumos dos mercados envolvidos, enquanto outras não. As empresas que sistematicamente perderem dinheiro terão que mudar suas estratégias e estruturas e desenvolver novas aptidões essenciais ou fazer funcionar melhor as que possuem, ou então abandonar a competição. Outra questão relevante ao se observar a natureza das diferenças entre as empresas relacionadas às diferentes capacidades de inovar, é que quando uma empresa consegue uma inovação bem sucedida, seus concorrentes podem diferir consideravelmente entre si nas suas capacidades de efetivamente imitá-la ou de desenvolver algo comparável. Isso se deve ao fato de a nova tecnologia ser ou não adaptável às aptidões essenciais das empresas existentes, o que Tushman e Anderson (1986) denominam de desenvolvimento “ampliador de aptidões”, no caso de serem compatíveis, e de desenvolvimento “destruidor de aptidões”, quando a nova tecnologia exige tipos muito diferentes de aptidões. Neste ultimo caso, empresas novas serão as inovadoras e as empresas já existentes frequentemente não estarão aptas a responder efetivamente. Mudanças na administração e nas estratégias poderão ser necessárias se as empresas existentes quiserem sobreviver nesse novo ambiente. Mas talvez sejam importantes também modificações nas estruturas e aptidões essenciais, que, no entanto, são muito mais difíceis do que mudanças na administração e nas estratégias articuladas. Nesse sentido, a mudança organizacional passa a ser um suporte ao avanço tecnológico. Segundo Nelson (1992), o que teve maior importância, ao longo do tempo, foram as mudanças organizacionais necessárias para promover as aptidões de inovação dinâmica. Reich(1985), Hounshell e Smith (1988) mostram que o desenvolvimento de departamentos de P&D foi precedido pelo surgimento de novas tecnologias para o desenvolvimento de produtos e processos, baseadas no entendimento e nas técnicas das ciências físicas e naturais e das disciplinas da engenharia. 34 Encontrar e aprender a usar eficientemente uma nova forma de organização envolve muitos tipos de incerteza, de hesitações experimentais e de aprendizado por tentativa e erros que têm marcado as invenções e inovações tecnológicas. Portanto, as diferenças organizacionais, especialmente as diferenças nas aptidões para gerar inovações e obter lucros a partir delas, passam a ser mais relevantes do ponto de vista das fontes de diferenças duráveis entre as empresas, do que as diferenças de domínio, propriamente ditas, de determinadas tecnologias, já que a organização de cada empresa mostra-se mais difícil de ser imitada. Determinadas tecnologias são muito mais fáceis de entender e imitar do que as aptidões dinâmicas mais amplas de uma empresa. Se adotarmos o ponto de vista evolucionário em vez da visão neoclássica sobre a natureza das atividades econômicas, então as diferenças entre empresas passam a importar significativamente no que se refere aos diversos temas que tem constituído a preocupação central dos economistas. A concorrência pode ser vista não apenas como um conjunto de incentivos e pressões para manter em linha os preços com custos mínimos possíveis, e para manter as empresas operando com baixos custos, mas, muito mais importante, como um meio para a exploração de novas, e potencialmente melhores, maneiras de fazer as coisas, para que estas empresas consigam sobreviver no mercado e às mudanças de ambiente. 2.2 Uma análise das capacitações das empresas de biotecnologia com atuação no agronegócio e da dinâmica tecnológica do setor. Como base nas idéias contidas na seção anterior, de que segundo a teoria evolucionária as diferenças entre as empresas são importantes, na medida em que as diferentes aptidões e capacitações justificam os diferentes desempenhos entre as empresas, realizaremos, na presente seção, uma análise das empresas da amostra, a partir do que elas estão fazendo em termos de inovação e desenvolvimento de produtos no Brasil e no Mundo, bem como do modo em que se organizam, quais as suas estruturas e estratégias, para melhorarem seus desempenhos na participação no mercado de sementes geneticamente modificadas e de defensivos agrícolas. 