Nós e a gente mora aqui: um estudo da produção linguística, crenças e atitudes sociolinguísticas em Monte Azul Paulista

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Data

2022-08-24

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Universidade Estadual Paulista (Unesp)

Resumo

Este trabalho estuda a alternância pronominal e a concordância verbal de 1ª pessoa do plural em Monte Azul Paulista- SP. Para tal, foram escolhidos dois bairros com características distintas. Um é o Itamaraty, com moradores de maior poder socioeconômico, o outro é o São Francisco, com moradores de menor poder aquisitivo. Interessou-nos investigar se essas diferenças refletiriam na produção linguística desses locais. Para isso, foi construída uma amostra de entrevistas sociolinguísticas com 28 informantes, 16 do São Francisco e 12 do Itamaraty, de diferentes faixas etárias, divididos entre homens e mulheres, com níveis de escolaridade distintos. Além da produção, também nos interessou as crenças e as atitudes sociolinguísticas que os alunos moradores do bairro São Francisco possuem a respeito das formas aqui estudadas. A partir disso, na produção, verificou-se que, em ambos os bairros, o uso da variante a gente + 3PS foi maior nos dois locais, tanto no Itamaraty (91%), como no São Francisco (69%), o que indica que essa forma não é avaliada negativamente. A ocorrência de nós+ 1PP no bairro Itamaraty foi de 9%, enquanto, no São Francisco, a ocorrência dessa forma foi de 20%. A ocorrência de nós + 3PS foi produzida apenas por moradores do bairro São Francisco (11%). Compreendemos então, que os dois bairros mostram uma tendência ao uso da variante a gente+ 3PS, em todos os contextos analisados, seja linguístico ou extralinguístico. A forma nós+ 1PP é favorecida pela 3ª faixa etária (60 anos ou mais) no bairro São Francisco. Quanto à relação dessa forma com o fator escolaridade, seu uso tem maior proporção conforme se avançam os anos de estudo. Já a variante nós+ 3PS é favorecida por moradores menos escolarizados e, também, da 3ª faixa etária. Para os fatores linguísticos, os contextos de saliência esdrúxula e verbos no pretérito imperfeito favorecem o uso das formas a gente+ 3PS e nós+ 3PS, visto que os falantes tendem a evitar o uso de proparoxítonas. Contextos de saliência máxima e verbos no pretérito perfeito são favorecedores da variante nós+ 1PP. Para o teste de crenças e atitudes sociolinguísticas, obtivemos a participação de 25 alunos, que cursavam o 9º ano do Ensino Fundamental. O teste de crenças mostrou que os alunos acreditam que a língua escrita é mais correta que a falada e que, para escrever bem, é necessário conhecer as regras gramaticais. 76% reconhecem que falam de um jeito mais descontraído quando estão com pessoas com quem possuem intimidade. 60% dos alunos acreditam que as pessoas de seu bairro falam errado e 64% dos alunos acham que exista uma forma correta de falar. Em relação às atitudes sociolinguísticas, percebemos que a variante a gente + 3PS não é avaliada negativamente, pois os alunos reconhecem seu uso em contextos formais e informais. Já os usos de nós + 3PS e a gente + 1PP foram relacionados a pessoas sem escolaridade. Quando os alunos foram perguntados sobre qual forma usariam para fatos já terminados e que acontecem todos os dias, o nós + 1PP foi favorecido por contextos com verbo no pretérito perfeito (53%), enquanto o a gente + 3PS emergiria preferencialmente em contextos com verbos no presente (50%).
This work studies the 1st person pronominal alternation with regard to verb agreement in Monte Azul Paulista- SP. To this end, two neighborhoods with distinct characteristics were chosen. One of them is the Itamaraty district, which has residents of greater socioeconomic power, the other district is São Francisco, which has residents of lower purchasing power. We were interested in investigating whether these differences would be reflected in the linguistic production of these places. For this, a sample of sociolinguistic interviews was built with 28 informants, 16 people from São Francisco, 12 people from Itamaraty, from different age groups, divided between men and women with different levels of education. In addition to production, we were also interested in identifying the sociolinguistic beliefs and attitudes that students who live in São Francisco district have regarding the forms studied in this work. From that, in production it was found in both neighborhoods the variant a gente+ 3PS was the most frequent in both locations, as far as Itamaraty and São Francisco, which indicates that this form is not negatively evaluated. The form nós + 1PP in the Itamaraty neighborhood occurred in 9% of the data, while in São Francisco this form corresponded to 20% of the uses. The form nós + 3PS was produced only by residents of São Francisco district (11%). We understand that both neighborhood show a tendency to use the variant a gente + 3PS in all these analyzed contexts, whether linguistic or extralinguistic. The nós + 1PP form is strengthened by the third age group (60 years and over) in São Francisco neighborhood. As for the relationship of this form with the education factor, its use has a greater extent as the years of study advance. The variant nós + 3PS, on the other hand, is favored by less educated residents and by the 3 rd age group. For linguistic factors, odd salience contexts and verbs in pretérito imperfeito favor the use of the forms a gente+ 3PS and us+ 3PS, since speakers tend to avoid the use of proparoxytones. Maximum salience contexts and verbs in the past tense are promoters of the we+ 1PP variant. For sociolinguistic beliefs and attitudes test, we obtained the engagement of 25 students who were in the nineth grade of elementary school. The belief test showed that students believe that written language is more correct than spoken language and, in order to write better, it is necessary to know the grammatical rules. 76% of students recognize that they speak in a more informal way when they talk to people they are familiar with. 60% of students believe that people in their neighborhood speak wrongly and 64% of students believe that there is a correct way of speaking. With regard to sociolinguistic attitudes, we noticed that the variant a gente + 3PS isn’t negatively evaluated, as students recognize its use in formal and informal contexts. While the uses of nós + 3PS and a gente + 1PP were related to people with no schooling. When students were asked which they would use for facts already completed and that happen every day, nós + 1PP was benefited by contexts with verbs in the present (53%), while a gente +3PS would emerge preferentially in contexts with verbs in the present tense.

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Palavras-chave

alternância pronominal de primeira pessoa, concordância verbal, crenças, atitudes sociolinguísticas, verb agreement, first person pronominal alternation, beliefs, sociolinguistic attitudes

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