Memórias de infâncias em narrativas dissidentes do sistema sexo/gênero : cartografando modos de existências na cidade de Jauru - Mato Grosso
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Data
Autores
Orientador
Souza, Leonardo Lemos de 

Coorientador
Pós-graduação
Psicologia - FCLAS
Curso de graduação
Título da Revista
ISSN da Revista
Título de Volume
Editor
Universidade Estadual Paulista (Unesp)
Tipo
Tese de doutorado
Direito de acesso
Acesso restrito
Resumo
Resumo (português)
A tese investiga como a colonialidade e a cisheteronormatividade estruturam as políticas de produção de subjetividades nas infâncias, especialmente nas trajetórias de crianças que, posteriormente, se reconhecem como LGBTI+. Analisa‑se como o regime colonial‑capitalístico molda percepções, afetos, sentidos e formas de existir, capturando o desejo desde cedo e orientando‑o para a manutenção das normas vigentes. A infância é examinada não apenas como uma etapa biográfica, mas como um estado vital atravessado pela inexperiência, pelo assombro e pela potência inventiva, estado esse progressivamente silenciado por dispositivos sociais voltados à formação de sujeitos ajustados ao ideal moderno de humanidade. A pesquisa adota a cartografia como método e constrói uma perspectiva fronteiriça e implicada, desde a proposição de conciencia mestiza, a qual implica em um entendimento da produção de subjetividade e de inteligibilidade no choque/entrecruzamento cultural, linguístico e político, articulando dimensões autobiográficas por meio da análise de autohistórias produzidas por três homens gays que viveram suas infâncias em um pequeno município do interior matogrossense na década de 1990. A partir desses relatos, reconstrói‑se o mapeamento dos fluxos de desejo, das violências cotidianas, dos processos de retração e afirmação, bem como das forças de captura e das linhas de fuga. Demonstra‑se como família, escola, igreja e comunidade operam como dispositivos que reforçam a cisheteronormatividade, disciplinam performances de gênero e organizam expectativas de futuro, produzindo vergonha, culpa e silenciamento como elementos centrais da experiência. A análise evidencia que cada trajetória comporta singularidades moduladas por raça, classe, religião, território e redes de apoio, o que inviabiliza a noção de uma narrativa universal de “infância gay”. Ainda assim, identificam‑se padrões recorrentes, tais como o silenciamento, o retraimento do desejo, a persistente sensação de inadequação e a presença de pedagogias morais que associam a dissidência à falha, ao pecado ou ao desvio. Paralelamente, o estudo revela a existência de linhas de fuga que possibilitam a construção de territórios próprios de sobrevivência — como amizades, espaços de expressão artística ou percursos intelectuais — capazes de reativar o desejo e engendrar outras formas de viver. A tese sustenta, por fim, que o desejo atua como força produtiva e que, mesmo sob captura, insiste em criar. Evidencia‑se que a violência não esgota a vida, uma vez que processos de resistência emergem no confronto entre formas herdadas e forças que demandam passagem. Afirma‑se, assim, que a infância dissidente, embora marcada pela ferida colonial, produz invenções, deslocamentos e mundos possíveis. O trabalho propõe que políticas de cuidado, educação e pesquisa passem a reconhecer a infância como potência, e não como problema a ser corrigido, defendendo que as experiências das infâncias dissidentes constituem saberes situados capazes de orientar práticas que rompam com a naturalização da cisheteronormatividade e ampliem as condições de vida de crianças que escapam da norma.
Resumo (inglês)
The thesis investigates how coloniality and cisheteronormativity structure the politics of subjectivation in childhood, especially along the trajectories of children who later come to recognize themselves as LGBTI+. It examines how the colonial-capitalist regime shapes perceptions, affects, meanings, and ways of existing, capturing desire early on and channeling it toward the maintenance of prevailing norms. Childhood is approached not only as a biographical stage but as a vital state traversed by inexperience, wonder, and inventive potency—a state progressively silenced by social dispositifs geared toward forming subjects adjusted to the modern ideal of humanity. The study adopts cartography as a method and builds a border-based and implicated perspective grounded in the proposition of la conciencia mentiza, which entails understanding how subjectivity and intelligibility are produced through cultural, linguistic, and political collision/entanglement. It articulates autobiographical dimensions through an analysis of self-histories produced by three gay men who lived their childhoods in a small municipality in the interior of Mato Grosso during the 1990s. From these accounts, the thesis reconstructs a mapping of desire’s flows, everyday violences, processes of withdrawal and affirmation, as well as forces of capture and lines of flight. It demonstrates how family, school, church, and community operate as dispositifs that reinforce cisheteronormativity, discipline gender performances, and organize expectations of the future, producing shame, guilt, and silencing as central elements of experience. The analysis shows that each trajectory contains singularities modulated by race, class, religion, territory, and support networks, which makes untenable the notion of a universal narrative of “gay childhood.” Even so, recurring patterns are identified, such as silencing, the withdrawal of desire, a persistent sense of inadequacy, and the presence of moral pedagogies that associate dissidence with failure, sin, or deviance. In parallel, the study reveals lines of flight that enable the construction of one’s own territories of survival—such as friendships, spaces for artistic expression, or intellectual pathways—capable of reactivating desire and engendering other ways of living. Finally, the thesis argues that desire operates as a productive force and that, even under capture, it persists in creating. It shows that violence does not exhaust life, since processes of resistance emerge in the confrontation between inherited forms and forces that demand passage. It thus affirms that dissident childhood, although marked by the colonial wound, produces inventions, displacements, and possible worlds. The work proposes that policies of care, education, and research come to recognize childhood as potency rather than as a problem to be corrected, arguing that the experiences of dissident childhoods constitute situated knowledges capable of guiding practices that break with the naturalization of cisheteronormativity and expand the conditions of life for children who escape the norm.
Descrição
Palavras-chave
Infâncias dissidentes, Cisheteronormatividade, Colonialidade, Processos de subjetivação, Micropolíticas do desejo, Psicologia social
Idioma
Português
Citação
ANDRADE, Hugo Higino Perez de. Memórias de infâncias em narrativas dissidentes do sistema sexo/gênero: cartografando modos de existências na cidade de Jauru Mato Grosso. 2026. 205 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras, Assis, 2025.