2.2.1 Definição de empresa de biotecnologia e as tecnologias utilizadas na agricultura 35 Antes de realizar uma análise qualitativa a cerca dos desenvolvimentos tecnológicos, aplicações e desenvolvimento de produtos, fusões e aquisições feitas pelas empresas da amostra no Brasil; parcerias tecnológicas, joint ventures e acordos que envolvam a pesquisa ou o desenvolvimento de produtos no Brasil, faz-se necessário a definição da empresa de biotecnologia. Assim como as diversas conceituações existentes para o termo Biotecnologia, há também diferentes perspectivas quanto a definição das empresas que atuam no setor. Segundo o relatório Brazil Biotech Map 2011 há duas definições bem conhecidas e usadas amplamente internacionalmente: A primeira estabelecida pelo Jornal “Nature Biotechnology” considera apenas as empresas cuja atividade principal é a biotecnologia. A segunda definição estabelecida pela OCDE é considerada mais ampla por agregar empresas que possuam projetos importantes em biotecnologia, mesmo se estes projetos não representam a maior parte de seus negócios. É importante constatar que foi utilizada esta última definição para a seleção da amostra de empresas e instituições no presente trabalho, já que algumas delas não tem atuação única em biotecnologia e nem por isso são menos relevantes em termos de produção e contribuição para o desenvolvimento da agroindústria brasileira. Entre as tecnologias empregadas na agricultura, os defensivos agrícolas e as sementes com novas características, tem obtido importância crescente em termos de aumento de produtividade. Os primeiros, também conhecidos como produtos para proteção de cultivos, classificam-se em fungicidas, herbicidas e inseticidas, enquanto as sementes se subdividem em convencionais ou geneticamente modificadas. Os fungicidas previnem e curam doenças que podem ter graves efeitos negativos na produtividade e na qualidade da colheita das principais culturas, tais como ferrugens, míldios, oídios, e diversas manchas foliares. Essas doenças são causadas por uma grande variedade de agentes, como vírus, bactérias e vários tipos de fungos. Dessa maneira, muitas vezes, diferentes fungicidas precisam ser utilizados em combinação ou em um programa de aplicação, para controlar o espectro completo de doenças, e para gerenciar o desenvolvimento de resistência dos fungos aos fungicidas. Já os herbicidas evitam, reduzem ou eliminam plantas infestantes (mais popularmente conhecidas como ervas daninhas). Por isso, substituem ou reduzem a retirada mecânica ou manual das mesmas. Como diminuem a necessidade de manipulação da terra, os herbicidas também podem diminuir ou evitar a erosão do solo e a perda de água. 36 Por fim, os inseticidas são importantes ferramentas no controle de insetos, como lagartas e pulgões e os ácaros, que podem reduzir significativamente a produtividade e a qualidade das produções agrícolas ao se alimentarem das plantas. 2.2.2 Dow AgroSciences Características gerais A Dow AgroSciences tem sede em Indianópolis, Estados Unidos, e é uma das líderes do setor de agroquímicos e biotecnologia. Fornece tecnologias inovadoras para proteção de plantações contra pragas além de oferecer um gerenciamento de vegetação, sementes, características e biotecnologia para a agricultura, para contribuir com o aumento da produção de alimentos em meio ao crescimento da população mundial. A empresa é uma subsidiária integral da Dow Chemical, e no ano de 2010 teve vendas na ordem de US$4,9 milhões, o que representa cerca de 10% do total de vendas líquidas da Dow Chemical. O gráfico abaixo ilustra a evolução do volume de vendas da empresa do período de 2004 a 2010: Gráfico 6- Volume de Vendas Dow AgroSciences Fonte: Elaboração própria a partir dos relatórios anuais Como pode-se observar, a vendas aumentaram mais significativamente do período de 2007 a 2008, representando uma elevação de 8%. Tal fato pode ser explicado pelas condições favoráveis na agroindústria e por uma forte demanda por produtos provenientes da agricultura no ano de 2008. Em relação a 2009, o volume de vendas em 2010 teve um 37 aumento de 7%, o qual pode ser justificado pelo