O sintoma da norma : paranoia, poder e a crise da autoridade simbólica
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Orientador
Coorientador
Pós-graduação
Psicologia - FCLAS
Curso de graduação
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Editor
Universidade Estadual Paulista (UNESP)
Tipo
Tese de doutorado
Direito de acesso
Acesso aberto

Resumo
Resumo (português)
Esta tese objetiva investigar em que sentido a paranoia constitui um sintoma da norma, isto é, uma formação produzida pelos dispositivos normativos da modernidade que, ao mesmo tempo, denuncia a crise da autoridade simbólica que os sustenta. Adota-se como referencial teórico o pensamento de Robert Castel, articulado às contribuições de Michel Foucault, Pierre Bourdieu e Georges Canguilhem, e como método a análise genealógica e histórico-crítica dos dispositivos normativos da psiquiatria, complementada pelo estudo de caso de Daniel Paul Schreber. Indicamos que a trajetória nosográfica da paranoia, de Krafft-Ebing e Kraepelin às sucessivas edições do CID e do DSM, privilegiou sistematicamente a forma do delírio em detrimento de seu conteúdo, permitindo à psiquiatria administrar o desvio sem interrogar as condições sociais e políticas que o produzem. O caso Schreber, por sua vez, evidencia que essa mesma paranoia pode funcionar como testemunho de crises históricas concretas de autoridade, disciplina e identidade. Constata-se, ainda, um risco simétrico na apropriação contemporânea do conceito pela tradição anglo-saxã, que ora o exporta para a política como instrumento de deslegitimação, ora o reimporta à clínica como escala estatística de risco, esvaziando-o de conteúdo de verdade em ambos os casos. Conclui-se, a partir da recuperação da phronesis aristotélica, da genealogia nietzschiana dos valores e da normatividade vital de Canguilhem, que a norma pode ser pensada não apenas como imposição externa ao sujeito, mas como capacidade de instituição que lhe é própria, e que a paranoia, lida sob essa luz, constitui não apenas sintoma de dominação, mas a denúncia a que todo dispositivo normativo busca não confrontar.
Resumo (inglês)
This thesis aims to investigate in what sense paranoia constitutes a symptom of the norm, that is, a formation produced by the normative apparatuses of modernity that, at the same time, denounces the crisis of symbolic authority sustaining them. The theoretical framework adopted is the thought of Robert Castel, articulated with the contributions of Michel Foucault, Pierre Bourdieu, and Georges Canguilhem, and the method employed is a genealogical and historical-critical analysis of psychiatry's normative apparatuses, complemented by the case study of Daniel Paul Schreber. We indicate that the nosographic trajectory of paranoia, from Krafft-Ebing and Kraepelin to the successive editions of the ICD and the DSM, systematically privileged the form of the delusion over its content, allowing psychiatry to administer deviance without interrogating the social and political conditions that produce it. The Schreber case, in turn, shows that this same paranoia can function as testimony to concrete historical crises of authority, discipline, and identity. We further note a symmetrical risk in the contemporary appropriation of the concept by the AngloAmerican tradition, which either exports it to politics as an instrument of delegitimization or reimports it into the clinic as a statistical risk scale, emptying it of truth-content in both cases. We conclude, drawing on the recovery of Aristotelian phronesis, the Nietzschean genealogy of values, and Canguilhem's vital normativity, that the norm can be understood not merely as an imposition external to the subject, but as an instituting capacity proper to it, and that paranoia, read in this light, constitutes not only a symptom of domination, but the very denunciation that every normative apparatus strives to avoid confronting.
Descrição
Idioma
Português