lançamento de uma nova tecnologia o SmartStax, pelo crescimento dos portfólios de milho, soja e algodão e as novas aquisições concretizadas neste ano. O gráfico abaixo retrata a rendimento bruto 5 da empresa de 2004 a 2010: Gráfico 7 – Rendimento Bruto Dow AgroSciences Fonte: Elaboração Própria a partir dos relatórios anuais da empresa. Observa-se que o rendimento bruto da Dow AgroSciences apresentou uma forte elevação de 2007 a 2008, que pode ser justificado pelo crescimento das vendas no período, pelo flutuação no mercado agrícola e pelo lançamento de novos produtos. Em contrapartida, houve uma perda significativa de rendimentos se considerarmos o ano de 2009 em relação a 2008. Tal fato pode ser explicado pelos custos elevado associados a valorização do estoque com base na redução dos preços das matérias-primas, quedas nos preços de glifosato e um aumento de P&D e de custos administrativos com o objetivo de apoiar as iniciativas de crescimento da empresa. A empresa possui uma série de joint ventures estratégicas que fortalecem a integração e propiciam o co-desenvolvimento de novas tecnologias. Possui também a estratégia de reforçar a presença em áreas geográficas emergentes- com o objetivo de atingir 35% da receita dessas regiões em 2012. O progresso irá acelerar a medida que implementam projetos na Tailândia, Arábia Saudita, Brasil e na China, que reforçam as subsidiárias e aumentam a apropriação de ativos no mundo emergente. 5 Ganhos antes de descontar jutos, impostos, depreciação e amortização 38 Sua história de formação teve início em 1989, com a DowElanco, uma joint-venture entre os negócios de ciências de plantas da Dow Chemical e Eli Lilly. A nova estratégia de atuação no setor de biotecnologia, culminou no pagamento de US$ 900 milhões para a participação de 40% na joint-venture de ciências agrárias da Eli Lilly, e posteriormente com a compra das ações marjoritárias desta e de uma pequena empresa denominada Mycogen, que atuava no segmento de sementes geneticamente modificadas para resistência a insetos. A nova propriedade da Dow Chemical, foi renomeada, então, como Dow AgroSciences. O objetivo principal de estabelecer uma subsidiária com foco em biotecnologia aplicada ao agronegócio é agregar valor para a empresa, em meio a novas oportunidades de crescimento que a biotecnologia oferece. Outro fator importante que explica em grande parte a nova atuação da empresa química na área de biotecnologia, foi a queda dos preços produtos químicos e plásticos - que incluem eteno, propeno, cloreto de vinil e uma série de outros itens usados na fabricação de produtos de consumo e industriais – e as dificuldades financeiras originadas com a crise asiática de 1998, o que levou a empresa a elaborar uma nova estratégia de recuperação e crescimento, mesmo que estas significassem uma mudança organizacional e estrutural, e elevados investimentos para alcançar as líderes na época – DuPont e Monsanto, que juntas gastavam US$10 milhões nas empresas de sementes que estavam experimentando a biotecnologia como forma de melhorarem seus resultados. Essa estratégia culminou em ações para o desenvolvimento de tecnologias próprias da empresa, bem como parcerias tecnológicas com outras empresas, instituições de pesquisa e universidades, incluindo joint ventures e aquisições, visando sempre o desenvolvimento de novos produtos que aumentassem sua participação no mercado e ao mesmo tempo oferecessem uma maior variedade para os agricultores. Fusões e Aquisições Em 2000 a Dow Chemical adquiriu Cargill Hybrid Seeds, uma subsidiária da Cargill e que produzia e vendia sementes de milho, soja, girassol, alfafa e sorgo nos Estados Unidos e Canadá. Esta aquisição complementou o objetivo da Dow AgroSciences de elevar seu valor através de fusões, aquisições alianças assim como os esforços próprios de desenvolvimento de novos produtos. http://search.proquest.com/news/docview/453407638/132A2736B1E170B83A3/40?accountid=8112 39 No mesmo ano a Dow AgroSciences reforçou sua presença no campo de sementes na América Latina com a aquisição da Empresa Brasileira de Sementes (EBS), localizada em São Paulo. A EBS, que era uma subsidiária integral da Zeneca Lambda, operava com uma infraestrutura estabelecida para a criação, desenvolvimento, produção e comercialização de sementes de milho e sorgo no Brasil. Comprou também a linha de produtos herbicidas Acetochlor da empresa Zeneca, que na época era o herbicida líder na utilização de agricultores para controlar gramíneas e ervas-daninhas de sementes de milhos de folhas largas e de outras culturas. As marcas que foram incorporadas à Dow AgroSciences, com a compra desta linha de produtos, foram a Surpass, FulTime, TopNotch, Trophy, Wenner, entre outras. Apesar do mercado para esta linha estar concentrado principalmente nos Estados Unidos, o produto era registrado e vendido na época em 32 países, incluindo países latino-americanos, europeus e africanos. A compra representou para a empresa uma extensão em seu portfólio de produtos para o cultivo do milho, aumentando sua competitividade frente aos grandes concorrentes, e estava atrelada a estratégia da empresa de crescimento de valor através de uma combinação de aquisições, alianças, pesquisa interna e esforços para desenvolvimento de produtos. Em 2001 a Dow AgroSciences pagou aproximadamente US$1 bilhão para obter os negócios de químicos voltados para a agricultura da Rohm & Haas, um grupo com especialidade em químicos. Como parte do negocio a Dow tem obtido lucros das unidades no Brasil, Colombia, França, Itália e Iowa nos Estados Unidos. Como resultado dessa aquisição, a Dow AgroSciences adquiriu no mesmo ano 50% dos ativos da RhoMid LLC, uma Joint-venture estabelecida entre a American Cyanamid Company e Rohm & Haas Company em 1995, e que posteriormente, no início dos anos 2000, teve seus ativos pertencentes a American Cyanamid adquiridos pela BASF. Os outros 50% continuaram sobre a posse da Rohm & Haas, que passou a propriedade da Dow AgroSciences, com a compra da empresa. A RohMid vendia na época o inseticida de graminias MACH 2, que em 1998 recebeu o Premio de química verde da Presidencia dos EUA. Essa aquisição visava suportar a estratégia da empresa de crescimento de rendimentos e de agregação de valor. A obtenção do nicho para o MACH 2 reforçou o portfolio da Dow AgroSciences em gramíneas e plantas ornamentais. Com a estratégia de expandir substancialmente os negócios de sementes de milho no Brasil e no mundo, a Dow AgroSciences adquiriu em 2007 a Agromen Tecnologia Ltda. O acordo incluiu toda a parte comercial, de produção e pesquisa e desenvolvimento http://search.proquest.com/news/docview/249077976/132A2AB2AC321871FA4/3?accountid=8112 40 da empresa brasileira, que possuía 35 anos de operação e uma base sólida de híbridos na agricultura do país. Além da empresa brasileira, a Dow AgroSciences adquiriu a Duo Maize, uma empresa estabelecida na Holanda, que possuía foco na maturação precoce de aplicações de silagem de germoplasma para climas nortenhos. A tecnologia tem melhorado e expandido a forte presença de mercado de silagem da Dow AgroSciences, e ao mesmo tempo colocou a empresa em um papel de player chave em aplicações de silagem na Europa. Em 2010, a empresa comprou a Hyland seeds, uma divisão da Thompsons Limited of Blenheim, a maior empresa de propriedade privada canadense com um programa de melhoramento de diversos cultivos. A empresa é conhecida internacionalmente pela liderança na indústria de híbridos de milho, soja, feijão e grãos de cereais. A Dow AgroSciences adquiriu a marca, e as áreas comercial, marketing, e administrativa da Hyland. A aquisição incluiu também germoplasma da empresa, os programas de P&D com três centros de pesquisa e desenvolvimento e de produção de milho. Em julho de 2011 a Dow adquiriu a Northwest Plant Breeding Company, com o objetivo de expandir seu portfolio de trigo. A adição dos ativos desta empresa proverá uma unidade de pesquisa, germnoplasma, algumas patentes ativas, e uma variedade de proteção de plantas a Dow AgroSciences. Entre outras aquisições estão a da Seeds Bredbeck, Agrogenetics, Triumph Seed Company, Dairyland Seed, Bio-plant, Südwestsaat e a Coodetec. Parcerias Tecnológicas e Joint-Ventures Entre as parcerias de pesquisa e comercialização da Dow com outras empresas e instituições de pesquisa, estão as estabelecidas com a Biosource Technologies Inc. e Illinois Foundation Seeds Inc. 6 em 1998. A aliança com a Biosource reforçou o esforço da Dow para encontrar e patentear novos genes que pudessem ser utilizados para produzir novas variedades de sementes. Já a parceria com a Illinois Foudantion permitiu o 6 A Illinois Foundation Seeds era o maior fornecedor mundial de sementes de milho doce híbrido Xtra- Sweet, no ano em que foi estabelecida a aliança com a Dow. Oferta germoplasma para as empresas de sementes comerciais. 41 desenvolvimento de novas variedades de milho e uma joint venture denominada Advanced AgriTraits. Esta parceria foi outro passo importante no desenvolvimento da DowAgroSciences e da Estratégia da Dow Chemical de usar a biotecnologia para aumentar os negócios agrícolas, que tem contribuído para o acesso a diversos genes e a uma variedade de culturas, inclusive a uma extensa biblioteca de medicamentos contra insetos protegidos por patentes. A empresa procura parceiros tecnológicos que desejam oferecer ou até mesmo obter acesso às tecnologias. Essas tecnologias incluem resistência contra insetos, herbicidas e Resistencia a doenças, modificação do conteúdo de oleaginosas e incorporação de qualidades nutricionais. No mesmo ano de 1998 a Dow AgroSciences e a Rhone-Poulenc Agro afirmaram uma aliança para conduzir pesquisas no campo de biotecnologia vegetal, com o objetivo de desenvolver plantas geneticamente modificadas e sementes com diversas características. A colaboração focou em seis tipos de sementes modificadas: milho, canola, soja, girassol, cana-de-açúcar e algodão. As sementes modificadas utilizaram genes desenvolvidos pela Dow AgroSciences, que proviam resistência contra insetos, e sequencias genéticas da Rhone-Poulenc Agro, que proviam tolerância a herbicidas, incluindo glifosato, bromoxinil e Isoxazóis. Em 2000 a Dow AgroSciences e a Cheminova, uma empresa dinamarquesa entraram em acordo para a formação de uma joint venture com o objetivo de registrar e comercializar um inseticida piretróide de alta eficácia. A nova empresa estabelecida em Zurique, na Suíça, Pytech Chemicals GmbH, tem desenvolvido produtos com eficácia superior com baixas taxas de aplicação. O novo inseticida foi inicialmente introduzido nas culturas agrícolas e tem como alvo insetos mastigadores e sugadores, um mercado que responde por 1,5 bilhões dólares EUA em vendas mundiais de piretróides a cada ano. Em 2003 a Dow AgroSciences Canada anunciou um acordo de pesquisa, visando desenvolver antígenos feitos de plantas para prevenir a doença auto-imune em mamíferos. A colaboração foi construída sobre a propriedade intelectual e “expertise” da Plantigen em imunidade utilizando proteínas mamarias derivas de plantas. A Dow AgroSciences entrou em dois acordos de pesquisa em 2005 com a Chlorogen, Inc. que levou a licenças comerciais para utilizar a tecnologia de transformação de cloroplastos (CTT) nos negócios de saúde animal e biotecnologia para a agricultura. Essa tecnologia é o único método de expressar genes externos em células de plantas. Enquanto os demais métodos envolvem a alocação de genes externos nos núcleos das 42 células, A CTT transforma o genoma de aproximadamente 100 cloroplastos dentro da própria célula. Cada cloroplasto contém aproximadamente 100 cópias de material genético, assim a quantidade de proteínas produzidas em uma única célula é aumentada exponencialmente. No mesmo ano a Dow AgroSciences e a MerLion Pharmaceuticals (MerLion Pharma), anunciaram um acordo de colaboração para a identificação de candidatos a novos agentes agroquímicos. A MerLion Pharma é uma empresa estabelecida em Cingapura que foca na descoberta e desenvolvimento de novas drogas provenientes de fontes naturais. A colaboração visava reunir a coleção de amostra de produtos naturais, químicos naturais e a expertise em bioprocessamento com a pesquisa da Dow AgroSciences. Esta poderosa combinação tem oferecido a empresa o acesso a uma diversidade química anteriormente inexplorada para a utilização de agroquímicos e a entrada da MerLion neste setor juntamente com seus negócios já existentes em descobertas de drogas para humanos. Recentemente em 2009 a Dow AgroSciences e a NemGenix, uma empresa australiana com foco em biotecnologia e financiada pelo ministério da educação da Austrália, estabeleceram um acordo de colaboração, através do apoio da Dow a uma série de pesquisadores em tempo integral nas instalações NemGenix em Perth, com o objetivo de obter novas tecnologias para produzir sementes resistentes a nematoides. Esses agentes causam cerca de US$15 bilhões de prejuízo mundialmente em plantações, com perdas superiores a 15% em alguns cultivos, como o da cana-de-açúcar. No mesmo ano de 2009, a Dow AgroSciences Canada Inc. e a National Research Council Plant Biotechnology Institute (NRC), um instituto de pesquisa canadense, renovaram um acordo de pesquisa para desenvolver tecnologias ligada ao cultivo de Canola. A primeira parceria das duas empresas estabelecida em 1999 levou a descobertas significantes, incluindo o desenvolvimento de plantas de Canola que produziam níveis mais altos de óleo e alimento com níveis reduzidos de fatores antinutricionais. O sucesso da aliança levou, então a sua renovação em 2004 e recentemente em 2009. A Dow estabeleceu uma aliança global com o Centro de Pesquisa Victoria também no ano de 2009. A parceria de pesquisa reforçou a posição da Victoria como líder em biotecnologia agrícola na Austrália, através da cooperação entre cientistas australianos e americanos com o objetivo de desenvolver novas características de plantas e novas variedades para agricultores em todo mundo. Um dos cultivos chave incluíam a canola, que possui a terceira maior plantação na Austrália e reforçou a plataforma de óleo de canola Omega-9. 43 Os acordos de licenciamento entre as empresas químicas com atuação no agronegócio também são de elevada significância na produção, desenvolvimento e comercialização de novas tecnologias para sementes e defensivos agrícolas. Em 1998 a Dow AgroScience obteve uma licença comercial para a tecnologia Zinc finger da Sangamo BioSciences. A licença permitiu à Dow comercializar produtos incorporados ou desenvolvidos a partir de células das plantas utilizando a tecnologia da Sagamo Zinc Finger de ligação de proteínas do DNA (ZFP), nas sementes, produtos industriais e biofarmacêuticos derivados de plantas. As duas empresas colaboraram na pesquisa para aplicar a ZFP nas plantas através uma pesquisa que durou três anos e uma licença comercial iniciada em 2005. A tecnologia ZFP é única porque permite uma modificação precisa de genes e é amplamente aplicável e extremamente adaptável. Com a “expertise” do time da Dow AgroSciences, a Sangamo BioSciences provou que a tecnologia fornece uma plataforma ampla e robusta para o desenvolvimento de novos alimentos, fibras e combustíveis. A aplicação da ZFP permite um melhoramento na qualidade dos alimentos e uma menor necessidade de utilização de terras, através do aumento de produtividade e levando a uma produção sustentável. Entre as características que podem ser geradas rapidamente e precisamente com a ZFP estão: (1) melhorias no teor nutricional de oleoginosas; (2) resistência a diversas pragas de insetos e doenças; (3) aprimoramento de eficiência fotossintética e (4) desenvolvimento de plantas especificas para a indústria de biocombustíveis. Em 2002, a Dow AgroSciences e a Monsanto entraram em acordo em diversas licenças de royalties e opções de produtos e tecnologias relacionados a proteção contra insetos no cultivo de milho e milho Roundup Ready, soja, algodão e canola. O acordo forneceu para a Dow licenças comerciais, não-exclusivas relacionadas à tecnologia Roundup Ready da Monsanto , assim como a proteção contra insetos YieldGard. Além disso, a Monsanto concedeu liberdade a Dow para operar sobre a propriedade intelectual da empresa relacionada à proteção contra insetos Herculex I da Dow e determinados produtos protegidos contra larvas de besouro que originam no milho, desenvolvidos pela Dow através do pagamento de royalties para a Monsanto. A Dow, por outro lado, concedeu a Monsanto uma licença não exclusiva de royalty para a proteção contra insetos Herculex I, na utilização para os negócios latino-americanos. Cerca de quarto anos depois, a Dow AgroSciences entrou em acordo com a Sumitomo Chemical para o co-desenvolvimento de um novo inseticida no Japão. Este inseticida, conhecido como S-1947, foi descoberto pela Dow e é muito efetivo contra 44 os lepidópteros, tripes e moscas-minadoras. Todas essas pragas são responsáveis por uma quantidade considerável de prejuízos todos os anos. Em 2010 a Dow AgroSciences e a Bayer CropScience entraram em acordos de licenças cruzadas em relação a tecnologias de algodão. A Dow recebeu da Bayer a licença para comercializar a tecnologia tolerante ao glifosato GlyTol 7 em suas variedades de sementes de algodão PhytoGen nos Estados Unidos e em países que obtivessem a aprovação regulatória para o GlyTol . Por outro lado, a Bayer CropScience recebeu a licença para comercializar a tecnologia de proteção contra insetos WideStrike 8 da Dow AgroSciences no Brasil e em outros países da América Latina, bem como em outros países que obtivessem a aprovação comercial para o evento WideStrike. Além disso, a Dow concedeu a Bayer a licença nos Estados Unidos de sua patente em algodão tolerante ao glifosato. No mesmo ano, a Dow AgroSciences anunciou a primeira venda comercial de híbridos de milho SmartStax na América do norte, tecnologia desenvolvida sob um acordo de P&D e de licenciamento cruzado entre a empresa e a Monsanto. As parcerias da empresa incluem também acordos de cooperação com universidades. Neste ano de 2011 a Dow AgroSciences entrou em acordo de pesquisa com a Oregon State University para aplicar a tecnologia de precisão EXZACT(TM) em árvores, com objetivo de acelerar e reforçar a pesquisa em melhorias de árvores. Essa tecnologia fornece um conjunto de ferramentas versáteis e abrangentes para a modificação do genoma alvo. Sua capacidade em adicionar, editar ou excluir eficientemente genes nos genomas de plantas complexas tornou a principal ferramenta para a engenharia precisa de multi-gene pilhas, edição de seqüências de genes nativos e perturbação gene alvo de uma grande variedade de plantas espécies. Essa nova pesquisa será aplicada EXZACT (TM) para pesquisa de ponta em melhoria de árvores, uma área crucial para a indústria madeireira. 7 Glytol é uma tecnologia desenvolvida pela Bayer CropScience que confere tolerância ao herbicida glifosato 8 WideStrike fornece a completa proteção da planta a insetos-pragas que se alimentam do algodoeiro. A tecnologia usa dois traços deinsetos resistentes que efetivamente controlam importantes pragas do algodoeiro, especialmente a lagarta (Spodoptera frugiperda), fumo budworm (Heliothis virescens), lagarta- rosada (Pectinophora gossypiella), e o curuquerê (Alabama argillacea), praga esta que pode causar uma perda de 30% na produtividade. http://search.proquest.com/news/docview/864197460/132A2736B1E170B83A3/32?accountid=8112 45 Outra parceria com universidade foi estabelecida com a Marshall University em 2002, a qual estava localizada exatamente ao lado do Centro Tecnológico da Dow no estado da Virgínia, EUA. O objetivo principal é elevar as atividades de pesquisa da empresa através do aproveitamento de capital humano gerado pela universidade. Além das parcerias tecnológicas também obteve alianças com a indústria de processamento e comercialização de alimentos, com o intuito de desenvolver sementes com traços de melhor qualidade através do feedback das empresas dessas indústrias. Atualmente, a Dow AgroSciences está colaborando com Donald Danforth Plant Science Center para estudar como a Tecnologia de Precisão EXZACT pode ajudar a melhorar o valor nutricional e resistência do vírus da mandioca nas colheitas para milhões de pessoas que vivem em países em desenvolvimento, particularmente na África. Está desenvolvendo também planos para um parque industrial integrado de escala mundial para fazer polietileno da cana-de-açúcar no Brasil. Produtos Entre seus produtos, estão as sementes AGROMEN; BRODBECK; CLINCHER; DAIRYLAND; MYCOGEN; NEXERA sementes de canola e de girassol; PHYTOGEN sementes de algodão; RENZE; TRIUMPH; os inseticidas DELEGATE; HERCULEX RW e HERCULEX XTRA; LORSBAN; TRACER e NATURALYTE controle contra insetos; WIDESTRIKE proteção contra insetos; os herbicidas GARLON; GLYPHOMAX; GRANITE; HERCULEX I; HERCULEX; LONTREL; MILESTONE; MUSTANG; SIMPLICITY; STARANE; TORDON; Dow AgroSciences SmartStax; e os fungicidas DITHANE; FORTRESS; LAREDO; e o gás fumigante PROFUME; o sistema de eliminação de colônias terminais SENTRICON; fumigante de solo TELONE; e o fumigante estrutural VIKANE. As tecnologias da empresa que mais têm se destacado segundo a Agrow Awards de 2009, uma premiação para as atividades de proteção de cultivos, são (1) Inseticida LORSBAN(A) Advanced, o primeiro composto orgânico de baixa volatilidade (VOC) de clorofila. Entre seus atributos estão a redução de despesas de manuseio, vantagens de armazenamento e melhoria do odor, tudo isso sem comprometer a eficácia da produção. (2) Proteção de cultivos Pyroxsulam, um novo herbicida para grama e controle de plantas daninhas de folha larga em cereais. No geral, o herbicida tem um perfil muito 46 favorável ambientalmente e baixa toxicidade. (3) EXZACT(TM) Precision Technology e (4) SPLAT-MAT(TM) Spinosad ME A seguir estão listadas as marcas ou serviços da DowAgroSciences LLC e as empresas afiliadas a ela: BRODBECK, CLINCHER, DAIRYLAND, DELEGATE, DITHANE, FORTRESS, GARLON, GLYPHOMAX, GRANITE, HERCULEX, KEYSTONE, LAREDO, LONTREL, LORSBAN, MILESTONE, MUSTANG, MYCOGEN, NEXERA, PHYTOGEN, PROFUME, Refuge Advanced, RENZE, SENTRICON, SIMPLICITY, STARANE, TELONE, TORDON, TRACER NATURALYTE, TRIUMPH, VIKANE, WIDESTRIKE A empresa no Brasil No Brasil, a empresa comercializa sementes convencionais e transgênicas para as culturas de algodão e milho, além de defensivos agrícolas que exercem um importante papel no controle de pragas, insetos e doenças de plantas que anualmente levam a elevados prejuízos nas lavouras. Em 2004 a empresa obteve a primeira licença do IBAMA para pesquisar em campo seu milho transgênico desenvolvido para ser resistente a mariposas e lagartas - consideradas pragas na agricultura -, em especial a lagarta do cartucho do milho. Em 2009 a Dow AgroSciences obteve autorização do Ministério da Agricultura para vender seu primeiro milho híbrido com o HERCULEX I, tecnologia de proteção contra insetos. Essa autorização incluiu os híbridos de milho 2B710HX, 2B688HX, 2B707HX, 2C520HX e 2A525HX. O HERCULEX protege a planta de milho contra a lagarta Spodoptora, a principal praga do milho no Brasil. Essa proteção é estendida para o ciclo de vida da planta. Ele também permite o controle de Diatraea saccharalis. Dependendo das condições de crescimento, essas pragas podem causar perdas de rendimento de mais de 40%. Com esta tecnologia, os produtores brasileiros tem se beneficiado com maior rendimento de grãos de melhor qualidade, e com uma ferramenta nova e eficaz para uso como parte de um sistema integrado de manejo de pragas. Em 2009 a Dow obteve também aprovação da Comissão técnica nacional de Biossegurança (CTNBio) para o WideStrike Tecnologia de proteção contra insetos no cultivo de algodão no Brasil. A tecnologia WideStrike usa duas características de insetos resistentes que controla efetivamente importantes pragas do algodoeiro, 47 especialmente a Spodoptera frugiperda, Heliothis virescens, Pectinophora gossypiella, e as pragas Alabama argillacea. Estudos realizados pela Dow AgroSciences e analisados pela CTNBio mostram que WideStrike não cria risco excessivo para os seres humanos ou para o meio ambiente. Além disso, o WideStrike contribui para uma agricultura mais sustentável porque controla a praga mais nociva às plantações de algodão. Antes de se tornar disponível no mercado brasileiro, esta tecnologia passou um testes rigorosos em varias regiões do país, além de serem testados em laboratórios. Em resumo, entre os produtos aprovados para a comercialização no Brasil, estão o WIDESTRIKE proteção contra insetos; O milho TC 1507 x NK603, classificado como Classe de Risco I, desenvolvido através de melhoramento genético clássico, por cruzamento sexual entre linhagens geneticamente modificadas contendo o evento TC 1507 e o evento NK603; e o milho Bt Cry1F 1507 2.2.3 Syngen